Click here to load reader

determinacao versus

  • View
    218

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of determinacao versus

CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA
DDEETTEERRMMIINNAAÇÇÃÃOO VVEERRSSUUSS SSUUBB J JEETTIIVVIIDDAADDEE:: 
AAPPRROOPPRRIIAAÇÇÃÃOO EE UULLTTRRAAPPAASSSSAAGGEEMM DDOO EESSTTRRUUTTUURRAALLIISSMMOO 
PELA PSICANÁLISE LACANIANA 
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA
DETERMINAÇÃO VERSUS SUBJETIVIDADE: 
PELA PSICANÁLISE LACANIANA 
LÉA SILVEIRA SALES 
como parte dos requisitos para a obtenção do título
de Doutora em Filosofia.
São Carlos
S163dv Sales, Léa Silveira.
347 f.
1. Psicanálise e filosofia. 2. Lacan, Jacques, 1901-1981. Estruturalismo. 3. Sujeito. I. Título.
CDD: 100 (20 a )
8/16/2019 determinacao versus subjetividade.pdf
com quem tive o privilégio de conhecer
o sentido, o mais pleno, da palavra
"formação".
AGRADECIMENTOS
 Ao Prof. Richard Simanke, que, com o brilhantismo que lhe é próprio, orientou minhas pesquisas desde o ingresso no mestrado. Já se vão mais de sete anos de trabalho, os quais
produziram em mim um sentimento de profunda admiração e respeito.
 Ao Prof. Bento Prado Jr. ( in memoriam  ), pela generosidade de sua presença e pela confiança.  À Profa. Silene Torres Marques, pela oportunidade de uma convivência que já não é mais
apenas de interlocução, mas de sincero afeto.
 Aos demais professores do Departamento de Filosofia da UFSCar.
Um agradecimento especial à Profa. Monique David-Ménard cujo acolhimento durante estágio na Université Paris 7  foi muito mais gentil do que qualquer estudante estrangeiro poderia esperar.
 Também pelas preciosas sugestões quando do trabalho de co-orientação.
 Agradeço ao professores das bancas de qualificação e defesa – João José R. Lima de Almeida,  José Eduardo Marques Baioni, José F. Miguel Henriques Bairrão e Vladimir Pinheiro Safatle –,
que aceitaram discutir meu trabalho, pelo que muito me sinto honrada.
 Aos secretários: Rose, Suely, Cleuza, Robson e Fábio.
 À CAPES , pelo financiamento da pesquisa.
 A todos que me ajudaram com o acesso à bibliografia (especialmente, Fábio Landa, Gilson Iannini, Matheus Hidalgo e Suely Aires).
 Aos amigos Fabíola Izaias, Ronaldo Salgado, Márcia Vidal, Raquel Jales e Ronald e aos tios Fernando e Wilma.
Sou muito grata a meus pais (Socorro e Raimundo) e sogros (Francimeire e José  Walter). Sem seu apoio incondicional, esse trabalho não teria sido possível.
 Aos demais familiares – Lucas, Thiago, Kennedy, Karine, Walter – e especialmente às minhas irmãs, Lia e Fillipa, pela escuta e pelas leituras e sugestões.
 Ao meu companheiro, Alessandro, luz da minha vida. Você conhece a dor e a delícia de cada passo
desse trajeto e eu sei que não teria conseguido atravessá-lo se você não estivesse a meu lado. O longo caminho de pesquisa reclamado por uma tese de doutorado muitas vezes nos oferece, seja
a pretexto da discussão de um problema teórico, da freqüência às aulas ou da participação em um congresso, a ocasião, não exatamente de construir uma verdadeira amizade, mas de reconhecê-la .
Considero-me alguém de sorte nesse sentido e deixo aqui o testemunho de minha gratidão por todos os queridos colegas que dividiram e multiplicaram comigo esta aventura. Talvez vocês
desconheçam o quão importantes foram para mim suas palavras de incentivo e carinho.
 Agradeço pela convivência, em alguns casos esporádica, noutros mais contínua, mas sempre amigável, afetuosa e intelectualmente estimulante, de: Marília Pizani, Emmanuel Melo, Maria
Nakasu, Péricles de Sousa, Sônia Russo, André Carone, Stephan Krastanov, Luciana Furlanetto, Milena Viana, Regiane Collares, Jimena Menéndez, Clóvis Zanetti, Alex Jardim, Olivier Dione,
Suely Aires, Waldir Maier, Marcos Piovesan e Hiro Torres.
 Todas essas trocas atravessam – mecanismo secreto – as linhas que se seguem.
8/16/2019 determinacao versus subjetividade.pdf
É comum encontrarmos na bibliografia relativa tanto à psicanálise lacaniana quanto à
história das idéias na França da segunda metade do século XX a indicação de Jacques
Lacan como uma das figuras mais representativas de uma certa forma de pensar que se convencionou chamar, retroativamente, de "estruturalismo" e que teve uma de suas
origens nas investigações e propostas antropológicas de Claude Lévi-Strauss. A
presente pesquisa busca, em um primeiro momento, analisar, além da pertinência de tal
indicação, as linhas de força e o movimento teórico mais profundo nela envolvidos.
Dito de outro modo, ela levanta inicialmente a seguinte questão: se Lacan de fato sofreu
sobremaneira a influência da antropologia estrutural, a que, exatamente, isso pode ser
creditado? A quais inquietações teóricas a referência à estrutura é suposta responder em
psicanálise? Como ela se inseriu em uma démarche que já havia tomado alguma forma no seio de projetos direcionados à psiquiatria e à psicologia? Em seguida, o trabalho se
volta para as tarefas herdadas com esse diálogo, procurando analisar as redescrições
lacanianas de processos próprios à psicanálise (Édipo, psicose e desejo, por exemplo),
bem como algumas indagações filosóficas que delas se depreendem, tais como as
concepções de verdade e realidade e o problema da presença de uma ontologia. A
continuidade da investigação se impôs com os resultados até aí obtidos. Pois dialogar
com a estrutura exige da psicanálise que o faz a colocação da pergunta pelo sujeito. Sua
formulação, já célebre, traz os seguintes termos: uma vez tenha-se assumido que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, o que pode ser o sujeito? É a
confrontação – até as últimas conseqüências – com essa questão que, por sua vez,
constrange o psicanalista a encaminhar uma certa ultrapassagem da estrutura que,
naturalmente, não corresponde a seu abandono, mas à sua abertura, então expressa na
noção de significante de uma falta no Outro. Ver-se-á em que sentido o surgimento, na
teoria, do objeto a  – operador central da psicanálise lacaniana – não é alheio a tal
percurso.
RÉSUMÉ
Dans la bibliographie concernant la psychanalyse lacanienne aussi bien que dans celle
de l'histoire des idées en France dans la seconde moitié du XXème siècle, on trouve
souvent l'indication de Jacques Lacan comme l’une des figures les plus représentatives
d'une certaine forme de penser que l'on a rétroactivement convenu de nommer
"structuralisme" et dont les origines remontent aux recherches et propositions
anthropologiques de Claude Lévi-Strauss. Tout d'abord, cette recherche essaie
d'analyser non pas seulement la pertinence d'une telle indication, mais également les
lignes de force et le mouvement théorique plus profond qui y sont impliqués. Autrement
dit, elle pose initialement la question suivante: si Lacan a en effet subi une forte
influence de l'anthropologie structurelle, à quoi, exactement, cela peut-il être imputé?
Au champ psychanalytique, quelles sont les inquiétudes théoriques auxquelles la
référence à la structure est supposée répondre? Comment a-t-elle été introduite dans une
démarche qui avait déjà pris forme au sein de projets orientés vers la psychiatrie et la
psychologie? Puis, le travail se tourne vers les tâches héritées de ce dialogue: il faut
analyser les redescriptions lacaniennes de processus propres à la psychanalyse (Œdipe,
psychose et désir, par exemple), ainsi que quelques thèmes philosophiques qui y sont
liés, tels que les conceptions de vérité et de réalité et le problème de la présence d'une
ontologie. La continuité de la recherche s'est imposée de par les résultats obtenus
 jusqu’alors. Car dialoguer avec la structure exige, de la psychanalyse qui le fait, la
rénovation de la pensée sur le sujet. La manière, déjà bien connue, dont elle s'en
interroge apporte les termes suivants: dès que l'on assume que l'inconscient est structuré
comme un langage, qu'est-ce que le sujet? C'est la confrontation – jusqu'aux dernières
conséquences – à cette question qui, à son tour, contraint le psychanalyste à s’acheminer
vers un certain dépassement de la structure qui, naturellement, ne correspond pas à son
abandon, mais à son ouverture, alors exprimée dans la notion de signifiant d'un manque
dans l'Autre. On verra dans quel sens le surgissement, dans la théorie, de l'objet a  –
opérateur central de la psychanalyse lacanienne – n'est pas étranger à un tel parcours.
8/16/2019 determinacao versus subjetividade.pdf
1O. CAPÍTULO
ESTRUTURALISMO: TERMOS DA APROXIMAÇÃO  14 1.1.  O percurso anterior de Lacan e por que ele chega
ao estruturalismo 15 1.2.  Características do estruturalismo que favoreceram
a aproximação 42 1.3. Estrutura X sujeito: novos destinos do impasse 90 1.4. Estruturalista? 95 1.5. Continuidade da pesquisa 101
2O. CAPÍTULO  INFLEXÕES DA ESTRUTURA NA PSICANÁLISE 103
2.1.  Como o Curso de lingüística geral aparece em Lacan 104 2.2.  Posição do Seminário 2  115 2.3. Ponto de vacilação da fala 117 2.4. Modos de articulação da estrutura 119 2.5. Realidade 120 2.6. Verdade 122 2.7. Crítica da compreensão e dissociação entre
conhecimento e verdade 130
2.8.  
Valor transcendental do sistema simbólico 1382.9.  Ontologização do significante? 141 2.10.  Rumo ao dispositivo específico da psicose: três negações 148 2.11.  Dispositivo específico da psicose: Verwerfung 157 2.12.  Consistência do Édipo: símbolos zero para o desejo 170 2.13.  Desejo de nada 180 2.14.  As leis da linguagem são as leis do inconsciente 196 2.15.  Problematização da lingüística 198 2.16.  Níveis de valor da linguagem 201 2.17.  Tipos de relação entre linguagem e inconsciente 204 2.18.  Necessidade do traço unário como operador da negação 207
3O. CAPÍTULO  SUJEITO a  214
3.1. O problema 215 3.2. Uma manobra cartesiana deslocada 227 3.3. Esse sujeito garantido pelo cogito, o que é? 248
3.3.1. Negatividade pura 251 3.3.2. Quando o corpo volta à cena 272
3.4. Desvios da relação a si 284
8/16/2019 determinacao versus subjetividade.pdf
  12
Em 1953, Lacan proclama um "retorno a Freud" e faz disso uma espécie de
 bandeira de seu ensino. Ler os textos que desenvolvem essa sua hipótese interpretativa
nos conduz diretamente à demarcação de um conceito de inconsciente  muito
específico, de claro acento lévi-straussiano. A seu lado, a teoria oferece um trato
detalhado à noção de significante cujas origens, como é sabido, remontam, via
etnologia, à lingüística tal como configurada por Saussure. Daí por diante (ao menos até
1964), é o debater-se com a estrutura que mais dá a ver os impasses pelos quais a teoria
lacaniana se desenvolve. Objetivamente, a presente pesquisa se propõe investigar os
termos do diálogo que então se estabelece: as motivações de base que o fomentaram, as
ressignificações exigidas, os problemas herdados com a aproximação, os caminhos
assumidos na tentativa de equacioná-los. Nesse sentido, ela nasce das seguintes
indagações: qual o peso e a significação da palavra "estrutura" na obra de Lacan? é
 possível dizer que ele foi um autor estruturalista? em caso positivo, isso sofre algum
tipo de restrição cronológica? o que realmente queremos dizer quando fazemos seu
nome ser acompanhado desse adjetivo? o que significa recorrer à estrutura na lida com
temas psicanalíticos? o que ela tem a dizer sobre o desejo e sobre o sujeito?
Sem dúvida, temos aí questões que não podem ser respondidas de modo
 precipitado. A começar pelo fato de que as respostas devem ser afinadas à disposição
das diretrizes presentes no pensamento de Lacan antes da ligação com a estrutura. Sim,
 porque, se semelhante recurso é estabelecido, certamente isso é feito na medida em que
nele se depositam apostas epistemológicas previamente desenhadas.
Assim advertidos, o primeiro capítulo apresenta o problema da inserção de
Lacan no estruturalismo: o contexto anterior ao diálogo, os motivos da aproximação, as
conseqüências no arranjo da teoria e os impasses gerados que guiarão seu movimento.
Busca ainda, à luz do trajeto até aí percorrido, discutir a questão da atribuição da
adjetivação "estruturalista". O passo subseqüente será investigar o uso da estrutura na
interpretação da psicanálise: o modo como Saussure aparece em Lacan e os motivos
epistemológicos do caráter peculiar dessa apropriação; o que o instrumento lhe permite
 pensar – especialmente com relação à interseção entre fala e linguagem, aos níveis de
relação estabelecidos entre esta e o inconsciente, ao Édipo como estruturação do sujeito,
ao desejo como função pura e à construção de um modelo explicativo exclusivo da
 psicose –; as conseqüências impostas à natureza do significante e a especificação das
noções interrelacionadas  de realidade e de verdade. Por fim, no terceiro capítulo,
8/16/2019 determinacao versus subjetividade.pdf
  13
veremos que a aquisição desse aparato conceitual reclama uma noção muito particular
de sujeito que, por seu turno, lança reformulações em seus correlatos uma vez que a
relação a si será tomada como relação de desvio pelo Outro e pelo objeto, exigindo – no
seio de uma sobreposição entre as temáticas do transcendental e da transcendência –
uma nova noção de estrutura, agora solidária de um certo retorno ao sensível como
contrapartida da formalização da função pura.
De saída, é possível perceber nesse traçado geral que a metodologia adotada
vai se valer, em certa medida, de um encaminhamento cronológico. O leitor não
encontrará aqui, no entanto, um movimento linear. A tessitura do comentário seguirá,
antes, o tempo do desenvolvimento dos impasses, o qual, supomos, de fato demanda um
horizonte diacrônico, desde que relativizado, subsumido à questão propriamente conceitual.
Desnecessário dizer da preocupação em ouvir o texto e deixá-lo reverberar
antes de lhe sobrepor apressadamente nossas hipóteses de leitura. Isso que, no limite, é
um objetivo apenas ideal em qualquer trabalho de comentário, em se tratando de Lacan
 – cujo estilo luta, propositalmente, contra o ideal de compreensão – torna-se uma
impossibilidade de partida. Nada mais distante do espírito de sua obra do que a ilusão
de uma leitor desprovido de pré-conceitos (ele seria desprovido de desejo!) em busca da "verdadeira verdade" do dito. Antes de ser ingênua, tal atitude seria anti-lacaniana.
Apesar disso, estivemos atentos – se com sucesso, caberá ao leitor julgar – à
necessidade de acossar não apenas os argumentos de Lacan, mas também os nossos.
É possível que a presença abundante de bibliografia secundária salte aos
olhos, ao que cabe um breve esclarecimento. A interlocução com os comentadores, além
de iluminar pontos de concordância, não raro funcionou para nós como uma espécie de
espelho, revelando, por inversão, o posicionamento de nossa própria leitura. "Pensar com" é também "pensar contra"... Discutir uma posição da qual discordamos é um
exercício capaz de esclarecer bastante, a contrario sensu, as curvas de nosso próprio
encaminhamento, dando a ver o eixo trilhado por sua coerência na tarefa de acompanhar
os textos do autor eleito. (E, afinal, não é do Outro que surge nossa capacidade de dizer
"eu"?)
STRUTURALISMO: TERMOS DA APROXIMAÇÃO
O próprio dos impasses é justamente que eles são fecundos. Lacan – Seminário 6, Sessão 6 
EE 
16
realismo, o individualismo e o reducionismo. Suas origens certamente remontam à
leitura e adesão à crítica (nos dois sentidos da palavra, negativo – de acusação dos
 princípios presentes na tradição – e positivo – de preparação de um campo validado)
que Politzer endereçara à psicologia clássica4. Pensar a psicose como fenômeno total,
revitalizando a categoria “sujeito” sob categorias de objetividade a partir de seu meio
concreto era a única perspectiva reputada apropriada para tratar cientificamente a
 personalidade. Em sua tese de doutorado – Da psicose paranóica em suas relações com
a personalidade  (1932) –, o mecanismo que disparava a experiência paranóica era
estruturado em torno de três áreas: o desenvolvimento biográfico, a concepção de si e a
tensão das relações sociais (Lacan, 1932/1987, p. 46); esta última representando o ponto
de convergência da causalidade e carregando ainda a função de fornecer a
especificidade do meio próprio do homem. Trata-se de uma teoria da “gênese social da
 personalidade”5  à qual certos dados objetivos conferem a unidade de um
"desenvolvimento regular e compreensível"6. Lacan, nessa época um entusiasta leitor da
 Ética de Espinosa, a vê como o resultado de um paralelismo, não entre as idéias e as
coisas, mas entre o fato particular e o fato social; este, o vetor de conformação do
fenômeno humano:
“Oposto a todo paralelismo substancial, que se coloca problemas de
conveniência ou de concordância entre séries independentes
eventualmente paralelas (as idéias e os corpos), Lacan pensa a
 personalidade como um aspecto particular (ou um atributo) de uma só e
única substância que é a existência do indivíduo enquanto existência
social (...).” (Ogilvie, 1987/1991, p. 66-7)
Tal paralelismo é o meio de viabilização de uma preocupação ao mesmo
tempo científica (a busca do determinismo da personalidade), epistemológica (o objeto
abordado é fenômeno de cognição) e ética (a valorização das implicações recíprocas
4 “Objetivismo ou realismo (substancialismo, poderíamos acrescentar), tal é o pecado original da tradição da filosofia, que se desdobra nos pecados complementares da  abstração  e do  formalismo.” (Prado Jr., 1990b, p. 22) Sobre Politzer cf. ainda Roudinesco (1986/1988) pp. 72- 82. Sobre a relação entre Politzer e Lacan, cf. Macey (1988) pp. 100, 101 e  passim, Gabbi Jr. (1998) pp. XXIII-XXVIII e Simanke (2002) pp. 163-186. 5  Lacan, 1932/1987, p. 31: “Essa gênese social da personalidade explica o caráter de alta tensão que assumem, no desenvolvimento pessoal, as relações humanas e as situações vitais que fazem parte delas. Ela fornece, muito provavelmente, a chave da verdadeira natureza das 
relações de compreensão.”  6 Lacan, 1932/1987, p. 28.
8/16/2019 determinacao versus subjetividade.pdf
18
determinismo  social  dê lugar a uma incompatibilidade com o social   senão assentindo
que esse descompasso se deve à especificidade da resposta subjetiva? Assim, o sujeito
não é visto como um mero resultado de um arranjo de influências8, mas dotado de uma
“estrutura reacional”.
O principal instrumento para a elaboração dessa dinâmica entre ambiente
determinante e estrutura reacional são os trabalhos de von Uexküll com as noções de
Umwelt  e de círculo funcional ( Funktionkreis), ou seja, a idéia de que o organismo vivo
não se relaciona com um mundo suposto objetivo e dado de modo homogêneo a todas
as espécies, mas com um mundo próprio que se constitui a partir das estruturas de
relação de cada organismo: “(...) o meio eficaz na determinação do comportamento é
visto como estruturado e organizado a partir do próprio organismo que constitui o seu centro; não é um dado bruto que possa ser invocado como instância última de uma
causalidade grosseiramente material.” (Simanke, 1994a, p. 154) O que Lacan pretende
fazer em sua tese é estipular como se caracteriza o Umwelt  do homem para salvaguardar
tanto um tipo homogêneo de determinação do indivíduo quanto a especificidade do fato
 psíquico, do mesmo modo que, em sua área, von Uexküll buscava salvaguardar a
especificidade do fato vital. Para isso, situa a cultura no lugar que o biólogo reservava à
natureza. Dizer, então, que esse fator consiste no social como determinante significa
situar o psíquico no concreto e no total. O problema é que Lacan, ao afirmar, a partir de
Uexküll, que o meio próprio do homem é o meio social na mesma proporção em que
toma esse social como instância de determinação do indivíduo, produz uma explicação
claramente circular que pode ser assim apresentada: um meio determinado pelas
características próprias do organismo mas que o determina como ordem transcendente.
Tal circularidade engendrou uma conseqüência igualmente indesejável, qual
seja, o ponto específico no deslanchamento da psicose encontrava-se acuado justamente
 para a face do esquema mais em desacordo com um ideal de cientificidade: o ponto de
vista do particular sob a forma do mundo psíquico do sujeito. Diante da indiferenciação
de partida entre psicose e personalidade – o sistema de reação define tanto a
normalidade quanto a patologia, com a única diferença de que o comportamento gerado
8  Lacan critica as posições extremadas da psicologia científica, “(...) em que o sujeito não é
mais  nada  a não ser o lugar   de uma sucessão de sensações, de desejos e de imagens.”  (1932/1987, p. 24)
8/16/2019 determinacao versus subjetividade.pdf
 pela afecção psicótica encontra-se desprovido do assentimento social9 –, a teoria exigia
que se estipulasse, para o caso patológico, a presença de acontecimentos pontuais, o
andamento de reações singulares, os quais, apesar de entrevistos através do crivo do
conceito politzeriano de “drama” – portanto, inseridos em um referencial materialista,
concreto e determinista – acabavam por impedir que tal enquadramento chegasse a
 prover uma generalização do modelo e, por conseguinte, não conseguiam propor, em
oposição ao que nesse ponto tendia a ser bem sucedido o organicismo10, um mecanismo
específico que deflagrasse na personalidade a psicose. Por esse motivo, a despeito de
exaurir os elementos envolvidos, a descrição do caso Aimée não providencia a forma
generalizada da paranóia que explicaria o fenômeno e que seria aplicável a outros casos,
no que o esforço de fundamentar a explicação na compreensão acaba apenas
reproduzindo a oposição…

Search related