Afogamento - Procedimentos

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Afogamento

CAPTULO 20AFOGAMENTO

1. Definio grande a confuso da definio do termo afogamento na lngua inglesa. O uso do termo near-drowning traduzido como quase-afogamento ainda hoje erradamente utilizado e significam afogados que no falecem at 24 h aps o incidente e o termo drowning as vtimas que falecem em at 24 h. Esta nomenclatura subestima o nmero total de bitos por afogamento nos pases da lngua Inglesa resultando em um grande erro no perfil epidemiolgico. Vrios autores demonstraram sua preocupao quanto a esta definio imprecisa em uso, mostrando que ela esta em desacordo com os parmetros prognsticos internacionais definidos em Utstein-style. Em Agosto de 2000, com a edio dos novos Guidelines da American Heart Association aprovados pelo ILCOR , e com a realizao do Congresso Mundial de Afogamento em 2002 realizado na Holanda, o termo quase-afogamento caiu definitivamente em desuso. Apresentamos abaixo a nova definio de afogamento.Esta informao ajuda no diagnstico e na terapia corretos.

Afogamento (Drowning): aspirao de lquido no corporal por submerso ou imerso. Resgate: Pessoa resgatada da gua sem sinais de aspirao lquida. J Cadver: morte por afogamento sem chances de iniciar ressuscitao, comprovada por tempo de submerso maior que 1 hora ou sinais evidentes de morte a mais de 1 hora : rigidez cadavrica, livores, ou decomposio corporal.

2. Epidemiologia A cada ano mais de 500.000 pessoas falecem em decorrncia de afogamento em todo mundo. No Brasil o afogamento representa a 2 causa mortis na faixa etria de 5 a 14 anos. Anualmente 7.500 brasileiros morrem, aproximadamente 600 vtimas no so encontradas, um milho e trezentos mil so salvos em nossas guas, e 260.000 so hospitalizados, vtimas de afogamento. Estes dados catastrficos impulsionaram um grande avano nesta rea nos ltimos 10 anos. O afogamento considerado como Trauma e contribui com uma parcela significativa na mortalidade Brasileira hoje em dia. O afogamento est em sua grande maioria relacionado ao lazer familiar e geralmente testemunhado por ela, ou menos freqentemente se insere em seu contexto. Situa-

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Manual do Atendimento Pr-Hospitalar SIATE /CBPR es de catstrofe familiar podem ser observadas quando famlias inteiras se afogam juntos, por desconhecimento, ou pela tentativa infrutfera de salvar uns aos outros. Vrias so as causas que levam ao acidente de submerso: o indivduo que no sabe nadar e subitamente se v sem apoio e cai num buraco, o nadador que cansa ou tem cibras, o indivduo cardiopata que tem infarto, o uso de lcool antes de entrar na gua, o epiltico que tem crise convulsiva na gua e o mergulho em gua rasa.

3. Histria do Afogamento Dentre as causas externas, o afogamento foi sem dvida um dos primeiros a causar preocupaes e chamar a ateno da humanidade, tendo vrias passagens bblicas onde se descrevem as primeiras tentativas de ressuscitao em afogados. A cincia ortodoxa da poca considerava que ao morrer o esprito tinha de ser julgado, e esta vontade de deus no podia ser contrariada. A possibilidade de tentar uma ressuscitao era considerada uma blasfmia. Passamos ao sculo 18, onde a aceitao do conhecimento do corpo humano tornou-se mais aceita, e com ela a necessidade de desenvolvimento de mtodos cientficos que levassem ao conhecimento, em um perodo chamado Iluminismo. Os quatro principais componentes da ressuscitao (respirao, compresso-circulao, fenmeno eltrico e servios de emergncia) comearam a ser conhecidos e desenvolvidos. O homem tentava restaurar o calor e a vida ao corpo frio e inerte, aplicando objetos quentes sobre o abdome ou chicoteando-o com urtiga ou outros instrumentos. Nos perodos compreendidos entre, o sculo 18 e o sculo 20, diversos mtodos manuais de reanimao foram utilizados, alguns at como rituais. O ndio norte-americano enchia a bexiga de um animal com fumaa e depois passava a espreme-la no reto da vtima afogada. Os mtodos de ressuscitao na sua maioria visavam inflar ou desinflar os pulmes, manipulando o trax e/ou o abdome da vtima. A maioria, porm, sem conhecimento fisiolgico adequado, raramente resultava em sucesso. Uma das primeiras citaes cientficas sobre a utilizao da respirao boca-aboca na ressuscitao apareceu no ano de 1744. Um cirurgio Escocs, William Tossach, utilizou a manobra para reanimar com sucesso uma vtima asfixiada por inalao por fumo. O primeiro esforo organizado na luta contra a morte sbita foi realizado em Agosto de 1767, na cidade de Amsterd, com a criao da primeira sociedade de ressuscitao Maatschappij tot Redding van Drenkelingen (Sociedade para Recuperar vtimas de afogamento - existente at os dias de hoje). Quatro anos depois de iniciado o trabalho da Sociedade em Amsterd, 150 vtimas de afogamento haviam sido salvas seguindo s recomendaes (guidelines) da poca: - 267 -

Afogamento

Aquecer a vtima (recomendado at hoje) Remover roupas molhadas (recomendado at hoje) Drenar gua dos pulmes posicionando-se a vtima com a cabea mais baixa que os ps (parou-se de recomendar em 1993). Estimular a vtima com tcnicas tais como instilao de fumaa de tabaco via retal ou oral (parou-se de recomendar em 1890). Utilizar o mtodo de respirao boca-a-boca (recomendado at hoje) Sangrias (parou-se de recomendar h mais de 60 anos).

Em 1817, um mdico Ingls, professor de medicina, Marshall Hall (1790 a 1857) publica seu livro, intitulado Handbook of National Science of Medicine for Theologist, no qual a compresso cardaca e a respirao boca-a-boca eram preconizadas como mtodos de reanimao. Pouco tempo depois, Henry Silvester sugeriu elevar os braos da vtima sobre sua cabea, de forma a expandir desta maneira a caixa torcica facilitando a entrada de ar aos pulmes, e em seguida o socorrista colocava as mos da vtima e as suas por sobre o peito do afogado de forma a comprimir o trax e exalar o ar. Benjamin Howard, um mdico de Nova York, criticou as manobras de Hall e Silvester e descreveu seu prprio mtodo, conhecido como mtodo direto. Colocava-se a vtima sobre uma elevao e enquanto um ajudante segurava a lngua, o ressuscitador realizava presso, iniciando no abdome superior at o trax em uma freqncia de 15 vezes por minuto. Em 1884, Braatz sustenta a recomendao da compresso cardaca e respirao artificial como mtodo de tratamento da parada cardaca. Em 1890, a Royal Lifesaving United Kingdom (Sociedade de Salvamento aqutico do Reino Unido existente at hoje e responsvel pelo salvamento aqutico na Inglaterra) formou um comit para avaliar as tcnicas existentes. O presidente do comit, Edward Schafer, considerou todas as manobras ineficientes e criou uma nova manobra tcnica chamada de Prono-presso. Apesar de toda oposio que teve, a Cruz Vermelha Americana comeou a ensinala em 1910 (20 anos aps). O mtodo de Schafer tornou-se muito popular devido a sua simplicidade de aplicao, requerendo apenas uma pessoa. Consistia em realizar a expirao ativa e a inspirao passiva e ficou conhecido como mtodo indireto de ventilao artificial. No Brasil, com seu grande litoral em praias e com o turismo desenvolvido na Cidade do Rio de Janeiro, o processo de desenvolvimento da ressuscitao acompanhou de forma semelhante o que ocorreu em todo mundo.

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Manual do Atendimento Pr-Hospitalar SIATE /CBPR Todos os mtodos de ventilao indireta (Schafer, Holger-Nielsen, Marshall Hall, Howard, Silvester, e outros) foram idealizados com dois propsitos principais: a ventilao artificial e a retirada de gua do pulmo nos casos de afogamento. Estes mtodos so extremamente cansativos para o socorrista e difceis de serem mantidos alm de 5 minutos. Foram baseados na idia de retirar gua do pulmo do afogado, o que hoje em dia se mostra desnecessrio e at prejudicial. Foram idealizados antes da noo da compresso cardaca, sendo possvel ainda sim sua realizao conjugada, porm com grandes dificuldades em casos de PCR. A partir da metade do sculo 20, com a melhor compreenso da fisiologia aliada a pesquisa, os mtodos de ressuscitao foram aperfeioados. Diversas conferncias sobre reanimao foram realizadas, entre elas a pioneira de 1948, realizada pela National Academy of Science - National Research Council (NAS-NRC), promoveram a divulgao e o debate amplo entre sociedades e autoridades mdicas, na tentativa da padronizao de condutas. James Elam foi o primeiro investigador contemporneo que demonstrou que o ar expirado atravs do boca-a-boca era suficiente para manter uma adequada oxigenao. O mdico Dr Peter Safar dedicou sua vida a investigao da ressuscitao, realizou experincias em voluntrios anestesiados que lhe permitiram chegar em 1957 a trs concluses principais sobre a respirao boca-a-boca:

Simplesmente inclinando a cabea da vtima para trs se pode abrir as vias areas. A respirao boca-a-boca fornece uma excelente respirao artificial. Qualquer pessoa pode aplica-la facilmente e de forma efetiva.

A histria do afogamento no Brasil se iniciou na Cidade do Rio de Janeiro, na poca capital do Pas, privilegiada por belezas naturais incomparveis, com grande destaque as suas praias e favorecidas por clima de natureza tropical funcionaram como a principal fonte de lazer e atrao turstica, determinando um fluxo permanente e intenso de banhistas de todo o mundo durante o ano inteiro. Entretanto, as belezas de seu litoral na maioria das vezes escondem que suas praias, com ondas e correntezas fortes, podem tornar-se potencialmente perigosas com risco de afogamentos. Estas caractersticas tornaram a cidade do Rio de Janeiro uma das regies com o maior ndice desta forma de acidente no pas. Sensvel a esta realidade, em 1914, o Comodoro Wilbert E. Longfellow fundou na cidade do Rio de Janeiro, ento capital da Repblica, o Servio de Salvamento da Cruz Vermelha Americana. Nesta poca, o objetivo era o de organizar e treinar Guarda-Vidas voluntrios, que atuariam em postos de salvamento, no apenas no Rio de Janeiro, mas por todo pas, supervisionando praias desguarnecidas. Sentindo a ineficincia de tal