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Programa Hedda

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programa

Text of Programa Hedda

  • a partir de

    Hedda Gabler

    de Henrik Ibsen

    com

    Maria Joo Lus

    Hedda

    Lia Gama

    Tia Juliana

    Antnio Pedro

    Cerdeira

    Jrgen Tesman

    Marco Delgado

    Eilert Lvborg

    Cndido Ferreira

    Juiz Brack

    Rita Brtt

    Thea

    Ins Mesquita

    (piano)

    encenao

    Jorge Silva Melo

    cenografia e figurinos

    Rita Lopes Alves

    pintura do cenrio

    Guilherme Lopes

    Alves

    desenho de luz

    Pedro Domingos

    assistncia

    de encenao

    Joo Miguel

    Rodrigues

    assistncia

    de figurinos

    Isabel Boavida

    ponto

    Raquel Leo

    co produo

    Artistas Unidos

    So Luiz Teatro

    Municipal

    Os Artistas Unidos so

    uma estrutura financiada

    por Ministrio da Cultura/

    Direco Geral das Artes

    qua-sb 21:30

    dom 16:00

    estreia [16Set2010]

    So Luiz Teatro

    Municipal (Lisboa)

    dur. aprox.

    [1:40]

    classif. etria

    M/16 anos

    Teatro Nacional So Joo

    20-24 Out2010

    HEDDA JOS MARIA VIEIRA MENDES

  • 2thea: Querias acabar com o qu? Com o livro ou com o Eilert? Quem que era o alvo a abater? A escrita ou a pessoa? O pai ou o filho? Era eu? Queres voltar atrs?

    hedda: Voltar atrs?thea: Se gostavas, se disso que precisas?

    Tomar outras decises, voltar atrs, por isso? Queres estar no meu lugar? Queres sair daqui? Queres ir passear? Andar de comboio? No queres estar casada? No queres gostar? No gostas? O que que queres? Queres ser como eu? Queres ser o contrrio de mim? No sabes o que queres? Tens inveja? Tens medo do que est para a frente? Queres ser o qu? Queres parar? Queres disparar? Queres ir para longe? Estar longe das pessoas? Sair desta casa? Queres o qu? Hedda.

    hedda: Tantas perguntas thea: Queres que eu continue?hedda: E nem uma interessa. Nem uma

    dessas perguntas interessa. thea: Qual a pergunta ento?hedda: Porque que no gostas de mim?thea: Como?hedda: Porque que no gostas de ningum?thea: Ests a falar comigo?hedda: Desde o princpio at ao fim.

    Fundamentalmente. esse o meu percurso. para isso. por isso. Sou eu que conto a minha histria. Mais ningum. Sou eu que escolho as palavras. Aprende comigo. V me a fazer. Talvez um dia sejas capaz. De escrever as tuas prprias palavras.

    Jos Maria Vieira Mendes Hedda

  • 3Quando Sfocles quis contar a histria de Electra no foi buscar o texto de squilo, no. Nem quando Voltaire se debruou sobre dipo. Antes da resistvel ascenso da encenao essa disciplina da disciplinadora Germnia , quem escrevia dirigia; quando se queria contar uma histria, pegava se na tinta e no papel. Ao voltar a Ibsen ao entrar em Ibsen pela primeira vez foi isso o que pretendi: no foi visitar um museu e restaurar o quadro em cores originais, pegar nos grandes temas do grande teatro burgus, nesse teatro da insolvel solido, nesse teatro recheado de mveis e escrivaninhas, quis retrabalh lo com um escritor que conheo e com quem gosto de viver os ensaios, o Jos Maria Vieira Mendes. assim um texto novo, um texto dele a partir de Ibsen o que aqui se coloca em cena. E para uma actriz de gnio, sim, a Maria Joo Lus. Foi alis aqui, nos bastidores do So Luiz, quando, l atrs, ouvia a Maria Joo fazer a tremenda me de Stabat Mater, que pensei: que actriz maravilhosa, porque perdemos tempo e no lhe damos a Hedda Gabler? Nessa altura, na penumbra, passava o Jorge Salavisa e disse: A Hedda? Com a Maria Joo Lus? Sim. Nunca nada foi to fcil.

    Jorge Silva Melo

    Junho de 2010

    Encenar e reescrever

  • 4

  • 51. No ficou com boa fama, antes pelo contrrio, a encenao de Hedda Gabler que Ingmar Bergman foi fazer a Londres, em 1970, ao National Theatre, que ento fazia uma temporada no Cambridge Theatre, e, logo a seguir, no Old Vic (foi onde eu vi), dirigido por Laurence Olivier com a colaborao dramatrgica de Kenneth Tynan. So conhecidas as ms relaes com Olivier, com os tcnicos ingleses, as dvidas dos actores, a incompreenso perante aquela companhia que comeava com toda a pompa e a ambio de ser o centro do mundo. Paira sobre esse espectculo a sombra de um equvoco, a ideia de que no se pode jogar fora de casa e de que Bergman, com actores britnicos, perdera a sua manaca preciso (nesse mesmo ano, o seu Dramaten trazia a Londres Um Sonho de Strindberg e foi aclamadssimo). isso o que vem nas biografias, nas Histrias, o que ficou. Mas eu, que vi a Hedda Gabler do alto do segundo balco pelo menos, duas vezes se que no vi mais uma , jamais me esqueci desse espectculo que me pareceu e parece extraordinrio.

    O cenrio (assinado por Mago) era vermelho, cho, paredes, mveis, vermelho escuro, sanguede boi. E, contrariamente aos Ibsens que ento se faziam (eu tinha visto, no Criterion de Piccadilly, numa daquelas matins com bolachinhas servidas no lugar, um convencionalssimo Pato Selvagem com Hayley Mills, Michael Dennison e Dulcie Gray dirigidos por Glenn Byam Shaw), no havia bibelots nem naperons, nem candeeiros a fingir, havia um canap central, o mvel com as gavetas, as entradas. E havia era a surpresa, o ponto da discusso uma outra diviso, direita de quem olha, pequena diviso que seria o escritrio de Hedda, um quinto da rea total da cena, o local para onde ela se retirava mal saa, e onde, no seu tdio, se mantinha, brincando com a pistola, tirando a sufocante blusa, sugerindo um solitrio prazer sexual. Na encenao de Bergman, Hedda estava sempre em cena, vamos a pea toda olhando para ela, como se aquelas vozes das outras personagens, aqueles sussurros e boatos

    O adeus pea bem feita

    Jorge Silva Melo

  • 6fossem fantasmas que, na sua imparvel melancolia, fossem passeando. E era Maggie Smith, sensual, imperiosa, nasalada, autoritria, forte, quem entrava e saa da aco da pea, quem repousava naquela antecmara s dela. Ao seu lado, em Lvborg, aquele que era o seu marido na vida a que chamamos real, o extraordinrio Robert Stephens. E o elenco, invulgarmente coeso, era composto por Jeremy Brett (Tesman), Jeanne Watts (Juliana Tesman), Sheila Reid (Thea), John Moffatt (Brack), Julia McCarthy (Berta). Quando, dois anos depois, vi Lgrimas e Suspiros e reencontrei os quartos pintados a vermelho, a cena da masturbao, o silncio das mulheres solitrias, compreendi parte do processo de trabalho de Bergman: ele passa do palco ao cinema, do cinema ao palco as suas obsesses, vai treinando, no podemos, nele, estudar cinema e teatro como se fossem separados, so vasos comunicantes, a gua das ideias sempre a mover se de um lado para o outro para corrigir o equilbrio. E compreendi que, nesta Hedda entediada e autoritria que eu vira, ele j misturara, como no filme, a Macha das Trs Irms de Tchkhov.

    A proposta de Bergman era arriscada e talvez por isso tenha ficado suspensa nesta incompreenso de que a Histria faz eco: tratava se, para ele, de instalar um tempo de silncio (tchekhoviano?) numa pea inteiramente falada, onde as cenas se sucedem com o peso e a mincia, o relgio de cada dilogo.

    Ibsen no contava com podermos ver Hedda quando ela est fora de cena. O fora de cena de Ibsen o passado, aquilo que nos ameaa, o que vai desequilibrar a ordem. A sua escrita total, uma dramaturgia da palavra cerrada, dialogada, mecanicamente construda. Ele um perfeito conhecedor da pice bien faite, com todas as suas peripcias, reviravoltas, segredos revelados. E dos Scribe e dos Sardou (que montou nos seus anos de Bergen) herda a maquinaria do dilogo. Dilogo total.

    A solitria Hedda de Bergman um corpo imprevisto nesta dramaturgia cerrada, um cancro, o seu silncio impensvel.(Vem depois de Ibsen, vem depois mesmo das mulheres de Strindberg e de Tchkhov?)

    E ao violentar a escrita de Ibsen (o que no de todo seu costume), Bergman abria uma porta para l

    da cena, para o indizvel, para o tdio. A matemtica teatral do dilogo rompia se, abria se um abismo: o corpo de Hedda.

    2. Salta me vista, num livro entrevista feito por Helena Vaz da Silva, em 1979, esta frase de Jlio Pomar: Freud o grande dramaturgo do sculo XIX.

    3. Uma noite do Vero de 1980, num minsculo teatrinho de Via Cavour, ao p da Stazione Termini, em Roma, vi La Casa di Rosmer com Piera degli Esposti e Tino Schirinzi, numa encenao de Massimo Castri. No ramos mais do que uma dzia de espectadores, era um espectculo extraordinrio, lembro me dele como se fosse ontem.

    Foi certamente a realizao mais inovadora e mais escandalosa. O trabalho dramatrgico levou Castri a reduzir a pea ao ncleo profundo do drama numa espcie de personagem nica, como se Rosmer e Rebecca fossem as duas metades de uma s pessoa, duas faces que no se fundem. Ambos agitados por uma pulso de morte que esconde provavelmente o sentimento de culpa em relao a um incesto consumado ou desejado (o que, para o inconsciente, exactamente o mesmo). Rosmer e Rebecca cometeram juntos o assassnio de Beate e no final da pea suicidam se juntos. Daqui veio a necessidade de reelaborar o texto, que foi limpo e reduzido a um guio onde ficaram essencialmente as frases de Rebecca e Rosmer. No havia mais nenhuma personagem, as que eram indispensveis surgiam apenas no pensamento e recordao dos dois nicos protagonistas ou com artifcios muito hbeis (a certa altura, Rosmer abre o rdio que est a transmitir excertos da Casa de Rosmer, a longa rubrica inicial, frases da senhora Helseth, o seu monlogo final). O espectculo transforma se num melodrama a dois que incide nas passagens centrais e sobretudo na confisso de Rebecca, a fuga de Rebecca e a deciso final de suicdio. [] A cenografia serve esta ideia. Era um quarto de cama dividido em dois, com uma parede central que chegava ao tecto e que avanava at ao proscnio, obrigando as duas personagens a falarem se atravs dela. [] Esta destruio do salo burgus, aqui

  • 7substit

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