Lacan Hegel

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  • LACAN NO "ESTDIO DO ESPELHO" HEGELIANO

    Acio da Silva Estanqueiro Rocha(Universidade do Minho)

    Manuel J. Carmo Ferreira escreveu, sobre Hegel: A constituio rela-cional da subjectividade (... ) pode exprimir-se quer na dialcticada interioridade e da exterioridade, quer na dialctica da identidade eda diferena. Radica, porm, o seu sentido ltimo na contraposio datransparncia e da noite, linguagem simblica onde parece ocultarem-se os limites de expresso do pensamento hegeliano em torno do maisntimo da subjectividade humana1. O extracto significativo porque do sentido e horizonte nossa explanao sobre os reflexos especulares deHegel na obra de Lacan.

    Na verdade, ao elaborar a teoria sobre o estdio do espelho', a partir de1936, o clebre psicanalista francs, mais conhecido pelo pendor estrutu-ralista da sua obra, inspira-se em Henri Wallon, Alexandre Kojeve e Ale-xandre Koyr, quando a sua preocupao se orienta em torno do sujeito,cuja compreenso busca em Freud e nos estudos de Hegel que entretantoempreendia. Com efeito, em Frana, no final dos anos vinte e comeo dosanos trinta do sculo XX, ao mesmo tempo que chegava a influncia dapsicanlise, verificava-se uma profunda renovao dos estudos hegelia-nos. Pode afirmar-se que o clebre psicanalista francs, cultor da filosofiae fervoroso estudioso da filosofia alem", se v no espelho de Hegel, aps

    1 Manuel J. Carmo Ferreira, Hegel e a justificao da filosofia, Lisboa, ImprensaNacional-Casa da Moeda, 1992, pp. 127-128.

    2 A noo "estdio do espelho", tomada de Henri Wallon, foi decisiva para osdesenvolvimentos ulteriores, na medida em que pretende fundar uma antropognese dosujeito humano. Foi no Congresso de Marienbad (31 de Julho de 1936) que teve lugareste primeiro piv da nossa interveno na teoria psicanaltica (Jacques Lacan, "De nosantcdents", crits, Paris, Seuil, 1966, p. 67, nota 1).A comunicao foi retomada e revistapara o XVI Congresso Internacional de Psicanlise, em Zurique (17 de Julho de 1949),intitulada "Le stade du miroir comme formateur de la fonction du [e", crits, pp. 93-100.

    3 Note-se tambm o decisivo influxo kantiano na tica lacaniana, patente noSeminrio VII, L'thique de la Psychanalyse (Paris, Seuil, 1986), que tivemos ensejo deanalisar em "Simblico, Linguagem e tica: Lacan, entre psicanlise e filosofia", RevistaPortuguesa de Filosofia, 59 (2) 2003, pp. 483-512.

    Razo e Liberdade. Homenagem a Manuel Jos do Carmo Ferreira, CFUL, Lisboa, 2009, pp. 1443-1466.

  • 1444 I Histria da Filosofia e Filosofia Contempornea

    um perodo liminar guiado pelos ensinamentos, entre outros, de Espine [aspers. sobre esses passos que versa a anlise que se segue, pontua -com asseres de Lacan, excepo da primeira que o prprio Lacar.:extraiu da tica de Espinosa.

    Uma afeco qualquer de cada indivduo difere da afeco de um outrotanto como a essncia de um difere da essncia do outro

    J aos catorze anos, por volta de 1915, Lacan descobre a obra de Espi-nosa: Na parede do quarto, suspendeu um desenho que representavaplano da tica, com flechas a cores. Esse acto de subverso, num munde pequenos comerciantes, teve, como efeito, arrastar o jovem Lacan par.:uma afirmao do seu desejo, ante um pai que ele pensou sempre qutinha como nica ambio de o ter a seu lado para desenvolver o comrridas mostardas-. Passado algum tempo, j possuidor de um vasto ho --zonte cultural e bem inserido no meio mdico, por volta de 1931, Lacar;efectua, acerca da parania, uma sntese da clnica psiquitrica, da teo -freudiana e do denominado segundo surrealismo". Essa sntese assentanum brilhante conhecimento de filosofia - especialmente Espinosa, Jpers, Nietzsche, Husserl e Bergson" -, que lhe iria permitir elaborar atese de medicina acerca Da Psicose Paranica em suas relaes com a Person -lidade' (sobre o famoso caso Aime), que ser tambm a sua grande oda juventude, que veio a lume no Inverno de 1932 e far do seu autor

    4 Elisabeth Roudinesco, Jacques Lacan: esquisse d'une vie, histoire d'un svetme -pense, Paris, Fayard. 1993,pp. 29-30.

    5 Cf. ib., p. 55 ss. Com efeito, neste momento da sua evoluo, Lacan tomconhecimento, no primeiro nmero do Surralisme au service de la Rvolution, publiem Julho de 1930, dum texto de Salvador Dali que iria permitir-lhe romper ao mtempo com a doutrina das constituies e passar para uma nova apreenso da linguano domnio das psicoses. Ora, o perodo do primeiro surrealismo estava consumadoa publicao por Andr Breton do Second Manifeste anunciava a busca de um "pontoesprito" que permitiria resolver a contradio entre o sonho e a vida material. Longeexperincia dos sonos artificiais e da escrita automtica, tratava-se doravante de descnovas terras da aco poltica. O sonho de mudar o homem devia tomar uma foconcreta: inventar um mundo criativo de conhecimento da realidade (ib., p. 55).

    6 Ib., p. 56.7 Jacques Lacan, De la psycose paranoiaque dans ses rapports avec la personnalit, P

    Le Franois, 1932,reeditada em Paris, Seuil, 1975;e em edio de bolso, Paris, Seuil, 1(Points, 115),que seguimos. Doravante, De la Psychose ...

  • Lacan no "Estdio do Espelho" Hegeliano I 1445

    chefe de escolas", Nas pginas iniciais da referida obra, aps as dedicat-rias", cita, em latim, a proposio 57 do livro II da tica de Espinosa'". ParaLacan, nesse momento, o espinosismo seria a nica doutrina susceptvelde justificar uma cincia da personalidade. Por sua vez, da PsicopatologiaGeral (1913) de Karl [aspers, traduzida em francs (1928), recolhe o con-ceito de processus para uma teoria da causalidade mais prxima da deFreud.

    Assim, antes da incidncia dos elementos lgicos da lingustica edo estruturalismo, em especial de Lvi-Strauss, e mais tarde da topolo-gia, que lhe permitiro uma formalizao original e mais estruturada dapsicanlise, ou seja, desde a tomada de contacto com a clnica, j Lacanprocurava focar as suas anlises e estudos na relao que se estruturavaentre mdico e paciente e que lhe indiciava sempre a dimenso do sujeito.

    Na Tese de 1932, em que trabalha o Caso Aime, perscruta-se umaorientao j de si esclarecedora: ao mesmo tempo que Lacan se inscrevena tradio determinista e materialista dominante no campo cientfico,busca a chave da compreenso do paciente, transbordando uma visoorganicista - no caso de Aime, o pensamento delirante. A descrio feno-menolgica exaustiva de um caso, como ocorre na Tese, levou-o psica-nlise, o nico meio de determinar as condies subjectivas da prevaln-cia do duplo na constituio do eu. Nesse trabalho confluem as aspiraesfreudianas e anti-organicistas da nova gerao psiquitrica francesa dosanos 1920. O trabalho foi imediatamente considerado uma obra-prima,principalmente por Ren Crevel, Salvador Dali e Paul Nizan, que aprecia-ram a utilizao feita por Lacan dos textos romanescos da paciente e dafora doutrinria da sua posio quanto loucura feminina.

    8 Ib., p. 56.9 Nas pginas iniciais da referida obra encontram-se duas dedicatrias: uma em

    grego, a M.T.B, Marie- Threse Bergerot, sua amante quando era interno do hospital Sainte-Anne, uma viva austera quinze anos mais velha, com quem descobriu as obras de Platoe fez vrias viagens de estudo. A dedicatria, expressa em grego, significa: No me teriatornado quem sou sem a sua assistncia. A outra dedicatria a seu irmo Marc-FranoisLacan, "Beneditino da Congregao de Frana", com quem tinha a melhor relao e aquem ajudava a recitar as suas lies em latim. Cf. E. Roudinesco, op. cit., pp. 86-87, 29.

    10 Quilibet unius cujusque individui affectus ab affectu alterius tantum discrepat,quanium esseniia unius ab essentia alterius differt. Uma afeco qualquer de cada indivduodifere da afeco de um outro, tanto como a essncia de um difere da essncia do outro.B. Espinosa, tica demonstrada maneira dos gemetras [1677], Parte II ["Da Origem e daNatureza das Afeces"] Proposio LVII, traduo de Joaquim Ferreira Gomes, Coimbra,Atlntida, 1952, p. 159.

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    Ento, no pela via de uma psiquiatria organicista, que reduzsujeito a uma categoria de epifenmeno, explicvel atravs da srie causa;de mero efeito, isto , pela determinao da sua causa orgnica, mas,caso em apreo, a fala delirante, que manifesta o pensamento que lhe subjacente, que deve ser objecto de considerao, cuja relevncia trans-borde uma ptica organicista; para Lacan, a loucura um fenmeno dpensamento e neste campo da representao que deve ser buscada adeterminao. Nesse intuito, vai denunciando o falso materialismo queenvolve o discurso organicista, porquanto a personalidade manifesta-se indiscutivelmente atravs de uma srie de sentimentos, de represen-taes, de aces e de discursos que as designam. Que no se possa pr-julgar a sua significao (e portanto a sua verdade) no retira nada suapresena!'.

    N o caso de uma paciente paranica, que exibia toda a exubernciade um pensamento delirante, que a punha em relao directa com as suasrepresentaes, buscar o seu determinismo prprio era refutar qualquerabordagem normativa que entendesse tal manifestao como produde um desajustamento orgnico; neste sentido, o que j se revelava eLacan era o caminho de certo modo percorrido por Freud, embora diver-samente: um caminho que vai da determinao do patolgico consti-tuio do humano em geral. Encontramos, ento, o jovem psiquiatrafrancs j bastante influenciado por Freud naquilo que ir sempre maisaproxim-los - o mtodo psicanaltico: mrito dessa nova disciplinaque a psicanlise, ter-nos ensinado a conhecer essas leis, isto , as quedefinem a relao entre o sentido subjectivo de um fenmeno de consci-ncia e o fenmeno objectivo a que responde: positivo, negativo, mediatoou imediato, essa relao , com efeito, sempre determinada. E continua:Pelo conhecimento dessas leis, pde-se conferir assim o seu valor objec-tivo, mesmo para esses fenmenos de conscincia em relao aos quaisse havia tomado uma posio to pouco cientfica de menosprezar, desdeos sonhos cuja riqueza de sen