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Subtrópicos n16

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Revista da Editora da UFSC

Text of Subtrópicos n16

  • O dia em que o filho da UFSC se aposentou O voo mentiroso

    de Birdman As janelas de Gregrio Rodrigo

    Bastos: Decoro e anacronismo Depois de 1945 Ns e enigmas de Salim Miguel

    Sistema literrio Fotografia:

    Eduardo Valente

    #16revista da editora da ufsc fevereiro 2015

  • 2UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINAReitora Roselane NeckelVice-Reitora Lcia Helena Martins Pacheco

    EDITORA DA UFSCDiretor Executivo Fbio Lopes da SilvaConselho EditorialFbio Lopes da Silva (Presidente)Ana Lice Brancher

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    Campus Universitrio TrindadeCaixa Postal 47688010-970 Florianpolis/SCFones: (48) 3721-9408, 3721-9605 e 3721-9686Fax: (48) [email protected]com/editora.ufsc

    Andria Guerini Cllia Maria de Mello CampigottoFernando Jacques AlthoffIda Mara FreireLuis Alberto GmezJoo Luiz Dornelles BastosMarilda Aparecida de Oliveira Effting

    Editor Dorva RezendePlanejamento grfico Ayrton CruzFoto da capa Ayrton CruzReviso Aline ValimGrfica RochaTiragem 1,5 mil exemplares

    Acesse a verso eletrnica da Subtrpicos no site da Editora da UFSC www.editora.ufsc.br

    #16revista da editora da ufsc fevereiro 2015

    pblica de comunicao para as universidades que se tornou referncia nacional por arran-car as assessorias dos gabinetes e devolv-las comunidade a que devem servir.

    No fcil reunir os itens dessa biografia singular, descrevendo com fidelidade a cole-o de prmios que conquistou, ou arrolan-do as funes ocupadas, que comprovam a atuao marcante no mbito das instituies universitrias e na organizao sindical da ca-tegoria dos jornalistas. Mais justo lanar uma plataforma narrativa in progress, aberta a todos os que quiserem contribuir com alguma cena dessa vida laboral. Ela comea em Itou-pavazinha, zona rural de Blumenau, carregan-do trato para as vacas, plantando e colhendo aipim, capinando terrenos ou vendendo lenha e frutas na estrada. Muito cedo foi iniciado na lavoura pelo av materno Bruno Bauler, des-cendente germnico que apanhou, foi preso e obrigado a tomar leo de rcino pela polcia do Estado Novo, como parte dos castigos apli-cados aos colonos falantes de alemo. Heris eternos, o av, j falecido, e a me Giltani, agricultora de subsistncia.

    Aos 15, um emprego no Jornal de Santa Catarina como office-boy levou o rapazote mirrado do trabalho rural para o urbano. Junto com o salrio mnimo vieram pesa-das obrigaes que se acumularam com os deveres de estudante. De tanto o garoto percorrer a redao servindo cafezinho, os colegas mais experientes comearam a soli-citar que passasse na sala da radioescuta e lhes trouxesse as ltimas notcias enviadas por telex pelas agncias nacionais e inter-nacionais. No caminho da sala at as mesas dos editores, ia lendo aquelas mensagens cifradas e corrigindo-as mentalmente. Logo tomou a caneta e a confiana dos editores, que o encarregaram da funo de pentear telex. No percurso desse jornalista feito na lida, formou-se o radioescuta, o operador de telefoto e radiofoto, depois o reprter,

    o redator e finalmente o editor. Tudo isso no percurso de apenas um ano.

    Estava ainda em Blumenau, de carona no fusca do diagramador, quando escutou no rdio seu nome na lista dos aprovados do ves-tibular da UFSC. Num dia de chuva de 1979, aportou na Rodoviria Rita Maria com um esla-que de reco costurado e uma bolsa de plstico contendo escova de dente, cueca e camiseta. O projeto era trabalhar na sucursal do Santa em Florianpolis e conciliar isso com a facul-dade de Cincias Sociais. Saltou do nibus e, depois de achar vaga em um hotelzinho sus-peito da Felipe Schmidt, caminhou ao longo da Beira-Mar procurando um lugar para comer antes de se apresentar na redao. Entrou no restaurante Telhado e pediu um ovo frito.

    Foi o ovo mais caro que comi na vida.Enquanto cursava a faculdade, ganhou

    o concurso do Conselho de Reitores das Uni-versidades Brasileiras (CRUB) com uma mo-nografia que resultou na publicao do livro Educao, Cidadania e Constituio. Jorna-lista profissionalizado, venceu cerca de 15 prmios, incluindo o Esso com uma srie de reportagens sobre as enchentes, duas edies do Prmio Fiesc, com matrias sobre o carvo e pequenas empresas, o Prmio de Ecologia da Fatma, o Prmio de Agricultura da Acaresc e duas vezes o Prmio Jernimo Coelho, da Assembleia Legislativa, com uma reportagem sobre a Assembleia Constituinte e uma espe-cial sobre o desaparecimento do deputado Paulo Wright. Na dcada de 1990, implantou, coordenou e editou o Caderno C do Jornal de Santa Catarina, eleito o melhor suplemento cultural do Estado pela Associao Catarinen-se de Escritores.

    Vida profissional e atuao poltico-sindical nunca se separaram. Agredido pela Polcia Mili-tar na cobertura da Novembrada, foi internado com leses na regio dos rins provocadas por chutes e cassetetes. Alm de censurar a repor-tagem, o Santa publicou uma declarao de

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    s vsperas do Carnaval, enquanto as gavetas das reparties se esvaziavam, ele se aposentou silenciosamente, como o fazem aqueles que so mais raros, na medida em que no se convencem de sua importncia para o mundo. Jubilou-se depois de 40 anos de jor-nalismo, 35 de universidade, mais cinco como trabalhador rural, afora o tempo de boia fria e servente de pedreiro na infncia. Desde os seis anos, quando comeou a ajudar a me a sustentar a famlia nos perodos de desempre-go do pai, Moacir Loth s conheceu a vida dos que precisam trabalhar e servir. Sorrir e fazer graa sempre, mesmo em misses srias: o bom humor compensa o tempo de brincar que o trabalho sequestrou.

    Embora sob suspeita, escrevo com iseno a respeito do companheiro de 28 anos de vida e dois filhos compartilhados. Nem o conhecia pessoalmente quando fui trabalhar como es-tagiria de jornalismo na antiga Assessoria de Comunicao da UFSC e j ouvia falar dos fei-tos lendrios do reprter destemido, que dava rasteiras na ditadura e nos patres dos vecu-los estaduais com suas reportagens investiga-tivas surpreendentes. Nada do que se escreva sobre o seu currculo pode revelar mais do que o convvio com essa existncia absoluta-mente generosa, espirituosa e realizadora. S ela pode falar de um modo ao mesmo tempo rigoroso e criativo de fazer jornalismo. E do empenho dirio em defesa de uma poltica

    Uma homenagem a Moacir Loth, aps todos os anos de servios prestados verdade e ao jornalismo

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  • 3w Comea no dia 9 de maro a Feira de Livros da Editora da UFSC. O evento acontece na Galeria de Arte do Centro de Convivn-cia, no campus Trindade.

    w Livros do catlogo sero vendidos com descontos de at 70%. Obras de outros selos importantes tambm estaro disponveis a bons preos. A feira segue at o dia 8 de abril.

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    A Estrutura do Conto de Magiaorganizadores: aurora Fornoni Bernardini e s.i. neklidov

    Nos anos 1960, a formao da Folclorstica Es-trutural estava relacionada a transformaes ideolgicas radicais no campo das Humanida-des. Naquela poca, na Unio Sovitica, surgia uma nova orientao de pesquisa, que propunha mtodos exatos nas Cincias Sociais. A isso se dedicaram as Escolas de Vero de Trtu, co-ordenadas por I.M. Ltman. Como se sabe, as tradies orais, por sua especificidade, podem ser compreendidas particularmente pelas pes-quisas semitico-estruturais. Da o fato de que, nos programas das Escolas de Vero, o folclore, representado no incio de modo bem tmido, tenha passado a ocupar um espao cada vez maior. Uma das abordagens dessas pesquisas foi o desenvolvimento das ideias de V.I. Propp em Morfologia do conto maravilhoso (1928). A combinao de princpios dos nveis de anlise sintagmtico/paradigmtico e sincrnico/diacr-nico trao caracterstico dos trabalhos de E. M. Meletnski e da sua escola.

    De Tcnico e de Humano: Questes Contemporneasautor: Walter antonio Bazzo

    Nesta coletnea de textos, o professor de En-genharia Mecnica, fundador e coordenador do Ncleo de Estudos e Pesquisas em Educao Tecnolgica (NEPET) da UFSC, analisa a relao entre a tecnologia e a sociedade e o processo civilizatrio. Entre os textos publicados em jor-nais, revistas tcnicas e sites, destacam-se os que saram pela revista Clnica Internacional Journal of Brazilian Dentistry e para a pgina da OEI na web. Muitos deles aplicados em sala de aula, trazem opinies, dicas de livros e outros textos correlatos que podem ajudar em algumas reflexes contemporneas sobre o comporta-mento da sociedade tecnolgica.

    Tecnologia de Fabricao de Revestimentos Cermicosautores: antonio pedro novaes de oliveira e dachamir Hotza

    Este livro, em sua segunda edio, apresenta princpios cientficos e tecnolgicos da fabrica-o de revestimentos cermicos, com nfase no processamento por via mida. Representa uma contribuio para o aprimoramento e atualiza-o dos que atuam na rea e um incentivo para que outros profissionais possam se interessar por esse setor, carente de livros tcnicos especiali-zados em lngua portuguesa.

    que a ao da PM havia sido exemplar. Mas o jornalista no se deixou acuar. Com ajuda dos amigos, emplacou a cobertura em jornais na-cionais, distribuindo-a pela agncia do Estado.

    A coragem de enfrentar uma prtica de aparelhamento patronal do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina participando da criao do Movimento de Oposio Sindical (MOS), em 1979, fortalece essa histria de combatividade. Eleito cinco vezes membro da Comisso de tica do Sindicato, elegeu-se tambm diretor de base da Federao Na-cional dos Jornalistas. Foi ainda dirigente da Associao Brasileira de Jornalismo Cientfico, presidente do Frum dos Assessores da Co-municao da Andifes e membro da Comisso Nacional dos Assessores de Comunicao junto Federao Nacional dos Jornalistas (Conjai).

    Em Florianpolis, conheceu o grande amor de sua vida profissional: a UFSC, onde in-gressou em 1980. Efetivado cinco anos depois em concurso para jornalista, desempenhou as funes de chefe de reportagem e chefe de redao da Assessoria de Comunicao (atual Agecom), na poca dirigida pelo jornalista Laudelino Jos Sard. Sua designao para o cargo de assessor-chefe pelo reitor Bruno Schlemper Jnior, em 1988, foi festejada numa inspirada crnica de Beto Stodieck. Co-lunista de inigualvel talento, Beto saudou a nomeao de um funcionrio de carreira, hu-milde e despretensioso, que fugia s indica-es partidrias e ao jogo de favores predomi-nante no preenchimento dos cargos pblicos.

    Nessa poca, Moacir aprovou e implantou na UFSC a Poltica Pblica de Comunicao, resultante de suas pesquisas e monografia de concluso do curso de Especializao em Co-municao Social Integrada na Fundao Dom Cabral e PUC de Minas Gerais. Ainda hoje, essa experincia serve como documento de base e sustentao terica para a gesto da rea em rgos governamentais de todo o Brasil. Por esse trabalho em defesa de uma prxis pblica de comunicao, pelo Jornal Universitrio e pela obra de divulgao dos projetos acad-micos, a Assessoria de Comunicao da UFSC arrebatou em 1993 o prmio Jos Reis de Jor-nalismo Cientfico, o mais importante do pas.

    quem conhece Moacir sabe. Com ele, a comunicao nunca trabalhou para os interes-ses pessoais, mas para os projetos coletivos da comunidade. Prova disso que permaneceu na direo da rea aps a mudana de sucessi-vos reitores de diferentes ideologias, atraves-sando as gestes de Schlemper Jnior, Rodolfo Pinto da Luz, Diomrio queiroz, Lcio Botelho e lvaro Prata. Todos eles aprenderam a res-peitar essa poltica. Durante sua atuao, a equipe da Agecom produziu aproximadamente 700 jornais universitrios e manteve uma pre-sena de privilegiado destaque nos rgos de divulgao da pesquisa e da cincia do pas. Tambm estruturou o trabalho de comunica-o na Editora da UFSC, onde editou o jornal Leitura & Prazer. A repercusso de obras pu-blicadas pela editora em cadernos de cultura de veculos locais e nacionais projetou o nome da instituio, mas sobretudo o nome e a obra de nossos escritores e pesquisadores.

    S a oportunidade de elaborar a justifi-cativa para a concesso do ttulo Doutor Hono-ris Causa ao escritor Salim Miguel j fez valer a pena esses anos todos.

    O profissional zeloso com a imagem da instituio, que se via muitas vezes atravessar o campus com um grande mao de jornais em-baixo do brao, nunca se chocou com a ontolo-gia do jornalista, que salvaguardar o esprito crtico e a liberdade. Fez do seu trabalho uma permanente arena de lutas pela equipe, pela comunidade, pelos movimentos, pelos povos menores, pelas multides que atravessam um indivduo pblico. Em Trivial, Caiu na Cesta, Ossos do Ofcio, Nas entrelinhas, Direto do Campus e Faz Ccegas, colunas que assinou no Jornal Universitrio e em ou-tras publicaes, expressou sua coragem de verdade e o talento para as entrelinhas. Mor-dazes, inteligentes, irnicas, as colunas con-quistaram leitores fiis e provocaram polmi-ca indita na comunicao pblica, provando que um assessor no se separa do jornalista quando serve ao pblico e no ao poder.

    por tudo isso que a universidade se tor-na um pouco rf desse filho quixotesco, que gastou os sapatos distribuindo jornais e solu-es para cada pessoa, um recorte e uma indicao de leitura; para cada pessoa, uma soluo que ele cavou. Torna-se um pouco va-zia da humildade irreverente, da inteligncia autntica e da dedicao eficiente sincretiza-das na figura emblemtica desse servidor. Es-sas caractersticas constituem uma resistncia desumanizao que a burocracia, aliada tecnocracia e instrumentalizao da coisa pblica, produziu no capital humano das nos-sas universidades. Em geral, no preciso ser doutor em sensibilidade para que reconhea no instante-j a raridade e a consistncia sutil das criaturas. O rosto nu, os olhos atenciosos, os gestos inocentes, o corpo todo documen-to comprobatrio dessa inteireza, assim como as mos so o documento de um colono na hora de comprovar sua atividade na terra.

    Aposentadoria, na lgica produtiva, acontecimento que enseja crise, decepo, tristeza. Mas o risco traz a oportunidade de reintegrao do tempo da vida ao tempo do trabalho, o que fala reintegrao da prpria unidade do ser. No podemos duvidar de que o servidor abraar o caminho das possibilidades e no podemos desejar outra coisa a no ser que continue contribuindo com seu trabalho voluntrio, enquanto membro da Comisso da Verdade, constituda em dezembro pelo Con-selho Universitrio com a tarefa de analisar os reflexos da Ditadura Militar ainda persistentes na UFSC. seguro apostar que o jornalismo, com a Revista Histria Catarina e outros pro-jetos que despontam, s ganha quando sobra mais tempo para a inquietude desse profissio-nal. Mas, por favor, jornalista-servidor, no pare de cuidar da nossa universidade, no dei-xe que a aposentadoria o divorcie dessa outra famlia, desse outro lar, desse outro povo, que o grande amor da sua vida.

    possvel que durante todo esse tempo a universidade tenha sido a minha primeira casa.

  • para ns uma riqueza (ou uma pobreza) que voc no tinha percebido em determinado objeto (Joyce ou Picasso podem ou no ser ricos se voc considerar isto, ou aquilo, ou aquele outro).

    A distino entre Alta e Baixa cultura, historicamente, nunca pensou a arte por sua potncia, apenas por sua qualidade, pela conveno, pelo pr-conceito que categoriza e arregimenta tudo. Isso expli-caria em partes o porqu da invisibilidade dos quadrinhos, uma arte recursivamente sofisticada ao lidar com sequencialidade e simultaneidade, texto e imagem, figurao e narrativa, quadro e grade.

    O que estava em jogo, portanto, era ga-rantir boas cpias de um ideal de arte (de uma essncia que algum ou algum grupo se d o direito de encarnar, como a crtica de Birdman), e a recluso dos simulacros, dos objetos que pervertem os ideais a serem defendidos (como no delrio onde Homem--Aranha, Homem de Ferro, Transformers e outras aberraes carnavalescas apare-cem brincando no palco da Broadway).

    a runa das qualidades que, em po-tncia, Birdman aponta. Algo que, no caso dos quadrinhos, na mesma dcada em que Umberto Eco escrevia, acontecia pelo mo-vimento underground, pelos lbuns de luxo, pela busca por uma autoria caligr-fica, pelas exposies, pela crtica acad-

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    Birdman, de Alejandro Iarritu, o sintoma j institucionalizado de algo que vem ruindo pouco a pouco. Falo sobre a distino entre Alta e Baixa cultura, daqui-lo que divide Riggan Thomson e separa a celebridade que fez o super-heri Birdman do artista que se apresentar na Broadway.

    Em 1964, Umberto Eco publicou seu (hoje ligeiramente caduco) Apocalpti-cos e Integrados. Eco tentava redigir, no bom sentido, uma viso de cima do muro. Tratava-se de ver do alto, de olhar para os terrenos divididos, de fazer uma geografia da Alta e Baixa cultura. Evidentemente os quadrinhos estavam do lado da Baixa. Em certo momento, Eco dir que, apesar de certas potencialidades, no devemos con-ferir aos objetos da Baixa cultura uma ri-queza que eles em essncia no tm.

    O que complica esse pressuposto da essncia. Como possvel postular uma es-sncia da arte sofisticada? Isso nos remete a uma distino conceitual antiga e impor-tantssima: a diferena entre qualidade e potncia. A qualidade o atributo fechado, a caracterstica j delegada por conven-o (Joyce ou Picasso so bons porque so bons), a potncia abertura, poder-vir-a--ser, quando o olhar de algum mostra

    mica etc. Magritte certa vez disse que se aprofundar nos segredos da invisibilidade o mais fcil. O difcil perceber o que jaz de oculto no visvel, o que a aparncia exibe da forma mais mentirosa.

    Todos ns praticamos a mentira do vi-svel. Fingimos que aprendemos diante de um professor que finge que ensina, ele-gemos o poltico em quem fingimos acre-ditar e que finge que ns no sabemos de sua sujeira, assim como recriminamos, em nome de certos ideais, uma srie de com-portamentos que fingimos no ter quando ningum est olhando.

    Todos usamos mscaras, s que a ms-cara, como no teatro grego, no algo que esconde, mas que revela. a mscara de ataduras no rosto de Riggan Thomson, a mscara insistente de Birdman mesmo quando Riggan considerado um grande ator. a revelao de que tudo no passa de um simulacro, e de que as pretenses mais verdadeiras s so verdadeiras quando assumem que esto sempre mentindo.

    Em outras palavras, quando a Alta cultura exibe a sua mscara espalhafato-sa de super-heri, mostrando tambm que todo seu requinte s uma tentativa de im-pressionar, que a mentira se torna a maior das verdades. como na cena do poeta bomio que deixa Riggan comovido at ele descobrir que o cara era um ator queren-do um papel na pea. Um mentiroso que nos emociona, afinal. Essa a tica do ator elevada exuberncia, de tal modo que perante a arte, na queda das qualidades, na indistino essencial entre Alta e Baixa cultura, nos cabe dar asas potencialida-de dos simulacros que saem voando por a. Birdman voo da arte, o voo mentiroso de todos ns.

    Personagem central do filme de Alejandro iarritu, riggan thomson, o ator da mscara insistente, mostra o invisvel que h em todos ns, o que a aparncia exibe da forma mais mentirosa

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    O voo mentiroso de Birdman

  • 5DEMTRIO PANAROTTO

    A cada canto um grande conselheiro,Que nos quer governar cabana e vinha;No sabem governar sua cozinha,E podem governar o mundo inteiro.(Gregrio de Matos)

    A cidade natal de Gregrio de Matos, Salvador, foi capital do Brasil colonial. A ela Gregrio dedica boa parte de seus poemas. Para os padres de hoje, Salvador era uma cidade pequena, em torno de dois mil habi-tantes, um pouco mais, um pouco menos. No momento em que Gregrio escrevia, os mo-radores de Salvador eram considerados luso--brasileiros, situao que s vai mudar, bvio, depois da independncia. Peo licena ao lei-tor para ver na cidade de Salvador, usando as lentes de Gregrio, o embrio de um Brasil contemporneo.

    Sergio Buarque de Holanda, no captu-lo IV O semeador e o ladrilhador de Razes do Brasil, aponta-nos uma questo que me parece importante para entender a crtica sempre presente nos poemas de Gregrio. Para o autor, as cidades de colo-nizao portuguesa, contrariamente que-las colonizadas pelos espanhis, eram pau-tadas pela desordem no que diz respeito urbanizao.

    A discusso em torno da palavra desor-dem precisaria ser aprofundada. No entanto, se junto opinio de Buarque de Holanda e Razes do Brasil importante para entend--la considerarmos os poemas de Gregrio, podemos dizer que a desordem que marca a construo das cidades tambm marca as re-laes pessoais e pblicas que so denuncia-das, expostas e satirizadas pelo poeta.

    Na poca, o luso-brasileiro formata suas relaes num modo diverso, o que, para os padres de uma parte da Europa, talvez seja invivel. A maneira como as relaes pessoais e pblicas so formatadas naquele contexto resulta num outro Brasil. Gregrio parece perceber muito bem que as relaes do dia a dia so marcadas por uma mistura. Mas a mistura no est nas raas. Est na maneira como essa figura do luso-brasileiro no sepa-ra aquilo que pessoal daquilo que pblico: o bolso da mquina mercante no se separa do bolso pessoal. Essa confuso se traduz na vida de seus moradores.

    H em Gregrio um tipo de preocupa-o que se concentrava no modo de vida do brasileiro naquele momento. A crtica ao mo-delo de sociedade feroz. Gregrio aponta algumas situaes que, para alm da ideia de uma formao tnica, constituem a persona-lidade do luso-brasileiro daquela poca. O re-sultado dessa maneira de lidar com o pessoal e o pblico aquilo que depois, guardadas as devidas propores, foi tratado (e continua sendo) como o jeitinho brasileiro.

    Em seus poemas, Gregrio no poupa ne-nhuma das camadas sociais que constituem Salvador. A crtica para todas: direcionada s classes menos favorecidas do mesmo modo que aos nobres. O Brasil luso-brasileiro sati-rizado em toda a sua estrutura. Para o poeta, a sociedade inteira muito frgil em concei-tos ticos e morais.

    Os moradores da cidade, para Gregrio, no passam de uns canalhas. Um canalha no sobrevive sem a fiel ajuda de um outro ca-nalha. Essa confluncia de canalhas cria um amontoado de fofoqueiros que se debruam nas janelas de suas casas e passam o tempo observando a vida dos outros e oferecendo a sua vida para ser observada: as janelas que permitem ver o outro ao mesmo tempo reve-lam as prprias intimidades. Permitem ainda que a vida pessoal (aquilo que privado) e a vida pblica se misturem, se confundam.

    Ser que a maneira como a cidade se constitui refora essa confuso entre vida privada e pblica? Talvez o modelo de cons-truo de casas em Salvador desse perodo possa nos ajudar a responder a pergunta. So casas que hoje seriam chamadas de ge-minadas, muito prximas umas das outras, formando uma pequena rede (na poca como maneira de proteo).

    assim que Gregrio define a sua ci-dade:

    De dois ff se compeesta cidade a meu ver:um furtar, outro foder.

    A marca do braso furtar e foder. O res-tante do poema apenas uma constatao de como essas relaes se alimentam reci-procamente. Em algum momento, as duas palavras so inclusive sinnimas. As marcas das relaes da cidade, seja no campo ins-titucional, seja no pessoal, so nutridas por

    essas duas palavras. A desordem, que impe-de que a populao diferencie o pblico do privado, se revela do mesmo modo, tanto no encontro das duas palavras quanto na indi-ferena ante o pblico e o privado. Greg-rio identifica essa confuso entre pblico e privado nas palavras furtar e foder. Furtar foder, quer dizer: pblico privado, roubar dinheiro tambm foder (com) algum.

    O Brasil de hoje parece ser completa-mente diferente do de ento. Para come-o de conversa, muito maior do que era. Durante anos houve, alm do longo perodo escravagista, vrios processos de coloniza-o que mudaram a nossa cara. Ao mesmo tempo, o Brasil de hoje a mesma coisa: o embrio se mantm intacto e alimentado diariamente, em boa parte, pelos veculos de comunicao. A stira de Gregrio ao que acontece hoje no mudaria nada; de cima a baixo e, principalmente, para os lados, seria a mesma.

    As janelas pelas quais as pessoas se mos-tram e pela qual veem os outros continuam presentes. As janelas dos computadores so (quase) as mesmas janelas vistas por Greg-rio nas ruas de Salvador. Do mesmo modo, atravs delas observa-se a vida de todos os que passam pelas nossas (minha e tua) time-lines. Ao mesmo tempo, se oferece a prpria vida para ser observada. As pessoas entregam aos olhos do mundo os detalhes mais srdidos e perversos de suas vidas, pblicas e priva-das. Como bons fofoqueiros, tudo aquilo que, ingenuamente (ou monstruosamente), sem perceber, o nobre leitor deixa ver, quer tam-bm ver nos outros.

    Parece que no mundo da janela virtual lida-se com o pblico e o privado, o furtar e o foder, com a confuso entre os dois, do mesmo jeito que os moradores da cidade de Salvador so vistos pelo poeta. O mundo da janela virtual vai at a janela do outro, dois dedos para l, no muito mais que isso. Alm disso, furtar e foder reforam uma postura contempornea, esses temas se repetem dia-riamente nas janelas virtuais mundanas.

    Como Gregrio, eu posso estar sendo um moralista. Mas h que considerar que toda stira moralista. Desconsiderando isso, meu argumento se invalida, mas a fico continua. Acho eu.

    O Boca do inferno muito teria o que criticar, nos dias atuais, na permanncia do comportamento luso-brasileiro e da canalha que no diferencia o pblico do privado

    as janelas de Gregrio

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  • 6Subtrpicos | Sua pesquisa problematiza o termo Barroco fazendo-o diferir do sen-so comum que existe no ensino de artes. Explique-nos essa problemtica.Rodrigo Bastos | A pesquisa comeou em 2001, quando fui para Belo Horizonte fazer o mestrado em arquitetura na UFMG. Relendo os tratados e documentos da poca, percebi que havia uma hiptese importante, ainda no explorada na historiografia, que seria a discusso da arquitetura luso-brasileira luz de conceitos vigentes naquele tempo, como o conceito de decoro. Geralmente, na histo-riografia estabelecida, h uma consagrao de categorias dos sculos 19 e 20; categorias positivas, classificatrias e redutoras dessa produo artstica que denominamos, desde o sculo 19, barroca. quando estudamos os tratados artsticos vigentes quela poca, e tambm os documentos que nos informam dos processos de inveno e construo dessas arquiteturas e cidades, percebemos uma srie de conceitos que foram oblite-rados, transformados ou esquecidos pela cincia moderna, e que nos oferecem outra compreenso, mais verossmil, dos sentidos dessa arte. Naquele tempo, regido por um processo de imitao e de preceitos ret-ricos e poticos que visavam decncia, o deleite e persuaso das pessoas, essas obras nos parecem completamente deco-rosas e convenientes. A arte que se discute devida e comedida por essas finalidades, meios e preceitos. Para o nosso olhar mo-derno, ps-romntico, ps-iluminista, tudo isso se apresenta como exagerado e supr-fluo. Mas, quando comeamos a reconstituir os conceitos de poca, percebemos que cada elemento ali tem a sua razo de ser, a sua convenincia, e a doutrina do decoro, fundamental para aquele mundo, ilumina uma compreenso de que cada parte, cada elemento desse corpo, convenientemente pensado para adquirir ou atingir suas fina-lidades. A pesquisa reconstri uma histria pelo menos alternativa a essa j consagrada.

    Subtrpicos | Ento voc considera que o Barroco tem caractersticas prprias determinadas pelo decoro? O que seria esse decoro?Bastos | Desde os gregos at pelo menos o sculo 19, o decoro foi um preceito fun-damental, pois regia justamente a conve-nincia de todas as partes e o todo de uma obra de arte. H uma definio que deixa clara essa importncia. um trecho do De re aedificatoria, ou Sobre a arte de cons-truir, de Leon Battista Alberti, escrito em 1452, que trata da beleza e do ornamento, no captulo VI: Tudo deve estar disposto por ordem, nmero, tamanho, disposio, forma, atentando-se para a natureza, para a prtica, convenincia, s especficas funes do edifcio de modo que cada par-te do edifcio resulte a ns indispensvel, funcional e em plena harmonia como to-das as outras. O corpo, no caso do corpo artstico, o corpo da arquitetura, todo ele deve estar, portanto, configurado e defi-nido de modo a conciliar a necessidade e comodidade e principalmente cada parte esteja distribuda do melhor modo e no ponto exato, na ordem, lugar, articulao, posio, configurao que lhe for compe-tente. Essa definio parece que resume a totalidade das virtudes da obra artstica, e exatamente isso. Os gregos o denomi-navam prpon, que os latinos traduziram como decor ou decorum. Eles perceberam, na antiguidade, que tudo na natureza pos-sui uma regularidade, uma ordem, uma harmonia, uma utilidade, uma beleza, um esplendor, e o conceito de prpon, ou de-coro, permitia compreender essas virtudes que os homens deveriam imitar em suas aes e produes.

    Subtrpicos | E o decoro foi aplicado ape-nas na arte, na arquitetura e na cidade?Bastos | Ele no simplesmente um con-ceito das artes, pois regia todas as aes, toda a tica daquele tempo. Todas as

    decoro e anacronismo

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    FERNANDA TRENTINI, MONICA JUERGENS E RAFAEL GASPAR

    O lhar minucioso de Rodrigo Bastos, professor de arquitetura da Universidade Federal de Santa Catarina,

    busca reaver os aspectos arquivados

    e esquecidos da arquitetura religiosa

    colonial no livro A Maravilhosa Fbrica de Virtudes: O Decoro na Arquitetura Religiosa de Vila Rica, Minas Gerais (1711-1822), publicado pela EdUSP.

    Nesta entrevista, Bastos, doutor em

    Arquitetura e Urbanismo pela USP, e

    autor, tambm, de A Arte do Urbanismo Conveniente: O Decoro na Implantao de Novas Povoaes em Minas Gerais na Primeira Metade do Sculo XVIII (EdUFSC), destaca alguns elementos

    pouco estudados da arquitetura

    religiosa que indicam a importncia dos

    ornamentos arquitetnicos, sobretudo

    como um vestgio da iluminao divina

    na engenhosidade do artista. A pesquisa

    inicial para o livro partiu da harmonia

    entre arquitetura e msica, porm, no

    decorrer da anlise, Bastos notou a

    presena do decoro como uma chave

    importante para se conhecer melhor a

    arquitetura do perodo colonial. Para ele,

    o decoro que permeia as arquiteturas

    coloniais religiosas, civis e oficiais ,

    reafirma a necessidade de se procurar

    reconstituir historicamente as

    mentalidades vigentes nas obras

    daquele perodo.

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  • aes deveriam primar tambm pela con-venincia e pela adequao. Tratados ar-tsticos, de tica, de poltica e etiqueta povoam aquele mundo, orientando a que todo homem tenha as suas aes regidas pelas finalidades e guiadas por princpios e meios convenientes. O decoro deveria reger todas as aes e produes huma-nas de modo que tudo estivesse orientado a ser igualmente conveniente e aprazvel aos sentidos. um conceito estendido a todos os mbitos das aes humanas.

    Subtrpicos | E, na prtica artstica, de certa forma o decoro impossibilitaria, ento, as novas experimentaes ar-tsticas? Como ficaria a questo, muito falada hoje, da singularidade de cada artista?Bastos | Tendemos a compreender o tema mais ou menos dessa forma, mas isso um grande equvoco anacrnico. Se o conceito regia a correo, a eficcia, a autoridade de certos modelos, poderia parecer que ele reduziria ou resumiria, digamos assim, as idiossincrasias artsti-cas de cada um. No entanto, se atentar-mos para o que efetivamente o regime potico-retrico das artes daquele tem-po, todos eles trabalhavam com a imi-tao. Havia modelos que deveriam ser imitados porque j haviam comprovado a sua eficcia, a sua correo. Mesmo os grandes artistas de todos os tempos, at o incio do sculo 19, agiram dessa manei-ra, imitaram tanto para aprender o ofcio quanto para manter uma compreenso consagrada. Por isso, o ttulo do livro A Maravilhosa Fbrica de Virtudes. H uma mxima desse tempo de Gian Batistta Marino que diz o seguinte do artista o fim a maravilha, e a maravilha era justa-mente a promoo dessa sorte de luz que a recepo tem quando se observa uma imagem. claro que havia artistas que se limitavam cpia e mesmo os tratados acabam indicando esses que meramente copiavam. Mas h aqueles muito talento-sos que, atravs do seu engenho, que justamente a faculdade mental de criar conceitos e imagens, deslocavam esse modelo imitado, provocando o maravilha-mento o reconhecimento do modelo e tambm a sua superao.

    Subtrpicos | Voc poderia comentar a respeito do rastro, do vestgio em So Toms de Aquino, que a concepo que Jean-Luc Nancy retoma ao tratar da ideia do vestgio na arte?Bastos | A doutrina escolstica defende que Deus est presente em vestgio na arte, como um rastro. Contra Lutero, que havia promulgado a perda da Graa des-de o pecado original, a doutrina crist vai defender que a Graa ainda , sim, caris-mtica; ela presente, porque Deus con-tinua iluminando de carismas os engenhos artsticos capazes de provocar maravilha na recepo. Esse maravilhamento, esse

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    aencanto da coerncia arquitetnica, da luminosidade do ornamento, do brilho da ornamentao, faria com que se pudes-se reconhecer ali um vestgio da presen-a divina, pois Ele, Deus, teria iluminado atravs da Graa o engenho do artista na inveno dessas obras. Ento, aquele que conhecesse a doutrina reconheceria no apenas o brilho em si do ornamento, seu efeito secundrio, mas tambm uma re-fulgncia mstica como vestgio divino que iluminou atravs da Graa o engenho arts-tico, a Causa primeira.

    Subtrpicos | O anacronismo um con-ceito tambm presente em sua pesquisa, na forma de uma crtica. Em sua pesqui-sa, voc alerta que o anacronismo pode ser prejudicial, por generalizar e fazer aproximaes superficiais. Queremos que discorra um pouco sobre o anacro-nismo e mostre o que h de problem-tico nele.Bastos | Conceitos anacrnicos transfor-mam e modificam o valor de conceitos e procedimentos artsticos. Darei um exem-plo. Praticamente toda historiografia que temos, tanto europeia quanto brasileira, latino-americana, reconhece, por exem-plo, a genialidade de artistas ditos barrocos. A genialidade, como ns a entendemos hoje, um conceito romn-tico, posterior quele mundo. Mas, se recorrermos aos conceitos daquele tem-po, ns jamais poderamos caracterizar aqueles artistas como geniais, mas, sim, engenhosos, porque nenhum deles se preocupava em criar uma obra original, indita, e sim, partiam do pressuposto da imitao, do decoro, da decncia, enfim, de uma srie inumervel de conceitos que denominavam procedimentos de modo a causar admirao pela coerncia, pela verossimilhana, pela engenhosidade, e no pelo ineditismo. Nesse tempo, o en-genho pressupe que h uma imitao de-corosa, mas a genialidade implica que no haja imitao, e sim, que o artista, como se o entende a partir do romantismo, , doravante, um ser privilegiado, por en-trar em contato mgico com as foras da natureza, e no mais imit-las. o que pode acontecer se nos fixarmos exclusiva-mente numa historiografia que se consti-tua atravs de conceitos de outro tempo. Claro que, com isso, no quero questionar a validade dessa historiografia, ou de ex-perimentos poticos anacrnicos.

    Subtrpicos | Ao falar sobre o anacro-nismo, que neste contexto decoroso escapa aos malefcios da historiogra-fia tradicional, podemos report-lo a Walter Benjamin. No texto Tese sobre a histria, Benjamin faz cor-responder felicidade e salvao. No ambiente laico, felicidade; e no am-biente religioso, salvao. Em dilo-go com a sua pesquisa, podemos dizer que nessa produo de beleza tambm

    aparece a promessa de felicidade da prpria Eucaristia?Bastos | Leon Battista Alberti inicia o tratado De re aedificatoria, comentado antes, dizendo mais ou menos estas pa-lavras: o principal dever do arquiteto render felicidades vida dos homens. A vida do arquiteto se justificaria nesse sen-tido, fazendo com que suas obras corres-pondessem, simultaneamente, beleza, convenincia, dignidade, como um bem comum sagrado, pblico e poltico. Sobre a colocao de Walter Benjamin em relao ideia de salvao, de felicidade ou de beleza, lembro-me tambm de Baudelaire ativando aqueles dois sentidos de beleza, na modernidade um eterno e imutvel, e um histrico, efmero, relativo moda e seus contextos. Sempre h um substrato eterno de permanncia e beleza em toda obra de arquitetura religiosa, apesar das vicissitudes modais porque passou na his-tria, e em todas as culturas. uma apro-ximao bastante instigante.

    a arte que se discute devida e comedida por essas finalidades, meios e preceitos. Para o nosso olhar moderno, ps-romntico, ps-iluminista, tudo isso se apresenta como exagerado e suprfluo.

    Igreja de So Francisco de Assis, construda em 1766 por Antnio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e Manoel da Costa Atade, na antiga Vila Rica de Minas Gerais, hoje Ouro Preto

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    depois de 1945Livro de Hans Ulrich Gumbrecht sobrepe duas perspectivas, o trabalho e a recusa do passado, para contar de forma crtica, reflexiva e profundamente pessoal, a experincia alem (e europeia) do ps-guerra

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    O livro de Hans Ulrich Gumbrecht, De-pois de 1945: latncia como origem do pre-sente, recentemente lanado pela Editora Unesp (traduo de Ana Isabel Soares, 2014), apresenta como introduo uma breve remi-niscncia infantil: algum identificado como S est no carro com seus pais, em direo casa dos avs no interior da Alemanha, para a celebrao do Natal. Na estrada, diante deles, seguia um tanque americano que, de sbito, comeou a guinar esquerda e girar em crculos, como se entrasse numa dana selvagem, irresistvel e em acelerao cada vez maior. O resultado foi a destruio de um Fusca que ia logo frente do tanque, transformado numa sucata que no se pa-recia mais em nada com um automvel. O menino S fica impressionado com o que aconteceu, imaginando os dois corpos hu-

    manos fundidos naquela bola de metal que antes havia sido um automvel.

    quase duzentas pginas depois, a hist-ria retorna, mas agora narrada na primeira pessoa Gumbrecht se identifica direta-mente com a reminiscncia de S, agora ele quem conta, a histria do tanque ame-ricano faz parte da sua infncia. Mas essa repetio do relato da lembrana deve levar em considerao tudo que foi escrito e apre-sentado nessas duzentas pginas, ou seja, o esforo de Gumbrecht de perceber, nos ar-tefatos culturais do imediato ps-guerra filmes, livros, artigos de jornal, dirios, re-flexes filosficas, poemas , uma srie de indcios de que a Histria havia sado dos tri-lhos. Esses indcios levavam a uma espcie de angstia difusa com relao no apenas ao futuro, mas tambm com relao quilo que, vindo do passado, segue influenciando a vida do presente.

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    O primeiro elemento a destacar em De-pois de 1945, portanto, que Gumbrecht dispensa a necessidade de um objetivo fixo e determinado, preferindo, ao invs disso, transitar criticamente por um perodo his-trico, em busca daquilo que o autor (na esteira de, entre outros, Leo Spitzer) de-nomina Stimmung uma atmosfera, clima ou ambincia que se experimenta de modo subjetivo. Essa busca d coerncia ao pro-jeto, que mescla referncias de mltiplas coordenadas culturais e geogrficas: ainda que o foco principal seja a experincia ale-m do ps-guerra, referente infncia do prprio Gumbrecht, e que ele relaciona s obras de Martin Heidegger, Bertolt Brecht, Carl Schmitt e Wolfgang Borchert, Depois de 1945 articula tambm elementos da Frana (Sartre, Camus, Edith Piaf), da Itlia (a poe-sia de Pasolini, os filmes de Roberto Rosselli-ni), da Unio Sovitica (os romancistas Boris Pasternak e yuri Trifonov) e do Brasil (Joo Cabral de Melo Neto, Guimares Rosa).

    Esses poemas, romances, artigos e pro-posies filosficas lidam todos, argumenta Gumbrecht, em maior ou menor grau, com uma srie de latncias advindas da expe-rincia direta da II Guerra Mundial. Viver na certeza de uma presena que no tem identidade viver num estado de latncia, uma das definies dadas por Gumbrecht ao termo, ou ainda: a sensao, vaga mas segura, de que o futuro continha armazena-do um momento decisivo de desvelamento. Nesse sentido, a obra de Gumbrecht pode ser lida em consonncia com um conjunto de outras obras relacionadas, como as de W.G. Sebald (sua discusso sobre a mem-ria alem do ps-guerra em Guerra area e literatura) e Hans Magnus Enzensberger (no recente livro hbrido Hammerstein ou a obs-tinao), ou mesmo do mais recente Nobel de Literatura, o francs Patrick Modiano, que se ocupa sobretudo das ressonncias do colaboracionismo francs durante a ocupa-o nazista.

    Com Depois de 1945, Gumbrecht apri-mora uma investigao que abarca tambm seu livro Em 1926: vivendo no limite do tempo, que lanou originalmente em 1997. Essa investigao lida, entre outros temas, com o confronto entre dois paradigmas de relacionamento com o passado: de um lado, a perspectiva que investe no trabalho do passado, ou seja, a possibilidade de deix-lo para trs como condio para a construo do futuro; do outro lado, a perspectiva que investe em uma nova noo de temporali-dade, que recusa o abandono do passado. Para Gumbrecht, as duas perspectivas es-to frequentemente sobrepostas, em uma variedade quase infinita de combinaes e situaes nosso presente carregado de influncias temporais e histricas concomi-tantes. A soluo encontrada por Gumbrecht para, at certo ponto, clarear o terreno insistir na apreenso subjetiva do tempo e da histria. Por isso, Depois de 1945 , ao mesmo tempo, um livro tcnico, crtico, re-flexivo e profundamente pessoal.

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  • A homenagem de Salim Miguel aos grandes mestres do gnero policial no est apenas na arquitetura da trama e nos recursos narrativos, mas tambm no aux-lio solicitado a investigadores de primeira linha, como Sam Spade, Nero Wolfe, Phi-lip Marlowe, Ellery queen, o Padre Brown e o Inspetor Maigret. a eles que recorre Auguste Dupin, parceiro do personagem--narrador para, entre clices de bourbon e goles de cachaa, desvendar o mistrio e interrogar os suspeitos.

    Na obra de mais de 30 ttulos que Salim Miguel vem construindo desde seu primei-ro romance, em 1951, podemos aproximar Ns de As vrias faces (1994) e As confis-ses prematuras (1998) novelas que, a partir do roubo de um quadro e de um se-questro, colocam em cena interrogatrios e confrontos entre personagens. Alm des-sas afinidades mais especficas de gnero e de temtica, Ns traz marcas recorrentes na escrita de Salim, como a aluso a suas leituras prediletas ou ainda a figura de um personagem-narrador-autor impotente

    LUCIANA RASSIER

    Ns, leitores de Salim Miguel, somos, incontestavelmente, privilegiados. O Mes-tre deleita-se em nos surpreender, e desta vez nos prope uma novela policial que in-triga e seduz. Um bilhete annimo seguido de um telefonema lacnico. Um cidado pacato oculta um assassino implacvel. Um crime deixa a polcia e a mdia perplexas. Ningum sabe. Ningum viu. Mas, ao per-corrermos as pginas, vamos encontrando indcios esparsos: seis degraus, o detalhe de uma blusa, o salto de um sapato.

    Com os gestos apurados de um arteso, Salim Miguel tece os fios de sua narrativa e faz o acaso entremear destinos. Oriundos de diversos lugares do pas, os personagens acabam em Braslia, envolvidos no crime: um milionrio paraense, um rapaz catari-nense, uma moa goiana, um alagoano can-didato a vereador, um comissrio de polcia paulista. A situao confusa, o caso in-tricado. A vtima -e-no- quem se pensa. Como desfazer tantos ns?

    face pgina quase branca e a persona-gens que teimam em tomar as rdeas do prprio destino. Outras marcas so o arro-jo na forma; a habilidade na fragmentao e em sua articulao; as vozes plurais que multiplicam os pontos de vista para com-por um texto que transforma o leitor em co-autor.

    Em Ns, o escritor lbano-catarinense segue fiel a duas outras caractersticas de seu projeto literrio. Por um lado, compraz-se em recriar ficcionalmente a cidade onde vive. Assim, se at ento suas narrativas se ambientavam predomi-nantemente em Biguau, em Florianpolis e no Rio de Janeiro, os personagens de Ns convergem para Braslia, onde Salim Miguel e sua companheira de vida e de literatura, Egl Malheiros, moram desde 2014. Por outro lado, o Mestre urde seu texto com as dores, incoerncias, alegrias e dvidas inerentes a todo ser humano, lembrando que cada um de ns tem a chance e a responsabilidade de (re)escre-ver sua prpria histria e de decifrar seus prprios enigmas.

    essa instigante narrativa indita que a Editora da Universidade Federal de San-ta Catarina publica em homenagem aos 91 anos de Salim Miguel, que a dirigiu de 1983 a 1991, dotando-a de estrutura pro-fissional e do prdio que ocupa at hoje e tornando-a um dos principais agentes da criao da Associao Brasileira de Edito-ras Universitrias.

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    ns e enigmas de Salim Miguel

    ambientada em Braslia, onde atualmente reside com a mulher, egl Malheiros, novela policial do escritor catarinense Salim Miguel, que acaba de ser publicada pela editora da UFSC, homenageia os mestres do gnero

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    pesquisa acadmica, revistas (como Blide, Babel, Oroboro), jornais (como Rascunho, Relevo e o importantssimo Nicolau), saraus (como Vox Urbe) e seus novos bandidos que sabem latim.

    101 poetas paranaenses antologia de escritas poticas do sculo XIX ao XXI foi lan-ado pela Secretaria de Estado da Cultura, atravs da Biblioteca Pblica do Paran, em 2014. O trabalho foi publicado em dois volu-mes, com os poetas elencados por ordem de nascimento (1844-1959, 1959-1993). Do pro-jeto oficial consta a distribuio do livro para as bibliotecas municipais do estado. O livro um projeto de Estado, portanto. Melhor, um projeto de um poeta, Ademir Demarchi, dentro de um projeto de Estado. Talvez mais de um autor tenha se recusado a participar por motivos ideolgicos. Marilia kubota, por exemplo, tomou essa atitude. Mas ento o que eu estou fazendo ali na antologia? Penso que se o atual reacionrio governo estadual no nos representa, inimigo notrio que da educao e da cultura populares (e mesmo dos autores estaduais: basta ver a lista de convidados para os projetos da Biblioteca Pblica do Paran), o projeto de Demarchi, por sua vez, merece toda a considerao. E no apenas pelo monstruoso esforo de com-pletude. H nele, por exemplo, uma ateno particular diversidade. Rompe-se a exces-siva centralidade de Curitiba. Demarchi tam-bm no se eximiu, apresentando poesia de contestao poltica, inclusive a minha. No vejo compactuao poltica, mas um proje-to cultural de grande importncia. De resto, como os filsofos, os poetas realmente im-portantes so sempre contrrios aos exces-sos e s ossificaes perniciosas do poder.

    Lamento a ausncia de alguns nomes re-centes (no conheo bem os antigos), como Sabrina Bandeira Lopes e Bianca Lafroy (a

    poeta boneca semitica). O segundo volu-me, o dos de agora, quase uma ampliao de outra antologia tambm lanada esta-talmente por Demarchi (Passagens anto-logia de poetas contemporneos do Paran, 2002). S que ali (com kubota presente, para o nosso prazer), o antologista restringiu a 26 os poetas. Na antologia de 2014 h 51 con-temporneos, um nmero excessivo de poe-tas. Demarchi poderia ter sido mais rigoroso nos cortes contemporneos. O gozo de qual-quer antologista o da aposta. E Demarchi no teme tal risco. Acho at que acerta bem em algumas promessas que nos apresenta (autores como Bruna Siena, Alexandre Gaio-to, Adriano Scandolara e Priscilla Merizzio). Eu, porm, descartaria outro tanto.

    Vamos a alguns dados. Senti falta de dico popular, de poesia visual, de expe-rincias com prosa potica, o que gera certa padronizao e monotonia. Alm disso, vejo uma supervalorizao da linhagem rock curi-tibana dos anos 1980. H cerca de 20% de mulheres no livro, talvez pudesse ter mais. Poetas mais significativos tm por vezes me-nor espao que poetas... menores. E faltou o prprio Ademir Demarchi, que se incluiu na antologia de 2002. quem abre Piro de sereia, livro do poeta, encontra poesia da melhor qualidade. Estranhei esse silncio.

    Outro silncio se d quanto aos crit-rios, no diria de seleo, mas de incluso. A pergunta volta: o que separa o Paran? O que identifica os poetas paranaenses? O que um paranaense? O critrio to elstico que se um Jos Paulo Paes pode estar no livro, por que no um Dcio Pignatari (que morou e trabalhou em Curitiba no fim da vida)? Conversei com Marilia Kubota, que comunicou-me estranhamento quanto in-cluso de Nenpuku Sato, haicaista japons que viveu em So Paulo. Demarchi prope

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    O que identifica o Paran? Se atentarmos apenas capa da antologia de Demarchi, sua chancela oficial, ao seu propsito esco-lar, o Paran estaria identificado nos moldes modernistas: um pinheiro solitrio ilustra a capa. Para alm desse simplismo identit-rio, porm, o projeto de Demarchi pretende trabalhar com o desenraizamento cultural, o que lhe d uma pegada mais ps-moderna. Reparemos que se espera do escritor do es-tado nada menos que honrar certa herana especialmente grandiosa. De algumas dca-das para c, o Paran se tornou um estado literrio. E tudo j poderia ter comeado no fim do sculo 19. A valiosa manifestao li-terria do Simbolismo paranaense, porm, no logrou deixar herdeiros imediatos, isto , no se fez impulso para a continuidade de um sistema literrio. Um vcuo depois do Simbolismo, portanto, at que chegam Dalton Trevisan e o furaco Leminski. Tudo esquenta no estado frio no fim do sculo vin-te. Tudo frutifica em alta voltagem esttica. Para citar os mais inventivos: Manoel karam, Jamil Snege, Wilson Bueno, Ricardo Corona, Josely Vianna Baptista, Valncio xavier, Ja-ques Brand. Sem contar a profissionalizao entre o possvel e o estrondoso de Domingos Pellegrini, Miguel Sanches Neto, Cristovo Tezza (catarinense de Lages), Caetano Ga-lindo. E o retumbante paiol de jovens poe-tas fortemente armados. O Paran se tornou sistema literrio, no paradigma de Antonio Candido. Tem continuidade de influncias, tem aparato institucional, burocracia liter-ria, livrarias globalizadas, coletivos (como o pessoal do Escamandro), crtica, tradutores,

    sombra do cachorro louco e distribuda nas escolas pela Biblioteca Pblica do estado vizinho, antologia de 101 poetas do Paran, organizada por ademir demarchi, entre erros e acertos, expe uma produo que movimenta uma cultura rica em dissonncia e diversidade

    Poeta e tradutor, Jaques Brand

    autor de Brisais (1997)

  • haver uma linhagem de haicaistas originada em Sato, passando por Paulo Leminski, Alice Ruiz, e desembocando num Alvaro Posselt, por exemplo. A aposta arriscada, de difcil comprovao. Nesse sentido, vale dar uma olhada na introduo de Demarchi ao livro. Antes, porm, voltemos brevemente anto-logia Passagens.

    No livro de 2002, Demarchi explicitava, ainda que no o discutindo a fundo, o critrio de incluso: O critrio de serem nascidos ou residentes no Paran foi definido basicamen-te por tratar-se de publicao oficial do Esta-do do Paran... (p. 11) Outro critrio, natu-ral em se tratando de antologia de contem-porneos, foi o geracional. O dado esttico, assegurava, no fora o norteador principal, pois apenas os inditos poderiam ser enqua-drados nele. Os demais foram selecionados tendo em vista a visibilidade que alcanaram atravs do trabalho j realizado (p. 11) O ncleo duro do livro, em termos geracionais, compreendeu poetas nascidos entre 1956 a 1965. Demarchi destacava a diversidade en-contrada e o esforo que j se fazia ali no sentido de privilegiar tambm autores do in-terior do estado e alguns oriundos de outras unidades da federao. O Paran chegava a ser definido ali como uma terra de desen-raizados. Por fim, de fato no se esqueceu do critrio esttico, uma vez que Leminski citado no volume como um pai a ser negado (Contra o cachorro louco, uma refern-cia a ser superada). Isso pautou inclusive a seleo de textos: ignorar os haicais e evitar os poemas que lembrassem demais a retrica de Leminski na produo dos poetas selecionados. (p.18)

    Acho esse dado final importantssimo, no se restringindo antologia de Demarchi. quando Ricardo Corona estava para lanar sua antologia Outras praias 13 poetas bra-

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    sileiros emergentes (1997), com a maioria dos poetas sendo paranaenses (oito deles), sondou-me para escrever um estudo sobre o material. Na poca, escrevi um texto co-mentando a filiao leminskiana presente na dico de vrios deles, motivo alegado por Corona para no aceitar o ensaio (a Intro-duo, muito boa por sinal, foi escrita por Antonio Risrio). Estabelecer a consagra-o passa por essa negao da paternidade, mesmo um crtico conservador como Harold Bloom sabe disso. qualquer sociologia da literatura tambm pode apontar o mesmo. Independentemente dos erros ou acertos ao postular tal filiao ainda muito impregnada nos emergentes, o fato de sugeri-la j se constitui em atentado, por desfazer certa iluso inerente ao campo literrio. Paulo Le-minski, para o bem e o mal, um osso duro de engolir. Hoje talvez as coisas estejam mais sedimentadas, pois o prprio cachorro louco se tornou mainstream. No se trata mais, portanto, de uma herana a ser confir-mada ou negada. Leminski est num univer-so parte, o do mercado e o da oficializao (a exposio montada pela famlia para sua celebrao, por exemplo, assemelha-se canonizao ou biografia chapa-branca). Mas naquele perodo, de Outras praias e de Passagens, negar Leminski ainda era funda-mental para a afirmao dos emergentes e contemporneos.

    Em 101 poetas, Paulo Leminski j no um problema. O panorama amplo faz com que se dilua a presena do poeta cannico. O panorama to exagerado que o livro qua-se no gerou polmicas. Um autor, j no me lembro quem, queixou-se da ausncia de poetas do grupo Encontrovrsia, como Leo-poldo Scherner. Nada de muito importante, creio, pois do grupo citado apenas Scherner me parece um poeta mais intenso. A falta

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    de polmicas pode ser atribuda sem muito medo excessiva incluso de nomes con-temporneos. Ivan Justen Santana tambm apontou alguns nomes, pesquisador que dos poetas mais antigos. O prprio Demarchi destaca nomes antigos que por um motivo ou outro ficaram de fora. Outro algum falou da estranheza em se ter Trevisan citado como poeta no livro, numa espcie de trfico de gneros (nesse sentido, uma pena a ausn-cia do Valncio xavier de Minha me mor-rendo). Por fim, algum poeta deve ter ques-tionado o nepotismo leminskiano: pai, me e a filha Estrela Ruiz Leminski. De qualquer modo, considervel o alcance proposto por Demarchi. Para alm do desenraizamento, como j dissemos, h tambm o esforo de descentralizao.

    O que no se discute, no entanto, na an-tologia recente, uma definio do para-naense. E ainda que a capa do livro, chan-cela oficialesca, traga o Paranismo de volta, com seu manjado pinheirinho, quase no h (e nem acho que deveria haver), na prpria seleo dos poemas, poemas que tematizem a identidade estadual. Na Introduo (A poesia que se vive), Demarchi esclarece seus critrios: a poesia do estado recen-te, o que resulta em mais contemporneos. O critrio foi o da diversidade bablica, do rizoma e da polifonia. O organizador prope quatro perodos de vida cultural no estado: o simbolista, o de Dalton Trevisan (anos 1940), o que sofre o influxo direto de Leminski e do jornal Nicolau (1960 a 2000) e o da ltima dcada. Como trabalha com a noo de vida cultural, Demarchi prope como critrio de seleo poetas que trabalharam a dissonn-cia cultural (dentro dos critrios negativos para o modernismo cunhados por Hugo Frie-drich). Nas entrelinhas pode-se ler ali uma tentativa de no se filiar ao discurso oficial que d guarida ao projeto editorial. Ocorre assim que o livro seja um hbrido de projeto escolar (oficial, portanto) e projeto pessoal. Por fora (e na relao de autoridades tortas presentes na ficha bibliogrfica), o livro uma coisa. Por dentro, outra. Esse hibri-dismo diz muito da prpria discusso sobre identidade paranaense. Afinal, o que separa o Paran?

    Por fim, entre os 101 poetas selecio-nados, gostaria de destacar alguns nomes menos bvios. Ao lado de muitos poetas bastante fracos (e se o que se tem uma seleta de poucas pginas, fico imaginando o grosso da produo de cada um deles...), h poetas excelentes e relativamente pouco conhecidos. Como os contemporneos ainda esto em processo, cito apenas do primeiro volume, na plenitude da forma: Jair Ferreira dos Santos (excepcional), Jairo B. Pereira, Jaques Brand e Jussara Salazar. S os quatro j bastariam para representar a dissonncia proposta como norte por Ademir Demarchi. E como o contemporneo no questo apenas de cronologia (como prope Giorgio Agamben), so escritores mais eficazes (vi-rulentos) nos tempos que se passam do que muitos dos nomes mais novos. RI

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    Poeta e artista plstica, Jussara Salazar escreveu, entre outros, Natlia (2004) e Carpideiras (2011)

  • eduardovalente

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    gosta de sair sem compromisso para retratar outras coisas alm do factual.

    (Florianpolis, 1990) reprter fotogrfico com sede de hard news, mas que s vezes

    Imagem feita no Prmio Desterro / 4o Festival de Dana Contempornea de Florianpolis, em 2013. Fugindo um pouco da minha rotina diria do fotojornalismo, pude ousar nos registros, utilizando a tcnica de baixa velocidade da cmera, o que proporciona movimento foto.