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Camilo Pessanha: Clepsidra

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"Clepsidra" de Camilo Pessanha Lisboa, Casa Editora Lusitânia, 1920

Text of Camilo Pessanha: Clepsidra

  • Clepsidrade Camilo Pessanha

    Lisboa, Casa Editora Lusitnia, 1920

    INSCRIO

    Eu vi a luz em um pas perdido.A minha alma lnguida e inerme.Oh! Quem pudesse deslizar sem rudo!No cho sumir-se, como faz um verme...

  • 2SONETOS

    I

    Tenho sonhos cruis: n'alma doenteSinto um vago receio prematuro.Vou a medo na aresta do futuro,Embebido em saudades do presente...

    Saudades desta dor que em vo procuroDo peito afugentar bem rudemente,Devendo ao desmaiar sobre o poente,Cobrir-mo corao dum vu escuro!...

    Porque a dor, esta falta de harmonia,Toda a luz desgrenhada que alumiaAs almas doidamente, o cu de agora,

    Sem ela o corao quase nada: Um sol onde expirasse a madrugada,Porque s madrugada quando chora.

    II

    Encontraste-me um dia no caminhoEm procura de qu, nem eu o sei. Bom dia, companheiro, te saudei,Que a jornada maior indo sozinho.

    longe, muito longe, ha muito espinho!Paraste a repousar, eu descansei...Na venda em que poisaste, onde poisei,Bebemos cada um do mesmo vinho.

    no monte escabroso, solitrio,Corta os ps como a rocha dum calvrio,E queima como a areia!... Foi no entanto

    Que chormos a dor de cada um...E o vinho em que choraste era comum:Tivemos que beber do mesmo pranto.

    III

    Fez-nos bem, muito bem, esta demora:Enrijou a coragem fatigada...Eis os nossos bordes da caminhada,

  • 3Vai j rompendo o sol: vamos embora.

    Este vinho, mais virgem do que a aurora,To virgem no o temos na jornada...Enchamos as cabeas: pela estrada,Daqui inda este nctar avigora!...

    Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,Eu quero arrostar s todo o caminho,Eu posso resistir grande calma!...

    Deixai-me chorar mais e beber mais,Perseguir doidamente os meus ideais,E ter f e sonhar encher a alma.

  • 4ESTTUA

    Cansei-me de tentar o seu segredo:No teu olhar sem cor, frio escalpelo, O meu olhar quebrei, a debate-lo,Como a onda na crista dum rochedo.

    Segredo dessa alma, e meu degredoE minha obsesso! Para bebe-lo,Fui teu lbio oscular, num pesadelo,Por noites de pavor, cheio de medo.

    E o meu osculo ardente, alucinado,Esfriou sobre o mrmore correctoDesse entreaberto lbio gelado...

    Desse lbio de mrmore, discreto,Severo como um tmulo fechado,Sereno como um plago quieto.

  • 5OLVIDO

    Desce por fim sobre o meu coraoO olvido. Irrevocvel. Absoluto.Envolve-o grave como vu de luto.Podes, corpo, ir dormir no teu caixo.

    A fronte j sem rugas, distendidasAs feies, na imortal serenidade,Dorme enfim sem desejo e sem saudadeDas coisas no logradas ou perdidas.

    O barro que em quimera modelasteQuebrou-se-te nas mos. Via uma flor...Pes-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...

    Ias andar, sempre fugia o cho,At que desvairavas, do terror.Corria-te um suor, de inquietao...

  • 6MADALENA

    ...e lhe regou de lgrimas os ps,e os enxugava com os cabelos da sua cabea.

    Evangelho de S. Lucas.

    Madalena, cabelos de rastos,Lrio poludo, branca flor intil,Meu corao, velha moeda ftil,E sem revelo, os caracteres gastos,

    De resignar-se torpemente dctil,Desespero, nudez de seios castos,Quem tambm fosse, cabelos de rastos,Ensanguentado, enxovalhado, intil,

    Dentro do peito, abominvel cmico!Morrer tranquilo, o fastio da cama. redeno do mrmore anatmico,

    Amargura, nudez de seios castos,Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama, Madalena, cabelos de rastos!

  • 7NO CLAUSTRO DE CELAS

    Eis quanto resta do idlio acabado, Primavera que durou um momentoComo vo longe as manhs do convento! Do alegre conventinho abandonado..

    Tudo acabou... Anmonas, hidrngeas,Silindras flores to nossas amigas!No claustro agora viam as ortigas,Rojam-se cobras pelas velhas ljeas.

    Sobre a inscrio do teu nome delido! Que os meus olhos mal podem soletrar,Cansados ... E o aroma fenecido

    Que se evola do teu nome vulgar!Enobreceu-o a quietao do olvido,O doce, ingnua. inscrio tumular.

  • 8PAISAGENS DE INVERNO

    I.

    (A Alberto Osrio de Castro)

    meu corao, torna para trs.Onde vais a correr desatinado?Meus olhos incendidos que o pecadoQueimou! Volvei, longas noites de paz.

    Vergam da neve os olmos dos caminhos.A cinza arrefeceu sobre o brasido.Noites da serra, o casebre transido...Cismai, meus olhos, como uns velhinhos.

    Extintas primaveras, evocai-as. J vai florir o pomar das macieiras.Hemos de enfeitar os chapus de maias.

    Sossegai, esfriai, olhos febris... E hemos de ir a cantar nas derradeirasLadainhas... Doces vozes senis...

    II

    (A Ana Anbal de Azevedo)

    Passou o outono j, j torna o frio... Outono de seu riso magoado.lgido inverno! Obliquo o sol, gelado... O sol, e as guas lmpidas do rio.

    guas claras do rio! guas do rio,Fugindo sob o meu olhar cansado,Para onde me levais, meu corao vazio?

    Ficai, cabelos dela, flutuando,E, debaixo das guas fugidias,Os seus olhos abertos e cisando...

    Onde ides a correr, melancolias? E, refractadas, longamente ondeando,As suas mos translcidas e frias...

  • 9SAN GABRIEL

    I

    Intil! Calmaria. J colheramAs velas. As bandeiras sossegaram,Que to altas nos topes tremularam, Gaivotas que a voar desfaleceram.

    Pararam de remar! Emudeceram!(Velhos ritmos que as ondas embalaram)Que cilada que os ventos nos armaram!A que foi que to longe nos trouxeram?

    San Gabriel, arcanjo tutelar,Vem outra vez abenoar o mar,Vem-nos guiar sobre a plancie azul.

    Vem-nos levar conquista finalDa luz, do Bem, doce claro irrealOlhai! Parece o Cruzeiro do Sul!

    II

    Vem conduzir as naus, as caravelas,Outra vez, pela noite, na ardentia,Avivada das quilhas. Dir-se-iaIrmos arando em um monto de estrelas.

    Outra vez vamos! Cncavas as velas,Cuja brancura, rtila de dia,O luar dulcifica ... FeeriaDo luar no mais deixes de envolv-las!

    Vem guiar-nos, Arcanjo, nebulosaQue do alm vapora, luminosa,E noite lactescendo, onde, quietas,

    Fulgem as velhas almas namoradas Almas tristes, severas, resignadas,De guerreiros, de santos, de poetas.

  • 10

    Tatuagens complicadas do meu peito:Trofus, emblemas, dois lees alados...Mais, entre coraes engrinaldados,Um enorme, soberbo, amor-perfeito...

    E o meu braso ... Tem de oiro, num quartelVermelho, um lis; tem no outro uma donzela,Em campo azul, de prata o corpo, aquelaQue no meu brao como que um broquel.

    Timbre: rompante, a megalomania...Divisa: um ai que insiste noite e diaLembrando runas, sepulturas rasas...

    Entre castelos serpes batalhantes,E guias de negro, desfraldando as asas,Que reala de oiro um colar de besantes!

  • 11

    FONGRAFO

    Vai declamando um cmico defunto.Uma plateia ri, perdidamente,Do bom jarreta... E h um odor no ambienteA cripta e a p do anacrnico assunto.

    Mudo o registo, eis uma barcarola:Lrios, lrios, guas do rio, a lua...Ante o Seu corpo o sonho meu flutuaSobre um paul exttica corola.

    Muda outra vez: gorjeios, estribilhosDum clarim de oiro o cheiro de junquilhos,Vvido e agro! tocando a alvorada...

    Cessou. E, amorosa, a alma das cornetasQuebrou-se agora orvalhada e velada.Primavera. Manh. Que eflvio de violetas.

  • 12

    Esvelta surge! Vem das guas, nua,Timonando uma concha alvinitente!Os rins flexveis e o seio frementeMorre-me a boca por beijar a tua.

    Sem vil pudor! Do que h que ter vergonha?Eis-me formoso, moo e casto, forte.To branco o peito! para o expor MorteMas que ora a infame! no se te anteponha.

    A hidra torpe! ... Que a estrangulo ... Esmago-aDe encontro rocha onde a cabea te h-de,Com os cabelos escorrendo gua,

    Ir inclinar-se, desmaiar de amor,Sob o fervor da minha virgindadeE o meu pulso de jovem gladiador.

  • 13

    Desce em folhedos tenros a colina: Em glaucos, frouxos tons adormecidos,Que saram, frescos, meus olhos ardidos,Nos quais a chama do furor declina

    Oh vem, de branco do imo da folhagem!Os ramos, leve, a tua mo aparte.Oh vem! Meus olhos querem desposar-te.Reflectir-te virgem a serena imagem.

    De silva doida uma haste esquivaQuo delicada te osculou num dedoCom um aljfar cor-de-rosa viva!...

    Ligeira a saia ... Doce brisa impele-a...Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!Alma de silfo, carne de camlia...

  • 14

    Floriram por engano as rosas bravasNo Inverno: veio o vento desfolh-las...Em que cismas, meu bem? Porque me calasAs vozes com que h pouco me enganavas?

    Castelos doidos! To cedo castes!...Onde vamos, alheio o pensamento,De mos dadas? Teus olhos, que um momentoPerscrutaram nos meus, como vo tristes!

    E sobre ns cai nupcial a neve,Surda, em triunfo, ptalas, de leveJuncando o cho, na acrpole de gelos...

    Em redor do teu vulto como um vu!Quem as esparze quanta flor! do cu,Sobre ns dois, sobre os nossos cabelos?

  • 15

    VNUS

    I

    flor da vaga, o seu cabelo verde,Que o torvelinho enreda e desenreda...O cheiro a carne que nos embebeda!Em que desvios a razo se perde!

    Ptrido o ventre, azul e aglutinoso,Que a onda, crassa, num balano alaga,E reflui (um olfacto que embriaga)Que em um sorvo, murmura de gozo.

    O seu esboo, na marinha turva...De p flutua, levemente curva;Ficam-lhe os ps atrs, como voando...

    E as ondas lutam, como feras mugem,A lia em que se desfazem disputando,E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

    II

    Singra o navio. Sob a gua claraV-se o fundo do mar, de areia fina Impecvel figura peregrina,A distncia sem fim que nos separa!

    Seixinhos da mais alva porcelana,Conchinhas tenuemente cor-de-rosa,Na fria transparncia luminosaRepousam, fundos, sob a gua plana.

    E a vista sonda, reconstrui, compara.Tantos naufrgios, perdies, destroos! flgida viso, linda mentira!

    Rseas unhinhas que a mar partiraDentinhos que o vaivm desengastara...Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

  • 16

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