Click here to load reader

O nominalismo em Hobbes Bernardo Bianchi Barata · PDF filefundação princípios tais que as paixões ... de Ockham predecessor da filosofia política moderna. ... e a teoria da linguagem

  • View
    214

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of O nominalismo em Hobbes Bernardo Bianchi Barata · PDF filefundação...

  • Revista Estudos Hum(e)anos ISSN 2177-1006

    Nmero 0, 2010/01

    15

    O nominalismo em Hobbes

    Bernardo Bianchi Barata Ribeiro pesquisador do Laboratrio de Estudos Hum(e)anos.

    ___________________________________________________________________

    Resumo

    A partir de uma tomada das principais motivaes do surgimento e desenvolvimento do mtodo resolutivo-compositivo que estrutura o pensamento hobbesiano, realizaremos um esforo analtico para demonstrar a primazia do elemento nominalista na obra de Hobbes. Com isso procuramos evidenciar que a busca de Hobbes pela certeza tem por base a radicalizao da incerteza, ou melhor, o recolhimento da Razo aos seus objetos adequados. Tratamos propriamente das analogias ou afinidades eletivas e no filiaes entre Abelardo e Ockham. Fazemos uma oposio entre o tipo de nominalismo subjacente filosofia da linguagem de Hobbes e o nominalismo de Abelardo e Ockham. Examinaremos, tambm, algumas peculiaridades do pensamento de Hobbes que lhe renderam o ttulo de ultranominalista por parte de Leibniz. Procuramos explorar a centralidade do elemento nominalista para todo desenvolvimento da filosofia hobbesiana. O nominalismo figura, ento, como verdadeiro ponto arquimediano deste pensamento maldito. Cumpre-nos, portanto, investigar que espcie de nominalismo est presente em Hobbes. Isto s poder ser feito se analisarmos as aparentes contradies entre o materialismo e o dogmatismo moral, de um lado, e o nominalismo, do outro. Fundamentalmente, analisamos Hobbes sob o signo da vontade de realismo.

    Palavras-chave:

    Hobbes, Nominalismo

    Abstract

    From an outlet of the main motivations of the emergence and development of the resolutive-compositional method that structures the Hobbesian thought, we conduct an analitical attempt to demonstrate the primacy of the "nominalist element" in the works of Hobbes. With this, we seek to show that the search for certainty of Hobbes is based on the radicalization of uncertainty, or rather the recollection of Reason to their proper objects. We properly treat the elective affinities or analogies - not membership - between Abelard and Ockham. We do a kind of opposition between the nominalism philosophy subjacent to the philosophy of language of Hobbes and to the nominalism of Abelard and Ockham. We also review some of the peculiarities of Hobbes's thought that gained oriented the atribution of the title of ultranominalist by Leibniz. We seek to explore the centrality of the nominal element for the entire development of the Hobbesian philosophy. Nominalism appears, then, as a true Archimedean point of this accursed thought. It is a must, therefore, to investigate what sort of nominalism i present in Hobbes. This can only be done by the examination of the apparent contradictions between materialism and moral dogmatism on one hand, and nominalism on another. Fundamentally, Hobbes is analised under the sign of the will of realism.

  • Revista Estudos Hum(e)anos ISSN 2177-1006

    Nmero 0, 2010/01

    16

    Key words

    Hobbes, Nominalism

    ___________________________________________________________________

    Introduo

    A partir das duas principais partes da nossa natureza, Razo e Paixo, procederam dois tipos de saber: o matemtico e o dogmtico. O primeiro livre de controvrsias e disputas, uma vez que consiste to-somente na comparao de figuras e movimentos; a respeito destas coisas, a verdade e o interesse dos homens no se opem reciprocamente. Mas, no caso do segundo, tudo passvel de disputa, pois este compara os homens e se intromete nos seus direitos e ganhos. Assim, to logo a razo oponha-se a um homem, este imediatamente se opor razo. E disto decorre que aqueles que escreveram sobre justia e poltica em geral contradizem uns aos outros e a si mesmos. Para reduzir esta doutrina s regras e infalibilidade da razo, no h outro jeito seno, primeiramente, estabelecer como fundao princpios tais que as paixes sem os contraditarem no procurem desloc-los: e, depois, construir sobre tal fundao a verdade dos fatos segundo a lei da natureza (os quais, at aqui, tem sido construdos no ar) por etapas, at que o todo seja inexpugnvel (traduo livre)[1].

    omeamos este trabalho por uma citao to longa quanto reveladora. Nela, encontram-se as principais motivaes do surgimento e desenvolvimento do mtodo resolutivo-compositivo que estrutura o pensamento hobbesiano. A par

    das causas eficientes do mtodo, realizaremos um esforo analtico para demonstrar a primazia do elemento nominalista na obra de Hobbes. Com isso procuramos evidenciar que a busca de Hobbes pela certeza tem por base a radicalizao da incerteza, ou melhor, o recolhimento da Razo aos seus objetos adequados.

    O trabalho se divide em trs partes. Na primeira, tratamos propriamente das analogias ou afinidades eletivas e no filiaes entre Abelardo e Ockham. Na primeira seo da parte seguinte, fazemos uma oposio entre o tipo de nominalismo subjacente filosofia da linguagem de Hobbes e o nominalismo de Abelardo e Ockham. Examinaremos, tambm, algumas peculiaridades do pensamento de Hobbes que lhe renderam o ttulo de ultranominalista por parte de Leibniz. Na segunda parte, procuramos explorar a centralidade do elemento nominalista para todo desenvolvimento da filosofia hobbesiana. O nominalismo figura, ento, como verdadeiro ponto arquimediano deste pensamento maldito. Cumpre-nos, portanto, investigar que espcie de nominalismo est presente em Hobbes. Isto s poder ser feito se analisarmos as aparentes contradies entre o materialismo e o dogmatismo moral, de um lado, e o nominalismo, do outro. Fundamentalmente, analisamos Hobbes sob o signo da vontade de realismo.

    I. Abelardo e Ockham: o desvelamento do pensamento

    Poderamos tratar aqui da influncia de Ockham na obra de Hobbes, contaminao esta que, dada a celebridade de Ockham na Inglaterra dos Stuarts, no seria difcil de

    C

  • Revista Estudos Hum(e)anos ISSN 2177-1006

    Nmero 0, 2010/01

    17

    estabelecer. Porm, este no o objeto do trabalho. Isto implicaria toda sorte de arbitrariedades e exageros, como tornar Hobbes um herdeiro do nominalismo ou fazer de Ockham predecessor da filosofia poltica moderna. Cumpre-nos, portanto, atentar para as semelhanas crucias entre o nominalismo, tal como desenvolvido por Abelardo e Ockham, e a teoria da linguagem presente em Hobbes. Pois inquestionvel que a ateno a certos problemas anlogos pautou a obra destes trs autores. Em relao exposio dos pensamentos de Abelardo e Ockham, priorizamos a nfase de duas questes: (i) o que o verdadeiro e (ii) que tipo de relao se estabelece entre os objetos e o entendimento que formamos deles. Procuraremos mostrar ainda que em ambos os autores medievais, o verdadeiro no se restringe linguagem (falada ou escrita), mas que algo afirmado na mente pela apreenso das coisas materiais. Isto, conforme veremos mais tarde, os pe em franca oposio a Hobbes.

    I.1. Pedro Abelardo: muito alm do vocalismo e da metafsica dos universais

    O nominalismo representa uma intuio fina que atravessa o pensamento escolstico e desmonta a sua rgida carapaa dogmtica. Consiste numa corrente de pensamento escolstico, principalmente desenvolvida por Pedro Abelardo e Guilherme de Ockham que se situa num momento ps-escolstico , que se opunha reificao da inteleco. Em ltima instncia, este movimento envolve a desontologizao do entendimento humano, insurgindo-se contra o hbito de tomar os nomes e conceitos que formulamos como se fossem as coisas consideradas em si mesmas e no signos das nossas cogitaes a respeito destas coisas.

    A polmica entre nominalistas e realistas remetia ao status da lgica, tal como elaborada por Aristteles, Porfrio e Bocio. Isto se materializou de forma vvida quanto natureza dos universais. Afinal, seriam estes nomes coisas reais? Isto , existiriam os universais nos distintos indivduos dos quais predicvel? O partido realista defendia a realidade dos universais, isto , tomava-os como coisas (res). Assim, e.g., certas correntes realistas defendiam que todos os membros de uma espcie ou gnero teriam alguma essncia real em comum, pelo que eles seriam tal espcie ou tal gnero. Portanto, se para um realista, a humanidade uma realidade; para os nominalistas, a nica coisa real so os indivduos humanos[2]. Contudo, deve-se ter em mente a extrema diversidade das opinies realistas, bem como daquelas de seus antagonistas, os nominalistas.

    A formulao mais radical do nominalismo foi chamada de vocalismo ou verbalismo[3] e constitua na reduo dos universais a vozes (voces), isto , a sons vocais. Este o posicionamento de Roscelino tal como foi recepcionado pelo seu tempo e pela posteridade. O universal seria um flatus vocis ou um sopro de voz. Assim, o vocalismo, em contraponto ao realismo, opunha voz (vox) a coisa (res). Porm, ao mesmo tempo, se confundia a idia geral com a palavra pela qual esta assinalada. E abria-se mo de toda dimenso significativa das idias gerais. Como salienta Gilson, subsiste ento o problema de saber como esses rudos, que constituem a linguagem falada, proporcionam um sentido ao pensamento[4]. Ou seja, d-se a reduo da lgica gramtica, fenmeno para o qual Abelardo esteve atento. A reduo da lgica ao nvel da gramtica implicava a renncia a toda possibilidade de demonstrao da verdade, importando apenas a construo completa de uma sentena, ligando um sujeito e um predicado atravs de uma cpula o verbo ser.

  • Revista Estudos Hum(e)anos ISSN 2177-1006

    Nmero 0, 2010/01

    18

    Em Lgica para principiantes, Abelardo distingue duas formas de atribuio de qualidade s coisas: a lgica e a gramtica[5]. primeira, importam as ligaes de predicao. J segunda, importam as ligaes de construo, a qual boa todas as vezes que apresenta uma sentena completa, quer a coisa seja assim ou no[6]. Nada impe