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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLNDIA

    MARLIA DIAS FERREIRA

    ALPHONSUS DE GUIMARAENS: O vocabulrio neolgico em sua obra

    Uberlndia 2007

  • MARLIA DIAS FERREIRA

    ALPHONSUS DE GUIMARAENS: O vocabulrio neolgico em sua obra

    Dissertao apresentada ao programa de Ps-graduao em Lingstica Curso de Mestrado em Lingstica, do Instituto de Letras e Lingstica da Universidade Federal de Uberlndia, como requisito parcial para a obteno do ttulo de mestre em Lingstica. rea de Concentrao: Estudos em Lingstica e Lingstica Aplicada. Orientador: Prof. Dr. Evandro Silva Martins

    Uberlndia 2007

  • Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)

    F383a

    Ferreira, Marlia Dias, 1962- Alphonsus de Guimaraens : o vocabulrio neolgico em sua obra / Marlia Dias Ferreira. - 2007. 171 f. Orientador: Evandro Silva Martins. Dissertao (mestrado) Universidade Federal de Uberlndia, Programa de Ps-Graduao em Lingstica. Inclui bibliografia.

    1.Neologismos Dicionrios Teses. I..Guimaraens, Alphonsus de,

    1870-1921 - Crtica e interpretao. I. Martins, Evandro Silva. II.

    Universidade Federal de Uberlndia. Programa de Ps-Graduao em

    Lingstica. III. Ttulo.

    CDU: 801.316.1

    Elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UFU / Setor de Catalogao e Classificao / mg 06/07

  • Dedico este trabalho a minha me, D. Evonlia,

    presena marcante em toda a minha vida, com sua

    mxima, que acredito nem ser de sua autoria: o

    saber no ocupa lugar! sempre me estimulando a

    estudar um pouco mais..., ao meu querido Antnio

    Cirilo, e aos meus filhos amados: Maria Lusa e

    Matheus Henrique, pelo carinho solidrio que os trs

    me dedicaram durante estes trs anos.

  • AGRADECIMENTOS

    A Deus, que sempre foi meu guia, dadivando-me com luz e oportuna sabedoria.

    Universidade Federal de Uberlndia, em particular ao Instituto de Letras e Lingstica, onde, na vivncia cotidiana com professores, funcionrios e colegas ps-graduandos, encontrei todas as orientaes de que precisei para chegar a essa pgina e a todas que a sucedem.

    Ao meu estimado mestre, Prof. Dr. Evandro, por tudo que o constitui enquanto educador, orientador e ser humano, que , sem dvida, um presente celestial concedido a todos aqueles que receberam a privilegiosa graa de t-lo tido como um dos agentes contribuidores de sua formao, como eu.

    querida Prof. Alice, pela nova viso de mundo que me deu de forma to firme e sutil.

    Ao meu querido Prof. Magalhes, pelas portas que me abriu dando-me um pouco de conhecimento na rea de Fonologia; pela sua cortesia, e, por aquilo que de mais nobre pode um ser humano levar consigo a todo lugar a sua enorme boa-vontade.

    UNIUBE, pelo departamento de obras raras; e aos funcionrios da biblioteca da UNIUBE, em especial, Mrcia e sua equipe, pela pacincia e pela receptividade.

    A todos os meus familiares e amigos, que torceram por mim sempre, especialmente minha tia Eurpida, minha irm Maril, o primo Enildo e o meu querido sobrinho, Tiago.

    A Hedy, por sua orientao, e grande ajuda nos textos de Lngua Francesa. Ao Curso de Ingls Michigan, de Uberaba, pela constante e fraterna solidariedade. Ao Colgio Objetivo de Uberaba, pela parceria e apoio que me dispensaram. A minha amiga-irm Zeza, por ter sido sempre a me-fiel dos meus filhos na minha

    ausncia fsica e, at mesmo, na minha presena virtual.

    tia Nenzinha por toda sua colaborao, primeiro com os meus filhos, e depois comigo mesma, socorrendo-me sempre; e minha querida tia Ansia, pelo exemplo de fora.

    Aos meus filhos, Maria Lusa e Matheus Henrique, por todas as vezes que os deixei sozinhos sem mim pela compreenso e apoio. Eu espero que um dia eles me perdoem, com compreenso, por todas as minhas ausncias.

    Ao companheiro de todas as horas, Antnio Cirilo, pela solidariedade fiel no meu empreendimento, pela fora constante, pela compreenso, por todas as vezes que foi preterido, e no fez cobranas, deixando-me segura e forte; e pelas horas cansadas em que fazia vista grossa aos meus stresses e pitis.

  • (1870 1921)

  • Uma das coisas que mais chamam a ateno na obra de Alphonsus seu conhecimento da lngua. O idioma em suas mos um instrumento dcil, e riqussimo. s vezes, por necessidade potica, principalmente como recurso de evaso, ele usa formas arcaicas, outras vezes, ele cria, com grande independncia e propriedade, palavras ou compostos novos (neologismos), como: beira-cu, flordelisado e confessanda. (MELO, 1958, p. 15, destaque nosso).

  • RESUMO

    Este trabalho tem como objetivo fazer o levantamento do vocabulrio neolgico na obra de Alphonsus de Guimaraens para oferecer uma parcela de contribuio na criao de um glossrio lingstico, trazendo subsdios para a confeco do Dicionrio dos Neologismos Literrios do Portugus do Brasil, um projeto-maior do professor doutor Evandro Silva Martins. Esta uma pesquisa bibliogrfica, que consiste no estudo de alguns processos de criao neolgica, apoiada na poesia e na prosa de Alphonsus de Guimaraens. Parte-se da hiptese de que, Alphonsus de Guimaraens, atravs de sua criao neolgica, promove um certo resgate da Lngua Portuguesa, seja revisitando significados, seja criando novos significados para significantes j existentes, seja criando novos significantes. O neologismo semntico parte, normalmente, de uma base lexical j existente na lngua; porm assume um novo sentido devido a sua nova contextualizao. Por isso, a grande importncia do contexto para a boa interpretao neolgica. Visando alcanar os objetivos especficos da pesquisa, faz-se a checagem da contribuio de Alphonsus de Guimaraens para o lxico da lngua e quais os neologismos semnticos, em sua produo literria, capazes de subsidiar a elaborao do dicionrio proposto. Metodologicamente, em primeiro lugar, faz-se um levantamento dos possveis neologismos na obra do autor; depois confere-se a sua existncia nos dicionrios eleitos como corpus de excluso; da, elege-se os vocbulos que constituem o glossrio, verificando-se o gnero e o nmero de ocorrncias dos vocbulos encontrados. Em seguida, faz-se uma listagem das bases existentes no corpus de excluso, e, por fim, faz-se uma anlise das notas lingsticas e/ou culturais em torno destes vocbulos, seguida de uma anlise dos sentidos dos mesmos dentro daquele contexto. Os resultados confirmam a hiptese da criatividade neolgica de Alphonsus de Guimaraens, especialmente fundamentada pela esttica literria do simbolismo, assim como os objetivos da nossa pesquisa. Conclui-se que a grande criao neolgica de Alphonsus de Guimaraens se d, tambm, pelo momento histrico, poltico e literrio (de busca profunda dos valores perdidos nos mais profundos estados de alma) em que viveu este autor. Portanto se v a soberania do contexto como explicativo do novo e re-significncia do velho. A contribuio de Alphonsus de Guimaraens para a perenizao dos neologismos literrios encontrados no Portugus do Brasil ter, sem dvida, de acordo com o observatrio neolgico delimitado pelo projeto-maior, um lugar de destaque naquele dicionrio.

    Palavras-chave: Estudo dos processos de criao neolgica. Mapeamento do vocabulrio neolgico em Alphonsus de Guimaraens. Glossrio. Anlises de sentido dos neologismos encontrados.

  • ABSTRACT

    The aim of this work is to map the neologic vocabulary in Alphonsus de Guimaraenss literary production to offer a contribution towards the creation of a linguistic glossary adding to the Dictionary of the Literary Neologisms of the Brazilian Portuguese by professor Evandro Silva Martins. This is a bibliographical research in which it is done the study of some processes of the neologic creation, sustained by Alphonsus de Guimaraenss poetry and prose. It is started from the hypothesis that Alphonsus de Guimaraens, through his neologic creation, promotes a certain rescue of the Portuguese Language, either by revisiting meanings, or by creating new meanings for old words, or even creating new words. The semantic neologism usually comes from a lexical basis previously existent in the language; however it assumes a new sense, due to its new context. Therefore, there is a great importance of the context for the good neologic interpretation. Seeking to reach the specific objectives of this research, we look for checking Alphonsus de Guimaraenss contribution for the lexicon of the language and which of his semantic neologisms are capable to subsidize the elaboration of the proposed dictionary. Methodologically, it is made, firstly, a neologic extraction in the author's work, then we check their appearance in the dictionaries that are selected as the corpus of exclusion. Next, we choose which words may form the glossary checking the gender and how many times these words occur. Then it is made a listing of the existent bases in the corpus of exclusion and, soon after, it is made an analysis of the linguistic or cultural notes around these words followed by an analysis of the sense of the same ones inside of that context. The results prove the hypothesis of Alphonsus de Guimaraenss neologic creativity, particularly founded through the literary esthetics of the Symbolism, as well as the aims of our research. It is also inferred that Alphonsus de Guimaraenss great neologic creation happens, in consequence of the historical, political and literary moment (of profound search of the lost values in the deepest soul states) in which this author lived. Hence it can be seen the sovereignty of the context as explanatory of the new terms and re-significance of the old ones. Alphonsus de Guimaraenss contribution for the perenniality of the literary neologisms found in the Brazilian Portuguese will have, no doubt, according to the neologic observatory delimited by the major project by professor Evandro, a distinguished place in that dictionary.

    Key words: Study of the processes of the neologic creation. Mapping of Alphonsus de Guimaraenss neologic vocabulary. Glossary. Analyses of the sense of the found neologisms.

  • SUMRIO

    1 INTRODUO ..................................................................................................... 10-16

    2 SIMBOLISMO E ALPHONSUS DE GUIMARAENS.......................................... 17-25

    3 REVISO DA LITERATURA TERICA ............................................................. 26-58

    4 LEXICOGRAFIA: Dicionrios e Glossrios ............................................................ 59-66

    5 APRESENTAO DO GLOSSRIO E ANLISE DOS NEOLOGISMOS

    ENCONTRADOS EM GUIMARAENS ................................................................ 67-156

    6 CONSIDERAES FINAIS ............................................................................... 157-160

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ................................................................... 161-163

    ANEXOS:

    A- Trechos originais dos autores franceses (citaes em nmeros sobrescritos) ...164-170

    B- Histria iconogrfica de Alphonsus de Guimaraens ........................................ 171-180

    C- Cronologia: Vida e obra do autor.................................................................... 181-183

    NDICE ANALTICO DAS ENTRADAS NO GLOSSRIO ...............................184-185

  • 10

    1. INTRODUO

    A presente proposta de pesquisa busca, especificamente, oferecer uma parcela de

    contribuio para a criao de um glossrio, para subsidiar a confeco do Dicionrio dos

    Neologismos Literrios do Portugus do Brasil, projeto-maior do nosso orientador, professor

    doutor Evandro Silva Martins.

    A proposta de realizao de um levantamento do vocabulrio neolgico extrado da

    poesia e da prosa do simbolista Alphonsus de Guimaraens, doravante A. de G. Em seguida,

    construmos um glossrio a partir da observao dos neologismos encontrados para,

    posteriormente, subsidiar o dicionrio mencionado (que envolve outros literatos), e,

    conseqentemente, tornar estes neologismos perenes atravs de suas definies, no Portugus

    do Brasil.

    Como consideramos que toda pesquisa inicia-se por uma certa problematizao, a

    presente proposta buscou responder s seguintes questes: Qual a contribuio de

    Alphonsus de Guimaraens para o lxico da lngua? Quais os neologismos semnticos

    encontrados em Alphonsus de Guimaraens, capazes de subsidiar o observatrio dos

    neologismos literrios do Portugus do Brasil?

    Pudemos concluir com base na anlise de Lakatos e Marconi (2004), que possibilita a

    compreenso do conceito de problema, que as questes supra elencadas preenchem os

    requisitos de viabilidade, relevncia, novidade e oportunidade. Viabilidade, porque so

    possveis de se responder, atravs da pesquisa; relevncia, pela contribuio que dar aos

    consulentes; novidade, por se adequarem aos nveis atuais do desenvolvimento cientfico; e

    oportunidade, porque correspondem ao anseio tanto individual, da pesquisadora, quanto do

    seu orientador, j que possibilitam oferecer respostas a um projeto mais amplo, que a

    confeco do dicionrio acima citado.

    Ainda com base nas autoras referidas, a problematizao apresentada na presente

    pesquisa se caracteriza por um estudo descritivo, de carter informativo, explicativo ou

    preditivo (LAKATOS; MARCONI, 2004, p. 159). Por isso, acreditamos que ao encontrar

    respostas slidas para a nossa problemtica, estaremos cumprindo o nosso papel enquanto

    pesquisadores ansiosos por contribuir com as geraes futuras na leitura de obras que, muitas

    vezes, so inacessveis em virtude do lxico que foi utilizado pelo artista-criador.

    Para atingir tal propsito realizamos um estudo dos vocbulos considerados neolgicos, pelo no-atestamento nos seguintes dicionrios:

    1) de poca:

  • 11

    i- Dicionrio da Lngua Portugueza Antnio de Moraes Silva, 5 ed., 1844, Lisboa;

    Tomo I A>E; Tomo II F>Z;

    ii-Grande Diccionrio Portuguez ou Thesouro da Lngua Portuguesa pelo Frei

    Domingos Vieira dos Eremitas Calados de Santo Agostinho, 5 volumes: Vol. I 1871; Vol.

    II 1873; Vol. III 1873; Vol. IV 1873; Vol. V 1874, Porto; e

    2) em dois dicionrios atuais:

    i- Dicionrio Eletrnico Houaiss de Lngua Portuguesa, 1.0 dez./2001, Instituto

    Antnio Houaiss, Ed. Objetiva Ltda;

    ii- Novo Aurlio O Dicionrio da Lngua Portuguesa sc. XXI, verso 3.0 Ed.

    Nova Fronteira, AE (Aurlio Eletrnico), 1999.

    A produo literria de A. de G. aconteceu entre 1899 e 1921 (ano de seu

    falecimento), e em 1923 publicou-se sua primeira obra pstuma, ainda revisada pelo prprio

    A. de G. Isso justifica a escolha de tais dicionrios (dois precedentes s suas criaes, e dois

    posteriores, que nem precisariam ser os atuais) para subsidiarem o corpus de excluso. Isto

    significa que as palavras que no foram encontradas nos dicionrios de excluso foram

    consideradas neologismos e, se habilitaram para constituir o glossrio. No fechamos a

    possibilidade de que tais palavras no possam estar registradas em outros dicionrios

    existentes, porm, no-inclusos em nosso corpus de excluso.

    A partir de pressupostos tericos sobre neologismos, encontrados em vrios autores

    citados na bibliografia, especialmente Guilbert (1975), Boulanger (1979), Barbosa (1981),

    Sablayrolles (1996), Leonel (1997), Biderman (2001) e Alves (2002), ns destacamos os

    diversos neologismos, das poesias e da narrativa de A. de G., obedecendo ao critrio da

    exaustividade.

    Para Guilbert, a neologia lexical definida pela possibilidade de criao de novas

    unidades lexicais, respeitando-se as regras de produo inclusas no sistema do lxico. Para

    estudar a neologia lexical preciso definir um mtodo de reconhecimento de neologismos ao

    longo do tempo da o grande papel do dicionrio. Primeiramente, coloca-se a forma lexical

    dita como nova numa tomada sincrnica. Em seguida, avalia-se um perodo anterior e o

    posterior, diacronicamente, para assegurar que a unidade lexical est atestada ou no.

    Guilbert, tambm, estabelece alguns critrios para avaliar a aceitabilidade do neologismo.

  • 12

    J Barbosa (1981) caracteriza o neologismo como um signo lingstico de dupla face:

    significante e significado. Na criao neolgica, esse bi-facetamento modifica, ao mesmo

    tempo, os dois componentes.

    Biderman (2001), por sua vez, explica a incapacidade dos lexicgrafos de registrarem

    todos os vocbulos e significados usuais da lngua em seus dicionrios devido ao processo de

    constante renovao lexical. Ela acredita que faz parte da essncia da linguagem (ou do

    homem?) a busca constante de expressividade mxima.

    Sablayrolles presenteia este trabalho com o estudo dos hpax nas obras literrias e

    explica a difuso das neologias.

    Alm deles, Boulanger cita os trs grandes modos de criao das neologias lexicais

    estabelecendo uma tipologia geral: neologia da forma, neologia do sentido e o emprstimo.

    Retornando a Guilbert (1975), ele afirma que o neologismo semntico aquele que

    enfoca uma nova criao a partir de uma base j existente, ganhando novos significados, num

    contexto novo. Portanto, vamos enfocar ao longo do trabalho de pesquisa respostas

    especialmente para as seguintes questes:

    a) De que tipo pode-se considerar os neologismos semnticos criados por A. de G.?

    b) Ao criar novos sentidos para as palavras, quais as funes mais freqentes dos

    neologismos encontrados em A. de G.?

    c) Os desvios no sistema de criao de palavras dentro da obra de A. de G. so mais

    facilmente encontrados em seus poemas ou em sua narrativa?

    d) Na criao dos neologismos, o autor sofreu influncia da escola simbolista?

    e) Com que freqncia os neologismos encontrados em A. de G. podem ser descritos

    como sendo neologismos de sentido?

    f) Alguns dos neologismos de A. de G. podem ser considerados como hpax?

    g) Qual poderia ser a contribuio tanto qualitativa quanto quantitativa de A. de G.

    para a confeco de um glossrio e posterior entrada num dicionrio dos neologismos

    literrios da Lngua Portuguesa?

    Partimos da hiptese de que a ampla criao e uso de neologismos em sua obra, A. de

    G. promove um enriquecimento da Lngua Portuguesa, seja revisitando significados, seja

    criando novos significados para significantes j existentes, seja criando novos significantes,

    processos que so considerados relevantes na criao de um glossrio e conseqente

    confeco de um dicionrio de neologismos. Porm, pudemos atestar que A. de G. no s

  • 13

    conseguiu promover um enriquecimento da lngua, como tambm destacou, com arte e

    criatividade, a esttica simbolista entoando ritmo aos seus poemas, criando rimas, ajustando a

    metrificao, dando asas imaginao, loucura, ao sonho e ao inconsciente.

    O objetivo geral da nossa pesquisa buscou mapear os neologismos encontrados em A.

    de G. visando realizao de um glossrio dos neologismos semnticos, tendo como suporte

    alguns de seus poemas e a sua prosa, considerando-se, principalmente, a possibilidade de

    subsidiar o Dicionrio dos Neologismos Literrios do Portugus do Brasil.

    Os objetivos especficos dessa pesquisa nortearam todo o nosso trabalho, guiando-nos

    e orientando-nos na busca de atingir os seguintes propsitos:

    a) Coletar possveis neologismos e analisar processos de criao de neologismos

    semnticos na poesia e na prosa de A. de G.;

    b) Destacar os neologismos criados por ineditismo;

    c) Definir, por meio de amostragem, os contextos de maior ocorrncia dos referidos

    neologismos;

    d) Verificar a natureza, a funo e usos dos significados que compem o glossrio de

    neologismos do autor citado;

    e) Decidir sobre quais os neologismos estudados podem ser caracterizados como

    referenciais na elaborao de um dicionrio de neologismos.

    Esta pesquisa se justifica pela realizao de uma anlise da obra de A. de G., do ponto

    de vista da criatividade lexical, que nos aponta um escritor que pode ser considerado uma

    espcie de infrator da norma, do uso cristalizado da lngua; ou seja, um explorador das

    possibilidades latentes do acervo de sua prpria lngua e, com isso, confere existncia

    concreta a algo que s existia potencialmente.

    A riqueza vocabular criada por A. de G. nunca foi suficientemente estudada e tentar

    esgot-la em todas as nuances de sua criao para ns uma tarefa premente e necessria. A

    realizao de tais estudos de grande relevncia, uma vez que o mesmo ofereceu

    contribuies da mais larga importncia em relao ao enriquecimento da lngua, fato que era

    considerado uma grande preocupao no contexto do Simbolismo, escola a que pertenceu o

    escritor.

    A obra de A. de G., objeto de estudo desta pesquisa, oferece vasto manancial de

    ocorrncias de neologismos. Em cada verso de seus poemas e em cada linha das suas

    narrativas h exemplos de processos de revitalizao da linguagem que proporcionam grande

  • 14

    contribuio aos estudos da lingstica. Assim, o valor deste trabalho lhe conferido pela

    possibilidade de oferecer contribuio aos estudos lexicolgicos e lexicogrficos,

    caracterizando-se como referencial para a realizao de um glossrio de neologismos da

    literatura brasileira, com base na anlise desse processo de enriquecimento do idioma.

    Alm disso, por meio dessa anlise, talvez se possa contribuir, tambm, para o trabalho dos professores do Ensino Fundamental e do Ensino Mdio, no sentido de facilitar a compreenso de textos de A. de G. pelos alunos e seu conseqente interesse pela leitura do poeta mineiro, considerado de interpretao difcil.

    Tudo isso somado ao que, talvez, seja o mais slido argumento justificador desta

    pesquisa, que o grande fascnio da pesquisadora pela escola simbolista, fazem deste

    trabalho uma tarefa que engaja compromisso e dedicao desmedidos.

    Metodologicamente, partimos de pressupostos tericos sobre neologismos,

    encontrados em autores como Coutinho (1962), Guilbert (1975), Boulanger (1979), Barbosa

    (1981), Carvalho (1984), Sablayrolles (1996), Leonel (1997), Alves (2002), e vrios outros

    citados na bibliografia, destacando os diversos neologismos, da prosa e das poesias de A. de

    G., obedecendo freqncia de uso.

    Fizemos uma pesquisa bibliogrfica usando materiais primrios (escritos e

    documentos originais), e secundrios (escritos e documentos comentados por outros autores).

    Seguimos uma metodologia mista de anlise, apresentando o mtodo estatstico e o

    fenomenolgico como complementares, posto que nossa pesquisa se deu quantitativamente

    (mensurando numericamente os neologismos encontrados), e qualitativamente (visando uma

    interpretao ou anlise contextual dos neologismos).

    Nossa pesquisa evoluiu-se acompanhando os seguintes passos metodolgicos:

    1. - Leitura da obra assinalando na ponta-do-lpis todos os possveis vocbulos neolgicos

    baseados no desconhecimento da pesquisadora. Fizemos, tambm, um fichamento simultneo

    destes possveis neologismos.

    2. - Primeiro peneiramento: conferncia da possvel existncia dos mesmos nos dicionrios

    atuais alguns so abonados pelo nosso autor.

    3. - O segundo peneiramento: todos aqueles que no foram encontrados nos dicionrios

    atuais foram conferidos nos dicionrios de poca alguns foram encontrados nos de poca,

    porm no mencionados nos atuais.

    4. - A eleio dos vocbulos no-existentes em nenhum dos dicionrios como elementos

    constitutivos do nosso glossrio. Apenas 3 vocbulos presentes em algum dos dicionrios

  • 15

    foram eleitos para compor nosso glossrio porque se mostraram como neologismos

    semnticos de forma muito evidente naquele contexto.

    5. - Constituio do nosso glossrio, apresentando as unidades lexicais novas seguidas da

    classificao morfolgica + o gnero + o n. de ocorrncias + as bases semnticas + a

    abonao + a anlise + o sentido.

    Tendo em vista as inmeras citaes bibliogrficas de autores franceses, que embasam

    este trabalho, elas mereceram um anexo especial, logo aps as referncias bibliogrficas. Tal

    adendo foi denominado de Trechos Originais dos Autores Franceses, com uma representao

    simblica sobrescrita, no corpo do trabalho, logo aps a traduo dos mesmos. A primeira

    citao representada por C-1, seguindo-se uma relao seqencial at a citao C-69.

    Lembramos, ainda, que a traduo de tais citaes se deu com a colaborao da professora

    Hedy Lamar de Oliveira, de Uberaba. Com sua parceria pudemos compreender melhor uma

    parte significativa da literatura terica envolvendo os estudos neolgicos.

    Precisamos esclarecer que o deslocamento de tais citaes do rodap, onde elas se

    situam normalmente, para um anexo extraordinrio (Anexo A), acabou sendo necessrio com

    o propsito de facilitar algumas pginas que apresentavam grande quantidade das mesmas.

    Para atender freqncia de uso dos neologismos selecionados, com uma

    fundamentao terica pertinente, adotamos o critrio da exaustividade, encontrado em

    Guilbert (1975), segundo o qual,

    somos conduzidos, atravs dos perodos histricos j afastados do presente, a recorrer comparao dos lxicos, glossrios e dicionrios. O inventrio fundado sobre uma produo escrita de textos no mais capaz de representar o lxico real de uma poca do que um balano lexicogrfico. Ele ser significativo sob o aspecto do vocabulrio e no do conjunto do lxico (GUILBERT, 1975, p. 34) (C 1) .

    Os dados coletados foram classificados e analisados, com base nos tipos de

    neologismos estudados, considerando no s os aspectos estruturais da formao dos

    neologismos, como tambm sua carga semntica, destacando-se aqueles de maior ocorrncia

    na obra do autor. O relatrio da pesquisa realizada foi elaborado em seis captulos,

    subdivididos de acordo com as necessidades impostas por cada item estudado. Em cada

    captulo, foram abordados, prioritariamente, os seguintes itens:

    I- Um panorama geral da pesquisa: Introduo;

    II- A escola literria do autor estudado e sua trajetria de vida e de produo artstica:

    O Simbolismo e Alphonsus de Guimaraens;

  • 16

    III- A fundamentao terica dos estudos envolvendo neologismos: Reviso da

    Literatura Terica;

    IV- Estudos tericos sobre dicionrios e glossrios: Lexicografia;

    V- Constituio e Anlise do corpus (Glossrio): Apresentao do Glossrio e

    Anlise dos Neologismos Encontrados em Guimaraens;

    VI- Resultados encontrados a partir dos questionamentos propostos nos objetivos

    especficos: Consideraes Finais.

    Apresentamos ao final do trabalho os anexos A, B e C, que se constituram,

    respectivamente, das citaes em francs; da histria iconogrfica do autor; e, de um

    compacto cronolgico da vida e obra do autor com o intuito de oferecermos algumas

    informaes complementares circundantes nossa pesquisa que pudessem ampliar o

    conhecimento do leitor.

  • 17

    2. SIMBOLISMO E ALPHONSUS DE GUIMARAENS

    Este captulo se fez necessrio por que consideramos, tambm, a importncia de um

    certo enfoque no perodo literrio do Simbolismo, escola a que pertence o escritor

    mencionado. A hiptese de tal enfoque se deu pelo fato de percebermos que ele poderia

    oferecer oportunidade de anlise do nvel de influncia deste perodo literrio sobre este

    escritor, na escolha de suas palavras e, conseqentemente, nos neologismos por ele criados.

    Alm disso, o conhecimento da trajetria de vida do nosso autor, foi, tambm, de suma

    relevncia para analisarmos sua criatividade lexical neolgica.

    2.1 Panorama Geral

    O panorama simbolista evidenciou enormemente a preocupao dos seus escritores

    com relao ao procedimento na hora de exprimir suas vivncias, de represent-las sem

    provocar esvaziamento ou destruio das mesmas. Como afirma Moiss (1966), considerava-

    se perda de tempo o uso da gramtica tradicional, da sintaxe lgica, do vocbulo comum,

    utilizado de acordo com o dicionrio. Pelo contrrio, havia uma enorme necessidade de se

    inventar uma nova linguagem, que se adequasse s novidades emocionais e afetivas prprias

    de seus escritores, ou ento, deveriam resgatar antigas expresses, classificadas como

    obsoletas, ou reativar outras, cuja gama semntica sofrera desgaste ou estagnao. Assim,

    eram obrigados a buscar, na metfora convencional, esconderijos novos ou ainda no

    explorados. Em decorrncia disso, a linguagem do Simbolismo passou a se fundamentar numa

    gramtica e numa sintaxe psicolgicas, alm de se basear num lxico adequado expresso

    dessa esttica, recorrendo a neologismos, combinaes vocabulares inusitadas, empregos de

    formas arcaicas e diversos tipos de recursos grficos. A obra de A. de G., objeto de estudo da

    presente pesquisa, oferece-nos suporte para verificarmos as ocorrncias mencionadas. De

    acordo com Muricy (1973) e Bosi (1987), faremos a seguir uma tomada histrica, precursores

    e caractersticas do Simbolismo no Brasil e no mundo.

  • 18

    2.2 O Simbolismo

    O Simbolismo, movimento essencialmente potico do fim do sculo XIX, representa

    uma ruptura artstica radical com a mentalidade cultural do Realismo-Naturalismo, buscando

    fundamentalmente retomar o primado das dimenses no-racionais da existncia.

    Para isso, redescobre e redimensiona a subjetividade, o sentimento, a imaginao, a

    espiritualidade; busca desvendar o subconsciente e o inconsciente nas relaes misteriosas e

    transcendentes do sujeito humano consigo mesmo e com o mundo.

    Reagindo contra o pensamento cientfico e filosfico dominante na 2 metade do

    sculo XIX, as manifestaes artsticas simbolistas pem em xeque as certezas doutrinrias,

    por exemplo, do positivismo e do determinismo, as quais comeam a ruir.

    Numa viso mais ampla, tanto no campo da filosofia e das cincias da natureza quanto

    no campo das cincias humanas, a desconstruo das teorias racionalistas faz-se notar, seja

    por meio da fsica relativista de Einstein, da psicologia do inconsciente de Freud ou das

    teorias filosficas de Schopenhauer e de Friedrich Nietzsche.

    Em termos sociais, polticos e econmicos, a burguesia industrial, aps algum tempo

    de progresso avassalador, desgasta-se com as disputas colonialistas, que evoluem em direo

    Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando atingem um momento de culminncia.

    Na Rssia, com a revoluo de 1917 surgem novas relaes de poder; tenta-se pela

    primeira vez a construo de uma sociedade socialista, o que ressoa nas contradies do

    modelo burgus do perodo.

    Na Frana, ptria do Simbolismo, falava-se em decadncia, as rivalidades entre

    monarquistas e republicanos aumentavam e sentia-se a perda da guerra de 1870 contra a

    Alemanha. Agravavam-se as rivalidades entre a ustria e a Rssia e a competio anglo-

    alem. Cada pas europeu buscava ampliar seu poderio militar e melhorar os seus

    armamentos. Era o fantasma da guerra, que colocava a Europa em estado de viglia.

    Assim, o surgimento desse estilo literrio por um lado reflete a grande crise dos

    valores racionalistas da civilizao burguesa, no contexto da virada do sculo XIX para o

    sculo XX, e por outro inicia a criao de novas estticas precursoras da arte da modernidade.

    O Simbolismo faz, ento, um retorno s tendncias espiritualistas, refletindo esse

    momento marcante na histria, percebendo a decadncia do racionalismo, do materialismo e

    do positivismo, que eram insuficientes para se compreender o mundo exterior. O sonho, o

    inconsciente, a metafsica e a religiosidade ressurgem na busca de um mundo ideal, que se

  • 19

    situa ora no interior do prprio homem, ora no sobrenatural. Ao fugir do racionalismo, o

    artista, ento, mergulha no irracional, cuja expresso exige uma linguagem nova, metafrica e

    sugestiva.

    Os precursores

    As primeiras manifestaes simbolistas j estavam presentes na coletnea Parnasse

    contemporain, com poemas de Baudelaire, Mallarm e Verlaine. Porm, no livro Les Fleurs

    du Mal (As Flores do Mal), de Charles Baudelaire, publicado em 1857, que encontramos as

    diretrizes da potica simbolista e de quase toda a moderna poesia europia.

    Ainda que o smbolo tenha existido sempre em literatura, s no final do sculo XIX

    que o seu uso se intensifica, libertando a palavra de sua carga lgica para expressar profundos

    sentimentos subjetivos. Segundo Baudelaire,

    as imagens no so um ornamento potico, mas uma revelao da realidade profunda das coisas. (MURICY, 1973, p. 53).

    A esttica simbolista oficializou-se em 1886, com a publicao do manifesto literrio

    do movimento escrito por Jean Moras (apud BOSI, 1987). Nessa ocasio o termo simbolista

    substituiu a expresso Decadentismo, utilizada para nomear as tendncias poticas

    antipositivistas, antinaturalistas e anticientificistas, embora a chamada esttica decadente ou

    decadentista, em muitos aspectos prxima do Simbolismo continuasse a ter vida prpria.

    Caractersticas

    O Simbolismo surge no final do sculo XIX como movimento de retomada de alguns

    ideais do Romantismo. Mas, os simbolistas retomam a subjetividade da arte romntica com

    outro sentido. Os romnticos desvendavam apenas a camada superficial da vida interior, onde

    ficavam as vivncias quase sempre de ordem sentimental. Os simbolistas vo alm, descendo

    at os limites do subconsciente e do inconsciente; o que explica o carter ilgico, expresso

    indireta de idias e emoes, o hermetismo ou o clima de delrio de grande parte de seus

    poemas.

    Apesar da oposio ao Parnasianismo-Naturalismo, correntes literrias apreciadas pela

    elite social, conservam-se algumas particularidades parnasianas, como a estrutura dos versos,

    o vasto uso do soneto e a preciosidade no vocabulrio. Contudo, sua poesia vai mais alm.

  • 20

    Existe a busca constante de uma linguagem mais rica, repleta de palavras novas, com o

    emprego de novos ritmos que associem, de forma harmnica, a poesia msica. A msica

    antes de qualquer coisa, este era o postulado de Verlaine. Ao dotar o poema de

    expressividade sonora e valorizar o ritmo, a musicalidade, explorando bem o uso da

    sinestesia, das aliteraes, ecos e assonncias, procura-se aproximar a poesia da msica,

    afastando o poema das referncias concretas e instaura-se uma atmosfera vaga, misteriosa e

    indefinida.

    O poeta simbolista no quer s cantar e evocar suas emoes. Ele quer traz-las de

    forma mais palpvel para o texto, a fim de que se possa senti-las plenamente. Por isso, o uso

    da sinestesia; isto , a associao de impresses sensoriais distintas, amplo. H tambm a

    forte ligao com as cores, ressaltando as sensaes que provocam no esprito humano. A cor

    branca sempre a mais presente e sugere, entre outras coisas, a pureza; ou o opaco,

    indiciando a presena de neblina ou nuvem e tornando as imagens poticas mais obscuras.

    Alis, a obscuridade uma forte caracterstica simbolista: a realidade revelada de

    forma imprecisa, vaga, nebulosa e ilgica. No h a preocupao de nomear os objetos, e sim

    evoc-los, sugeri-los. Segundo Mallarm, citado por Muricy:

    Referir-se a um objeto pelo seu nome suprimir as trs quartas partes da fruio do poema, que consiste na felicidade de adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo, eis o que sonhamos. o uso perfeito desse mistrio que constitui o smbolo; evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado de alma, ou, inversamente escolher um objeto e desprender dele um estado de alma por uma srie de decifraes. (MURICY, 1973, p. 52).

    o emprego do smbolo, que liga o abstrato ao concreto, o material ao irreal. Servindo

    como ponte entre o homem e as coisas, o smbolo preserva o domnio da intuio sobre a

    razo, bem como a exaltao das foras espirituais e msticas que regem o universo, contrria

    ao Cientificismo, ao Positivismo e ao materialismo naturalista e parnasiano. o culto ao

    sonho, ao desconhecido, fantasia e imaginao, numa busca pela essncia do ser humano,

    com todos os seus mistrios, seu dualismo (esprito e matria), a procura da purificao e a

    referncia s regies etreas e ao espao infinito, e seu destino frente vida e morte.

    De um modo geral, segundo Bosi (1987), os poetas simbolistas acreditam no

    desregramento dos sentidos e da sexualidade, na liberao da percepo e das emoes, nos

    delrios e alucinaes que libertam a imaginao das amarras institucionais, medocres e

    pragmticas. Para eles a poesia um ritual mgico, uma combinao alqumica de palavras

    reveladoras de outras dimenses da existncia; msica das palavras, ou, na expresso de

  • 21

    Paul Valry (apud BOSI, 1987), simbiose do som e do sentido, feita de ritmo, harmonia,

    combinaes snicas e onomatopias.

    A poesia simbolista transcende o imediato, o exprimvel, o material, para revelar, por

    meio de smbolos e melodias, o mistrio, o culto, o vago, o caos, o algico, o anrquico, o

    indefinvel e o inexprimvel da vida interior, sempre impalpvel, desconhecida.

    Tais elementos, explicam a expresso Torre de Marfim, utilizada muitas vezes de

    modo pejorativo para caracterizar o componente raro, hermtico, culto, aristocrtico,

    estilstica e psicologicamente requintado da poesia simbolista.

    No entanto, ainda em Bosi (1987), os poetas simbolistas sentem-se porta-vozes de

    multides inteiras, alienadas de seu eu-profundo, o qual procuram resgatar numa espcie de

    estado de transe medinico, mstico e metafsico.

    O Simbolismo antecipa caractersticas que seriam marcantes dentro do Modernismo,

    quando rompe com a linearidade do texto, dando voz ao fluxo da conscincia e trabalhando de

    forma mais desarticulada a palavra e seu significado.

    No Brasil, o movimento simbolista no alcanou o xito obtido na Europa, devido ao

    forte predomnio da tendncia parnasiana em nossa literatura. Esse fenmeno no difcil de

    entender: a nfase no primitivo e no inconsciente desta poesia, seu carter universalizante e ao

    mesmo tempo intimista, no respondiam s questes nacionais, que desde a 1 Repblica

    vinham se refletindo por meio das tendncias racionalistas do Realismo e tambm do

    Parnasianismo.

    Entre nossos poetas simbolistas (um grande nmero esquecido at os dias de hoje), os

    principais expoentes so marcados por Cruz e Sousa, que abre o Simbolismo Brasileiro com a

    obra Missal e Broquis, e A. de G., o mais mstico de todos os nossos poetas, cuja obra nos

    trouxe a tarefa de uma anlise de sua produo neolgica nesta pesquisa, e de quem faremos,

    em seguida, uma breve e importante biografia, sob a tica do mencionado crtico e estudioso

    literrio, Andrade Muricy.

    2.3 Alphonsus de Guimaraens (1870 1921)

    AFONSO HENRIQUES DA COSTA GUIMARES nasceu em Ouro Preto, na Rua So Jos n. 27, em 24 de julho de 1870, filho de um portugus e de uma brasileira, sobrinha materna do romancista e poeta romntico Bernardo Guimares. Fez os preparatrios no Liceu, depois Ginsio Mineiro, tendo sido seu Professor de Portugus o poeta Joo N.

  • 22

    Kubitschek. Com 17 anos iniciou o curso complementar da Escola de Minas. Nesse tempo j escrevia versos, e sua fonte inspiradora era sua prima, Constana, filha

    de Bernardo Guimares, que logo faleceu, de tuberculose. Em conseqncia dessa morte, A.

    de G. viveu uma temporada de bomia excessiva, chegando, por fim, a parecer tambm

    afetado do pulmo. Chegou-se a pensar na ilha da Madeira, mas verificou-se que o caso era

    menos potico, e tratava-se de uma simples bronquite. Comeou, ento, uma colaborao

    ativa no Almanaque Administrativo, Mercantil, Industrial, Cientfico e Literrio do Municpio

    de Ouro Preto, dirigido, em 1890, por Manuel Ozzori.

    Foi terminar os preparatrios no Curso Anexo da Faculdade de Direito de So Paulo,

    em 1890, em companhia de seu maior amigo, Jos Severiano de Resende. Matriculou-se na

    Faculdade em 29 de abril de 1891, no aceitando a sugesto paterna de ir se formar em

    Coimbra. Trabalhou, com Severiano de Resende e Adolfo Arajo, poeta simbolista, tambm

    mineiro, famoso jornalista e futuro fundador de A Gazeta, e seu fiel amigo, no Dirio

    Mercantil, no Comrcio de So Paulo, no Correio Paulistano e principalmente no Estado de

    So Paulo. Projetou, ento, um livro, j de feio simbolista, que seria intitulado Salmos.

    Com Severiano de Resende, Viana do Castelo e outros, tornou-se assduo familiar da clebre

    Vila Kirial, em Vila Mariana, residncia esteticista, a des Esseintes, do poeta Jacques

    dAvray, alis o seu amigo Freitas Vale.

    Em 1893 foi criada em Ouro Preto a Academia Livre de Direito de Minas Gerais e o

    poeta se transferiu para ela, onde colou grau em 15 de julho de 1894. Voltou a So Paulo,

    onde, em 8 de janeiro de 1895 colou grau em Cincias Sociais.

    Viajou, ento, para o Rio, com o fim especial de conhecer Cruz e Sousa, segundo

    Mrio Matos, citado por Henriqueta Lisboa, na sua notvel conferncia sobre A. de G. No

    Rio, relacionou-se rapidamente, impressionando pelo seu dandismo: cartola de pelo, polainas,

    monculo, gravatas de apurado gosto e etc.

    De volta, passou por Vassouras, em visita ao seu amigo Lucindo Filho (Raimundo

    Correia era, ento, ali, juiz municipal). Em 13 de maro de 1895 foi nomeado promotor em

    Conceio do Serro, passando a substituto em 17 de junho do mesmo ano.

    Casou-se com uma jovem de 17 anos, Zenaide Alves de Oliveira, filha do escrivo da

    Coletoria Estadual, em 20 de fevereiro de 1897. Tiveram 15 filhos, dentre os quais veio a

    falecer a mais jovem, que nasceu em 8 de maro de 1920, recebendo o nome de Constana

    (mesmo nome da prima amada), e falecendo em 16 de maio de 1921, dois meses antes do

    poeta.

  • 23

    Em 1899 publicou, no Rio de Janeiro, os seus dois primeiros livros: Setenrio das

    Dores de Nossa Senhora e Cmara-Ardente e Dona Mstica.

    Em 1900, nova e brevssima estada no Rio, voltando por Ouro Preto. A. de G. passara

    a colaborar em A Gazeta, de So Paulo, do seu amigo Adolfo Arajo. Em 1902 editou, no

    Porto, Portugal, o livro Kiriale. Suprimido o seu lugar de juiz, em 1903, Adolfo Arajo

    ofereceu-lhe um posto em A Gazeta, tendo A. de G. recusado. Apareceu em 20 de maro de

    1904 o jornal poltico Conceio do Serro, que foi entregue direo de A. de G. Nele

    colaboraram Cruz e Sousa, Severiano de Resende, Archangelus de Guimaraens (seu irmo

    querido), Horcio Guimares, e ainda: Raul Pompia, Olavo Bilac, Coelho Neto e outros. Foi

    ento (Setembro de 1904) novamente nomeado promotor, no lhe sendo possvel, porm,

    exercer as funes de acusador, devido a sua sensibilidade delicada.

    Em 11 de fevereiro de 1905 foi nomeado juiz municipal de Mariana, cargo em que

    estacionou, apesar de magistrado probo e sereno, passando em maro por Belo Horizonte,

    onde conviveu durante poucos dias com os simbolistas da nova gerao mineira: lvaro

    Viana, irmo do seu amigo Augusto de Viana do Castelo; Edgar Mata; Eduardo Cerqueira;

    Alfredo de Sarandy Raposo; Carlos Raposo e outros.

    De acordo com Joo Alphonsus, seu filho e bigrafo, no houve acomodao entre o

    esprito de Alphonsus e o ambiente espiritual da cidade de duzentos anos, mas o encontro

    perfeito de uma vida humana e de uma vida coletiva de misticismo e sossego. Ficou para

    sempre em Mariana, de onde continuou a colaborar com A Gazeta, de So Paulo, tornando-se

    assduo e fiel colaborador de O Germinal, peridico de Mariana, ainda hoje publicado;

    colaborao que tambm oferecia antes aos jornais do interior, talvez agora ainda mais

    simpatizado com os humildes e hericos peridicos dos lugares distantes, depois da

    experincia com o seu efmero peridico Conceio do Serro. Nos ltimos tempos publicou

    numerosas crnicas no Dirio de Minas.

    Seus pais vieram acolher-se ao lar do filho ilustre, em conseqncia do desastre

    financeiro do velho comerciante luso septuagenrio, e ali faleceram. O pai, em 5 de maro de

    1908; e a me, em 8 de janeiro de 1910.

    Em 1915 ocorreu vir ao Brasil Jos Severiano de Resende, que residia em Paris. Pediu a A. de G. que fosse a Belo Horizonte encontrar-se com ele. Desde 1906 que A. de G. no voltava capital. Eles se encontraram

    em setembro e foram triunfalmente recebidos pelos intelectuais, que lhes ofereceram um banquete que marcou poca, no dia 25 daquele ms, no Clube Acadmico.

    Publicao de Mendigos, em 1920, seu nico livro em prosa, contos publicados em

    vida. Postumamente, fez-se, tambm, uma coletnea das Crnicas de Guy DAlvim, das quais

    no me foi possvel analisar, nesta pesquisa, os neologismos encontrados. Contudo, a sua

  • 24

    obra em prosa e as suas crnicas, so mais um depoimento sobre o homem que um

    testemunho do escritor, de acordo com Eduardo Portela (apud GUIMARAENS, 2001, p. 17).

    Foi encontrado morto na madrugada de 15 de julho de 1921, sendo sepultado no

    cemitrio anexo Igreja de Nossa Senhora do Rosrio, que domina Mariana do alto da mais

    elevada colina da cidade. Completaria 51 anos no dia 21 daquele ms.

    Deixou inditos trs livros: Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, Escada de Jac

    e Pulvis. A poesia de A. de G., naquele tempo, teve imediata e profunda influncia em Minas.

    Porm, fora de seu estado, apenas os prceres simbolistas o admiravam. Enquanto isso, a

    crtica do tempo, primria e simplista, dominada pelo esprito do naturalismo, via com

    antipatia o misticismo do solitrio de Mariana.

    A sua linguagem guardava ressaibo clssico; o seu verso buscava uma correo que

    destoava do tumulto, da musicalidade livre, inquieta, irregular, de quase todos os do

    movimento simbolista. Tal correo, porm, nada tinha de comum com a perfeio artificiosa

    dos parnasianos. A. de G. foi perfeito realizador do gnero rimance (pequeno canto pico)

    posto em moda por lvares de Azevedo, e surpreendentemente renascido no Simbolismo e

    do qual Ismlia seja talvez a obra-prima no Brasil.

    A sua poesia nos d uma viso do mundo idealizada, porm no deformada, nem

    transfigurada. Ao contrrio da impetuosidade de alguns, ou da exaltao cosmogmica de

    outros, A. de G. punha surdina nas suas expanses mais fortes. Como Verlaine, A. de G.

    prefere a melodia sinfonia; escreveu com acerto definitivo Henriqueta Lisboa (1943, p.33,

    apud GUIMARAENS, 2001. p. 18). A melodia de A. de G. duma pureza quase nica dentro

    do quadro da poesia simbolista. Esta era turvada, quase sempre, pela morbidez requintada, to

    prxima, tanta vez e isso teve grande preo da musicalidade instintiva que carreia detritos

    e pepitas de ouro, e foi atravessada por esse caudal de vida subconsciente que veio

    desembocar na gua parada e venenosa do supra-realismo.

    O catolicismo de A. de G. era muito mais produto do ambiente religioso em que fora

    criado e em que vivia do que de influncias literrias estrangeiras. De todos os simbolistas,

    possivelmente, foi o que refletiu mais de perto o estado de esprito que foi o dos decadentes, e

    que fixava exatamente tudo aquilo que iria marcar de maneira caracterstica a obra do poeta

    ouro-pretano: o desgosto da ao, o esplim, entendido como enfado, melancolia sem causa

    aparente ou especfica; junte-se a isso o pessimismo, sempre exacerbado, e certo ar ao mesmo

    tempo de cansao intelectual e de pendor mstico e teremos a aquilo que est bem refletido

    na obra de A. de G. e o que caracterizou a poesia dos principais lricos franceses da fase

    propriamente decadente.

  • 25

    Aps o exposto sobre o simbolismo e sobre o autor da nossa pesquisa faremos, em

    seguida, uma fundamentao com o objetivo de embasarmos, teoricamente, as descobertas

    neolgicas encontradas em nosso levantamento.

    3. REVISO DA LITERATURA TERICA

  • 26

    Aqui ser realizada uma breve reflexo histrica acerca do cdigo lingstico, a fim de

    que se compreendam os demais conceitos a serem abordados no presente tpico. Dentre estes

    conceitos, consideramos importante um debruar sobre as noes de lxico, lngua e

    linguagem, lingstica e, de modo ainda mais relevante, um aprofundamento na noo de

    neologismo e na sua contextualizao.

    Sendo assim, na reviso da literatura, so priorizados os estudos que envolvem no

    apenas os conceitos de neologismo mas, tambm, as questes referentes sua aceitabilidade -

    os critrios de aceitabilidade tanto dos neologismos quanto da lingstica - , a metodologia de

    descoberta de neologismos, as regras de anlise, tipos de neologia, formas bsicas de criao

    de neologismos, ou seja, os diferentes processos de formao neolgica, dentre outras

    abordagens. Alm disso, torna-se imprescindvel, tambm, um enfoque na anlise dos

    conceitos de dicionrios e glossrios, e na metodologia de suas criaes.

    H mais de vinte sculos, Plato j ensinava que tanto a linguagem falada quanto a

    escrita so representaes simblicas e convencionais e que este carter do cdigo lingstico

    possibilita a compreenso da existncia de diversos cdigos no mundo. Por ser facilmente

    decifrado por qualquer falante, dado que os sinais sonoros e significativos articulam-se por

    meio de uma sintaxe combinatria, que a atualizao desse cdigo no se realiza de modo

    uniforme; sua variao depende dos indivduos que compem a sociedade.

    Nesse sentido, entende-se que a linguagem sofra constantes alteraes com a evoluo

    da histria da humanidade, da mesma forma como se entende a importncia e a necessidade

    de estudos cientficos cuja preocupao seja explicar o funcionamento da linguagem humana

    e as particularidades de cada lngua. Para isso, a Lingstica recorre ao trabalho descritivo

    previsto pelas teorias, bem como utiliza os conhecimentos adquiridos em outras reas que se

    valem da linguagem como meio de comunicao. Dentro da tradio do trabalho lingstico,

    existem vrias reas de interesse, dependendo do ponto de vista de como observada a

    linguagem.

    Desse modo, para alcanar os resultados a que se prope esta pesquisa, o enfoque

    lexicolgico e lexicogrfico, posto que nos atemos aos contributos tericos da Lexicologia e

    ao fazer lexicogrfico da Lexicografia.

    Destas contribuies, depreende-se que o lxico um conhecimento compartilhado

    pelos falantes de uma lngua; constitui-se no patrimnio vocabular de um grupo scio-

    lingstico-cultural. O lxico, considerado como o primeiro caminho a percorrer para se

    chegar a um texto, segundo Oliveira e Isquerdo (2001), constitui-se como instrumento de

    revelao do mundo, j que por seu intermdio que transparecem os valores, as crenas, os

  • 27

    hbitos e costumes de uma comunidade, bem como as novidades tecnolgicas, transformaes

    scio-econmicas e polticas que acontecem numa dada sociedade. A anlise descritiva ou

    sincrnica do vocbulo mrfico visa descrio de uma engrenagem que opera atualmente,

    da qual se depreendem seus elementos constituintes conforme a significao e a funo

    elementar a ela atribudas, na significao e funo total do vocbulo.

    As constantes mudanas das formas lingsticas promovem tanto a ampliao quanto a

    reduo, multiplicao ou desaparecimento de vocbulos, promovendo uma fisionomia

    constitutiva nova de cada forma, em cada fase da lngua. Por isso mesmo, pode-se afirmar que

    o lxico de uma lngua est relacionado histria cultural da comunidade. Sendo assim, por

    meio do acervo lexical de um grupo, pode-se compreender no apenas sua maneira de ver a

    realidade, como o modo de seus membros organizarem esta realidade e classificarem as

    diferentes esferas do conhecimento. Dessa forma, por meio do lxico podem-se, tambm,

    definir fatos de cultura. Na verdade, o lxico de uma lngua natural possibilita o registro do

    conhecimento do universo, pois o homem, ao nomear os seres e objetos est,

    simultaneamente, classificando-os; ou seja, a primeira etapa percorrida pelo esprito humano,

    na busca de conhecimento do universo, a nomeao da realidade. Quando identifica

    semelhanas ou discrimina os traos distintivos que individualizam seres e objetos como

    entidades diversas, por meio da reunio dos objetos, o homem vai estruturando a realidade

    que o cerca, rotulando essas entidades.

    De acordo com Guilbert (1975), o lxico no se constitui apenas como um sistema de

    criao lexical: debrua-se tambm sobre as unidades de linguagem ligadas ao universo das

    coisas, aos diferentes tipos de pensamento, dinmica do mundo e da sociedade.

    Para Biderman (2001), o lxico das lnguas naturais foi gerado pelo processo de

    nomeao. Ou seja, os atos sucessivos de cognio da realidade e de categorizao das

    experincias, transformados em signos lingsticos ou palavras que possibilitam o processo

    de gerao do lxico como um sistema que se expande abertamente e, por isso,

    constantemente lhe so incorporadas novas criaes vocabulares a que se d o nome de

    neologismos.

    Novamente em Guilbert (opus cit.), encontra-se que a possibilidade de criao de

    novas unidades lexicais que define a neologia lexical, tendo em vista as regras de produo

    inclusas no sistema do lxico. Assim, estudar a neologia lexical consiste tambm em reunir

    um conjunto de neologismos surgidos em um perodo preciso da vida da comunidade

    lingstica (GUILBERT, 1975, p. 31) (C 2). Deve-se datar os acontecimentos lingsticos

    pontuais - as criaes lexicais novas - por duas razes: