UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO Centro de .te³ricos como Marilena Chau­, Renato Ortiz, Muniz

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO Centro de Filosofia e Cincias Humanas

Escola de Comunicao

SUZANA CORRA BARBOSA

ONDE VADIAO SE FAZ TRADIO: a negaa da capoeira na luta pela cultura

Rio de Janeiro 2008

Suzana Corra Barbosa

ONDE VADIAO SE FAZ TRADIO: a negaa da capoeira na luta pela cultura

Trabalho de Concluso de Curso apresentado Escola de Comunicao da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessrios obteno do grau de Bacharel em Comunicao Social, habilitao Jornalismo.

Orientador: Prof. Dr. Eduardo Granja Coutinho

Rio de Janeiro 2008

BARBOSA, Suzana Corra Onde vadiao se faz tradio: a negaa da capoeira na

luta pela cultura / Suzana Corra Barbosa Rio de Janeiro, 2008.

185 f.

Monografia (Bacharel em Comunicao Social / Habilitao em Jornalismo ) Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Escola de Comunicao. Orientador: Eduardo Granja Coutinho 1. Capoeira. 2. Tradio. 3. Cultura Popular. 4. Contra-hegemonia. I. Coutinho, Eduardo Granja. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Centro de Filosofia e Cincias Humanas. Escola de Comunicao. III. Ttulo.

Suzana Corra Barbosa

Orientador: Prof. Dr. Eduardo Granja Coutinho

ONDE VADIAO SE FAZ TRADIO:

a negaa da capoeira na luta pela cultura

Monografia submetida ao corpo docente da Escola de Comunicao da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessrios obteno do grau de Bacharel em Comunicao Social, habilitao Jornalismo.

Rio de Janeiro, _____ de _______________ de _______.

Banca Examinadora:

Orientador: __________________________________________________________

Profo. Dr. Eduardo Granja Coutinho

Examinador: _________________________________________________________

Profo. Dr. Nestor Sezefredo dos Passos Neto

Examinador: _________________________________________________________

Profo. Dr. Muniz Sodr de Arajo Cabral

A meu mestre, que me ensinou a jogar capoeira e mostrou parte dos segredos da mandinga. Em dedicao tentativa perene de colaborar com a compreenso da cultura e da histria do meu lugar.

Eu atrs do cantad Sou como abia por pau Como linha por agia Como dedo por dedal Como chapu por cabea E ngo por berimbau.

Sinfrnio Martins

Baianninha, pela co-orientao ostensiva, imprescindvel e onipresente

disponibilizada na esquina de casa, nos sambas e nas sextas na Lapa, online, simultnea redao deste trabalho, por celular, diretamente da Mar, do Alemo, de Natal, Fortaleza, So Paulo, Braslia, Joo Pessoa e Recife, e pelos e-mails. Estes, as famosas Cartas, que, um dia, tornar-se-o captulos de um dos livros que certamente no passaremos da vida (curta, porm intensa) sem publicarmos juntas. Pelas crticas cida e sagazmente mal-humoradas, tpicas da mandinga que s a falsa baiana (vanguardista e pessimista) tem; por ter a pacincia dos que sabem que a fruta s d no tempo e por me dar a certeza que revoluo tambm se faz com capoeira.

M, que apareceu do nada e que, por nada, foi ficando, por me ouvir falar de capoeira

de manh, de tarde, de noite e de madrugada, por ser meu ombro preferido e meu esconderijo, pelo apoio incondicional, por querer e aceitar participar desse momento da minha vida. E por tudo o que no precisa (ou no pode) ser dito.

A minha me que, mesmo sem saber o que capoeira, agenta e respeita a seu modo,

sempre o berimbau no quarto ao lado. E, claro, por de alguma forma ter sido a base de onde eu sempre sa, mas para onde sempre voltei.

Aos poucos, porm excelentes, amigos com quem escolhi partilhar a vida, que vo

comigo para onde eu for, que respeitam as teras e as quintas-feiras noite e, principalmente, por preocuparem-se sem ao menos saberem o tema do presente trabalho.

Finalmente, a meu orientador professor que guardarei na lembrana com carinho e

admirao , Eduardo Granja Coutinho, pela afinidade sem muitas palavras, pelas dicas preciosas e por me ter feito enxergar que capoeira tradio. Mas, principalmente, por me assegurar que contra-hegemonia defesa, ataque, ginga de corpo e tambm malandragem.

O pai me disse que a tradio lanterna Vem do ancestral, moderna Bem mais que o modernoso E a o meu corao que governa Na treva a luz mais eterna [...] Mar muda com o luar Futuro pra quem lembrar Se isso que o pai ensinou, Cab. Cab, meu pai, cab.

Moacyr Luz

O ritmo caracteriza um povo. Quando o homem primitivo quis se acompanhar, bateu palmas. As mos foram, portanto, um dos primeiros instrumentos musicais. Mas como a humanidade folgada e no quer se machucar, comeou a sacrificar os animais, para tirar o couro. Surgiu o pandeiro. E veio o samba. E surgiu o brasileiro, povo que l msica com mais velocidade do que qualquer outro no mundo, porque j nasce se mexendo muito, com ritmo, agitadinho, e depois vira capoeira at no enxergar.

Donga

RESUMO

BARBOSA, Suzana Corra. Onde vadiao se faz tradio: a negaa da capoeira na luta pela cultura. Rio de Janeiro, 2008. Monografia (Graduao em Comunicao Social, habilitao em Jornalismo) Escola de Comunicao, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

A partir dos conceitos de tradio, contra-hegemonia e cultura, e tendo se baseado em

tericos como Marilena Chau, Renato Ortiz, Muniz Sodr e Eduardo G. Coutinho, alm de

estudiosos-capoeiristas, este trabalho pretende analisar a manifestao da capoeira atravs da

Histria do Brasil, buscando entend-la como uma tradio viva, uma articulao orgnica entre

o povo e suas expresses culturais. Para tanto, busca-se compreender a cultura atravs de uma

perspectiva dialtica, que consistiria em uma ao criadora do sujeito reinterpretando os signos

do passado. Utilizando-se ainda do pensamento de Mikhail Bakhitin, que concebe o signo como a

arena onde se desenvolve a luta de classes (1997, p. 46), e de Antnio Gramsci, que afirma ser

a luta poltica a luta pela construo de uma nova hegemonia, a pesquisa procura enxergar de que

forma a capoeira desde suas primeiras aparies at os dias de hoje permanentemente

reelabora os signos do passado, recriando suas formas de expresso no presente e demandando

respostas das geraes futuras. Por conseguinte, d-se a comunicao intergeracional de maneira

no-dialgica e concebe-se a capoeira como tradio.

Palavras-chave: Capoeira. Tradio. Cultura Popular. Contra-hegemonia.

LISTA DE ILUSTRAES

Figura 1. Capera ou Danse de la guerre. Johann Moritz Rugendas, 1834. p. 169

Figura 2. Negros lutando, Brazil. Augustus Earle, 1822. (Biblioteca Nacional da Austrlia) p. 169

Figura 3. Negros volteadores. Jean Baptiste Debret, 1824. p. 170

Figura 4. Escravo tocando berimbau. Jean Baptiste Debret, 1824. p. 170

Figura 5. Typos e uniformes dos antigos nagoas e guayams sendo os principaes distinctivos dos primeiros cinta com cores branca sobre a encarnada e chapo de aba batida para a frente e dos segundos com cores encarnadas sobre a branca e chapo de aba elevada na frente. Revista Kosmos, mar. 1906. p. 171

Figura 6. Mestre Bimba cumprimentando o Presidente Getlio Vargas em encontro oficial no Palcio do Governo da Bahia, em 23 de julho de 1953. p. 172

Figura 7. Bimba: um berimbau e dois pandeiros. p. 172

Figura 8. Mestre Pastinha tocando berimbau. p. 173

Figura 9. Desenho de Caryb. p. 173

Figura 10. Mestre Sinhozinho. p. 174

Figura 11. Foto das gravaes do filme Cordo de Ouro, dirigido por Antnio Carlos Fontoura, em que Camisa ( esquerda) interpretava Ogum e batizava o personagem principal vivido por Nestor Capoeira. p. 174

Figura 12. Mestre Gato e Mestre Mosquito. Na foto, pode-se identificar os elementos caractersticos introduzidos pelo grupo Senzala: a cala at o joelho, a corda vermelha amarrada cintura e o apuro tcnico dos movimentos. p. 175

SUMRIO

1 INTRODUO ......................................................................................................................1

2 TRADIO E HISTRIA ....................................................................................................8

2.1 TRADIO E TRADICIONALISMO ..............................................................................8

2.2 CONTEXTUALIZAO DA CULTURA NEGRA NA COLONIZAO.....................11

3 FORMAO DA CAPOEIRA NO SCULO XIX: maltas, escravos e vadios..................20

3.1 MITOS DE ORIGEM ......................................................................................................20

3.2 PRIMEIROS REGISTROS 1808/1816..........................................................................31

3.3 COMEA