CHAU, Marilena. Mito fundador e sociedade autoritria

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  • MARILENA CHAU

    BRASIL

    Mito fundador e sociedade autoritria

    1 edio: abril de 2000

    2 reimpresso: outubro de 2001

    Reviso

    Maurcio Balthazar Leal

    Vera Lcia Pereira

  • 2

    SUMRIO

    COM F E ORGULHO 3

    A NAO COMO SEMIFORO 7

    O VERDEAMARELISMO 20

    DO IV AO V CENTENRIO 29

    O MITO FUNDADOR 35

    COMEMORAR? 55

    NOTAS E REFERNCIAS 60

    BIBLIOGRAFIA 62

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    COM F E ORGULHO

    Ama com f e orgulho a terra em que nasceste.

    Criana! Jamais vers pais nenhum como este.

    Olha que cu, que mar, quej1oresta!

    A natureza aqui perpetuamente em festa

    um seio de me a transbordar carinhos.

    [...]

    Imita na grandeza a terra em que nasceste.

    OLAVO BILAC

    Na escola, todos ns aprendemos o significado da bandeira brasileira: o retngulo verde

    simboliza nossas matas e riquezas florestais, o losango amarelo simboliza nosso ouro e nossas

    riquezas minerais, o crculo azul estrelado simboliza nosso cu, onde brilha o Cruzeiro do Sul,

    indicando que nascemos abenoados por Deus, e a faixa branca simboliza o que somos: um povo

    ordeiro em progresso. Sabemos por isso que o Brasil um gigante pela prpria natureza, que

    nosso cu tem mais estrelas, nossos bosques tm mais flores e nossos mares so mais verdes.

    Aprendemos que por nossa terra passa o maior rio do mundo e existe a maior floresta tropical do

    planeta, que somos um pas continental cortado pela linha do Equador e pelo trpico de

    Capricrnio, o que nos faz um pas de contrastes regionais cuja riqueza natural e cultural

    inigualvel. Aprendemos que somos um dom de Deus e da Natureza porque nossa terra

    desconhece catstrofes naturais (ciclones, furaces, vulces, desertos, nevascas, terremotos) e que

    aqui, em se plantando, tudo d.

    Todos ns fazemos nossas as palavras daquele que considerado o primeiro historiador

    brasileiro do Brasil, Rocha Pita, quando, em 1730, escreveu:

    Em nenhuma outra regio se mostra o cu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em

    nenhum outro hemisfrio tem raios to dourados, nem os reflexos noturnos to brilhantes; as estrelas

    so mais benignas e se mostram sempre alegres [...] as guas so mais puras; enfim o Brasil Terreal

    Paraso descoberto, onde tm nascimento e curso os maiores rios; domina salutfero o clima; influem

    benignos astros e respiram auras suavssimas, que o fazem frtil e povoado de inumerveis habitadores.1

    Sabemos todos que somos um povo novo, formado pela mistura de trs raas valorosas: os

    corajosos ndios, os esticos negros e os bravos e sentimentais lusitanos. Quem de ns ignora que

    da mestiagem nasceu o samba, no qual se exprimem a energia ndia, o ritmo negro e a melancolia

    portuguesa? Quem no sabe que a mestiagem responsvel por nossa ginga, inconfundvel marca

    dos campees mundiais de futebol? H quem no saiba que, por sermos mestios, desconhecemos

    preconceito de raa, cor, credo e classe? Afinal, Nossa Senhora, quando escolheu ser nossa

    padroeira, no apareceu negra?

    Aprendemos tambm que nossa histria foi escrita sem derramamento de sangue, com

    exceo de nosso Mrtir da Independncia, Tiradentes; que a grandeza do territrio foi um feito da

    bravura herica do Bandeirante, da nobreza de carter moral do Pacificador, Caxias, e da agudeza

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    fina do Baro do Rio Branco; e que, forados pelos inimigos a entrar em guerras, jamais passamos

    por derrotas militares. Somos um povo que atende ao chamamento do pas e que diz ao Brasil: Mas

    se ergues da justia a clava forte/ Vers que um filho teu no foge luta/ Nem teme quem te adora

    a prpria morte. No tememos a guerra, mas desejamos a paz. Em suma, somos um povo bom,

    pacfico e ordeiro, convencido de que no existe pecado abaixo do Equador.

    Duas pesquisas recentes de opinio, realizadas em 1995, uma delas pelo Instituto Vox Populi

    e a outra pelo Centro de Pesquisa e Documentao da Fundao Getlio Vargas, indagaram se os

    entrevistados sentiam orgulho de ser brasileiros e quais os motivos para o orgulho. Enquanto quase

    60% responderam afirmativamente, somente 4% disseram sentir vergonha do pas. Quanto aos

    motivos de orgulho, foram enumerados, em ordem decrescente: a Natureza, o carter do povo, as

    caractersticas do pas, esportes/msica/ carnaval. Quanto ao povo brasileiro, de quem os

    entrevistados se sentem orgulhosos, para 50% deles a imagem apresentava os seguintes traos,

    tambm em ordem decrescente: trabalhador/lutador, alegrei divertido, conformado/ solidrio e

    sofredor.

    Mesmo que no contssemos com pesquisas, cada um de ns experimenta no cotidiano a

    forte presena de uma representao homognea que os brasileiros possuem do pas e de si

    mesmos. Essa representao permite, em certos momentos, crer na unidade, na identidade e na

    indivisibilidade da nao e do povo brasileiros, e, em outros momentos, conceber a diviso social e a

    diviso poltica sob a forma dos amigos da nao e dos inimigos a combater, combate que

    engendrar ou conservar a unidade, a identidade e a indivisibilidade nacionais. Eis por que

    algumas pesquisas de opinio indicam que uma parte da populao atribui os males do pas

    colonizao portuguesa, presena dos negros ou dos asiticos e, evidentemente, aos maus

    governos, traidores do povo e da ptria. Nada impede, porm, que em outras ocasies o inimigo seja

    o gringo explorador ou alguma potncia econmica estrangeira. A representao suficientemente

    forte e fluida para receber essas alteraes que no tocam em seu fundo.

    H, assim, a crena generalizada de que o Brasil: 1) um dom de Deus e da Natureza; 2)

    tem um povo pacfico, ordeiro\generoso, alegre e sensual, mesmo quando sofredor; 3) um pas

    sem preconceitos ( raro o emprego da expresso mais sofisticada democracia racial),

    desconhecendo discriminao de raa e de credo, e praticando a mestiagem como padro

    fortificador da raa; 4) um pas acolhedor para todos os que nele desejam trabalhar e, aqui, s no

    melhora e s no progride quem no trabalha, no havendo por isso discriminao de classe e sim

    repdio da vagabundagem, que, como se sabe, a me da delinqncia e da violncia; 5) um pas

    dos contrastes regionais, destinado por isso pluralidade econmica e cultural. Essa crena se

    completa com a suposio de que o que ainda falta ao pas a modernizao -isto , uma economia

    avanada, com tecnologia de ponta e moeda forte -, com a qual sentar-se- mesa dos donos do

    mundo.

    A fora persuasiva dessa representao transparece quando a vemos em ao, isto , quando

    resolve imaginariamente uma tenso real e produz uma contradio que passa despercebida.

    assim, por exemplo, que algum pode afirmar que os ndios so ignorantes, os negros so

    indolentes, os nordestinos so atrasados, os portugueses so burros, as mulheres so naturalmente

    inferiores, mas, simultaneamente, declarar que se orgulha de ser brasileiro porque somos um povo

    sem preconceitos e uma nao nascida da mistura de raas. Algum pode dizer se indignado com a

    existncia de crianas de rua, com as chacinas dessas crianas ou com o desperdcio de terras no

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    cultivadas e os massacres dos sem-terra, mas, ao mesmo tempo, afirmar que se orgulha de ser

    brasileiro porque somos um povo pacfico, ordeiro e inimigo da violncia. Em suma, essa

    representao permite que uma sociedade que tolera a existncia de milhes de crianas sem

    infncia e que, desde seu surgimento, pratica o apartheid social possa ter de si mesma a imagem

    positiva de sua unidade fraterna.

    Se indagarmos de onde proveio essa representao e de onde ela tira sua fora sempre

    renovada, seremos levados em direo ao mito fundador do Brasil, cujas razes foram fincadas em

    1500.

    MITO FUNDADOR

    Ao falarmos em mito, ns o tomamos no apenas no sentido etimolgico de narrao pblica

    de feitos lendrios da comunidade (isto , no sentido grego da palavra mythos), mas tambm no

    sentido antropolgico, no qual essa narrativa a soluo imaginria para tenses, conflitos e

    contradies que no encontram caminhos para serem resolvidos no nvel da realidade.

    Se tambm dizemos mito fundador porque, maneira de toda fundatio, esse mito impe um

    vnculo interno com o passado como origem, isto , com um passado que no cessa nunca, que se

    conserva perenemente presente e, por isso mesmo, no permite o trabalho da diferena temporal e

    da compreenso do presente enquanto tal. Nesse sentido, falamos em mito tambm na acepo

    psicanaltica, ou seja, como impulso repetio de algo imaginrio, que cria um bloqueio

    percepo da realidade e impede lidar com ela.

    Um mito fundador aquele que no cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas

    linguagens, novos valores e idias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais

    a repetio de si mesmo.

    Insistimos na expresso mito fundador porque diferenciamos fundao e formao. Quando os

    historiadores falam em formao, referem-se no s s determinaes econmicas, sociais e

    polticas que produzem um acontecimento histrico, mas tambm pensam em transformao e,

    portanto, na continuidade ou na descontinuidade dos acontecimentos, percebidos como processos

    temporais. Numa palavra, o registro da formao a histria propriamente dita, a includas suas

    representaes, sejam aquelas que conhecem o processo histrico, sejam as que o ocultam (isto ,

    as ideologias).

    Diferentemente d