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Universidade de Aveiro 2008 DEGEI – Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial ÂNGELA MATOS SILVA ERGONOMIA E ANTROPOMETRIA. DIMENSIONAMENTO DE POSTOS DE TRABALHO EM PÉ.

ÂNGELA MATOS ERGONOMIA E ANTROPOMETRIA. DIMENSIONAMENTO DE ... · Tabela 1 – Pesos Limite, em Kg, para transporte manual de cargas ..... 21 Tabela 2 – Capacidade de levantamento

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Universidade de Aveiro 2008

DEGEI Departamento de Economia, Gesto e Engenharia Industrial

NGELA MATOS SILVA

ERGONOMIA E ANTROPOMETRIA. DIMENSIONAMENTO DE POSTOS DE TRABALHO EM P.

Universidade de Aveiro

2008 DEGEI Departamento de Economia, Gesto e Engenharia Industrial

NGELA MATOS SILVA

ERGONOMIA E ANTROPOMETRIA. DIMENSIONAMENTO DE POSTOS DE TRABALHO EM P.

dissertao apresentada Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessrios obteno do grau de Mestre em Engenharia e Gesto Industrial, realizada sob a orientao cientfica do Dr. Henrique Diz, Professor Catedrtico do Departamento de Economia, Gesto e Engenharia Industrial da Universidade de Aveiro

o jri

presidente Prof. Dra. Maria Joo Machado Pires da Rosa Professora Auxiliar convidada da Universidade de Aveiro

vogais Prof. Dr. Denis Alvez Coelho (Arguente) Professor Auxiliar da Universidade da Beira Interior

Prof. Dr. Henrique Manuel Morais Diz (Orientador) Professor Catedrtico da Universidade de Aveiro

agradecimentos

Esta dissertao o resultado de extensas horas de pesquisa, dedicao erduo trabalho que, apesar de ser constitudo por apenas um autor, s foipossvel realiz-lo graas ajuda, disponibilidade, compreenso e pacinciade vrias pessoas que para tal contriburam. Ao meu orientador da Universidade de Aveiro, Professor Doutor Henrique Diz,pela disponibilidade, incentivos, sugestes e crticas que contriburam para amelhoria contnua deste trabalho. Ao meu orientador da Bosch Termotecnologia S.A., Rui Silva, por toda adisponibilidade (mesmo quando o telefone no pra), pacincia, abertura deesprito e confiana depositada o que se revelou fundamental para umdesenvolvimento pessoal e profissional. sua excelente capacidade deliderana com o qual muito aprendi. A toda equipa do departamento de Mtodos e Tempos pelo acolhimento eateno demonstrada, que permitiram o alargamento de conhecimentos e umaboa integrao. Ao Rui Sampaio, meu melhor amigo, por todo o apoio nos bons e mausmomentos, compreenso, motivao, incentivo e positivismo presente 24horas por dia 7 dias por semana. biblioteca da Universidade de Aveiro, Mediateca e Biblioteca do InstitutoSuperior de Contabilidade e Administrao pelo emprstimo de livros que serevelaram fundamentais e sem os quais este trabalho no seria o mesmo. E porque os ltimos so sempre os primeiros, aos meus pais, por me incutiremdesde criana o sentido da responsabilidade e importncia que o estudoassume na realizao profissional.

palavras-chave

Ergonomia e Antropometria.

resumo

O trabalho que se apresenta centra-se nas reas de Ergonomia eAntropometria no dimensionamento de postos padro para trabalho em p demodo a haver uma uniformizao de dados para futuros projectos. Procura-sefazer a ligao entre a pesquisa efectuada e a realidade da fbrica de modo aadaptar os parmetros dos postos s caractersticas fsicas do ser humano.Deste modo, o objectivo primordial o de satisfazer o maior nmero depessoas possvel e para isso utilizam-se dados referentes Antropometria dapopulao Portuguesa, sempre que tal seja possvel. Comea-se por apresentar no Captulo I uma perspectiva terica sobreErgonomia e Antropometria onde se descrevem, analisam e sintetizam osconhecimentos existentes sobre estas reas. No Captulo II focam-se asopes metodolgicas adoptadas para o estudo de caso, antevendo-se deforma global o trabalho que ir ser desenvolvido no captulo seguinte. NoCaptulo III apresenta-se o estudo de caso de uma forma mais pormenorizadae respectivos resultados. Finalmente, no Captulo IV apresentam-se asconcluses gerais do trabalho e sugerem-se futuras oportunidades deinvestigao.

keywords

Ergonomics and Anthropometry

abstract

The work presented focus on areas of Ergonomics and Anthropometry inworkspace design for standing workers so its possible a data standardizationfor future projects. An attempt is also made to connect the research that wasdeveloped with the reality of the factory in order to adapt the workplace with thephysical characteristics of the human being. So, the aim is to satisfy as manypeople as possible therefore Portuguese Anthropometry data is used wheneverits possible. In Chapter I it is given a theoretical perspective on Ergonomics andAnthropometry where is describe analyse and synthesize existing knowledge ofthese areas. Chapter II focus on the methodological options taken to this casestudy having a global perspective of the work developed in the followingchapter. Chapter III describes in detail the case study and its results. Finally,Chapter IV synthesizes in general the conclusions of the work and suggestsopportunities for future research.

LISTA DE SIGLAS

RB Robert Bosch

IEE Associao Internacional de Ergonomia

SELP Sociedade de Ergonomia de Lngua Francesa

ANACT Agncia Nacional para o Desenvolvimento das Condies de Trabalho

INIS Instituto Nacional de Investigao e Segurana

APERGO Associao Portuguesa de Ergonomia

ISCA Instituto Superior de Contabilidade e Administrao

PLR Peso Limite Recomendado

CC - Constante de Carga

MH - Multiplicador Horizontal

MV - Multiplicador Vertical

MD - Multiplicador da Distncia Percorrida

MA - Multiplicador de Assimetria

MP - Multiplicador da Pega

MF - Multiplicador da Frequncia

DIN Normas Alems

IES Normas Americanas

ISHT Instituto para a Segurana, Higiene e Sade no Trabalho

OCRA - Occupational Repetitive Assessment

NIOSH Institute for Occupational Safety and Health

CIP Continuous Improvement Process MTM- Methods Time Measurements

PME- Pequenas e Mdias Empresas

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 1

ndice INTRODUO ................................................................................................................................... 5I. ENQUADRAMENTO TERICO ................................................................................................. 71. ERGONOMIA ................................................................................................................................ 7

1.1. Definio do conceito de Ergonomia ................................................................................. 71.2. Gnese e evoluo da Ergonomia..................................................................................... 91.3. Ergonomia como rea pluridisciplinar .............................................................................. 111.4. Correntes da ergonomia .................................................................................................. 121.4.1. Anlise da tarefa vs anlise da actividade .................................................................... 131.5. Tipos de ergonomia ......................................................................................................... 161.5.1. Ergonomia de concepo e correco ......................................................................... 161.5.2 Ergonomia do produto e produo ................................................................................ 171.5.3. Ergonomia antropomtrica, informacional, dos sistemas e heurstica ......................... 181.6. Manuseamento de Cargas ............................................................................................... 191.6.1. Cuidados a ter ............................................................................................................... 191.6.2. Cargas Mximas Permitidas ......................................................................................... 211.7. Iluminao ........................................................................................................................ 261.7.1. Tipo de Lmpadas ........................................................................................................ 30

2. ANTROPOMETRIA ....................................................................................................................... 312.1. Definio do conceito de Antropometria e sua relevncia no mundo do trabalho .......... 312.2. Antropometria esttica e dinmica................................................................................... 332.3. Variabilidade fsica ........................................................................................................... 352.4. Princpios antropomtricos .............................................................................................. 372.4.1. Dimenses mnimas e mximas ................................................................................... 392.5. Dados antropomtricos .................................................................................................... 412.5.1. Estticos ........................................................................................................................ 422.5.1.1. Base de dados de Pheasant (1986) .......................................................................... 422.5.1.2. Base de dados da populao portuguesa ................................................................. 442.5.2. Dinmicos ..................................................................................................................... 47

3. DIMENSIONAMENTO DO ESPAO DE TRABALHO ............................................................................ 503.1. Constrangimentos no dimensionamento ......................................................................... 523.1.1. Espao Livre ................................................................................................................. 533.1.2. Alcance ......................................................................................................................... 543.1.3. Fora ............................................................................................................................. 563.1.4. Postura .......................................................................................................................... 573.2. Posto de trabalho em P ................................................................................................. 603.3. Alcances numa superfcie de trabalho ............................................................................. 67

II. METODOLOGIA ...................................................................................................................... 69III. CASO DE ESTUDO ................................................................................................................ 721. A EMPRESA ............................................................................................................................... 722. DIMENSIONAMENTO DE POSTOS DE TRABALHO PADRO ............................................................... 73

2.1. Dimensionamento de um Posto Padro com Bancada ................................................... 752.1.1. Bancada de Trabalho e Centro da rea de Trabalho ................................................... 762.1.2. Altura da Bancada de Trabalho e Altura de Trabalho .................................................. 782.1.3. Nmero Mximo de Rampas e respectiva Inclinao .................................................. 792.1.4. Local para Retorno ....................................................................................................... 812.1.5. Distncia de Alcance s Peas..................................................................................... 822.1.6. Local para Quadro Elctrico e Folhas de Registo ........................................................ 832.1.7. Power Point e Construo da Mock-up ........................................................................ 842.2. Dimensionamento de um Posto Padro com Tapete Rolante ........................................ 852.2.1. Bancada de Trabalho e Centro da rea de Trabalho ................................................... 862.2.2. Altura do Tapete Rolante e Altura de Trabalho ............................................................ 872.2.3. Nmero Mximo de Rampas e respectiva Inclinao .................................................. 882.2.4. Local para Retorno ....................................................................................................... 882.2.5. Distncia de Alcance s Peas..................................................................................... 892.2.6. Local para Quadro Elctrico ......................................................................................... 892.2.7. Power Point e Construo da Mock-up ........................................................................ 892.3. Dimensionamento de um Posto Padro sem Bancada ................................................... 90

2 Ergonomia e Antropometria

2.3.1. Bancada de Trabalho e Centro da rea de Trabalho ................................................... 912.3.2. Altura da plataforma e Altura de Trabalho .................................................................... 912.3.3. Nmero Mximo de Rampas e respectiva Inclinao .................................................. 922.3.4. Local para Retorno ....................................................................................................... 922.3.5. Distncia de Alcance s Peas..................................................................................... 922.3.6. Local para Quadro Elctrico ......................................................................................... 922.3.7. Power Point e Construo da Mock-up ........................................................................ 932.4. Dimensionamento de um Bordo de linha ......................................................................... 932.4.1. Nmero Mximo de Rampas e respectiva Inclinao .................................................. 942.4.2. Alcances s caixas ....................................................................................................... 962.4.3. Power Point e Construo da Mock-up ........................................................................ 96

3. PROCEDIMENTO ......................................................................................................................... 974. ERGO CHECKLIST ...................................................................................................................... 975. SOFTWARE IGEL ....................................................................................................................... 996. WORKSHOPS ........................................................................................................................... 100IV. CONCLUSES E INVESTIGAO FUTURA ..................................................................... 103BIBLIOGRAFIA .............................................................................................................................. 106 APNDICES108

NDICE DE TABELAS Tabela 1 Pesos Limite, em Kg, para transporte manual de cargas ......................................... 21 Tabela 2 Capacidade de levantamento para homens e mulheres em Kg ............................... 22 Tabela 3 Limites mximos para o levantamento de cargas com utilizao pouco frequente . 22 Tabela 4 - Limites mximos para o levantamento de cargas com utilizao frequente ............. 23 Tabela 5 - Multiplicadores de pega ............................................................................................. 24 Tabela 6 - Multiplicador de frequncia ........................................................................................ 25 Tabela 7 Comparao entre as normas alems e americanas ............................................... 28 Tabela 8 Nveis de Iluminao recomendadas para algumas tarefas tpicas ......................... 29 Tabela 9 Dados antropomtricos estticos da Populao Portuguesa Masculina .................. 45 Tabela 10 Dados antropomtricos estticos da Populao Portuguesa Feminina ................. 46 Tabela 11 Alturas mximas para homens e mulheres dependendo do percentil .................... 55 Tabela 12 Contribuio de cada parte do corpo para o peso total .......................................... 58 Tabela 13 Medidas antropomtricas para o dimensionamento dos postos de trabalho ......... 62 Tabela 14 Medidas recomendas para a altura de uma bancada de trabalho ......................... 63 Tabela 15 Dimenses para as diversas posturas que se podem adoptar no posto de trabalho ..................................................................................................................................................... 65 Tabela 16 Altura de trabalho ptima dependendo do tipo de tarefa e de acordo com o sexo e percentil ....................................................................................................................................... 66 Tabela 17 - Intensidades de iluminao dependendo do tipo de tarefa a executar ................... 74 Tabela 18 Comprimento das rampas e altura dos diferentes nveis ........................................ 81 Tabela 19 Distncias de alcances s peas nos diferentes nveis .......................................... 83 Tabela 20 Comprimento das rampas e altura dos diferentes nveis ........................................ 88 Tabela 21 Distncias de alcances s peas nos diferentes nveis .......................................... 89 Tabela 22 Alturas das rampas para bordo de linha sem retorno ............................................. 95 Tabela 23 Alturas das rampas para bordo de linha com retorno ............................................. 95 Tabela 24 Alcances posteriores para o bordo de linha sem retorno ....................................... 96 Tabela 25 Alcances posteriores para o bordo de linha com retorno ....................................... 96 Tabela 26 Captulos da Ergo Checklist e respectivas avaliaes ........................................... 97 Tabela 27 Significado da cor resultante da anlise ................................................................. 99 Tabela 28 Parmetros necessrios para a anlise NIOSH ................................................... 100 Tabela 29 Comparao de resultados entre o ano de 2007 e 2008...................................... 102

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 3

NDICE DE FIGURAS Figura 1 - Interaco entre a ergonomia de concepo e correco ......................................... 17 Figura 2 - Postura da coluna no levantamento de cargas .......................................................... 20 Figura 3 - Recomendaes para o manuseamento de cargas ................................................... 20 Figura 4 - Distncias consideradas na equao NIOSH ............................................................ 24 Figura 5 - O efeito da intensidade de iluminao na produo e na rejeio de uma fiao americana de algodo ................................................................................................................. 26 Figura 6 Variaes do rendimento e da fadiga visual em funo do nvel de iluminamento (Hopkinson e Collins, 1970) ........................................................................................................ 27 Figura 7 Diferentes tipos de intensidade de iluminao .......................................................... 29 Figura 8 Local recomendado para colocao da iluminao num posto de trabalho .............. 30 Figura 9 - Exemplos de dimenses antropomtricas estticas .................................................. 34 Figura 10 - Dimenses importantes da mo para o dimensionamento de uma chave de fendas ..................................................................................................................................................... 34 Figura 11 - Exemplos de dimenses antropomtricas dinmicas .............................................. 35 Figura 12 Relao entre antropometria ergonomia e design ................................................... 35 Figura 13 Trs tipos bsicos do corpo humano segundo Sheldon (1940) .............................. 36 Figura 14 Relao entre a altura da porta e a estatura de uma pessoa ................................. 39 Figura 15 Exemplos de dimenses mnimas ........................................................................... 40 Figura 16 Exemplos de dimenses mximas .......................................................................... 41 Figura 17 Exemplo de dimenses mnimas e mximas usadas num posto de trabalho ......... 41 Figura 18 - Dimenses antropomtricas estudadas segundo Pheasant (1986) ......................... 43 Figura 19 Dimenses do corpo humano segundo Pheasant (1986) ....................................... 43 Figura 20 Dimenses corporais estudadas .............................................................................. 44 Figura 21 Dimenses antropomtricas estudadas para a populao portuguesa .................. 45 Figura 22 - Planos triortogonais .................................................................................................. 47 Figura 23 - Antropometria Dinmica para uma pessoa sentada ................................................ 48 Figura 24 - Alcances ptimos dependendo da postura .............................................................. 48 Figura 25 - Rotaes voluntrias do corpo humano ................................................................... 49 Figura 26 Rotao do p .......................................................................................................... 50 Figura 27 Postura com uma forte inclinao do tronco ........................................................... 50 Figura 28 Execuo de uma tarefa que exige uma elevao dos ombros constante ............. 51 Figura 29 Altura de trabalho para uma postura natural do corpo ............................................ 51 Figura 30 - Apoios para diversos membros do corpo ................................................................. 52 Figura 31 Espaos de trabalho recomendados para algumas posturas tpicas ...................... 53 Figura 32 Dimenses de segurana recomendadas pela DIN 31 001 .................................... 54 Figura 33 Alcance posterior do percentil 5 (masculino e feminino) e alcance para movimentos espordicos ............................................................................................................. 54 Figura 34 Relao entre a estatura e o alcance mximo dos homens e mulheres ................. 55 Figura 35 Relao entre o sexo, a idade e a fora muscular .................................................. 56 Figura 36 Fora mxima de puxar (esquerda) e de empurrar (direita) .................................... 57 Figura 37 Relao entre o espao livre, fora, alcance e postura ........................................... 58 Figura 38 Distribuio das dores resultantes de posturas inadequadas ................................. 60 Figura 39 Alturas das bancadas de trabalho dependendo da altura do cotovelo e do tipo de trabalho a ser efectuado .............................................................................................................. 61 Figura 40 Relao entre a estatura de um indivduo e a altura de trabalho ............................ 62 Figura 41 Dimenses para um posto de trabalho em p ......................................................... 63 Figura 42 Dimenses segundo a norma DIN 33 406 ............................................................... 64 Figura 43 Dimenses do local de trabalho segundo norma DIN 33 406 ................................. 65 Figura 44 Alturas da bancada para trabalho em p ................................................................. 66 Figura 45 Alcances ptimos e mximos numa superfcie de trabalho .................................... 67 Figura 46 Zonas de alcance horizontal na superficie de trabalho ........................................... 68 Figura 47 Posto com bancada visto de frente .......................................................................... 76 Figura 48 Posto com bancada visto de lado ............................................................................ 76 Figura 49 Centro da rea de trabalho ...................................................................................... 77 Figura 50 - Posto com tapete rolante visto de frente .................................................................. 86 Figura 51 Posto com tapete rolante visto de lado .................................................................... 86

4 Ergonomia e Antropometria

Figura 52 - Posto sem bancada de trabalho visto de frente ....................................................... 90 Figura 53 - Posto Padro sem Bancada visto de lado ................................................................ 91 Figura 54 Bordo de linha sem retorno ...................................................................................... 94 Figura 55 Bordo de linha com retorno ...................................................................................... 94 Figura 56 Autocolante da Ergo Checklist de um posto aprovado ergonmicamente .............. 98 Figura 57 - Autocolante da Ergo Checklist de um posto a necessitar de medidas correctivas .. 98

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 5

INTRODUO Com o aumento da competitividade entre as empresas e as rpidas mudanas existentes

necessrio adquirirmos novas formas de nos distinguirmos da concorrncia. De facto, apesar

de o meio envolvente ser idntico para todos, existem algumas empresas que conseguem

obter uma maior vantagem competitiva em relao aos seus concorrentes. Devido

Globalizao todos os bens, servios, pessoas, capacidades e ideias movem-se livremente

atravs das fronteiras geogrficas. Assim sendo, as empresas devem estar preparadas para

serem extremamente flexveis e como tal terem que se adaptar rapidamente mudana que

emerge, de modo a obterem a to desejada vantagem competitiva. Se na gerao dos nossos pais era frequente estes comearam a trabalhar e terminarem

as suas carreiras na mesma empresa, hoje em dia, isso raramente acontece. As pessoas esto

mais abertas mudana e como tal procuram trabalhar onde lhes ofeream melhores

condies.

Desta forma, cada vez mais as empresas tm que se preocupar com os seus recursos

humanos. Para isso, tm de conseguir criar as melhores condies de trabalho possveis, para

que estes possam efectuar o seu trabalho com conforto, segurana e ter uma melhor qualidade

de vida no trabalho. Alm disso, o trabalho no sc. XXI tem de ser encarado de uma forma

diferente dos tempos de revoluo industrial em que havia uma separao entre as funes de

produo e de proteco social. A forma de produzir algo sofreu diversas mutaes devido s

alteraes demogrficas, econmicas, tecnolgicas e de organizao social pelas quais os

diferentes pases passaram. O reforo das normas da legislao comunitria do trabalho, a

valorizao crescente dos regimes de proteco social bem como a mudana constante que

obriga a uma extrema flexibilidade, levou a uma consciencializao do valor humano como

forma de obter vantagem competitiva.

neste contexto que surge este trabalho em que as palavras-chave so: Ergonomia e

Antropometria.

A Ergonomia a cincia que estuda a adaptao do trabalho ao ser humano. O principal

objectivo da Ergonomia garantir as melhores condies de trabalho para os colaboradores,

tendo tambm em conta, a eficincia do sistema. A Ergonomia engloba reas de conhecimento

to diversas como a antropometria, a fisiologia, a biomecnica, a psicossociologia, a medicina

do trabalho, etc., sendo por isso considerada uma cincia pluridisciplinar.

A Antropometria estuda as caractersticas fsicas do ser humano, ou seja, estuda as suas

propores tais como a altura, distncias, larguras, espessuras, comprimentos, etc.

(antropometria esttica) e tambm quais os alcances dos movimentos (antropometria

dinmica).

6 Ergonomia e Antropometria

O campo de actuao uma empresa industrial onde a Ergonomia uma rea

relativamente recente, pelo que existe ainda muito a ser feito nesta rea.

Tendo em conta a inexistncia de postos com parmetros padro que respeitassem as

normas de Ergonomia e Antropometria, o objectivo passa pelo dimensionamento de postos de

trabalho padro para trabalho em p, visto que os postos sentados so cada vez menos e a

tendncia ser sempre a diminuio dos mesmos. Desta forma, pretende-se uma

uniformizao de dados e um cumprimento das normas de Ergonomia e Antropometria,

aquando o dimensionamento de novos postos de trabalho.

Com efeito, existem diferentes realidades para postos de trabalho em p de modo que

so necessrias diferentes solues, sendo por isso necessrio adequar o trabalho que aqui

apresentado, s necessidades da fbrica. Ao faz-lo, pretendemos abranger o maior nmero

de colaboradores possvel de modo a melhorar globalmente o nvel de vida de cada um tendo

em conta que a maior parte do tempo dirio, passado no local trabalho.

Depois da definio de todos os parmetros ser construdo um procedimento interno

para a empresa relativamente ao dimensionamento de postos de trabalho, sendo o objectivo a

divulgao da informao de modo a que todas as pessoas consigam ter conhecimento e

acesso mesma.

A avaliao ergonmica de postos de trabalho, a anlise de situaes que envolvam o

manuseamento de cargas manual e a definio de aces correctivas para as falhas

ergonmicas existentes nos postos de trabalho faro tambm parte dos objectivos deste

trabalho.

Para a obteno de resultados cientficos e com alguma credibilidade iremos recorrer

pesquisa bibliogrfica, observao directa e pesquisa na Internet.

Como limitaes referimos os poucos dados existentes em relao Antropometria da

populao Portuguesa. O facto de a Ergonomia, em Portugal, ainda ser uma cincia que no

ocupa um lugar fixo dentro das empresas limita a troca de experincias profissionais da

resultantes e consequentemente o alargamento dos conhecimentos nesta rea.

Apesar de existir muita informao relacionada com Ergonomia, esta encontra-se

dispersa no havendo uma juno de conhecimentos para aplicar a teoria a situaes prticas.

Este trabalho pretende ser original e vem preencher esta lacuna, na medida em que, existe

uma juno de conhecimentos tericos sobre o assunto em causa, para posterior aplicao a

um caso prtico: dimensionamento de postos de trabalho padro para a indstria em questo.

Esperamos que este trabalho seja uma mais-valia nestas reas de modo a alargar o

conhecimento existente e fomentar o esprito da aplicao prtica dos conhecimentos tericos

alcanados, pois acreditamos que s assim se consegue ter uma boa percepo da teoria.

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 7

I. ENQUADRAMENTO TERICO

1. ERGONOMIA 1.1. Definio do conceito de Ergonomia

Regressando s origens, a palavra Ergonomia significa etimologicamente cincia do

trabalho. Deriva de duas palavras gregas nomeadamente ergon que significa trabalho e

nomos que significa leis, regras. A palavra Ergonomia nasceu de uma necessidade que existia

para exprimir o estudo cientfico do homem e do seu trabalho.

Quando pretendemos clarificar este conceito deparamo-nos com diferentes perspectivas

de vrios autores que necessrio analisar de modo a compreendermos melhor o mesmo.

Para Laville (1976, citado por Massena 2006) a Ergonomia o conjunto de

conhecimentos a respeito do desempenho do homem em actividade, a fim de aplic-los

concepo das tarefas, dos instrumentos, das mquinas e dos sistemas de produo.

Wisner (1982, citado por Massena 2006) defende que a Ergonomia um conjunto de

conhecimentos sobre o homem em actividade, necessrios para conceber instalaes,

instrumentos, mquinas, dispositivos e sistemas onde ele possa trabalhar com o mximo de

segurana, conforto e eficincia.

A Ergonomia consiste na aplicao das cincias biolgicas do Homem em conjunto com as cincias de engenharia, para alcanar a adaptao do Homem com o seu trabalho medindo-se os seus efeitos em torno da eficincia e do bem estar para o homem.

Organizao Internacional do Trabalho

De uma forma simplista, podemos dizer que a Ergonomia estuda a adaptao do

trabalho ao Homem. Desta forma, a Ergonomia estuda formas de optimizar a interaco que se

estabelece entre Homem, Sistema e o meio envolvente. Segundo Costa (2004) os objectivos

prticos da ergonomia so a segurana e a eficincia dos sistemas homem-mquina-ambiente,

conjugadas com o bem estar e a satisfao individuais.

Desde a concepo de um posto de trabalho at projeco dos diferentes

equipamentos com que o Homem se vai deparar, necessrio ter em conta vrios factores tais

como a usabilidade, o conforto, a eficincia, a segurana, a fiabilidade e suas dimenses.

Todos estes factores se fundem com uma palavra: Ergonomia.

8 Ergonomia e Antropometria

Uma das barreiras existentes para se alcanar a excelncia nesta rea deve-se

enorme variabilidade fsica existente entre as pessoas, pois o que pode ser melhor para um,

no o para o outro. Este um dos desafios desta rea que deve ser vencido atravs de um

estudo intensivo e cuidadoso ao se elaborar um posto de trabalho, equipamento, ferramenta,

mobilirio, etc. Visto muitas vezes no ser possvel responder a todas as necessidades, torna-

se necessrio recorrer a dados estatsticos de modo a abranger o maior nmero de pessoas.

Ao termos em considerao todos estes aspectos o resultado esperado ser um

aumento da eficcia, da produtividade, da sade, da segurana, da motivao e uma

diminuio das falhas, dos acidentes de trabalho, do stress e a longo prazo das doenas

profissionais. As doenas profissionais representam parte dos custos directos e indirectos da

empresa. Ou seja, quando uma pessoa adoece, necessrio considerar o tempo de

recuperao da pessoa em causa e a sobrecarga de trabalho que ir causar para os seus

restantes colegas de equipa. Como consequncia, a empresa ter que suportar os custos da

m qualidade que podero surgir, custos rectificativos, perda de produtividade, de eficincia,

salrio durante a doena e em ltimo caso a contratao temporria de algum para a

substituio e consequente formao dessa mesma pessoa.

Como se pode verificar, a Ergonomia revela-se de extrema importncia para a empresa

na medida em que pode evitar custos desnecessrios que se podem tornar elevados.

Ao nos confrontarmos com Ergonomia ser muito difcil no falarmos de Antropometria.

Podemos descrever a Antropometria como a cincia que estuda as caractersticas do ser

humano, ou seja, estuda as suas propores (ex., peso, altura do cotovelo, distncias, largura

dos ombros, etc.). O conceito de Antropometria ser abordado com maior detalhe

posteriormente.

Vejamos, por exemplo, a definio da distncia que vai desde o cho at ao assento de

um comboio.

Em primeiro lugar temos que pensar no conforto que queremos para o assento, pois este

pode variar dependendo do tempo que cada viagem dura. Se for uma viagem longa o conforto

oferecido pelo assento deve ser superior ao conforto de um assento de uma viagem que dure

apenas 10min.

Em seguida vamos ento pensar na distncia que vai desde o cho at ao assento. Esta

distncia no pode ser muito elevada, visto que todas as pessoas devem ser capazes de se

sentar e apoiar os ps no cho para evitar uma sobrecarga noutros membros do corpo e

conseguirem ter uma postura correcta durante toda a viagem. Podemos neste caso dizer, que

as situaes crticas existentes vo ser as pessoas que apresentam uma estatura mais baixa.

Para se conseguir definir esta distncia com sucesso de modo a conseguir abranger o

maior nmero de pessoas precisamos da ajuda da Antropometria. Atravs de dados da

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 9

Antropometria para a populao em questo (neste caso populao portuguesa) estudam-se

quais as propores relevantes para esta situao.

Daqui pode-se tirar uma concluso importante: antes de se comear a pensar em

medidas, deve-se primeiramente pensar quais as situaes que se podem tornar crticas no

desenvolvimento do nosso projecto. Ser que a situao crtica para pessoas baixas/altas?

Ou ser que para uma pessoa gorda/magra? Ser que a situao crtica o alcance da

mo? Ou a visualizao de um ecr? Fazendo estas perguntas e respondendo s mesmas

podemos direccionar o nosso estudo num sentido favorvel.

Com este simples exemplo falamos ao mesmo tempo de Ergonomia (quando nos

preocupamos com o conforto do assento, com o apoio completo dos ps no cho e com a

adopo da postura correcta durante a viagem) e de Antropometria (quando foi necessrio a

definio de uma distncia padro a ser adoptada em todos os assentos de modo a conseguir

satisfazer o maior nmero de pessoas).

Como podemos ver a Ergonomia e a Antropometria devem ser desenvolvidas

conjuntamente em prol de bons resultados.

1.2. Gnese e evoluo da Ergonomia Se pensarmos bem no termo Ergonomia e em tudo o que esta cincia envolve podemos

observar que a Ergonomia esteve sempre presente ao longo de toda a histria da humanidade.

E porque no dizer que tudo comeou com o homem pr-histrico, visto que este tinha a

necessidade de seleccionar as pedras que se adaptavam melhor forma e movimentos da

sua mo para poder us-las como ferramentas e armas (Lacomblez, 1996).

O homem sempre teve uma preocupao em adaptar as situaes de acordo com as

suas necessidades. Em pleno sc. XXI encontramos diversos exemplos que demonstram tal

facto. Por exemplo, quando entramos para um automvel temos a preocupao de ajustar o

assento de forma a conseguirmos alcanar os pedais ou a alterar a inclinao do encosto de

modo a conseguirmos alcanar o volante. Estas aces so tomadas para conseguirmos

conduzir com segurana mas tambm para nos sentirmos confortveis durante o perodo de

conduo. Depois da nossa viagem chegamos a casa e ligamos o porttil para terminarmos um

trabalho pendente. Depois de nos sentarmos confortavelmente e se possvel ajustarmos a

altura da cadeira assim como a sua inclinao estamos prontos para colocar mos obra.

Sabendo que a inclinao do ecr do porttil influencia o contraste visual regulamos o mesmo

de modo a conseguirmos visualizar e trabalhar de uma forma confortvel para os nossos olhos.

Como podemos verificar neste pequeno texto a Ergonomia encontra-se presente em

situaes do dia a dia sem que nos tivssemos sequer apercebido.

10 Ergonomia e Antropometria

Falando agora mais concretamente, a evoluo deste conceito segundo Massena (2006)

est intimamente relacionado com a histria e a evoluo do trabalho humano, enquanto

actividade produtiva, livre, subordinada e por conta de outrem.

De facto, antes de haver um consenso em relao a esta cincia trabalhava-se de modo

intuitivo e com conhecimentos empricos acumulados de uma forma no sistemtica para

promover a adaptao dos instrumentos e as condies de trabalho ao Homem (Lacomblez,

1996).

Com a Revoluo Industrial intensificaram-se as pesquisas e os estudos sobre os

efeitos do trabalho na sade dos trabalhadores (Massena, 2006), visto que grande parte da

produo era fortemente dependente da fora humana. Nesta altura o estudo dos gestos e

posturas adoptadas pelo trabalhador aquando a realizao das suas tarefas era extremamente

importante para o aumento da produo.

aqui que surge Frederick W. Taylor o campeo obstinado da racionalizao do

trabalho, sempre obcecado com anlises e medidas sistemticas (Montmollin, 1990).

Considerado por alguns o pai incontestado do scientific management (Montmollin, 1990)

Taylor contribuiu com diversos estudos na rea de movimentos e tempos. O seu objectivo era a

optimizao do movimento humano (Rebelo, 2004) eliminando para tal gestos que no iriam

acrescentar valor ao produto final. Atravs desta filosofia promovia-se a rapidez de execuo

das tarefas tendo por base o famoso princpio do one best way (Lacomblez, 1996). O

objectivo de Taylor era adaptar o homem ao trabalho e no o trabalho ao homem. A mxima

dele centrava-se em encontrar a pessoa certa para o lugar certo (the right man in the right

place) (Massena, 2006).

Apesar de estes estudos terem contribudo para o alargamento de conhecimentos nesta

rea, esta perspectiva falha visto no ter em considerao as limitaes, necessidades e

caractersticas do ser humano bem como todo o meio envolvente que acaba por influenciar

fortemente o desempenho de cada um.

O pensamento de Taylor criticado por certos psicofisiologistas que incentivaram a

procura de solues que, respeitando as caractersticas bio-psquicas do ser humano,

conseguiriam um rendimento ptimo (Lacomblez, 1996). Segundo Rebelo (2004), foi

tambm nesta mesma altura que surgiu um movimento liderado pelos fisiologistas que em

muito contriburam para o estudo e avaliao do dispndio energtico e fadiga muscular no

trabalho (Rebelo, 2004).

durante a I e a II Guerra Mundial que esta cincia viu crescer os seus conhecimentos

sendo finalmente reconhecida como uma cincia de extrema importncia. O seu campo de

actuao alargou-se permitindo a realizao de diversos estudos e pesquisas nomeadamente

sobre posturas de trabalho, transporte manual de cargas, ritmos de trabalho, condies

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 11

ambientais tais como a temperatura, a iluminao, a ventilao, o rudo entre outras. Atravs

destes estudos o objectivo passava a ser a reduo dos acidentes, da fadiga e o aumento da

segurana dos trabalhadores.

Mas a 12 de Julho de 1949 que se d o grande passo ao se reunirem, em Inglaterra,

cientistas e investigadores interessados em discutir e formalizar a existncia desse novo ramo

de aplicao interdisciplinar da cincia (Lida, 1990). Foi aqui definido a designao de

Ergonomia.

de realar algumas instituies relacionadas com esta cincia, de conhecimentos to

pluridisciplinares.

Existe a Associao Internacional de Ergonomia (IEE) fundada em 1959 que se

desenvolveu a partir da sociedade Ergonomics Research Society fundada em 1949 e da

Human Factors Society, sendo esta ltima de origem americana.

Em Frana a Sociedade de Ergonomia de Lngua Francesa (SELP) fundada em (1963)

que reagrupa todos os que se dedicam Ergonomia (Montmollin, 1990). Existem tambm

vrias instituies que contribuem para o avano dos conhecimentos. So elas a Agncia

Nacional para o Desenvolvimento das Condies de Trabalho (ANACT) e o Instituto Nacional

de Investigao e Segurana (INIS).

Em Portugal existe a Associao Portuguesa de Ergonomia (APERGO) fundada em

1992. Esta associao representa Portugal na Associao Internacional de Ergonomia realizando o 1 congresso em Estocolmo em 1961 (Factor de Segurana, Lda., 1999).

1.3. Ergonomia como rea pluridisciplinar Sendo a Ergonomia uma cincia que envolve um conhecimento to vasto, importante

conhecermos as reas que podem ajudar a Ergonomia a atingir os seus objectivos. Como j foi

referido a Ergonomia engloba reas como a Antropometria, a Fisiologia, a Biomecnica, a

Psicossociologia, a Medicina do trabalho, entre outras. Visto que a Antropometria ir ser

abordada com mais detalhe posteriormente, iremos apenas fazer uma breve referncia s

restantes reas, referindo qual o campo de estudo de cada uma e qual a sua relao com a

Ergonomia.

A Biomecnica a cincia que estuda as foras e os seus momentos, o transporte e

manuseamento de cargas assim como as posturas adoptadas para a aplicao destas foras.

Segundo Costa (2004) a biomecnica um corpo interdisciplinar de conhecimentos acerca

dos factores que influenciam e controlam o movimento humano. A Biomecnica inclui os

conhecimentos da mecnica e aplica-os ao corpo humano para o clculo dos momentos de

12 Ergonomia e Antropometria

foras. Segundo Costa (2004), a biomecnica desempenha um papel importante no estudo e

optimizao do desempenho humano no trabalho, em particular na anlise das tarefas de

manipulao e das posturas assumidas pelas pessoas durante o trabalho.

A Fisiologia estuda o funcionamento do organismo, nomeadamente os msculos, o sangue, o sistema cardiovascular, respiratrio, digestivo, urinrio, endcrino, reprodutor e

nervoso. Em termos ergonmicos a fisiologia estuda os operadores colocados em situaes

extremas: calor ou frios excessivos, altitude elevada, hipertenses, rudos, vibraes ou

aceleraes importantes, privao de sono (Montmollin, 1990). A Fisiologia estuda tambm,

segundo Costa (2004), qual o dispndio de energia na actividade fsica, a necessidade de

perodos de repouso, as exigncias fsicas ou carga de trabalho e faz uma anlise ao trabalho

muscular.

A Medicina do trabalho, tem como objectivo garantir a sade dos colaboradores, sendo tambm esta uma preocupao da Ergonomia. A diferena prende-se pelo facto de a

Ergonomia ir mais longe nos seus objectivos. Por isso, alm de se preocupar com a sade dos

colaboradores preocupa-se com o aumento da eficincia de todo o sistema.

A Psicossociologia estuda quais as motivaes do trabalho, as relaes humanas e a participao. Os instrumentos quase exclusivos so as entrevistas e os questionrios

(Montmollin, 1990). O objectivo da Psicossociologia segundo Montmollin analisar quais as

opinies dos colaboradores em relao ao trabalho executado. Desta forma, a Psicossociologia

e a Ergonomia encontram um objectivo em comum: analisar o trabalho com o objectivo de

melhor-lo.

1.4. Correntes da ergonomia Segundo Montmollin (1990) existem duas ergonomias [] relacionadas com as duas

grandes correntes complementares que caracterizam, actualmente, a ergonomia e que devem

ser encaradas como complementares e no como contraditrias. Existe a ergonomia centrada

no factor humano e a ergonomia centrada na actividade humana.

A ergonomia centrada no factor humano, de origem americana, de origem mais

antiga, considerada a ergonomia clssica e o principal objectivo estudar as caractersticas

do ser humano e adaptar as mquinas a estas mesmas caractersticas. Entenda-se por

mquinas todas as ferramentas, equipamentos, mobilirio que interage com o ser humano e

que o ajuda a realizar as suas tarefas. O desenvolvimento de uma cadeira, de uma chave de

fendas, de um ecr, de um posto de trabalho, de acordo com esta ergonomia ser feito tendo

em conta as caractersticas do ser humano e suas limitaes.

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 13

Esta corrente a mais antiga e considera que a ergonomia utiliza as cincias para

melhorar as condies do trabalho humano (Montmollin, 1990). Desta forma, reala-se o

estudo do funcionamento msculo-articular; a influncia ambiental [] sobre o organismo; a

performance visual, a performance auditiva, os ritmos circadianos (Lacomblez, 1996).

A ergonomia centrada na actividade humana, de origem francesa (tradio francfona), de origem mais recente, preocupa-se em identificar qual o contexto real em que o

colaborador executa as suas tarefas introduzindo posteriormente melhorias que aumentem a

segurana, sade e haja uma diminuio dos erros e acidentes. Ou seja, estuda o trabalho do

homem com a finalidade de o melhorar. Esta ergonomia contribuiu com estudos

indiscutivelmente influenciados pela assimilao progressiva do contributo de uma psicologia

do trabalho centrada na compreenso da actividade em situao real (Massena, 2006). De

acordo com esta perspectiva, o ser humano no um agente passivo que serve apenas para

ser estudado em termos de caractersticas, um elemento activo que tem sentimentos,

emoes, que pensa, que reage perante problemas e que deve portanto ter uma atitude

dinmica. O trabalho analisado como um processo onde interagem o operador, agente

capaz de iniciativas e de reaces, e o seu ambiente tcnico, igualmente evolutivo e

influencivel (Montmollin, 1990). Apesar de esta ergonomia conseguir perceber a realidade da

tarefa a ser executada e qual o seu contexto, confronta-se com uma dificuldade: capacidade

de generalizao (Montmollin, 1990) o que ir trazer problemas metodolgicos (Montmollin,

1990) ao ergonomista.

Estas duas ergonomias devem ser tidas em conta conjuntamente visto que uma no

substitui a outra nem resolvem o mesmo tipo de problemas. necessrio conceber mquinas

ergonmicamente adaptadas ao ser humano assim com tambm necessrio estudar a

interaco que se estabelece entre o ser humano, a mquina e o meio envolvente de modo a

se conseguir atingir os objectivos da ergonomia sendo eles: segurana, sade, bem-estar e

eficcia do sistema (Rebelo, 2004). De acordo com Montmollin (1990):

No contraditrio conceber para o operador, diante do seu terminal de computador, uma cadeira confortvel e um ecr bem contrastado, para em seguida procurar saber como que este operador compreende as mensagens que aparecem nesse ecr e quais so os tratamentos a que as submete.

1.4.1. Anlise da tarefa vs anlise da actividade

Actualmente, o estudo centrado na actividade humana tende a universalizar-se de modo

que necessrio fazer a distino entre a anlise da tarefa (trabalho prescrito) e a anlise da

14 Ergonomia e Antropometria

actividade (trabalho real) (Massena, 2006). Comecemos por distinguir os conceitos que esto

na base desta compreenso: tarefa e actividade.

Entende-se por tarefa aquilo que se apresenta ao trabalhador como um dado (Montmollin, 1990) como por exemplo as instrues de funcionamento de uma mquina, como

se processa a entrada das matrias-primas, quais so especificamente as suas tarefas, o que

devem fazer em situaes especficas (peas defeituosas, por exemplo), quais os objectivos

esperados em termos de quantidade e qualidade de produo (Lacomblez, 1996). De acordo

com Leontiev (1976, citado por Castillo 2005) a tarefa um objectivo a alcanar em

determinadas condies. Ou seja, de uma forma simples a tarefa indica aquilo que o operador

deve fazer. O responsvel procura definir a tarefa o melhor possvel antes da sua execuo

(Leplat 1992, citado por Castillo 2005) para que o colaborador saiba quais os resultados que se

esperam em relao ao seu trabalho. O prprio termo, tarefa relaciona-se com a ideia de

prescrio ou de obrigao sobre a qual o colaborador deve seguir para o cumprimento dos

objectivos pretendidos.

Entende-se por actividade aquilo que o colaborador realmente faz, para conseguir desempenhar as suas tarefas perante os condicionalismos que se apresentam. Segundo

Lacomblez (1996) a actividade constitui um processo complexo, original e evolutivo que o

trabalhador utiliza para se adaptar tarefa, aos constrangimentos, mas tambm, por vezes,

para transformar a prpria tarefa. Ao mesmo tempo que o colaborador realiza a tarefa tenta,

se possvel e necessrio, adapt-la de modo a que a sua execuo se torne mais fcil e menos

morosa.

Estes dois conceitos que acabamos de explicitar so dependentes um do outro pois

como afirma Montmollin (1990):

Uma tarefa sem actividade correspondente comparvel a mquinas paradas ou a impressos guardados numa gaveta. Uma actividade no relacionada com uma tarefa pode ser comparada a gestos e palavras que perdem todo e qualquer significado, no s para o ergnomo [] mas tambm para o prprio trabalhador, que nada pode fazer se nada tiver que fazer.

necessrio, portanto, ter uma linha de direco que oriente e mostre qual o objectivo a

ser atingido para depois podermos lidar com os vrios constrangimentos que possam surgir no

dia-a-dia e que necessitam de resposta imediata, resposta no explicitada nos manuais.

De acordo com Leplat (1992, citado por Castillo 2005) cada situao que necessita de

ser analisada pode ser considerada como um sistema tarefa-indviduo e de acordo com esta

perspectiva parte da actividade jamais ser espontnea, mas sempre desencadeada e

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 15

conduzida pela tarefa; por outro lado, que a tarefa ser susceptvel de ser modificada pelo

individuo ao longo da sua actividade (Leplat 1992, citado por Castillo 2005).

A anlise da tarefa e a anlise da actividade constituem duas vertentes indissociveis

que tm de ser compreendidas para podermos fazer a anlise do trabalho na medida em que

o seu objectivo ltimo consiste em demonstrar, terica e empiricamente, a relevncia do factor

humano na concepo e melhoria dos sistemas de trabalho (Lacomblez 1996, citado por

Massena 2006).

A anlise da tarefa estuda as funes atribudas ao colaborador de acordo com as normas que foram definidas para a concretizao das mesmas. Segundo Lacomblez (1996) a

anlise da tarefa privilegia o estudo das condies de trabalho e do trabalho prescrito, ou seja,

o trabalho que corresponde s instrues dadas pelos responsveis ao operador. A anlise da

tarefa poder ser feita atravs da medio por observao directa algumas das dimenses

que intervm na definio do trabalho a realizar (Lacomblez, 1996). A anlise da tarefa algo

mais simples de ser avaliado visto depender de regras, normas e instrues

independentemente das caractersticas, competncias e capacidades do colaborador que a ir

executar.

A anlise da actividade concentra-se em estudar as condies reais em que o colaborador desempenha as suas funes nas condies locais, com as mquinas e os

procedimentos correctos, tendo em conta todas as variveis aleatrias (Montmollin, 1990).

Segundo Lacomblez (1996) a anlise da actividade centra-se no estudo do conjunto de

gestos, regras, estratgias e procedimentos que o trabalhador utiliza para realizar o seu

trabalho. Podemos ento dizer que ao analisarmos uma actividade estamos a analisar o

comportamento que o colaborador apresenta perante as regras definidas e como este vai lidar

com todo o meio envolvente e suas limitaes para conseguir atingir os objectivos pretendidos.

Se a anlise da tarefa pode ser considerada como algo mais directo e perceptvel, a

anlise da actividade torna-se mais complexa visto depender do comportamento do ser

humano e suas estratgias para desempenhar as vrias tarefas. Apesar desta situao Karnas

(1987, citado por Lacomblez) prope quatro mtodos para esta anlise:

- a entrevista sobre a actividade (em momento de verbalizao); - a observao do operador durante a actividade (com recurso eventual a gravao udio/vdeo); - o estudo dos traos da actividade (anlise dos acidentes/incidentes/erros/defeitos de qualidade dos produtos,); - a experimentao em situao simulada.

De acordo com tudo aquilo que foi dito atrs podemos dizer que o trabalho real levado a

cabo por cada indivduo pode diferir completamente do trabalho prescrito. Ser ento

extremamente importante envolver os colaboradores, aproveitando a experincia profissional

de cada um e incentiv-los a participar na melhoria contnua no mbito duma prtica de

16 Ergonomia e Antropometria

preveno dos riscos em termos de higiene e segurana nas empresas (Lacomblez, 1996).

Desta forma, os colaboradores sentem-se mais motivados e aceitam melhor a mudana, visto

serem parte fundamental na resoluo dos problemas existentes. De acordo com Lacomblez

(1996) esta concepo participativa e de transferncia de competncias para o trabalhador

permite desenvolver uma ergonomia capaz de melhorar as condies de exequibilidade,

conforto do trabalhador e melhoria das condies de produo.

1.5. Tipos de ergonomia Segundo Rebelo (2002) o campo de interveno da Ergonomia vasto podendo ser

classificado de acordo com objecto, objectivo e contexto de interveno (Rebelo, 2002).

Temos ento:

Ergonomia de concepo e correco;

Ergonomia do produto e produo;

Ergonomia antropomtrica, informacional, dos sistemas e heurstica;

1.5.1. Ergonomia de concepo e correco

Para fazermos a distino entre a ergonomia de concepo e a de correco podemos

utilizar mais um critrio: o momento de interveno (Lacomblez, 1996). Desta forma, podemos

ter uma ergonomia reactiva (aco levada a cabo para correco de algo que j existe e que

apresenta problemas) ou pr-activa (aco levada a cabo no momento inicial da concepo

de um novo produto/mquina).

A ergonomia de concepo tem como objectivo acompanhar desde o incio, um novo projecto seja ele um novo produto ou uma nova mquina. Desta forma, conseguimos antecipar-

nos em relao aos vrios constrangimentos que podem surgir e como vamos lidar com eles.

Apesar de ser a melhor prtica necessrio ter cuidado, pois necessrio ter um

conhecimento profundo sobre o prprio projecto mas tambm todo o contexto em que ele est

envolvido. Assim, ao aplicarmos o projecto ao contexto de trabalho este ir adaptar-se quer ao

meio envolvente quer ao colaborador que interage com ele.

Ao desenvolvermos algo novo torna-se difcil aplicar a teoria prtica e saber se

realmente esta ir funcionar ou no no contexto real. Desta forma, sempre que possvel deve-

se analisar informaes em situaes semelhantes que j existam ou construindo-se modelos

tridimensionais (mock-ups) em madeira ou papelo, onde as situaes de trabalho podem ser

simuladas a custos relativamente baixos (Lida, 1997). Assim, devemos fazer uma anlise

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 17

crtica quilo que existe, aproveitando o que h de melhor e corrigir os disfuncionamentos j

constatados.

Em relao ergonomia de correco esta processa-se quando necessrio intervir em situaes j existentes que influenciam negativamente a sade e segurana dos

colaboradores e/ou a qualidade/quantidade dos produtos. Ser mais complicado apercebermo-

nos de problemas existentes ao nvel da sade e da segurana do trabalhador (Lacomblez,

1996) visto que estes so o resultado de efeitos acumulados ao longo da vida de trabalho

(Lacomblez, 1996) do que apercebermo-nos dos efeitos ao nvel da produo (qualidade e

quantidade) e segurana que se revelam claramente no dia a dia. Segundo Lida (1997)

melhorias, como mudanas de posturas, colocao de dispositivos de segurana e aumento

da iluminao podem ser feitas com relativa facilidade enquanto em outros casos, como a

reduo da carga mental ou de rudos, tornam-se difceis. Na figura 1 encontra-se a relao

entre a ergonomia de correco e concepo, segundo Lacomblez (1996).

Figura 1 - Interaco entre a ergonomia de concepo e correco (Fonte: Adaptado, Lacomblez, Marianne, SILVA, Aurora e FREITAS, Isabel. Ergonomia e Antropometria, 1996, pp. 34.)

1.5.2 Ergonomia do produto e produo A ergonomia do produto est mais associada ergonomia de concepo visto que

acompanha todo o processo de desenvolvimento de um novo projecto. Segundo Rebelo (2004)

a ergonomia do produto uma disciplina que disponibiliza metodologias que permitem guiar

as escolhas estratgicas do desenvolvimento de um produto, numa perspectiva de Design

Total. Desta forma, a concepo de um produto deve ter em conta a usabilidade, quais os

seus custos (de produo e manuteno), conforto de utilizao, aparncia e desempenho de

modo que todas estas variveis se conjuguem equilibradamente.

A ergonomia de produo est mais associada ergonomia de correco visto que o seu estudo concentra-se em analisar as condies de trabalho reais e actuais e introduzir

melhorias no sistema de acordo com as necessidades existentes mas tambm tendo em conta

as caractersticas, limitaes e capacidades dos colaboradores. Ou seja, introduzir melhorias

que vo assegurar melhores resultados quer para a organizao quer para todos os

18 Ergonomia e Antropometria

colaboradores. Para isso temos que analisar a actividade do colaborador e perceber onde

que podemos fazer alteraes para melhorar a qualidade de vida do mesmo sem prejudicar a

eficincia e produtividade do sistema.

1.5.3. Ergonomia antropomtrica, informacional, dos sistemas e heurstica Estas quatro ergonomias de que iremos falar so o produto resultante da evoluo

tecnolgica das situaes de trabalho e das funes atribudas ao trabalho humano

(Lacomblez, 1996). Todas elas so necessrias para uma melhoria contnua em todos os

aspectos que a ergonomia inclui.

A ergonomia antropomtrica, ou gestual, estuda todos os gestos e posturas adoptadas durante a realizao das diversas tarefas. Esta ergonomia tem por base uma cincia: a

Antropometria. Taylor esteve na origem desta ergonomia privilegiando o estudo das

componentes do trabalho em termos de gestos e tempo necessrio para os realizar

(Lacomblez, 1996). Como j foi dito atrs, Taylor foi bastante criticado visto que promovia a

rapidez de execuo das tarefas sem se preocupar com o estado fsico do colaborador (fadiga,

segurana). Desta forma, surgiram estudos que se preocuparam em interferir no equilbrio

fisiolgico: adequao dos postos de trabalho aos dados antropomtricos e biomecnicos,

condies ambientais [], tipos de tarefas a executar [] ritmo de produo exigido, etc

(Lacomblez, 1996).

A ergonomia informacional j considera o colaborador como um elemento do sistema possuidor de capacidades cognitivas visto que este assume funes de recepo, tratamento

e transmisso de informaes (Lacomblez, 1996). O colaborador um agente activo do

sistema que vai agir de acordo com as informaes que lhe so fornecidas. por isto

necessrio, dimensionar e localizar os dispositivos de informao/controle numa posio em

que o colaborador consiga percepcionar todas as informaes sem a necessidade de incorrer

em erros e posturas incorrectas. O cerne da questo : como transmitir bem e rapidamente,

diminuindo a probabilidade de erro (Lacomblez, 1996).

A ergonomia dos sistemas estuda a relao que se estabelece entre o homem, mquina e meio envolvente de forma a optimizar esta relao. Ou seja, aqui o colaborador no

estudado individualmente, mas sim como parte de um conjunto com o qual tem que interagir.

Assim, a ergonomia dos sistemas prope que a anlise do posto de trabalho esteja integrada

no processo global de produo, rompendo deste modo com as concepes reducionistas das

fases anteriores, centradas no posto de trabalho (Lacomblez, 1996).

Segundo Laville (1976, citado por Lacomblez 1996) a ergonomia dos sistemas:

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 19

Trata das interaces dos diferentes elementos humanos e materiais de um

sistema de produo, procurando definir: a diviso das tarefas entre

operadores, instrumentos e mquinas; as condies de funcionamento

ptimo desse conjunto de elementos e a carga de trabalho para cada

operador.

A ergonomia heurstica ou previsional, como o prprio nome indica, procura estudar e prever a forma como o colaborador ir realizar a tarefa efectiva de modo a que a segurana e

processo de produo (qualidade e quantidade) no sejam prejudicados. Foi a partir da fase

anterior que o pensamento Taylorista one best way deixou de se aplicar assumindo-se que

no existe uma nica maneira de bem realizar uma actividade: mesmo quando esta

fortemente codificada existem variaes e diferentes estratgias a considerar (Lacomblez,

1996). Visto o ser humano ser dotado de capacidades cognitivas este ir interpretar as diversas

situaes de acordo com as suas convices e a sua experincia profissional de modo que o

objectivo da ergonomia heurstica centrar a anlise no modo como o trabalhador antecipa os

acontecimentos, planifica e prev a evoluo do sistema (Lacomblez, 1996).

1.6. Manuseamento de Cargas Se antigamente o transporte de cargas estava fortemente dependente da fora fsica

hoje em dia este tipo de trabalho tem vindo a diminuir dando lugar mecanizao e

automatizao da elevao e transporte de cargas poupando assim o homem a esforos

elevados.

1.6.1. Cuidados a ter

Segundo Grandjean (2004) o manuseio de cargas em especial o levantamento de

cargas deve ser considerado como trabalho pesado. [] O problema principal do manuseio

de cargas no tanto a exigncia dos msculos mas sim o desgaste dos discos

intervertebrais. A postura adoptada para levantamento das cargas influencia directamente o

desgaste dos discos intervertebrais, sendo por isso essencial certos cuidados, como por

exemplo ter as pernas flectidas e as costas rectas, como se pode ver na figura 2.

20 Ergonomia e Antropometria

Figura 2 - Postura da coluna no levantamento de cargas (Fonte: Adaptado, Lida, Itiro. Ergonomia. Projecto e Produo, 1997, pp. 95) O disco intervertebral pode ser comparado com um travesseiro, que fica entre os ossos

das vrtebras e responsvel pelos movimentos da coluna vertebral. O desgaste dos discos

tem como consequncias problemas na coluna e pernas provocando dores e limitando a

mobilidade das pessoas. Segundo Grandjean (2004), as doenas da coluna conduzem a uma

ausncia prolongada do trabalho e figuram hoje como uma das principais causas de invalidez

prematura.

Desta forma, so necessrios alguns cuidados no transporte manual de cargas.

Segundo Lida (1997) existem determinados princpios que se devem seguir, para evitar

problemas de sade no futuro. Na figura 3 esto ilustradas estas recomendaes.

Figura 3 - Recomendaes para o manuseamento de cargas (Fonte: Adaptado, Lida, Itiro. Ergonomia. Projecto e Produo, 1997, pp. 97)

tambm necessrio ter em ateno que quando estiver em causa o desenvolvimento

de grandes esforos fsicos, a coluna no deve ser inclinada, nem rodada sobre o seu eixo.

Deve ser utilizada como um suporte e nunca com uma articulao (Miguel, 2004).

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 21

1.6.2. Cargas Mximas Permitidas

De acordo com Costa (2003) os valores limite para o transporte manual de cargas

dependem de vrios factores podendo estes ser de risco individual (factores pessoais) ou

inerentes ao trabalho (factores materiais).

Desta forma, considera que os factores materiais de risco so: o peso, a localizao da

carga (vertical e horizontal), a frequncia/durao, estabilidade (objecto volumoso ou compacto

de acordo com o seu centro de gravidade), pega (qualidade/estrutura e forma), geometria do

local de trabalho e o ambiente (rudo, temperatura, vibraes, etc).

Em relao aos factores pessoais Costa (2003) refere: o sexo, fora (dentro do mesmo

sexo h diferenas), idade (a fora muscular diminui com a idade), condio fsica, dimenses

e propores do corpo (antropometria) e tcnica individual e treino (formao na rea de

levantamento de cargas).

Existem diversos estudos que pretendem determinar quais os limites mximos para o

levantamento de cargas, de forma a minimizar o risco existente para os discos intervertebrais

mas, necessrio ter em ateno todos os factores externos j referidos acima que relativizam

este tipo de estudos. Sendo assim os valores limite determinados devem ser apenas

considerados como orientaes gerais pois estes apenas diminuem o risco de aparecimento de

leses na coluna.

De acordo com a Portaria n. 186/73, de 13 de Maro, que regulamenta o trabalho

feminino, limita a 27 Kg a carga mxima que uma mulher pode despender acidentalmente e a

15 Kg quando em esforo mdio regular (Miguel, 2004).

De acordo com N.Thumb, P. Kock e outros (1973) existem valores limite para o

transporte de cargas para indivduos entre os 20 e 45 anos, como se pode ver na tabela 1. Tabela 1 Pesos Limite, em Kg, para transporte manual de cargas (Fonte: Adaptado, Miguel, Alberto. Manual de Higiene e Segurana do Trabalho, 2004, pp. 258)

Segundo Lida (1997), a capacidade de carga mxima varia consideravelmente,

conforme se usem as musculaturas das pernas, braos ou dorso. As mulheres possuem

22 Ergonomia e Antropometria

aproximadamente metade da fora dos homens para o levantamento de pesos. Para o clculo

dos valores de peso mximos a transportar, Lida (1997) tem ainda em conta a distncia

horizontal e vertical que existe entre a carga e o corpo. Desta forma e de acordo com os

princpios existentes para levantamento de cargas, a capacidade de levantamento ser tanto

menor quanto maior for a distncia existente entre a carga e o corpo. Na tabela 2, podem-se

observar estes valores.

Tabela 2 Capacidade de levantamento para homens e mulheres em Kg (Fonte: Adaptado, Lida, Itiro. Ergonomia. Projecto e Produo, 1997, pp. 96)

De acordo com a norma Bosch os valores limite para levantamento de cargas tendo em

conta a frequncia de utilizao e a distncia mnima e mxima de pega encontram-se na

tabela 3 e 4.

Tabela 3 Limites mximos para o levantamento de cargas com utilizao pouco frequente (Fonte: Adaptado, Bosch 2007)

Altura mxima das pegas

Peso mximo recomendado

Frequncia de utilizao

1590mm 6 kg Uso pouco Frequente

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 23

Tabela 4 - Limites mximos para o levantamento de cargas com utilizao frequente (Fonte: Adaptado, Bosch 2007)

Altura mxima

das pegas Peso mximo recomendado Frequncia de utilizao

1590mm 4.5 kg Uso Moderado

2 horas/dia

e

12-30 levantamentos/hora

1315mm 9 kg

990mm 15 kg

760mm 10.5 kg

550mm 4.5 kg

O Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH), desenvolveu um mtodo para

avaliao dos limites para a elevao manual de cargas que podem constituir um risco para a

sade dos colaboradores.

A equao NIOSH consiste na multiplicao de uma constante de carga (23 kg) por

multiplicadores de natureza horizontal, vertical, de distncia, de assimetria e de frequncia.

Para o clculo do peso limite recomendado (PLR) e respectivos multiplicadores utilizam-se a

seguintes frmulas:

Peso limite recomendado PLR = CC * MH * Mv * MD * MA * MP * MF Kg

Constante de Carga CC = 23 kg

Multiplicador Horizontal MH = 25 / H Multiplicador Vertical MV = 1 (0.003 ) x |V 75| Multiplicador da Distncia

Percorrida MD = 0.82 + (4.5/D)

Multiplicador de Assimetria

(rotao do tronco) MA = 1 (0.0032 x A)

Multiplicador da Pega MP = Valor dependente da qualidade da pega (tabela 5) Multiplicador da Frequncia MF = Valor dependente da frequncia das elevaes

(tabela 6)

Na figura 4, encontram-se ilustradas as distncias H, V e D.

24 Ergonomia e Antropometria

Figura 4 - Distncias consideradas na equao NIOSH (Fonte: Adaptado, Costa, 2004, pp. 23)

Para calcular a distncia H no caso de haver assimetria na posio das mos ao pegar

na carga, deve-se fazer a mdia das distncias mao esquerda e direita. Sendo assim e

sabendo que He a distncia mo esquerda e Hd a distncia mo direita.:

H= (He + Hd) / 2

Se o mesmo acontecer para calcular a distncia V o procedimento o mesmo. Sendo

assim e sabendo que Ve a altura na vertical da mo esquerda e Vd a altura na vertical da

mo direita:

V = (Ve + Vd) / 2

O multiplicador da pega depende de factores da pega tais como a facilidade de pega, as

dimenses e forma da mesma. Na tabela 5, encontram-se os diversos valores dependendo da

qualidade da pega.

Tabela 5 - Multiplicadores de pega (Fonte: Adaptado, Costa, 2004, pp. 24)

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 25

O multiplicador de frequncia (MF) calculado tendo em conta a durao do periodo com

tarefas de elevao, a distncia vertical (V) e da frequencia de elevaes. Na tabela 6,

encontram-se os valores que o multiplicador de frequncia pode assumir.

Tabela 6 - Multiplicador de frequncia (Fonte: Adaptado, Costa, 2004, pp. 25)

Sempre que possvel, devem ser utilizados meios auxiliares de ajuda para transporte de

cargas, tais como:

Carros de mo;

Sistemas mecanizados;

Rolos, tubos de pequeno dimetro e patins;

Ventosas que funcionam por vcuo (transporte de vidro);

Pinas ou garras;

Gruas;

man (transporte de chapas de ferro).

26 Ergonomia e Antropometria

1.7. Iluminao Segundo Lida (1997) as causas da fadiga visual devem-se a seis factores essenciais:

iluminao inadequada, fixao de detalhes (grande esforo dos olhos para acomodao e

convergncia), pouco contraste (quando existe pouca diferena entre o objecto e o fundo),

pouca definio (objectos e figuras com traos ou contornos confusos), objectos em movimento

e m postura corporal.

A fadiga visual manifesta-se atravs de sensaes doloridas de irritaes (ardncia),

acompanhadas de lacrimao e avermelhamento das plpebras e da conjuntiva, viso dupla,

dores de cabea, diminuio da fora de acomodao e da fora de convergncia e por ultimo

diminuio da acuidade visual, da sensibilidade aos contrastes e da velocidade de percepo

(Grandjean, 2004).

Tendo em conta que a fadiga visual ir influenciar negativamente a produtividade, a

satisfao no trabalho, a qualidade de produo e contribuir para um aumento de falhas e

acidentes de trabalho, necessrio tomar medidas preventivas para evitar que tal acontea.

De acordo com um relatrio da Safety Council dos EUA os resultados mostraram que

5% de todos os acidentes de trabalho na indstria tm como causa directa a iluminao

insuficiente e que o ambiente luminoso e a fadiga visual so participantes na origem de 20% de

todos os acidentes (Grandjean, 2004).

De acordo com estudos realizados por McCormick (citado por Grandjean 2004), existe

uma relao directa entre a intensidade de iluminao e a produo, sendo que existe um

aumento de desempenho com o aumento da intensidade de iluminao. A figura 5 mostra um

exemplo caracterstico de uma fiao de algodo americana.

Figura 5 - O efeito da intensidade de iluminao na produo e na rejeio de uma fiao americana de algodo (Fonte: Adaptado, Grandjean, Etienne. Manual de Ergonomia. Adaptando o trabalho ao homem, 2004, pp. 216)

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 27

A intensidade de iluminao corresponde ao fluxo luminoso que incide sobre uma

superfcie e dada pela expresso:

Lmen a unidade de luz e equivalente quantidade de luz incidente sobre 1 m2.

Segundo Grandjean (2004) o olho humano sensvel a uma ampla gama de

intensidades luminosas que vo desde alguns Lux em uma sala escura a 100.000 Lx ao ar

livre, no sol no meio dia.

De acordo com estudos realizados, o rendimento visual aumenta a partir dos 10 Lx

sendo que o valor mximo no deve ultrapassar os 1.000 Lx, visto que, a partir desse ponto os

aumentos do iluminamento no provocam melhoras sensveis no rendimento, e a fadiga visual

comea a aumentar (Lida, 1997), como se pode ver na figura 6.

Figura 6 Variaes do rendimento e da fadiga visual em funo do nvel de iluminamento (Hopkinson e Collins, 1970) (Fonte: Adaptado, Lida, Itiro. Ergonomia. Projecto e Produo, 1997, pp. 254)

Segundo Grandjean (2004), a intensidade de iluminao acima de 1.000 Lx aumenta o

risco de reflexos perturbadores, de sombras muito pronunciadas ou outros contrastes

exagerados.

Tendo em conta esta informao, o aumento indiscriminado da intensidade luminosa

torna-se desnecessrio pois iria aumentar os custos energticos sem consequente aumento da

Lux (lx) = 1 Lmen (Lm) / m2

28 Ergonomia e Antropometria

produtividade. Sendo assim, deve-se aproveitar a luz natural sempre que possvel visto que

alm da poupana energtica proporciona uma maior qualidade de iluminao.

O dimensionamento da iluminao deve ser planeado de forma a no criar sombras,

ofuscamentos ou reflexos indesejveis (Lida, 1997). Segundo Lida (1997) alm da iluminao

adequada do objecto, a iluminao de fundo deve permitir um descanso visual durante as

pausas e aliviar o mecanismo de acomodao.

Se antigamente a preocupao primordial passava pela poupana energtica, sendo os

valores recomendados at dcada de 50 oscilavam entre os 10 e 50 Lx (Lida, 1997) hoje em

dia sabemos que a correcta intensidade de iluminao, traz diversos benefcios tais como:

reduo da fadiga visual, aumento do desempenho e consequentemente aumento da

produtividade e aumento da qualidade da produo. Desta forma, existem intensidades de

iluminao recomendadas de acordo com os diferentes tipos de aplicao da mesma.

Grandjean (2004) refere uma comparao entre as normas alems (DIN) e americanas

(IES) para intensidades de iluminao dependendo do tipo de tarefa. Como se pode ver na

tabela 7, as normas americanas referem valores muito superiores mdia europeia.

Tabela 7 Comparao entre as normas alems e americanas (Fonte: Grandjean, Etienne. Manual de Ergonomia. Adaptando o trabalho ao homem, 2004, pp. 223)

Na tabela 8 pode-se ver a gama de intensidades luminosas, recomendadas por Lida

(1997), dependendo do tipo de local onde aplicada a iluminao.

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 29

Tabela 8 Nveis de Iluminao recomendadas para algumas tarefas tpicas (Fonte: Adaptado, Lida, Itiro. Ergonomia. Projecto e Produo, 1997, pp. 225)

De acordo com a norma Bosch, modelo BVE A1035, existem diferentes tipos de

intensidade de iluminao dependendo do tipo de tarefa a executar. Na figura 7 podem-se

consultar esses valores.

Figura 7 Diferentes tipos de intensidade de iluminao (Fonte: Adaptado, Modelo BVE A1035)

30 Ergonomia e Antropometria

1.7.1. Tipo de Lmpadas

Em 1878, Thomas Edison inventou a lmpada incandescente contribuindo desta forma

para aumentar a vida activa das pessoas. A partir desta data muitas foram as melhorias

introduzidas sendo que hoje em dia mais frequente a utilizao de lmpadas incandescentes

e fluorescentes.

As lmpadas incandescentes tm a desvantagem de irradiar calor podendo alcanar temperaturas na ordem dos 60 C provocando mau estar a dores de cabea por radiao

directa quando muito prximos da cabea (Lida, 1997). Este tipo de lmpadas fornecem uma

luz que tem uma parcela elevada de tons vermelhos e amarelos [] indicada para residncias

[] para a criao de um certo clima de fim de trabalho dirio (Grandjean, 2004).

As lmpadas fluorescentes alm de serem mais eficientes na transmisso da luz, tm um rendimento trs a quatro vezes superior do que as lmpadas incandescentes. Segundo

Grandjean (2004) as lmpadas fluorescentes apresentam uma baixa densidade luminosa do

corpo luminoso, portanto, diminuio do perigo de ofuscamento. Possibilidade de composio

de cores semelhante luz do dia, atravs disso pode-se evitar a perturbadora mistura de luz do

dia e luz de lmpadas incandescentes. Como desvantagem deste tipo de lmpadas referimos

a cintilao visvel que pode perturbar e provocar a fadiga visual.

Em relao posio da iluminao esta deve-se situar acima de 30 em relao linha

de viso (horizontal) e, se possvel, devem ser colocadas lateralmente ou atrs do trabalhador

para evitar a luz direta ou refletida nos seus olhos (Lida, 1997), como se pode ver na figura 8.

Figura 8 Local recomendado para colocao da iluminao num posto de trabalho (Fonte: Adaptado, Lida, Itiro. Ergonomia. Projecto e Produo, 1997, pp. 260)

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 31

2. ANTROPOMETRIA

2.1. Definio do conceito de Antropometria e sua relevncia no mundo do trabalho De uma forma simples a Antropometria estuda as caractersticas fsicas do ser humano

no que respeita aos aspectos relacionados com as propores corporais (Estudo

Antropomtrico da Populao Portuguesa, 2006). Podemos nomear algumas propores como

sendo a estatura, pesos, alturas, larguras, distncias, alcances, espessuras e comprimentos.

Vieira (1999, citada por Fragoso 1999) vai mais longe afirmando que a antropometria no

se limita ao estudo das propores humanas, preocupando-se em estudar todas as

caractersticas mensurveis do corpo humano (caractersticas sseas, musculares e do tecido

adiposo). Segundo Vieira (1999, citada por Fragoso 1999) estes estudos estendem-se a reas

to diversas tais como a Ergonomia, a Psicologia, o Desporto, a Educao e a Sade.

A Ergonomia utiliza os conhecimentos da antropometria em relao ao estudo das

propores corporais do ser humano e quais os alcances dos seus movimentos no espao.

Em relao ao desporto inegvel que os atletas de elite, adultos ou crianas, possuem

caractersticas fsicas especficas que se relacionam com o seu nvel de prestao motora

numa determinada modalidade (Vieira 1999, citada por Fragoso 1999). Desta forma, a

antropometria estuda quais as caractersticas que estes atletas possuem em comum de acordo

com uma determinada modalidade. Ser ento mais fcil estabelecer um prottipo que ser

utilizado na deteco de talentos, no desenvolvimento de protocolos de treino e no desenho

de equipamentos desportivos (Vieira 1999, citada por Fragoso 1999).

Estes conhecimentos antropomtricos tambm sero teis para os professores de

educao fsica devido relao bastante acentuada entre a capacidade funcional e a

composio corporal Vieira (1999, citada por Fragoso 1999). Desta forma, as aulas podero

ser conduzidas tendo em conta os aspectos individuais de cada aluno na performance das

actividades fsicas executadas.

Segundo Vieira (1999, citada por Fragoso 1999) as tcnicas antropomtricas tm sido

utilizadas no domnio da sade para identificar situaes de risco associadas ao

desenvolvimento de determinadas patologias e para avaliar o estado nutricional dos

indivduos. Para avaliarem o estado nutricional, principalmente das crianas, so utilizadas

comparaes em relao a uma amostra de referncia saudvel. Utilizam-se trs ndices de

comparao sendo eles o peso em relao idade, a altura em relao idade e o peso em

relao altura Vieira (1999, citada por Fragoso 1999).

32 Ergonomia e Antropometria

Voltando ao estudo das propores corporais do ser humano, este demonstra ser

fundamental na anlise ergonmica de postos de trabalho, bem como, na definio das

condies de segurana e de conforto dos trabalhadores. Para alm disso constitui uma

ferramenta imprescindvel em indstrias como a do Vesturio, do Calado e muitas outras

(Estudo Antropomtrico da Populao Portuguesa, 2006).

Como j foi referido, para se obterem bons resultados a Ergonomia e a Antropometria

devem trabalhar lado a lado, visto ser impraticvel tentar desenvolver algo que ir interagir com

o homem e que depois no se consiga adaptar s suas caractersticas fsicas. necessrio,

portanto, um estudo de dados antropomtricos para conseguirmos fazer uma correcta anlise

ergonmica daquilo que estamos a projectar.

A Antropometria ajuda-nos a ter uma percepo de quais os equipamentos mal

concebidos ergonmicamente, que contribuem para a continuao dos acidentes de trabalho

ou doenas profissionais resultantes da utilizao dos mesmos. Ao termos esta noo podemo-

nos antecipar e utilizando a Antropometria, conceber equipamentos que se consigam adaptar

ao maior nmero de pessoas possveis. Desta forma, almeja-se um maior conforto, segurana

e uma qualidade de vida do trabalho superior.

No incio a Antropometria era utilizada em antropologia1 como meio para a classificao

e identificao de diferenas rcicas e dos efeitos de dietas alimentares, condies de vida,

ect., no crescimento (Costa, 2004). Segundo Lida (1997) foi a partir da dcada de 40 que

houve uma preocupao crescente em relao a esta cincia, devido indstria automvel e

aeroespacial onde alguns centmetros ou quilogramas podiam fazer uma diferena enorme em

termos de custos e segurana dos sistemas. Desta forma, at aos anos 40 esta cincia

centrava-se no estudo das dimenses corporais.

Houve no entanto uma evoluo passando-se a determinar as variaes e os alcances

dos movimentos. Hoje, o interesse maior se concentra no estudo das diferenas entre grupos e

a influncia de certas variveis como etnias, regies e culturas (Lida, 1997).

Apesar da importncia da existncia de dados antropomtricos, so poucos os estudos

existentes em relao Antropometria da populao Portuguesa. At h bem pouco tempo

existiam apenas dados referentes a grupos mais ou menos restritos de indivduos, tais como

dados sobre militares e crianas (Castro, 2002) ou indivduos com caractersticas particulares,

como por exemplo, grupos de emigrantes (LAA, 1971). (Estudo Antropomtrico da Populao

Portuguesa, 2006).

1 Cincia que estuda o factor humano e suas relaes.

Dimensionamento de Postos de Trabalho em P 33

Mais recentemente o Instituto para a Segurana, Higiene e Sade no Trabalho editou um

livro, em 2006, intitulado Estudo Antropomtrico da Populao Portuguesa. De acordo com o

Instituto para a Segurana, Higiene e Sade no Trabalho:

Os objectivos principais deste projecto foram, essencialmente, o desenvolvimento de um sistema de aquisio de dados e a aplicao desse mesmo sistema na construo de uma base de dados antropomtricos da populao portuguesa adulta.

2.2. Antropometria esttica e dinmica No desenvolvimento de novos projectos conveniente trabalharmos com dois tipos de

antropometria: a esttica e a antropometria dinmica.

A antropometria esttica, como o prprio nome indica, estuda as propores fsicas do ser humano normalmente caracterizadas por comprimentos segmentares, larguras e

profundidades corporais [] superfcies e os volumes corporais (Rebelo, 2004). Estes dados

so obtidos a partir de pontos anatmicos fixos em posturas estereotipadas (Costa, 2004).

Alguns exemplos podem ser dados como por exemplo a estatura, o peso, a altura do

ombro/cotovelo, comprimentos, larguras, distncias, espessuras, etc.

Segundo a norma DIN 33 416 (1985) a representao grfica da figura humana em

posies tpicas de trabalho se orienta pelas medidas de estatura estabelecidas na DIN 33 402

Parte 2 da Repblica Federal da Alemanha, derivando medidas de pontos de articulao em

parte esquematizados.

Segundo Grandjean (1998) o trabalho esttico caracteriza-se por um estado de

contraco prolongado da musculatura, o que geralmente implica um trabalho de manuteno

de postura. O trabalho esttico provoca nos msculos exigidos uma fadiga penosa, que pode

evoluir at dores insuportveis [] conduz tambm ao surgimento de leses de desgaste nas articulaes, discos intervertebrais e tendes (Grandjean, 1998).

Na figura 9 podem-se ver algumas dimenses antropomtricas estticas representadas.

34 Ergonomia e Antropometria

Figura 9 - Exemplos de dimenses antropomtricas estticas (Fonte: Adaptado, Estman Kodak Company, 1986. ergonomic Design for People at Work (citado por Wickens, Cristopher D., An introduction to Human Factors Engineering, 2004 pp. 253))

Utilizando um exemplo prtico, mais fcil