UMA HISTÓRIA de ANTERO - ?· 2 UMA HISTÓRIA de ANTERO ANTERO Tarquínio DE QUENTAL — poeta, filósofo,…

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

  • 1

  • 2

    UMA HISTRIA de ANTERO

    ANTERO Tarqunio DE QUENTAL poeta, filsofo, pensador e agitador poltico uma das personalidades mais marcantes da histria da cultura portuguesa. Nascido em Ponta Delgada a 18 de Abril de 1842, oriundo de uma famlia ilustre descendente dos primeiros povoadores da ilha de So Miguel, o jovem Antero recebeu uma educao cuidada, de matriz catlica e tradicional. Apesar de ter sado muito cedo da ilha natal, para iniciar e prosseguir estudos em Lisboa (1852, 1855) e depois em Coimbra (1856), em cuja Universidade se viria a formar em Direito (1858-1864), Antero manteve sempre uma forte ligao a So Miguel, que visitou com alguma assiduidade, aqui passando, por vezes, longas temporadas.

    Guia incontestado da sua gerao desde os tempos da Universidade, Antero esteve ligado a todos os movimentos que tinham por objectivo a renovao da Cultura, da sociedade e das mentalidades portuguesas da sua poca, luz das novas ideias oriundas dos pases mais desenvolvidos da Europa, em especial de Frana. neste contexto que surge a famosa Carta a Castilho (1865), que viria a desencadear a Questo Coimbr que ps em confronto a nova gerao de intelectuais, defensores do esprito cientfico europeu e de uma literatura social-mente empenhada, contra a corrente sentimentalista do ultra-romantismo, centrada na figura patriarcal do poeta Castilho, cuja casa Antero frequentara, em criana, durante a sua estadia em Ponta Delgada (1847-1850).

    Mais interessado em conhecer o mundo do trabalho e das classes operrias do que usufruir das propriedades rurais herdadas em So Miguel ou exercer a profisso para que se preparara na Universidade, Antero decide aprender a profisso de tipgrafo, primeiro em Lisboa e depois em Paris (1866), de onde regressa desiludido, j com sintomas de uma grave doena bipolar (psicose manaco-depressiva). Mais tarde (1869), viaja pela Amrica do Norte.

    Regressado a Portugal, desenvolve uma intensa actividade potica, poltica e ensastica, dedi-cando-se criao de associaes operrias e publicao de artigos e folhetos de discusso e divulgao do iderio socialista, colaborando com poesia e ensaio em diversos jornais de todo o pas. Integra, com Ramalho Ortigo (1836-1915), Manuel de Arriaga (1840-1917), Ea de Queiroz (1845-1900) e Jaime Batalha Reis (1847-1935), entre outros jovens intelectuais, um grupo de discusso influenciado pelas ideias de Proudhon, posteriormente designado por Cenculo (1868), e que estaria na origem das Conferncias do Casino (1871), cujo objectivo era inves-tigar a sociedade portuguesa tal como e como deveria ser, e estudar todas as ideias novas e todas as correntes ideolgicas do sculo XIX (Antero proferiu a conferncia inaugural, O Esp-rito das Conferncias, tendo ainda uma segunda interveno intitulada Causas da Decadncia dos Povos Peninsulares nos Trs ltimos Sculos). Faz parte da comisso de redaco do pro-grama do Partido dos Operrios Socialistas (1871), redige os estatutos da Associao Protectora do Trabalho Nacional, e dirige, com Batalha Reis, a Revista Ocidental (1875); candidata-se a deputado pelo Partido Socialista (1879, 1881) e toma parte activa na Liga Patritica do Norte, criada no Porto na sequncia do Ultimatum ingls (1890), da qual eleito presidente.

    Atormentado pela doena, viaja duas vezes para Paris (1877, 1878) para consultar o mdico Jean-Martin Charcot (1825-1893) e fazer tratamentos de hidroterapia, que no resultam. Entrando numa fase depressiva, dedica-se leitura dos mestres do pessimismo, Schopenhauer e Hartmann, escrita de um ensaio, que viria a destruir (tal como fez a inmeros poemas), com o ttulo Programa para os Trabalhos da Gerao Nova, e composio de poesias onde, sob a influn-cia das teorias do inconsciente (Hartmann), transmite as suas angstias metafsicas e elege a

  • 3

    Morte como a nica possibilidade de libertao das foras inconscientes que marcam o destino do Homem. Em 1890, j numa fase eufrica, liberto do desespero pessimista, publica o Ensaio sobre as tendncias gerais da Filosofia na ltima metade do sculo XIX. Finalmente, comun-gando da desiluso geral provocada pela grave crise que atingia o pas, e atormentado por problemas familiares, entra novamente numa profunda depresso que o conduz ao suicdio, em Ponta Delgada, no dia 11 de Setembro de 1891.

    A actividade potica estruturante na obra de Antero de Quental. Assim, enquanto a sua poesia de juventude Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (1863) e Primaveras Romnticas (1872) muito marcada pelo iderio da renovao cultural portuguesa, a da maturidade faz eco, sucessivamente, das suas fases pessimista, merecendo realce os sonetos que constituem a srie Elogio da Morte (1875), e eufrica, documentada em sonetos como O Convertido (1875), Na mo de Deus e Redeno (1882), Voz Interior (1883), ou Solemnia Verba (1884). Os seus sonetos forma potica em que atingiu um dos graus mais perfeitos em toda a histria das literaturas de lngua portuguesa foram objecto de diversas edies em vida: publica, em 1881, o livro Sonetos e mais tarde, com organizao de Oliveira Martins, os Sonetos Completos (1886); alguns destes poemas so traduzidos para alemo por Wilhelm Storck (1829-1905), tradutor de Cames, a quem Antero dirige uma carta autobiogrfica (1887) que contm importante informao para se entender a sua personalidade, a sua obra literria, e o seu envolvimento na empresa de modernizao das ideias polticas e literrias em Portugal.

    Antero de Quental foi o guia espiritual incontestado da gerao de brilhantes jovens intelectuais que ficaria conhecida por Gerao de 70, entre os quais se destacam, para alm dele, Ea de Queiroz (1845-1900), Tefilo Braga (1843-1924), Oliveira Martins (1845-1894), Ramalho Ortigo (1836-1915) e Batalha Reis (1847-1935). Aps a sua morte, estes e outros amigos cola-boraram no volume Antero de Quental In Memoriam (1896), com textos que so preciosos testemunhos do homem e da sua obra, e, atravs dele, da gerao a que pertenceu uma das mais dinmicas e produtivas em matria de renovao do pensamento, da literatura e da actuao poltica em Portugal. Ea de Queiroz, que no In Memoriam colaborou com o texto Um Gnio que era um Santo fundamental para se conhecer o homem que foi Antero na pers-pectiva de um amigo e companheiro, mas tambm crtico , esboou, no romance A Capital! (escrito entre 1877 e 1884, e nunca terminado), um retrato custico de Antero e de outros com-panheiros da gerao coimbr, incluindo ele prprio, onde Antero vive por meio da personagem Damio, um intelectual e activista socialista que, depois de ter sido o guia da sua gerao na Universidade de Coimbra, paira, frio e brilhante, sobre os interesses e as incompatibilidades dos partidos polticos que no sabem nem conseguem gerir, no terreno, o legado programtico da gerao de 1870.

    esta personagem fascinante, e o seu percurso de vida e de morte pautado entre a euforia do idealismo e o desespero da desiluso caractersticos dos meios intelectuais portugueses do ltimo quartel do sculo XIX, que adoptmos como guia para uma revisitao da cidade de Ponta Delgada seu bero, seu refgio e seu tmulo.

    A elaborao dos textos que constituem este guia devedora de duas obras principais:

    CARREIRO, Jos Bruno Tavares (1948). Antero de Quental: Subsdios para a sua Biografia. Lisboa: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2 volumes (reimpresso em 1981).

    MARTINS, Ana M de Almeida (1986), Antero de Quental: Fotobiografia. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda (nova edio, refundida e ampliada, 2008).

  • 4

    LUGARES ANTERIANOSem PONTA DELGADA

    3

    3

    5

    82

    2

    4

    4

    10

    10

    11

    1

    1

    67

    9

    PONTA DELGADA

    SO MIGUEL

    fonte: DRT, 2006 Rua - Street / Avenida - AvenueCaminho, Canada - Road / Largo, Praa - Square

    Antero, em 1887.Foto tirada por A. Raposo.

  • 5

    8

    11

    6

    7

    9

    1 Casa onde nasceu Antero de Quental (18 de Abril de 1842). Rua do Castilho (antiga Rua do Lameiro).

    2 Solar do Bom Sucesso, da famlia Quental. Antero aqui viveu entre 23 de Agosto de 1867 e 29 de Outubro de 1868. Lugar do Ramalho na Freguesia dos Arrifes, arredores de Ponta Delgada.

    3 Casa onde funcionava a Fotografia Artstica, de A. Raposo, onde Antero tirou um dos ltimos retratos (18 de Agosto de 1887), por ele considerado a nica boa fotografia que tinha. Rua Gil Montalverne de Sequeira (antiga Rua da Esperana, 19).

    4 Hotel Brown, onde Antero se hospedou no seu derradeiro regresso a So Miguel (12 de Junho de 1891). Rua So Francisco Xavier (actual Pousada da Juventude).

    5 Casa de Jos Bensade, ltima morada de Antero (desde 26 de Agosto de 1891), de onde saiu para se suicidar. Rua Jos Bensade (ento Rua de Santa Catarina de Baixo).

    6 Palcio da Conceio (ento sede do Governo Civil), onde Antero, por duas vezes, se foi encontrar com a irm antes do suicdio.

    7 Prdio no local onde ficava a loja de Benjamim Frin. Aqui Antero adquiriu o revlver com que se suicidaria. Esquina do Largo da Matriz (Sudeste) com a Rua dos Mercadores.

    8 Rua Direita de Santa Catarina.

    9 Banco, junto cerca do Convento da Esperana, onde Antero se suicidou. Campo de So Francisco.

    10 Monumento funerrio de Antero. Cemitrio de So Joaquim.

    11 Monumento a Antero de Quental. Jardim Antero de Quental.

  • 6

    ANTERO DE QUENTAL CRONOLOGIA

    1842

    1852

    1853

    1855

    1856

    1858

    1859

    1860

    1861

    1862

    1863

    1864

    1865

    1866

    1867

    1868

    1869

    1871

    1872

    18 de Abril: nasce em Ponta Delgada, na casa de famlia Rua do Lameiro, 11-15 (actual Rua do Castilho).

    8 de Agosto: parte para Lisboa, para frequentar o Colgio do Prtico, dirigido por Antnio Feliciano de Castilho, que se torna seu professor de Francs.

    6 de Junho: regressa a Ponta Del