Antero de quental lucrecias

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    03-Aug-2015

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<p> 1. LUCRCIAS Qual cede um batel sem leme Do mar e vento aos furores, Sem fora levar-me deixo De uma torrente de amores. Amor de Ovdio, de A. F. de Castilho I NS E VS Amo-vos a todas vs, Raparigas1, porque ns Dos quinze aos vinte solteiros, Borboletas dos rosais, Somos todos bandoleiros, Como foram nossos pais, Depois de nossos avs. Amai-me, pois, todas vs, Porque, afinal como ns Dos quinze aos vinte solteiras, Lindas flores dos rosais, Sois to boas bandoleiras, Como foram vossos pais, Depois de vossas avs. Agora... casando ns, Bem como casando vs; Adeus vida de solteiros, Borboletas e rosais! E nunca mais bandoleiros! - E Deus vos guarde dos pais Que inda o so depois de avs... II S RAPARIGAS Travessas, formosas, gentis raparigas, Meus lindos romances atentas ouvi: Nasci sobre as ondas das guas do norte, E as verdes florestas do norte corri. Do rio - gigante - que tira o seu nome Daquelas guerreiras dos tempos d'alm,2 2. margem virente colhi muitos frutos, E flores, e riscos, e... beijos tambm! Aos ps das cascatas, em tardes serenas, Ao som dos rudos das guas, - cismei; Que cismas de crenas! que sis d'esperanas! Que ar de baunilha que ali respirei! Corri pelas veigas atrs dos galheiros, Os mis das abelhas nos montes bebi; E sombra dos cedros altivos, copados, As sestas, saudosas, nas redes dormi. Ao pino e aos raios do sol que mais queima, Perdido nas brenhas de incultos sertes, Lutei brao a brao co'as onas feroces, Mais bravas, mais feras que os prprios lees! Delgado, flexvel, meu corpo mimoso, Nas tardes calmosas do sol do Equador, Nos lagos, nos rios nadava boiando, Por entre as gaivotas, das guas flor. Em noites de lua, ao lar das choupanas, Ouvi dos sertanos as rudes canes; E as lendas de amores das filhas das selvas, E os ternos segredos de seus coraes. Nas matas, mirei-me nas guas das fontes, Que imagem faceira nas guas sorria!... Atentas ouvi-me, gentis raparigas, Dizei-me, travessas, se o espelho mentia. Meus olhos castanhos, sisudos, traquinas, Tm fogo, tm brilho, tm lhana expresso! Audaces, medrosos, esquivos, quietos... Meus olhos, dizei-me: formosos no so? Meus lbios... meus lbios pequenos, risonhos, Uns longes tirando da cor do carmim, Dos mis e perfumes das flores sedentos... Pois h muitos lbios mimosos assim!... E os negros cabelos, e as faces de jambo, E os buos macios abrindo-se em flor? E uns traos de triste que eu tenho na fronte, E o sangue nas veias coando em fervor?... E a boca to breve... e as doces palavras, E a idade viosa as meiga estao? E as minhas cantigas, e um peito que terno, 3. E os muitos desejos do meu corao?... Dizei-me, travessas, gentis raparigas, Dizei-me, formosas, se o espelho mentia? To cheio de dotes e os dotes to raros, No era galante o retrato que via? Pois bem; das florestas, das matas virentes, A mo da ventura me trouxe at aqui;3 Perdido entre as gentes, perdi-me de amores, Por todos os olhos das moas que vi... E eu ando perdido com os dotes que tenho... Que sina! que pena! que triste condo! Se dentre vs uma quisesse se noiva... Que noivo eu dera, e a, que noivo ento!... tempo, e inda h tempo! - fero destino Perderem-se dotes to raros assim! Se dentre vs - uma quiser um marido, Me escreva uma carta dizendo - que sim. III THEREZA Quem vem da igreja? Thereza Que foi casar-se... surpresa! No esperava este azar! Nunca me turbara a idia Esta lembrana to feia De que podia casar! Que no cuidei vejo agora, Por que m'o afirma esta hora, Que inesperada bateu! Casada! vejo-a casada! Jesus! como esta mudada! Pois tambm mudarei eu. Cessai, esp'ranas viosas, Emurcheceu, perfumosas Flores, que eu tanto reguei! Corao, meu pobre filho, Velho'stas, segue o meu trilho, Enruga como enruguei! Casou-se aquela trigueira, 4. Que para vos to fagueira Se mostrava; j casou! Aquela mesma Thereza, Que a correr pela devesa, Tantas vezes nos cansou! Olhem como vem pimpona! uma senhora dona, Reparem como ela vem... Seu marido vem com ela Todo cheio de cautela, Que muitos cimes tem! Olhai-a, como nos foge! Como mais esquivos hoje Seus olhos fogem de ns! Agora que'st casada... No irs mais a latada Colher uvas a ss... J no veste saias curtas, Como outr'ora a colher murtas, Jambos ou maracuj, Pelos declives dos montes Ia, e depois vinha s fontes, E ns estvamos l... Vem? outra! outra... olhai-a! vestido, no saia, Thereza a mesma no ! E que vestido comprido! No deixa ver o vestido, Nem a pontinha do p!... Adeus senhora Thereza! Salve o pobre na pobreza, Que isto no lhe fica bem! Soberba co'o seu marido, Soberba co'o seu vestido, J no conhece ningum! Deixa-se de soberbias, Lembre-se daqueles dias, sombra dos cafezais... Descora... no tenha medo! V tranqila que o segredo Da minha boca... jamais... Jamais... e jamais suponha Seu marido que a vergonha 5. casa lhe -hei de eu levar... Jamais, senhora Thereza, Que eu tambm tenho a certeza De algum dia me casar. IV OS MEUS OLHOS EM LEILO Eu, Beta e Joaninha Eu Compra-me estes olhos, Beta, Vou vend-los em leilo; Deita o lance, Joaninha, Quanto por eles me do? Beta (com desdm) Quanto a mim, Deus me perdoe, Nem de graa me convm; Quando o prprio dono os vende, Vejam que prstimo tm... Fazem-lhe conta, priminha? Aproveite a ocasio... Joaninha (com arrufo) Pois eu l precisei nunca De olhos de segunda mo?! Eu Cuidam que vendo estes olhos, Ou que de graa os daria... Beta (com desprezo) Quem que precisa deles? Joaninha (com escrnio) 6. Quem que lhos compraria? Eu (parodiando) Quem que precisa deles? Quem que m'os compraria? Quem souber que a sorte grande Lhes saiu na loteria... Beta (rindo) A sorte grande!... priminha... Joaninha (rindo tambm) A sorte grande! ora qual... Eu Olha este bilhete, Beta; Joaninha, toma o jornal. Beta (lendo o n do bilhete) Cinco mil... e trin...ta e qua...tro... aqui 'sto... Vinte contos. Joaninha (conferindo o jornal) E trinta... e Qua... tro... aqui... 'sto... Vinte contos. Beta (dramtica) Vinte contos!... Joaninha (trgica) quase um milho!... Beta (com pasmo) 7. Vinte contos!... que riqueza!... Joaninha (dando um passo para mim) Co'os lindos olhos que tem... Beta (adiante de Joaninha) Se eu tivesse uns olhos desses... Joaninha Eu se os tivesse tambm... Beta (com ternura) Uns olhos to expressivos... Joaninha (com meiguice) Que falam ao corao... Beta (tomando-me a mo direita) Que tm raios... Joaninha (tomando-me a mo esquerda) Que tm brilho... Eu (com diplomacia) E agora quase um milho... Beta (con amore) Deixa que eu ame os seus olhos? Joaninha (solto voce) 8. Deixe que eu lhes beba a luz? Eu (profundamente comovido) Deixo... sim...mas, o bilhete... Ambas O bilhete?... Eu falso... Ambas Cruz!... (E ambas deram-me s costas, deixando-me na posio mais cmica de minha vida) V MORENINHA - Moreninha, ds-me um beijo - E o que me d, meu senhor - Este cravo... - Ora, esse cravo! De que me serve uma flor? H tantas flores nos campos! Hei de agora, meu senhor, Dar-lhe um beijo por um cravo? barato; guarde a flor. - D-me o beijo, moreninha, Dou-te um corte de cambraia. - - Por um beijo tanto pano! Compro de graa uma saia! Olhe que perde na troca, Como eu perdera co'a flor; Tanto pano por um beijo... Sai-lhe caro, meu senhor. - Anda c... ouve um segredo... - Ai, pois quer fiar-se em mim? Deus o livre, eu falo muito, Toda mulher assim... 9. E um segredo... ora um segredo... Pelos modos que lhe vejo Quer o meu beijo de graa, Um segredo por um beijo!? - Quero dizer-te aos ouvidos Que tu s uma rainha... - Acha, pois? e o que tem isso? Quer ser rei, por vida minha? - Quem dera que tu quisesses... - No duvide, que o farei; Meu senhor, case com ela, A rainha o far rei... - Casar-me? ... ainda sou to moo... - Como criana esta ovelha! Pois eu p'ra beijar crianas, Adeusinho, j sou velha. VI FLORA Agora... agora!... murmurei baixinho Nos ouvidos de Flora, a gentil Flora! No ha tempo a perder, pouco o tempo! D-me o beijo de amor... agora!... agora!... Agora... agora!.. que propcio instante Para o beijo de amor que Amor implora! Esconde o rosto por detrs do leque, Como quem no me viu... agora...agora!.. H mais de um ano que este amor faminto na esperana de um beijo se vigora! H tanto tempo!.. meu amor... meu anjo! Agora... agora! d-me o beijo... agora!.. Voltou seu rosto: por detrs do leque Por um triz eu beijava a gentil Flora, Se o maldito do pai no vem saudar-me, Perguntando a sorrir - no dana agora?! Ha mais de um ano que este amor faminto Na esperana de um beijo se vigora; E quando cuido hav-lo bate asas... Leve-te a breca o pai, querida Flora! VII 10. O CALOTE (imitao do francs)4 Sa da oficina Inda no era o sol posto: Em meio ao caminho encontrei Trigueira, gentil menina Toda inteira de meu gosto: Fui - junto dela parei. Tomei-lhe as mos trigueirinhas, (Que macias mos aquelas!) Beijei-as com frenesi... De todas as moreninhas, Lhe disse, de todas elas s a mais linda que vi! Vamos aos bosques, morena? Vamos ver os arvoredos, Que muitos h para ver! A tarde vai to serena... E eu tenho tantos segredos Que t'os queria dizer... Fui-lhe do brao travando, Sem mostrar constrangimento, Que eu a levasse deixou; Porm, aos bosques chegando, Com ares de sofrimento, Em pranto se desatou. Que tens, por que choras, bela? Eu no te fiz resistncia, Tu mesma o podes dizer?... Ai! soluou, pobre dela! Eu choro a minha inocncia... Que vais deitar a perder...- Esta bem, por Deus, no chores! No tocarei a inocncia que Deus manda respeitar; Tornemos ao campo: as flores Vai colher da adolescncia, Vai pelos campos saltar. - Livre'sts, podes agora, Lhe disse ao campo chegando, Podes rir, podes brincar; Vai ela, com voz sonora, 11. Negros olhos requebrando Ps-se zombando a cantar. - Que tens p'ra cantar, trigueira? Responde, por vida minha, Que tens para assim cantar? Respondeu: - A sua asneira! Teve entre as mos a galinha E no soube depenar!... VIII A FILHA DO MESTRE ANSELMO Mestre Anselmo - sapateiro, No seu ofcio o primeiro, (O primeiro remendo), Tinha uma filha formosa, Chamava-se a filha Rosa, E era rosa em boto Como um trono assentado, Mestre Anselmo repimpado Na tripea era um sulto; Mas, mngua de fregueses, Passava meses e meses Sem remontar um taco. Um dia o rei da craveira Nomeia a filha caixeira, E pe a filha ao balco: Acabaram-se os reveses, Mestre Anselmo tem fregueses, J no pode medir mo. De to grande freguesia O mundo todo dizia Ter ganho o mestre um milho; No que lho desse a craveira, Mas os olhos da caixeira Que tinha posto ao balco... Certo ou no certo o comento, Por minha vez acrescento, E tenho certa razo... Mestre Anselmo enriqueceu, Mas a filha... empobreceu No melhor do seu quinho!... ______ Quem quiser no seu ofcio, De mesquinho benefcio, 12. Ser rico do p p'ra mo: Tenha uma filha formosa, E, como o patro de Rosa, V pondo a filha ao balco. IX INGENUIDADE - Pedi-lhe um beijo coraste! Teus olhos no cho fitaste, E a rosinha desfolhaste Que te dei! Foi um pedido inocente, Impulso de afeto ardente; Ofendi-te, seriamente No pensei! - Pois eu tambm no cuidava, Quando a rosa desfolhava, Que tanta mgoa lhe dava Que lhe dei! O senhor pediu-me um beijo. Eu tambm tinha desejo... Mas, quando quis veio o pejo, E... eu... corei! - Inocente!... teve um pejo! Agora ento, ds-me o beijo? to grande este desejo Com que 'stou!... No se amofina comigo? Ah! no vs? sou teu amigo... Veja o que diz!... o que digo... No lhe dou! - Quisera que me dissesses Que novos modos so esses De tratar-me... s mereces Meu desdm! J no preciso do beijo, Ou seja inocncia ou pejo, Boas-festas lhe desejo, Passar bem! - No ralhe comigo que me entristeo! O seu desdm no mereo... Olhe - v... como ingordeo...5 13. Olhe bem... No olha? 'st mal comigo? Olhe, para meu castigo Veio tarde, meu amigo, Vou... ser me! crvel? na flor dos anos Pode haver entre os humanos Quem ousasse... desenganos! tal e qual! Reparei... tinha uma pana Aquela pobre criana, Que poria em contradana Um arsenal! -- Do sentimento no excesso Maldisse a luz do progresso, Que deixa ver pelo avesso As iluses! Doido, sensivelmente, Deixei aquela inocente Dizendo piedosamente Co'os meus botes: Pobre menina! to cedo! Abuso do sculo!... ai! (H de ser linda criana... Se, ao menos, eu fosse o pai?!) X LAURA - D'onde vens, Laura? - De casa. - Vais festa? - J se v? - To sozinha? - O que tem com isso? - Vou contigo... - Para qu? - Para ensinar-te o caminho... - Agradeo-lhe o favor; Eu sei de cor estas bandas, 14. Obrigada, meu senhor. - Olha o Demo se te encontra... - Pergunto ao Demo; o que quer? - E se ele quiser um beijo? - Dou-lhe at mais, se quiser. - Ora, anda c; d-me o beijo, Porque o Demnio em mim vs... - J me'stava parecendo... Ficar para outra vez. - V d'esta vez um abrao... - Abrao?.. - Sim, o que tem? - Mame me disse outro dia... - O que te disse a mame? - Que uma rapariga solteira Em abraando um rapaz... Ferve-lhe o sangue nas veias, E depois... - E depois? - Zs! _________ Arregaando o vestido Deitou-se Laura a correr; Deixando-me boquiaberto Co'o sangue todo a ferver! XI MAL DE UM BEIJO D-me um beijo! pode um beijo Deixar-me acaso seno? Eu sei beijar to leve... D-me o beijo, Ldia? - No. Mesquinha! prdigas outras Quantos beijos a do?... No sejas prdiga, emb'ora, Mas... um beijo ao menos? - No. No te peo um sacrifcio 15. Em paga d'este vulco, Que trago dentro do peito, D-me um beijo em paga? - No. - Inferno! Que amante s Ldia, Pois sempre a dizer-me no, Quando um beijo te suplico Nos ardores da paixo?... Que me pedes para prova De minha extrema paixo? Vai dizendo, vers, Ldia, Que no sei dizer-te - No. H de compor um romance, Que fale somente em mim, Que acima das moas todas Me punha em beleza? - Sim. No h de deixar que eu viva Por muitos meses assim Aborreo o meu estado... Sim, Ldia, trs vezes sim. toda a minha ventura Casar-me, meu serafim; Assim queiras... queres? - Quero! Est dito... beijo? - Sim! --- E beijei-a... Mas o beijo Arrefeceu-me a paixo... Hei de compor-lhe o romance; Mas casar com Ldia? - No. XII FRANCINA No templo de Deus, Francina Devota rezando 'stava; Seus negros olhos fitava No lenho da redeno: 16. E silncio revelava As preces do corao. De joelhos de mos postas Para o cu as levantava, E mais formosa ficava Nessa humilde posio: Eu, que herege a contemplava, Tinha f e devoo... De mos postas, a seu modo Eu tambm me ajoelhava, Com devoo... com fervor. Mas... de Deus no me lembrava Naqueles salmos d'amor! No me lembrava de Deus... No! o Deus, que eu adorava, De quem a graa implorava Nas preces do corao, Seus negros olhos fitava No lenho da redeno... Era, sim, meu Deus, Francina Que a devoo me inspirava Era Deus, que eu adorava Das oraes no fervor... Como devoto rezava Eu rebelde pecador!... "Rezas para Deus, Francina? Eu, Francina, para ti! Minhas culpas, querubim, Me pesam no corao! Perdoa se te ofendi Amando com devoo A esses olhos serenos, A esses lbios - rubins, a essas faces - jasmins, Essa toda - perfeio! Pequei, pequei! ai de mim Se morro sem teu perdo! Volve teus olhos piedosos Para o pecador - cristo! D-lhe um riso! salvao...</p>

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