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Universidade de Lisboa Faculdade de Letras Departamento de Linguística Geral e Românica Para uma caracterização semântica do futuro sintético românico Descrição e análise dos valores do futuro do indicativo em Português e em Italiano Riccardo Giomi Mestrado em Linguística 2010

Para uma caracterização semântica do futuro sintético românico Descrição e análise dos valores do futuro do indicativo em Português e em Italiano

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O objectivo deste trabalho é o de traçar uma classificação, hierarquicamenteorganizada, dos usos do futuro sintético em Português Europeu e em Italiano.Pretende-se assim contribuir para a problemática categorização gramatical desta formaverbal nas línguas românicas que a possuem.

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  • Universidade de Lisboa Faculdade de Letras

    Departamento de Lingustica Geral e Romnica

    Para uma caracterizao semntica do futuro sinttico

    romnico Descrio e anlise dos valores do futuro do

    indicativo em Portugus e em Italiano

    Riccardo Giomi Mestrado em Lingustica

    2010

  • Universidade de Lisboa Faculdade de Letras

    Departamento de Lingustica Geral e Romnica

    Para uma caracterizao semntica do futuro sinttico

    romnico Descrio e anlise dos valores do futuro do

    indicativo em Portugus e em Italiano

    Riccardo Giomi

    Mestrado em Lingustica

    Dissertao orientada por: Professor Doutor Rui Pedro Ribeiro Marques

    2010

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    Agradecimentos Esta dissertao tem sido a minha prinicipal ocupao durante os ltimos dois

    anos. Apreendi muito ao escrev-la e hoje, apesar dos momentos de dificuldade e de

    desnimo pelos quais passei, sinto que valeu a pena perder inmeras noites de sono

    com este trabalho.

    Ao Professor Rui Marques agradeo no s a constante e cuidadosa orientao,

    como tambm a pacincia e simpatia que sempre teve para comigo. Estas foram a

    minha ncora nos momentos mais difceis. Ter-lhe pedido para ser meu orientador foi

    uma das melhores decises que eu j tomei. Obrigado, Professor.

    Tambm gostaria de agradecer a todos os docentes com que tive a oportunidade de

    trabalhar no Departamento de Lingustica Geral e Romnica da FLUL. Obrigado, em

    particular, s Professoras Alina Villalva e Manuela Ambar por me terem ajudado a ter

    confiana no meu trabalho.

    Agradeo a todos os membros do Instituto de Lingustica Terica e

    Computacional, onde tive a sorte de trabalhar como investigador auxiliar durante o

    ltimo ano. Sobretudo, agradeo ao Professor Carlos Gouveia pela sistematicidade que

    me ensinou a pr no trabalho. Ao Professor Carlos e ao Professor Lachlan Mackenzie

    agradeo o terem guiado os meus primeiros passos no campo das teorias funcionalistas

    da linguagem.

    Devo um agradecimento especial aos meus amigos, os de c, os de l, e o de muito

    mais longe, por me terem sempre feito lembrar de que existem coisas mais importantes

    do que o futuro do indicativo. Obrigado.

    Finalmente, agradeo minha famlia toda, em particular aos meus pais, por serem

    quem so.

  • iii

    Resumo

    O objectivo deste trabalho o de traar uma classificao, hierarquicamente organizada, dos usos do futuro sinttico em Portugus Europeu e em Italiano. Pretende-se assim contribuir para a problemtica categorizao gramatical desta forma verbal nas lnguas romnicas que a possuem. A anlise proposta funda-se em assunes das teorias dinmicas do significado e em trabalhos de teor funcionalista, especialmente na Gramtica Discursivo-Funcional (Hengeveld e Mackenzie 2008). Como ressalta da literatura especfica, para alm da funo de marcar a referncia temporal futura, o futuro sinttico romnico cobre uma vasta gama de empregos modais de tipo volitivo, dentico, subordinativo e, sobretudo, epistmico. A hiptese que apresento a de que, nas duas lnguas consideradas, todos os valores semnticos que podem ser expressos pelo futuro sinttico resultam de um dos dois usos bsicos (ou interpretaes bsicas) da forma, que constituem dois valores gramaticais alternativos: (i) um valor temporal, que, atravs de um enriquecimento pragmtico, pode dar origem a interpretaes derivadas denticas e volitivas; tambm os chamados usos gnmico e histrico do futuro romnico, que so por vezes apresentados como usos modais, derivam, na minha opinio, de uma interpretao bsica temporal da forma, atravs de um deslocamento do momento da enunciao (na representao mental dos falantes); (ii) um valor epistmico, cuja propriedade caracterstica a de poder expressar referncia temporal no-futura e cuja fora modal determinada por enriquecimento pragmtico, se no explicitamente indicada por recursos lexicais ou prosdicos; do uso epistmico do futuro pode derivar uma interpretao concessiva. Finalmente, existe em Portugus um uso reportativo do futuro (caso nico no s no que concerne ao panorama romnico) que se argumenta derivar tambm de um significado gramatical epistmico, embora, aparentemente, esteja a ganhar uma autonomia cada vez maior em relao correspondente interpretao de base. A classificao assim delineada implica uma proposta de reviso da categorizao gramatical tradicional do futuro sinttico romnico (considerando que, pelo que ressalta da literatura, as outras lnguas romnicas no exibem outros usos da forma, alm dos referidos). A hiptese que coloco a de que, nos seus dois significados gramaticais (e respectivos usos derivados), a forma pertence a dois paradigmas distintos: o do indicativo, nos usos temporais, e o dos operadores de modalidade epistmica, nos usos epistmico-evidenciais.

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    Abstract The goal of this dissertation is to develop a hierarchically organized classification of the temporal and modal uses of the synthetic future in Italian and in European Portuguese as a contribution to the problematic grammatical categorization of this form. The analysis proposed here has been inspired by assumptions taken from dynamic theories of meaning (see Heim 1983) and from functionalist works, particularly Functional Discourse Grammar (Hengeveld and Mackenzie 2008). As is well known from the literature, alongside the temporal function of marking future time reference, the Romance synthetic future has a wide range of modal uses, with volitive/intentive, deontic, subordinate and, above all, epistemic interpretations. The hypothesis to be presented is that, in both the languages considered, all of the semantic values the form may express result from one of its two basic uses (or basic interpretations), which represent two alternative grammatical meanings: (i) a temporal meaning, that may give rise, through pragmatic enrichment, to deontic and volitional interpretations; as for the so-called gnomic and historical uses of the Romance future, uses that have sometimes been referred to as modal, I will suggest that these are better seen as resulting from a basically temporal use/interpretation plus a linguistically or contextually determined shift in the mental representation of the speech time; (ii) an epistemic meaning, which, as its characteristic feature, can occur with non-future time reference, and whose modal force is determined by pragmatic enrichment, if this is not explicitly marked by lexical or prosodic means; a concessive use will be argued to derive from such a basic interpretation of the future. Finally, Portuguese also has a reportative use of the future which, again, can be seen as a meaning derived from a basically epistemic one, although it seems to be gaining more and more autonomy from the corresponding grammatical meaning. The taxonomy established in this dissertation implies a proposal to reconsider the traditional categorization of the Romance synthetic future (provided that other Romance languages do not turn out to have any further uses beyond those listed above). The hypothesis is presented that the form should be split into two separate paradigms: that of the indicative mood, to which the temporal meanings of the future belong, and that of the epistemic modal markers, to which the epistemic-evidential uses may be reduced.

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    NDICE

    0 INTRODUO ............................................................................................................ 1 1 O FUTURO E AS LNGUAS NATURAIS ................................................................ 5 1.1 SOBRE A NATUREZA DO FUTURO ..................................................................... 5 1.1.1 Diferena epistemolgica entre o futuro e o passado ou o presente ........................ 5 1.1.2 Perspectiva convergente .......................................................................................... 6 1.1.3 O futuro nas lnguas do mundo ................................................................................ 7 1.2 TEMPO, ASPECTO, MODALIDADE E ILOCUO NAS LNGUAS NATURAIS 10 1.2.1 Tempo .................................................................................................................... 10 1.2.2 Aspecto .................................................................................................................. 12 1.2.3 Modalidade ............................................................................................................ 12 1.2.4 Ilocuo .................................................................................................................. 16

    2 GNESE E DESENVOLVIMENTO DO FUTURO DO INDICATIVO ............. 19 2.1 PADRES EVOLUTIVOS DO FUTURO NAS LNGUAS NATURAIS ............. 20 2.2 ORIGEM DO FUTURO SINTTICO ROMNICO .............................................. 23 2.2.1 A hiptese da predestinao ............................................................................... 24 2.2.2 A hiptese do valor de obrigao .......................................................................... 27 2.2.3 A hiptese da interpretao altica ........................................................................ 30 2.3 CICLOS EVOLUTIVOS DO FUTURO ROMNICO ........................................... 33 2.3.1 Formas de futuro em latim e seus valores .............................................................. 34 2.3.2 O futuro sinttico em romance e nas lnguas romnicas ....................................... 36 2.3.3 Outras formas de futuro em lnguas romnicas ..................................................... 37 2.3.4 Percursos evolutivos do futuro nas lnguas romnicas .......................................... 39 2.4 SNTESE .................................................................................................................. 44

    3 O FUTURO SINTTICO EM PORTUGUS E EM ITALIANO ESTADO DA QUESTO ................................................................................................................. 47 3.1 USOS DO FUTURO SINTTICO ROMNICO .................................................... 48 3.1.1 O FUTURO SINTTICO NAS LINGUAS ROMNICAS ................................. 48 3.1.1.1 Fleischman (1982) .............................................................................................. 48 3.1.1.2 Bybee et al. (1994) .............................................................................................. 51 3.1.2 O FUTURO SINTTICO EM PORTUGUS ...................................................... 55 3.1.2.1 Cunha e Cintra (1984) ......................................................................................... 55 3.1.2.2 Paiva Bolo (1973) ............................................................................................. 57 3.1.2.3 Mattoso Cmara (1956) ...................................................................................... 61 3.1.2.4 Squartini (2004) .................................................................................................. 64 3.1.3 USOS DO FUTURO SINTTICO EM ITALIANO ............................................. 64 3.1.3.1 Renzi e Salvi (1991) ........................................................................................... 64 3.1.3.2 Schneider (2006) ................................................................................................. 72 3.1.3.4 Uso potencial do futuro ................................................................................... 76 3.2 SNTESE .................................................................................................................. 77 3.2.1 CLASSIFICAO DOS USOS DO FUTURO SINTTICO POR VALOR

    MODAL EXPRESSO .................................................................................. 78 3.2.1.1 O futuro hipottico .............................................................................................. 80 3.2.1.2 O futuro reportativo ............................................................................................ 82

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    3.2.1.3 O futuro atenuativo ............................................................................................. 84 3.2.1.4 Outros futuros no-modais ................................................................................. 88 3.2.1.4.1 O futuro retrospectivo ..................................................................................... 88 3.2.1.4.2 O futuro gnmico ............................................................................................ 89 3.2.1.5 Sntese ................................................................................................................ 92 3.2.2 CLASSIFICAO DOS USOS DO FUTURO SINTTICO POR VALOR

    TEMPORAL EXPRESSO .......................................................................... 92 3.2.2.1 Futuro temporal e futuro hipottico .................................................................... 94 3.2.2.3 Futuros epistmicos, futuro reportativo e futuro potencial ................................ 97 3.2.2.4 Futuro gnmico e futuro retrospectivo ............................................................... 98 3.3 PARA UMA NOVA CLASSIFICAO DOS USOS DO FUTURO SINTTICO ROMNICO .............................................................................................. 101 3.3.1 CLASSIFICAO DOS USOS DO FUTURO SINTTICO POR ACTO

    ILOCUTRIO ........................................................................................... 103 3.3.1.1 Pressupostos conceptuais ................................................................................. 103 3.3.1.2 Futuro temporal puro ........................................................................................ 106 3.3.1.3 Futuro gnmico ................................................................................................ 107 3.3.1.4 Futuro retrospectivo ......................................................................................... 108 3.3.1.5 Futuro dentico ................................................................................................. 109 3.3.1.6 Futuro volitivo .................................................................................................. 113 3.3.1.7 Futuro epistmico ............................................................................................. 117 3.3.1.8 Futuro concessivo ............................................................................................. 120 3.3.1.9 Futuro reportativo do Portugus ....................................................................... 121 3.3.2 UMA PROPOSTA DE CLASSIFICAO ........................................................ 123

    4 ANLISE POR CONDICIONANTES ..................................................................... 129 4.1 O MODELO DE ANLISE: PRESSUPOSTOS TERICOS E METODOLGICOS ....................................................................................................... 129 4.2 USOS BSICOS .................................................................................................... 135 4.2.1 FUTURO TEMPORAL vs FUTURO EPISTMICO ......................................... 135 4.2.2 Condicionantes .................................................................................................... 142 4.2.1.1 Condicionantes contextuais .............................................................................. 142 4.2.1.2 Condicionantes semnticas ............................................................................... 144 4.2.1.2 Condicionantes morfossintcticas .................................................................... 146 4.2.2.4 Condicionantes fonolgicas ............................................................................. 154 4.2.3 SNTESE ............................................................................................................. 155 4.3 USOS DERIVADOS DO FUTURO DO INDICATIVO ....................................... 157 4.3.1 USOS DERIVADOS DO FUTURO TEMPORAL ............................................ 158 4.3.1.1 Uso dentico do Futuro Temporal .................................................................... 158 4.3.1.1.1 Condicionantes contextuais ........................................................................... 158 4.3.1.1.2 Condicionantes semnticas ............................................................................ 161 4.3.1.1.3 Condicionantes morfossintcticas ................................................................. 163 4.3.1.1.4 Condicionantes fonolgicas .......................................................................... 164 4.3.1.1.5 Sntese ........................................................................................................... 165 4.3.1.2 Uso volitivo do Futuro Temporal ..................................................................... 167 4.3.1.2.1 Condicionantes contextuais ........................................................................... 167 4.3.1.2.2 Condicionantes semnticas ............................................................................ 171 4.3.1.2.3 Condicionantes morfossintcticas ................................................................. 173 4.3.1.2.4 Condicionantes fonolgicas .......................................................................... 174 4.3.1.2.5 Sntese ........................................................................................................... 174 4.3.1.3 Uso gnmico do Futuro Temporal ................................................................... 177

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    4.3.1.3.1 Condicionantes contextuais ........................................................................... 177 4.3.1.3.2 Condicionantes semnticas ............................................................................ 178 4.3.1.3.3 Condicionantes morfossintcticas .................................................................. 180 4.3.1.3.4 Condicionantes fonolgicas ........................................................................... 181 4.3.1.3.5 Sntese ............................................................................................................ 182 4.3.1.4 Uso retrospectivo do Futuro Temporal ............................................................. 183 4.3.1.4.1 Condicionantes contextuais ........................................................................... 183 4.3.1.4.2 Condicionantes semnticas ............................................................................ 183 4.3.1.4.3 Condicionantes morfossintcticas .................................................................. 184 4.3.1.4.4 Condicionantes fonolgicas ........................................................................... 184 4.3.1.4.5 Sntese ............................................................................................................ 184 4.3.2 USOS DERIVADOS DO FUTURO EPISTMICO ........................................... 186 4.3.2.1 Uso concessivo do Futuro Epistmico .............................................................. 186 4.3.2.1.1 Condicionantes contextuais ........................................................................... 186 4.3.2.1.2 Condicionantes morfossintcticas .................................................................. 187 4.3.2.1.3 Condicionantes fonolgicas ........................................................................... 188 4.3.2.1.4. Sntese ........................................................................................................... 189 4.3.2.2 Futuro reportativo do Portugus ....................................................................... 189 4.3.2.3.1 Condicionantes contextuais ........................................................................... 190 4.3.2.3.2 Condicionantes semnticas ............................................................................ 190 4.3.2.3.3 Condicionantes morfossintcticas .................................................................. 191 4.3.2.3.4 Condicionantes fonolgicas ........................................................................... 192 4.3.2.3.5 Sntese ............................................................................................................ 192 4.3.2.3.5.1 Um novo valor gramatical? ......................................................................... 193 4.4 O FUTURO POTENCIAL: UM FALSO USO DO FUTURO ROMNICO 196

    5 CONCLUSES ........................................................................................................ 201 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................... 211

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  • 1

    0 INTRODUO

    Nesta dissertao, pretende-se investigar a semntica do chamado futuro do

    indicativo romnico, forma derivada da perfrase latina infinitivo + habeo e comum s

    quatro lnguas nacionais da Romnia centro-ocidental (de Leste para Oeste, Italiano,

    Francs, Espanhol e Portugus). Este futuro sinttico certamente uma das formas

    mais problemticas dos sistemas verbais das lnguas que a possuem, nomeadamente,

    no que diz respeito individualizao e caracterizao dos seus mltiplos valores

    temporais e modais, e, por conseguinte, prpria categorizao da forma do ponto de

    vista gramatical. O objectivo deste trabalho precisamente o de contribuir para tais

    tarefas. principalmente primeira questo que me vou dirigir, analisando o uso do

    futuro do indicativo em Italiano e em Portugus Europeu. Em particular, tentarei

    oferecer uma sistematizao dos variados valores que este tipo de futuro pode

    expressar nas duas lnguas.

    A escolha das lnguas em estudo no se deve a qualquer critrio de natureza

    cientfica, mas simples circunstncia de serem estas as lnguas romnicas de que

    tenho melhor conhecimento. No entanto, a comparao do futuro do indicativo entre as

    duas lnguas pode revelar-se interessante por se verificar que o Italiano e o Portugus

    apresentam diferenas significativas relativamente frequncia e variedade do uso

    do futuro. Assim, a comparao entre as duas lnguas poder ser til a nvel

    metodolgico, para isolar os aspectos gerais da semntica desta forma verbal,

    distinguindo-os das caractersticas resultantes das evolues particulares que ela sofreu

    nas diversas lnguas.

    A perspectiva que adoptarei segue a ptica das teorias semnticas dinmicas,

    segundo a qual o significado dos enunciados das lnguas naturais concebido, no

    como consistindo nas suas condies de verdade, mas sim em funo dos contextos em

    que os enunciados podem ser utilizados, e dos efeitos de actualizao que eles tm

    sobre o prprio contexto (o que Heim 1983 designa por context change potential dum

    enunciado). Embora o presente estudo no se integre em nenhuma teoria lingustica

    especfica nem aplique sistematicamente qualquer modelo formal de representao, o

    tipo de anlise proposto foi inspirado por trabalhos funcionalistas, em particular pela

    recente Gramtica Discursivo-Funcional (GDF) (Hengeveld e Mackenzie 2008). Da

    GDF mutuada a convico de que a componente gramatical da linguagem, que

  • 2

    organiza o material lingustico em enunciados, interage de forma sistemtica (e

    previsvel) com as componentes conceptual (compreendendo as intenes

    comunicativas do locutor e a sua representao mental do estado de coisas relevante) e

    contextual (incluindo o conhecimento partilhado Common Ground e as relaes entre os participantes no evento comunicativo), de tal maneira que as duas funcionam,

    embora de modo distinto, como inputs para a gramtica. Todo o elemento

    (morfolgico, sintctico e fontico) da forma final dum enunciado est, portanto, numa

    relao precisa de correspondncia quer com elementos que pertencem s intenes

    comunicativas e s representaes contidas na componente conceptual, quer, por outro

    lado, a determinados factores do contexto extra-lingustico.

    O mtodo que seguirei (apresentado no captulo 3) consiste justamente na

    verificao daquelas correspondncias. Por este meio tentarei chegar a uma

    classificao dos possveis valores do futuro do Italiano e do Portugus, classificao

    que ser baseada na seguinte assuno fundamental:

    s o valor ou valores cuja emergncia no dependa de condies lingusticas e pragmticas particulares podem ser considerados significados gramaticais de

    uma forma verbal.

    Ou seja, o futuro do indicativo poder ser considerado uma verdadeira marca

    morfolgica associada a determinadas categorias gramaticais apenas se os valores em

    causa puderem surgir (i) em qualquer contexto de enunciao ou tipo de texto e (ii) em

    qualquer contexto lingustico, i.e., independentemente do tipo de sujeito e de

    predicado, do tipo de construo sintctica, da presena de outras especificaes dadas

    na frase, etc.

    O trabalho est organizado da seguinte maneira: no captulo 1 introduzirei alguns

    aspectos fundamentais para a caracterizao do futuro enquanto categoria cognitiva e

    lingustica. Na seco 1.1 referirei alguns dados translingusticos que reflectem de

    maneira significativa a ambiguidade categorial dos tempos futuros e na seco 1.2

    sero apresentados os principais instrumentos tericos de que me servirei na anlise

    das categorias de tempo e de modalidade. No captulo 2 retomarei o problema do

    estatuto terico do futuro como categoria translingustica, e discutirei a gnese e a

    evoluo do futuro romnico, aprofundando em particular a questo do surgimento do

    seu valor temporal. Para tal, apresentarei uma comparao das anlises de Fleischman

    (1982) e de Bybee et al. (1994), obras de diferente natureza (language-specific a

  • 3

    primeira, tipolgica a segunda), que exibem contrastes interessantes, mas tambm

    significativas analogias. No captulo 3 discutirei algumas propostas de classificao

    dos valores do futuro romnico avanadas na literatura, com o objectivo de chegar a

    uma primeira caracterizao destes valores em funo das categorias de tempo e de

    modalidade. A estes dois critrios ser acrescentado o da fora ilocutria, em relao

    ao qual os vrios usos do futuro sero tambm classificados. No captulo 4 passarei

    anlise propriamente dita, que ser conduzida aplicando uma perspectiva de inspirao

    funcionalista, elaborada ao longo da investigao, a ser apresentada na primeira seco

    do captulo. Finalmente, as concluses do estudo sero apresentadas no captulo 5.

    A maioria dos exemplos considerados nesta dissertao foi expressamente

    fabricada, enquanto outros so retirados da literatura e outros ainda so dados reais do

    Italiano e do Portugus (a fonte de cada exemplo ser indicada junto ao mesmo).

  • 4

  • 5

    1 O FUTURO E AS LNGUAS NATURAIS

    1.1 SOBRE A NATUREZA DO FUTURO

    1.1.1 Diferena epistemolgica entre o futuro e o passado ou o presente

    Nos estudos dedicados aos meios lingusticos de expresso da referncia temporal

    futura, quase um lugar comum citar-se o carcter assimtrico da segmentao da

    linha do tempo que operada pela mente humana. Do ponto de vista cognitivo, a

    categoria de futuro ope-se s de passado e de presente, na medida em que se, por um

    lado, os acontecimentos e estados de coisas passados podem ser reportados pela

    memria com alguma exactido e os presentes podem ser directamente constatados

    (cf. Ronconi 1959:90, Dahl 1999: 309), por outro lado

    Non si pu avere conoscenza certa intorno agli eventi che appartengono al

    dominio del futuro. (Renzi e Salvi 1991: 115)

    A esta dissimetria refere-se explicitamente Benveniste (1965: 76, apud Fleischman

    1982: 23), segundo o qual o futuro

    nentre pas dans le champ de notre exprience et [...] ne se temporalise quen tant

    que prvision dexprience. La langue met ici en relief une dissymtrie qui est dans

    la nature ingale de lexprience.

    Tambm para Palmer (1986: 62) the future is not fully known (mas, continua o

    autor, it is a reasonable assumption that it will ensue). De igual modo Comrie (1985:

    43) observa que o futuro (sempre enquanto noo abstracta, entidade cognitiva)

    necessarily more speculative do que o passado, que o autor considera more definite

    than future (ib.: 44).

    Em suma, o futuro costuma ser visto por filsofos e linguistas como algo mais

    irreal do que o passado e o presente. Uma potencial consequncia extrema desta

    considerao mencionada por Lyons (1977: 815):

    ... many philosophers would deny that we can make statements about the future at

    all, on the grounds that we cannot have knowledge, but only beliefs, about future

    world-states. What purports to be a statement describing a future event or state-of-

    affairs is therefore, of necessity, a subjectively modalized utterance: a prediction

    rather than a statement.

  • 6

    e Fleischman (1982: 20), que acrescenta:

    (...) future reality constitutes an epistemological paradox. What has yet to occur

    is by definition irrealis.

    1.1.2 Perspectiva convergente

    Apesar do consenso a respeito da diferena epistemolgica entre o futuro e o

    passado ou o presente, essa diferena no parece reflectir-se na anlise das lnguas

    naturais por parte dos autores referidos. Pelo contrrio, a perspectiva de tratar o futuro

    diferentemente do passado ou do presente contestada por Lyons e Fleischman. Nas

    palavras do primeiro:

    The speaker can treat the future as known, (...) whether he is epistemologically

    justified in doing so or not. (Lyons 1977: 815. Cf. Fleischman 1982: 20)

    De facto, os falantes podem apresentar como um facto uma situao que ainda no se

    verificou, i.e., podem simplesmente asserir uma proposio que descreve um evento ou

    outro estado de coisas do mundo real num momento posterior ao da enunciao.

    Quando a lngua dispe de um tempo futuro, aquela forma pode sempre ser utilizada

    para este fim. A mesma posio assumida por Bertinetto (1979: 78), que escreve:

    Le nostre assunzioni riguardanti un momento a venire rappresentano sempre (nel

    migliore dei casi) delle previsioni in attesa di conferma.1 Alcuni autori hanno

    addirittura voluto vedere in questa sfumatura [conjectura, previso] una

    caratteristica saliente di questo TV [Tempo Verbale]. Ma chiaro che il parlante

    pu anche manifestare la propria incrollabile convinzione circa lavverarsi dello

    stato di cose indicato.

    Retomando as palavras de Lyons referidas acima, Fleischman insiste na

    importncia da subjectividade dos falantes e cita a este propsito a posio de

    Weinrich (1970: 40), segundo o qual as lnguas naturais seriam completamente

    desinteressadas quer na realidade ou no realidade dos eventos, quer na sua colocao

    no continuum temporal. O importante seria s a maneira como o locutor olha para o

    evento em questo; isto , a sua viso subjectiva daquele evento. Fleischman julga

    excessivamente drstica a afirmao de Weinrich, mas se a reporta porque uma

    1 Cf. Palmer (1986: 62), acima.

  • 7

    semelhante perspectiva pode ser til para revelar (e estigmatizar) o que considera ser o

    erro, bastante comum, daqueles autores que pretenderam encontrar uma perfeita

    coincidncia entre tense, ou seja, a categoria gramatical de tempo, e o tempo enquanto

    categoria da experincia e da representao do mundo humanas. Referindo-se a esta

    perspectiva na anlise do tempo lingustico, a autora considera que

    too often in attempts to reconcile time and tense the focus is exclusively on

    sequence of events in real time, while the crucial role of speakers perspective is

    neglected (Fleischman 1982: 20-21).

    1.1.3 O futuro nas lnguas do mundo

    No obstante a razoabilidade da ideia de que as lnguas naturais podem tratar a

    referncia temporal no futuro a par da referncia temporal no passado ou no presente, a

    observao de lnguas gentica e tipologicamente heterogneas mostra que as lnguas

    naturais reflectem de alguma forma a natureza desigual da experincia de que fala

    Benveniste (1965) a respeito da noo de tempo. o que mostram os dados que se

    seguem, identificados por diferentes autores, que parecem ter a sua razo de ser

    precisamente na referida caracterstica assimetria cognitiva:

    As lnguas em que a principal distino temporal a que ope o futuro ao no-futuro so muito mais raras do que aquelas em que central a distino entre

    passado e no passado (cf. Fleischman 1982: 22, Comrie 1985: 49); e dentro

    deste ltimo grupo (que compreende todas as lnguas da famlia indo-europeia),

    um nmero relevante de lnguas no tem um paradigma explcito para o

    futuro (Fleischman 1982: 22), ou seja, no tem formas dedicadas expresso

    da referncia temporal futura. Assim, as lnguas que possuem algo que possa

    razoavelmente ser descrito como um tempo futuro acabam por representar

    uma percentagem relativamente pequena das lnguas do mundo (ibid.,

    tradues e nfases minhas; cf. tambm Dahl 1999: 314: whereas more or less

    developed future grams are very common in languages, full grammaticalization

    is less common);

    Nas lnguas em que semelhante forma ou paradigma existam, a gama das relaes temporais que podem expressar geralmente mais restrita do que a que

    coberta pelo paradigma do passado (Ultan 1978, Fleischman 1982, Comrie

  • 8

    1985). Concretamente, enquanto muitas lnguas tm um futuro retrospectivo

    (= futuro perfeito) (...) explcito, poucas tm um futuro prospectivo

    (Fleischman 1982: 162, trad. minha).

    As lnguas que distinguem gramaticalmente diferentes graus de distncia temporal no passado so muito mais numerosas do que as que realizam a

    mesma distino para o futuro (Comrie 1985, Bybee et al. 1994: 247).

    Aparentemente, todos os futuros conhecidos podem tambm expressar valores relativos s categorias de aspecto e (sobretudo) de modalidade, alm da de

    tempo (cf. Lyons 1977: 816; Fleischman 1982: 84). Em particular, possvel

    que uma forma de futuro altamente gramaticalizada seja usada com referncia

    temporal no futura, expressando um valor modal epistmico (cf. Bybee et al.

    1994: 202 e tambm Lyons 1968, 1977, Ultan 1978, Coates 1983, Comrie

    1985, Palmer 1986, Bybee e Pagliuca 1987 e Bybee e et al. 1991, entre outros).

    Embora nenhum dos autores consultados o afirme explicitamente, a diversidade

    de valores no temporais (sobretudo valores modais) parece ser mais restrita

    quando se consideram morfemas de tempo que expressam referncia temporal

    passada ou presente.

    Este ltimo ponto especialmente importante para a finalidade desta dissertao,

    no que comea a revelar um aspecto das formas gramaticais de futuro que constitui

    provavelmente o problema crucial para a sua categorizao. A questo sintetizada de

    maneira clara por Dahl (1999: 313):

    A central issue in the controversy about the theoretical status of future grams

    concerns the distribution of labor between temporal, modal, and aspectual elements

    in their meaning and whether to subsume them under the traditional categories of

    tense, mood/modality or aspect. 2

    Como se ver, para o futuro sinttico romnico a ambiguidade categorial envolve

    essencialmente as categorias de tempo e de modo. Como notrio, a interaco destas

    duas categorias extremamente comum numa grande variedade de lnguas, e no diz

    respeito apenas aos morfemas de tempo com referncia temporal futura; mas ao

    observar-se este tipo de morfemas que a relao entre as duas categorias parece

    2 De salientar que esta considerao tem carcter geral, e no se refere apenas a lnguas flexionais, para as quais o cmulo de informao gramatical num mesmo morfema , por definio, o trao distintivo.

  • 9

    particularmente estreita e sistemtica. A este propsito, vale a pena salientar mais um

    dado translingustico:

    Nas lnguas em que existe uma oposio modal realis/ irrealis, a referncia temporal futura normalmente expressa pelo morfema do irrealis (Palmer

    1986: 124. Veja-se tambm Comrie 1985: 50-52).

    A situao descrita por Dahl (1999) justifica-se pelas evolues diacrnicas dos

    morfemas de futuro (pelo menos num grande nmero de lnguas3) e pelos

    caractersticos processos associados. A este propsito, Ultan (1978: 114, apud

    Fleischman 1982: 23) define uma gama restrita de categorias semnticas (de

    natureza no temporal) que mais tipicamente tendem a evoluir para morfemas

    dedicados expresso da referncia temporal futura. Esta gama compreende:

    (i) marcas de aspecto inceptivo ou incoativo;

    (ii) operadores modais que expressam principalmente valores de obrigao,

    volio e uncertainy or unreality;

    (iii) vrios goal-oriented types, basicamente espaciais.

    A relao conceptual entre a ideia de futuro e as noes aspectuais e modais

    referidas por Ultan bastante evidente (para uma considerao sobre o assunto, veja-se

    Fleischman 1982: 28-30). De facto, penso poder-se afirmar que, no fundo, s podemos

    conceber estados de coisas futuros como desenvolvimentos de estados de coisas

    presentes da a ligao com o aspecto incoativo/inceptivo ,4 ou ento em funo do

    que, no momento de enunciao, consideramos logicamente, fisicamente, socialmente,

    moralmente (etc.) necessrio, possvel ou impossvel, quer se trate dos nossos desejos

    ou receios, das nossas expectativas, hipteses ou (nel migliore dei casi) previses

    i.e., numa palavra, em funo de noes que so tradicionalmente conduzidas

    categoria de modalidade.Quanto relao entre a ideia de movimento no espao e a de

    tempo, bvia. Por definio, o tempo nunca pra, mas est constantemente em

    movimento.5 Por outro lado, ser oportuno recordar que em Portugus (tal como em

    3 Dahl considera as lnguas europeias, indo-europeias ou no, e em Bybee et al. so tidas em conta mais de 70 lnguas. 4 Mas tambm com os valores aspectuais prospectivo (Fleischman veja-se 2.3.1.3, abaixo) e progressivo e com outras possveis fontes (sources) de morfemas do futuro indicadas por Bybee et al. (1994) cf. 2.1 como os tempos presentes. 5 Para uma considerao aprofundada desta questo veja-se Fleischman (1982: 78-80).

  • 10

    Espanhol e em Francs, mas no em Italiano), existe um futuro perifrstico formado

    pelo verbo auxiliar ir seguido do verbo principal no infinitivo.6 7

    Feita esta sntese sobre a referncia temporal futura, passarei agora apresentao

    das principais ferramentas tericas de que me servirei ao longo da dissertao.

    1.2 TEMPO, ASPECTO, MODALIDADE E ILOCUO NAS

    LNGUAS NATURAIS

    1.2.1 Tempo

    A maioria das anlises modernas da expresso lingustica da noo de tempo so

    baseadas na teoria bidimensional do tempo de Reichenbach (1947). Para estas teorias

    so sempre relevantes trs intervalos de tempo: o momento do evento E, o da

    enunciao S e o ponto de referncia temporal R (redefinido em Kamp e Reyle 1993

    como Ponto de Perspectiva Temporal). Qualquer forma verbal pode ser caracterizada

    de acordo com dois critrios: a relao entre S e R, que pode ter os valores de passado

    (R

  • 11

    Reichenbach, a opinio dominante na literatura mais recente a de que um ponto de

    referncia futuro pode existir e ser codificado gramaticalmente nas lnguas naturais.

    o que se verifica nas lnguas romnicas, que reservam expresso da relao temporal

    S

  • 12

    interaco do futuro do indicativo com localizadores temporais explcitos (lexicais e

    oracionais) e os que so expressos pela forma do futuro perfeito.

    1.2.2 Aspecto

    Teorias do tempo como as de Reichenbach ou Kamp e Reyle subsumem a principal

    distino aspectual, entre perfectum e infectum, e tratam outros valores, como os de

    incoativo, progressivo, egressivo, iterativo, resultativo, etc., como operaes que se

    aplicam aos valores temporais de base. O aspecto enquanto categoria gramatical

    expressa pela flexo verbal no objecto de estudo especfico neste trabalho (com a

    parcial excepo do captulo 2, no qual, ao discutir a evoluo diacrnica do futuro

    sinttico romnico, teremos que tomar em considerao alguns dos valores aspectuais

    que, segundo muitos autores, os morfemas verbais expressam por si). Em vez disto,

    tornar-se- relevante, no captulo 4, a classificao das situaes em relao

    propriedade comummente referida na literatura com o termo alemo Aktionsart ou

    ainda como aspecto lexical ou classe aspectual dos predicados , propriedade cuja

    interaco com as operaes fundamentais de localizao temporal produz leituras

    diferentes consoante o tipo de situao descrita. Vrias classificaes foram propostas,

    tendo por base a de Vendler (1967), nas quais os traos proeminentes na definio da

    estrutura temporal interna das situaes so os de extenso temporal (situaes

    pontuais vs. no pontuais), telicidade (situaes tlicas vs. atlicas) e grau de

    homogeneidade (situaes homogneas, relativamente homogneas e no

    homogneas). Para as finalidades especficas desta dissertao, ser necessrio ter em

    considerao apenas o trao [ estativo], que ope os estados (situaes atlicas,

    homogneas e no pontuais) s restantes classes aspectuais de predicados (i.e., nos

    termos de Moens 1987, processos, processos culminados, culminaes e pontos).

    1.2.3 Modalidade

    Das categorias consideradas nesta seco, a de modalidade a que est menos

    univocamente identificada na literatura, tanto que a prpria definio de modalidade

    como categoria gramatical no consensual. No presente trabalho, a modalidade ser

    tratada como uma categoria gramatical de pleno direito, posio que se justifica quer

    no plano tipolgico (a modalidade expressa gramaticalmente em muitas lnguas do

  • 13

    mundo), quer do ponto de vista estrutural (os meios de expresso da modalidade

    tendem a constituir paradigmas definidos, inclusive nas lnguas que no a expressam

    gramaticalmente, ou que o fazem s em parte) cf. Palmer (1986: 1-7).

    De um ponto de vista meramente lgico, a modalidade diz respeito essencialmente

    s expresses que envolvem as noes de necessidade e possibilidade, nos vrios

    domnios em que estas se podem aplicar (cf. Lyons (1977: 787-793). Em lingustica,

    foram propostas vrias abordagens, muitas das quais compreendem reas semnticas

    que transcendem estas duas noes fundamentais (embora todos os modelos

    reconheam a relevncia, ao falar-se de modalidade, dos contrastes de grau que

    naquelas noes so implcitos), e chegam nalguns casos a incluir no domnio da

    modalidade categorias como as de tempo, negao ou causalidade (cf. Rescher 1968,

    Halliday 1994, 2004), ou a sobrepor amplamente o conceito de modalidade com o de

    ilocuo (cf. Jespersen 1924).

    Uma apresentao esquemtica e uma reviso das principais abordagens anteriores

    encontra-se em Palmer (1986). Segundo este autor, a modalidade pode ser definida

    como the grammaticalization8 of speakers (subjective) attitudes and opinions e,

    acrescenta o autor, it could even be further argued that subjectivity is an essential

    criterion for modality. Porm, segundo outros autores (Lyons 1977, em primeiro

    lugar), a modalidade no necessariamente subjectiva, mas pode tambm consistir da

    expresso de um ponto de vista mais objectivo em relao a uma proposio ou

    situao que uma proposio descreve. Este ponto de vista, que toma em considerao

    o alvo da avaliao modal, retomado na Gramtica Funcional e, ainda no quadro

    funcionalista, por Hengeveld (2004), que distingue uma terceira orientao possvel

    para as expresses modais a orientao para um participante na situao descrita.

    Alm da questo da subjectividade, outro elemento importante da caracterizao

    das expresses modais o da modificao que estas operam sobre a proposio em que

    ocorrem. Este aspecto foi salientado j por Rescher (1968) que no fala em

    modificao da proposio, mas sim em further qualification e aparece em vrios

    autores mais recentes. O conceito, por si bastante vago, retomado e esclarecido por

    Hengeveld (2004), cuja abordagem modalidade tem indubitavelmente o mrito de

    distinguir de maneira inequvoca esta categoria semntica da categoria morfolgica de

    modo, definindo ao mesmo tempo a relao da primeira com a categoria pragmtica de

    8 O termo no usado, aqui, na acepo diacrnica que receber no captulo 2 desta tese.

  • 14

    ilocuo. De acordo com Hengeveld, o modo compreende todos aqueles elementos

    gramaticais que operam sobre uma situao ou proposio de tal maneira que a sua

    funo no a de situar essa situao ou proposio no mundo real as conceived by

    the speaker. Ou seja, todas as formas que so tradicionalmente referidas categoria

    de modo servem para uma das duas seguintes funes: marcar o acto de fala realizado

    pelo enunciado ou modificar o contedo do acto de fala. A primeira funo

    corresponde expresso da ilocuo, a segunda da modalidade. O modelo de

    Hengeveld (2004) oferece um paradigma de definies claras e precisas para os

    valores modais possveis nas lnguas do mundo, e ser portanto aplicado

    sistematicamente na presente dissertao para caracterizar os valores modais

    expressos, nos seus vrios usos, pelo futuro sinttico do Portugus e do Italiano. Por

    isso, apresento-o brevemente no fim desta subseco.

    A oposio bsica identificada por Lyons (1977: 17) entre modalidade

    epistmica relativa caracterizao de uma proposio em termos de conhecimentos

    ou crenas (p. 793) e dentica concerned with the necessity or possibility of acts

    performed by morally responsible agents (p. 823) reelaborada, em vrias fases,

    por Palmer (1979, 1986). O autor (1986) compreende na modalidade epistmica as

    formas evidenciais, sendo modalidades denticas todas aquelas que, nos termos de

    Jespersen (1924), contm um elemento de volio, i.e., alm da modalidade dentica

    propriamente dita, a volitiva, a avaliativa (cf. Rescher 1968, que designa a primeira por

    bulomaica) e a compromissiva (que, a partir de Searle 1969, mais comummente vista

    como um tipo de acto ilocutrio). Na mesma categoria, Palmer (1986) inclui tambm a

    modalidade dinmica, que em 1979 o autor defendia formar com a dentica a classe

    das event modalities, e que subdividia em modalidade dinmica orientada para o

    sujeito e modalidade dinmica neutral, conforme a realizao da situao descrita

    dependa de um participante ou de circunstncias externas a este ltimo. Numa fase

    posterior (1986: 103), Palmer frisa a hiptese de deixar o primeiro tipo de modalidade

    dinmica (mais frequentemente referido na literatura como ability, capacidade) fora

    da classificao das modalidades, por este valor no ter qualquer relao com as

    opinies ou atitudes do enunciador.

    Das categorias deifnidas por Palmer, Hengeveld considera as modalidades

    epistmica, dentica, volitiva, facultativa (designao equivalente de dinmica,

    segundo a terminologia de Goossens 1985) e evidencial, categorias que,

    contrariamente a Palmer, trata como hierarquicamente equipolentes; ou seja, nenhuma

  • 15

    delas constitui uma subcategoria de uma outra. A existncia destes tipos de

    modalidade como categorias independentes demonstrada pelo facto de todas elas

    serem expressas por formas gramaticais reservadas em vrias lnguas do mundo

    (embora com frequncias diferentes).

    Os cinco tipos de modalidade considerados constituem nos termos de

    Hengeveld o domain of [modal] evaluation (mais ou menos equivalente noo de

    modal base de Kratzer (1981)); o segundo parmetro considerado o target, i.e., o

    alvo da avaliao modal. Como se disse acima, segundo Hengeveld a avaliao

    expressa pode ter trs valores em relao a este segundo parmetro: pode ser orientada

    para a proposio, para a situao descrita (event) ou para um participante. Porm ao

    cruzar os dois parmetros, o autor nota que nem todas as 15 combinaes teoricamente

    possveis so efectivamente realizadas nas lnguas naturais. O quadro abaixo resume a

    situao apresentada por Hengeveld:

    Orientao

    Domnio

    Paticipante Evento Proposio

    Facultativo + +

    Dentico + +

    Volitivo + + +

    Epistmico + +

    Evidencial +

    Quadro 1: Classificao dos tipos de modalidade em Hengeveld (2004)

    A modalidade facultativa orientada para o participante corresponde modalidade

    dinmica orientada para o sujeito de Palmer (1979), e a orientada para o evento

    neutral.

    A modalidade dentica orientada para o participante diz respeito obrigao ou

    permisso de um indivduo especfico de participar na situao descrita; a orientada

    para o evento refere-se ao que genericamente permitido ou obrigatrio em relao a

    um dado aparato de convenes sociais, legais, morais, etc.

    A modalidade volitiva orientada para o participante descreve este ltimo como sendo a

    fonte (source) do desejo de (no) participar numa situao; a orientada para o

    evento, como nos casos anteriores, tem um sentido mais genrico, caracterizando a

  • 16

    situao descrita em termos do que geralmente desejvel (trad. minha); a orientada

    para a proposio descreve a volio do enunciador.

    A modalidade epistmica orientada para o evento coincide com a modalidade

    epistmica objectiva de Lyons (1977), e caracteriza os estados de coisas em termos da

    (im)possibilidade da sua ocorrncia em relao ao que se sabe sobre o mundo. As

    formas modais deste tipo distribuem-se principalmente segundo a oposio

    paradigmtica realis / irrealis (e podem tambm ser concebidas como marcas

    gramaticais da (in)actualidade dos estados de coisas); este tipo de modalidade

    epistmica no expressa qualquer elemento de subjectividade do enunciador, funo,

    essa, que prpria das modalidades orientadas para a proposio. Para a modalidade

    epistmica orientada para a proposio, Hengeveld distingue trs valores principais: o

    doxstico, que corresponde expresso da atitude que noutras abordagens designada

    por probabilidade, o dubitativo, correspondente a um baixo grau de crena, por parte

    do locutor, na verdade da proposio expressa, e o hipottico, com o qual o enunciador

    no se compromete de maneira nenhuma com a verdade da proposio.

    Por fim, as formas evidenciais, que s podem ser orientadas para a proposio,

    atribuem a proposio expressa a uma fonte de informao distinta do enunciador. A

    respeito da evidencialidade no seguirei sempre Hengeveld (2004), j que nos

    captulos 4 e 5 esta ser vista como uma categoria gramatical distinta e no como um

    tipo de modalidade (alis, o prprio autor abandona esta concepo da evidencialidade

    em escritos posteriores, cf. 3.2.1.2).

    1.2.4 Ilocuo

    Finalmente, ao lado do tempo e da modalidade, uma terceira categoria a ser

    utilizada como critrio de classificao dos usos do futuro sinttico em Portugus e em

    Italiano a de acto ilocutrio, para a qual tambm no adoptarei a abordagem de

    Hengeveld (2004), mas sim a mais tradicional taxonomia de Searle (1979), que

    apresento resumidamente de seguida.

    Searle reconhece os seguintes actos ilocutrios.

    Assertivos: so realizados por enunciados que servem para descrever estados de coisas do mundo (i.e., as palavras ajustam-se ao mundo), e

  • 17

    atravs dos quais, dada a condio de sinceridade, o enunciador se

    compromete com a verdade da proposio (ou proposies) expressa(s).

    Directivos: so realizados por enunciados atravs dos quais o enunciador tenta que o destinatrio realize alguma aco no futuro (i.e., tenta fazer

    com que o mundo se ajuste s suas palavras); no podem ser avaliados

    em termos de verdade da proposio expressa; dada a condio de

    sinceridade, o interlocutor infere uma orientao volitiva positiva, por

    parte do enunciador, para com a realizao do(s) estado(s) de coisas

    indicado(s).

    Compromissivos: o enunciador compromete-se a realizar uma aco no futuro (i.e., a fazer com que o mundo se ajuste s suas palavras); no

    podem ser avaliados em termos de verdade da proposio expressa;

    comunicam a inteno do falante de participar na situao indicada.

    Expressivos: dada a condio de sinceridade, o enunciador expressa a prpria atitude avaliativa (seja ela qual for) a propsito de uma situao

    realizada; portanto, a verdade da proposio expressa pressuposta.

    Declarativos: so realizados por enunciados atravs dos quais o locutor efectua uma aco no mundo, o que, por si, garante a verdade da

    proposio expressa (haver ento, ao mesmo tempo, ajuste das

    palavras ao mundo e do mundo s palavras); no comunicado

    qualquer estado psicolgico para com a situao indicada ou com a

    proposio expressa.

    Uma pequena reviso taxonomia de Searle, sugerida por Ramos (2009) e

    aplicada nesta dissertao, ser introduzida em 3.3.1.

  • 18

  • 19

    2 GNESE E DESENVOLVIMENTO DO FUTURO DO

    INDICATIVO

    Apresenta-se neste captulo uma sntese das principais propostas feitas na

    literatura sobre a origem e o desenvolvimento do futuro sinttico nas lnguas

    romnicas. No que respeita a este tema, ocupam lugar de destaque as anlises de

    Bybee et al. (1994) e de Fleischman (1982), cujas ideias principais sero aqui

    consideradas e discutidas. Pontualmente, ser feita referncia tambm a outros autores

    que se ocuparam do mesmo tema.

    Em trabalhos tipolgicos sobre o futuro, como os de Dahl (1985, 1999), Bybee e

    Pagliuca (1987), Bybee et al. (1991, 1994) e Fleischman (1982), a anlise no est

    limitada s formas que so comummente reconhecidas como tempos futuros

    plenamente gramaticalizados. Antes se toma em considerao todas as formas

    gramaticais que, nas vrias lnguas consideradas, tm pelo menos um uso em que

    expressam referncia temporal futura. Os tipos lexicais e gramaticais indicados como

    possveis fontes para os morfemas do futuro do indicativo nestes estudos so

    substancialmente os mesmos que j tinham sido destacados por Ultan (1978), embora

    com alguns acrscimos, que sero referidos adiante.

    Todos estes autores destacam o carcter universal dos padres (os termos ingleses

    utilizados so patterns ou paths) diacrnicos, de nmero limitado, que so revelados

    pela evoluo das formas de futuro em famlias lingusticas variadas9. Todos estes

    diferentes caminhos para a futuridade10 consistem em vrias passagens semnticas,

    que em fases anteriores emergncia do valor temporal envolvem significados modais

    e/ou de cariz aspectual. Estas passagens entre valores de diferente natureza devem ser

    entendidas em primeiro lugar como relaes sincrnicas. Tais relaes podem ser de

    tipo abstracto, como o so as metforas baseadas nalguma analogia de tipo

    puramente lgico ou conceptual entre noes pertencentes a domnios diferentes por

    exemplo, possvel que a ligao entre o movimento dos objectos no espao e a

    sucesso dos eventos no tempo seja estabelecida atravs de uma metfora11, uma ideia

    9 Sobre a universalidade dos padres de gramaticalizao, veja-se Traugott (1982), Hopper e Traugott (1993, 2003). 10 Fleischman (1982: 16) define futurity como a relao temporal S

  • 20

    muito popular em estudos sobre metfora em Lingustica Cognitiva , mas tambm se

    pode tratar de relaes entre situaes, criadas pelas implicaturas associadas ao uso de

    uma forma em contextos especficos (uma questo que ser retomada em 2.1). Do

    ponto de vista diacrnico, com a progressiva generalizao de um determinado valor (e

    a eliminao de outros), podemos considerar as ditas relaes como as pontes entre

    duas etapas sucessivas de um processo de mudana gramatical12.

    Nas seces que se seguem, referirei alguns aspectos das anlises de Bybee et al.

    (1994: 7) e Fleischman (1982), e discutirei em particular duas questes bastante

    problemticas: a do estatuto terico do futuro enquanto categoria translingustica e a

    do surgimento do valor de futuridade na perfrase que originaria a forma sinttica

    romnica.

    2.1 PADRES EVOLUTIVOS DO FUTURO NAS LNGUAS

    NATURAIS

    Bybee et al. (1994: 244) consideram que os seguintes elementos so passveis de

    vir a ter pelo menos um emprego de futuro: (i) verbos de movimento; (ii) marcas de

    modalidade; (iii) advrbios de tempo; (iv) formas de presente; (v) formas aspectuais

    com valor progressivo, (vi) formas com valor imperfectivo (mais raramente) ou (vii)

    com valor perfectivo (excepcionalmente). Os futuros que tm origem lexical ou modal

    (i) a (iii) so designados por estes autores como primary futures, enquanto os derivados de um presente ou de uma marca de valor aspectual (iv)-(vii) so agrupados sob a etiqueta aspectual futures.

    de salientar que s a evoluo dos futuros primrios pode ser descrita como

    um caso de gramaticalizao na acepo tradicional (veja-se Meillet 1912), e mais

    estrita, do termo.13 Nestes casos o que acontece que uma nova forma criada (por

    assim dizer, ex novo) a partir de um elemento lexical e integrada no paradigma verbal,

    emergindo as an evolutionary endpoint in the unfolding development of originally

    lexical material (Bybee et al. 1994: 275).

    12 Veja-se o 8 de Bybee et al. (1994) Mechanisms of Semantic Change para uma classificao e discusso dos tipo de relaes sincrnicas que podem funcionar como foras motrizes da mudana diacrnica. 13 Vejam-se Kurylowicz (1965) Traugott (1982), Hopper e Traugutt (1993, 2003) para uma viso mais recente (e abrangente) do processo, que permite tratar tambm a evoluo dos futuros aspectuais como um caso de gramaticalizao.

  • 21

    Os autores mostram que s os futuros deste tipo entre os quais deve ser

    classificado o futuro sinttico romnico chegariam, em determinado ponto da sua

    evoluo, a ter o temporal como nico valor. Pelo contrrio, no caso dos futuros

    aspectuais a referncia temporal futura surge sempre as a contextually determined

    use14 (ibid.) de uma forma verbal j fortemente gramaticalizada com outro ou outros

    valores. Do ponto de vista diacrnico, trata-se de um fenmeno de catacrese, uma vez

    que se trata sempre de formas verbais pr-existentes que, a partir de dada altura,

    assumem um valor que antes no podiam expressar.

    Um dos aspectos da anlise de Bybee et al. que considero particularmente

    atractivo o estabelecimento de um claro princpio de correspondncia entre a

    evoluo morfolgica dos diferentes tipos de futuro15 e a questo semntica da sua

    (in)dependncia do contexto no que diz respeito possibilidade de a forma verbal ser

    portadora de informao temporal. Ou seja, observam uma correspondncia entre a

    origem histrica de uma forma e a (im)possibilidade de esta funcionar como marca de

    futuridade. Os autores individualizam uma sequncia precisa de pocas semnticas

    para os futuros (ou Futages, p. 279), supostamente universais, atravs das quais

    passaria a evoluo dos meios de expresso da referncia temporal futura. Cada uma

    dessas fases seria caracterizada por determinados valores semnticos e corresponderia

    a um diferente grau de gramaticalizao da forma. Naturalmente, os efeitos formais da

    gramaticalizao dependem das caractersticas tipolgicas da lngua. Apresenta-se de

    seguida a sequncia de fases evolutivas proposta por estes autores para a expresso de

    futuro nas lnguas naturais.

    Segundo Dahl (1985), as noes centrais na expresso da referncia temporal de

    futuro so as de inteno e de predio. Tambm num texto posterior (Dahl 1999),

    o mesmo autor considera que a distino cognitiva de base para os eventos futuros

    entre intention-based e prediction-based future time reference. O autor afirma que

    Wheter FTR [= Future Time Reference] is overtly and obligatory marked in

    prediction-based sentences can be used as one of the major criteria for whether it is

    grammaticalized in a language or not (Dahl 1999: 310, meu sublinhado).

    14 Os autores fazem esta observao a respeito dos (raros) usos como futuro de formas originalmente perfectivas e imperfectivas, mas pode ser estendida aos futuros derivados de formas do presente o tipo mais representado, de entre os aspectuais , visto que the form would be interpreted as indicating present if no future reference is estabilished by the context. (ibid.). 15 Admitindo que todos os aspectual futures possam efectivamente ser assim classificados.

  • 22

    Bybee e Pagliuca (1987) e Bybee et al. (1991, 1994) concordam com Dahl (1985) quer

    no indicar a inteno e a predio como valores principais das formas de futuro, quer

    no atribuir uma particular prioridade noo de predio, que vista como defining

    sense of a future gram (p. 202):

    The basic sense of future is prediction, which has the whole proposition in its

    scope. (Bybee et al. 1994: 185)

    We regard the focal use of future as equivalent to a prediction on the part of the

    speaker that the situation in the proposition, which refers to an event taking place

    after the moment of speech, will hold. (Bybee e Pagliuca 1987, apud Bybee et

    al. 1994: 244)

    Na prtica da interaco lingustica, a localizao explcita de uma eventualidade

    num momento posterior ao da enunciao atravs de um future gram altamente

    gramaticalizado ou de outra marca de futuridade corresponde frequentemente aos

    actos de efectuar uma predio ou de exprimir uma inteno (geralmente por parte

    do enunciador) (Bybee et al 1994: 280, traduo minha). Uma vez que estas funes

    expressivas so inferidas a partir do que dito, Bybee et al. consideram que o

    significado dos future grams criado por estas inferncias. Isto faria do futuro uma

    categoria semelhante s modalidades agent-oriented e epistmica, mas com

    importantes implicaes temporais, mais do que uma categoria propriamente

    temporal (ibid.).

    A centralidade das funes de inteno e predio manifesta-se, segundo Bybee et

    al. (ibid.: 279-280), na evoluo diacrnica das formas de futuro. Estes dois valores

    caracterizariam, respectivamente, os Futages 2 e 3, estdios evolutivos que uma

    forma deve ter atingido para se poder consider-la um futuro gramaticalizado. Os

    autores defendem que todos os paths diacrnicos reconhecidos para a

    gramaticalizao do futuro, independentemente de a origem da forma ser lexical,

    modal ou aspectual, convergem rapidamente numa fase em que a forma tipicamente

    utilizada, em certos contextos, para expressar a inteno. A forma comea, portanto,

    por aparecer em enunciados que implicam uma inteno por parte do falante (p. 254,

    traduo e nfases minhas)16 ou seja, nesta altura o significado de inteno no seria

    16 Em particular com sujeito de primeira pessoa, a inteno de participar na aco frequentemente implicada pela expresso de valores modais agent-oriented como os de desejo, obrigao ou capacidade. Veja-se, para a obrigao, o seguinte exemplo Ingls (em Fleischman 1982: 59): Later today? I have to go jogging at six [...]. Cf. Bybbe et al. (p. 287).

  • 23

    expresso morfologicamente pela forma em causa, mas seria inferido pelo ouvinte

    graas a um enriquecimento pragmtico e s numa segunda fase que este valor se

    torna parte do significado da forma; o seu uso generalizar-se- ento em novos

    contextos e em frases com sujeito gramatical com outra pessoa que no a 1.a,

    expressando as intenes do agent of the main verb (sic). A passagem semntica de

    inteno para predio (= futuro) realizar-se-ia atravs de uma segunda inferncia, que,

    desta vez, teria como caso prototpico o dos enunciados na 3. pessoa (p. 254). Em

    muitas situaes, o facto de o enunciador estar a asserir que outro indivduo tem a

    inteno de participar numa determinada eventualidade legitima o interlocutor a inferir

    que, no momento da fala, o enunciador est a efectuar a predio de que tal indivduo

    participar na dita eventualidade (cf. p. 288).17 O valor de inteno seria portanto the

    crucial bridge to prediction (pp. 279-80). Atingida esta fase do processo de

    gramaticalizao (Futage 3), as formas teriam simple future as their only meaning.

    Esta posio contrasta abertamente com a de Lyons (1977) e Fleischman (1982),

    que, como referido em 1.1.3, duvidam da existncia de futuros que no tenham outros

    empregos alm do temporal. No desenvolverei esta questo, uma vez que o seu

    interesse marginal para este trabalho. De facto, em relao sequncia de pocas

    que Bybee et al. defendem para a evoluo dos futuros, a forma sinttica romnica j

    teria ultrapassado o estdio em causa h muito tempo, encontrando-se actualmente no

    Futage 4, que caracterizado por usos modais epistmicos, speaker-oriented e

    subordinativos (Bybee et al., p. 279).18 O nascimento e evoluo diacrnica deste

    futuro sero considerados na prxima seco.

    2.2 ORIGEM DO FUTURO SINTTICO ROMNICO

    No que respeita semntica diacrnica do futuro sinttico romnico, foram

    apresentadas na literatura diversas hipteses sobre o valor da perfrase latina infinitivo

    + habeo, que esteve na origem do futuro do indicativo das lnguas romnicas.

    Comearei por apresentar e discutir a sugesto de Benveniste (1965), retomada por

    Bybee et al. (1994), de que esta perfrase tinha um significado de predestinao, 17 Condio necessria para que uma inferncia se generalize at ao ponto de desencadear um fenmeno de mudana semntica e gramatical que aquela inferncia seja acessvel em situaes (por assim dizer) standard, nas quais nenhuma mxima conversacional violada, particularmente a de qualidade. 18 Alis, como se ver, h plena concordncia entre os autores sobre o facto de os valores modais que aparecem em fases tardias do processo serem desenvolvimentos autnomos do uso de simple future (ou futurity, em Fleischman).

  • 24

    aps o que considerarei a hiptese mais comum de que a perfrase tinha um significado

    de obrigao. Por fim, considerarei a hiptese de Bourova e Tasmowski (2007) que

    relaciona a perfrase em causa com a interpretao altica.

    2.2.1 A hiptese da predestinao

    Bybee et al. (1994) acolhem a hiptese de Benveniste (1965) de que a perfrase

    infinitivo + habeo tivesse um significado de predestinao prximo do da construo

    inglesa be to + infinitivo, e no de obrigao, contrariamente ao que quase

    universalmente reconhecido na tradio dos estudos romanistas19. Este valor de

    predestinao estaria presente em frases como as seguintes:

    (1) Nazareus vocari habebat secundum prophetiam christus creatoris

    (Tertuliano, Adversus Marcionem, 4, 8, incios do sc. III d. C., apud

    Benveniste 1965: 90)

    (2) Orationem orate pr(o) me peccatorem ... quia cod estis fui et quod sum

    essere abetis (Inscrio crist, sc. VI ou VII, ibid.: 91)

    Segundo Bybee et al. (1994), a modalidade dentica s seria expressa pela

    construo com o auxiliar anteposto habeo (+ DE/ AD) + infinitivo , construo cujos descendentes romnicos conservam este significado original (cf. Port. hei-de +

    infinitivo; It. (ci) ho da + inf.) sempre que no representem o principal recurso

    gramatical para a expresso da referncia futura20. As duas variantes da perfrase

    representariam, portanto, dois distintos percursos (paths) evolutivos:

    infinitivo + habeo: posse > predestinao > inteno > futuro (predio) habeo + infinitivo: posse > obrigao > inteno > futuro (predio)21

    Em relao ao sistema de valores modais traado por Bybee et al. ( 6), a noo

    de destiny or what is to be vista como um sentido estreitamente relacionado com

    a obrigao (p. 186), ou seja, seria expresso de uma modalidade agent-oriented. De

    19 Cf. os clssicos Spitzer (1918), Rohlfs (1922) ou Lausberg (1971). 20 Os futuros analticos do tipo avere + a + infinitivo da Itlia meridional e insular so geralmente considerados tempos futuros de pleno direito (cf. Lausberg 1971 e Rohlfs 1970). 21 Estes percursos representam dois dos tipos universais que os autores sugerem, mas, no caso das lnguas referidas, s a perfrase com auxiliar posposto atingiria todos os estdios listados, tornando-se um future tense.

  • 25

    facto, ambos os valores podem ser concebidos como um vnculo participao na

    aco descrita, de maneira que, nos dois casos, os enunciados referem condies que

    governam o agente (p. 178, trad. minha).

    No que respeita predestinao, no me parece que fique bem esclarecido que

    natureza teria este vnculo, ou seja que tipo especfico de modalidade seria expressa22.

    Tendo em conta os tipos de modalidade identificados na literatura, creio que a nica

    noo com a qual aquele valor poderia, eventualmente, estar associado seria a de

    modalidade altica, categoria relativa necessidade e possibilidade de tipo lgico

    (uma abordagem deste tipo proposta por Borouva e Tasmowski 2007, cf. 2.2.3). Mas

    este tipo de modalidade, reconhecido por Von Wright (1951), Rescher (1968) e Lyons

    (1977) e explicitamente rejeitado por Palmer (1986: 11) , no sequer mencionado

    por Bybee et al. (1994). De qualquer forma, no me parece que se possa defender que

    o valor de predestinao seja equivalente ao de necessidade lgica. O fado no

    pode certamente ser definido como o que logicamente necessrio, pelo que o valor

    de predestinao no poderia ser classificado como altico.

    Mesmo assim, a respeito do emprego da perfrase no Latim tardio, a hiptese da

    predestinao no desprovida de algum fundamento, quer emprico (este sentido

    frequente a partir dos primeiros escritores cristos), quer terico, como se ver em

    2.2.3. Alis, como Bybee et al. (1994: 176-177) salientam, a sua anlise dos tipos de

    modalidade concebida essencialmente como a definio de um complexo de

    funes diacronicamente relacionadas (trad. minha); ou seja, por assim dizer, de uma

    rede de significados que so discutidos in terms of their progression on certain

    diachronic paths. O objectivo dos autores no o de oferecer uma caracterizao de

    todos os valores modais em termos das relaes de acessibilidade entre mundos

    possveis ou das operaes que realizam sobre o contedo proposicional, mas o de

    salientarem a sua tendncia para emergirem com regularidade em determinadas fases

    da evoluo das formas gramaticais. Assim, apesar de um valor como aquele a que

    chamam de predestination ser de problemtica classificao nas tipologias comuns de

    tipos de modalidade, os autores mostram que este valor pode tornar-se parte do

    significado gramatical de uma forma, como parece ser o caso do ingls be to.

    22 Veja-se, por exemplo, que a noo de destino difere de maneira evidente das categorias tradicionalmente consideradas modais por no admitir qualquer gradao em relao ao que Kratzer (1981, 1991) designa por fora modal. Pelo contrrio, prpria conceptualizao do destino (do fado) inerente um sentido de absoluta necessidade.

  • 26

    De um ponto de vista terico, penso que dois factos poderiam apontar para uma

    especializao da perfrase latina infinitivo + habeo com valor de predestinao. Em

    primeiro lugar, a construo ocorre principalmente na forma passiva, o que, em

    princpio, condiz com o significado em causa, pois o facto de uma entidade ser

    predestinada a participar numa determinada eventualidade exclui a possibilidade de

    a primeira ter algum controle sobre a (no) realizao da segunda. Assim, a dita

    entidade afastada das caractersticas tpicas das funes semnticas mais altas da

    hierarquia ou prototpicas do Agente, nos termos de Dowty (1991) e aproxima-se

    da funo de Paciente. Em segundo lugar, a construo ocorre sobretudo nas formas

    imperfectivas, o que parece coerente com o facto de a predestinao, que um estado

    permanente, ser dificilmente compatvel com o aspecto perfectivo (cf. o contraste entre

    ?Hrcules foi predestinado a realizar grandes empresas e Hrcules estava

    predestinado a realizar grandes empresas).

    Segundo Benveniste, a origem da perfrase em causa remontaria ao Latim imperial

    (a partir de Tertuliano, 160-220 d.C.); mas os textos mostram claramente que a

    construo j existia na poca republicana, podendo tambm ocorrer com o infinitivo

    na forma activa. Alm disso, segundo a maioria dos autores, o valor dentico de

    obrigao evidencia-se j nas mais antigas atestaes, abundando os empregos como

    os que so reportados por Fleischman (1982: 52):

    (3) Item in multis hoc rebus dicere habemus

    (Lucrcio, De rerum natura, VI, 711)

    (4) Multos ferro, multos veneno: habeo etiam dicere quem [...] in Tiberim

    deiecerit (Ccero, Pro Roscio Amerino, 98)

    Por outro lado, Pinkster (1987: 206) refere que no exemplo (4) habeo dicere

    geralmente traduzido as more or less equivalent to the modal verb posse,

    interpretao que, alis, estaria acessvel em muitas ocorrncias da perfrase. Alm

    disso, Coleman (1971, apud Fleischman 1982: 56) refere a existncia de ocorrncias

    ambguas entre uma leitura dentica e uma epistmica. Finalmente Wartburg (1969,

    ibid.) fala num valor de inteno, considerando que cantare habeo equivaleria a je

    projette de chanter.

    Creio que para se poder decidir sobre o valor originrio da perfrase importante

    considerar a variedade de contextos em que podia ocorrer nos primeiros documentos.

  • 27

    Alis, veja-se que as perfrases que em Latim tinham valor temporal de futuridade (e,

    mais em geral, de posterioridade da aco em relao ao ponto de referncia temporal),

    como as que se construam com o auxiliar esse e os chamados particpios futuros

    activo (em -urus) e passivo (ou gerundivo, em -ndus), podiam expressar nuances de

    significado bastante variadas conforme o contexto de uso (cf. Palmer 1977: 341-342,

    entre outros). possvel que a perfrase em causa se encontrasse inicialmente numa

    situao (pelo menos parcialmente) parecida (cf. Lausberg 1971, Pinkster 1987,

    Borouva e Tasmowski 2007). Veja-se a este propsito outro exemplo ciceroniano,

    tambm reportado por Fleischman (1982: 121):

    (5) De re publica nihil habeo ad te scribere (Epistulae ad Atticum, XXII, 6)

    Tal como em (3), o contexto uma carta privada para um amigo, que est longe de

    Roma, com a qual o autor informa e se aconselha sobre factos pessoais e pblicos

    favorece fortemente a interpretao de obrigao em relao de predestinao. Por

    outro lado, este contexto poderia admitir uma leitura potencial quase to facilmente

    como admite a dentica.

    2.2.2 A hiptese do valor de obrigao

    Do que ficou exposto no final da seco anterior, pode concluir-se que parece

    oportuno distinguir, como fazem vrios autores, diferentes usos da perfrase no Latim

    clssico. Contudo, dois dados empricos apontam de maneira decisiva para a

    centralidade e a precedncia histrica do valor de obrigao: (i) os exemplos em que

    este o valor mais intuitivamente reconhecvel so de longe os mais numerosos; (ii) na

    literatura relevante no se encontra qualquer referncia a atestaes do perodo clssico

    para as quais o contexto bloqueie inequivocamente a interpretao dentica (ou, pelo

    menos, a emergncia de qualquer nuance de obrigao).

    Tenha-se presente que habeo antes de mais um verbo de posse. Na sua origem,

    na expresso aliquid dicere habeo (e.g.), habeo no era interpretado como um

    auxiliar, mas sim como um predicado possessivo, cujo argumento interno

    (correspondente ao pronome indefinido aliquid no exemplo apresentado) modificado

    por um restritor oracional infinitivo (o infinitivo tambm podia ser precedido por uma

    preposio AD , como acontece em construes portuguesas como tenho algo por / para / a dizer). O facto de habeo reter o seu significado lexical evidente em Ccero

  • 28

    e Lucrcio, que utilizam a construo quase exclusivamente com o infinitivo de verbos

    transitivos (principalmente verba dicendi) na forma activa, e com o objecto directo

    expresso (normalmente um pronome neutro). Pode colocar-se a hiptese de que o valor

    modal seria expresso pelo operador de termos dicere, que, nota Fleischman (1982:

    121), se comportava como uma orao relativa com verbo no conjuntivo, tendo a

    funo de qualificar o objecto de habeo23 (trad. minha). Com efeito, os valores

    modais expressos pelo infinitivo em combinao com habeo eram originariamente

    orientados para o referente do argumento modificado pelo infinitivo. Assim, quando a

    perfrase fosse usada com valor de obrigao, ou de predestinao, o vnculo recaa

    sobre o objecto directo do predicado principal, como em tenho algo que por / para

    dizer (parfrase literal das expresses mencionadas acima). Como observa Benveniste

    (1965: 90):

    habere + infinitive served to indicate the predestination of the object to follow a

    certain course of events (nfases minhas).

    Alm da orao infinitiva, outros restritores que podiam expressar valores

    similares eram os sintagmas preposicionais com um substantivo verbal em -ndum (e.g.,

    ad dicendum) e os adjectivos verbais com morfologia apropriada, em -urus ou em -

    ndus. Vrios autores (Blmel 1979, Ramat 1982, Pinkster 1987) propuseram que a

    construo infinitivo + habeo tenha surgido como uma alternativa para o gerundivo

    com habere (Pinkster 1987, trad. minha). Assim como de dare aquam bibendam se

    passou para dare aquam bibere, de hoc habeo dicendum ter-se-ia passado para hoc

    habeo dicere (ibid.).

    Por outro lado, embora o significado de posse estivesse, em parte, ainda presente

    na construo quando esta comeou a aparecer nos textos latinos (e, esporadicamente,

    tambm em pocas posteriores), h a ter em conta que um infinitivo simples nunca

    podia ocorrer em posio atributiva como um adjectivo ou uma relativa, nem podia

    expressar qualquer valor modal, a no ser nas construes com habeo. Significa isto

    que os valores particulares que a perfrase podia assumir eram expressos pela forma de

    habeo e infinitivo em conjunto, e no apenas pelo segundo. Assim, j no Latim

    clssico a perfrase se encontrava numa fase de (incipiente) gramaticalizao24, e,

    embora, como mostra Pinkster (1985, 1987), habeo no possa ainda, nesta altura, ser 23 Cf. Haec habui de amicitia quae dicerem (Cc., De Amicitia, 104). 24 Trata-se da tpica evoluo de um significado mais concreto o de posse para (um) significado(s) mais abstracto(s), cf. Traugott (1982).

  • 29

    considerado um verbo modal de pleno direito, exemplos como (4), por raros que

    sejam, mostram que a forma de habeo j podia governar directamente o infinitivo.

    Nos sculos II-III a construo j tinha atingido contextos sintcticos diferentes

    dos originais (que eram sobretudo subordinadas relativas Benveniste 1965: 90,

    Fleischman 1982: 54), e j podia ocorrer com o infinitivo de verbos intransitivos.

    Como notam vrios autores (cf. Fleischman 1982: 55), a elevada frequncia da forma

    passiva facilmente explicvel pela exigncia de reestruturao do paradigma verbal

    causada pelo declnio da conjugao passiva sinttica. O aparecimento de exemplos

    sem objecto expresso e com verbos intransitivos, por outro lado, prova a definitiva

    perda do valor lexical de habeo e a sua passagem a auxiliar25. Condio necessria

    para as duas ltimas mudanas que a perfrase j pudesse ser utilizada para expressar

    valores modais como os de obrigao, capacidade / root possibility, e

    predestinao 26 orientados no j para o referente do objecto sintctico de habeo,

    mas sim para o do seu sujeito (que j no seria interpretado como Possuidor).

    De acordo com Benveniste (1965), desde as primeiras atestaes da perfrase (que

    o autor coloca erradamente no incio do sc. III), o valor de predestinao seria o seu

    significado prprio (a novel and distinctive semantic hue, p. 90)27, e no apenas,

    como afirma Fleischman (1982: 57), a contextually determined overtone. No

    entanto, como ficou visto acima, impossvel defender que este fosse o significado

    exclusivo da construo infinitivo + habeo no Latim clssico. A nica hiptese vivel

    para explicar o facto de o valor de predestinao ser extremamente frequente (segundo

    Benveniste, predominante) a partir do sc. III, sem o atribuir inteiramente a factores

    contextuais, ser a de que a perfrase se tenha num certo ponto especializado na

    expresso daquele significado especfico, que era s um dos seus possveis valores no

    Latim clssico e ps-clssico. Para respeitar a cronologia proposta por Benveniste, esta

    especializao dever ter-se verificado antes da passagem na orientao da avaliao

    modal e da conseguinte extenso da construo para verbos intransitivos. Ora, para que

    25 Esta mudana, como alis todo o percurso evolutivo do futuro romnico, est plenamente de acordo com o universal de gramaticalizao formulado em Hopper e Traugott (1993: 7): content item [=elementolexical]>grammaticalword[nocaso,verboauxiliar]>clitic>inflectionalaffix. 26 Creio que seria mais correcto definir esses valores participant-oriented (adoptando a terminologia de Hengeveld 2004) do que agent-oriented, como os designam Bybee et al. Veja-se, por exemplo, que infinitivo + habeo, na acepo original, servia para caracterizar do ponto de vista dentico, facultativo ou, supostamente, da predestinao a relao entre a realizao da eventualidade descrita pelo infinitivo e uma entidade que participa nela, mas que no o Agente daquele predicado. 27 Enquanto o futuro sinttico teria basicamente um purposive value, e o valor de obrigao seria expresso pelo adjectivo verbal em -ndus.

  • 30

    uma forma (ou perfrase) que pode ter mltiplas interpretaes se especialize na

    expresso de s um dos seus valores, em detrimento dos outros, preciso no s que

    este significado realize uma funo expressiva de uma certa importncia na

    comunicao, como tambm que a forma j seja utilizada com grande frequncia para

    aquela funo na altura em que se supe que comece a especializao. Deste ponto de

    vista, parece-me evidente que na prtica da interaco lingustica quotidiana (pois

    nesta, e no nas obras literrias, que nasce a mudana lingustica) as situaes que

    podem ser descritas como ter algo que deve ser feito ( ter que fazer algo) so muito mais comuns do que aquelas em que se trata de ter algo que predestinado a

    ser feito ( ser predestinado a fazer algo)28. Isto, partida, faz do valor de obrigao um melhor candidato para a especializao da perfrase do que parece ser o

    de predestinao. Esta considerao, que favorece a hiptese tradicional, parece-me

    condizer plenamente com as duas observaes empricas referidas no incio deste

    pargrafo. Para o Latim tardio, a elevada frequncia dos casos em que a perfrase tem

    algum sentido de destino ou inevitabilidade poder ser explicada, pelo menos na

    generalidade dos casos, pelo efeito de condicionantes contextuais, com destaque para o

    tipo de texto. De facto, a maioria das atestaes provm de obras de argumento

    religioso (o que absolutamente normal, pois, como sabido, este tipo de documentos

    representa a fonte principal para o Latim do mdio e baixo Imprio), obras que,

    aspirando a revelar verdades absolutas, so muitas vezes caracterizadas pelo tom

    fortemente apodctico de quem quer mostrar conhecer o destino.

    2.2.3 A hiptese da interpretao altica

    Bourova e Tasmowski (2007: 31), seguindo Kronning (1990, 1996, 2001),

    admitem a existncia de uma interpretao altica dos verbos modais, relacionada com

    a modalidade epistmica no que representaria uma modalidade de lTRE (tre

    vridicible no primeiro caso, tre montrable no segundo), e oposta dentica,

    modalidade du FAIRE. As autoras apoiam a hiptese de Benveniste e Bybee et al.,

    e, com ampla base documental, confirmam a existncia e a persistncia ao longo do

    sculos de uma correspondncia sistemtica entre a ordem habeo + infinitivo e a

    interpretao dentica, por um lado, e entre a ordem infinitivo + habeo e a

    28 Esta questo no se coloca no caso do ingls be to, pois, contrariamente a infinitivo + habeo, no h aqui qualquer significado possessivo.

  • 31

    interpretao altica, por outro. Esta ltima corresponde ao valor que Benveniste e

    Bybee et al. designam por predestinao. Embora os resultados da anlise de Bourova e Tasmowski sejam convincentes no

    que diz respeito pertinncia de traar uma distino semntica entre as duas ordens

    de constituintes, a ideia de Fleischman de que o sentido de predestinao sempre

    determinado pelo contexto (cf. a subseco anterior) parece oferecer uma explicao

    vlida para todas as atestaes citadas pelas autoras como exemplos do valor de

    predestinao29. Mais precisamente, creio que a condio pragmtica que serve de

    input para a emergncia do significado de predestinao o reconhecimento de que o

    enunciador tem uma relao privilegiada com a veridicidade da informao. Uma

    autoridade particular permite-lhe assumir uma atitude que ( falta de melhor termo)

    poderamos definir como de ommniscincia30, e que, a meu ver, est por trs do

    valor de predestinao, distinguindo-o daquele valor a que vrios autores chamaram de

    necessidade lgica ou altica (cf. 2.2.1) ou necessidade epistmica objectiva,

    em Lyons (1977)31.

    Um dado que favorece a hiptese de que o valor de predestinao decorre do

    contexto de uso diz respeito a construes actuais em que se verifica a relao

    temporal R

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    dovere). Neste contexto, a forma recebe uma interpretao claramente distinta da

    dentica, qual me parece correcto chamar de predestinao. Vejam-se os seguintes

    exemplos:

    (6) Os arautos dessa comemorao nacional foram a alegria estrdia do uPad'

    Z, o ltimo abencerragem da bomia do Quebra-Costas e das Tias

    Camelas, que mais tarde to trgicamente devia morrer em Lisboa.

    (Augusto de Castro, A Arca de No, 1952)

    (7) Nel 1965 fece la sua comparsa il francese Lucky Luke di Morris su

    testi di Goscinny. Ma il vero cambiamento doveva verificarsi nel 1968.

    (Daniele Gianotti, Storia del fumetto in