Hist³ria no pensamento de Marx Titulo Chau­, Marilena ... Marilena Chau­* A hist³ria no

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Histria no pensamento de Marx Titulo

Chau, Marilena - Autor/a; Autor(es)

A teoria marxista hoje. Problemas e perspectivas En:

Buenos Aires Lugar

CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales Editorial/Editor

2007 Fecha

Campus Virtual Coleccin

Karl Marx; Historia; Materialismo Historico; Marxismo; Temas

Captulo de Libro Tipo de documento

http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/clacso/formacion-virtual/20100715075025/cap5.pd

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Marilena Chau*

A histria no pensamento de Marx

* Professora titular do Departamento de Filosofia da Universidade de So Paulo, com

especializao em histria da filosofia moderna, filosofia poltica e filosofia

contempornea.

Desenvolvimento e devir

Ao evidenciar que a distribuio dos constituintes do processo de trabalho34

determina a forma da produo, isto , as relaes de produo determinam as foras

produtivas, e que a distribuio, pressuposto do processo de produo, reposta por

este como um momento que lhe imanente, Marx pode elaborar o conceito de modo

de produo. Este se define como a determinao das foras produtivas pelas

relaes de produo e pela capacidade do processo produtivo de repor como um

momento interno necessrio aquilo que, de incio, lhe era externo.

O conceito de modo de produo esclarece uma distino que opera no tratamento

dado por Marx histria: a distino entre devir e desenvolvimento. O devir a

sucesso temporal dos modos de produo ou o movimento pelo qual os

pressupostos de um novo modo de produo so condies sociais que foram postas

pelo modo de produo anterior e sero repostas pelo o novo modo. O

desenvolvimento o movimento interno de um modo de produo para repor seu

pressuposto, transformando-o em algo posto; refere-se, portanto, a uma forma

histrica particular, ou melhor, a histria particular de um modo de produo, cujo

34 De acordo com Marx, o processo do trabalho possui trs componentes: o trabalho, atividade orientada para superar uma carncia, o material ou objeto do trabalho, a matria a ser trabalhada, e os instrumentos de trabalho, ou seja, os meios de produo. H processo porque os trs componentes so momentos de um todo, o trabalho.

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desenvolvimento dito completo quando o sistema tem a capacidade para repor

internamente e por inteiro o seu pressuposto. Uma forma histrica est desenvolvida

quando se tornou capaz de transformar num momento interior a si aquilo que, no

incio, lhe era exterior, proveniente de uma forma histrica anterior, ou seja, quando

realiza uma reflexo, de tal maneira que a exterioridade negada como exterioridade

para ser posta como interioridade na nova formao social.

O devir temporal se refere ao surgimento das foras produtivas, portanto, s

mudanas nas relaes dos homens com a natureza, podendo ser pensado como

linear, sucessivo e contnuo. O desenvolvimento imanente de uma forma histrica se

refere reflexo realizada pelo modo de produo ou o movimento cclico pelo qual

retoma seu ponto de partida para repor seus pressupostos. No entanto, justamente

porque se trata de uma reflexo realizada pela forma histrica, o retorno ao ponto de

partida o altera, de maneira que o desenvolvimento no um eterno retorno do

mesmo e sim dialtico, atividade imanente transformadora que nega a exterioridade

do ponto de partida ao interioriz-lo para poder conservar-se e, ao faz-lo, pe uma

nova contradio no sistema.

A distino entre devir e desenvolvimento no significa que Marx no os tenha

pensado juntos, pois o devir depende do desenvolvimento, ou seja, do que acontece

forma completa de um modo de produo para que ela possa colocar os pressupostos

do modo de produo seguinte: a forma completa termina quando, ao repor

completamente seus pressupostos, ela pe uma contradio interna nova que ela no

pode resolver sem se destruir. Essa contradio insolvel posta por ela e se torna

pressuposta na forma social seguinte. O desenvolvimento completo revela a finitude

da forma histrica e a expe infinitude do devir. Em outras palavras, impossvel

pensar o devir sem o desenvolvimento e este sem aquele, pois a sucesso temporal

das formas histricas ou dos modos de produo depende da reflexo de cada uma

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delas ou de seu desenvolvimento completo35. O entrecruzamento necessrio do devir

e do desenvolvimento explica a afirmao o novo nasce dos escombros do velho.

Formas pr-capitalistas e forma capitalista

Em Trabalho e Reflexo, J. A. Giannotti (1983) acompanha a exposio sobre as formas

histricas pr-capitalistas e a forma capitalista, apresentada de Marx nos Grundrisse,

enfatizando que sua principal lio est em mostrar que no podemos encontrar uma

matriz nica para o social.

Na medida em que a produo pressupe a distribuio dos componentes do

processo de trabalho, verifica-se que um modo de produo tem duas faces,

constitudas pelo processo de trabalho: a face ativa do processo, isto , a diviso

social do trabalho, e a face passiva do processo, isto , a forma da propriedade,

determinada pelo modo de apropriao de um dos componentes do processo de

trabalho. Nos Grundrisse, Marx denomina situao histrica 1 aquela em que a

propriedade a do objeto de trabalho, da matria do trabalho. Essa situao histrica

ocorre nas formaes sociais mais antigas, nas quais a propriedade a propriedade

da terra, ainda que em cada formao social varie a maneira como essa propriedade

se realiza (donde a diferena entre a formao asitica, a greco-romana e a

germnica). Na situao histrica 2, a propriedade a do instrumento de trabalho,

como o caso, por exemplo, das corporaes medievais, pois embora os artesos no

tenham a propriedade da terra, que pertence aos senhores feudais, entretanto, no 35 Por exemplo, no pode haver modo de produo capitalista se dois pressupostos no estiverem realizados: o trabalho livre, isto , uma propriedade do trabalhador que pode ser vendida por ele, e a separao entre o trabalho e a propriedade dos meios de produo. Ora, esses dois pressupostos do capitalismo foram postos pela ltima volta do desenvolvimento do modo de produo feudal e o modo de produo capitalista, que parte de algo que no foi posto por ele, pois condio para ele venha a existir, os incorpora como seu modo mesmo de existncia, realizando um processo pelo qual os repe; e, a cada volta do seu desenvolvimento, essa reposio pe contradies novas at que seja posta aquela que o sistema no ter condio ou capacidade para interiorizar em seu movimento e que o destruir, ao mesmo tempo em que ser o pressuposto de um novo modo de produo, o comunismo. A fora de um modo de produo no vem apenas da sua capacidade econmica para repor seus pressupostos, mas tambm de sua fora para manter nos membros da formao social o sentimento da naturalidade desses pressupostos at que as novas contradies destruam tal sentimento e exibam a violncia histrica do sistema.

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interior do processo de trabalho, so proprietrios dos instrumentos de trabalho. Na

situao histrica 3, a propriedade o trabalho, ou seja, o trabalhador escravo.

Essas formas de propriedade no so excludentes, mas podem combinar-se de vrias

maneiras sendo por isso mais importante determinar qual a propriedade que,

embora co-existindo com as outras, predomina e define a formao social, decidindo

todo o restante do processo de trabalho e determinando as relaes sociais. As

situaes histricas 1, 2 e 3 constituem o que Marx chama de formas pr-capitalistas

da economia.

Como observa Giannotti (1983), ao apresent-las como situaes histricas

possveis, Marx evidencia a impossibilidade objetiva de subordinar o social a uma

nica matriz, pois esta matriz variar dependendo da forma da propriedade dos

componentes do processo de trabalho. Por esse motivo, Giannotti considera que a

apresentao das formas histricas possveis no a apresentao do devir dos

modos de produzir (no a sucesso temporal dessas formas): o emprego do termo

histrica para referir-se a cada uma das situaes tem o significado amplo de

oposio ao que natural, pois cada situao est referida aos componentes do

processo de trabalho e, por conseguinte, diferena entre o propriamente humano e a

natureza. Assim sendo, a expresso pr-capitalista no tomada no sentido de

antecedente do capitalismo, mas o pr significa tudo o que no capitalista.

bem verdade, escreve Giannotti, que Marx poderia ter substitudo pr-capitalista

por no-capitalista, e se no o fez no podemos eximi-lo da responsabilidade

terica de no haver explicado o emprego dessa expresso ambgua.

Qual a diferena entre pr-capitalista e capitalista, e como Marx formula a passagem

de uma formao pr-capitalista a uma capitalista?

Todo modo de produo, do ponto de vista de sua emergncia, significa sempre a

passagem do natural para o hist