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Tcnica e Tecnologia

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    Sociologias, Porto Alegre, ano 11, n 22, jul./dez. 2009, p. 158-197

    ARTIGO

    * Socilogo, mestre e doutor em Sociologia, coordenador da ps-graduao em Sociologia daUnB.

    O debate sobre a autonomia/no-autonomia da tecnologiana sociedade

    MICHELMICHELMICHELMICHELMICHELANGELO GIOTANGELO GIOTANGELO GIOTANGELO GIOTANGELO GIOTTO SANTORO TRIGUEIROTO SANTORO TRIGUEIROTO SANTORO TRIGUEIROTO SANTORO TRIGUEIROTO SANTORO TRIGUEIRO*****

    Resumo

    O artigo apresenta o debate a respeito da autonomia e no-autonomia datecnologia na sociedade, a partir da discusso empreendida na sociologia da cin-cia e da recente literatura sobre a produo tecnolgica, notadamente a que seinicia com o trabalho de Martin Heidegger, Question concerning technology. Con-siderando esse trabalho de Heidegger uma reflexo seminal sobre o tema datecnologia, proposta uma inverso ontolgica na relao entre cincia etecnologia, ao colocar esta ltima como uma realidade anterior cincia. O textoprocura contrastar diferentes acepes a respeito da tecnologia, mediante recortesanalticos os mais diversos, a saber, diferentes perspectivas terico-metodolgicas,concepes filosficas e enfoques, entre os quais o econmico, o sociolgico e ohistrico. dado destaque especial ao confronto entre o enfoque sociolgico e oeconmico. Ao final, pretende-se reunir elementos para a argumentao a respei-to da no-autonomia da tecnologia na sociedade e do que tem sido chamado ocontedo social da tecnologia.

    Palavras-chave: Sociologia da tecnologia. Sociologia da cincia. Tecnocincia. Ge-rao de tecnologia. Prtica tecnolgica.

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    questionamento a respeito da natureza da tecnologia edo lugar que ela ocupa na sociedade tem proporcionadoamplo debate na literatura, envolvendo diferentesenfoques, posies filosficas e metodologias. So muitasperspectivas tericas que se confrontam e se superpem,

    evidenciando, a um s tempo, a grande complexidade do fenmeno emdiscusso, e o relativamente recente peso (nos ltimos cinquenta anos)que o assunto passou a ganhar entre os autores que lidam com a proble-mtica do conhecimento.

    Certamente que falar de tecnologia no algo novo, remontandoaos antigos gregos, como Plato e Aristteles, e passando, nos temposmodernos, por Marx, Engels, Rousseau, Bacon, Comte e Simmel (o queconstitui a base filosfica e terica clssica da reflexo em torno datecnologia). Contudo, o debate comea a se intensificar com a discussointroduzida por Martin Heidegger (1977), cuja verso original foi publicadaem alemo, em 1954. No obstante, so nas discusses a respeito da na-tureza do conhecimento cientfico e do papel que ele ocupa na socieda-de, particularmente sua relao com a tecnologia, ainda anteriores dca-da de cinquenta do sculo passado, que podemos encontrar muitas dasquestes que passaram a orientar a reflexo mais recente sobre a tecnologia.

    A Teoria do Conhecimento, a Filosofia da Cincia e mesmo a Socio-logia da Cincia foram impulsionadas, nos finais dos anos 20 do sculopassado, com a constituio do chamado Crculo de Vienna (CARNAP;HAHN; NEURATH, 2006). Esse movimento, conhecido como Positivismolgico, possua como principal ambio filosfica combinar o empiricismode Bacon aos desenvolvimentos obtidos com a lgica matemtica no scu-lo XX. No esforo em demarcar o campo especfico da cincia conside-rada por muitos como algo essencialmente racional e isento de quaisquerinterferncias sociais e em destinar tecnologia um lugar secundrio

    O

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    (uma mera aplicao dos conhecimentos cientficos), os protagonistas doCrculo de Vienna acabam por aquecer o debate a respeito dacontraposio autonomia/no-autonomia da cincia na sociedade. O quefomentou as bases da moderna Sociologia da Cincia, tambm inspiradasna obra Ideologia e utopia de Karl Manheim, publicada originalmente em1929, em sua Sociologia do Conhecimento.

    A contribuio da Sociologia da Cinciapara a construo de uma teoria sobre a tecnologia

    A Sociologia da Cincia, desde os seus primeiros momentos, voltava-separa a compreenso da dimenso social da atividade cientfica, correlacionandoesta atividade a outras esferas da vida social, como a poltica e a econmica.Nesse sentido, autores importantes como Bernal (1939), Merton (1949),Hagstrom (1965), Kuhn (1970)1, Ben-David (1971), Crane (1975) e Bourdieu(1983) contriburam de maneira destacada para esclarecer o entendimentosobre o papel da Cincia nas sociedades contemporneas e o modo como elase organiza e se constitui como uma instituio social.

    No obstante as peculiaridades, verifica-se, entre esses autores e natradio dominante da Sociologia da Cincia, uma nfase comum na no-o de comunidade cientfica e nas relaes entre os cientistas nosaspectos normativos internos e nos padres de conduta e principais moti-vaes desses indivduos. Tambm se destacam importantes contribuiespara o entendimento da formao e consolidao de determinadas comu-

    1 Embora no se possa dizer que sua abordagem integre propriamente o ncleo duro daSociologia da Cincia, por seu enfoque propriamente filosfico, no se pode desconhecer aimportante obra de Toulmin (1961), introduzindo a noo de idias de Ordem Natural, quepode ser considerada uma precursora do conceito kuhniano de paradigma.

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    nidades cientficas, dentro de uma perspectiva histrica, os trabalhos deFernandes (1990) e Schwartzman (1979), na Sociologia Brasileira.

    Esta nfase na noo de comunidade cientfica levou a que se esta-belecesse, nas anlises tericas e empricas da tradio dominante da So-ciologia da Cincia, uma evidente dicotomia interno-externo, para abor-dar as condies de produo do conhecimento cientfico. Outra dicotomiaproveniente dessa tradio aquela expressa na separao entre os aspec-tos cognitivos e os sociais da produo cientfica.

    Num extremo, tais separaes tendem a acentuar a viso a respeitodo valor destacado da verdade cientfica ou de uma racionalidade tcni-co-cientfica, o que aponta para a vertente da neutralidade cientfica, quese consagra na idia de cincia pura na linha da defesa preconizadapelo Crculo de Vienna. O exemplo mais marcante dessa ltima linha podeser visto, na Sociologia da Cincia, no trabalho de Merton (1949), ao insis-tir na tese da autonomia da cincia na sociedade.

    No outro extremo, autores como Bourdieu e Kuhn, embora aindadedicando importncia decisiva para as relaes entre os pares-cientistas seja atravs da noo de campo cientfico, seja mediante a de comu-nidade cientfica, respectivamente , como constructos explicativos paraa compreenso do modo como se organiza e realiza a atividade cientfica,apontam para o necessrio imbricamento de elementos sociais, culturais epolticos na obteno dos fatos cientficos.

    Para Bourdieu, por exemplo, o campo cientfico uma instnciarelativamente autnoma da sociedade, sendo condicionado pela estruturaglobal desta ltima e pelas suas relaes econmicas, polticas e ideolgi-cas; as quais interferem nos aspectos gerais do campo e em sua estruturade demandas, possibilidades, prioridades e restries de pesquisa, bemcomo nos prprios componentes motivacionais dos cientistas, na medidaem que eles incorporam valores e expectativas provenientes de sua ori-

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    gem social, de sua socializao. Seguindo nessa linha de argumentao, oautor desenvolve a tese de que o campo cientfico constitui-se em um espa-o de lutas entre os cientistas-concorrentes, em busca do monoplio da auto-ridade e da competncia cientfica; entendida, esta ltima, como uma junoentre capacidade tcnica e poder poltico. Em suma, os fatos cientficos noso realidades puras, nem resultado exclusivo de uma dimenso cognitiva,mas encerram um contedo tcnico/instrumental, e outro, social, indistinguveis.

    Thomas Kuhn, por seu lado, nega qualquer carter de verdade objetivaaos fatos cientficos. Para ele, os resultados cientficos consistem de consensossocialmente produzidos no interior de uma comunidade cientfica; consen-sos, estes, que refletem um contexto scio-histrico particular, uma poca eum lugar determinados. Embora Kuhn se aproxime de Bourdieu quanto idia de que os conhecimentos so produtos sociais e no realizaes exclusi-vas de uma racionalidade tcnico-cientfica (e, aqui, no se trata de, mera-mente, identificar e reconhecer certos condicionamentos ou obrigaesmorais, que acabam por apenas circunscrever o cerne da cincia e os fatoscientficos, preservando-os e isentando-os de influncias externas ou soci-ais, como tpico na abordagem mertoniana), ele se diferencia do segundo,no que concerne preocupao quanto objetividade. Para Bourdieu, ocientista deve estar sempre atento (a idia da vigilncia epistemolgica),para se obter conhecimentos que expressem, o mximo possvel, os padresde determinao da realidade fsica e social , que a expliquem objetiva-mente. Nesse sentido, ao contrrio de Kuhn, que distingue fases de estabilida-de consensual e paradigmtica, no curso da cincia normal, de fases revolu-cionrias (de mudana radical de paradigma), Bourdieu entende o desenvol-vimento da cincia como um processo de permanentes revolues, sejamestas referentes aos conhecimentos gerados, sejam referentes prpria din-mica das relaes de disputa, sempre presentes no campo cientfico.

    A no-autonomia da cincia na sociedade enfocada, na literatura,sobretudo pela corrente marxista (BUKHARIN, 1971; BRAVERMAN, 1977;

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    COHEN, 1978; BURAWOY, 1978; ARONOWITZ, 1978; THERBORN, 1980;GOONATILAKE, 1984). Dentro dessa tradio, a tendncia dominante aquelaque considera a cinci