e.p. Thompson

Embed Size (px)

Text of e.p. Thompson

FORTES, A., et al.

Dossi Relaes de Poder, Trabalho e Moviemento Sociais 1

REVISITANDO UM CLSSICO DA HISTRIA SOCIAL: A ESTRUTURA NARRATIVA DE A FORMAO DA CLASSE OPERRIA INGLESAALEXANDRE FORTES1 AMANDA MOREIRA DA SILVA2

1- Professor

do Departamento de Histria e Economia e do Programa de Ps-Graduao em Histria - UFRRJ. 2- Aluna de graduao da UFRRJ e Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciao Cientfica (PIBICCNPq).

RESUMO: FORTES, A., SILVA, da A. M. Revisitando um clssico da histria social: A estrutura narrativa de A Formao da Classe Operria Inglesa. Revista Universidade Rural: Srie Cincias Humanas, Seropdica, RJ: EDUR, v. 29, n 2, p. 01-24, jul.-dez., 2007. Este artigo apresenta uma descrio panormica dos temas analisados no livro A formao da classe operria inglesa, do historiador ingls Edward Palmer Thompson (1924-1993) e tece alguns comentrios sobre a relao entre a estrutura narrativa da obra e a renovao conceitual da histria social desencadeada pelo autor a partir daquele trabalho, que se transformou imediatamente em um clssico da histria social imediatamente aps o lanamento da edio original inglesa de 1963.

ABSTRACT: FORTES, A., SILVA, da A. M. Overviewing a social history classic: The narrative structure of The Marking of the English Working Class. Revista Universidade Rural: Srie Cincias Humanas, Seropdica, RJ: EDUR, v. 29, n 2, p. 01-24, jul.-dez., 2007. This article presents an overview of the issues analyzed in the English historian Edward Palmer Thompsons (1924-1993) book The Making of the English Working Class and draws some commentaries regarding the relationship between the books narrative structure and the conceptual renewing in social history unleashed by the author since the 1963 release of the original English printing of that work, which immediately became a social history classic.

INTRODUO Esse artigo apresenta uma descrio panormica dos temas analisados no livro A formao da classe operria inglesa 1, do historiador ingls Edward Palmer Thompson (1924-1993) e tece alguns comentrios sobre a relao entre a estrutura narrativa da obra e a renovao conceituao da histria social desencadeada pelo autor a partir daquele trabalho, que se tranformou imediatamente em um clssico da histria social imediatamente aps o lanamento da edio original inglesa de 1963.

Ele se constitui num dos produtos gerados a partir de projeto de iniciao cientfica desenvolvido desde 2006 com apoio de bolsa do PIBIC (CNPq-UFRRJ). Foi elaborado tendo como principais bases, de um lado, o estudo sistemtico desenvolvido h vrios anos pelo primeiro autor (orientador) sobre a obra de Thompson, que gerou diversas publicaes anteriores, individuais2 ou em coautoria3, e, de outro, o minucioso fichamento dos trs volumes da edio brasileira de A formao elaborado pela segunda autora (orientanda).

Cincias Humanas e Sociais em Revista. Seropdica, RJ, EDUR, v. 29, n. 2, jul.-dez., p. 01-24, 2007.

2

Revisitando um clssico...

A relevncia deste trabalho est vinculada anlise, feita em trabalhos anteriores do primeiro autor sobre o tema, de que aspectos importantes do debate tericometodolgico desenvolvido por Thompson em A formao passam muitas vezes despercebidos numa primeira leitura devido alta densidade emprica e at mesmo ao tom apaixonado e envolvente da obra: Ao mesmo tempo, se atende plenamente s exigncias do rigor acadmico (a ponto de tornar-se um dos trabalhos historiogrficos mais citados do sculo XX), seu tom literrio e sua narrativa heterodoxa cativam at mesmo os leitores nada familiarizados com o cipoal de personagens, fatos e processos peculiarmente ingleses com o qual Thompson pouco a pouco constri sua teia. Na verdade, necessrio embrenhar-se junto com o autor nessa especificidade para, pouco a pouco, identificar os elementos que tornaram esse trabalho objeto de interesse universal.4 Ao apresentar detalhadamente o relato thompsoniano nas prximas sees, damos continuidade ao exerccio de identificao dos fios condutores da narrativa de A formao, apresentado de forma mais sinttica e analtica em trabalho anterior.5 A proposta aqui, portanto, no apresentar alguma contribuio inovadora ao debate terico sobre o livro, seu papel na definio dos rumos sociais a partir da dcada de 1960 e sua atualidade, o que realizamos em alguma medida nos trabalhos acima citados, mas sim oferecer uma primeira verso de um instrumento didtico que possa ser til para os interessados num estudo sistemtico e aprofundado da obra de Thompson.

VOLUME I - A RVORE DA LIBERDADE6 A Formao da classe operria articula a anlise de vrios processos condicionantes da ao humana. No prefcio, o autor j traz grandes contribuies para o entendimento do conceito de classe, ao diferenciar classes como um termo descritivo das subdivises existentes entre os trabalhadores, de classe entendida como um fenmeno mais geral. O autor tambm explicita a diferena entre experincia de classe, que determinada pelas relaes de produo que os homens se encontram, e a conscincia de classe que, diferentemente da anterior, determinada por valores culturais. Thompson critica as formas de definio de classe mais comumente utilizadas por vrias escolas tericas at ento e diz que a classe uma relao, e no uma coisa, sendo definida pelos prprios homens enquanto vivem a histria. Portanto, a inteno do livro oferecer uma contribuio para compreender a classe como uma formao social e cultural. Na primeira parte do livro, o autor trata das tradies populares do sculo XVIII na Inglaterra, que tiveram forte contribuio para a agitao jacobina nos anos 1790. No primeiro captulo, trata das sociedades de correspondncia inglesas, em especial da Sociedade Londrina de Correspondncia (SLC), descrevendo como se deu seu surgimento. Esta sociedade de perfil radical popular tinha como lema um nmero ilimitado de membros e tinha como objetivo discutir a Reforma Parlamentar, demonstrando claramente o seu carter democrtico. O nmero de membros de fato logo aumenta, a SLC expande-se entre as mais diversas categorias de trabalhadores e inicia-se paralelamente a represso a seus precursores e a mobilizao desencadeada pela sociedade parece dispersar-se. A SLC embora pela sua composio social pudesse ser definida como uma sociedade de carter radical popular,

Cincias Humanas e Sociais em Revista. Seropdica, RJ, EDUR, v. 29, n. 2, jul.-dez., p. 01-24, 2007.

FORTES, A., et al.

3

segundo Thompson, tinha a natureza de uma organizao operria: Eis o trabalhador como secretrio. Eis a baixa subscrio semanal. Eis o entrecruzamento de temas polticos e econmicos a dureza dos tempos e a Reforma Parlamentar. Eis a funo da reunio, tanto como ocasio social quanto centro para a atividade poltica. Eis a ateno realista para a formalidade de procedimentos. Eis, acima de tudo, a determinao de propagar opinies e de organizar os adeptos, contida na diretriz: que o nmero de nossos Membros seja ilimitado. Hoje poderamos passar por tal norma como se fosse lugar comum: no entanto, um dos eixos onde gira a histria. Significa o trmino de qualquer noo de exclusividade, de poltica como reserva de uma elite hereditria ou de um grupo proprietrio.7 O segundo captulo mostra as influncias da dissidncia religiosa e sua contribuio para o movimento operrio e sua organizao. Segundo Thompson, a dissidncia, entendida aqui como as vrias seitas religiosas desvinculadas da Igreja Anglicana, trabalhava pelas liberdades civis e religiosas. Alguns de seus ramos, influenciados por ideais Iluministas, combinavam o radicalismo adormecido e a hostilidade em relao ao Estado, com a forma democrtica de organizao. Isto se evidenciava mais entre os quacres e os batistas. O radicalismo adormecido encontrado num texto de forte influncia para o movimento operrio ingls, o Progresso do peregrino. Este texto somado a Direitos do homem de Tom Paine foram

de grande contribuio8. Bunyan9 e Paine10, com Cobbett11 e Owen12, foram os que mais contriburam para o conjunto de idias e atitudes que compe a matria-prima do movimento de 1790 a 1850. (p.31) A dissidncia acaba se tornando algo distanciado e de pouca atrao popular, devido ao seu carter intelectual para a grande massa pobre. Batistas e Metodistas buscavam uma maior aproximao com os pobres, e os metodistas foram os primeiros a chegarem at eles. Wesley1313 vinha com a mensagem abrangente: A nica coisa a fazer salvar almas (p.37). Apesar do conservadorismo empedernido do seu fundador, o metodismo, da forma como foi pregado e vivido por muitos de seus grupos de base conseguiu combinar nas propores exatas democracia e disciplina, doutrina e emotividade e ainda facilitou a admisso a essas sociedades, derrubando todas as barreiras das doutrinas sectrias. (p.38). Segundo Thompson existem vrias interpretaes da contribuio do metodismo para o movimento operrio. Pois se de um lado ofereceu uma base inicial para os organizadores radicais e sindicalistas, oferecendo autoconfiana e capacidade de organizao, por outro, fcil re conhecer o carter reacionrio e subserviente do wesleyanismo oficial. A lealdade perante ao rei e a adeso constituio eram bases do wesleyanismo, e, segundo Halvy14, citado por Thompson, o metodismo impediu a revoluo na Inglaterra nos anos 1790. (p.42) Depois da morte de Wesley, fundador do metodismo, houve um ascenso democrtico influenciado pelo jacobinismo que teve os Direitos do homem como tendncia. impossvel oferecer um resumo fcil da tradio dissidente, que foi um dos elementos precipitados pela agitao jacobina inglesa. a sua diversidade que desafia qualquer generalizao, e ela a sua mais importante caracters-

Cincias Humanas e Sociais em Revista. Seropdica, RJ, EDUR, v. 29, n. 2, jul.-dez., p. 01-24, 2007.

4

Revisitando um clssico...

tica. Na complexi-dade de seitas concorrentes e capelas divididas temos o viveiro para as variantes da cultura operria do sculo 19.