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Dos Caçadores-Coletores aos Grandes Impérios ... TIAGO NASSER APPEL Dos Caçadores-Coletores aos Grandes Impérios: Interpretando o aumento da complexidade social à luz da teoria

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (UFRJ)

TIAGO NASSER APPEL

Dos Caadores-Coletores aos Grandes Imprios:

Interpretando o aumento da complexidade social luz da teoria da evoluo

RIO DE JANEIRO

2017

TIAGO NASSER APPEL

Dos Caadores-Coletores aos Grandes Imprios: Interpretando o aumento da complexidade social luz da teoria da evoluo

Tese apresentada pelo acadmico Tiago

Nasser Appel ao Programa de Ps-

Graduao em Economia Poltica

Internacional da Universidade Federal do

Rio de Janeiro, como requisito parcial para

a obteno do Ttulo de Doutor em

Economia Poltica Internacional

Orientador: Prof. Dr. Jos Lus da Costa Fiori

RIO DE JANEIRO

2017

FICHA CATALOGRFICA

A 646 Appel, Tiago Nasser.

Dos Caadores- Coletores aos Grandes Imprios: interpretando o aumento da

complexidade social luz da teoria da evoluo / Tiago Nasser Appel. 2017.

189 f. ; 31 cm.

Orientador: Jos Lus da Costa Fiori

Teses (doutorado) Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de

Economia, Programa de Ps-Graduao em Economia Poltica Internacional, 2017.

Bibliografia: f. 170-189.

1. Complexidade social. 2. Seleo natural. 3. Guerras. I. Fiori, Jos Lus da

Costa, orient. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Economia. III.

Ttulo.

CDD 158.2

CDD 323

Para Lorena

RESUMO

Durante aproximadamente 95% de sua histria evolucionria, os humanos

anatomicamente modernos viveram em bandos de caadores-coletores. E em menos de

10 mil anos nossas sociedades foram totalmente remodeladas de pequenos bandos

igualitrios integrados por interaes cara-a-cara para gigantescos Estados com

processos centralizados de tomada de deciso, extensa diviso do trabalho e enormes

diferenas de riqueza e poder.

Antroplogos, socilogos e cientistas polticos propuseram uma panplia de teorias para

explicar esta transio. De fato, a evoluo das sociedades humanas complexas um

dos quebra-cabeas mais antigos das cincias sociais. Grandes debates, com razes no

pensamento poltico de Confcio, Aristteles, Hobbes, Rousseau, Marx (entre muitos

outros), foram travados sobre os determinantes desta evoluo e, mais especificamente,

sobre se a evoluo social um processo fundamentalmente cooperativo ou conflitivo.

Nesta tese, buscamos combinar as foras aparentemente contraditrias da cooperao e

do conflito dentro de um nico quadro terico, o da seleo cultural multinvel. A

teoria da seleo cultural multinvel um desdobramento da teoria da seleo natural

parte do princpio de que as instituies das sociedades complexas (burocracia, religio

organizada, leis, etc.) so todas onerosas e que, portanto, s podem evoluir se a presso

seletiva para tanto for muito grande, ou seja, elas s podem evoluir em contextos de

forte competio. Posto de outro modo, a competio entre as sociedades permite que as

instituies custosas se propaguem porque as sociedades que possuem estas instituies

substituem as sociedades que no as possuem.

Palavras-chave: evoluo da complexidade social; seleo natural; guerra; coeso

social; cooperao.

ABSTRACT

For a very long time approximately the first 95 percent of our evolutionary history

we lived as foragers. And yet, in less than 10,000 years human societies have been

utterly transformed from small-scale, egalitarian groups integrated by face-to-face

interactions to huge states with centralized decision-making, extensive division of labor,

and large differentials in wealth and power.

Anthropologists, sociologists and political scientists have proposed a multitude of

theories to explain this transition. In fact, the evolution of complex human societies is

one of the oldest puzzles of the social sciences. Great debates, with roots in the political

thought of Confucius, Aristotle, Hobbes, Rousseau, Marx (among many others), have

raged over whether the evolution of such societies is voluntaristic or coercive.

In this thesis, we combine the seemingly contradictory forces of cooperation and

coercion within one theoretical framework, that of cultural multilevel selection. The

theory of cultural multilevel selection an offshoot of the theory of natural selection

assumes that the institutions of complex societies (bureaucracy, organized religion,

laws, etc.) are all costly and that, therefore, they can only evolve under strong selective

pressures, that is, in situations of fierce competition. In other words, competition

between societies allows these costly institutions to spread and propagate because the

societies that possess them replace those that dont.

Key-words: evolution of social complexity; natural selection; war; social cohesion;

cooperation.

Sumrio

INTRODUO 10

1. EVOLUO 14

1. 1 CHARLES DARWIN 15 1. 2 A GRANDE IDEIA DE DARWIN 16 1. 3 PRIMEIRAS APLICAES DA SELEO NATURAL EVOLUO CULTURAL 19 1.3.1 A REAO CONTRA A SELEO NATURAL 21 1.4 A IMPORTNCIA CENTRAL DA COMPETIO 23

2. GUERRA 25

2. 1 A ANTROPOLOGIA E A ARQUEOLOGIA DA GUERRA 26 2. 1. 1 NOSSAS OBJEES CRONOLOGIA CURTA DA GUERRA 29 2. 2 A ETNOGRAFIA DA GUERRA 33 2. 2. 1 OS !KUNG DO DESERTO DO KALAHARI 34 2. 2. 2 OS ESQUIMS 35 2. 2. 3 OS ABORGENES DA AUSTRLIA 37 2. 2. 4 OS ENGAS DA NOVA GUIN 40 2. 2. 5 OS IANOMMIS DO ALTO ORINOCO 41 2. 3 POR QUE LUTAR? 44 2. 4 POR QUE LUTAR? O CLCULO EVOLUCIONRIO 48 2. 4. 1 LUTA POR RECURSOS SOMTICOS 49 2. 4. 2 LUTA POR RECURSOS REPRODUTIVOS 52 2. 4. 3 VINGANA E O DILEMA DE SEGURANA 55

3. MORALIDADE 59

3. 1 O DILEMA DA COOPERAO 60 3. 2 COOPERAO LUZ DA SELEO NATURAL 64 3. 2. 1 BREVSSIMO RESUMO DA REJEIO DA SELEO DE GRUPO NA TEORIA EVOLUCIONRIA 67 3. 2. 2 GRANDES TRANSIES EVOLUCIONRIAS 69 3. 3 SOCIEDADES HUMANAS COMO UNIDADES ADAPTATIVAS? A FILOGENIA DO IGUALITARISMO PRIMITIVO 71 3. 3. 1 ALGUNS EXEMPLOS ETNOGRFICOS DO ETHOS IGUALITRIO 75 3. 4 JUNTANDO AS PONTAS: OS EFEITOS DO IGUALITARISMO PRIMITIVO NA SELEO NATURAL 77

4. ESTADO 83

4. 1 EVOLUO DA COMPLEXIDADE SOCIAL 84 4. 2 AS TEORIAS CLSSICAS DA EVOLUO DA COMPLEXIDADE SOCIAL 89 4. 2. 1 HIPTESE TECNO-ECOLGICA 90 4. 2. 2 HIPTESE MARXISTA 91 4. 2. 3 HIPTESE DA CONQUISTA 93 4. 2. 4 HIPTESE DA PRESSO POPULACIONAL E DA CIRCUNSCRIO 94 4. 2. 5 HIPTESE VOLUNTARISTA 99

4. 3 O VALE DO CAUCA NA COLMBIA: UM EXEMPLO HISTRICO DE CHEFATURAS CRIADAS PELA GUERRA 103 4. 4 A GUERRA NA FORMAO DAS PRIMEIRAS CIVILIZAES 106 4. 4. 1 A CIVILIZAO ZAPOTECA 107 4. 4. 2 DISCUSSO FINAL 109

5. NAO 112

5. 1 A CULTURA ENTRA EM NOSSA ANLISE 113 5. 2 VOLTANDO SELEO MULTINVEL 117 5. 2. 1 VARIAO CULTURAL 122 5. 2. 2 INTENSIDADE DA GUERRA 123 5. 3 DISCUSSO: A ORIGEM DOS MEGA IMPRIOS 125 5. 3. 1 E QUANTO EUROPA OCIDENTAL? 131

6. DESENVOLVIMENTO 134

6. 1 A INGLATERRA COMO LABORATRIO DE ANLISE 135 6. 2 DOS INVASORES TEUTNICOS CONQUISTA NORMANDA 135 6. 3 O PRIMEIRO IMPRIO INGLS 139 6. 4 DOS TUDORS S GUERRAS NAPOLENICAS 149

CONSIDERAES FINAIS 166

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 169

10

Introduo

11

Esta uma tese sobre a origem do Estado. Com a exceo do advento da

agricultura, a ascenso do Estado foi provavelmente o passo mais importante j dado

pela espcie humana. Se no fosse pelo Estado, o leitor desta tese no estaria lendo esta

tese. De fato, nem esta tese nem qualquer livro ou artigo teriam sido escritos. Tanto o

leitor quanto o escritor seriam horticultores iletrados, e viveriam em pequenas e simples

aldeias espalhadas pelo campo. A vida seria, se no srdida, brutal e curta, como diria

Hobbes, ao menos montona e pedestre para os padres de hoje. Quase todas as

cincias, ocupaes e instituies que conhecemos hoje dependem direta ou

indiretamente da existncia prvia do Estado.

A disciplina da histria, ao contrrio do que se poderia supor, no ser a nossa

principal aliada nesse empreendimento. Isto porque os historiadores raramente esto em

condies de descrever a srie de etapas que precederam o Estado propriamente dito.

Aristteles, por exemplo, listou as constituies de mais de 150 cidades-estado gregas.

Estas constituies certamente o ajudaram a entender a natureza do poder e do governo.

Mas elas no podiam lhe dizer como cada uma dessas cidades havia surgido. As fases

anteriores da evoluo poltica ocorreram na Grcia antes da existncia de registros

escritos, o que era tudo que Aristteles tinha disposio.

Para Aristteles o Estado era, portanto, natural; seu surgimento era auto-

evidente. Este raciocnio refletia o fato de que Aristteles no estava familiarizado com

qualquer coisa que no fosse um Estado. E tudo que universal na experincia de uma

pessoa tende a ser tomado por certo. As unidades polticas intermedirias entre o

homem em seu estado de natureza e o Estado tinham desaparecido de cena na poca

em que Aristteles escrevia. Em resumo, a sua base de comparao era muito limitada

para ele atingir

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