Ca§adores-coletores Na Amaz´nia

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  • ARQUEOLOGIA DE CARAJS:

    A GRUTA DO PEQUI

    E A GRUTA DO RATO Caadores-coletores na Amaznia: O Padro Arqueolgico Carajs.

    Por Marcos Pereira Magalhes Museu Paraense Emlio Goeldi

  • 1

    RESUMO:

    O objetivo deste artigo levar para a comunidade cientfica os resultados dos estudos

    efetuados pela equipe de arqueologia do Museu Paraense Emlio Goeldi em Carajs.

    Pesquisas recentes sobre os caadores-coletores de Carajs tm revelado como eles

    exploravam os recursos naturais e ocuparam as grutas da regio. Os resultados aqui

    apresentados certamente contribuiro para um melhor conhecimento a respeito da ocupao

    pr-histrica da Amaznia.

    PALAVRAS CHAVE:

    Caadores-coletores, Amaznia, arqueologia, pr-histria.

    WORDS KEY: Hunter-collectors, Amaznia, archaeology, prehistory.

    ABSTRACT:

    The objective of paper is to provide the scientific community with the results of

    studies conducted by the archaeology team of the Goeldi Museum in Carajs. Recent

    researches on hunter-gatherers in Carajs have revealed how the explored natural resoursces

    and occupied the caves of the region. The results presented here will certainly contribute to a

    better understanding of Amazon pre-historic occupation.

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    Sumrio Introduo..............................................................................03

    Especulaes mais recentes.....................................................04

    Carajs...................................................................................05

    Gruta da Guarita....................................................................08

    Gruta do Mapinguari.............................................................16

    Gruta do Rato.......................................................................16

    Plat N5................................................................................26

    A Gruta do Pequi.................................................................27

    Comentrios finais.................................................................46

    Referncias bibliogrficas.......................................................54

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    Introduo Se a questo da antigidade humana na Amaznia tivesse sido apresentada h apenas

    dez anos, apesar de todas as evidncias acumuladas at ento1, ela seria completamente

    desprovida de fundamento terico. Isto porque a idia de uma ocupao precoce do homem

    na Amaznia, at a dcada de 1990, ainda era considerada, no mnimo, de comprovao

    difcil. Sem dvida, duas das premissas que justificavam esta afirmao era a dificuldade de

    acesso aos locais provveis de ocorrncia e a dvida sobre quais locais seriam esses.

    Entretanto, apesar de Simes (1976) j ter apresentado indcios da existncia de caadores-

    coletores na Amaznia desde os anos de 1970, at a dcada seguinte era bastante comum a

    idia apresentada por Schmitz de que os recursos para a sobrevivncia humana parecem mais

    ligados ao cerrado que caatinga e mata(1984: 03).

    De fato, continuava predominando uma das idias cara ao determinismo ecolgico e

    importante entre os pressupostos bsicos do PRONAPABA2, de que a ocupao humana da

    Amaznia fora bastante breve, esparsa e mvel; que caadores-coletores mais antigos, paleo-

    ndios migrantes do norte, por serem adaptados caa de grande porte de reas temperadas

    abertas, nunca teriam se fixado ou se adaptado floresta quente e mida amaznica; que

    caadores-coletores tardios e mais sedentrios, seriam provenientes de outras reas

    perifricas, mas no teriam logrado sucesso na explorao dos supostos parcos recursos

    disponveis, amargando uma estagnao sociocultural prolongada.

    Somente com as descobertas dos stios no rio Jamar, na bacia do Alto Madeira (RO),

    da Gruta do Gavio na serra de Carajs e, posteriormente, da Caverna da Pedra Pintada em

    Monte Alegre, ambas no Par, que teve incio, enfim, o estudo e ou a busca sistemtica de

    evidncias de caadores-coletores na Amaznia brasileira. Entretanto, o avano tem sido

    lento. At hoje, pesquisas mais completas s foram realizadas nos citados locais, sendo que

    em Carajs (PA), quinze stios foram localizados e desses, at o momento, somente quatro

    foram bem estudados: a Gruta do Gavio, a Gruta do Pequi (com 9.000 anos AP.), a Gruta

    1 A Gruta do Gavio, s para citar um exemplo de pesquisas objetivas sobre caadores-coletores efetuadas por arquelogos do Museu Goeldi, foi descoberta em Carajs no ano de 1985 e estudada por Daniel Lopes, Klaus Hilbert, Maura I. da Silveira e Marcos P. Magalhes, at sua destruio no ano de 1991. 2 PRONAPABA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueolgicas na bacia Amaznica) foi uma expanso do PRONAPA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueolgicas) iniciado em 1965 e concludo em 1970, que reuniu pesquisadores de diversos Estados do Brasil. Teve patrocnio do Conselho Nacional do Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico e da Smithsonian Institution, contando com o aval da, ento, SPHAN (Secretaria do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional). Coordenado no Brasil por Mrio Simes do Museu Goeldi, o Programa tinha a coordenao geral de Betty Meggers.

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    do Rato e a Gruta da Guarita. Por outro lado, a expanso da minerao em Carajs est

    levando a descobertas de novas grutas, atualmente em estudo. Outros stios atribudos aos

    caadores-coletores tm sido encontrados, inclusive em reas abertas, como em Rondnia, no

    Par e no Amazonas. Em breve esses estudos devero estar apresentando novos resultados.

    Mas, por enquanto, temos que nos contentar com os resultados dos estudos pioneiros.

    Especulaes mais recentes

    Apesar do estudo incipiente e fragmentado disponvel atualmente, uma coisa certa: a

    Amaznia foi habitada por caadores-coletores no especializados, no mnimo, desde o final

    do Pleistoceno, talvez uns 12.000 anos atrs.

    Os primeiros esboos tericos sobre a ocupao, por ancestrais caadores-coletores, da

    Amaznia comeam a ser elaborados. A nossa opo foi a construo de uma teoria pautada

    em nossos prprios estudos e baseada no pr-suposto de que as experincias prticas

    humanas, na explorao dos diversos ecossistemas amaznicos, teriam gerado relaes

    socioculturais originais, as quais s podem ser compreendidas segundo um olhar voltado para

    a interpretao dessas mesmas experincias. Portanto, antes da importao de elementos

    tericos baseados na observao de outros espaos geogrficos optamos pela observao do

    espao regional. Para tanto focamos as questes sobre a ocupao humana da Amaznia,

    relacionadas ao desenvolvimento local de suas manifestaes socioculturais. Com isso

    entendemos que apesar dos primeiros caadores-coletores na Amaznia serem,

    provavelmente, provenientes de reas perifricas e inicialmente adaptados aos recursos de

    savana, eles se adaptam aos recursos da floresta e elaboram, a partir da, suas orientaes

    culturais e sociais.

    Segundo as evidncias observadas em Carajs (SILVEIRA, 1995; MAGALHES,

    1998, 2005), o conhecimento sobre os recursos tropicais j estava sendo forjado h milhares

    de anos, provavelmente desde a chegada do homem no incio do Holoceno. A questo

    principal , enfim, entender quais processos histricos foram desencadeados, para que grupos

    de caadores-coletores, adaptados aos recursos de savana (BARBOSA, 2002) chegassem

    Amaznia e obtivessem sucesso na explorao dos seus diversos ecossistemas e mais tarde

    tivessem dado origem s sociedades de floresta tropical, altamente complexas, que

    dominaram a Amaznia at a chegada do colonizador portugus.

    A idia de que, evolutivamente falando, o ponto de partida no to importante

    quanto o ponto do destino, fora a reviso do atual paradigma, resultado da leitura linear da

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    histria mundial, que tem gerado seqncias regularmente provisrias a respeito da pr-

    histria sul americana. Aqui, a nossa preocupao no ser com a gnese precisa de uma

    durao (a sua origem primeira nica e universal), mas sim, com os eventos que deram incio

    aos acontecimentos no lugar prprio de suas manifestaes. De fato, a arqueologia tem

    mostrado a inexistncia de um comeo absoluto, que os acontecimentos s podem ser

    observados na durao e que na longa durao, os acontecimentos tomam sentidos diversos e

    graus de intensidades socioculturais variveis e particulares, segundo a posio e o momento

    dos eventos a eles relacionados (MAGALHES, 2005).

    Carajs

    Localizada a 500 km no Sudeste do Par, no municpio de Parauapebas, entre os

    paralelos 50 54S - 60 33S e os meridianos 490 53W - 500 34W, Carajs uma rea

    montanhosa compreendida por trs serras descontnuas, com cotas entre 400 e 850 metros

    acima do nvel do mar. So elas: Serra Norte (rica em ferro, mangans e outros minerais),

    Serra Sul (idem) e Serra Leste (Serra Pelada) (SILVA, 1991:81). O macio de Carajs o que

    resta de uma paleocordilheira arrasada, cujas rochas so pr-cambrianas. O seu aplainamento

    configurou-se entre os fins do Mesozico e a primeira parte do Tercirio, mas sua provncia

    mineral desenvolveu-se sobre metavulcanitos bsicos e formaes ferrferas do Arqueano

    (ABSABER, 1986; MAURITY & KOTSCHOUBEY, 1995). Ao final do Tercirio Inferior a

    crosta litificada ou latertica sofreu uma progressiva degradao causada por variaes

    climticas e por um lento e progressivo soerguimento regional, que causou o rebaixamento do

    nvel de base.

    A evoluo posterior, no Quaternrio, result