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a perspectiva comparativa do pretérito perfeito composto, pretérito

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Text of a perspectiva comparativa do pretérito perfeito composto, pretérito

  • STUDIA ROMANICA POSNANIENSIAUAM Vol. 40/1 Pozna 2013

    SYLWiA MiKOAJCZAK

    Universidade Adam Mickiewicz, Pozna

    [email protected]

    A PERSPECTIVA COMPARATIVA DO PRETRITO PERFEITO COMPOSTO, PRETRITO PERFECTO COMPUESTO E PRESENT

    PERFECT

    Abstract . Sylwia Mikoajczak, A perspectiva comparativa do pretrito perfeito composto, pretrito per-fecto compuesto e present perfect [Comparative perspective of pretrito perfeito composto, pretrito per-fecto and present perfect], Studia Romanica Posnaniensia, Adam Mickiewicz University Press, Pozna, vol. XL/1: 2013, pp. 81-93. iSBN 978-83-232-2542-3. iSSN 0137-2475. eiSSN 2084-4158.

    The aim of this paper is to highlight a problematic use of the Portuguese tense Pretrito Perfeito Composto in comparison to the use of English Present Perfect and Spanish Pretrito Perfecto Compuesto. A great number of mistakes in use of this tense is observed in the students production in their L3 Portuguese as a result of apparent similarity between the Portuguese and the Spanish tense. The article is expected to pre-sent differences in temporal and aspectual approaches of these tenses. The use of Portuguese construction is much more restricted, limited in fact to the imperfect, repeated or prolonged actions that continue in the present. However, the apparent similarities in form provoke the students to transfer the tense constructions from the other languages. We observe the mechanisms of transfer and try to underline the essential diffe-rences in usage of these tenses.

    Keywords: contrastive grammar, interlanguage, interferences, tense, aspect, perfect, imperfect

    1. iNTRODUO

    A ideia para a elaborao deste pequeno artigo teve o seu incio na sala de aula de portugus com os estudantes de fi lologia espanhola, os quais, como fcil de prever, tendo mais contato com o espanhol do que com o portugus costumam servir-se da lngua (L2) do seu programa de estudos no momento da produo em L3, o portugus. H uma srie de fatores que infl uenciam as interaes lingusticas nestas condies. Um deles o grau de semelhana entre as duas lnguas, percebido e real, um fen-meno descrito como psicotipologia (E. Kellerman, 1986). Outro fator o nvel de profi cincia em cada uma das lnguas. previsvel que o idioma mais conhecido seja mais infl uente sobre a lngua-alvo, mas tal pode dar origem, por sua vez, a outros problemas. A lngua melhor dominada pelos estudantes a sua lngua materna, mas muitas vezes os seus efeitos so limitados quando o critrio de similaridade tipolgica

  • S. Mikoajczak82

    predominante. As nossas observaes confirmam, no entanto, que apesar da profi-cincia em lngua ser um fator importante, muito mais importante o papel desem-penhado pela semelhana lingustica ou metalingustica. A quarta lngua que nos vai servir de suporte da hiptese apresentada o ingls, uma lngua bem dominada pelos alunos e, ao mesmo momento, uma lngua aprendida por eles como a primeira lngua estrangeira (L1). Trata-se, por conseguinte, de um elemento de grande importncia na formao das experincias individuais dos estudantes e no que diz respeito aprendi-zagem de lnguas em geral.

    A situao em que se encontram os alunos afeta certamente a ativao da L2 (espanhol). Adicionalmente, a aprendizagem ocorre no contexto de aulas acadmicas, na mesma escola, no mesmo ambiente, onde os alunos utilizam quase 80% do tempo a lngua espanhola. H-de notar-se que a ativao de uma outra lngua no momento de produo da lngua-meta o resultado de vrios fatores complexos. Um aluno pode ativar apenas uma esfera particular, uma unidade semntica, ou um grupo de palavras funcionais (Poulisse, Bongaerts, 1994) durante a comunicao em L3. Outro fator, que tem impacto sobre a interao interlingustica, a forma na qual as lnguas so adquiridas. Como sabido, pode-se adquirir a linguagem de uma maneira natural ou aprend-la artificialmente durante um processo de aprendizagem formal. Nota-se que h mais influncia entre as lnguas adquiridas de um modo semelhante (Vildomec, 1963; Singleton, 1987).

    O nosso ambiente de estudo, no qual se observa contacto lingustico dando ori-gem a interlnguas, reflete interaes ao nvel lexical, sinttico, fonolgico e pragm-tico. As interferncias interlingusticas esto presentes em cada subsistema de lngua, incluindo a morfo-sintaxe.

    O nosso objetivo dedicar este espao ao exemplo de um uso gramatical limitado e exclusivo. Assim, observou-se durante as aulas um grande grau de incerteza e con-fuso em relao ao uso do tempo denominado nas gramticas da lngua portuguesa de Pretrito Perfeito Composto, de que do conta, a ttulo de exemplo, os seguintes enunciados:

    (1) a)*Tenho falado com o professor de manh. b) He hablado con el profesor esta maana.(2) a) *Como a Marta tem dito. (fazendo referncia ao interlocutor anterior) b) Como Marta ha dicho... (3) a) Tenho-o visto na rua hoje. b) Lo he visto en la calle hoy.

    O Pretrito Perfeito Composto, constitudo pelo verbo auxiliar ter e o particpio do verbo principal, expressa uma ao repetida ou contnua que perdura no presente.

    Os fatores pelos quais este tempo gramatical provoca tanta confuso nos estu-dantes so pelo menos trs. Primeiro, o uso dos tempos das outras lnguas conheci-das pelos estudantes, nomeadamente o espanhol e/ou o ingls, pode ser considerado equivalente em relao ao seu valor formal. Todos so construdos tendo como base

  • A perspectiva comparativa do pretrito perfeito composto, pretrito perfecto compuesto 83

    o verbo auxiliar (to have, haber, ter1) mais o particpio passado, e devemos recordar que a concentrao na forma dominante na instruo escolar de uma lngua estran-geira. No entanto, o polaco no pode servir como uma fonte de imitao formal, pois no h na lngua materna formas temporais compostas. Alm disso, todas apresentam uma questo de relao aberta entre o presente e o passado. Por outro lado, a estru-tura tempo-aspetual da nossa lngua materna, que consideramos desempenhar um papel importante na aprendizagem de uma lngua estrangeira, no ajuda os estudan-tes a formularem as associaes corretas. Por ltimo, as gramticas no se dedicam a uma explicao profunda das diferenas semnticas do uso temporal, concentrando-se unicamente numa formulao de regras bsicas que muitas vezes no encontram nenhuma aplicao prtica.

    Antes de prosseguirmos com a anlise das semelhanas e diferenas dos tempos verbais refletidas na fala dos alunos, poderemos fazer as seguintes previses:

    1. A coincidncia das formas do Pretrito Perfeito Composto, Pretrito Perfecto Compuesto e Present Perfect pode causar dificuldades na aprendizagem por parte dos estudantes.

    2. Partimos do princpio, apoiado na psicotipologia, de que os estudantes vo ser mais tentados a transferir do espanhol ao falarem portugus, e que sero muito mais cuidadosos quando se trata do ingls, a lngua tipologicamente mais distanciada. A di-ferena significativa desencoraja a transferncia.

    Para entendermos melhor a raiz das diferenas semnticas que so ao mesmo tempo motivo das transferncias desta estrutura temporal deveramos primeiro apro-fundar um pouco os conceitos de tempo e de aspeto.

    1.1. O CONCEITO DE TEMPO

    A nossa conceo sobre a categoria do tempo fortemente influenciada pelas de-finies das gramticas tradicionais. Os autores Cunha e Cintra (1984: 379) definem o tempo da seguinte forma:

    Tempo a variao que indica o momento em que se d o facto expresso pelo verbo. Os trs tempos naturais so o PRESENTE, o PRETRiTO (PASSADO) e o FUTURO, que designam, respectivamente um facto ocorrido no momento em que se fala, antes do momento em que se fala e aps o momento em que se fala.

    As concluses que podemos tirar desta definio so de que existe uma diviso em trs tempos bsicos: passado, presente e futuro. Usamos o tempo presente unica-mente para falar de um ato presente, e os outros do passado e do futuro, respetivamen-te. No estranha que optemos por definies deste tipo pois a tendncia do raciocnio humano simplificar e no complicar as coisas. No entanto, os exemplos em baixo podem desencadear algumas dvidas:

    1 Vale a pena recordar que o Portugus a nica lngua romnica a recorrer ao auxiliar TER.

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    (4) Ser o Paulo? (no momento de algum bater porta)(5) Para sudoeste, a Lapa, do sculo XVIII, uma rea de embaixadas e residncias elegantes.

    (Guia de Lisboa: 49)(6) Eu agora era um rei ... (numa brincadeira de crianas)

    Nas frases destes exemplos, os tempos gramaticais no coincidem com a reali-dade. O uso do futuro em (4) implica uma dvida, mas uma dvida que temos agora mesmo. No exemplo (5) usa-se o tempo presente para falar do passado, at de um pas-sado bastante remoto. Finalmente, em (6) aparece a forma do imperfeito para relatar uma realidade presente que inclui o momento da fala.

    De facto, a diviso tripartida dos tempos considerada tradicional nem sempre coincide com a realidade. Comeamos por distinguir a categoria do Tense, um con-ceito gramatical, e Time, que faz parte do mundo real. Observamos a sua presena de forma semelhante na nossa lngua materna,

    (7) A: Karolina jedzie do Anglii. A Carolina vai para Inglaterra. B: Kiedy? Quando? A: Za trzy dni. Daqui a trs dias.

    A pergunta do interlocutor implica que j h alguma dvida em relao ao mo-mento de realizao da actividade, que deve ser aclarada. Ento, o verbo no presente jedzie (port. vai) no expressa necessariamente uma perspetiva de simultaneidade.

    Fizemos estas observaes para sinalizar o fato da existncia de outros fatores que provavelmente desempenham um papel mais importante no ato de marcar uma referncia temporal. Nos nossos exemplos esta referncia realizada apoiando-se em outros marcadores lingusticos, p.ex. adverbiais de tempo: do sculo XVIII, agora, za trzy dni. Tambm, outros autores (entre eles Catarina de Silva Pereira (2009: 41), na sua tese de mestrado), destacam a importncia do

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