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AQUISIÇÃO DO CAMPO SEMÂNTICO DO TEMPO EM PLNM§ão... · IMP pretérito imperfeito do indicativo ... a alternância entre o pretérito perfeito simples e o ... actividades e exercícios

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Text of AQUISIÇÃO DO CAMPO SEMÂNTICO DO TEMPO EM PLNM§ão... · IMP pretérito imperfeito do indicativo...

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

AQUISIO

DO CAMPO SEMNTICO DO TEMPO EM PLNM:

Anlise de produes escritas e

correlao com estratgias de ensino/aprendizagem

BRUNA ISABEL JOAQUIM PLCIDO

Coimbra - 2010

http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.regiaocentro.net/germina/uc/gifs/logo_uc.gif&imgrefurl=http://www.regiaocentro.net/germina/uc/doc.html&usg=__3YJEw_LsA5Ii0BsQiotDnPUPJ_8=&h=155&w=101&sz=4&hl=pt-PT&start=84&um=1&tbnid=sVKy-C3Ol324GM:&tbnh=97&tbnw=63&prev=/images?q=logotipo+faculdade+de+letras+coimbra&ndsp=20&hl=pt-PT&rlz=1T4SUNA_enPT295PT295&sa=N&start=80&um=1

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

AQUISIO

DO CAMPO SEMNTICO DO TEMPO EM PLNM:

Anlise de produes escritas e

correlao com estratgias de ensino/aprendizagem

BRUNA ISABEL JOAQUIM PLCIDO

Dissertao apresentada como requisito parcial obteno do ttulo de

Mestre em Letras rea de Portugus como Lngua Segunda e

Estrangeira: Lingustica Aplicada

Orientadoras: Prof. Doutora Isabel Maria do Poo Lopes

Prof. Doutora Maria Joana Almeida Vieira Santos

Coimbra - 2010

http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.regiaocentro.net/germina/uc/gifs/logo_uc.gif&imgrefurl=http://www.regiaocentro.net/germina/uc/doc.html&usg=__3YJEw_LsA5Ii0BsQiotDnPUPJ_8=&h=155&w=101&sz=4&hl=pt-PT&start=84&um=1&tbnid=sVKy-C3Ol324GM:&tbnh=97&tbnw=63&prev=/images?q=logotipo+faculdade+de+letras+coimbra&ndsp=20&hl=pt-PT&rlz=1T4SUNA_enPT295PT295&sa=N&start=80&um=1

Dedico este trabalho aos meus pais, Antnio e Eva, que

sempre me apoiaram nesta longa caminhada e sem os

quais no teria alcanado esta meta.

AGRADECIMENTOS

s Profas

Doutoras Isabel Maria do Poo Lopes e Maria Joana Almeida Vieira Santos, a

quem estou muito agradecida por terem aceitado orientar esta dissertao e me terem apoiado ao

longo desta minha caminhada. Incentivaram-me nos momentos mais difceis e mostraram-se

sempre disponveis em orientar o meu trabalho, o que me permitiu aprender muito.

Manifesto ainda o meu reconhecimento ao Doutor Joo Domingues pela motivao que me

foi dando ao longo deste percurso.

O meu profundo agradecimento vai, de igual modo, para todos os colegas e amigos que me

ajudaram na concretizao desta pesquisa. Na verdade, toda a caminhada por mais longa e rdua

que seja torna-se mais enriquecedora quando temos quem nos oua nos momentos em que

precisamos de ser ouvidos; quem nos fale quando precisamos de ouvir, quem nos indique o

caminho quando nos sentimos perdidos, e, acima de tudo, quem ria e comemore connosco as

nossa vitrias. Entre eles, queria destacar os nomes de Larissa Queiroz e Patrcia Corazza.

Em ltimo lugar, vem a minha inestimvel gratido minha famlia, nomeadamente, aos

meus pais, irmo, avs maternos e padrinhos, por todo o apoio emocional e material que me

deram ao longo deste percurso. Agradeo-lhes o facto de terem suportado todas as minhas

angstias e por me terem ajudado a ultrapassar diversas barreiras. Sem a sua ajuda nos bons e,

sobretudo, nos maus momentos, no me teria sido possvel levar esta dissertao a bom termo.

Lista de Abreviaturas

IMP pretrito imperfeito do indicativo

LE lngua estrangeira

LNM lngua no materna

LM lngua materna

LS lngua segunda

ME momento de enunciao

MF momento de fala

PLE Portugus lngua estrangeira

PLNM Portugus lngua no materna

PPS pretrito perfeito simples do indicativo

RESUMO

Este trabalho pretende diagnosticar alguns processos de aquisio do campo semntico do

tempo, por parte de alunos de Portugus lngua no materna em fase inicial, em correlao com

as estratgias de ensino/aprendizagem usadas em contexto de sala de aula.

Para esse efeito, procedeu-se anlise da expresso de tempo em produes escritas,

manuais/suportes didcticos e estratgias de ensino/aprendizagem, tendo sido estas ltimas

objecto de inqurito realizado junto das trs docentes da disciplina de Composio, do 1

semestre do ano lectivo 2008/2009, do nvel Elementar do Curso Anual de Lngua e Cultura

Portuguesas para Estrangeiros.

Do ponto de vista do enquadramento, o estudo fundamenta-se em contributos tericos

sobre o campo semntico do tempo desenvolvidos por Benveniste (1966 e 1974), Weinrich

(1973) e Fonseca (1992). Por fim, o trabalho discute ainda a relevncia do papel do professor e

os efeitos da sua prtica pedaggica, propondo tarefas e estratgias mais indicadas a utilizar na

sala de aula.

Palavras-chave: ensino/aprendizagem; Portugus lngua no materna; campo semntico do

tempo; abordagens metodolgicas, tarefas; estratgias.

ABSTRACT

This study tries to identify some acquisition processes in the semantic field of time, in

students of Portuguese as a second language. Teaching and learning strategies in classroom

context are also discussed. The study analyses the expression of Time in written productions,

such as textbooks, teaching materials and beginners compositions. Teaching and learning

strategies are the object of a survey among 3 Composition teachers from the Elementary level of

the Annual Course of Portuguese Language and Culture for Foreign Students during the 1st

semester of the academic year 2008-2009. Theoretical aspects of the semantic field of time,

developed by authors such as E. Benveniste (1966 and 1974), H. Weinrich (1973) and F.

Fonseca (1992) are also included.

The study also proposes a discussion about the teacher role and its relevance as well as the

best tasks and strategies to be used in the classroom.

Keywords: teaching/learning; Portuguese as a second language; semantic field of time;

methodological approaches; tasks; strategies.

NDICE

AGRADECIMENTOS ________________________________________________________ 4

LISTA DE ABREVIATURAS __________________________________________________ 5

RESUMO ___________________________________________________________________ 6

ABSTRACT _________________________________________________________________ 7

INTRODUO ______________________________________________________________ 1

CAPTULO 1 - CONCEITOS OPERATRIOS __________________________________ 4

1. Introduo ________________________________________________________________ 5

2. Sistemas do tempo verbal ____________________________________________________ 7

3. Os tempos verbais do Portugus _____________________________________________ 10

3.1. Articulao entre PPS e IMP ______________________________________________ 11

4. Momento da enunciao ____________________________________________________ 13

5. Expresses adverbiais, complementos e modificadores __________________________ 14

6. Correlaes ______________________________________________________________ 17

7. Smula do captulo ________________________________________________________ 20

CAPTULO 2 - ANLISE DO CORPUS ________________________________________ 21

1. O corpus _________________________________________________________________ 22

1.1. Materiais recolhidos e a sua adequao ao estudo _____________________________ 22

1.2. Caractersticas gerais do corpus ____________________________________________ 24

1.3. Os informantes __________________________________________________________ 26

2. Anlise do corpus__________________________________________________________ 27

2.1. Parmetros de anlise ____________________________________________________ 27

2.2. Anlise das produes escritas _____________________________________________ 29

2.2.1. Domnio da morfologia verbal em tempo _________________________________ 29

2.2.2. Localizao temporal dos eventos no presente/passado/futuro _______________ 31

2.2.3. Uso de formas que ainda no foram aprendidas formalmente ________________ 34

2.2.4. Alternncia entre narrao/descrio (PPS/IMP) __________________________ 39

2.2.5. Estratgias utilizadas pelos aprendentes de PLNM _________________________ 41

2.3. Smula do captulo ______________________________________________________ 44

CAPTULO 3 - AS ESTRATGIAS DOS PROFESSORES NO

ENSINO/APRENDIZAGEM DO CAMPO SEMNTICO DO TEMPO ______________ 46

1. Abordagens didcticas _____________________________________________________ 47

2. Tarefas e actividades segundo a abordagem comunicativa _______________________ 50

3. Abordagens do campo semntico do tempo na aula de PLNM ____________________ 52

4. Recursos didcticos usados na aula de PLNM __________________________________ 58

4.1. Manuais didcticos_______________________________________________________ 58

4.2. Outros recursos usados ___________________________________________________ 68

CONCLUSO ______________________________________________________________ 77

BIBLIOGRAFIA____________________________________________________________ 81

ANEXO 1 - TEXTOS TURMA A ______________________________________________ 87

ANEXO 2 - TEXTOS TURMA B ______________________________________________ 99

ANEXO 3 - TEXTOS TURMA C _____________________________________________ 103

ANEXO 4 - INQURITO DA PROFESSORA DA TURMA A _____________________ 109

ANEXO 5 - INQURITO DA PROFESSORA DA TURMA B _____________________ 116

ANEXO 6 - INQURITO DA PROFESSORA DA TURMA C _____________________ 121

1

INTRODUO

A presente dissertao visa analisar a expresso do tempo em produes escritas por parte

de alunos de Portugus lngua no materna. A motivao deste estudo nasce da necessidade de

diagnosticar algumas das estruturas envolvidas no processo de aquisio do campo semntico do

tempo, por parte de aprendentes de uma fase inicial de PLNM, em correlao com as estratgias

de ensino/aprendizagem usadas pelas docentes em contexto de sala de aula.

O processo de ensino/aprendizagem de uma lngua estrangeira pressupe interaco

comunicativa, pois o objectivo de aprender uma outra lngua poder adquirir os meios que

permitam no s comunicar, mas tambm, interagir, compreender, confrontar-se com outra

cultura e, consequentemente, com outros cdigos, e ainda poder escolher o que se quer dizer e

abrir-se aos outros. Tal facto requer no s competncias de compreenso e produo oral, de

leitura e de escrita, como tambm o domnio da expresso do tempo (que se manifesta nas

formas verbais, nos advrbios ou em outros tipos de construo), domnio necessrio para que os

alunos, ao comunicarem, possam situar-se, situar eventos e situar o seu discurso. Tendo em conta

que os alunos de Portugus como lngua no materna precisam de pr em funcionamento as

diversas estruturas do Tempo envolvendo os seus diferentes subsistemas (morfolgico, sintctico

e semntico), justifica-se que este trabalho d destaque s produes de texto narrativo,

justamente aquele em que tais estruturas surgem em concatenao e com maior pertinncia. Estes

ltimos elementos revelam-se extremamente necessrios aos aprendentes de PLNM no momento

da produo escrita de um texto narrativo em Lngua Portuguesa, visto que sem o domnio destas

estruturas, dificilmente conseguiro produzir textos coerentes e coesos.

O trabalho teve por base a anlise de 39 produes escritas de 23 alunos do Curso Anual de

Lngua e Cultura Portuguesas para Estrangeiros, da Faculdade de Letras da Universidade de

Coimbra, recolhidas durante o ano lectivo 2008/2009 (anexos 1, 2 e 3). Este curso contempla

vrios nveis de proficincia (Elementar, Intermdio e Superior). Porm, no mbito desta

pesquisa, apenas se tiveram em conta as produes realizadas pelos alunos do nvel Elementar na

disciplina de Composio do 1 semestre, j que assim se consegue uma amostra mais uniforme.

Por outro lado, o nvel em causa pressupe uma evoluo rpida, o que permite comparaes de

vrios estdios da aprendizagem.

2

Assim, o presente estudo analisa os textos narrativos dos alunos, a fim de compreender

quais as estruturas de tempo adquiridas, como e por que motivos essas estruturas so utilizadas,

j que da maior relevncia entender o processo pelo qual o aluno passa durante a sua

aprendizagem de lngua estrangeira. tambm feita uma correlao com as estratgias, tarefas e

actividades usadas pelas docentes destes alunos.

Assim sendo, o trabalho encontra-se organizado do seguinte modo:

O captulo 1 apresenta, num primeiro momento, alguns conceitos operatrios que serviram

de referencial terico da presente dissertao: lngua segunda (LS); lngua estrangeira (LE);

Portugus lngua no materna (PLNM); interlngua; interferncia e transferncia. Num segundo

momento, e com o apoio das propostas de E. Benveniste (1966 e 1974), H. Weinrich (1973) e F.

Fonseca (1992), aborda-se a questo do campo semntico do Tempo, tendo por base os tempos

verbais e as expresses adverbiais de tempo em Portugus.

O captulo 2, para alm de se ocupar da explanao de questes metodolgicas (descrio

dos informantes, escolha e descrio dos instrumentos e procedimentos da recolha de dados),

tem como ponto essencial a anlise, interpretao e discusso dos dados. analisado, em

primeiro lugar, o modo como os aprendentes de PLNM demonstram, ou no, o domnio da

morfologia verbal na categoria do tempo (acessoriamente, quando pertinente, tambm a de

pessoa e modo). Analisa-se sobretudo o modo como localizam temporalmente os eventos no

presente, passado e futuro. Para isso, considera-se tambm o eventual uso de formas que ainda

no tenham aprendido formalmente; a alternncia entre o pretrito perfeito simples e o

imperfeito e o modo como usam expresses adverbiais de localizao temporal, alm das

estratgias que utilizam para ultrapassar as suas dificuldades de produo escrita.

Finalmente, o captulo 3 apresenta algumas consideraes sobre as abordagens didcticas,

os manuais e outros suportes didcticos utilizados no processo de ensino/aprendizagem do

campo semntico do tempo e discute ainda, tendo por base os inquritos realizados junto das

docentes das turmas dos informantes considerados, a relevncia do papel do professor, bem

como os efeitos da sua prtica pedaggica (anexos 4, 5 e 6). Este captulo aborda, de igual modo,

algumas tarefas, actividades e exerccios baseados em textos autnticos que faam apelo

comunicao.

3

Em suma, este trabalho procura constituir um contributo para a anlise da expresso do

tempo em produes escritas de aprendentes de PLNM, a fim de mostrar de que forma se

manifesta o processo de aquisio/aprendizagem do campo semntico do tempo. Procura ainda

analisar quais os mtodos, suportes didcticos e estratgias usadas, assim como identificar quais

as tarefas e actividades motivadoras para o ensino/aprendizagem desta estrutura to complexa e

to necessria, aquando da interaco do aprendente com o nativo da lngua-alvo.

Captulo 1 - Conceitos operatrios

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

5

1. Introduo

Como foi dito, o estudo e anlise da expresso do tempo em produes escritas de alunos

de Portugus como lngua no materna surge da necessidade de diagnosticar qual o respectivo

processo de aquisio/aprendizagem, em correlao com as estratgias de ensino/aprendizagem

usadas em contexto de sala de aula. Para este efeito, e, sobretudo, para compreender de que

forma as produes dos alunos foram analisadas (cf. Cap. 2, 2.2), importante ter em conta

alguns conceitos operatrios.

Para o caso especfico do Portugus, lngua objecto deste trabalho, h que ter em conta

aquilo a que se chama produtos lingusticos, conhecidos atravs das expresses Lngua Segunda

(LS) e Lngua Estrangeira (LE).

O contraste entre LE e LS pode ser definido da seguinte maneira: o conceito LS utilizado

para classificar a aquisio e/ou aprendizagem e o uso de uma lngua no materna (LNM)1, no

interior de fronteiras territoriais em que esta tem um papel reconhecido. O conceito de LE, por

seu lado, normalmente usado para falar da aquisio/aprendizagem e do uso de uma lngua em

espaos onde esta no tem nenhum estatuto sociopoltico (Stern, 1983:16).

Assim sendo, e na maior parte dos casos, a LS uma das lnguas oficiais que permite aos

indivduos fazerem parte da vida poltica e econmica do pas, e a lngua, ou uma das lnguas,

da escola. Como a lngua do pas, disponibiliza muito input2, da que possa ser aprendida sem

recurso ao ensino formal.

Pela mesma razo que, no ensino de LE, se tem manifestado interesse em elaborar

materiais que consigam vir a colmatar a falta de input apropriado, muitos aprendentes de LEs

resolvem passar algum tempo num pas onde a lngua-alvo seja falada, precisamente com a

mesma finalidade: ficar em contexto de imerso, o que, conciliado com a aprendizagem formal,

potencia o processo de aquisio.

1 Entende-se por lngua materna: a lngua em que uma criana estabelece a sua primeira gramtica que ser, de

seguida, reestruturada e desenvolvida em direco gramtica dos adultos da comunidade a que pertence. Cf.:

Documento Orientador Portugus Lngua No Materna no Currculo Nacional, do Ministrio de Educao, 2005. 2 Entende-se por input toda a informao que se consegue processar numa lngua estrangeira; uma grande exposio

lngua-alvo ir aumentar o vocabulrio passivo do aprendente, que passa, assim, a ter um melhor entendimento da

lngua em questo: The input and interaction approach takes as its starting point the assumption that language

learning is stimulated by communicative pressure, and examines the relationships between communication and

acquisition and the mechanisms (e.g., noticing, attention) that mediate between them (Gass, 2003: 224).

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

6

No caso dos informantes deste estudo, isto , alunos que frequentaram o Curso Anual de

Lngua e Cultura Portuguesas para Estrangeiros, da Faculdade de Letras de Coimbra, no ano

lectivo 2008/2009, difcil dizer se se trata de aprendentes de Portugus LE ou de Portugus LS,

porque se encontravam tanto em situao de PLE como em situao de PLS. Por este motivo, ao

longo do trabalho, opta-se pelo termo Portugus lngua no materna (PLNM), termo mais neutro

e abrangente.

Devido ao facto acima referido, igualmente pertinente para a anlise das produes

escritas dos alunos de PLNM relembrar o conceito de interlngua que foi desenvolvido por

Selinker (1969), para designar a lngua dos falantes no nativos. Trata-se de um sistema

lingustico estruturado e organizado, prprio de uma certa etapa na aprendizagem de uma LE;

um idiolecto natural na LE, ou seja, a verso particular e provisria que o aprendente possui da

LE. Julga-se que o aprendente perfaz um trajecto que parte do conhecimento que tem da sua LM,

com o intuito de alcanar a proficincia desejada na lngua-alvo. Para percorrer este caminho, o

aprendente vai arquitectando uma sucesso de gramticas intermdias, constitudas de regras

nicas, baseadas na sua LM, mas que so distintas tanto desta, quanto da lngua-alvo. Pensa-se

que, durante este processo de aquisio, tais regras se vo reformulando progressivamente,

aproximando-se assim da gramtica da lngua-alvo. A interlngua , pois, um sistema

intermedirio entre a LM e a lngua-alvo, que passa por diferentes fases. At que o aluno consiga

chegar s estruturas que um falante nativo usaria, pode transferir regras da sua LM para essa

lngua-alvo (cf., por exemplo, Gass e Selinker, 1993).

Os aprendentes usam, deste modo, a interlngua no s como um meio de aprender uma

outra lngua alm da materna, mas tambm como forma de comunicar e de se fazerem entender

por parte dos falantes nativos. A interlngua comporta, no fundo, diversos estdios lingusticos

que se vo construindo ao longo do processo de aquisio e que partilham certas caractersticas

que se correlacionam.

Neste processo de aquisio da lngua no materna, afigura-se pertinente relembrar, por

isso, o conceito de interferncia, entendido como ocorrncia de formas caractersticas da lngua

materna do indivduo na lngua-alvo, que provoca desvios visveis a nvel da pronncia, do

vocabulrio, da estruturao de frases, bem como do plano idiomtico e cultural. A interferncia

perturba, deste modo, todos os nveis dos subsistemas lingusticos que se encontram em contacto,

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

7

desde o fnico ao morfossintctico e ao lexico-semntico, ainda que alguns sejam mais

permeveis do que outros, como o caso do nvel lexical (Weinreich, 1964).

J no que toca transferncia, pode dizer-se que este conceito representa o

aproveitamento das competncias lingusticas prvias de cada aprendente, no processo de

aprendizagem de uma LE. Ocorre, deste modo, predominantemente, entre lnguas com um alto

grau de semelhana. A transferncia , ento, um mecanismo de facilitao que usa por

emprstimo itens e traos da L13 como estratgia comunicativa e que, quando bem sucedido,

conduz incorporao na interlngua (Leiria, 2006: 103).

Ver-se-, no Cap. 2, que produes do mesmo aluno revelam estdios diferentes da

aprendizagem de PLNM, podendo, por isso, revelar a constituio de interlngua, tal como vrias

produes indiciam transferncias ou interferncias de outras lnguas.

Aps esta breve explicao de conceitos, procura-se compreender como est organizado o

sistema verbal em Portugus e descrever as estruturas que sero consideradas no mbito desta.

2. Sistemas do tempo verbal

Esses mundos possveis no preexistem ao acto de referncia nem existem

independentemente dele: o prprio acto de referncia que os faz existir. Significar no

representar um mundo preexistente, configurar mundos possveis e conferir-lhes

uma existncia textual. (Fonseca, 1992: 92)

Para alm destes conceitos, no quadro do presente trabalho, torna-se, de igual modo,

imprescindvel definir as estruturas temporais que se julgaram pertinentes para a anlise das

produes textuais dos aprendentes de PLNM. Cr-se, por isso, que fundamental analisar as

correlaes existentes entre o uso dos tempos verbais e o tipo de texto, nomeadamente, o

narrativo.

Tomam-se como ponto de partida as propostas de Benveniste (1966 e 1974), Weinrich

(1973) e Fonseca (1992), que se revelam fundamentais para o propsito deste trabalho.

3 L1 a abreviao usada por Leiria (2006) para designar lngua materna. No presente trabalho, porm, esta ser

designada simplesmente por LM.

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

8

No se pode esquecer que o verbo, para alm de ser uma palavra de aco, tambm

uma palavra temporal e que a narrao um texto temporal, ou seja: uma forma discursiva

que no s implica o tempo mas tambm o produz (Fonseca, 1992: 163).

, sem dvida, o texto narrativo que nos permite arquitectar os universos temporais para se

poder retratar o modelo temporal da aco humana. Por isso, relevante analisar de que forma

que os alunos de PLNM usam os tempos verbais naquele tipo de texto.

sabido que os tempos verbais tm sido objecto de estudo de muitos investigadores ao

longo dos anos, e poder-se- mesmo afirmar que j se ultrapassou uma viso simplista do tempo

dividido entre antes e depois. neste campo que se inserem autores como Benveniste e

Weinrich, que interpretam os tempos verbais como marcas de diferentes modos de enunciao. O

tempo lingustico, categoria dectica, estabelecido pela actividade lingustica e representa a

noo de Tempo: ce que le temps linguistique a de singulier cest quil est organiquement li

lexercice de la parole, quil se dfinit et sordonne en fonction du discours (Benveniste, 1974:

73). Para Benveniste, o tempo lingustico difere do tempo cronolgico e do tempo fsico. Este

ltimo o tempo do mundo contnuo, uniforme e linear. O tempo cronolgico o tempo vivido,

o tempo dos acontecimentos, disposto socialmente atravs de calendrios. Por seu turno, o tempo

lingustico o tempo estabelecido, pelo locutor, no momento da enunciao, aceite e

compartilhado pelo seu interlocutor.

O verbo insere-se na categoria gramatical que possibilita dar um significado aos objectos

que se conhecem de um modo activo, com aluso ao tempo. (Fonseca, 1992: 175). Dito por

outras palavras, ao tentar interpretar as implicaes temporais e express-las que o locutor

decide entre a multiplicidade de formas adoptadas pelo verbo. sabido que o paradigma verbal

possui muito mais formas do que aquelas que seriam realmente necessrias para configurar

uma representao tripartida4 do tempo, da que se perceba que a representao lingustica do

tempo no unilinear, mas sim ramificada: na base da ramificao temporal dectica est a

transposio fictiva do marco de referncia enunciativo, noo que indispensvel ter em conta

quando se procura compreender a estrutura e funcionamento do sistema verbal (Fonseca, 1992:

165), (ver infra).

4 Quando se menciona representao tripartida do tempo, quer-se referir especificamente a diviso temporal entre

presente, passado e futuro.

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

9

As lnguas apresentam, na sua estrutura formal, um elevado nmero de termos com funo

dectica, que formam, assim, um conjunto denominado por Benveniste, "dispositivo formal da

enunciao" (Benveniste, 1974). Este dispositivo certifica a inscrio do sujeito na lngua e a

gnese interaccional da linguagem, pois o sistema formal das lnguas no antecipa o uso, antes

um resultado desse mesmo uso, como sublinha Lyons: "H muita coisa na estrutura das lnguas

que s pode ser explicada se se assumir que elas se constituram para a comunicao em

situaes de interaco face a face" (Lyons, 1977: 637).

A deixis temporal, relevante para o presente trabalho, visto que se pretende analisar a

expresso do tempo em produes escritas de alunos de PLNM, est relacionada com o momento

da enunciao o agora como marco de referncia para a localizao temporal. Nesta

situao, o tempo, tal como considerado atravs da linguagem, de natureza dectica: presente,

passado e futuro no so noes absolutas, antes se referem ao momento de enunciao. Por

exemplo, a acepo semntica de advrbios temporais como hoje, ontem, amanh, ou de tempos

verbais como estou, estive, estarei, subentende uma identificao pragmtica dependente do

momento da enunciao.

sabido que no se pode mover o marco de referncia enunciativa: la langue doit par

ncessit ordonner le temps partir dun axe, et celui-ci est toujours et seulement linstance du

discours. Il serait impossible de dplacer cet axe rfrenciel pour le pass dans le pass ou dans

lavenir (Benveniste, 1974: 74). Considera-se, ento, o tempo lingustico uma categoria dectica,

porque as noes lingusticas do presente, passado e futuro so inerentes prpria actividade

discursiva, so interiores linguagem e independentes de qualquer noo de tempo concebida

como anterior (exterior) lngua (Fonseca, 1992: 175-176).

Porm, a linguagem no unicamente utilizada para referir acontecimentos tidos como

reais. possvel inventar, logo, pode-se deslocar fictivamente esse eixo referencial de que fala

Benveniste para o configurar numa poca passada, futura ou ainda que tenha uma relao

indefinida com o presente. Da que, para entender a complexidade da rede de relaes temporais

criada pela linguagem, o sujeito tenha de ramificar e multiplicar as relaes temporais de

ordem (anterioridade, simultaneidade e posteridade (cf. quadro infra), visto que as pode

referenciar tanto em relao ao marco de referncia enunciativo como a marcos de referncia

secundrios que so diferentes e indirectamente dependentes da situao de enunciao.

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

10

3. Os tempos verbais do Portugus

As expresses passado, presente e futuro, apesar de tambm designarem o

carcter anterior ou posterior dos acontecimentos, so simbolizaes conceituais

relativas a relaes no causais. Aqui, uma certa maneira de viver as sequncias de

acontecimentos includa na sntese conceitual. (...) O que constitui o passado funde-se

sem ruptura com o presente, assim como este se funde com o futuro. Podemos ver isso

com clareza quando o futuro, transformado em presente, transforma-se, por sua vez, em

passado. somente na experincia humana que se encontram essas grandes linhas

demarcatrias entre hoje,ontem e amanh. (Elias, 1984: 66)

Os tempos verbais operam como sinais de diversos gneros de discurso, o que indica a sua

importncia enquanto formas decticas. No que diz respeito funo dos tempos verbais como

marcos da enunciao no enunciado, Benveniste e Weinrich inserem uma distribuio dos

tempos do indicativo em dois subsistemas, ou seja, um constitudo pelos tempos prprios do

modo de enunciao discours , e outro pelos tempos verbais prprios do modo da

enunciao histoire ou rcit.

Deste modo, a narrao :

um modo de enunciao fictivo por ser produto da fico enunciativa que consiste em

fazer de conta que pode haver marcos de referncia no coincidentes com a instncia

enunciativa presente porque transpostos para uma situao ausente, que pode ser um

futuro possvel, um passado real ou um irreal imaginrio indiferente ao tempo. A noo

de fico que, em sentido corrente, s se aplica a este ltimo caso, , num sentido

lingustico, aplicvel a todas as formas de ramificao dectica, de projeco fictiva do

marco de referncia enunciativo (Fonseca, 1992: 219).

Tendo em conta que os tempos so operadores de uma referncia temporal em relao ao

agora da enunciao, funcionam de igual modo como factores de uma transposio

referencial, porque podem elaborar um marco de referncia fictivo, o que vai fazer com que a

enunciao seja aceite, referindo-se assim a um no-agora, ou seja, a uma possibilidade de se

aludir a um momento distinto. Pode-se ento referir-se ao tempo segundo dois marcos, o do

agora e o do no-agora.

Contudo, para isso, tambm necessrio que se faa a diferena entre referncia temporal

directa e indirecta, o que possvel recorrendo a advrbios e locues temporais.

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

11

Consequentemente, agora, hoje, ontem, amanh, h trs dias, constituem decticos indiciais,

com referncia temporal directa ao momento da enunciao, e tm como correlativos os decticos

temporais anafricos, estes indirectamente referenciados, nomeadamente, ento, na vspera, no

dia seguinte, trs dias antes, entre outros.

A par do domnio destes mecanismos semntico-pragmticos, a aquisio do tempo e, em

particular, o uso das expresses temporais (formas verbais ou advrbios), requer dos alunos de

PLNM, como j se disse anteriormente, o domnio dos subsistemas morfolgico e sintctico,

necessariamente utilizados no momento da produo de um texto escrito.

Por isso, a anlise das produes textuais destes alunos de PLNM deve permitir identificar

marcas desse processo de aprendizagem, a forma como os sistemas se configuram na gramtica

de cada aprendente e as marcas das interferncias e/ou transferncias que as lnguas conhecidas

suscitam que tanto podem ser positivas como negativas.

3.1. Articulao entre PPS e IMP

As correlaes entre passado e fico ficam mais claras se forem consideradas no

enquadramento textual da narrao. A interseco entre passado e fico tem a ver com o facto

de se localizar no passado a narrao da fico. O tempo que melhor consegue produzir este

efeito o Pretrito Perfeito Simples do Indicativo (PPS). Da que a anlise da expresso do

tempo em produes escritas de alunos de PLNM torne imprescindvel compreender a interaco

entre Pretrito Perfeito e Imperfeito do Indicativo (IMP), aquando da produo de um texto

narrativo.

Fonseca (1992: 222), no que diz respeito ao PPS, partilha a opinio de Ricoeur (1984:

112): les temps du pass disent dabord le pass, puis, par une transposition mtaphorique qui

conserve ce quelle dpasse, ils disent lentre en fiction sans rfrence directe, sinon oblique, au

pass en tant que tel. Assim, e pela posio que o PPS ocupa na estrutura do sistema verbal, as

especificidades que possui fazem com que pertena ao mundo da iluso referencial: () un

monde construit, labor, dtach, rduit des lignes significatives, et non un monde jet, tal,

offert (Barthes, 1953: 47).

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

12

Por outro lado, quando se fala do passado, tem-se que, indiscutivelmente, falar do IMP

que se correlaciona perfeitamente com o PPS; nestes dois tempos que assenta, em grande parte,

a estrutura temporal da narrao. Assim sendo, e retomando as palavras de Barthes, se o PPS o

monde construit, labor, dtach, rduit des lignes significatives, o IMP o tempo que vai

servir de ponte entre o mundo construit do pretrito perfeito e o monde jet, tal, offert.

Deste modo, fundamental ver a oposio existente entre IMP e PPS na narrao, que

normalmente considerada como sendo o resultado de uma oposio aspectual: o IMP durativo

e imperfectivo, um tempo que enquadra o PPS, que aspectualmente pontual e perfectivo.

O IMP e o PPS so ambos tempos da narrao, mas diferentes tanto no que diz respeito ao

seu valor aspectual, como nas implicaes modais da sua distinta funo dectica. Um texto onde

todos os verbos apaream no PPS considerado uma narrativa sem cenrio, um gnero de

narrao onde so privilegiadas a sequencialidade e a enumerao dinmica de factos. J o texto

em que todos os verbos estejam no IMP no suficiente para que possa ser considerado uma

narrativa, considerado apenas como um comeo, uma sugesto de narrativa que est

permanentemente em suspenso. Usar nica e somente o IMP indica que se est perante uma

narrao virtual que fica em suspenso. A narrao s seria possvel se aparecesse o PPS, tempo

que refere temporalmente os eventos narrados e, assim, capaz de responder ao pedido virtual de

um marco de referncia inerente ao uso do IMP. Logo, se o PPS regulariza a actualizao do

IMP, o IMP narrativo condiciona, de certa forma, o PPS, porque requer um cenrio para a sua

entrada.

de considerar ainda o efeito de correlao modal entre estes dois tempos (um actual,

outro inactual): esta interdependncia materializa-se tambm na alternncia entre a abertura

para a fico e a fico assumida como conveno (Fonseca: 1992). A imagem de cenrio

utilizada por Weinrich estende-se ao segundo aspecto da funo do IMP, pois o uso deste tempo

prepara a expectativa, faz com que se coloquem perguntas implcitas acerca de onde-quando-

como, ou seja, sobre a identificao obrigatria de um aqui-agora-assim.

Ao tentar analisar e compreender as produes dos alunos de PLNM e perceber as

informaes temporais veiculadas, deve-se ter em conta que se podem separar os verbos em duas

categorias, nomeadamente, em tempos dinmicos e em tempos estticos. Ora, uma

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

13

sequncia de frases no IMP do indicativo num texto narrativo indica que o MR (momento de

referncia) o mesmo para todas as frases, o que produz um efeito de descrio.

Ao invs, se se estiver perante uma sequncia de frases no PPS do indicativo percebe-se

que se est perante uma referncia a factos sucessivos. Aqui reside a diferena entre estes dois

tempos verbais, o que constituiu uma das principais dificuldades dos aprendentes de PLNM5.

Deste modo, a articulao entre estes dois tempos obriga os aprendentes de PLNM a

organizar as suas narrativas e a sua expresso, porque, como sabido, a expresso das relaes

de temporalidade tem um nmero infinito de combinaes possveis de recursos lexicais,

sintcticos e morfossintcticos.

4. Momento da enunciao

por este motivo que se considera pertinente, para a anlise das produes dos

aprendentes de PLNM, relembrar que Reichenbach (1947) aponta como caracterstica

fundamental dos morfemas de tempo a capacidade de relacionar cronologicamente trs

momentos que so relevantes para a sua compreenso, nomeadamente:

- o momento da fala (speech time);

- o momento da realizao da aco expressa pelo verbo (event time);

- o momento da referncia (reference time).

Rodolfo Ilari (2001) considera a proposta de Reichenbach muito interessante, porque

responde a duas exigncias:

a) em primeiro lugar, fornece instrues para situar o momento de evento, isto , para

localizar no tempo a ao expressa pelo verbo. E esse , intuitivamente, o objetivo

ltimo do uso dos tempos verbais;

b) em segundo lugar, ao levar sistematicamente em conta o momento da fala,

confirma a intuio corrente de que o fundamento direto e indireto da interpretao das

formas verbais flexionadas em tempo a dixis, isto , a referncia prpria situao de

enunciao. De facto, os tempos do verbo compartilham com os dicticos mais tpicos

os pronomes de primeira e segunda pessoa e os demonstrativos isto, isso e aquilo a

capacidade de identificar realidades (no caso, os momentos e perodos de tempos em

5 No caso concreto de aprendentes de Lngua Inglesa, por exemplo, a transferncia difcil, por no existir, em

Ingls, um correspondente directo ao nosso imperfeito. Poder surgir ento interferncia (cf. 1. e Cap. 2.).

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

14

que ocorrem as aes e os estados expressos pelo verbo) localizando-as relativamente

ao ato de fala. (Ilari, 2001: 14-15)

Percebe-se, assim, a importncia de os alunos de PLNM se guiarem por um momento de

referncia para proceder escolha correcta do tempo verbal. Neste caso particular, nem sempre a

forma verbal o marco de referncia, uma vez que, em estdios elementares de domnio do

PLNM, os aprendentes parecem apoiar-se preferencialmente em expresses de tipo adverbial que

so lexicais e, portanto, mais fiveis (cf. Cap. 2, 2.2.1).

5. Expresses adverbiais, complementos e modificadores

Como este trabalho visa analisar a expresso e a aquisio do campo semntico do tempo

por parte de alunos de PLNM, torna-se relevante elencar os complementos adverbiais usados na

localizao de um evento. Sempre que um locutor produz um acto de fala, sente a necessidade de

ter um ponto de referncia no real, que pode ser dado pela situao de fala, ou pela seleco de

um ponto de referncia ao qual o locutor e o interlocutor tm acesso. aqui que se encaixa a

distino de Benveniste (1966), segundo o qual os referidos complementos, ancorados na

enunciao, so um caso de deixis, e os outros, um caso de identificao pelo co-texto.

Benveniste explica isto atravs do contraste6:

Hoje ontem amanh agora

_____________________________________________________________________ etc.

Naquele dia na vspera no dia seguinte ento

Tendo em conta que, no presente trabalho, j se distinguiram os processos da deixis e da

anfora a propsito dos tempos verbais (ver 3.), torna-se mais fcil perceber agora que uma parte

dos complementos e modificadores de tempo pode ser utilizada quer de forma anafrica, quer de

6 As expresses apresentadas foram traduzidas por ns.

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

15

forma dectica, ao passo que outros so exclusivamente decticos, e outros ainda exclusivamente

anafricos. Ilari (2001: 22) apresenta um quadro que mostra exactamente essa possibilidade.

Quadro 1

Adjuntos7 que localizam eventos

Por deixis Por anfora

Anterioridade

()

No meu tempo

Faz que

H

O ano passado

Ultimamente,

Recentemente

Ontem

Vinte anos atrs

No tempo de

Fazia que

Havia

O ano anterior

Na vspera

Antes, anteriormente

Simultaneidade

Agora, actualmente

Este ano

Ento

Aquela semana

()

Posterioridade

No prximo

Neste ano de

Agora na Semana Santa

Amanh

Amanh ou depois

O ano que vem

Daqui a

()

Futuramente

()

Posterioridade

Depois, mais adiante

Em breve, logo

Qualquer dia

Novamente

Cada vez mais

7 Note-se que Ilari usa outra terminologia; refere-se a adjuntos e no a complementos marcadores do discurso.

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

16

No quadro proposto por Ilari pode-se ver qual a relao de cronologia estabelecida com o

momento da fala, que pode ser de trs tipos: de anterioridade, de simultaneidade e de

posterioridade. Deste modo, o complemento localiza o acontecimento no presente, no passado ou

no futuro, podendo ainda faz-lo de forma dectica (referenciao directa) ou anafrica

(referenciao indirecta) em relao ao momento da enunciao.

ainda de realar que o uso de certos advrbios ou de certas construes adverbiais se faz

em relao implcita com o momento de enunciao. Existem locues adverbiais que referem o

passado ou o futuro integrados em perodos de tempo, os quais tambm pertencem ao momento

de enunciao: esta manh, esta tarde, esta noite, hoje, esta semana, este ms, este ano, entre

outros:

(1) Esta tarde vou ao museu.

(2) Este ms fui duas vezes ao teatro.

A Lngua Portuguesa apresenta tambm advrbios e construes de tipo adverbial que

indicam um futuro ou um passado prximo do momento de enunciao e se encontram

localizados no dia da enunciao ou referenciados por ele: agora, j, imediatamente,

actualmente, daqui a bocado, esta semana, esta tarde, esta noite, logo ( tarde, noite, ao meio-

dia).8

Existem ainda locues adverbiais que esto de acordo com perodos de tempo passados ou

futuros relacionados com o momento de enunciao; ainda que no sejam localizados no mesmo

dia desse ME, so, de igual modo, todos decticos: ontem, amanh, no sbado, na semana

passada, no ms que vem, no dia 2 de Junho, para o ano:

(3) No dia 2 de Junho fui a Lisboa.

Certos advrbios e expresses adverbiais localizam os enunciados quanto a pontos de

referncia no futuro ou no passado, existindo trs tipos, como j se viu mais acima no quadro

proposto por Ilari:

Anterioridade: antes, primeiro, no dia anterior, na vspera.

(4) Cheguei a Coimbra no domingo. No dia anterior tinha estado em Lisboa.

8 Logo (com sentido temporal e no conclusivo) refere um futuro prximo do momento de enunciao, mas no

imediato: Ex: Logo ( noite) vou ao teatro.

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

17

Simultaneidade: nessa altura, nesse dia, nessa tarde, naquele ms (s passado)9, ento.

(5) Chegmos a Coimbra no domingo. Nesse dia estava a chover.

Posterioridade: no dia seguinte, no ms seguinte, a seguir, entre outros.

(6) Vamos visitar Coimbra em Julho. E no ms seguinte vamos para o Porto.

(7) Estivemos em Lisboa em Junho e depois fomos para o Algarve.

de constatar que nestes exemplos se encontram referenciaes decticas seguidas de

referenciaes anafricas. Portanto, se se teve em ateno estas correlaes entre as expresses

adverbiais de tempo e o ME, foi pelo facto de serem de extrema utilidade para os aprendentes de

PLE. Assim, podem escrever um texto narrativo coerente e coeso, pois so estes tipos de

correlaes entre expresses adverbiais e pontos de referenciao que lhes vo permitir

comunicar na lngua-alvo.

6. Correlaes

Quando advrbios ou expresses adverbiais co-ocorrem com certos tempos verbais,

possvel que se venham a encontrar novos valores. Por exemplo, quando o presente do indicativo

assume o valor de presente histrico ou de presente futuro:

(8) Em 1930, comea a Segunda Guerra Mundial.

(9) Amanh eu leio esse artigo.

Como explicar os valores temporais de cada morfema verbal de tempo? Ilari (2001: 25)

prope duas alternativas:

a) Uma primeira alternativa consiste em considerar cada um dos tempos dos verbos como expressando um valor bsico, sobre o qual os adjuntos operariam para dar origem

aos valores que prevalecem no uso concreto de sentenas;

b) Uma segunda alternativa consiste em considerar as formas verbais (algumas pelo menos) como intrinsecamente polissmicas, e em estabelecer em seguida restries

de seleco apropriadas, envolvendo os adjuntos e os vrios sentidos que compem a

lista de valores do morfema temporal.

A segunda alternativa demonstra que as formas verbais so, em essncia, polissmicas,

quer isto dizer que se no tiverem um contexto que esclarea o seu sentido, podem tornar-se

ambguas, o que constitui sempre factor de maior dificuldade para o aluno de PLNM.

9 Com o demonstrativo aquele, a locuo adverbial unicamente usada para situar em relao ao passado.

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

18

Ao aprender Portugus como lngua no materna, os alunos deparam-se ainda com

ocorrncias dos tradicionalmente chamados verbos auxiliares10

, ou seja, uma classe de verbos

que fornece informao semntica adicional ao verbo principal11

, acrescentando informaes

sobre tempo, nmero e pessoa a esse mesmo verbo (cf. Mateus et alii, 2003: 303). Os verbos

auxiliares podem classificar-se em auxiliares dos tempos compostos, da passiva, temporais,

aspectuais ou modais. Tendo em conta a natureza do presente trabalho, consideram-se

unicamente os verbos auxiliares de tempo e a construo perifrstica aspectual estar a +

infinitivo, por ser de uso muito frequente em portugus. Os alunos de PLNM aprendem desde

muito cedo que esta construo tem por caracterstica principal exprimir uma situao em curso,

ou seja, representa acontecimentos que esto a decorrer (cf. Mateus et alii, 2003: 146):

(10) A Ana est a ler um livro.

(11) O Joo est a comer um bolo.

No que toca aos auxiliares de tempo, estes podem formar, com o verbo principal, um

complexo verbal com o verbo principal no infinitivo, com valor de futuro, por exemplo. Os

aprendentes de PLNM aprendem tambm, relativamente cedo, que o verbo ir e a construo

haver de seguidos de um verbo no infinitivo so auxiliares temporais. A construo ir +

infinitivo apresenta um sentido de realizao futura:

(12) Vou estudar um pouco para o exame aqui na sala de estar.

(13) A Maria disse que ia estudar um pouco para o exame.

(14) Vou ler.

Por seu turno, a construo haver de + infinitivo confere um sentido de propsito com

valor de certeza, ou, pelo menos, de grande probabilidade, frase:

(15) Hei-de estudar um pouco para o exame.

(16) A Maria disse que havia de estudar um pouco para o exame.

(17) Hei-de conseguir.

10

Optou-se por seguir a nomenclatura tradicional, j que na terminologia de Mateus et alii (2003) se fala em auxiliares e semiauxiliares, para os casos tradicionalmente apelidados de auxiliares. 11

Verbo principal: verbo de significao plena, nuclear de uma orao. Ex. A Maria come o bolo. (cf. Mateus et alii,

2003: 296).

http://pt.wikipedia.org/wiki/Sem%C3%A2ntica

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

19

Os aprendentes recebem tambm a informao de que os verbos auxiliares que se utilizam

com mais frequncia so: ir; vir; andar; dever; estar; deixar; ter; haver; comear; acabar;

continuar. Assim sendo, verifica-se que os verbos auxiliares temporais e aspectuais so

apresentados, aos alunos de PLNM, atravs da expresso de fases de processo, para que saibam

quais as diferenas entre as construes de verbos auxiliares. Por conseguinte, a aprendizagem

destas perfrases no incide apenas sobre o tempo, mas sobre o tempo/aspecto, em

concomitncia, o que j indicia que estamos perante uma abordagem mais holstica da aquisio

do campo semntico do tempo em PLNM.

Durante o processo de ensino/aprendizagem de PLNM, os alunos deparam-se tambm com

verbos que expressam lexicalmente o tempo. Ao contrrio dos verbos auxiliares, que esto

ligados ao verbo principal, estes verbos, pelo seu estatuto e sentido, exigem um complemento

com valor lexical de tempo, que obrigatrio.

Exemplos de verbos que exprimem lexicalmente o tempo so: durar, demorar, tardar,

atrasar, adiantar, antecipar. Veja-se alguns exemplos:

(18) O filme durou duas horas.

(19) O espectculo demorou trs horas.

(20) A Maria tardou em responder carta que lhe enviei a semana passada.

(21) O comboio atrasou-se 15 minutos.

(22) O relgio est adiantado 5 minutos.

(23) O Andr antecipou a viagem dois dias.

Ao ler estas frases, v-se que cada um dos verbos carrega em si uma noo temporal. Estas

observaes tornam-se pertinentes, na medida em que tanto estes como os anteriores (auxiliares

temporais) so usados aquando da elaborao de um texto. Por conseguinte, as produes

escritas dos alunos de PLE (cf. Cap. 2) revelam que, efectivamente, estes j adquiriram este

conceito:

(24) O autocarro estrava atrasado de horrio e andava com muita pressa. (T27/L).

CAPTULO 1 CONCEITOS OPERATRIOS

20

7. Smula do captulo

Ao longo deste captulo, procurou-se definir alguns conceitos operatrios que

fundamentam a anlise do processo de aquisio do campo semntico do tempo em correlao

com as estratgias de ensino/aprendizagem usadas em sala de aula. Procurou-se igualmente

descrever a organizao do sistema verbal em Portugus e delimitar metodologicamente as

estruturas que sero objecto de estudo nesta dissertao.

Pretende-se, desta forma, estabelecer uma base para compreender como os conceitos

operacionais elencados so utilizados pelos alunos de PLNM na aquisio do campo semntico

do tempo (formas verbais, nomeadamente, a expresso do passado; advrbios e outros tipos de

construo), assim como quais as estruturas que usam preferencialmente em detrimento de

outras. No entanto, antes de se poder responder a estes itens, feita, num primeiro momento, a

descrio do corpus e s depois se proceder sua anlise propriamente dita.

Captulo 2 - Anlise do Corpus

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

22

1. O corpus

Neste aparentemente simples facto de dizer o que digo, a quem digo, como e quando,

envolvo necessariamente uma operao de escolha de contedo e de formas que me

permita construir e veicular um significado que assegure um grau razovel de satisfao

dos objectivos que me proponho ao falar. (Hub Faria, 1986: 547)

1.1. Materiais recolhidos e a sua adequao ao estudo

O corpus que serve de base a este trabalho foi recolhido a partir de produes escritas dos

informantes, escolhidos entre os estudantes que frequentaram o Curso Anual de Lngua e Cultura

Portuguesas para Estrangeiros, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (no qual se

inscreveram, no ano lectivo de 2008/2009, 201 alunos)12

. No 1 semestre, 51 alunos

frequentaram o nvel Elementar, 25 estiveram no nvel Intermdio e 14 no nvel Superior. No 2

semestre, o mesmo curso teve 61 estudantes no nvel Elementar, 38 no nvel Intermdio e 12 no

nvel Superior.

A opo de restringir a populao de informantes ao nvel Elementar, como j se disse na

introduo, deve-se ao facto de um grupo mais uniforme pressupor uma evoluo mais rpida, o

que permitir fazer comparaes de vrios estdios de aprendizagens. Na verdade, qualquer

estudo sobre a aquisio do campo semntico do Tempo deve ser feito com base nos estdios

iniciais de aprendizagem, j que se trata de uma categoria essencial e trabalhada desde as

primeiras aulas.

No nvel Elementar, o curso apresenta o seguinte plano de estudos:

12

Estes dados foram fornecidos pelo Secretariado dos Cursos de Portugus para Estrangeiros da Faculdade de Letras

da Universidade de Coimbra.

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

23

Quadro 2

Disciplinas Componente lectiva ECTS

Lngua Portuguesa I e II 5 horas semanais 10

Conversao I e II 5 horas semanais 06

Composio I e II 4 horas semanais 06

Laboratrio I e II 4 horas semanais 06

Actividade cultural 02

TOTAL SEMESTRAL 18 horas semanais 30

Como o prprio nome indica, em cada uma destas disciplinas dado relevo a determinadas

vertentes. No caso do nvel Elementar, cabe cadeira de Lngua Portuguesa trabalhar

globalmente todas as estruturas da lngua e competncias lingusticas, enquanto a de

Conversao desenvolve mais especificamente a compreenso e produo orais. Por seu turno, a

cadeira de Composio trabalha a compreenso e produo escritas. Foi, por isso, no mbito

desta ltima que foram recolhidos os materiais que servem de base ao presente estudo.

O corpus constitudo por 39 textos produzidos, no 1 semestre, por 23 informantes13

pertencentes s turmas A, B e C. Trata-se de falantes com lnguas maternas diferentes,

enquadrando-se os textos que produziram no mbito do texto narrativo, o tipo de texto que, como

j foi dito, constitui a melhor fonte de informao para o estudo da expresso de tempo (cf. Cap.

1, 2.).

Estes textos encontram-se referenciados no corpus atravs de um cdigo que contempla o

nmero do documento e o informante que o produziu. Um excerto codificado com T1/A pertence

ao texto n 1 do informante A.

13

Estes foram os alunos que deram autorizao para analisar os textos que tinham produzido ao longo do 1 semestre.

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

24

1.2. Caractersticas gerais do corpus

Na turma A (T1/A a T27/K), os textos recolhidos representam produes que os

informantes realizaram ao longo do 1 semestre, e que, na lista infra, se apresentam pela ordem

cronolgica de produo. O corpus recolhido nesta turma constitudo por textos narrativos

produzidos a partir de instrues escritas e orais14

dadas pela professora:

a) Instruo oral - Em pares, cada um/a conta o seu fim-de-semana, para o/a colega

redigir um texto narrativo;

b) Instruo oral - Fale do que gosta de fazer nos seus tempos livres (fins-de-semana,

feriados);

c) Instruo escrita - Conte as suas frias do Natal numa carta pessoal/informal (esta

tarefa teve uma preparao prvia na aula a anlise de uma carta em que uma

rapariga contava as suas frias a uma amiga);

d) Sem instruo - trabalho que o estudante fez por sua iniciativa;

e) Instruo escrita - (enunciados do exame final do 1. semestre):

- Tema A: Escreva uma carta a um amigo (ou amiga) a contar como passou as

suas frias de Vero;

- Tema B: Descreva o seu lugar preferido para passar um fim-de-semana (em

Portugal ou no seu pas).

Quanto turma B (T28/L a T30/N) e turma C (T31/O a T39/V), o corpus constitudo

apenas pelas composies feitas nos exames finais do 1 semestre, que tiveram lugar em Janeiro

de 2009. Para realizarem esta prova, os alunos tinham de respeitar algumas directrizes:

A turma B tinha o seguinte enunciado:

- Seleccione UMA das alneas (a) ou (b) ou (c) e escreva um texto claro e correcto, com

um total mnimo de 120 palavras.

a) J esteve numa situao em que algum fez uma coisa com boa inteno, mas o

resultado foi muito mau? Conte o que aconteceu.

14

A explicao do enquadramento destes exerccios ser feita no Cap. 3.

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

25

b) Muitas vezes, quando ficamos mais velhos, muda tambm o modo como vemos as

coisas e as pessoas nossa volta. Concorda com esta afirmao? D exemplos, do texto15

e de

outras situaes que conhece.

c)Sabia que se deve oferecer o lugar s pessoas idosas (linha 10/11 (do texto do

exame)). Esta uma regra de comportamento social que existem em Portugal e noutros pases,

mas as regras sociais variam de cultura para cultura. J teve contacto com estas diferenas

entre culturas? Relate um ou mais exemplos da sua experincia.

No caso da turma C, foi proposto o seguinte enunciado:

- Seleccione UMA das alneas (a) ou (b) ou (c) e escreva um texto claro e correcto, com

um total mnimo de 100 palavras.

a)Joo teve uma ideia, uma ideia to luminosa que no dormiu toda a noite.

Continue a histria

b) Na histria que acabou de ler, Joo fez uma viagem de autocarro sem saber para

onde ia.

Conte uma viagem que fez, referindo:

- destino, poca do ano, meio de transporte, companhia, alojamento e pequenas

surpresas.

c) Joo fica impressionado com uma inveno fantstica apresentada por um homem

sbio com barbas brancas:

- Apresente uma pessoa que admira, descrevendo aspectos fsicos, caractersticas da sua

personalidade e a razo por que tem a sua admirao.

A extenso dos textos da turma A, com excepo do enunciado de exame, varivel, tendo

em conta que so exerccios que foram, na sua maioria, realizados em sala de aula. J as

produes das turmas B e C e as composies de exame da turma A tm uma extenso similar,

pois que os alunos tinham de respeitar um total mnimo de cem palavras.

15

O enunciado refere-se ao texto base da prova.

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

26

1.3. Os informantes

No Curso Anual de Lngua e Cultura Portuguesas para Estrangeiros, a nica exigncia que

as condies de inscrio estabelecem que os candidatos frequncia do curso tenham a idade

mnima de 16 anos, o que cria uma grande heterogeneidade de pblicos no que diz respeito aos

seus conhecimentos prvios.

Sendo, portanto, as condies de inscrio no curso pouco selectivas, so muito diversas as

experincias pessoais dos alunos aquando da sua chegada: grau de instruo, hbitos de

aprendizagem, idade, motivao, personalidade, capacidades individuais e conhecimentos

prvios.

Esta realidade aplica-se, naturalmente, populao que produziu o corpus que vai ser

analisado. data do incio do curso, o conhecimento que cada um tinha da Lngua Portuguesa

era, tal como os outros aspectos j citados, muito varivel, pois os objectivos e as oportunidades

de aprendizagem de cada aluno eram distintos (cf. Cap. 1, 1.). No entanto, foram todos colocados

no nvel Elementar16

, por no terem um nvel de proficincia que lhes permitisse comunicar

eficazmente em situaes da vida quotidiana. Em quase todos os casos, isto foi indicado pelo

prprio aluno, ou, muito raramente, pelo teste de seriao feito antes do incio das aulas.

Pela descrio da populao, pode deduzir-se que tambm so muito diversificadas as

oportunidades de aprendizagem que tiveram ao longo do semestre. Porm, no possvel avaliar

com exactido qual a integrao que cada um teve na sociedade portuguesa e as consequentes

oportunidades de input e de interaco com falantes nativos em meio natural. Pode, no entanto,

sublinhar-se que, em maior ou menor grau, todos estiveram em contexto de imerso, at por

viverem durante pelo menos 6 meses em Portugal.

No que diz respeito ao contacto formal com a Lngua Portuguesa, durante as quatro horas

lectivas semanais, que tiveram na cadeira de Composio do 1 semestre, importante ter em

conta que os mtodos utilizados pelos professores, no seu ensino, no foram uniformes (cf. Cap.

3, 4.).

16

Os alunos foram divididos em trs turmas consoante o nvel de proficincia que tinham da lngua-alvo. Com efeito, os alunos da turma A correspondem a verdadeiros principiantes; os da turma B so falsos principiantes, isto ,

j tm algum conhecimento da lngua-alvo e os da turma C so aprendentes que so quase no principiantes, por j

terem um conhecimento da LE mais aprofundado do que os alunos da turma B.

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

27

Em suma, trata-se de um corpus composto por textos produzidos por informantes com uma

idade mnima de 16 anos, com as mais distintas atitudes, motivaes, personalidades,

capacidades e conhecimentos prvios, a quem o contexto social pode ter vindo a facultar

oportunidades de aprendizagem formais e informais, tambm elas muito diversas.

A correlao destes factores tem resultados lingusticos muito diversificados, o que se pode

constatar nos textos que integram a nossa amostra (cf. anexos 1, 2 e 3). A razo para tal

concluso deve-se ao facto de as turmas A, B e C estarem organizadas distinguindo os

verdadeiros principiantes (A) dos falsos principiantes (B), sendo os da turma B menos

proficientes do que os da turma C. Tal facto muito relevante, porque as produes em que os

aprendentes concatenam diferentes formas verbais so todos da turma C, mais raramente da B e

s pontualmente da A.

2. Anlise do corpus

2.1. Parmetros de anlise

Por diferentes motivos, e num enquadramento pedaggico, em particular em LNM, a

elaborao de uma narrativa escrita uma tarefa difcil. Contar de modo adequado uma histria

solicita a conjugao de diversas competncias lingusticas a nvel da ortografia, do vocabulrio,

da morfologia (nominal, verbal, etc.), da pontuao, da sintaxe, do encadeamento lgico entre os

acontecimentos, da coerncia temporal, entre outras componentes estruturais17

.

Com a anlise de produes que ser feita de seguida, pretende-se compreender de que

modo os aprendentes de PLNM revelam, nas suas produes escritas, indcios de como

adquiriram o campo semntico do tempo, tanto no que toca expresso do passado, como no que

toca ao domnio das respectivas formas. Assim, construiu-se um modelo que permite observar

dois nveis textuais diferentes:

- estrutura de gnero narrativo;

17

As principais caractersticas do texto narrativo so: localizao temporal; localizao espacial; referncia s personagens; sequencializao de eventos; utilizao dos verbos adequados; fechamento (cf. Mateus, 2008: 122).

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

28

- coerncia e coeso textuais.

Em cada nvel textual diferenciaram-se diversos parmetros de anlise, que foram

exemplificados com excertos retirados das produes escritas dos informantes.

No que diz respeito tipologia textual, pretende-se esclarecer se os estudantes de PLNM

elaboram os seus textos de acordo com a estrutura que lhes inerente, respeitando portanto as

regras de uso dos tempos verbais do passado e das expresses adverbiais tpicas de um texto

narrativo em que, como se disse no Cap. 1, no s as referncias temporais servem para situar

eventos, como tambm o PPS e o IMP devem ser concatenados para distinguir diferentes planos

de enunciao.

Embora, como foi dito, o texto narrativo tenha diversas caractersticas e possa ser

analisado de diversos ngulos, s se vo analisar as que se podem incluir na aquisio do campo

semntico do tempo em Portugus, nomeadamente:

- Domnio das expresses de tempo, nomeadamente, as adverbiais;

- Domnio ou no da morfologia da forma verbal (em tempo e, acessoriamente, em pessoa

e modo);

- Localizao temporal dos estados de coisas (nomeadamente os representados pelos

verbos) nas pocas de presente/passado/futuro;

- Domnio de outras localizaes temporais complexas, como, por exemplo, anterioridade

do passado ou futuro do passado;

- Domnio de outras formas/tempos verbais.

Pretende-se verificar tambm se os aprendentes de PLNM usam de forma adequada

mecanismos para poderem construir um texto coerente e coeso a nvel estrutural e de transmisso

de contedos, nomeadamente os que fazem parte deste nvel de aprendizagem e que permitem

estabelecer uma cronologia dos eventos de uma histria.

Como existem vrios factores que contribuem para a coerncia e coeso textual, analisou-

se apenas o parmetro relacionado com a coerncia de tempos verbais, especificando vrios

aspectos:

- Concatenao de diversos tempos e modos verbais;

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

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- Cruzamento de expresses temporais de diferentes tipos (ex: forma verbal, advrbio,

construo perifrstica) e valores (ex: hbito, frequncia, durao) com a expresso do

passado/presente/futuro;

- Alternncia entre narrao/descrio (PPS/IMP, o que inclui, quando pertinente,

observaes tambm sobre os valores aspectuais destes tempos).

2.2. Anlise das produes escritas

Saliente-se desde j que os erros ortogrficos no foram considerados para o presente

estudo, visto no apresentarem nenhum obstculo para a anlise dos aspectos que podero

indiciar a aquisio do campo semntico do tempo em PLNM. Assim, na transcrio dos

exemplos respeitou-se sempre a ortografia utilizada pelos informantes.

2.2.1. Domnio da morfologia verbal em tempo

A nvel do domnio da morfologia verbal em tempo pretende-se aferir a capacidade dos

informantes em seleccionar a forma de conjugao verbal adequada s suas narrativas. Observe-

se os seguintes exemplos:

(25) A Evelyn foi a casa sexta-feira e trabalhou no jardim; (T1/A);

(26) Depois, no sbado, ela foi na igreja em Sert, com seus pais e os amigos; (T1/A);

(27) A noite, eles almoaram a casa dos amigos; (T1/A);

(28) No domingo, os jovens jogaram futebol; (T1/A);

(29) depois ela chegou a Coimbra; (T1/A);

(30) depois () falei com meu filho e minha me no internet (T2/A);

(31) Eu levantei-me de manh e tomei o pequeno almoo (T3/B);

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

30

(32) depois sa de casa (T3/B);

(33) Nas frias de vero do ano passado tive muitas coisas que devi fiz! (T12/E);

(34) estive a estudar portugus durante as frias. (T12/E);

(35) Agora estou em Portugal nas frias com a minha famlia. (T17/G);

(36) Eu ouvi que vocs na Alemanha tiveram -15 graus nesta semana. (T18/H);

(37) Depois, ela mostrou as fotografias de Coimbra (T19/H);

(38) Na minha ltima carta perguntaste-me como passei as frias de Vero (T20/H);

(39) Neste Vero no fiz muito fora de estudar (T20/H);

(40) Passei o dia de Natal com nossa amiga Arminda (T21/I);

(41) No sbado, Ben levantou-se cedo, tomou um duche, e preparou o pequeno-almoo

dele com pressa por causa das muitas coisas ele teve para fazer (T23/I);

(42) Durante as frias, eu voltei Inglaterra para uma semana (T25/K);

(43) No domingo, eles apanharam o autocarro para ir igreja e assistiram a um servio.

(T26/K);

(44) uma vez fui (ia) com minha me no autocarro (T27/L);

(45) disse que parece (parecia) velha, mas tem (tinha) pernas boas ; (T27/L);

(46) na essa cultura, fazem isto que eu fiz e que a mulher tem (tinha18

) de me agradecer e

no (devia19

) ficar zangada. (T27/L).

Estes exemplos mostram claramente que a maioria dos alunos domina a morfologia verbal

em pessoa, tempo e modo. Porm, no obstante esse domnio generalizado, possvel detectar

usos da terceira pessoa do singular em contextos em que se esperaria a forma da primeira. Tais

ocorrncias desviantes podem eventualmente justificar-se pelo facto de os alunos estarem mais

familiarizados com a terceira pessoa do singular, enquanto forma usada preferencialmente nas

expresses formulacas que so aprendidas em contexto de sala de aula:

(47) Todos fim-de-semana eu gostou de acabar a tarde (T2/A);

(48) Normalmente tenho muito trabalho em casa _ estudo lingua portuguesa, cozinhou,

lavou roupa, etc. (T2/A);

18

Correco nossa. 19

Idem.

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

31

(49) A tarde gostou de ler livros historicos e psicologicos, gosto de ver televiso (T2/A);

(50) Depois meus familias casa, eu volta para casa para o comboio. (T6/C);

(51) No passado sbado eu foi buscar a bagagem em casa (T8/D);

(52) Esteve na Alemanha por 3 semanas e festejou o Natal com a minha famlia. (T15/G).

Por um lado, de referir que os exemplos (47) a (49), por contraste com os exemplos

(50) a (52), parecem mostrar que os alunos no percebam ainda a diferena fonolgica entre /u/ e

/o/ finais, nem a alternncia voclica da primeira slaba (cf. gosto/gostou). Por outro lado, nas

fases iniciais de interlngua (cf. Cap. 1, 1.) os aprendentes podem usar uma morfologia

simplificada (muitas vezes o infinitivo ou a 3 pessoa que justamente o caso dos exemplos

(50) e (51) j que as necessidades comunicativas se sobrepem s da correco formal.

2.2.2. Localizao temporal dos eventos no presente/passado/futuro

Conforme se viu no primeiro captulo, so os tempos verbais, concomitantemente com as

formas decticas, que permitem construir um texto narrativo. Assim, no que diz respeito

localizao temporal dos eventos no presente/passado/futuro, interessa ver, neste trabalho, de que

forma o aluno exprime a noo de tempo:

- atravs de uma expresso adverbial colocada no incio de uma frase:

(53) No domingo, os jovens jogaram futebol; (T1/A);

(54) No fim-de-semana passado estive no mar com o meu marido e tivemos bom

tempo(T2/A);

(55) Na semana passada as feria eu com minha familia na Serra da Nascente. (T4/B);

(56) No passado sbado eu foi buscar a bagagem em casa (T8/D);

(57) No sbado, o Chao levantou-se muito tarde, no domingo tambm Depois levou se e

tomou o pequeno-almoo, foi a navegou na Internet (T14/F);

(58) No sbado, ela foi na igreja em Sert,(T1/A).

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

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- na insero da expresso adverbial no meio ou no fim da uma frase:

(59) Danmos todo a noite e encontrmos muitas gentis portugueses (T17/G);

(60) Eu ouvi que vocs na Alemanha tiveram -15 graus nesta semana. (T18/H);

(61) Ainda por isso trabalhei durante duas semanas numa empresa muito grande (T20/H);

(62) Por isso no fiz muito fora de estudar, porque estive quase sozinho nestes dias

chorosos (T20/H);

(63) O exame de matemtica foi no dia 8 de Setembro e foi ptimo! (T20/H).

Constata-se, deste modo, que os informantes usam a expresso adverbial de tempo, na

maior parte das vezes, de forma correcta e que a articulam eficazmente com a forma verbal.

Observa-se ainda que as expresses adverbiais so sempre usadas preferencialmente em relao

ao uso exclusivo das fomas verbais. ainda de sublinhar que surgem com grande frequncia no

incio da frase. Ora, isto caracterstico das fases iniciais da interlngua (cf. Cap. 1, 1.), altura

em que os aprendentes do prioridade ao sentido e, por isso, do preferncia expresso lexical.

Quando a expresso adverbial de tempo colocada noutros pontos da frase, como nos exemplos

(59) a (63), constata-se que os informantes j so mais proficientes.

Porm, a localizao temporal pode envolver alguns problemas. A maioria dos informantes

j tem a noo de que enquadrar temporalmente um texto narrativo um factor fundamental (cf.

Cap. 1; Benveniste, 1974 e Weinrich, 1973). No entanto, alguns aprendentes de PLNM omitem a

preposio contida na expresso adverbial de tempo. Tal omisso permite ver que o aprendente

no distingue no seu output tempos diferentes a partir das preposies (cf. na sexta-feira /

sexta-feira / para sexta-feira so casos em que a preposio diferente exprime uma localizao

temporal igualmente diferente):

(64) A Evelyn foi a casa sexta-feira e trabalhou no jardim; (T1/A);

(65) Passamos ms, eu voltei para casa em Macau por feliz Natal. (T7/D);

(66) Ela fiz malas todo a sexta-feira e preparou para a viajem para Portugal. (T19/H);

(67) Eles brincaram o todo dia, mas Asa ainda tem medo do co (T21/I);

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

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(68) Eu tenho avio 26 de Augusto (T24/J).

sabido que as preposies so palavras invariveis que exprimem relaes entre duas

partes de uma orao que dependem uma da outra. Alguns informantes no usam a preposio

nas expresses adverbiais de tempo, o que pode eventualmente ser lido luz do conceito de

interferncia (cf. cap. 1, 1.): os informantes dos exemplos (64) e (66) tm o Alemo como LM,

o do exemplo (67) tem lngua materna inglesa e o do exemplo (65) tem o Ingls como L2. Em

todos estes casos, as lnguas maternas dos aprendentes suprimiriam as preposies (Freitag,

Evelyn, Last month They played all day long). Podem acontecer tambm omisses

voluntrias, isto , situaes em que o aluno no se lembra da preposio correcta e prefere,

por isso, no a colocar. No entanto, de ter em conta que no exemplo (64) no s se observa a

omisso de determinante, mas tambm a omisso de uma parte da localizao proposicional,

assim como a omisso parcial do artigo. Tais omisses remetem para um estdio de interlngua,

onde o aluno vai usando vrias gramticas intermedirias para se poder expressar na lngua-alvo.

Tal facto indicia, nitidamente, que num estdio inicial da aprendizagem, os aprendentes de

PLNM usam uma expresso ainda incompleta para a situao temporal dos eventos.

Nas produes escritas dos informantes regista-se, de igual modo, a substituio (troca) de

preposio:

(69) A seguir eu chegei em Beijing de avio e na domigo manh eu chegei Lisboa.

(T8/D);

(70) A seguir eu chegei em Beijing de avio e na domigo manh eu chegei Lisboa.

(T8/D);

(71) Quando trabalhei o tempo esteve ptimo, mas na tarde quando tive tempo para passar

fora de um edifcio o tempo esteve pssimo (T20/H);

(72) O dia seguinte do dia do exame o professor disse que foi bom (T20/H);

(73) Durante as frias, eu voltei Inglaterra para uma semana (T25/K);

(74) Na noite, eles foram a falar at muito tarde, mais ou menos duas horas da manh!

(T26/K).

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

34

Estes exemplos mostram, por um lado, que os aprendentes revelam alguns problemas em

seleccionar a preposio adequada, alm de que sentem ainda dificuldade em fazer a contraco

dos elementos presentes nas expresses adverbiais de tempo. Destacam-se, para alm disso,

problemas relativos substituio da proposio adequada por outra e/ou ao no uso da

preposio adequada. Por outro lado, os aprendentes revelam desconhecimento dos valores

temporais que as preposies podem ter. Acima de tudo, o que se constata que, na maior parte

das vezes, as que encabeam complementos ou modificadores com informao de tempo (cf.

Cap. 1, 5.) so suprimidas.

2.2.3. Uso de formas que ainda no foram aprendidas formalmente

relevante ver se os aprendentes de PLNM mostram necessidade de usar outras formas

verbais que ainda no aprenderam formalmente. Atravs deste parmetro, v-se que os alunos,

chegando a um determinado momento da aprendizagem do PLNM, sentem a necessidade de

alternar as formas que j aprenderam formalmente com aqueles que ainda no conhecem; para

poderem ter um texto narrativo coeso e que exprima melhor as suas ideias, visto que, para atingir

esse fim, no chega conhecer formas como o presente do Indicativo ou o pretrito perfeito

simples, tambm preciso saber utiliz-las. Alis, no captulo anterior, viu-se que, segundo as

teses de Benveniste, Weinrich e Fonseca, so os diversos tempos verbais associados

referenciao dectica que permitem construir uma narrativa.

Isto particularmente relevante nas produes de alguns aprendentes da turma A, que

usam o IMP sem ainda terem sido submetidos ao ensino formal dessa estrutura:

(75) Mais tarde estava to cheio que resolveram ir de um caf. (T13/F);

(76) () recentemente estava a pensar sobre o pretrito perfeito, a forma imperitivo

(informal) e os pronomes pessoais. (T27/K).

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

35

Exemplos como estes podem eventualmente explicar-se pelo facto de estes aprendentes

viverem em Portugal e se encontrarem numa situao de imerso (cf. Cap. 1, 1.). Para se

moverem na sociedade e cultura portuguesas necessitam de usar diversas formas verbais e, como

se encontram em contacto directo com os falantes nativos de Portugus, adquirem naturalmente

formas verbais que ainda no aprenderam, formalmente, em sala de aula. De notar que, embora

incongruentes com a expresso adverbial, os dois exemplos indiciam que os alunos esto a tentar

exprimir um valor durativo (estava to cheio, estava a pensar), o que, por sua vez, indicia

conscincia de que o pretrito perfeito simples no ser a forma indicada para usar neste

contexto (cf. Cap. 1, 6.). A interlngua destes aprendentes , portanto, diferente da que teriam se

o contexto em que esto a aprender a lngua-alvo no fosse de imerso. Se no contactassem com

falantes portugueses, provvel que no usassem estas formas numa fase to incipiente do

ensino/aprendizagem de PLNM.

Nas turmas B e C, os alunos j tinham aprendido formalmente o uso do IMP quando

redigiram os textos do corpus. No entanto, v-se que sentem a mesma necessidade de utilizar

outras formas verbais que ainda no aprenderam estruturalmente para poderem construir um

texto mais coeso. Da que utilizem, por exemplo, o presente do conjuntivo:

(77) provvel que seja um caso excepcional, e espero que seja. (T28/M);

o pretrito imperfeito do conjuntivo:

(78) () como se estivesse (fosse) mais jovem. (T30/N);

o pretrito mais-que-perfeito composto do indicativo:

(79) ontem na televiso dissem-se que o inventor do rob a tinha perdido. (T32/P);

e o pretrito perfeito composto do indicativo com um verbo no gerndio:

(80) Fecha a porta, Deixja-me em paz, Cala, so frases muito frequentes e as que

tenho aprendido vivendo nesta casa portuguesa. (T28/M).

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Este ltimo exemplo indicia que o aprendente tem capacidade para distinguir diferentes

momentos numa histria: tenho aprendido (processo contnuo que vem do passado at ao

presente); vivendo (gerndio para exprimir simultaneidade com um processo que se vai

desenrolando). Constata-se, ento, que este informante j domina a expresso das relaes de

temporalidade apontadas por Reichenbach (cf. Cap. 1, 4.). Por outras palavras, o aluno consegue

relacionar cronologicamente o momento da fala (MF) com o momento de enunciao (ME) e o

momento de referncia (MR), elementos indispensveis aquando da construo de uma narrativa,

estabelecendo, ento, relaes de anterioridade, simultaneidade e/ou posterioridade e tambm

consegue manejar diferentes pontos de referncia temporal, decticos e anafricos.

As produes analisadas indicam que os aprendentes de PLNM sentem a necessidade de

concatenar diferentes estruturas de tempo, o que poder levar a pensar que talvez a aprendizagem

do campo semntico do tempo devesse ser mais global ou mesmo holstica, e no faseada (cf.

Cap. 3).

No que toca coerncia dos tempos verbais, h que recordar que os acontecimentos de um

texto narrativo se encontram num tempo diferente do momento de enunciao. Logo, aquele tipo

de texto remete normalmente para o passado, podendo os eventos que so narrados ter

acontecido (narrativa de tipo histrico) ou no (narrativa ficcional), o que implica, conforme se

viu no Cap. 1, a construo de diferentes pontos de referncia.

Alm disso, a capacidade que os informantes tm de ligar diversos tempos e modos verbais

muito importante, pois, para construir um texto narrativo coerente, necessrio relacionar

temporalmente os acontecimentos entre si. Assim, analisou-se se os alunos articulam

adequadamente as formas do pretrito (PPS/IMP) e as formas do presente, bem com as do futuro:

(81) O Joo teve ento uma ideia, uma ideia to luminosa que no dormiu toda a noite.

Ele pensava que aquele rob que era a coisa mais fantstico e til do mundo. Como j

tinha encontrado uma pasta cheia de dinheiro, naquele momento tinha o dinheiro para o

comprar. (T31/O).

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

37

Este informante no s domina a concatenao entre os diversos tempos verbais, como

localiza os acontecimentos em relao ao ME e em relao a um momento anterior ao ME. (cf. 1.

5.). ainda de referir que utiliza um mais-que-perfeito, que, no sendo uma forma dectica, no

se liga directamente ao ME.

Os alunos das turmas B e C no apresentam dificuldade em concatenar vrios tempos

verbais, pois j sabem, por via do ensino formal, que, para escrever um texto coeso,

imprescindvel usar vrios verbos em diversos tempos:

(82) O Joo fez uma viagem de autocarro com os seus amigos o Fernando e a Ana. Alm

disso, era vero: o tempo estava muito calor e agradvel. A companhia foi muito

amizade O Joo no sabia para onde viajar, portanto ele pediu a Ana fazer uma

proposta boa. Porm, ela no sabia de onde queria viajar, portanto s disse _ que quero ir

no destino do Norte. (T34/R).

Este exemplo mostra como os alunos mais proficientes conseguem localizar

acontecimentos no presente, passado e futuro em relao ao ME.

O exemplo que se segue pertence a um dos alunos das turmas do Nvel Elementar com

alguns conhecimentos da lngua-alvo, ou seja, um falso principiante. Entende-se, portanto, que

o aprendente seleccione adequadamente os tempos do passado, nomeadamente, o pretrito

perfeito, o pretrito imperfeito e o pretrito imperfeito composto e use ainda a construo

perifrstica:

(83) O rob ia lavar a loia, pr a mesa, arranjar o quarto dele e dar de comer ao co.

(T31/O).

O informante em causa, pertencente turma B, consegue criar referenciao futura a partir

de um ponto do passado por meio do IMP. Tal ocorrncia demonstra que j consegue colocar-se

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

38

num ponto de referncia imaginrio recorrendo a uma rede anafrica, algo que os aprendentes

da turma A ainda no conseguem fazer, visto serem verdadeiros principiantes.

Quando se escreve um texto narrativo igualmente vital saber fazer o cruzamento de

expresses temporais de diferentes tipos (ex: forma verbal, advrbio, construo perifrstica) e

valores (ex: hbito, frequncia, durao) com a expresso do passado/presente/futuro, uma vez

que so estes aspectos que vo permitir que os aprendentes consigam escrever uma histria (cf.

Cap. 1, 3.):

(84) Todos fim-de-semana eu gostou de acabar a tarde. Normalmente tenho muito

trabalho em casa _ estudo lingua portuguesa, cozinhou, lavou roupa, etc. mas sempre

tenho o tempo livro para passatempo, para os amigos e outras coisas. (T2/A);

(85) No ms passado, quando voltei para casa em Macau, esteve muito casada. Ento

durmi todo o dia. (T9/D);

(86) No Sbado, o Wang levantou-se s dez horas. Depois tomou o pequeno-almoo, sau

de casa e andou a bicicleta de lado do mar (T11/E);

(87) No domingo, normalmente igual com sbado de manh, mas estudou tarde e prepou

na estao para apanhou o comboio para Coimbra! (T11/E);

(88) No sbado, o Chao levantou-se muito tarde, no domingo tambm Depois levou se e

tomou o pequeno-almoo, foi a navegou na Internet (T14/F);

(89) Ns ficamos uma semana no Algarve. Oh, que lindo! Gosto muito de ir aos praias e

nadar todos os dias! (T17/G);

(90) Queria de estudar em Coimbra no prximo ano talvez. Ento, espero que vemos

brevemente! Beijinhos. (T17/G);

(91) No domingo, ela acordou muito cedo e foi com sua famlia no aeroporto do Berlim.

noite ela chegou a Coimbra (T19/H);

(92) Ento, no passei no exame de matemtica, por isso foi obligatrio de fazer outra vez

em Setembro (T20/H);

CAPTULO 2 ANLISE DO CORPUS

39

(93) Cinco dias depois, foi para Portugal com minha famlia. Foram frias muito

longas, porque as aulas de portugus comearam no Outubro! Agora estou a estudar esta

lingua desde quatro meses e j posso te escrever esta carta! (T20/H).

Estes exemplos, pertencentes turma A, indiciam que os aprendentes de PLNM j

dominam a referncia dectica e alguns casos de referncia anafrica (cf. Cap. 1, 5.), essenciais

para a aquisio do campo semntico do tempo. Alguns dos informantes, apesar de pertencerem

turma A, manejam expresses de tempo com sentidos diferentes, como visvel no exemplo

(84), onde a expresso adverbial de tempo tem valor de hbito, da que o verbo que a acompanha

se encontre no presente do indicativo. Ainda neste exemplo, temos dois advrbios, um com valor

de hbito (normalmente) e outro com valor de frequncia (sempre) que tambm se fazem

acompanhar de verbos no presente, pois abrangem o ME. No exemplo (93), observa-se que o

informante no s utiliza referenciao dectica como tambm a anafrica. Com efeito, este tipo

de referenciao aplicado a este conjunto no mais do que uma referenciao indirecta em

relao ao momento de enunciao.

2.2.4. Alternncia entre narrao/descrio (PPS/IMP)

Segundo as propostas de Benveniste, Weinrich e Fonseca, sobre as quais assenta este

trabalho, viu-se que a estrutura temporal da narrao se baseia, essencialmente, na articulao de

dois tempos verbais PPS/IMP. Recorda-se, assim, que o IMP durativo e imperfectivo, enquanto

o PPS aspectualmente pontual e perfectivo. Deste modo, a narrao s possvel se se

concatenar os dois tempos, visto que o PPS que vai servir de marco referencial ao uso do IMP

(cf. Cap. 1, 3.1.). por este motivo que se elegeu como parmetro de anlise a alternncia entre

narrao/descrio (PPS/IMP), para ver se os aprendentes de PLNM fazem essa distino:

(94) O Joo fez uma viagem de autocarro