of 154/154
1 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS, LITERÁRIOS E TRADUTOLÓGICOS ANAISY SANCHES TEIXEIRA UN MOT…UN MOT SIMPLEMENT: PROCEDIMENTOS DE ATENUAÇÃO EM FRANCÊS E PORTUGUÊS São Paulo 2012

UN MOT…UN MOT SIMPLEMENT: PROCEDIMENTOS DE … · ... DA TEORIA PRAGMÁTICA À ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO.. 16 ... 2.2 Aspectos teóricos da polidez ... língua francesa (França)

  • View
    215

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of UN MOT…UN MOT SIMPLEMENT: PROCEDIMENTOS DE … · ... DA TEORIA PRAGMÁTICA À ANÁLISE DA...

  • 1

    UNIVERSIDADE DE SO PAULO

    FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ESTUDOS LINGUSTICOS,

    LITERRIOS E TRADUTOLGICOS

    ANAISY SANCHES TEIXEIRA

    UN MOTUN MOT SIMPLEMENT: PROCEDIMENTOS

    DE ATENUAO

    EM FRANCS E PORTUGUS

    So Paulo

    2012

  • 2

    UNIVERSIDADE DE SO PAULO

    FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ESTUDOS LINGUSTICOS,

    LITERRIOS E TRADUTOLGICOS

    UN MOT... UN MOT SIMPLEMENT: PROCEDIMENTOS

    DE ATENUAO

    EM FRANCS E PORTUGUS

    ANAISY SANCHES TEIXEIRA

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-

    Graduao em Estudos Lingusticos, Literrios e

    Tradutolgicos do Departamento de Letras

    Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e

    Cincias Humanas da Universidade de So Paulo,

    para a obteno do ttulo de Mestre em Letras.

    rea de concentrao: Lnguas Estrangeiras

    Modernas

    Orientadora: Profa. Dra. Tokiko Ishihara

    So Paulo

    2012

  • 3

    Autorizo a reproduo e divulgao total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou

    eletrnico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

    Catalogao da Publicao

    Servio de Documentao do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia,

    Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo

  • 4

    Nome: TEIXEIRA, Anaisy Sanches

    Ttulo: Un mot... un mot simplement: procedimentos de atenuao em francs e portugus

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-

    Graduao em Estudos Lingusticos, Literrios e

    Tradutolgicos do Departamento de Letras

    Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e

    Cincias Humanas da Universidade de So Paulo,

    para a obteno do ttulo de Mestre em Letras.

    Aprovado em: _______-___-______________

    Banca Examinadora

    Prof. Dr._____________________ _____________ Instituio: _______________

    Julgamento:_______ Assinatura: ________________________________________

    Prof. Dr._____________________ _____________ Instituio: _______________

    Julgamento:_______ Assinatura: ________________________________________

    Prof. Dr._____________________ _____________ Instituio: _______________

    Julgamento:_______ Assinatura: ________________________________________

  • 5

    DEDICATRIA

    minha famlia, em especial aos meus pais,

    pelo amor, carinho e apoio constante. Alm

    de compreenderem minha constante

    ausncia, ofereceram-me apoio absoluto para

    a realizao deste trabalho.

  • 6

    AGRADECIMENTOS

    A Deus, acima de tudo, por me conceder fora, determinao e coragem para superar todos os

    percalos encontrados durante a execuo deste trabalho.

    Professora Dr. Tokiko Ishihara, grande e admirvel professora, pelas preciosas e

    esclarecedoras horas que pude passar em sua companhia, orientando-me na busca de meus

    objetivos acadmicos, e alimentando-me com sua sabedoria, amizade, carinho e ateno.

    Minha mais profunda gratido grande responsvel pela concluso desta etapa, aquela que

    me preparou, sobretudo, para a vida, Prof. Tokiko Ishihara.

    s professoras Dr. Mara Zulma Moriondo Kulikowski e Dr. Eliane Gouva Lousada pelas

    valiosas e enriquecedoras contribuies dadas dissertao no exame de qualificao.

    Aos meus pais, Antnio, Sueli, e minha irm Thas, pelo amor constante e apoio

    incondicional.

    A todos os familiares, pelo carinho e incentivo.

    Ao amigo Rubens Ruprecht, pela ateno, companheirismo e sbios conselhos.

    A todos que, de alguma forma, tornaram mais suave esta longa jornada, acompanhando-me e

    encorajando-me, em especial, Mateus Gustavo Igncio, Ana Paula Ferreira, Antnio Mafra e

    Mrcia Luciana da Silva.

  • 7

    Un monde sans manires, cest tout simplement lenfer.

    Catherine Kerbrat-Orecchioni, Le discours en Interaction, 2005, p. 239.

  • 8

    TEIXEIRA, Anaisy Sanches. Um mot... un mot simplement: procedimentos de atenuao em

    francs e portugus. So Paulo: 2012 Dissertao de Mestrado Universidade de So Paulo USP.

    RESUMO

    Ao engajar-se nas diversas formas de interao face a face, os interagentes devem considerar

    uma srie de regras lingusticas, contextuais e interacionais para assegurar sua plena

    execuo. Ainda que as regras conversacionais sejam culturalmente pr-definidas, as diversas

    situaes interacionais criam, inevitavelmente, conflitos que podem oferecer perigo imagem

    pblica do locutor, assim como a do interlocutor. Para preservar a imagem de ambos,

    amenizar ou mesmo evitar as tenses nas interaes verbais, so colocadas em prtica

    estratgias de polidez verbal, que podem ser definidas como identidade social expressa em

    conduta verbal. O presente trabalho visa a estudar o funcionamento de alguns procedimentos

    conversacionais de atenuao como estratgia fundamental realizao harmoniosa de uma

    interao verbal. Desse modo, a compreenso do papel que desempenha a polidez verbal em

    determinada cultura pode ser determinante para o xito do objetivo pretendido em uma troca

    conversacional, afinal, cada grupo social possui um perfil comunicativo que o caracteriza.

    Para tanto, foram analisadas entrevistas televisivas realizadas por falantes de lngua francesa

    (Frana) e tambm portuguesa (Brasil) para observar quais estratgias de polidez negativa so

    empregadas em cada uma dessas culturas em situaes de confronto. A partir da classificao

    proposta por Kerbrat-Orecchioni (1996, 2005) que tem em Brown e Levinson (1978, 1987)

    suas principais referncias, procurou-se identificar as diferenas e as semelhanas dos

    procedimentos de atenuao colocados em ao em ambas as lnguas. Nos casos observados,

    verificou-se certa tendncia entre os falantes de lngua portuguesa contemporizao de seus

    enunciados, o que pode denotar uma maior disposio em preservar a face de seu interlocutor,

    talvez para proteger a prpria face.

    Palavras-chave: Interao Verbal. Portugus/Francs. Preservao da Face. Procedimentos de

    Atenuao.

  • 9

    TEIXEIRA, Anaisy Sanches. Un mot ... un mot simplement: mitigation procedures in French

    and Portuguese. So Paulo: 2012 - Master Thesis Universidade de So Paulo - USP.

    ABSTRACT

    By engaging in various forms of face to face interaction, the interactants must consider a

    number of linguistic rules, contextual and interactive, in order to ensure its full

    implementation. Although the conversational rules are culturally pre-defined, the various

    interactional situations create, inevitably, conflicts that may cause danger to the speaker and

    the interlocutor's public image. To preserve the image of both, to reduce or even avoid

    tensions in verbal interactions, verbal politeness strategies are put into practice, which can be

    defined as a social identity expressed in verbal behavior. The present work aims to study the

    functioning of some conversational mitigation procedures as a key strategy to achieve a

    harmonious verbal interaction. Thus, understanding the role played by verbal politeness in a

    particular culture can be crucial to the success of the intended purpose in a conversational

    exchange, after all, each social group has a communication profile that characterizes it. Thus,

    we analyzed television interviews conducted by speakers of French (France) and Portuguese

    (Brazil) in order to examine which negative politeness strategies are employed in each of

    these cultures in a confrontational situation. Based on the classification proposed by Kerbrat-

    Orecchioni (1996, 2005) which has in Brown and Levinson (1978, 1987) its main references,

    we sought to identify the differences and similarities of the mitigation procedures put into

    action in both languages. In the studied cases, we observed a tendency among the Portuguese-

    speaking people to compromise their statements, which may reflect a greater willingness to

    preserve their interlocutors face, perhaps to protect their own face.

    Keywords: Verbal Interaction. Portuguese/French. Face Preservation. Mitigation Procedures.

  • 10

    LISTA DE FIGURAS

    FIGURA 1- Estratgias de polidez, segundo BROWN e LEVINSON ........................... 41

    LISTA DE TABELAS

    TABELA 1. Estratgias de polidez, segundo BROWN e LEVINSON .......................... 44

    TABELA 2. Procedimentos substitutivos e acompanhadores de polidez negativa ......... 52

    TABELA 3. Relao do corpus integrante da pesquisa .................................................. 63

    TABELA 4. Normas de transcrio do projeto NURC .................................................. 72

  • 11

    SUMRIO

    INTRODUO ................................................................................................................. 13

    CAPTULO I: DA TEORIA PRAGMTICA ANLISE DA CONVERSAO .. 16

    1.1 Aspectos relativos ao surgimento da pragmtica .......................................................... 16

    1.2 Uma proposta de delimitao ........................................................................................ 19

    1.3 A conversao, o contexto e os estudos pragmticos .................................................... 19

    1.3.1 Conversao e anlise da conversao: definies ..................................................... 20

    1.3.2 As diferentes linhas tericas da anlise da conversao (AC) ................................... 21

    1.3.3 O contexto interacional e os interactantes da conversao ......................................... 23

    1.3.4 Os sistemas semiticos da conversao ..................................................................... 26

    1.3.5 A tomada e a distribuio de turnos ........................................................................... 27

    CAPTULO II: A POLIDEZ VERBAL .......................................................................... 32

    2.1 Conceito e fundamentos ................................................................................................ 32

    2.2 Aspectos tericos da polidez ......................................................................................... 33

    2.2.1 A teoria de Paul Grice (1975) ..................................................................................... 34

    2.2.2 A teoria de Robin Lakoff (1975) ................................................................................ 35

    2.2.3 A teoria de Geffrey Leech (1983/1996) ..................................................................... 36

    2.2.4 A teoria de Penelope Brown e Stephen C.Levinson (1978/1987) .............................. 37

    2.2.5 As contribuies de Kerbrat-Orecchioni (1996) ........................................................ 46

    2.2.6 As manifestaes lingusticas da polidez ................................................................... 47

    CAPTULO III: O GNERO ENTREVISTA ................................................................ 53

    3.1 Motivaes para a escolha do gnero entrevista ........................................................... 54

    3.2 Definio do gnero entrevista ...................................................................................... 55

    3.3 Reflexes sobre os gneros conversao e entrevista ............................................ 56

    3.4 Caracterizao da entrevista televisiva .......................................................................... 59

    3.5 Classificao das entrevistas jornalsticas ..................................................................... 61

    3.6 Definio do corpus ....................................................................................................... 63

  • 12

    3.6.1 Apresentao dos programas televisivos .................................................................... 65

    3.6.2 Interagentes e contexto situacional das entrevistas .................................................... 67

    3.7 Delimitao do corpus e procedimentos metodolgicos ............................................... 70

    3.7.1 Normas de transcrio ................................................................................................ 71

    CAPTULO IV: ANLISE DOS PROCEDIMENTOS DE ATENUAO EM

    FRANCS E PORTUGUS ............................................................................................. 73

    4.1 Anlise dos procedimentos substitutivos de atenuao em francs .............................. 73

    4.2 Anlise dos procedimentos acompanhadores de atenuao em francs........................ 83

    4.3 Anlise dos procedimentos substitutivos de atenuao em portugus.......................... 88

    4.4 Anlise dos procedimentos acompanhadores de atenuao em portugus.................... 95

    CONSIDERAES FINAIS...........................................................................................102

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ...........................................................................105

    ANEXOS ........................................................................................................................... 107

  • 13

    INTRODUO

    O presente trabalho prope a anlise dos procedimentos de atenuao em francs e

    portugus brasileiro, a partir da observao de interaes verbais face a face em contexto

    miditico. Para tanto, embasaremos este estudo nas teorias desenvolvidas no campo da anlise

    da conversao, mais especificamente, no arcabouo terico referente polidez verbal.

    A conversao caracteriza-se por seu carter imediato, uma vez que se trata de um

    discurso relativamente no-planejvel, em virtude das prprias condies situacionais em que

    produzido, e coercitivo, pois devemos considerar uma srie de regras, lingusticas,

    contextuais, interacionais, para que sua efetivao esteja assegurada.

    As regras conversacionais variam amplamente conforme a sociedade ou a cultura em

    que esto inseridas; para orientar o comportamento adequado de seus membros, cada

    comunidade estabelece um conjunto de normas sociais e desenvolve estratgias para que o

    processo conversacional transcorra e mantenha-se ileso.

    Por mais que os interlocutores conheam as regras que regem a conversao, as

    diversas situaes interacionais criam, inevitavelmente, conflitos que podem oferecer perigo

    imagem pblica do locutor, assim como a do interlocutor. Por essa razo, so desenvolvidos

    mecanismos destinados a amenizar ou mesmo evitar as tenses nas interaes sociais, ou seja,

    so colocadas em prtica estratgias de polidez verbal.

    Nesse sentido, a compreenso do papel que desempenha a polidez verbal em

    determinada cultura pode ser determinante para o xito do objetivo pretendido em uma troca

    conversacional; afinal, cada grupo social possui um perfil comunicativo que o caracteriza.

    Pretendemos, portanto, colocar sob exame interaes verbais realizadas por falantes de

    lngua francesa (Frana) e tambm portuguesa (Brasil) para observar quais estratgias de

    polidez verbal so empregadas em cada uma dessas culturas em situaes de confronto; mais

    precisamente, objetivamos pesquisar o uso dos marcadores discursivos de atenuao presentes

    em ambas as lnguas.

    Ao identificar as diferenas e as semelhanas dos procedimentos lingusticos de

    atenuao colocados em ao nas lnguas francesa e portuguesa do Brasil, acreditamos

    fornecer ferramentas para uma melhor manuteno da interao verbal. Consideramos

    extremamente pertinente a problemtica do intercultural, visto que a compreenso do

    funcionamento das interaes em sociedades distintas pode ser crucial para o

  • 14

    desenvolvimento de uma comunicao harmoniosa, que poderia ser desestabilizada por mal-

    entendidos causados pelo desconhecimento de determinadas variaes culturais.

    Para fundamentar nossa anlise nos basearemos em estudos desenvolvidos por

    Kerbrat-Orecchioni (1996), que tem em Brown; Levinson (1978/1987) suas principais

    referncias. Estes distinguem para todo sujeito duas faces complementares: a face negativa

    (conjunto dos territrios do eu: territrio corporal, espacial, temporal, cognitivo ou afetivo,

    em que os indivduos tm o direito de agir como desejam) e a face positiva (conjunto das

    imagens autovalorizadas que os interlocutores constroem e tentam impor na interao; ela

    simboliza a necessidade de reconhecimento do falante). As faces so concomitantemente alvo

    de ameaas e objeto de um desejo de preservao. Essa contradio se equilibraria pela

    implementao de diversas estratgias de polidez, em sua maioria, procedimentos de

    atenuao, como um meio de conciliar o desejo mtuo de preservao das faces com o fato de

    que a maioria dos atos de linguagem potencialmente ameaadora de qualquer uma delas.

    Desse modo, para que haja o mnimo de harmonia entre os interactantes, eles devem

    se esforar para atenuar, ou suavizar, os diversos atos ameaadores da face que dirigem a seus

    parceiros de interao.

    Os atenuadores so de natureza muito diversa: lexicais e morfossintticos (ou verbais),

    prosdicos (paraverbais) e mmico-gestuais (no-verbais). Em nosso trabalho, objetivamos

    efetuar principalmente o exame dos marcadores de atenuao de natureza verbal, tais como,

    atos de linguagem indiretos, desatualizadores modais, ltotes, frmulas de polidez,

    reparadores, desarmadores entre outros. Todavia, os atenuadores paraverbais e no-verbais

    sero considerados na medida em que assegurarem melhor compreenso do contexto

    interacional.

    Dentre as diversas situaes de comunicao existentes, selecionamos exclusivamente

    as entrevistas televisivas, pelo fato de a polidez colocar-se como elemento imprescindvel

    para a boa consecuo dessa interao, uma vez que, normalmente, apresentam carter

    polmico. Apesar de possuir certo nvel de planejamento, no ato de sua execuo, as

    entrevistas adquirem um carter de imprevisibilidade, fato que as transformam em objetos de

    observao relevantes para a compreenso do processo interacional da polidez lingustica.

    A pesquisa ser realizada a partir da anlise de excertos de entrevistas provenientes de

    programas televisivos franceses e brasileiros: Linvit, em que so recebidas,

    semanalmente, personalidades que se encontram no centro da atualidade poltica, econmica,

    cientfica e cultural, vous de juger e Des paroles et des actes, emisses francesas

    mensais veiculadas no canal France 2, com durao de 1h30, que tm como convidados

  • 15

    somente personalidades polticas; e o programa semanal brasileiro Roda Viva, veiculado

    pela TV Cultura de So Paulo que, alm de polticos, tambm costuma receber figuras do

    meio econmico, cultural e esportivo. Por uma questo de coerncia, selecionamos apenas

    entrevistas realizadas com personalidades polticas em ambos os idiomas.

    No captulo I trataremos da questo da origem e conceituao da Pragmtica, assim

    como das dificuldades em delimitar seu campo de estudos. Em seguida, apresentaremos um

    panorama das diferentes linhas tericas da anlise conversacional. Apontada a relevncia da

    circunstncia em que ocorrem os fenmenos sociais para os estudos desenvolvidos no

    domnio da Anlise da Conversao (AC), passaremos s definies de contexto interacional

    dos elementos que o constituem, bem como sua organizao interna.

    No captulo II abordaremos questes relativas polidez verbal, dada sua importncia

    para a descrio do processo comunicativo. Analisaremos a origem do termo polidez e,

    posteriormente, trataremos dos estudos expoentes desenvolvidos nesse domnio, sobretudo,

    dos trabalhos efetuados por Kerbrat-Orecchioni (1996), fundamentados em Brown; Levinson

    (1978/1987), que se basearam na noo de face introduzida por Goffman (1974). A partir das

    pesquisas desenvolvidas por esses linguistas chegou-se ao conceito de polidez positiva e

    polidez negativa. Segundo os conceitos da polidez negativa, ponto chave do presente trabalho

    de pesquisa, a melhor maneira de ser negativamente polido evitar ameaar a face de seu

    destinatrio, ou ainda minimizar os efeitos de um ato ameaador empregando procedimentos

    de atenuao, os quais apresentaremos a classificao.

    No captulo III focaremos, especificamente, o tipo de interao a partir do qual

    desenvolveremos nossa anlise, isto , os aspectos referentes s entrevistas televisivas. Desse

    modo, trataremos de conceituar o gnero entrevista e seu subgnero entrevista televisiva,

    como tcnica de interao social, e abordaremos os elementos que constituem essa situao

    comunicativa, a saber, o lugar, o objetivo da interao, os papis interlocutivos nela

    desenvolvidos, seu quadro participativo e as regras que intervm no nvel da relao

    interpessoal. Posteriormente, apresentaremos o corpus colocado sob anlise, assim como os

    procedimentos metodolgicos utilizados.

    No captulo IV desenvolveremos a anlise dos procedimentos de atenuao

    substitutivos e acompanhadores nas lnguas francesa e portuguesa.

    A concluso retoma as questes epistemolgicas relativas aos procedimentos de

    atenuao e as inseres examinadas em nossa pesquisa.

  • 16

    CAPTULO I: DA TEORIA PRAGMTICA ANLISE DA CONVERSAO

    No uso da linguagem, nossas interpretaes so influenciadas pela situao particular

    em que nos encontramos. A partir de determinado contexto, efetuamos escolhas que so

    determinadas pelo conhecimento de regras e princpios que regulam a lngua em uso. Esses

    princpios reguladores so o objeto de estudos da pragmtica. A partir dos conceitos

    desenvolvidos nesse domnio, surgiram diversas correntes de investigaes, dentre elas, a

    Anlise da Conversao (AC) que, ao analisar a lngua em uso, concentra-se na maneira como

    a fala, considerada atividade central da vida social, organizada nas trocas cotidianas.

    No intuito de efetuar uma primeira delimitao de nosso campo de pesquisa,

    apresentaremos a seguir, uma concisa descrio histrica dos estudos pragmticos. Em um

    segundo momento, destacaremos aspectos relacionados, especificamente, anlise

    conversacional, tais como, conceito, origem, autores expoentes e conceitos fundamentais

    dessa teoria que nortearo o presente trabalho.

    1.1 Aspectos relativos ao surgimento da pragmtica

    Estabelecer e definir os conceitos bsicos de um campo de estudo no uma tarefa

    muito simples, uma vez que preciso caracterizar com profundidade seu mbito de atuao e

    justificar a necessidade de estabelec-lo, prtica que se torna ainda mais complexa, quando

    existe a convivncia de linhas de pesquisa muito diferenciadas, dentro de limites definidos,

    com mais ou menos rigor, de uma mesma teoria, como o caso da Pragmtica.

    Levinson (1984/2007, p.01), em seu manual de pragmtica intitulado Pragmatics,

    desenvolve um extenso e complexo captulo sobre as possibilidades de sua conceituao e,

    logo na introduo, admite no haver nenhuma definio adequada: (...) examinaremos

    algumas definies do campo [da pragmtica] que, apesar de no serem plenamente

    satisfatrias, serviro, pelo menos, para indicar o mbito aproximado da pragmtica

    lingustica.

  • 17

    Charaudeau e Maingueneau (2008) tambm reconhecem a instabilidade conceitual do

    termo pragmtica e listam diversas possibilidades de conceitu-lo. Dentre elas, aquela que

    responde mais eficazmente nossa proposta de pesquisa seria a noo de pragmtica como

    concepo de linguagem, j que temos como objeto de estudos as interaes

    conversacionais e, em particular, a estruturao de alguns ritos de polidez inseridos nesse

    contexto.

    Em sua acepo menos especfica, a pragmtica aparece menos como uma disciplina

    do que como uma maneira de caracterizar um conjunto muito diversificado de

    trabalhos (a respeito das interjeies, dos conectores, da determinao nominal, dos

    provrbios, dos ritos de polidez, das interaes conversacionais etc.) que recusam

    um estudo imanente do sistema lingustico. Pragmtica caracteriza ento uma certa

    concepo da linguagem e, mais geralmente, da comunicao. (CHARAUDEAU;

    MAINGUENEAU, 2008, p.393-95)

    Talvez seja justamente pelo fato de possuir fronteiras instveis que haja tantos

    conflitos entre a pragmtica e outros domnios lingusticos, como a semntica e a sintaxe.

    Vidal (1993, p.15-16), linguista espanhola, destaca que apesar de haver divergncias

    em relao a alguns aspectos conceituais, certa unanimidade existe sobre o objeto central da

    teoria pragmtica. Segundo a autora, pragmtica o estudo dos princpios que regulam o uso

    da linguagem na comunicao, quer dizer, as condies que determinam tanto o emprego de

    um enunciado concreto por parte de um falante concreto em uma situao comunicativa

    concreta, como sua interpretao por parte do destinatrio. Vidal acrescenta ainda que a

    pragmtica , portanto, uma disciplina que leva em considerao os fatores extralingusticos

    que determinam o uso da linguagem, precisamente todos aqueles fatores aos quais no se

    pode fazer referncia em um estudo puramente gramatical1.

    Blum-Kulka (2000, p. 69) destaca que a teoria pragmtica ocupa-se de explicar como

    os interlocutores minimizam a distncia entre os significados oracionais e os significados ou

    intenes dos falantes.2

    Nesse sentido, podemos dizer que h certa separao entre o que se diz, e o que se

    quer dizer, especificidade que nem a gramtica nem a semntica conseguiriam explicar, visto

    que no se ocupam de fatores externos linguagem.

    1 Texto original em espanhol. Traduo nossa.

    2 Texto original em espanhol. Traduo nossa.

  • 18

    Desenvolvemos complexos mecanismos de interpretao que nos levam a

    compreender o que, realmente, nosso interlocutor quer dizer com o que disse. Esses

    elementos apenas podem ser descritos por teorias que levem em considerao o contexto de

    produo dos enunciados, como por exemplo, a teoria pragmtica. De um ponto de vista

    geral, at mesmo aspectos essencialmente gramaticais, como a ordem das palavras, podem ser

    determinados por fatores contextuais para o estabelecimento do significado; isso depender,

    em maior ou menor grau, da quantidade de informaes compartilhadas pelos interlocutores.

    Quanto mais dados forem compartilhados, menor ser o grau de dependncia da informao

    em relao ao contexto para a inteligibilidade do enunciado. No entanto, conhecer as

    circunstncias da emisso, a identidade do locutor e do interlocutor entre outros, so

    requisitos imprescindveis para se chegar a uma interpretao plena.

    Para Reyes (1990, p.18) faz-se pragmtica h muito tempo, bem antes de ser

    concebida como disciplina dedicada a descobrir os princpios que guiam a comunicao

    verbal. A estudiosa afirma que todos que refletiram sobre a linguagem, refletiram sobre seu

    uso e sua relao com intrpretes e contextos: Plato e Aristteles, os retricos, os sofistas,

    Santo Agostinho, Bacon, Locke, Ockham... e Pierce, Morris, Wittgenstein, Habermas, Austin,

    Searle... Mas a lingustica empreendeu h poucos anos o estudo sistemtico do uso

    lingustico.

    Reyes (1990, p.22) tambm destaca a dificuldade de circunscrio do domnio da

    pragmtica, uma vez que demasiadamente amplo e compartilhado por diversas cincias, e

    defende que o dilema vem de suas origens, pois os conceitos fundamentais da pragmtica

    procedem da filosofia: atos de fala, pressuposio, implicadura. Mas junto a esses

    fenmenos, estudam-se outros, como a dixis e a estrutura da conversao, que

    originalmente no se consideravam pragmticos, mas que no podem ser ignorados no

    estudo do uso da linguagem.3

    A partir dessa discusso, podemos dizer que essa aparente dificuldade de conceituao

    da Pragmtica decorre do fato de se tratar de uma cincia relativamente recente se comparada

    semntica e sintaxe.

    3 Texto original em espanhol. Traduo nossa.

  • 19

    1.2 Uma proposta de delimitao

    Pinto (2003, p.49) faz uma classificao dos estudos pragmticos e os divide em trs

    correntes: o pragmatismo americano, influenciado pelos estudos semiolgicos de Willian

    James, os estudos de atos de fala, desenvolvidos pelo ingls J.L.Austin, e os estudos da

    comunicao, voltados para as relaes sociais, de classe, de gnero, de raa e de cultura,

    presentes na atividade lingustica.

    De acordo com essa classificao, nosso trabalho insere-se, mais especificamente, na

    rea da Pragmtica representada por Austin, levada adiante por J.R.Searle, que concebe a

    linguagem como atividade construda pelos interlocutores, em que dizer fazer, e no uma

    mera descrio das coisas do mundo. A partir dessa constatao, Austin criou o conceito de

    atos de fala, baseando-se na inteno comunicativa do falante, e dividiu-os em trs categorias:

    ato locucionrio, que corresponderia ao fato de se pronunciar um enunciado, ato

    ilocucionrio, que seria o significado desse enunciado e, finalmente, ato perlocutrio, o efeito

    causado por ele sobre o destinatrio.

    Apesar da diviso proposta por Pinto (2003), as divergncias em relao delimitao

    da Pragmtica so permanentes, visto que existem diferenas de enfoque em relao ao que

    deve pertencer ao mbito de estudos dessa teoria.

    Como temos por objetivo melhor compreender o fenmeno interacional, acreditamos

    que as noes da Pragmtica e da Anlise da Conversao, vistas a seguir, auxiliaro no

    propsito de entendimento da polidez verbal.

    1.3 A conversao, o contexto e os estudos pragmticos

    Levinson (1984/2007), em seu manual, trata da importncia do contexto no

    desenvolvimento de anlises pragmticas e atenta para a necessidade da realizao de estudos

    que levem em considerao o contexto dinmico mais importante do uso lingustico, isto ,

    a conversao ou a interao face a face.

    Partindo desse princpio levantado pelo linguista, a seguir buscaremos conceituar o

    termo conversao e as teorias que floresceram nessa rea de estudos.

  • 20

    Posteriormente, dada sua importncia para os estudos pragmticos, trataremos da

    definio do termo contexto e dos elementos que o constituem.

    1.3.1 Conversao e Anlise da conversao: definies

    Como a evoluo dos estudos sistemticos sobre conversao relativamente recente,

    comum haver equvocos a respeito de sua conceituao, sobretudo entre o termo

    conversao e anlise da conversao.

    Silva (2005, p. 32) explica que o termo conversao pode ser concebido de diversas

    maneiras. Em um sentido mais amplo, recobre qualquer tipo de interao oral; nesse caso,

    normalmente classificado em interao informal (no-planejada) ou formal (em que h um

    planejamento prvio: entrevistas, debates, arguies etc.). H ainda os que o empregam em

    sentido mais restrito, apenas como sinnimo de interao espontnea, no planejada. o caso

    de Kerbrat-Orecchioni (1996) que define conversao como um tipo particular de interao

    verbal de carter improvisado que implica um nmero relativamente restrito de participantes

    gozando dos mesmos direitos e deveres e que tem como nico objetivo o prazer de conversar.

    J a anlise da conversao, segundo Kerbrat-Orecchioni (1996), tem por objetivo

    explicitar as regras que subjazem o funcionamento das trocas comunicativas, ou seja, decifrar

    os princpios organizacionais que regem o comportamento dos que esto engajados na

    conduta de uma interao.

    Em relao s interpretaes ambguas de conversao e anlise da conversao,

    Silva (2005) acrescenta que:

    (...) por causa da relao entre a Etnometodologia como mtodo e a particular

    aplicao que fazem Sacks e seus seguidores da anlise da interao verbal humana,

    tornou-se habitual cham-la Anlise da Conversao. importante observar, no

    entanto, que o nome no totalmente apropriado, podendo provocar certa confuso,

    primeiro porque h vrias correntes tericas que analisam a conversao; segundo,

    porque alguns pesquisadores consideram conversao apenas como fala informal da

    vida cotidiana (conversas espontneas entre amigos). (SILVA, 2005, p. 45)

    Desse modo, alguns linguistas preferem trocar o termo conversao, utilizado em

    sentido mais amplo, por discurso em interao, pois defendem que devido ao estgio atual

    das pesquisas sobre textos orais de diferentes tipos, e no apenas a conversao, tal

    terminologia mais adequada. o que defende, por exemplo, Kerbrat-Orecchioni (2005,

    p.14) ao afirmar que se designa por discurso em interao o amplo conjunto das prticas

  • 21

    discursivas que se desenvolvem em contexto interativo, do qual a conversao representa

    apenas uma forma particular. 4

    Optamos pelo termo conversao em sua acepo mais ampla, isto , gnero do

    discurso em interao, por termos como objetivo analisar a interao oral de carter formal,

    a saber, entrevistas televisivas. A conversao e a entrevista so dois tipos diferentes de

    interao, pois enquanto a conversao caracteriza-se por sua espontaneidade; a entrevista,

    mesmo como gnero oral, considerada discurso planejado, apesar de sua execuo

    imprevisvel. Alm disso, ambas exigem scripts especficos tanto em relao aos papis

    engajados na interao (simtrico e assimtrico, respectivamente), quanto natureza de suas

    trocas discursivas (configuraes mais variadas, no primeiro caso, contra perguntas e

    respostas, no ltimo).

    Como nos embasaremos no quadro terico da Anlise da Conversao, doravante AC,

    efetuaremos a apresentao de um rpido panorama de suas linhas tericas e bases conceituais

    com as quais trabalharemos.

    1.3.2 As diferentes linhas tericas da Anlise da conversao (AC)

    Na dcada de 1970 surgiu um novo campo de pesquisas que considerou a conversao

    natural como objeto de estudo e despertou o interesse de socilogos, filsofos, psiclogos,

    antroplogos e linguistas.

    Kerbrat-Orecchioni (1996) agrupa as diversas correntes que tm a conversao como

    objeto de estudos em quatro tipos de abordagem: psicolgico e psiquitrico, etnosociolgico,

    lingustico e filosfico.

    Segundo a autora, a abordagem psicolgica e psiquitrica representada, sobretudo,

    pela escola de Palo Alto, na costa leste dos Estados-Unidos, cuja preocupao era de ordem

    teraputica. Ocupava-se, por exemplo, do estudo de casos de esquizofrenia, disfuno diversa

    entre outros.

    As abordagens etnosociolgicas so as mais importantes e diversas. Elas podem ser

    divididas em trs correntes: a etnografia da comunicao, representada por D. Hymes e J.

    Gumperz. Hymes defende que saber falar no significa apenas ser capaz de produzir e

    4 Texto original em francs. Traduo nossa.

  • 22

    interpretar um nmero infinito de frases bem formadas, como afirmava N. Chomsky, mas

    tambm, dominar as condies de utilizao adequada das possibilidades oferecidas pela

    lngua. Trata-se da competnvia comunicatica, definida como o conjunto de atitudes que

    permitem ao locutor comunicar-se com eficcia em situaes culturalmente especficas; a

    etnometodologia, criada por H. Garfinkel e desenvolvida por Sacks, Schegloff e Jefferson,

    que descreviam os mtodos que utilizam os membros de uma sociedade determinada para

    administrar os problemas comunicativos presentes na vida cotidiana; e, finalmente, a

    sociolingustica, desenvolvida por W. Labov, J. Fishman, S. Ervin-Tripp e, o principal deles,

    E. Goffman que, apesar de no ter fundado uma escola, contribuiu decisivamente com o

    estudo etolgico das comunicaes da vida cotidiana.

    A abordagem lingustica, especialmente representada pelos pesquisadores da escola de

    Genebra, E.Roulet, Moeshler, A. Auchlin, C. Kerbrat-Orecchioni que, a partir da dcada de

    80, se empenharam nos estudos interacionistas e passaram a priorizar as produes efetivas,

    discursos orais e dialogados, considerados como a forma primordial da realizao da

    linguagem.

    A abordagem filosfica, representada por J.L.Austin e J. Searle, que elaboraram a

    noo de ato de linguagem, L. Wittgenstein, que criou a concepo de jogo de linguagem,

    e H.P.Grice, com suas mximas conversacionais, as quais retomaremos mais adiante por

    serem consideradas, por muitos tericos, precursoras dos estudos da polidez lingustica.

    Retomaremos tambm os estudos desenvolvidos por alguns desses autores, uma vez

    que representam a base terica de nossa pesquisa. Nesse sentido, trataremos com mais ateno

    os trabalhos de Goffman (1974), a partir dos quais foi elaborada a teoria de polidez verbal de

    Brown; Levinson (1978/1987) considerada a mais influente da atualidade.

    1.3.3 O contexto interacional e os interactantes da conversao

    A conversao pode ser examinada como uma organizao estrutural, uma vez que

    constituda de acordo com as convenes sociais.

    O papel do contexto na anlise da conversao primordial, pois se preocupa com a

    vinculao situacional e com o carter pragmtico da conversao. Enquanto a lingustica

    moderna, em geral, forjou-se a partir da ideia de que era possvel e at mesmo necessrio

    descrever frases independentemente de seu contexto de realizao, os analistas da

  • 23

    conversao, assim como outros tericos interacionistas, procuram, ao contrrio, analisar

    discursos que ocorrem em situaes concretas de comunicao. Nesse sentido, julgamos

    importante destacar com mais profundidade os elementos constituintes do contexto.

    Kerbrat-Orecchioni (1996, p.16-20) apresenta os ingredientes que constituem o

    contexto5, ou situao comunicativa:

    a) o lugar, que se subdivide em: quadro espacial, ou seja, as caractersticas fsicas

    do lugar onde se desenvolve a interao, sua funo social e institucional; e quadro

    temporal, o momento apropriado em que cada discurso deve acontecer;

    b) o objetivo da interao, que pode ser global (ir banca de jornal) ou mais

    especfico, o que corresponde aos diferentes atos que podem se realizar no

    decorrer desse encontro;

    c) os participantes, em que devem ser consideradas a quantidade de interactantes, suas

    caractersticas individuais (sexo, idade, profisso etc), e suas relaes mtuas (grau

    de intimidade, natureza social ou afetiva, etc.).

    Por considerar o quadro participativo o elemento mais importante da situao

    comunicativa, Kerbrat-Orecchioni (2005, p.17) explora com mais profundidade e destaca:

    a) os papis interlocutivos de uma interao, em que toda troca comunicacional

    implica a existncia de um emissor ou locutor, aquele que est com a palavra, e de

    um ou mais receptores ou ouvintes, aquele(s) para quem a mensagem est sendo

    dirigida. Esse ouvinte nem sempre est recebendo passivamente a mensagem, mas

    participando dela, pois mesmo ao estar apenas ouvindo, emite sinais que

    comunicam sua adeso ou no interao.

    O processo interativo , portanto, co-construdo, j que um interlocutor age sobre o

    outro. importante lembrar que os papis interlocutivos modificam-se incessantemente no

    decorrer da interao, uma vez que se trata de uma realizao dinmica.

    Goffman (1974) defende reavaliao dos conceitos falante/ouvinte, pois encobrem

    uma srie de aspectos da identidade social, relevantes para a anlise da conversao face a

    face. Dessa maneira, destaca:

    5 No h consenso entre os tericos sobre a natureza dos componentes do contexto. Hymes (1972), por

    exemplo, alm dos participantes, lugar, momento e objetivo, inclui em sua classificao o tema, o gnero do discurso, o canal, o dialeto empregado, as regras sobre os turnos de fala em uso numa determinada comunidade etc. Todavia, h unanimidade em relao a alguns constituintes do contexto, a saber, os participantes do discurso, o quadro espacial e temporal e seu objetivo.

  • 24

    Os termos falante e ouvinte implicam que somente o que est em questo o som,

    quando, na verdade, a viso organizacionalmente muito significativa tambm, s

    vezes, at o tato. Na administrao da tomada de turno, na avaliao da recepo

    atravs de pistas visuais dadas pelo ouvinte, na funo paralingustica da

    gesticulao, na sincronia da mudana de olhar, na proviso da evidncia de ateno

    (como na olhada meia distncia), na avaliao de absoro atravs da evidncia de

    envolvimentos colaterais e expresses faciais em todas estas instncias evidente

    que a viso fundamental, tanto para o falante quanto para o ouvinte. Para a efetiva

    conduo da conversa, melhor que falante e ouvinte estejam em posio tal que

    possam observar-se mutuamente. (GOFFMAN apud SILVA, 2005, p. 50-1)

    No plano do falante, que renomeou como formatos de produo, Goffman (apud

    SILVA, 2005) distingue os seguintes papis comunicativos:

    animador: o falante responsvel pela atividade fsica, acstica da fala, uma espcie

    de mquina de falar;

    autor: o falante visto como agente, o dono do script, responsvel pelo contedo e

    pelas implicaes da fala;

    principal: representa o falante visto como indivduo revestido de uma posio

    estabelecida pela fala que produz; o falante representa um indivduo com identidade

    social particular, com capacidade especfica enquanto membro representante de um

    grupo; algum que est comprometido com o que as palavras expressam.

    b) os tipos de receptores, ou estruturas de participao, segundo a nomenclatura de

    seu criador, Goffman (1974):

    participantes ratificados, isto , destinatrios que fazem oficialmente parte do grupo

    conversacional, que por sua vez se subdividem em destinatrios diretos ou

    alocutrios, aqueles que o locutor admite abertamente como seus principais parceiros

    de interao, e

    destinatrios indiretos ou laterais, situao que ocorre em uma conversao em que

    h mais de dois participantes, por exemplo, em um trlogo, em que o locutor pode

    legimitar alternadamente seu destinatrio, promovendo uma mudana de posies

    entre destinatrios diretos e indiretos ou, ainda, referir-se concomitantemente a ambos

    em uma espcie de interpelao coletiva.

    Segundo Kerbrat-Orecchioni (2005), ainda nesse contexto, existem alguns indcios

    produzidos pelo emissor que identificam o destinatrio direto. Podem ser de natureza verbal

    (identificao do destinatrio pelo nome, emprego de termos de endereamento) ou no-

    verbal (orientao do corpo, direo do olhar). Determinar se um destinatrio direto ou

  • 25

    indireto, no tarefa simples. Portanto, em vez de contrap-los, os linguistas preferem

    denomin-los de destinatrio privilegiado vs destinatrio secundrio, hierarquia bastante

    flexvel no decorrer de uma conversao;

    espectadores simples, ou seja, aqueles que apenas testemunham a troca conversacional

    da qual so, em princpio, excludos. Dentro dessa categoria, Goffman (1974)

    distingue os receptores inadvertentes, dos quais o emissor tem conscincia de sua

    presena no espao perceptivo, e os sub-reptcios, intruso(s) que ouve(m) a

    mensagem sem que o emissor esteja consciente disso.

    c) o tropo comunicacional, que ocorre em situaes em que um destinatrio direto

    pode esconder um outro principal, quer dizer, o alocutrio alvo no aquele ao qual

    o emissor refere-se. possvel ilustrar esse conceito do seguinte modo: aparentemente

    teramos, destinatrio direto = x / destinatrio indireto = y; mas, na realidade seria,

    destinatrio principal = y /destinatrio secundrio = x; assim, enquanto em uma

    entrevista os participantes parecem interagir entre si, o objetivo principal da interao

    , na verdade, atingir o pblico.

    Kerbrat-Orecchioni (1996) afirma ainda que a configurao do formato de recepo

    no ntida nem constante, pois as fronteiras que separam as diferentes categorias de

    receptores so flexveis e o status interlocutivo dos participantes modifica-se constantemente

    durante a interao.

    No contexto do presente trabalho, faz-se necessria a descrio e a devida

    caracterizao das noes referentes ao contexto interacional e aos interactantes da

    conversao, uma vez que propomos a anlise de uma situao de comunicao que ocorre

    em circunstncias bastante especficas, estdio televisivo, e apresenta uma cadeia complexa

    de interactantes, entrevistadores, entrevistados, jornalistas e, finalmente, o pblico, principal

    alvo da interao.

  • 26

    1.3.4 Os sistemas semiticos da conversao

    O significado que se produz ao usar-se a linguagem vai muito alm do que o contedo

    das proposies enunciadas. As conversaes so feitas de palavras, mas tambm de gestos,

    tom de voz, postura, entonao, durao das pausas; enfim, tudo significa, at mesmo o

    silncio. Assim, as conversaes so constitudas por diferentes sistemas semiticos, a saber,

    verbal, paraverbal e no verbal.

    De acordo com a classificao apresentada por Kerbrat-Orecchioni (1996, p. 23), o

    material verbal formado pelo conjunto das unidades que sobressaem da prpria lngua, ou

    seja, unidades fonolgicas, lexicais e morfossintticas. A linguista afirma que Cest dabord

    sous sa forme orale que se ralise le langage verbal (KERBRAT-ORECCHIONI, 1996,

    p.24). No entanto, apesar de ser algo evidente, foi a partir do texto escrito, admitido como

    norma, que eram realizadas as descries lingusticas.

    Reyes (1990, p.35) atribui o fato de a pragmtica ter fundamentalmente trabalhado

    com materiais fabricados s suas origens filosficas e sua relao filial com a semntica.

    Desse modo, de acordo com Kerbrat-Orecchioni (1996), o oral espontneo ainda

    considerado como um sub-produto da linguagem, como se observa em atitudes que a

    gramtica tradicional adota frente a algumas caractersticas da linguagem oral consideradas

    erros. So destacadas pela autora, dentre essas supostas falhas, os balbucios, a gaguez, as

    frases inacabadas, as construes incoerentes, as repeties, as reformulaes, as retificaes,

    as marcas de hesitao, os fticos, os reguladores e afins. Todavia, se analisarmos o que

    ocorre em uma interao face a face, podemos observar que essas possveis falhas so, na

    verdade, funcionais, a partir de um ponto de vista interativo. Podem ser citadas, como

    exemplo, as autointerrupes (utilizadas pelo emissor para chamar a ateno de seu

    interlocutor), como estratgia inconsciente para restaurar o bom funcionamento da troca

    conversacional.

    Em vez de serem julgados como problemas, esses fenmenos deveriam ser

    considerados estratgias eficazes para a manuteno da interao. A linguagem oral, na

    verdade, apresenta muitas regularidades e exatamente delas que a Anlise da Conversao

    se ocupa.

    As unidades que acompanham aquelas propriamente lingusticas, transmitidas pelo

    canal auditivo, constituem o material paraverbal (prosdico e vocal), ou seja, entonaes,

  • 27

    pausas, intensidade articulatria, elocuo, particularidades da pronncia, caractersticas da

    voz, entre outras.

    Ao contrrio das unidades precedentes, as unidades no verbais so transmitidas pelo

    canal visual. Nesse conjunto, podemos distinguir os sinais estticos que inclui tudo o que

    constitui a aparncia fsica dos participantes (caractersticas naturais idade, sexo; adquiridas

    rugas, peso; e acrescentadas roupas, acessrios), os cinticos lentos, como a distncia,

    as atitudes e as posturas, e os cinticos rpidos, como a troca de olhares, mmicas e gestos.

    Em nossa pesquisa, ao propormos a anlise de entrevistas com personalidades

    polticas, observaremos com nfase os fenmenos verbais nela presentes, uma vez que nosso

    objeto de estudo comporta os marcadores de atenuao dessa natureza. Sabemos, no entanto,

    que os elementos paraverbais e no-verbais, em algumas circunstncias, so determinantes

    para a efetivao da completude do significado comunicacional. Nesse sentido, essas marcas

    sero levadas em conta sempre que necessrio.

    1.3.5 A tomada e a distribuio de turnos

    A conversao, apesar de seu carter espontneo e pouco coercitivo, assim como

    qualquer outra troca comunicativa, regida por uma srie de regras de procedimento. Em

    1974, em um artigo fundador, Sacks, Schegloff e Jefferson (S.S.J.), apresentaram o

    funcionamento das regras de alternncia dos turnos de fala na conversao, as quais permitem

    melhor compreender como se organiza esse sistema interativo.

    Alm deles, muitos outros estudiosos desenvolveram modelos a partir da tomada e

    distribuio de turnos, dentre eles, Kerbrat-Orecchioni (2005) e o grupo Valesco, Espanhol

    Coloquial - coordenado por Briz Gmes e Van Dick.

    Elegemos, por considerarmos o mais completo, o modelo desenvolvido por Kerbrat-

    Orecchioni (2006, p.28) para embasar nossos estudos. A autora destaca que todas as prticas

    comunicativas so condutas ordenadas, at mesmo as conversaes, e obedecem a certas

    regras de procedimento que criam aos interactantes um sistema de direitos e deveres. Por

    serem de natureza muito diversa, a autora divide-as em trs categorias:

  • 28

    Regras que permitem a gesto da alternncia de turnos de fala:

    a) o locutor (L1) tem o direito de fazer uso da palavra durante certo tempo, mas

    tambm o dever de ced-la em determinado momento;

    b) seu sucessor potencial (L2) tem o dever de deixar L1 falar e escut-lo; ele tambm

    tem o direito de exigir a palavra depois de algum tempo e o dever de fazer uso dela,

    quando lhe for cedida.

    A atividade dialogal tem por fundamento o princpio de alternncia de turnos (ababab)

    que se constitui da seguinte forma: em uma conversao, os turnos devem ser ocupados

    sucessivamente por diferentes locutores, devendo haver um equilbrio relativo na durao dos

    turnos, assim como na focalizao do discurso, que deve em princpio centralizar-se em L1 e

    L2. Cada pessoa deve falar na sua vez, para evitar a sobreposio de vozes que, apesar de

    comum em conversaes, quando muito frequentes, pode colocar os interactantes em

    negociao agressiva, cordial, explcita ou implcita; os intervalos de silncio que separam os

    turnos devem ser reduzidos ao mnimo.

    Regras que regem a organizao estrutural da interao

    A coerncia de uma conversao no depende apenas da sucesso dos atos de fala,

    mas tambm da construo coletiva de uma coerncia interna. Diferentes modelos que

    descrevem a organizao estrutural da conversao foram desenvolvidos. No entanto,

    Kerbrat-Orecchioni (1996) considera a proposta feita pela Escola de Genebra, representada

    por E.Roulet, Moeshler, A. Auchlin, qual tambm pertence, a mais sofisticada e elaborada.

    Uma apresentao simplificada desse modelo seria:

    a) unidades dialogais

    - Interao: unidade comunicativa de ordem superior que apresenta uma evidente

    continuidade interna (entrevista, debate entre outras) que se decompe em sequncias;

    - Sequncia ou episdio: bloco de trocas comunicativas que tratam de um mesmo tema

    ou esto centradas sobre o mesmo objetivo (sequncia de abertura, corpo da interao e

    sequncia de encerramento);

    - Troca: menor unidade dialogal (construda por dois participantes ou mais); constitui-se

    de pelo menos duas intervenes; no entanto, pode ocorrer que uma troca seja formada

    por apenas uma interveno (seja porque se trata de uma interveno truncada, seja

    porque realizada por meios no verbais); quando a troca constituda por duas

  • 29

    intervenes, temos um par adjacente (primeira interveno= iniciativa; segunda

    interveno=reativa, por exemplo, pergunta/resposta, como o caso das entrevistas);

    b) unidades monologais

    - Interveno: a contribuio de um nico locutor a uma troca particular; so

    constitudas por atos de linguagem que nem sempre so funcionalmente equivalentes:

    em uma interveno em que h vrios atos de linguagem, podemos distinguir, por

    exemplo, o ato diretor e um ou vrios atos subordinados.

    - Ato de linguagem: unidade base de uma interao verbal (pergunta, pedido, insulto);

    a menor unidade que realiza pela linguagem uma ao destinada a modificar a situao

    dos interlocutores.

    Regras que intervm no nvel da relao interpessoal

    Os aspectos que podem intervir no nvel relacional de uma interao so numerosos e

    muito diversos. No entanto, dois merecem destaque:

    a) o tipo de distncia, horizontal ou vertical, que se instaura entre os interactantes

    O eixo da relao horizontal gradual e tem, de um lado, a distncia, e do outro, a

    familiaridade e a intimidade, alm de dados externos (contextuais) e internos (signos verbais,

    paraverbais e no verbais). Os fatores contextuais mais determinantes so o nvel de

    conhecimento dos interlocutores, a natureza da relao scio-afetiva que os une e a natureza

    da situao comunicativa (formal, informal ou cerimonial). Em relao aos dados internos,

    mais especificamente, os marcadores no verbais e paraverbais, podem ser destacados a

    distncia proxmica, os gestos, principalmente os que envolvem toque, a postura, a orientao

    do corpo, a durao e intensidade dos contatos oculares, algumas mmicas, a intensidade

    articulatria e o timbre de voz, velocidade de elocuo, dos encadeamentos e a frequncia de

    sobreposies de voz. Dentre os marcadores verbais, podem ser citados o emprego dos termos

    cordiais e os temas abordados na interao.

    Enquanto a relao horizontal apresenta natureza simtrica, a relao vertical

    assimtrica, os interactantes esto em uma situao desigual, pois envolve questes referentes

    a poder, hierarquia e dominao. Assim, enquanto um est em posio de dominador, o outro

    se encontra em posio de dominado, disposio essa que se reflete no emprego dos

    marcadores conversacionais.

  • 30

    No entanto, seu funcionamento muito similar ao da relao horizontal: tambm se

    trata de uma dimenso gradual e h fatores de natureza interna e externa que influenciam as

    relaes.

    Conforme Kerbrat-Orecchioni (2006), dentre os principais marcadores no verbais e

    paraverbais esto: a aparncia fsica dos participantes e sua vestimenta, a organizao do

    espao comunicativo (como a posio relativa dos participantes, a natureza e a disposio dos

    assentos), a postura, o jogo de olhares, alguns comportamentos mmico-gestuais, a

    intensidade vocal e o tom utilizado.

    Os marcadores verbais mais importantes destacados pela autora so: as formas de

    cordialidade e seu emprego recproco ou assimtrico, a organizao dos turnos de fala e seus

    aspectos quantitativos (falar muito ou pouco) e qualitativos (a presena de fenmenos como a

    intruso e a interrupo), a organizao estrutural da interao e sua importncia em relao

    aos responsveis pelo incio e encerramento da troca conversacional, e os atos de linguagem,

    a categoria mais rica e complexa do conjunto dos marcadores verbais. De maneira geral, a

    ttulo de exemplificao, podemos dizer que L1 coloca-se em posio superior a de seu

    interlocutor ao cometer contra ele um ato ameaador ao seu territrio ou sua face (crtica,

    ordem, proibio); e, ao contrrio, coloca-se ou colocado em uma posio inferior ao sofrer

    um ato ameaador ou ao produzir um ato ameaador sua prpria face (pedido de desculpas,

    autocrtica, retratao e outros).

    Como a interao um processo dinmico, nada est pr-determinado em seu curso.

    Aquele que ocupa uma posio superior pode, em um segundo momento ou em outra

    circunstncia, ser dominado e vice-versa. Se tomarmos como exemplo uma entrevista, o

    entrevistador exerce sua autoridade em relao estrutura da interao, j que efetua grande

    parte das iniciativas, porm, como seu papel falar menos e suscitar a palavra do outro, em

    relao aos aspectos quantitativos no deve ser aquele que domina a conversao.

    b) O funcionamento da polidez

    Atualmente, admite-se o fato de que impossvel descrever o processo comunicativo

    sem levar em considerao aspectos relativos polidez verbal, visto que muitas questes no

    podem ser respondidas pela gramtica, sintaxe ou semntica. O interesse atribudo ao

    funcionamento da polidez nas interaes verbais uma das caractersticas mais marcantes dos

    desenvolvimentos recentes da pragmtica lingustica, assim como o reconhecimento da

    importncia do nvel da relao interpessoal.

  • 31

    Por ser um tema bastante complexo, desenvolveremos um captulo exclusivo para

    tratar dos aspectos referentes polidez verbal, noo fundamental para a nossa anlise.

  • 32

    CAPTULO II: A POLIDEZ VERBAL

    O ritual de polidez, fazendo parte dos costumes sociais, uma das estratgias

    fundamentais no processo interacional, assim como uma das caractersticas mais marcantes

    dos desenvolvimentos recentes da pragmtica lingustica. Como a compreenso dos

    procedimentos que sustentam o desenvolvimento harmonioso das trocas comunicativas

    configura-se o ponto central de nossa pesquisa, apresentaremos, em um primeiro momento, a

    origem do termo polidez, tida como regra de condutas sociais; e, em um segundo momento,

    explicitaremos as principais proposies tericas que contriburam para a constituio desse

    campo.

    Trataremos, sobretudo, do sistema de regras de polidez desenvolvido por Brown e

    Levinson, que se fundamenta no elaborado quadro terico de Goffman (1974). Das

    investigaes de Brown; Levinson (1978/1987), complementadas posteriormente por Kerbrat-

    Orecchioni (2005), principal fonte terica que fundamenta nossos estudos, surgiram as

    noes-base da polidez verbal, a saber, polidez negativa e positiva, a partir da quais se tornou

    possvel estabelecer um sistema coerente de regras e verificar como funcionam em diferentes

    situaes comunicativas e em culturas distintas. Essas definies so de extrema importncia

    para nosso trabalho, uma vez que pretendemos analisar contrastivamente o funcionamento da

    polidez negativa em interaes face a face nas lnguas francesa e portuguesa (Brasil), com a

    inteno de verificar suas especificidades em ambas as culturas.

    2.1 Conceito e fundamentos

    A palavra polidez proveniente do conceito ocidental moderno do termo cortesia, tal

    como desenvolvido nas sociedades de corte europeia, que teve sua primeira apario no sc.

    XII, no sul da Frana, e designava o estilo de viver da corte, suas regras de conduta, o que

    atribua a seus membros determinadas qualidades sociais e os distinguiam do povo comum. A

    cortesia resultante do processo civilizador pelo qual passou a sociedade ocidental europeia

    na mudana de padres de comportamento do feudalismo para o absolutismo (apud LEITE,

    2008, p.51).

  • 33

    Com o aumento da populao, o desaparecimento dos burgos e o surgimento das

    cidades, para tornar possvel a vida em sociedade, era necessrio que seus membros

    desenvolvessem convvio pacfico, processo esse que provocou, vagarosamente, importantes

    mudanas nas regras de comportamento interpessoal, em busca da harmonizao da

    sociedade. Portanto, a cortesia surgiu como uma espcie de polimento da conduta social. Na

    verdade, mais do que simplesmente isso, pois esse termo sempre esteve relacionado s

    mudanas sociais pelas quais a sociedade passou ao longo de sua histria. Desse modo,

    cortesia recebeu diferentes acepes no decorrer da histria: hipocrisia, decorrente do

    jogo de poder nas relaes interpessoais entre o rei e seus cortesos e desses entre si,

    civilidade, termo que entrou em uso no sculo XVI na Frana em substituio palavra

    cortesia, que sofreu, no sculo XVII, outros desdobramentos, como polidez e

    humanidade, e finalmente, no sculo XIX, civilizao.

    Como se pde ver, na prtica, h relao de sinonmia entre as palavras cortesia e

    polidez, embora etimologicamente recebam explicaes distintas. No mbito especfico dos

    estudos lingusticos, cortesia e polidez mantm, normalmente, essa equiparidade semntica.

    Porm, por considerarmos a palavra polidez de uso mais restrito ao domnio da linguagem e

    para dar objetividade unvoca aos nossos estudos, optamos pelo termo polidez.

    2.2 Aspectos tericos da polidez

    Uma das caractersticas mais marcantes dos desenvolvimentos recentes sobre

    pragmtica lingustica o interesse atribudo ao funcionamento da polidez nas interaes

    verbais. Enquanto, antigamente, as reflexes sobre polidez se resumiam a manuais de bons

    modos e etiqueta, atualmente, devido ao reconhecimento da importncia da compreenso das

    relaes interpessoais, presenciamos o surgimento, a partir da dcada de 70, de um novo

    domnio de estudos voltado anlise do papel que ocupa a polidez, nas interaes cotidianas,

    e aos procedimentos explorados para garantir o carter harmonioso das trocas comunicativas.

    Apesar de ter tratado das questes de cortesia de modo pontual e no sistematizado,

    apresentaremos, a seguir, o estudo considerado como desencadeador das pesquisas sobre o

    funcionamento da polidez nas interaes verbais como conhecemos nos moldes atuais, ou

    seja, o princpio de cooperao de Paul Grice (1975).

  • 34

    2.2.1 A teoria de Paul Grice (1975)

    O interesse pelo tema polidez lingustica, dentro dos trabalhos pragmticos, surgiu

    nos anos 70 em estudos desenvolvidos por Paul Grice (1967/1975) que, ao perceber que uma

    lgica regia a conversao e que os dilogos so esforos cooperativos, formula o Princpio de

    Cooperao composto de quatro categorias, ou mximas conversacionais:

    Mxima de Quantidade Faa com que sua contribuio seja suficientemente informativa

    No faa com que sua contribuio seja mais informativa do que o necessrio

    Mxima de Qualidade No informe o que voc acredita ser falso

    No informe nada sobre o que voc no possa oferecer evidncias suficientes.

    Mxima de relao Seja relevante

    Mxima de Modo Evite obscuridade

    Evite ambiguidade

    Seja breve

    Seja ordenado

    Todavia, o autor percebe que nem sempre as mximas so respeitadas e que a violao

    delas provoca implicadura conversacional que torna necessria a realizao de inferncias

    para o estabelecimento da compreenso da mensagem produzida pelo falante que,

    intencionalmente, desrespeitou alguma das mximas conversacionais.

    Assim, em contexto comunicativo, a maior parte dos enunciados, alm de seu

    contedo explcito, pode possuir um ou vrios contedos implcitos. Por exemplo, quando

    uma personalidade diz Estou cansado (a)! durante uma entrevista dada imprensa escrita,

    talvez no vise somente a explicitar sua condio fsica ou psicolgica, pois, dado o contexto

    de ocorrncia desse comentrio, essa declarao pode adquirir significado que ultrapasse as

    fronteiras da literalidade, a saber, Desejo terminar logo ou, ainda, Estamos nos estendendo

    muito.

    Grice (1975) admite a existncia de outras mximas alm das citadas, como, seja

    polido, mas no se aprofunda nos resultados que essa mxima de polidez traria para a

    conversao.

    Apesar das inmeras crticas recebidas e de no investigar a fundo a questo da

    polidez lingustica, sua anlise serviu de base para muitos modelos de polidez desenvolvidos

  • 35

    sob diferentes perspectivas, como os de Lakoff (1975), Leech (1983/1996) e Brown; Levinson

    (1978/1987) considerados, pela maioria dos estudiosos, os fundadores da cortesia lingustica,

    tal como entendida na atualidade.

    Desse modo, descreveremos as contribuies de Lakoff (1975) e Leech (1983/1996)

    teoria da polidez e, em seguida, focaremos os estudos de dois de seus tericos mais influentes,

    Brown; Levinson (1978/1987), fundadores das principais fontes tericas que norteiam essa

    pesquisa.

    2.2.2 A teoria de Robin Lakoff (1975)

    Lakoff (1975) foi a primeira a adaptar os princpios da conversao de Grice (1975) na

    tentativa de esclarecer os mecanismos da polidez. Para isso, props uma srie de regras de

    cortesia destinadas a limitar ao mximo o risco potencial de conflito em qualquer interao

    verbal. A autora destaca que os falantes possuem competncia pragmtica que abrangeria

    duas regras: a) seja claro (mxima essencial de Grice, 1975) e b) seja polido.

    No que se refere primeira mxima, esclarece que, ao falarmos, temos como objetivo

    primordial estabelecer uma comunicao e, quanto mais claros formos, menor ser o risco da

    presena de mal entendidos. Todavia, se o falante tem como principal inteno demonstrar

    respeito perante seu interlocutor, seu propsito no tanger tanto a clareza, mas a expresso

    de bons modos. Portanto, embora possam fazer parte do mesmo enunciado e reforarem-se,

    essas estratgias podem ser mutuamente excludentes.

    A partir da competncia seja polido, Lakoff (1975) estabelece algumas sub-regras

    que regem o comportamento do falante:

    1. Regra de formalidade: no se imponha.

    2. Regra de respeito: oferea alternativas.

    3. Regra de camaradagem: seja amigvel, faa o outro sentir-se bem.

    Lakoff (1975) reconhece que a polidez como tentativa do falante de no impor, de dar

    opes e de fazer seu interlocutor sentir-se bem viola a primeira regra, seja claro, uma vez

    que ser polido exige, normalmente, que o locutor no se expresse de modo eficiente e com

    clareza.

  • 36

    Outra contribuio importante refere-se questo da universalidade das mximas ou

    regras de cortesia em que defende o distinto predomnio das mximas de acordo com os

    costumes de cada sociedade ou cultura.

    A proposta de Lakoff (1975) no deixa de estar sujeita a crticas. Alm de suas

    mximas de cortesia no estarem bem articuladas entre si, nem integradas em um sistema

    coerente de anlises, a autora no define o que entende por cortesia.

    2.2.3 A teoria de Geoffrey Leech (1983/1996)

    Leech (1983) prope modelo relacionado lei de custo-benefcio que traz muitas

    contribuies para a polidez lingustica. Como Lakoff (1975), adota a estrutura estabelecida

    inicialmente por Grice (1975) de mximas e sub-mximas conversacionais, porm, opta por

    tratar a cortesia no domnio da retrica pragmtica. Prope seis mximas conversacionais:

    1. mxima da discrio: em atos impositivos ou comissivos, deve-se a) minimizar o custo para o outro e b) maximizar o benefcio para o outro.

    2. mxima da generosidade: em atos impositivos e comissivos, deve-se a) minimizar o benefcio para si mesmo e b) maximizar o custo para si mesmo.

    3. mxima da aprovao: em atos expressivos e assertivos, deve-se minimizar as crticas para o outro e (b) maximizar os elogios para o outro.

    4. mxima da modstia: em atos expressivos e assertivos, deve-se a) minimizar os elogios para si mesmo e b) maximizar as crticas para si mesmo.

    5. mxima do acordo (ou da conformidade): em atos assertivos, deve-se a)minimizar o desacordo entre si e o outro e b) maximizar o acordo entre si e o outro.

    6. mxima da simpatia: em atos assertivos, deve-se minimizar a antipatia entre si e o outro e b) maximizar a simpatia entre si e o outro.

    Estabelece tambm conjunto de escalas que devem fundamentar o falante ao fazer uso

    das mximas, conforme os contextos: escala de custo-benefcio, de opo, de discrio, de

    autoridade e de distncia social.

    De acordo com essa escala, quanto maior for o custo para o alocutrio, menor a

    cortesia intrnseca do ato. E, por outro lado, quanto maior o benefcio para o alocutrio,

    maior a cortesia intrnseca do ato.

  • 37

    2.2.4 A teoria de Penelope Brown e Stephen C. Levinson (1978/1987)

    A teoria desses autores tem sido a mais clebre e elaborada no que tange o estudo dos

    fenmenos verbais da polidez, tanto dentro de uma mesma lngua e cultura, quanto em

    perspectivas contrastivas.

    A partir da concepo de que a cortesia serve para tornar a vida social possvel

    minimizando os elementos que colocariam a interao em risco, Brown; Levinson

    (1978/1987) estabelecem dois conceitos centrais, racionalidade e face, entendidos como

    propriedades universais, inerentes a quase todos os interactantes. O primeiro refere-se aos

    processos de eficcia que cada locutor utiliza, em um ato de comunicao; o segundo, seria o

    desejo que ele possui de obter liberdade e, concomitantemente, aceitao no decorrer da

    interao.

    By rationality we mean something very specific the availability to our MP6 of a

    precisely definable mode of reasoning from ends to the means that will achieve

    those ends. By face we mean something quite specific again: our MP is endowed

    with to a particular wants roughly, the want to be unimpeded and the want to be

    approved of in certain respects. (BROWN; LEVINSON, 1978/1987, p.58)7

    A concepo de polidez utilizada por Brown; Levinson (1978/1987) baseia-se na

    noo de face introduzida por Goffman (1974) que a define como a autoimagem pblica

    que o indivduo constri de si e que pretende ver preservada. Segundo esse autor:

    On peut dfinir le terme face comme tant la valeur sociale positive quune

    personne revendique effectivement travers la ligne daction que les autres

    supposent quelle a adopte au cours dun contact particulier. La face est une image

    de moi dline selon certains attributs sociaux approuvs, et nanmoins

    partageable, puisque, par exemple, on peut donner une bonne image de sa

    profession ou de sa confession en donnant une bonne image de soi. (GOFFMAN,

    1974, p.09) 8

    O autor estudou diversos rituais de interao e definiu a cortesia como uma instituio

    cultural que tende a estabelecer e manter boas relaes sociais. Os seres humanos vivem

    6 MP (model person), segundos os autores, seria a personificao dos interactantes ideais.

    7 Traduo nossa: Entende-se por racionalidade algo muito especfico a disponibilidade para o nosso MP

    de um modo precisamente definvel de raciocnio que parte dos fins para os meios que permitam alcanar aqueles fins. Entende-se por face algo bastante especfico novamente: nosso MP dotado de um querer especfico em linhas gerais, o querer ser livre e o querer ser aprovado em certos aspectos. 8 Traduo nossa: podemos definir o termo face como o valor social positivo que uma pessoa efetivamente

    reivindica para si por meio da linha de ao que os outros pressupem que ela tenha adotado durante um contato

    particular. A face uma imagem de si delineada segundo certos atributos sociais aprovados e, no entanto,

    compartilhados, j que oferecer uma boa imagem profissional, por exemplo, oferecer uma boa imagem de si

    prprio.

  • 38

    organizados em sociedade e, um indivduo, ao entrar em contato com outro, deve preservar

    sua autoimagem pblica, ou seja, sua face, assim como a face do outro.

    O autor defende que preservar a face significa manter linha de ao que

    corresponderia a uma imagem consistente de si, apoiada em julgamentos e em indicaes

    vindas dos outros participantes, ao passo que perder a face seria uma incongruncia entre a

    linha de ao do indivduo e o seu valor social, isto , quando apresenta uma linha de ao

    inesperada; deixando, assim, uma impresso ruim.

    Nas palavras de Goffman (1974), o indivduo preserva sua face quando:

    () la ligne daction quil suit manifeste une image de lui-mme consistante, cest-

    -dire appuye par les jugements et les indications venus des autres participants, et

    confirme par ce que relvent les lments impersonnels de la situation.

    (GOFFMAN, 1974, p.10)

    Em contrapartida, a definio de perda de face seria:

    Dans notre socit, comme dans quelques autres, lexpression perdre la face

    signifie, semble-t-il, faire mauvaise figure, faire pitre figure ou baisser la tte. (GOFFMAN, 1974, p.12)

    No entanto, necessrio haver certa cautela, pois, no intuito de preservar a prpria

    face, corre-se o risco de ameaar a face do interlocutor e vice-versa, em virtude dos riscos

    inerentes s interaes sociais. Goffman (1974) chega, desse modo, ao conceito de face-work

    ou, via francs, figurao, ou seja, o conjunto de estratgias empenhadas por um indivduo

    para que ningum perca sua face, incluindo ele prprio.

    Par figuration (face-work) jentends designer tout ce quentreprend une personne

    pour que ses actions ne fassent perdre la face personne (y compris elle-mme). 9 (GOFFMAN, 1974, p.15)

    Conforme o autor, entre os principais tipos de figurao encontram-se os

    procedimentos de evitao e reparao; o primeiro conceito reporta ideia de que

    prefervel evitar encontros passveis de colocar a face dos interactantes em perigo, enquanto o

    segundo diz respeito aos esforos para o restabelecimento do equilbrio interacional aps a

    ocorrncia de aes consideradas incompatveis com os valores sociais vigentes.

    Nesse sentido, no que tange evitao, Goffman assegura que

    le plus sr moyen de prvenir le danger est dviter les rencontres o il risque de se

    manifester. Cest un procd que lon peut observer dans toutes les socits,

    travers les relations dvitement et le rle des intermdiaires dans certaines

    transactions dlicates. De mme, dans de nombreuses socits, on sait se retirer

    lgamment pour sauver la face avant que le danger prvu nait eu loccasion de se

    manifester. (GOFFMAN, 1974, p. 17)

    9Texto original: Por figurao (face-work) denomino tudo o que uma pessoa empenha para que suas aes

    no faam ningum perder a face (incluindo ela prpria).

  • 39

    Quanto reparao, o autor certifica que

    lorsque ceux qui participent une entreprise ou une rencontre ne parviennent pas

    prvenir un vnement qui, par ce quil exprime, est incompatible avec les valeurs

    sociales dfendues, et sur lequel il est difficile de fermer les yeux, le plus frquent

    est quils reconnaissent cet vnement en tant quincident en tant que danger qui

    mrite une attention directe et officielle et sefforcent den rparer les effets.

    (GOFFMAN, 1974, p.20)

    Traverso (1999, p.50) destaca que o quadro terico estabelecido por Goffman (1974)

    pode ser assim resumido:

    o indivduo se apresenta como dotado de certa linha de conduta qual corresponde uma

    imagem (sua face), que constri em conformidade com o que acredita ser as expectativas

    sociais em determinada situao;

    ao encontrar-se com algum, deve manter essa linha de conduta (sob pena de perder a

    face);

    ora, o encontro apresenta riscos, ligados natureza potencialmente ameaadora das aes

    e possvel incompatibilidade dos desejos e imagens dos indivduos reunidos;

    o problema o mesmo para todos, cada um esfora-se para evitar produzir aes ofensivas

    e reparar as que, inevitavelmente, sero cometidas.

    Brown; Levinson (1978/1987) ampliaram o conceito de face goffmaniano

    introduzindo, ao seu lado, a noo de territrio. Ambas as denominaes, face e territrio,

    foram rebatizadas como face positiva e face negativa, respectivamente. Kerbrat-Orecchioni

    (1996), expressa sua preferncia pela nomenclatura original. A face positiva corresponde

    imagem de si e ao desejo de ser aceito, reconhecido e valorizado pelo outro. Seria a

    necessidade de aprovao social. A face negativa corresponde zona de liberdade de ao do

    eu, no interior da qual, os indivduos tem o direito de agir conforme seus desejos. Refere-se

    necessidade de ter independncia, de no ser controlado nem sofrer imposio. Dessa

    maneira, em toda interao com dois participantes, encontram-se presentes quatro faces: a

    positiva e a negativa do locutor, e as correspondentes do interlocutor.

    Na interao, cada um deve tomar as precaues necessrias para no ameaar a face

    do outro, inclusive a prpria. Todavia, grande parte dos atos empregados pelos interlocutores

    representa uma ameaa s faces, tanto positiva quanto negativa, envolvidas no processo

    interacional. Brown; Levinson (1978/1987), para designar esses atos ameaadores face,

    criaram a noo de Face Threatening Act (FTAs).

    Kerbrat-Orecchioni (1996, p.51) apresenta uma sntese dos FTAs e divide-os em

    quatro categorias:

  • 40

    Atos ameaadores da face positiva do interlocutor: todos os atos que colocam em risco a

    autoestima do outro (crtica, contestao, reprovao, insulto, injria, chacota, sarcasmo);

    Atos ameaadores da face negativa do interlocutor: todas as violaes territoriais de

    natureza verbal (perguntas indiscretas, atos diretivos - como ordem, proibio - conselho

    ou pedido) e no verbal (agresses visuais, contatos corporais indevidos);

    Atos ameaadores da face positiva do locutor: todos os comportamentos autodegradantes

    (confisses, pedido de desculpas, autocrticas);

    Atos ameaadores da face negativa do locutor: todos os atos que atingem o territrio

    daquele que os realiza, algo que prope efetuar e que suscetvel de les-lo (oferta,

    promessa).

    Como se pode observar, os FTAs pertencentes s duas primeiras categorias esto

    voltados s faces do interlocutor, ao passo que os includos na terceira e na quarta categorias

    esto orientados para as faces do locutor. Assim, como nossa pesquisa trata de aspectos

    referentes polidez verbal, os dois grupos iniciais so os que apresentam mais relevncia ao

    nosso propsito, visto que a cortesia se traduz a partir das estratgias exploradas pelo locutor

    ao colocar-se em contato com um ou vrios interlocutor(es).

    importante destacar a ambivalncia da maioria desses atos, pois podem pertencer

    simultaneamente a diferentes categorias. Como exemplo, citamos o conselho. Ao interlocutor

    pode apresentar-se como um ato ameaador sua face positiva por passar a imagem de que

    no capaz de resolver sozinho seus problemas, e face negativa, por interferir sobre sua

    liberdade de ao. Do ponto de vista do locutor, tal atitude ameaar sua face positiva, se

    obtiver como reao a recusa de sua declarao ou, ainda, ameaar sua face negativa, caso o

    aconselhado habitue-se a pedir sistematicamente sua opinio, o que tambm prejudica, assim,

    a liberdade de ao do interlocutor. Alm disso, o conselho pode ser caracterizado como ato

    anti-ameador face positiva do interlocutor, caso interprete a atitude como uma expresso de

    ateno, ou face positiva do locutor, se o conselho for aceito.

    Brown; Levinson (19781987) desenvolvem tambm a noo de face want, ou seja, o

    desejo de preservao das faces, alvo de ameaas e, simultaneamente, objeto de um desejo de

    preservao. Essa contradio pode ser resolvida, segundo Goffman (1974), por meio da

    realizao de um trabalho de figurao, isto , tudo o que se faz para evitar perda de face,

    tanto a do interlocutor, como a do locutor, noo essa denominada face work, j explicitada

    no incio deste captulo. Para esses autores, os interactantes utilizam diversos tipos de

  • 41

    estratgias de cortesia visando a proteo mtua das faces. A escolha desses procedimentos

    estaria regida por trs fatores:

    a relao de poder (P) - refere-se basicamente ao poder do locutor sobre o interlocutor;

    a distncia social (D) reporta-se ao grau de conhecimento mtuo dos interactantes e

    frequncia de ocorrncia de suas interaes verbais;

    o grau de imposio do ato de fala (G) - fundamenta-se no fato de que o grau de

    imposio de um ato de fala pode ser mais ou menos impactante de cultura a cultura.

    Na realizao de um FTA, esses fatores se combinariam do seguinte modo: quanto

    maior for (P), (D) e (G) entre os interactantes, maior ser o grau de cortesia presente na

    interao e, consequentemente, maiores sero as circunstncias que levariam ao uso de

    estratgias de atenuao. Todavia, apesar de os indivduos, muitas vezes, terem conscincia

    da necessidade de lanarem mo de estratgias de polidez, em determinadas situaes sociais

    para minimizar as probabilidades de ocorrncia de um confronto, nem sempre agem

    racionalmente no que tange ao emprego e s escolhas das estratgias de polidez.

    Segundo Brown; Levinson (1978/1987), em um contexto de vulnerabilidade mtua de

    faces, todo indivduo procurar evitar atos ameaadores s faces ou empregar certas

    estratgias para minimizar a ameaa. Para tanto, levar em considerao a importncia

    relativa a pelo menos trs desejos: em primeiro lugar, o desejo de comunicar o contedo de

    um FTA; em segundo, o desejo de ser eficiente e urgente; e, por ltimo, o desejo de manter,

    em algum grau, a face do interlocutor. Portanto, reiteram, a partir da inteno comunicativa, o

    participante da interao opta por determinadas estratgias de polidez que podem manifestar-

    se de trs formas distintas:

    Nesse sentido, os interactantes escolhem a melhor estratgia para a realizao de um

    FTA. Brown; Levinson (1978/1987) organizam-nas no seguinte esquema:

    1.Sem ao reparadora, bald on record.

    on record 2. polidez positiva

    Realize um FTA Com ao reparadora

    4. off record 3. polidez negativa

    5. No realize um FTA

    FIGURA 1- Estratgias de polidez10

    , (BROWN; LEVINSON, 1978/1987, p. 69).

    10

    Texto original em ingls.

  • 42

    A estratgia 5 representa a melhor forma de ser corts, pois se refere no realizao

    de um FTA: o falante evita ofender seu interlocutor, no se evidenciando, dessa maneira,

    marca lingustica de interesse.

    Em oposio a essa estratgia encontram-se aquelas que se enquadram no modo on

    record, na categoria 1, bald on record sem ao reparadora, em que o falante transmite sua

    mensagem de modo direto, claro, inequvoco e conciso, pois tem como principal objetivo

    comunicar algo, pouco se importando com sua forma (ex.: Feche a janela!).

    O falante utiliza essa estratgia quando h urgncia ou necessidade de se comunicar

    eficientemente, quando so realizados pedidos, ofertas ou sugestes que interessam

    claramente o interlocutor e no exigem grandes sacrifcios do outro, ou ainda quando se trata

    de uma relao assimtrica em que um tem mais poder que o outro. Essas estratgias, somente

    em casos excepcionais, so consideradas corteses.

    As estratgias que os falantes exploram racionalmente para atingir os objetivos

    almejados, protegendo a face do interlocutor assim como sua prpria, pertencem s categorias

    2, 3 e 4 e representam, portanto, o comportamento corts.

    No modo off record, categoria 4, o falante d nuances de ambiguidade sua inteno

    comunicativa pelo intermdio de atos de fala indiretos, deixando ao interlocutor a

    responsabilidade de interpretao do que enuncia, minimizando assim, a responsabilidade e o

    comprometimento sobre seus atos, e, por conseguinte, esquivando-se de uma possvel ameaa

    sua face (ex.: Que frio! no intuito de que seu interlocutor feche a janela). Algumas

    realizaes lingusticas que exemplificam essa estratgia, conforme Brown; Levinson

    (1978/1987), so: metforas, ironias, perguntas retricas, eufemismos, tautologias e todas as

    construes que permitem certa negociao de seu significado.

    As estratgias on record, com reparao de cortesia positiva, esto voltadas para a

    face positiva do ouvinte, a prpria imagem positiva que clama para si, e expressam

    solidariedade da parte do locutor. Os atos potencialmente ameaadores so minimizados,

    quando o falante mostra que deseja as mesmas coisas que o ouvinte, que compartilha dos

    mesmos interesses e opinies (ex.: Pode fechar a janela?).

    As regras on record de cortesia negativa esto dirigidas para a face negativa do

    ouvinte que o falante busca satisfazer. So estratgias essencialmente de evitamento e

    constituem os chamados comportamentos formais corteses. Nesse caso, o uso de expresses

    de gentileza, verbos no futuro do pretrito, pedido de desculpa etc. (ex.: Poderia fechar a

    janela, por favor?) so empregados para minimizar o risco de ameaa face do interlocutor.

  • 43

    Brown; Levinson (1978/1987) estabelecem, a partir dessas noes, quinze estratgias

    de polidez positiva, dez referentes polidez negativa e quinze para a categoria off record,

    como pode ser observado no quadro seguinte.

  • 44

    Estratgias de polidez propostas por Brown e Levinson

    Polidez positiva

    1. Perceba o outro. Mostre-se interessado pelos desejos e

    necessidades do outro.

    2. Exagere o interesse, a aprovao e a simpatia pelo outro.

    3. Intensifique o interesse pelo outro.

    4. Use marcas de identidade de grupo.

    5. Procure acordo.

    6. Evite desacordo.

    7. Pressuponha, declare pontos em comum.

    8. Faa brincadeiras.

    9. Explicite e pressuponha os conhecimentos sobre os desejos do

    outro.

    10. Oferea, prometa.

    11. Seja otimista.

    12. Inclua o falante e o ouvinte na atividade.

    13. D ou pea razes, explicaes.

    14. Simule ou explicite reciprocidade.

    15. D presentes ao ouvinte.

    Polidez negativa

    1. Seja convencionalmente indireto.

    2. Questione, seja evasivo.

    3. Seja pessimista.

    4. Minimize a imposio.

    5. Mostre respeito.

    6. Pea desculpas.

    7. Impessoalize o falante e o ouvinte.

    8. Declare o FTA como uma regra geral.

    9. Nominalize.

    10. Fale como se estivesse assumindo o dbito, ou como se no

    estivesse endividando o ouvinte.

    Off record

    1. D pistas.

    2. D pistas de associao.

    3. Pressuponha.

    4. Diminua a importncia.

    5. Exagere, aumente a importncia.

    6. Use tautologias.

    7. Use contradies.

    8. Seja irnico.

    9. Use metforas.

    10. Faa perguntas retricas.

    11. Seja ambguo.

    12. Seja vago.

    13. Hipergeneralize.

    14. Desloque o ouvinte.

    15. Seja incompleto, use elipse. TABELA 1 - Estratgias de polidez (BROWN; LEVINSON, 1978/1987, p.69).

  • 45

    A importncia e a acei