Carminati, Fbio. Tese a5

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A utopia perdida: literatura e revolução no Brasil de Antônio Callado

Text of Carminati, Fbio. Tese a5

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM SOCIOLOGIA POLTICA

    Fbio Carminati

    A UTOPIA PERDIDA: LITERATURA E REVOLUO NO BRASIL DE ANTNIO CALLADO

    Tese submetida ao Programa de Ps Graduao em Sociologia e Cincia Poltica da Universidade Federal de Santa Catarina para a obteno do Grau de doutor em sociologia poltica. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Virgilino da Silva

    Florianpolis 2014

  • Catalogao na fonte elaborada pela biblioteca da

    Universidade Federal de Santa Catarina

    A ficha catalogrfica confeccionada pela Biblioteca Central.

    Tamanho: 7cm x 12 cm

    Fonte: Times New Roman 9,5

    Maiores informaes em:

    http://www.bu.ufsc.br/design/Catalogacao.html

  • Fbio Carminati

    A UTOPIA PERDIDA: LITERATURA E REVOLUO NO BRASIL DE ANTNIO CALLADO

    Esta Tese foi julgada adequada para obteno do Ttulo de Doutor em Sociologia Poltica, e aprovada em sua forma final pelo Programa de Ps Graduao em Sociologia Poltica.

    Florianpolis, 26 de fevereiro de 2014.

    ________________________ Prof. Dr. Ricardo Gaspar Mller

    Coordenador do Curso Banca Examinadora:

    ________________________ Prof. Dr. Ricardo Virgilino da Silva

    Orientador Universidade Federal de Santa Catarina

    ________________________

    Prof. Dr. Marcelo Marinho Universidade Federal da Integrao Latino-Americana

    ________________________

    Prof. Dr. Ariston Azevedo Mendes Universidade Federal do Rio Grande do Sul

    ________________________

    Prof., Dr. Jean Gabriel Castro da Costa Universidade Federal de Santa Catarina

    ________________________ Prof., Dr. Tiago Bahia Losso

    Universidade Federal de Santa Catarina

  • Para Andra, com amor, pela mediao essencial.

  • AGRADECIMENTOS

    A todos os que participaram na construo deste trabalho.

  • O Brasil um urso que hiberna inconscientemente, vivendo das gorduras. Ns somos no mximo pulgas no plo dele.

    Joo, personagem de Bar Don Juan

    (Callado, 1972)

  • RESUMO

    No trabalho que segue, pretende-se tratar a produo escrita de Antnio Callado, tomando como fio condutor o problema da participao poltica em relao a sua descrio literria e ao contexto histrico. Neste sentido, como questes norteadoras, assinala-se: em que medida Callado contemporneo de sua poca, e como isso se manifesta em suas obras? Qual a soluo literria em termos de tcnica e de esttica que ele encontra para os dilemas de seus contemporneos e de sua gerao? Como podemos compreender a transformao interna de sua obra por exemplo, a distncia entre Quarup e Reflexos do Baile em correlao com as transformaes sociais, polticas e culturais por que passa o Brasil no mesmo perodo? O trabalho inscreve-se, assim, no campo de uma sociologia poltica da literatura, e na mesma medida busca constitu-la como campo de pesquisa, teoria e mtodo de investigao no dilogo com autores que investigam a relao que se estabelece entre o escritor, a sua obra e a coletividade. Alm disso, a trabalho assume tambm um carter historiogrfico principalmente no que se refere histria das idias polticas e ao perodo que abrange o fim dos anos 50 e o incio dos anos 80 e procura tambm reconstituir o panorama esttico e poltico que se manifesta nas obras de Callado. Palavras-chave: Antonio Callado, sociologia da literatura, literatura brasileira, histria das idias.

  • ABSTRACT

    In the work that follows, we intend to treat the writing of Antonio Callado as guiding thread the problem of political participation in relation to its literary description and historical context. In this sense, as guiding questions, it is noted: to what extent is Callado contemporary of his time, and how this is manifested in his works ? What is the literary solution - in terms of technique and aesthetics - that he finds to the dilemmas of his contemporaries and his generation? How can we understand the inner transformation of his work - for example, the distance between Quarup and Reflexos do Baile - in correlation with the changes - social, political and cultural - that Brazil spends the same period? The work is inscribed thus in the field of political sociology of literature, and in the same measure seeks to constitute it as a field of research, theory and method of research - in dialogue with authors that investigating the relationship established between the writer, his work and the community. In addition, the work also takes a historiographical character - especially when it comes to the history of political ideas and the period covering the late '50s and early '80s - and also seeks to reconstruct the aesthetic and political outlook that manifests itself in Callado works. Keywords: Antonio Callado, sociology of literature, brazilian literature, history of ideas.

  • SUMRIO

    1 INTRODUO.....................................................................15 1.1 SOCIEDADE E LITERATURA ....................................................23

    1.2 OS LIMITES DO REALISMO ......................................................30

    2 O BRASIL IMAGINRIO...................................................41 2.1 GERAES LITERRIAS E CAMPO DE POSSVEIS..............42

    2.2 ANTNIO CALLADO: ESCREVER COMO PROJETO .............65

    3 ENTRE A LITERATURA E A POLTICA .......................92 3.1 BIOGRAFIA E HISTRIA............................................................93

    3.2 EM BUSCA DO BRASIL ............................................................118

    3.3 O MOMENTO DE QUARUP.......................................................122

    3.4 UMA REVOLUO BRASILEIRA? .........................................133

    4 TERROR E FRAGMENTAO ......................................141 4.1 A DESTRUIO DA UTOPIA...................................................149

    4.2 A TRIOLOGIA PERDIDA ..........................................................165

    5 CONCLUSO .....................................................................173 6 REFERNCIAS ..................................................................182

  • 15

    1 INTRODUO

    No acho que seja absolutamente obrigatrio o autor fazer uma obra de cunho poltico. O que me choca a tendncia crescente de os nosso grupos intelectuais se alienarem da vida do pas. Quanto a mim, ainda que pudesse ou sentisse possibilidade de fazer uma obra abstrata, jamais conseguiria ir contra a minha natureza: preciso, sempre, exprimir alguma coisa. (Callado, 1976)

    Em entrevista concedida revista Veja, em 1976, em plena ditadura militar, Antonio Callado revela muito de suas posies polticas, de seu projeto como escritor, e de sua concepo de literatura. Aos 59 anos, Callado estava concluindo o seu quinto romance, cujo ttulo ele no revela durante a entrevista como de seu hbito, mantm em segredo os trabalhos em construo embora comente o seu contedo: trata-se de um romance situado em pleno clmax da luta armada, que tem por pano de fundo os seqestros dos embaixadores no Brasil, e que feito de forma experimental e inovadora. Nesse mesmo ano, Reflexos do Baile vem a lume, sendo considerado pela crtica e pelo prprio Callado um dos seus romances mais bem feitos embora o melhor e mais poderoso ainda seja Quarup, de 1967. (Arrigucci, 1999, p. 73) Para Callado, a literatura est completamente enraizada no lugar social onde ela nasce, e por isso possvel conceb-la como a arte pela arte e realizar uma literatura hermtica, como um fim em si mesmo, tal qual Alain Robe-Grillet, do nouveau roman francs ou ento como Stphane Mallarm ou James Joyce que tem, segundo Callado, realmente uma vocao literria cujos rumos so bem definidos. Para Callado, Mallarm, [...] a coroao de um processo de abstrao que se fez em um homem de extraordinria sensibilidade extramundana. At a sua

  • 16

    prosa d a impresso de um anjo gaguejando uma lngua humana. Ocorre que escritores como Mallarm so extremamente raros, e o que costuma acontecer geralmente o seguinte: [...] em vez de anjo, voc um sujeito de carne e osso que adora o Mallarm. O resultado uma baboseira indescritvel. Segundo Callado, [...] tenho conscincia de que importante esse tipo de literatura ilegvel, por sua funo lingstica. Mas para mim, como escritor, isto cheira a subverso na ordem artstica e literria das coisas. Nesse sentido, para ele, a literatura prtica e engajada:

    [...] a literatura esta vida multiplicada que fornece uma descarga de energia ideolgica que d um impulso de ao. Que ao? a vontade de atuar sobre a sociedade que est em volta. No se faz uma coisa em nome de nada. Esse nadismo eu realmente no entendo, nem o papo de ah, o mundo assim mesmo, deixa pra l.

    E essa concepo de literatura inseparvel do engajamento de intelectual na sua realidade histrica: [...] fundamental a atuao positiva do intelectual num pas como o Brasil, vitimado at hoje por um domnio das elites absolutamente fantstico [...]. E, principalmente, segundo Callado

    [...] bom no esquecer que a condio bsica para a criao artstica em geral a liberdade. Acho que no pode haver dvidas na cabea de ningum. Quem opta pelo regime autoritrio no tem f nem apreo pela criao artstica. O pavoroso que se acaba interiorizando um sistema de controle das pessoas, ou porque querem manter a comunicao de alguma forma (fazendo concesses) ou porque as mais tmidas se amedrontam e partem para abstrao injustificada. O manto da meia liberdade assusta os tmidos, diminui a audcia dos corajosos e sempre fatal para o pas que a adota. (Callado, 1976)

    Callado definia a si mesmo como um escritor brasileiro que faz

    literatura brasileira, e este o fio condutor que anima esta tese. Nas suas palavras, eu sou um escritor brasileiro