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Apresentaçã · PDF fileMestre Baptista 9 MESTRE BAPTISTA Neives de Meireles Baptista, 76 anos em 2010. Trabalhou em fábrica de vidros, curtume, foi motorista de táxi, de

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Text of Apresentaçã · PDF fileMestre Baptista 9 MESTRE BAPTISTA Neives de Meireles...

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Apresentao ...............................................7

Mestre Baptista ..........................................9

Giba Giba ...................................................41

Dona Sirley ...............................................67

Seu Sidi .....................................................85

ndice

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Livro de Degravaes do filme O Grande Tambor

Montar um documentrio muito difcil. Nos encontramos segui-damente em encruzilhadas onde se emaranham as histrias desco-bertas a cada entrevista. Por mais que se trabalhe em cima de um ro-teiro, as perguntas normalmente surgem a partir das respostas e nas pistas dadas por cada entrevistado. No caso deste filme, O Grande Tambor, o que era para ser a construo de um singelo caminho per-corrido por um instrumento musical foi se desdobrando em narraes sensacionais e polmicas sobre o compndio histrico do Estado do Rio Grande do Sul. A cada resposta ramos brindados mais e mais com o conhecimento de personagens que, a partir de um legado cultural ancestral, agora denominados e alguns oficializados pelo Ministrio da Cultura Gris, nos permitiram montar um grande mosaico a par-tir do Tambor de Sopapo daquilo que se tem por ser uma histria to mal contada nos iderios farroupilhas.

Estes mestres do saber, ento, responsabilizados pela comunida-de em carregar na oralidade as histrias do seu povo, dificultaram de sobremaneira nosso processo de edio, de corte das falas, para que pudssemos condensar em cerca de 90 minutos um raciocnio infor-mativo acerca daquilo que queramos contar, tamanha era a riqueza de suas colocaes e pontos-de-vista. Foi imaginando, ento, que os poucos minutos cuidadosamente selecionados para montar o filme fossem insuficientes para marcar o registro de alguns depoimentos, que surgiu a idia deste livro, trazendo da oralidade para a escrita as falas dos Gris, a partir das entrevista que nossa equipe, composta por mim, Srgio Valentim e Marcelo Cougo, realizou ao longo do pe-rdo de produo do documentrio.

No deixe de ler, porque h muito mais alm daquilo que monta-mos no filme. Aproveite!

Gustavo Trck, diretor do documentrio.

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Mestre Baptista

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MESTRE BAPTISTA

Neives de Meireles Baptista, 76 anos em 2010. Trabalhou em fbrica de vidros, curtume, foi motorista de txi, de nibus urbano e interestadual. Tem o samba na alma, por sua descendncia, mas aproximou-se mesmo do carnaval construindo instrumentos, fundando a Escola Imperatriz da Zona Norte, em Pelotas, e sendo mestre de bateria. Em 1999, recebeu o convite para montar 40 Tambores de Sopapo para o Projeto CABOBU. Aceitou e, hoje, o prin-cipal luthier do instrumento no pas.

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Em Pelotas, na Praa dos Enforcados.

Gustavo Trck (GT): Ento, Mestre, conta para ns a histria desta praa (Praa do Pavo em Pelotas), o que ela representa para o car-naval de Pelotas, para a histria dos negros?

Mestre Baptista: Esta praa aqui, a lembrana dela vem com tris-teza. Para a gente que pertence negritude aqui, n? Que afro-descendente... As lembranas no so muito boas. Nesta praa aqui, que inclusive era motivo de festas h alguns anos, no tempo de escravido, por que aqui eram enforcados os negros fujes, os negros indisciplinados, eles dependuravam nestas rvores aqui e convidavam toda a sociedade para assistir a matana dos negros. Inclusive, faziam festas, batiam palmas quando o negro comeava a estrebuchar e espernear quando era enforcado. Ento, esta praa nos traz lembranas muito tristes. Eu nem gosto de falar muito nis-so. Inclusive, esta praa aqui, dizem, dizem que em determinadas pocas, de noite, ela assombrada. Tem gritos, tem lamentos desses negros que foram enforcados aqui. a histria mais ou menos que eu conheo. Eu no sou contemporneo da poca, mas o que contam que aqui enforcavam negros, e por isso que esta praa aqui tem o codinome de Praa dos Enforcados, certo? Mas, na verdade, a Praa do Pavo. Mas a Praa dos Enforcados. Todo mundo sabe, falou em Pelotas da Praa dos Enforcados, todos sabem que esta praa aqui, a Praa do Pavo.

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GT: Mestre, fora essa histria, a relao desta praa com o carnaval, se juntavam as pessoas aqui para fazer algum tipo de concentrao mesmo com essa histria toda?

Mestre Baptista: , juntava. Na tua pergunta j est a resposta. Quando o carnaval era aqui na Av. Marechal Floriano ou pela Rua Quinze de Novembro, mais para cima direita, muitas entidades que vinham aqui, principalmente do lado do bairro Fragata, eles faziam concentrao aqui na praa. Eles no s concentravam como aqui eles bebiam, se embriagavam e aqui faziam suas necessidades fisiol-gicas aqui nesta praa. Porque, se vocs perceberem bem aqui, esta praa est praticamente s escuras, ela no tem iluminao. Ento, existia essa concentrao carnavalesca aqui em Pelotas, sim.

GT: Ser que o fato de fazer as necessidades aqui, tratar a praa com um pouco de descaso no tem muito a ver com o que significava esta praa, Mestre?

Mestre Baptista: No. Esse problema aqui da praa, dela estar nesse estado, um problema poltico. Existe, inclusive, uma cobrana de imprensa escrita, falada, televisionada para cuidar mais desta praa aqui. Ento, existem comprometimentos polticos em poca de elei-o, certo? Mas, depois que eles vo para o poder, no cuidam desta praa aqui. E isso que vocs esto vendo, uma praa bonita, an-tiga e histrica, mas infelizmente est mal cuidada.

Srgio Valentim (SV): O senhor sabe da histria de que o pessoal se reunia embaixo das figueiras? O Giba Giba contou para ns uma histria de que no carnaval o pessoal se reunia aqui embaixo das figueiras...

Mestre Baptista: Justamente. aquilo que eu falei. No carnaval existia concentrao aqui antes deles subirem pro centro da cidade. Geralmente, as entidades que vinham deste lado da cidade (bairro Fragata), aqui era a concentrao. E fora do carnaval tambm as pessoas vinham para c passear. Aqui tem uma figueira grande, e as pessoas iam para l tomar chimarro, conversar, bater papo durante o dia, porque noite no tinha iluminao, mas durante o dia existia reunio aqui nesta praa sim.

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SV: E o CABOBU reuniu aqui o pessoal?

Mestre Baptista: No, no, no. O CABOBU, ele praticamente iniciou as oficinas l na Unidos do Fragata, na Escola de Samba Unidos do Fragata, e depois deu continuidade no Colgio Pelotense. O CABOBU s passava por aqui, pois vinha pela Av. Bento Gonalves, vinha pela Marechal Deodoro, dobrava aqui na Marechal Floriano, dobrava aqui do lado do cameldromo, do lado da CEEE. A, pegava a Lobo da Costa e subia e ia at o mercado. Essa era a participao da praa no CABOBU, era s na passagem, passava por aqui.

Em Pelotas, na oficina em sua casa.

Marcelo Cougo (MC): Que mo de obra, hein, Mestre? (referindo-se instalao dos equipamentos para filmagem)

Mestre Baptista: Mas assim que funciona, assim. Vai l no Rio de Janeiro olhar quando eles esto montando para televisionar as escolas de samba, aquela parafernlia que tm. L tem at mquina area...

SV: Ento, t valendo. Seguinte, o senhor vai conversar comigo, no precisa olhar para a cmera. O senhor poderia comear falando seu nome inteiro para ns e ai ns vamos comear a conversar, eu vou Le fazendo perguntas, vamos l?

Mestre Baptista: Meu nome Neives de Meireles Baptista. Eu sou nascido em Pelotas no ano de 1936. Portanto, eu estou com 73 anos e, agora em junho, 27 de junho, fao 74 anos bem vividos aqui em Pelotas.

SV: Eu gostaria de saber... O senhor comeou como com esta histria, com a msica, sendo mestre de bateria no carnaval. Me conta como comeou?

Mestre Baptista: Certo. Eu praticamente no comecei, eu continuei. Porque, devido as minhas origens... E isso pblico, notrio e histrico que a percusso veio da frica. Ento, como eu sou afrodes-cendente, eu j tinha na alma, nas veias, esta virtude de percusso.

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Eu no aprendi com ningum. Eu no tenho um mestre que tenha me ensinado alguma coisa. Isso j estava dentro de mim. Ento, eu fiz o que tinha de fazer como um homem casado. Eu trabalhei.

SV: O senhor trabalhava com o qu, Mestre Baptista?

Mestre Baptista: Eu trabalhei em uma fbrica de vidros aqui em Pe-lotas. Depois passei a trabalhar em um curtume. Eu pregava carnei-ras, couro, e eu pregava nas tbuas para secagem. Depois, dali eu fui embora pra Cermica Pelotense. E, na Cermica Pelotense, trabalhei nove anos - entrei em 1949 e sa em 1958. Dali eu fui embora para os txis, foram dez anos consecutivos de vida noturna de txi aqui em Pelotas. Um dia, minha mulher estava vendendo Avon para ajudar nas despesas, porque o salrio no era muito bom, eu era comissio-nado como motorista de txi, e, ento, ela estava vendendo Avon, a, ela foi entrar em uma residncia aqui na Rua Fernando Osrio para oferecer Avon e foi mordida por um cachorro. A, me telefonaram quando ela estava no hospital, quando cheguei l, no tinha leito para ela. Estava sendo atendida no cho, e aquilo me doeu muito por dentro. Ento, eu resolvi deixar os txis, porque eu no tinha direitos sociais nos txis, e, a, foi quando eu procurei a empresa (de nibus urbanos) Turf. E eu ia todos os dias de manh para pedir uma vaga. Mas difcil, porque tu trabalhaste em txi, e a gente est que-rendo um motorista que j esteja habituado com carro grande, com nibus. Tem at vaga, mas para ti vai ser difcil. Da, eu disse: U, mas faam um teste comigo!. Ento, eu ia todo o dia. Soltava do servio que eu trabalhava noite e, sete horas, sete e meia da ma-nh, eu estava l. A, tanto que eles enojaram da minha cara que eu ia l pedir servio que eles resolveram fazer um teste comigo. Faz um teste com ele a, que assim j ficamos livres desse cara!. Da, tinha vinte motoristas l fazendo teste, e eu fiz o teste. Era um carr

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