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Contabilidade Vista & Revista ISSN: 0103-734X [email protected] Universidade Federal de Minas Gerais Brasil Turola Takamatsu, Renata; Moura Lamounier, Wagner A Importância da Atualização Monetária de Valores para a Análise das Demonstrações Financeiras Contabilidade Vista & Revista, vol. 17, núm. 2, abril-junio, 2006, pp. 67-87 Universidade Federal de Minas Gerais Minas Gerais, Brasil Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=197014750005 Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto

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Contabilidade Vista & Revista

ISSN: 0103-734X

[email protected]

Universidade Federal de Minas Gerais

Brasil

Turola Takamatsu, Renata; Moura Lamounier, Wagner

A Importncia da Atualizao Monetria de Valores para a Anlise das Demonstraes Financeiras

Contabilidade Vista & Revista, vol. 17, nm. 2, abril-junio, 2006, pp. 67-87

Universidade Federal de Minas Gerais

Minas Gerais, Brasil

Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=197014750005

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A Importncia da Atualizao Monetria de Valorespara a Anlise das Demonstraes Financeiras

Renata Turola Takamatsu1

Wagner Moura Lamounier 2

ResumoO objetivo desse trabalho apresentar os mecanismos e discutir a importncia da

atualizao monetria dos valores nas demonstraes contbeis para fins de anlise. Serapresentada uma sntese das principais tcnicas de construo dos nmeros ndicesutilizados nessa atualizao, identificando aplicaes e problemas intrnsecos suautilizao. A atualizao monetria consiste em trazer valores de diversas datas para umnico ponto no tempo, tido como base, excluindo o efeito do componente inflacionrio navariao dos preos. Essa converso de grande importncia na anlise de demonstraesfinanceiras para atualizar os indicadores financeiros obtidos em tais anlises e evitardistores, o que pode gerar informaes inconsistentes e levar a concluses equivocadaspor parte do analista e/ou tomador de decises. Uma vez que as formas de correomonetria utilizadas anteriormente ao Plano Real foram revogadas pelo governo, procura-se destacar as distores geradas por essa medida.

Palavras-chave: Nmeros ndices, Inflao, Atualizao monetria, Anlise das demonstraesfinanceiras.

1 Pesquisadora do Departamento de Cincias Contbeis e do Laboratrio de Finanas da Faculdade de Cincias Econmicas da UFMG. Endereo: R. Curitiba, 833, sala 703 - Centro - CEP 30170-120 - BeloHorizonte-MG. E-mail: [email protected]

2 Doutor em Economia. Professor Adjunto do Departamento de Cincias Contbeis da Faculdade de Cincias Econmicas - UFMG. Coordenador do GMC - Grupo de Pesquisas em Mercado de Capitais. Endereo: R.Curitiba, 833, sala 703 - Centro - CEP 30170-120 - Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]

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1 IntroduoDe acordo com Merril e Fox (1980), os nmeros ndices so propores

estatsticas que mensuram a alterao sofrida por um conjunto de dados.Tais nmeros tm amplo emprego em vrios campos da cincia, mas suaaplicao principal se d na economia aplicada. Assim, especificamentenesse campo, pode-se definir os nmeros ndices como indicadores queapresentam o valor de uma grandeza em relao a ela mesma em pocas oulocalidades diversas, objetivando captar sua variao.

A forte inflao ocasionada pelas guerras mundiais gerou um crescenteinteresse de pesquisadores na busca do melhor ndice a se utilizar paraalcanar a medida do valor de troca das mercadorias. Conforme Souzaapud Caldeira (1982, p.42) as incertezas do mundo de aps-guerra tornammais necessria do que nunca a observao contnua e vigilante da conjun-tura econmica nacional e internacional.

Segundo Keynes (1930 apud Lopes 1985, p.7) um homem no usaa moeda com fim em si mesma, mas pelo seu poder de compra. A moeda o elemento padronizador que exerce a funo de medir os preos relativosdos mais variados bens e servios. Porm, a equivalncia entre o poder decompra e unidades de moeda sofre alteraes. Em determinada poca possvel a aquisio de uma mercadoria composta (bens e servios) que poste-riormente poder exigir mais unidades de moeda. Assim, a comparaomonetria entre pocas distintas se torna uma comparao de grandezas nohomogneas, ocasionando resultados distorcidos. Os nmeros ndices ajustamos valores trazendo-os a um denominador comum.

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TAKAMATSU, Renata Turola; LAMOUNIER, Wagner Moura

AbstractThe objective of this work is to present the mechanisms and to argue the importance of the

monetary update of the values in the financial statements to its analysis. A synthesis of the maintechniques of construction of the index numbers will be presented. Also will be identified itsintrinsic applications and problems to its use. The monetary update consists of bringing values ofdiverse dates for an only point in the time, had as a base, excluding the effect of the inflationarycomponent in the variation of the prices. This conversion is of great importance in the financialstatements analysis, to bring up to date the financial ratios obtained in such analyses and to preventdistortions, which can generate wrong information mistakes on the part of the analysts and/ordecision makers. Since that the used forms of indexation prior to the Real Plan had been revokedby the government, the research looked to detach the distortions generated by this measure.

Keywords: Index numbers, Inflation, Monetary update, Financial statement analysis.

De acordo com Silva (2004, p. 85) as demonstraes financeirasservem como canal de comunicao da empresa com diversos usuriosinternos e externos. Diversas empresas, sobretudo as de menor porte,elaboram demonstraes contbeis devido obrigatoriedade imposta pelalegislao vigente no pas. Todavia muitas outras se valem de sua principalfinalidade, ser fonte de informaes para tomadas de deciso, para lhesatribuir valor gerencial e sobrepor o valor meramente fiscal.

Alguns dos objetivos primordiais da Contabilidade configuram-se naidentificao, mensurao e divulgao das informaes contbeis de umaempresa aos seus usurios, de forma a facilitar a tomada de deciseseconmicas por parte desses agentes. Porm, esse processo nem sempre sed de forma adequada e as informaes divulgadas podero no ser bemcompreendidas pelos usurios. Alguns rudos puderam afetar de maneirasistemtica a transmisso eficiente da informao contbil.

A interpretao das demonstraes financeiras, desconsiderando osefeitos inflacionrios, pode causar problemas de comunicao queimplicaro em uma reduo na utilidade das demonstraes. Nesse sentido,cabe ressaltar alguns pontos destacados por Guerreiro (1989 apud DiasFilho 2005):

informao com contedo no significante informa-o que no serve para o gerenciamento das atividades.A informao que no facilmente compreensvelpara o usurio tende a ser ignorada, (...). O valor dainformao repousa em seu uso final, isto , na suainteligibilidade para que pessoas tomem decises.

2 ObjetivosO objetivo geral da presente pesquisa mostrar a importncia da

atualizao monetria de valores correntes, ressaltando a importncia desua aplicao na anlise do principal meio de comunicao entre a empresae os usurios da informao contbil: as demonstraes financeiras. Busca-seenfatizar junto comunidade financeira e acadmica, a necessidade da atua-

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lizao monetria dos valores apresentados nas demonstraes para aapresentao de informaes as mais verossmeis possveis. Os objetivosespecficos dessa pesquisa so: apontar os mtodos de construo e anlisedos nmeros ndices com o propsito de proporcionar maior compreensoacerca dos mesmos; apresentar os ndices de maior relevncia no pas;destacar a importncia da atualizao monetria, mesmo em pocas de baixainflao; e apontar os principais mtodos de atualizao monetria nasdemonstraes financeiras destacando a correo monetria convencional ea conveno monetria integral, estabelecendo-se um comparativo entre osmesmos.

3 Resultados e DiscussoO clculo de nmeros-ndice tarefa especializada e a forma escolhida

para constru-los depender de sua finalidade. Saber como os nmerosndices so estruturados, e os problemas intrnsecos sua construo podemser de grande valia para uma utilizao desses de modo mais consistente erigoroso, do ponto de vista cientfico.

Conforme Pereira e Ramalho (1998), de maneira geral, o interesse dosadministradores, contadores e economistas se foca nas relaes de preos,quantidades e valores. Assim sendo, os ndices mais utilizados na economiaso os relacionados a essas grandezas. A maioria dos ndices de preoscalculados por institutos de estatstica empregam o mtodo de Laspeyres.Existem frmulas consagradas de grande aceitao por institutos quecalculam indexadores e ndices que so os ndices Agregativos simples e osndices Agregativos Ponderados.

3.1 ndice Agregativo simples (IA)O ndice agregativo simples encontrado pela razo entre todos os

preos dos bens analisados na poca t por esses mesmos bens na pocabsica 0. interessante observar que o ndice agregativo simples pode serconsiderado como a mdia ponderada dos preos relativos.

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Sendo: Pit = Preos no perodo atual

Qit = Quantidades no perodo atual

Pi0 =Preos no perodo base

Qi0 =Quantidades no perodo base

3.2 ndices Agregativos Ponderadosndice de Layspeyres (IL )

O ndice de Layspeyres a mdia aritmtica ponderada dos relativosde preos, tomando como ponderao (w) o dispndio na poca base pelodispndio total naquela poca. Assim:

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De acordo com Caldeira (1982) pela frmula simplificada, queconsiste no somatrio do dispndio total na poca atual pelo dispndio totalna poca de referncia, possvel notar que o ndice de Layspeyres umndice agregativo ponderado, valendo-se como fator de ponderao das quan-tidades da poca base. Quantidades essas que podem ser as quantidades

produzidas, vendidas, consumidas, importadas ou exportadas, dependendoda finalidade do ndice.

O inconveniente notado no ndice de Layspeyres encontra-se no fatode que, em um amplo intervalo de tempo, os hbitos de consumo dapopulao costumam se modificar. Desse modo o fator de ponderao, que dado por quantidades da poca base, com o passar do tempo leva o ndicea no refletir adequadamente a realidade.

ndice de Paasche (IP)O ndice de Paasche uma mdia harmnica ponderada, tomando como

fator de ponderao os preos e quantidades de bens ou servios da pocaatual, pela soma de todos os preos e quantidades daquela poca, assim:

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O ndice de Paasche menos susceptvel, do que o de Layspeyres, possibilidade de obsolescncia, pois as quantidades de bens ou servios dondice Paasche so as atuais. Porm, possui um grande empecilho prticoque reside no fato da necessidade de levantamento dessas quantidades acada ndice calculado, enquanto o de Layspeyres necessita de um novolevantamento dos dados exclusivamente quando houver uma mudana debase. Ambos possuem a restrio de no permitir a substituio, incluso ouexcluso de itens. Dessa forma, eles se aplicam de melhor forma a regiesassemelhadas e para datas prximas.

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ndice de Marshall e Edgeworth (IME) Segundo Milone (2003), Marshall e Edgeworth propuseram que se ado-

tasse as quantidades do ano ideal como fator de ponderao dos relativosde preos. Como esse conceito muito abstrato, esses convencionaram queesse ano seria a mdia entre a data 0 e t. Assim o ndice consiste em utilizarcomo pesos a mdia aritmtica das quantidades utilizadas na poca bsica ena poca atual. Como o ndice de Fisher, o ndice de Marshall e Edgeworthnada mais do que uma conjugao entre o ndice Laspeyres e o de Paasche.

Ao avaliar os resultados obtidos na anlise de um determinado conjuntode preos ou quantidades no ndice de Paasche ou de Layspeyres, pode-seobservar que eles apresentam valores distintos, apesar de possurem os mesmosobjetivos. Toledo e Ovalle (1985) ressaltam que em condies normais, o ndicede Paasche tende a subestimar o ndice de valor enquanto de Laspeyrestende a superestim-lo. O fato de apresentarem valores distintos natural,uma vez que adotam critrios de construo e analisam quantidades de bense servios distintos.

ndice de Fisher (IF)Caldeira (1982) ressalta que tanto o ndice de Layspeyres como o de

Paasche possuem suas limitaes e inconvenientes, uma vez que notadamenteno discriminam inteiramente a variao de preos e de quantidade. Fisherem 1922 no seu livro The Making of Index Numbers sugeriu um ndiceque correspondesse mdia aritmtica entre o ndice de Layspeyres e o dePaasche, partindo da idia de que o valor que estivesse localizado entre osresultados desses dois ndices discriminaria com maior exatido a oscilaode preos e quantidades.

Toledo e Ovalle (1985) afirmam que ndice de Marshall-Edgewortsatisfaz o critrio de inverso do tempo e reduz o problema de realar altas oubaixas apresentadas pelos ndices de Laspeyres e de Paasche, todavia ainda persistente a necessidade de levantamentos constantes de quantidades.

4 Qualidade dos Nmeros ndicesNo se alcanou ainda um ndice que discriminasse perfeitamente a

mudana de um conjunto de variveis. De acordo com Hoffman (1980)cada tipo de nmero ndice possui suas vantagens e desvantagens. Paraidentific-las so feitos testes atravs de alguns critrios lgicosmatemticos, auxiliando na escolha do melhor mtodo de construo dondice, de acordo com as necessidades do usurio.

Teste de Identidade: quando a poca t a mesma que a poca 0 o ndice calculado deve ser igual a 1.

It,t = 1 (8)

Teste de Reverso (Inverso) no tempo: ao permutarem-se os ndices 0 e t o inverso do resultado deve constituir-se como o valor do primeiro. Poucos ndices satisfazem essa condio. Esse teste expressa a teoria de que as oscilaes sofridas pelos nmeros ndices de ano para ano no devem ser decorridas do perodo selecionado como base.

Is,t = 1 (9)It,s

Teste Circular: o valor do ndice da ltima data com relao primeira deve ser igual ao produto dos ndices de todas as datas

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intermedirias. Isso acontece quando a data base de todos os ndices a imediatamente anterior.

I0,1* I1,2* I2,3*...*It-1,t = I0,t (10)

Decomposio das Causas (Inverso de Fatores): esse teste requer que o ndice de valor deve ser capaz de se decompor em ndice de quantidade e ndice de preos. Os ndices de Layspeyres e de Paascheno atendem a esse teste, j o ndice de Fisher satisfaz a essa condio e devido a essa propriedade, recebeu a denominao de ndice Ideal.

Ip0,t* Iq0,t = Iv0,t (11)

Segundo Merrill e Fox (1980) esses testes, mesmo sendo de grandeutilidade, no podem substituir uma concreta avaliao na eleio e cons-truo dos ndices. Esse julgamento, porm, implica na necessidade de umconhecimento prvio das frmulas dos nmeros ndices e de alguns problemasespeciais que surgem na construo de um nmero ndice, tais como:

variao de artigos: novos artigos entram na cesta de consumo e alguns artigos saem de moda. Qualquer frmula de ndice pon-derado ser de grande valor para perodos de curto prazo, mas ao passar do tempo, na medida em que se alteram os padres de consumo,torna-se necessrio um novo padro de medida das variaes.

comparaes inter-regionais: ao comparar-se regies diferentes surgiro mesmo problema das comparaes em pocas diversas em uma mesma regio. Cada regio tem seu clima, seu porte e seu custo de vida. Assim os hbitos de consumo de regio para regio sero distintos. No Brasil, com dimenses continentais, diferenas e peculi-aridades regionais, a tarefa de medir a inflao um grande desafio.

variao de Qualidade: com o avano da tecnologia o consumo se modifica. Os preos de alguns produtos sofrem aumentos ou reduesdevido variao da qualidade dos mesmos. necessrio distinguir a diferena entre a variao de preos devido variao de qualidadee variao gerada pela inflao.

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5 ndices de Maior Relevncia no PasDe acordo com Pereira e Ramalho (1982) o processo de transformar

valores nominais ou correntes em valores constantes, ou reais, denomina-sedeflacionamento. Por meio desse processo possvel equiparar valores dediversas datas ao valor da data base. Ao contrrio do que possa aparentar, aprtica do deflacionamento muito simples. Consiste basicamente emdividir os valores nominais de diversas pocas por um deflator (que nadamais do que um ndice de preos com base fixa). A dificuldade, portanto,no reside no processo deflacionamento, mas sim, na escolha de qual dentrediversos ndices ser o melhor deflator.

Segundo Hoffman (1980) os ndices de custo de vida destinam-se amedir o quanto varia os gastos de uma famlia padro. Para isso consideram-se os gastos mdios de bens e servios. O fator de ponderao a razo dasdespesas com o produto pelas despesas totais, essa proporo obtida atravsde pesquisas de oramento familiares. Assim o ndice calculado pelamdia ponderada dos relativos de preos.

Milone (2003) afirma que as pesquisas de oramento familiares (POFs)podem ser definidas como um conjunto de informaes que situam a posiosocioeconmica de uma populao. Tais informaes encontram-se nasituao ocupacional, de renda, e nos gastos com moradia, servios, manu-teno, consumo de bens durveis e semidurveis, transporte, vesturio,sade educao, lazer. Definem tambm os locais onde as compras costumamser realizadas. A agregao de todos esses fatores delimita as prefernciasdos consumidores, e a forma pela qual eles distribuem suas despesas. Aspesquisas oramentrias familiares sempre incorporam novos produtos, reduzemou aumentam os pesos relativos de certos produtos e eliminam bens em desuso.

Nos intervalos de tempos referentes s pesquisas de oramento fami-liar, consideram-se as quantidades constates mesmo que essas se modifiquem.Assim, a rigor, os nicos momentos efetivamente comparveis so osrelativos s pesquisas oramentrias. Quanto mais prximo o ndice de preoestiver dessa, mais exato ser seu resultado. Lopes (1985) afirma que todosos pases possuem organismos que mantm de forma regular vrios ndicesde preos, com o objetivo de mensurar da melhor forma possvel as tensesinflacionrias. So calculados diversos tipos de ndices de custo de vida no

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Brasil, por vrios organismos, dentre os quais se destacam a FGV, IBGE,DIEESE, FIPE, IPEAD, dentre outros. Dentre os ndices de custo de vidaos principais so:

ndice de custo de Vida (ICV): esse ndice calculado pelo DIEESE (Departamento Intersindical de Estatstica e Estudos Scio-Econ-micos), mede a variao dos preos nos setores de alimentao, transportes, sade e habitao. O levantamento dos dados feito na cidade de So Paulo e considera todas as faixas de renda.

ndice do Custo de Vida da Classe Mdia (ICVM): calculado pela Ordem dos Economistas. Tambm considera os preos na cidade de So Paulo, tomando como base s despesas das famlias com renda mensal entre 10 e 40 salrios mnimos.

ndice de Preos ao Consumidor (IPC-Fipe): calculado pela FIPE/ USP e mede a variao dos preos de produtos consumidos por famlias que recebem entre 1 e 20 salrios mnimos. A coleta feita no municpio de So Paulo.

ndice Nacional de Preos ao Consumidor (INPC): calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica) mede a variaodos preos de bens e servios consumidos por famlias de renda entre1 e 8 salrios mnimos. A coleta feita nas regies metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, So Paulo, Belm, Fortaleza, Salvador, Curitiba, Distrito Federal e no municpiode Goinia. Devido abrangncia de sua faixa salarial esse ndice muito utilizado em dissdios salariais.

ndice de Preos ao Consumidor Ampliado (IPCA), calculado nas mesmas regies que o INPC, porm mede a variao do preo de bens e servios para famlias com renda entre 1 e 40 salrios mnimos. O IPCA foi escolhido pelo conselho Monetrio Nacional (CMN) como referencia para os sistemas de metas para inflao, instaurado em junho de 1999, portanto, sob a tica da poltica monetria esse o mais importante.

ndice Geral de Preos (IGP): segundo LOPES (1985), dentre todos os ndices publicados na revista Conjuntura Econmica, publicados pela Fundao Getlio Vargas, o ndice Geral de Preos (IGP)

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conquistou a posio de principal indicador da inflao no pas. Tal a elevada importncia desse ndice que, quando se fala que a inflao teve um aumento de 10% no pas comumente est se dizendo que o IGP teve um acrscimo de 10%.

O ndice Geral de Preos um ndice composto ponderado, com asseguintes ponderaes: 60 para os preos de atacado, 30 para o custo de vidae 10 para o custo de construo civil. O perodo tomado como base umtrinio para evitar distores dos ndices causados por anos anormais. Aspesquisas so realizadas no municpio de So Paulo e Rio de Janeiro. Existemvariaes do IGP: IGP-DI (IGP disponibilidade interna), IGP-M (IGPmercado) e IGP-10 (IGP verso 10) que na prtica variam apenas noperodo de coleta.

Vrios so os questionamentos sobre a utilizao de um ndice com-posto para medir a inflao no pas. Segundo Lopes (1985) um ndice quevisasse o agregado de consumo seria uma melhor opo a qualquer um dosndices combinados, esse afirma que devido limitao estatstica da pocade sua criao era aceitvel a utilizao do IGP, entretanto na realidade bra-sileira atual, com a disponibilidade de dados existentes, um ndice ponderadono se adequa mais posio de principal indicador da inflao no pas.

INCC (ndice Nacional de construo civil): baseia-se nos preos de 18 capitais. Consideram-se 427 itens coletados junto aos fabricantese atacadistas, nas prprias construtoras. Seu clculo dado pela FGV.

IPCA-IPEAD (ndice de Preos ao Consumidor Amplo): calculado pela Fundao Instituto de Pesquisas Econmicas, Administrativas e Contbeis da Universidade Federal Minas Gerais (Ipead). Mensuraa evoluo dos gastos de famlias com renda entre 1 a 40 salrios mnimos por ms.

6 Atualizao Monetria de ValoresA Fundao Ipead disponibiliza mensalmente uma tabela para atua-

lizao monetria do valor dos ativos baseada no seu ndice de Preos aoConsumidor Amplo. A Tabela 1, com valores referentes a dezembro de2005, fornece ndices para atualizao dos ativos correntes de perodos

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anteriores. Essa tabela de fcil utilizao, visto que para se trazer dataatual os valores passados basta multiplic-los pelos ndices correspondentesa seus meses e anos.

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A Importncia da Atualizao Monetria de Valores para a Anlise das Demonstraes Financeiras

Tabela 1: ndice de Preos ao Consumidor Amplo(IPCA - IPEAD) - (Base: Dezembro de 2005 =1,00)

Ano1990199119921993199419951996199719981999200020012002200320042005

Janeiro0,42310,01910,00350,00030,00982,47281,99011,80331,69851,67851,54071,45381,371

1,23241,13221,0412

Fevereiro0,245040,01590,002640,00020,006822,426651,94691,76931,685481,678341,531051,446551,359531,202151,121211,036

Maro0,14440,01280,0020,00020,00482,39411,91851,75391,68311,65441,53041,44671,35781,18941,11771,0344

Abril0,07260,01180,00170,00010,00342,34071,90651,75491,68381,63911,53121,43781,35531,17291,11241,0268

Maio0,04760,011

0,00140,00010,00232,28631,88591,74291,67911,63191,52771,41821,34351,16131,1071,017

Junho0,04340,01060,00120.00080,00162,21991,86431,73341,66861,62321,52361,41431,3411,14721,09331,0093

Julho0,03970,00990,001

0,00062,90792,18371,84661,73041,66991,61561,5211,416

1,33641,15491,08691,0115

Agosto0,03510,00880,00080,04552,71412,1341,83141,7321,67651,5951,4951,40751,32621,1521,08151,0089

Setembro0,031570,007710,000650,034382,699552,097681,827551,731451,686411,59151,475071,400081,313841,14641,070251,01013

Outubro0,02810,00670,00050,02512,65812,07941,82481,72821,68561,586

1,47321,39741,30651,14131,069

1,0088

Novembro0,024950,005370,000410,018512,592242,049661,816811,717521,687251,576641,471391,385381,286461,136611,067481,0047

Dezembro0,022310,00430,000330,013582,513812,023751,812461,712211,683041,555181,470211,380131,251051,13741,05607

1

Fonte: IPEAD (2005).

Como forma de exemplificar a utilizao da tabela foram atualizadosos principais grupos de contas do Balano Patrimonial (BP) divulgado pelaempresa Usiminas referentes aos exerccios de 2002, 2003 e 2004. Paraenfatizar as possveis distores causadas pela utilizao de valores semlevar em conta os efeitos inflacionrios, realizou-se o clculo da anlisehorizontal, uma ferramenta para a anlise de demonstraes financeiras.

O Balano Patrimonial demonstra a posio financeira e patrimonialda empresa em determinado momento. Esse classificado e agrupado demodo a facilitar o entendimento da situao financeira da empresa. As contasdo ativo so classificadas em ordem decrescente de liquidez e, no passivo,em ordem decrescente de exigibilidade, conforme est estabelecido pela Lei6.404/76, nos seus artigos 178 e 179.

Conforme Assaf Neto (2002) a anlise horizontal consiste em umacomparao de cada conta (ou grupo) da demonstrao financeira em dadoperodo, com o valor da mesma conta em uma determinada data anterior,

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tida como base. A anlise horizontal tem como objetivo evidenciar a ten-dncia de cada uma das contas, permitindo acompanhar o seu desempenho,conforme demonstrado nas Tabelas 2 e 3.

Tabela 2: Balano Patrimonial da Usiminas

Descrio da ContaAtivo TotalAtivo CirculanteAtivo Realizvel a Longo PrazoAtivo PermanentePassivo TotalPassivo CirculantePassivo Exigvel a Longo PrazoResultados Exerc. FuturosParticipaes MinoritriasPatrimnio Lquido

31/12/2004R$16.981.474R$ 6.343.217R$ 1.349.007R$ 9.289.250R$16.981.474R$ 3.916.815R$ 6.921.004

R$ 0R$ 194.171

R$ 5.949.484

AH%109,40%171,40%56,35%98,53%

109,40%77,74%93,99%

223,10%196,10%

31/12/2003R$15.572.812R$ 4.247.631R$ 1.820.804R$ 9.504.377R$15.572.812R$ 4.205.279R$ 7.253.708

R$ 0R$ 114.404

R$ 3.999.421

AH%100,30%114,70%76,06%

100,80%100,30%83,46%98,50%

131,40%131,80%

31/12/2002R$15.522.823R$ 3.700.748R$ 2.394.009R$ 9.428.066R$15.522.823R$ 5.038.478R$ 7.363.918

R$ 0R$ 87.007

R$ 3.033.420

Fonte: http:// www.bovespa.com.br.

Tabela 3: Balano Patrimonial da Usiminas Atualizada Monetariamente

Descrio da ContaAtivo TotalAtivo CirculanteAtivo Realizvel a Longo PrazoAtivo PermanentePassivo TotalPassivo CirculantePassivo Exigvel a Longo PrazoResultados Exerc. FuturosParticipaes MinoritriasPatrimnio Lquido

31/12/2004R$17.933.625R$ 6.698.881R$ 1.424.646R$ 9.810.098R$17.933.625R$ 4.136.431R$ 7.309.065

R$ 0R$ 205.058

R$ 6.283.072

AH%92,35%

144,60%47,57%83,17%92,35%65,62%79,34%

188,30%165,50%

31/12/2003R$17.712.516R$ 4.831.255R$ 2.070.982R$10.810.278R$17.712.516R$ 4.783.084R$ 8.250.367

R$ 0R$ 130.123

R$ 4.548.941

AH%91,21%

104,30%69,15%91,65%91,21%75,88%89,55%

119,50%119,80%

31/12/2002R$19.419.828R$ 4.629.821R$ 2.995.025R$11.794.982R$19.419.828R$ 6.303.388R$ 9.212.630

R$ 0R$ 108.850

R$ 3.794.960

Fonte: http:// www.bovespa.com.br.

O ativo total da empresa na anlise horizontal convencional (sematualizao monetria) de 2004 em relao ao exerccio de 2002 apresentouum crescimento superior a nove por cento. Todavia, atualizando-se moneta-riamente os saldos do balano possvel perceber que de fato, houve umdecrscimo no ativo de mais de sete por cento. Uma vez que seus ativosestiveram expostos inflao, seu poder de compra foi corrodo, porm aanlise horizontal convencional no evidenciou tal fato, resultando emvalores distorcidos.

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A Importncia da Atualizao Monetria de Valores para a Anlise das Demonstraes Financeiras

O mesmo comportamento pode ser observado no passivo total umavez que, enquanto na anlise horizontal convencional esse apresentou umaumento, o valor atualizando monetariamente apresentou um decrscimo.A diminuio do poder de aquisio da moeda reduziu os valores apagar da empresa.

7 Correo integral das demonstraes contbeisA Correo Integral resultado do esforo da contabilidade em tornar

o contedo das demonstraes financeiras mais confivel, retratando a neces-sidade de proteger a informao contbil da deteriorao do poder de comprada moeda. Surgiu como uma alternativa para a obteno de dados mais precisosdo que a correo vigente na poca de sua criao, a Correo Convencional.

As demonstraes financeiras buscam evidenciar as movimentaese o patrimnio da empresa. Informam aos mais diversos usurios, dentre eles:bancos, investidores, acionistas, governo, os prprios diretores, executivos,administradores da empresa e a sociedade em geral, auxiliando-os em suastomadas de decises.

A anlise de tais demonstraes por meio do clculo de ndices,quocientes e de outros instrumentos auxilia os analistas a avaliar a situaofinanceira, patrimonial e de rentabilidade da companhia para que essespossam tomar suas decises do modo mais consciente possvel. Um recursoempregado para anlise consiste na comparao das demonstraes comdados histricos da mesma firma ou de outras empresas do mesmo ramo,porte e regio.

Quando se analisam valores de datas ou exerccios diversos, a existnciada inflao faz com que os valores envolvidos nas anlises caracterizem-secomo grandezas heterogneas. Os resultados obtidos nas anlises tornam-seincompletos e at incoerentes, podendo levar o gestor a uma deciso errneaque ir comprometer o desempenho da empresa ou levar a prejuzos paraos investidores, por exemplo. A Correo Integral, desse modo, traz a umdenominador comum os valores de todas as contas das demonstraesfinanceiras. Uma observao feita por Iudcibus (2003) que se atualizamos valores para uma mesma poca, no devendo ser confundido com valores

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de mercado, ou de reposio mantendo o princpio do custo original comobase de valor.

Antes de se discutir os mecanismos para efetuar as atualizaes mone-trias, deve-se reter a um assunto de grande importncia em tais atualiza-es: a escolha do nmero ndice utilizado para representar a perda do poderaquisitivo do dinheiro corrente, que ser utilizado para a atualizao dossaldos contbeis.

Durante muitos anos a correo das demonstraes contbeis foi obriga-tria no pas. O nmero ndice empregado para realizar a correo era pa-dronizado, sendo um indexador oficial. Segundo Matarazzo (2003), os gover-nos com suas tentativas frustradas de administrar a inflao corromperamas sries histricas que tentaram mensur-la.

A correo, primeiramente, era feita com base nas ORTN (Obriga-es Reajustveis do Tesouro Nacional), porm, na dcada de 70 o governodecidiu pr-fixar um valor que no correspondia ao real valor da inflao noano. Com o passar dos anos, manteve-se constante a interveno dogoverno nos ndices, at que em 1986 foi criado um substituto, a OTN(Obrigaes do Tesouro Nacional) que j surgiu com seu valor constante.

Matarazzo (2003) ainda afirma que, com a volta do reconhecimentooficial da inflao, o governo passou a adotar a OTNf (Obrigaes do Te-souro Nacional Fiscal), que em 1988, por apresentar valores inflacionriosmuito elevados, foi extinta. Em 1989, mais um ndice fracassou pelo mesmomotivo da OTNf, o BTN (Bnus do Tesouro Nacional). Logo depois vierama FAP (Fator de Atualizao Patrimonial), a UFIR (Unidade Fiscal deReferncia) e finalmente a UMC (Unidade Monetria Contbil), o ltimondice a ser institucionalizado como unidade de referncia para correomonetrias das demonstraes financeiras. Devido s intervenes quedeturparam os ndices oficiais, pode-se concluir que as tentativas de se fazera correo das demonstraes com base nesses, ficaram prejudicadas.

Cada pessoa fsica ou jurdica influenciada pelos efeitos inflacio-nrios de maneiras variadas. ndices calculados por organismos como o IBGEe a FGV podem no refletir a melhor escolha para a aplicao e anlise emum dado setor. Para certas empresas pode haver a necessidade de ndicesmais especficos. Com todos esses pontos apresentados na escolha de um

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A Importncia da Atualizao Monetria de Valores para a Anlise das Demonstraes Financeiras

ndice, Matarazzo (2003) sugere como alternativa a dolarizao das demons-traes financeiras. Outra alternativa seria a utilizao de ndices feitossobre encomenda.

A correo monetria foi introduzida de forma facultativa, em 1944,por regulamentao do Decreto-lei 5.844/43 e passou a ser obrigatria em1964 pela Lei 4.357/64. Todavia, de acordo com Iudcibus (2003) em termosfiscais a legislao que surtiu maior efeito foi o decreto-lei N1587/77. Essalei previa que todas as pessoas jurdicas sujeitas tributao do imposto derenda ficavam a partir daquela data obrigadas a adotar o sistema de correovigente na Lei Societria. Esse sistema de correo era prtico. Consistiabasicamente em atualizar as contas do Patrimnio Lquido e do Ativo Perma-nente atravs de dbitos e crditos na conta de correo monetria.

Durante os vrios anos em que a legislao esteve vigente admitiu-sea correo de outras contas, dentre elas: imveis no classificados no ativopermanente; aplicaes em ouro; adiantamentos a fornecedores de benssujeitos correo; aplicaes em consrcios e adiantamentos para futuroaumento de capital.

As falhas da correo convencional, baseada na Lei Societria, principal-mente com a alta inflao, passaram a representar distores de grandesignificado nas demonstraes contbeis, surgindo a necessidade de umacorreo monetria mais completa, que reconhecesse melhor os efeitos dainflao. Diante dessa necessidade, a CVM (Comisso de Valores Mobilirios)instituiu o Art. n 64/87 que passava a exigir correes integrais a ttulo dedemonstraes complementares para todas as sociedades annimas decapital aberto.

Com o Plano Real e o surgimento de uma nova moeda, que foi consi-derada estvel, a partir de 1 de janeiro de 1996, por meio da Lei N. 9.249/95 foi revogada a correo monetria das demonstraes contbeis,inclusive para fins societrios. Todavia essa deciso criticvel, uma vezque a correo das demonstraes melhora a qualidade das informaesgeradas pela contabilidade. Conforme Lopes (2002, p.74).

a prpria revogao da correo monetria no Brasil(N. 9.249/95) mostra a ingerncia do governo, nessecaso federal, nos assuntos contbeis, sem que haja uma

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justificativa tcnica. Aparentemente, esse aspecto con-tribui para a baixa qualidade das normas contbeis noBrasil, do ponto de vista dos investidores em mercadosde capitais.

A correo integral oferece um conjunto de benefcios sobre acorreo convencional e enormes vantagens sobre a no utilizao de mtodoalgum. A metodologia criada no Brasil era bastante evoluda e consideradaeficiente. Conforme aponta Gynter (1966) apud Iudcibus et al (1998 p.285): prefervel estarmos aproximadamente certos do que exatamente errados.

Em pocas de inflao, mesmo que em baixos patamares, h umdeclnio do poder de compra de disponibilidades e valores a receber, emcontrapartida valores a pagar ganham poder de aquisio j que implicamem uma reduo real das dvidas. O lucro bruto, os ndices de anlisefinanceira, as demonstraes comparativas, os ativos no monetrios e asdespesas e as receitas nas demonstraes de resultado sofrem distores.Dentre as vantagens oferecidas pela correo integral sobre a convencionalIudcibus (2003, p.500) ressalta:

apresenta os efeitos da inflao em todos os ele-mentos das demonstraes contbeis; corrige saldosfinais de itens no monetrios (como estoques edespesas antecipadas) que no eram considerados nalegislao societria; determina a incluso do ajuste avalor presente nos valores prefixados de contas areceber e a pagar.

A extino das correes monetrias nas demonstraes financeirasocasionou um regresso da contabilidade, a inflao mesmo que baixa, aindapersiste no longo prazo, conforme o grfico 1 a seguir. Seus efeitos acumu-lados possuem a capacidade de provocar grandes deformidades, ocasio-nando dvidas em relao credibilidade e veracidade das demonstra-es. Principalmente quando da anlise de sries temporais formadas pordados das demonstraes. A anlise horizontal das demonstraes tambmse encontra prejudicada nesse contexto.

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O Grfico 1 demonstra a inflao acumulada durante o Plano Real,atravs dele possvel compreender que mesmo com baixa inflao a inflaoacumulada alcana valores elevados quando se considera todo o perodo,comprometendo a anlise das demonstraes, caso no haja a devida atua-lizao.

Enquanto uma empresa mantiver seus ativos expostos inflao semqualquer tipo de remunerao nominal para sua proteo, apresentar umprejuzo que no ser refletido nas demonstraes de resultado. Se houvera devida remunerao, essa se apresentar como lucro, embora seja apenasuma compensao.

De acordo com Feitosa (2002), assim como na anlise das demons-traes, o valor referente ao pagamento de impostos tambm fica prejudicado.A empresa apresentar um lucro irreal causando distores no montante aser pago em contribuies sociais e no imposto de renda devido no atua-lizao dos saldos contbeis.

Grfico 1: IGPM, INPC E IPCA acumulados. Agosto de 1995 = 100

Fonte: http://ipeadata.gov.br.

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8 ConclusesA presente pesquisa buscou discutir a importncia da atualizao

monetria de valores contbeis, bem como destacar as distores geradaspela negligncia dos reflexos da inflao na anlise das demonstraesfinanceiras. A partir do Plano Real houve a extino da obrigatoriedade daCorreo Monetria, motivada pela aparente estabilidade da moeda queconduziu as empresas a apresentar suas demonstraes financeiras descon-siderando os efeitos inflacionrios. A partir da, percebe-se que as demons-traes financeiras passaram a apresentar valores com possveis imprecises,causadas pelo efeito cumulativo da inflao.

A contabilidade como fonte de informaes deve buscar garantir aqualidade e a utilidade dessas informaes. A atualizao monetria nasdemonstraes financeiras, independente do nmero ndice adotado, garanteaos analistas uma maior confiabilidade em suas anlises, alm de ajudar natomada de deciso interna prpria empresa.

Nesse sentido, sugere-se para fins de anlise das demonstraes finan-ceiras das empresas, de forma comparativa no tempo, a atualizao monetriados valores contbeis. Ou seja, mesmo com as distores que ainda possampersistir, sugere-se que na comparao de valores publicados nas demons-traes de exerccios distintos, o analista efetue a atualizao dos valoresutilizando algum deflator como, por exemplo, o proporcionado pela tabelade atualizao de ativos do IPEAD/UFMG. Ainda, nesse sentido, para ocaso de anlise das demonstraes de empresas de capital aberto, quedivulgam informaes trimestrais, a adoo dessa prtica tambm seriafacilmente implementada, sem dificuldades adicionais significativas.

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Artigo recebido em: 3 de agosto de 2006Artigo aprovado em: 28 de agosto de 2006