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A Filosofia como Terapia Gramatical segundo · PDF fileA Filosofia como terapia gramatical segundo Wittgenstein 7 §1. UM TRIÂNGULO DE NOÇÕES “O trabalho em filosofia –

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A Filosofia como TerapiaGramatical segundo

Wittgenstein

Ana Cristina Serralheiro Falcato

2012

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Covilh, 2012

FICHA TCNICA

Ttulo: A Filosofia como terapia gramatical segundo WittgensteinAutor: Ana Cristina Serralheiro FalcatoColeco: Artigos LUSOSOFIADesign da Capa: Antnio Rodrigues TomComposio & Paginao: Jos Maria Silva RosaUniversidade da Beira InteriorCovilh, 2012

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A Filosofia como terapia gramaticalsegundo Wittgenstein

Ana Cristina Serralheiro Falcato

ndice

1. Um tringulo de noes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72. No Princpio era a Gramtica . . . . . . . . . . . . . . . . 10Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

Resumo: Neste artigo explora-se a evoluo da concepo witt-gensteiniana de Filosofia, seguindo o percurso das suas duas ma-neiras de pensar: entre o Tractatus Logico-Philosophicus e as Inve-stigaes Filosficas, passando por alguns textos-charneira do pero-do intermdio do seu trabalho filosfico. Dentre esses textos me-nores, um especialmente importante para se entender a sua com-preenso da Filosofia como mtodo teraputico sobre a Linguagem: oBig Typescript de 1932-33. Nesse texto Wittgenstein defende um en-tendimento da Filosofia enquanto actividade de depurao dos mal-entendidos patenteados por uma sublimao abusiva de alguns usos

Ana Cristina Serralheiro Falcato ([email protected]); Doutoramento emFilosofia; Investigadora do Instituto de Filosofia da Linguagem da UniversidadeNova de Lisboa. reas de actuao: Filosofia da Linguagem, Filosofia da Literatu-ra.

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da linguagem corrente, que cabe ao filsofo rectificar mediante umaanlise gramatical correctora dos mesmos. A partir desse ncleo fun-damental de correco, a Filosofia entendida como uma metodo-logia teraputica do pensamento atravs de um exerccio ortopdi-co da expresso lingustica.

Palavras-Chave: Filosofia, Terapia, Anlise Gramatical, Jogo deLinguagem, Forma de Vida.

Abstract: This paper presents the way Wittgenstein understandsthe concept of Philosophy, following the evolution of his thoughtfrom what he called his first way of thinking to his second wayof thinking: between the Tractatus Logico-Philosophicus and thePhilosophical Investigations. The paper also deals with some emble-matic texts of his intermediate work. Among some minor texts ofthat period, one is particularly relevant to understand Wittgensteinsnotion of Philosophy as a method of linguistic therapy: the Big Ty-pescript from 1932-1933. In it Wittgenstein defends that Philosophyshould be no more nor less than an activity to clean-up and avoidthose misunderstandings that arise when some daily uses of languageare sublimed in ideal formulations. Accordingly, it is ascribed to thephilosopher the task of correcting those misunderstandings through agrammatical analysis of some abusive applications of language. Phi-losophy is thus ascribed a role of therapy in clearing both languageuses and human thinking.

Keywords: Philosophy, Therapy, Grammatical Analysis, Language-Game, Form of Life.

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1. UM TRINGULO DE NOES

O trabalho em filosofia como, de vrios modos, o trabalho emarquitectura , na realidade, mais um trabalho sobre si prprio.

Sobre a nossa prpria interpretao. Sobre o modo como vemos ascoisas. (E sobre o que delas esperamos).

L. WITTGENSTEIN, Vermischte Bemerkungen.1

O presente trabalho foi concebido de forma a poder conectar doisconceitos axiais dentro do pensamento do segundo Wittgenstein,atravs da ponte esquemtica de um terceiro. A saber, os conceitosde Gramtica e de Terapia e o conceito de Filosofia.

O percurso que fizemos a par do pensamento do autor e quenos permitiu subtrair extenso dos conceitos de Terapia e deGramtica uma franja comum de implicaes filosficas deriva-da da prpria noo de Filosofia enquanto mtodo de anlise das for-mas de linguagem problemticas , constituiu um esforo de sntese,dentro de um pensamento difcil, sob a tutela do aforismo, como oprprio filsofo reconhece:

Nunca consegui, seno pela metade, expressar o que quero ex-pressar. Nem tanto, talvez apenas um dcimo. Isso ainda tem algum

1 In WITTGENSTEIN, Ludwig. Vermischte Bemerkungen. Suhrkamp Verlag,Frankfurt am Main, 1977, p.27 (A traduo da nossa responsabilidade): Die Ar-beit an der Philosophie ist wie vielfach die Arbeit in der Architektur eigentlichmehr die Arbeit an Einem selbst. An der eignen Auffassung. Daran, wie man dieDinge sieht. (Und was man von ihnen verlangt).

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significado. Muitas vezes, a minha escrita no mais do que um bal-buceio.2

Wittgenstein reconhece ao conceito de Gramtica a partir detextos que remontam ao incio dos anos trinta, ou seja, ao perodo dasua retoma da actividade filosfica, como Philosophische Gramma-tik, The Big Typescript, The Blue Book ou The Brown Book (notas ecompilaes de apontamentos de aulas) ou no texto das notas retira-das por Friedrich Waismann e organizadas por B.McGuinness, Witt-genstein und der Wiener Kreis (um escrito de compilao das suasconversas com membros do Crculo de Viena) um duplo estatuto:

(1) A GRAMTICA a forma de estruturao que subjaz s frasese aos enunciados discursivos em que se incorporam as primeiras epara o sentido dos quais concorrem (portanto, frases e enunciadostm uma forma ou estrutura gramatical e os segundos obedecem auma combinatria semanticamente estruturada a partir da forma dasprimeiras);

E (2) GRAMTICA tambm um corpo de normas e de regraspara a composio e concatenao dos elementos de uma molcu-la discursiva (por exemplo, um jogo de linguagem), arbitrariamentedispostas e ao abrigo das quais possvel fazer um exerccio de veri-ficao analtica intradiscursivo da sua correco sintctica, querdizer, da sua conformidade ou no conformidade com esse corpo deparmetros normativos.

Ora, a noo de Filosofia, ou antes, de trabalho filosfico, queWittgenstein oferece para associar com a determinao conceptual ea funcionalidade da de Gramtica, corresponde a um mero exercciode anlise gramatical. Este um novo mtodo que evolui a partirde e inclusive incorpora ainda que transforme, por ampliao, aterminologia anterior o conceito de Sintaxe Lgica e de anlisesintctica, j expostos no Tractatus Logico-Philosophicus.

A uma filosofia da linguagem entendida sob o enfoque desta pro-

2 WITTGENSTEIN, L. Vermischte Bemerkungen, aforismo de 1931 (traduomodificada).

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posta wittgensteiniana cabe apenas um trabalho de inspeco e anli-se das formulaes lingusticas que permita determinar ou restabe-lecer as condies da respectiva correco gramatical e a materiali-zao dessas condies em formas de discurso bem construdas.

O exerccio de anlise gramatical (o autor raramente fala em an-lise lingustica), de proposies e enunciados, congrega a intenode disciplinar o pensamento e as consequentes formas de expressodeste; uma tarefa que, em muitos aspectos, se aproxima e assim descrita pelo prprio Wittgenstein de uma terapia de tipo analtico.

A TERAPIA que uma verificao gramatical pode levar a cabo so-bre enunciados que no respeitam ou que, advertidamente violam aestrutura gramatical da linguagem, autorizando combinaes de ter-mos que no tm correspondncia com as regras da Gramtica (aefectuar junto daqueles seres humanos cujo esprito fica turvado pelaanuncia face a essas combinaes) , no entanto, dentro do pensa-mento de Wittgenstein, uma terapia estritamente filosfica, ao abrigodo sentido de Filosofia j exposto.

o prprio filsofo que associa o seu novo mtodo de anli-se das formas discursivas Psicanlise de Freud, mas, pensamos, aum ttulo que meramente ilustrativo. O objectivo que Wittgensteinpersegue no tem nada que ver com uma importao transdiscipli-nar. Trata-se antes da incorporao de um novo conceito, a partir decujos termos definitrios estaramos autorizados a extrair um redu-to funcional, constituinte base de uma tcnica mas que, dada a ver-satilidade (e os limites) da comparao com a tcnica psicanaltica,se deve demarcar escrupulosamente desta, para manter os aspectoscomparativos e ilustradores sem cair numa colagem.

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2. NO PRINCPIO ERA A GRAMTICA

Aquilo que pertence gramtica so todas as condies dacomparao da proposio com a realidade, quer dizer, todas as

condies que determinam o sentido da proposio3.

LUDWIG WITTGENSTEIN, Philosophische Grammatik

Uma das mais conseguidas resolues do Tractatus Logico-Philo-sophicus4, na estruturao da sua autofgica teoria da linguagem,era o esclarecimento de que, ainda que existissem diferentes notaessimblicas como cdigos lingusticos, no era possvel considerar aexistncia efectiva de diferentes linguagens. Isto porque, ao abrigo dateoria pictrica enunciada na obra, a hiptese de multiplicar (ou frag-mentar) a linguagem em diferentes subsistemas, equivaleria a anularo seu modo de funcionamento como Abbildung, ou seja, como re-presentao fidedigna dos objectos do mundo numa linguagem logi-camente analisada, que existe para descrever factos, representando-osem proposies simples.

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