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02 02 O objectivo do presente volume é o de apresentar e avaliar as experiências de conservação levadas a cabo nos últimos dois anos no Vale do Côa, bem como as soluções propostas pelas empresas de conservação de pedra que participaram neste projecto para mitigar as dinâmicas erosivas em acção nos afloramentos com arte rupestre. Inclui pareceres de peritos internacionais em conservação de arte rupestre, e levanta questões sobre as várias intervenções propostas. Integra ainda as conclusões mais relevantes de um projecto de monitorização sísmica do território do Parque Arqueológico do Vale do Côa. a arte da conservação técnicas e métodos de conservação em arte rupestre III congresso de arqueologia trás-os-montes, alto douro e beira interior actas das sessões Vila Nova de Foz Côa, 18 de Maio de 2006 a arte da conservação técnicas e métodos de conservação em arte rupestre a arte da conservação técnicas e métodos de conservação em arte rupestre entidades organizadoras do congresso: entidades financiadoras da edição:

a arte da conservação empresas de conservação de pedra que ... · soluções propostas pelas empresas de conservação de pedra que participaram neste projecto para mitigar as

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    02O objectivo do presente volume o de apresentar e avaliar as experincias de conservao

    levadas a cabo nos ltimos dois anos no Vale do Ca, bem como as solues propostas pelas

    empresas de conservao de pedra que participaram neste projecto para mitigar as dinmicas

    erosivas em aco nos afl oramentos com arte rupestre. Inclui pareceres de peritos internacionais

    em conservao de arte rupestre, e levanta questes sobre as vrias intervenes propostas.

    Integra ainda as concluses mais relevantes de um projecto de monitorizao ssmica do territrio

    do Parque Arqueolgico do Vale do Ca.

    a arte da conservaotcnicas e mtodos de conservao em arte rupestre

    III congresso de arqueologia trs-os-montes, alto douro e beira interior

    actas das sesses

    Vila Nova de Foz Ca, 18 de Maio de 2006

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  • a arte da conservao tcnicas e mtodos de conservao em arte rupestre | vol. 02 1

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    III congresso de arqueologia trs-os-montes, alto douro e beira interior

    actas das sesses

    Vila Nova de Foz Ca, 18 de Maio de 2006

  • III congresso de arqueologia trs-os-montes, alto douro e beira interior | actas144

    ficha tcnica Editor Associao Cultural Desportiva e Recreativa de Freixo de Numo

    Ttulo

    Actas do III. Congresso de Arqueologia de Trs-os-Montes, Alto Douro e Beira Interior

    Coordenao do Congresso

    Alexandra Cerveira Lima, Antnio Martinho Baptista, Antnio S Coixo

    Coordenao Editorial das Actas

    Alexandra Cerveira Lima, Andr Toms Santos, Antnio Martinho Baptista, Antnio S Coixo, Lus Lus

    Coordenao Cientfica da Sesso

    Antnio Pedro Batarda Fernandes e Rosa Jardim

    Coordenao da Publicao

    Antnio Pedro Batarda Fernandes

    Autores

    Antnio Pedro Batarda Fernandes, Carlos Catita, Emlio Antnio Pessoa Mesquita, Ftima de Llera, Fernando

    Carrera Ramrez, Franois Soleilhavoup, Idalina Veludo, J. Delgado Rodrigues, Lus Machado, Lus Matias,

    Madalena Rodrigues, Marco Marques, Marta Raposo, Nuno Proena, Paula Teves Costa, Valerie Magar

    Gesto Editorial

    Seteps.Arte

    Reviso de Textos

    Antnio Pedro Batarda Fernandes

    Design

    Gina Ferreira

    Pr-Impresso, Impresso e Acabamentos

    ???

    1 Edio, 2008. Porto

    ISBN: 978-972-99799-3-4

    Depsito Legal

    Tiragem

    1000 Exemplares

  • arte rupestre ver e conservar | vol. 02 5

    introduoAs experincias

    de conservao da arte

    rupestre do Vale do Ca

    e a sua avaliao

    Antnio Pedro Batarda Fernandes

    (Arquelogo, Coordenador do Programa de

    Conservao do Parque Arqueolgico do

    Vale do Ca)

    Os trabalhos preparatrios de conservao da arte rupestre do Vale do Ca

    O objectivo do presente volume o de apresentar e avaliar as experincias de conservao

    levadas a cabo nos ltimos dois anos no Vale do Ca em Rochas-Tipo1 bem como as

    solues propostas pelas empresas de conservao de pedra que participaram neste projecto

    para mitigar as dinmicas erosivas em aco nos afloramentos com arte rupestre. Nesta

    introduo geral ao volume iremos apresentar sumariamente os problemas de conservao

    que determinaram decisivamente as intervenes piloto de conservao realizadas bem como

    um esquema sucinto das propostas das empresas de conservao. Este volume no seu todo

    compreende os textos da responsabilidade das trs empresas convidadas que explanam o

    trabalho de anlise e experimentao por elas realizados e os pareceres de 4 peritos interna-

    cionais em conservao de arte rupestre complementados ainda com a anlise do signatrio

    s questes ticas e estticas que as intervenes propostas possam suscitar. Paralelamente,

    julgou-se oportuna a incluso neste volume dum texto com as concluses mais relevantes de

    um projecto de monitorizao ssmica do territrio do Parque Arqueolgico do Vale do Ca

    levado a cabo pelo Centro de Geofsica da Universidade de Lisboa.

    Sendo a conservao de painis de arte rupestre ao ar livre que tm como suporte o xisto

    uma actividade com caractersticas algo nicas no mundo, as referncias bibliogrficas

    sobre o assunto no abundam e as poucas existentes apenas do conta das consequncias

    negativas, nomeadamente duma evoluo mais rpida de dinmicas erosivas previamente

    existentes bem como o surgimento de outras, que intervenes realizadas de uma forma um

    pouco amadora provocaram (ver, por exemplo, Devlet e Devlet, 2002: 93). Assim, foi julgado

    como conveniente, aps sugesto de Delgado Rodrigues, gelogo do Laboratrio Nacional de

    Engenharia Civil (LNEC), consultor do Programa de Conservao do Parque Arqueolgico do

    Vale do Ca (PCPAVC) em questes de conservao, e um dos peritos cujo parecer podemos

    encontrar tambm neste volume , encetar uma srie de trabalhos preparatrios de con-

    servao.

    Refira-se que foram convidadas trs empresas portuguesas de conservao de pedra Com-

    psito, Nova Conservao e In Situ a participar nestes trabalhos de modo a ficarem dis-

    ponveis anlises variegadas e complementares s temticas de conservao de afloramentos

    de xisto no seu ambiente natural. A cada uma destas trs empresas foi atribudo um dos trs

    Ncleos de Arte Rupestre abertos ao pblico, tendo estas posteriormente escolhido quer as

    rochas de arte rupestre, quer as Rochas-Tipo, sobre as quais incidiriam os seus trabalhos de

    anlise, por um lado, e experimentao, por outro. De referir ainda que nesta primeira fase

    dum projecto para o estabelecimento de metodologias de interveno, o PCPAVC deu total

    liberdade aos participantes de escolherem as abordagens, tcnicas e materiais segundo as

    quais norteariam os seus trabalhos, sem contudo deixar de definir como objectivos a anlise

    das dinmicas erosivas presentes no afloramento gravado escolhido e a experimentao

    prvia na Rocha-Tipo respectiva escolhida em funo das suas semelhanas, em termos

    erosivos, com a rocha de arte seleccionada. Os trabalhos de ensaio nas Rochas-Tipo selec-

    cionadas decorreram durante o ano de 2004.

    Posteriormente, em Maio de 2006, realizou-se em Vila Nova de Foz Ca, integrada no III

    Congresso de Arqueologia de Trs-os-Montes, Alto Douro e Beira Interior, e por ns co-

    ordenada, a Sesso A arte da conservao (Tcnicas e mtodos de conservao em arte

    rupestre), onde foram apresentadas as comunicaes que deram origem aos textos aqui

    apresentados. Contudo, se bem que a Sesso tivesse durado apenas um dia, o necessrio

    trabalho preparatrio decorreu nos dias precedentes. Os peritos internacionais Valerie Magar,

    do ICCROM (International Center for the Study of Preservation and Restoration of Cultural

    Property); Fernando Carrera Ramrez, da ESCRG (Escola Superior de Conservacin e Restau-

    1 Afloramentos sem gravuras mas com

    dinmicas erosivas semelhantes aos das

    rochas insculturadas.

    Antnio FernandesInserted Text-

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    Antnio FernandesNoteUnmarked set by Antnio Fernandes

  • III congresso de arqueologia trs-os-montes, alto douro e beira interior | actas6

    racin de Galicia); Franois Soleilhavoup, do GERME (Groupe dtude et de Recherche sur les

    Milieux Extrmes) e Delgado Rodrigues, do LNEC tiveram oportunidade de presenciar in situ

    as intervenes realizadas apresentadas pelos responsveis das empresas de conservao,

    podendo assim desenvolver uma opinio mais fundamentada. Includas na Sesso, e aps a

    apresentao do trabalho realizado pelas empresas, as comunicaes preparadas por estes

    peritos constituram um parecer instrumental para o prosseguimento do PCPAVC. Pensamos

    que a singularidade do trabalho realizado pelas empresas juntamente com os pareceres avisa-

    dos emitidos pelos peritos justificam por si s a publicao neste volume, que pretende ser

    uma contribuio precursora para a definio das estratgias de interveno na conservao

    de arte rupestre ao ar livre.

    Ao longo desta introduo procuraremos fornecer uma ilustrao sucinta dos problemas de

    conservao mais determinantes da arte rupestre do Ca. Lanaremos ainda algumas pistas

    para a avaliao destes trabalhos, relacionadas com questes de autenticidade e integridade

    do objecto de interveno conservativa, os afloramentos de arte rupestre, que desenvolver-

    emos num outro texto presente neste volume.

    Problemas determinantes de conservao dos suportes da arte rupestre do Vale do Ca

    Como j em outras ocasies (ver Fernandes, 2003; Fernandes, 2004 e Fernandes, 2005)

    analismos de uma forma exaustiva o contexto global (Geolgico, Geomorfolgico, Biolgico,

    Climtico ou Scio-Econmico) de conservao da arte do Ca, apresentando ainda o Pro-

    grama de Conservao do Parque Arqueolgico do Vale do Ca (PCPAVC), iremos cingir esta

    breve explanao aos problemas de ordem mecnica que afectam a estabilidade dos painis

    de arte rupestre e que determinaram as prioridades estabelecidas para os testes de aces de

    conservao realizados em trs Rochas-Tipo do Vale do Ca.

    Os afloramentos gravados do Vale do Ca situam-se nas encostas ngremes que ladeiam o

    curso do rio Ca ou dos seus tributrios. Alis, foi o prprio processo de encaixe do rio e seus

    afluentes que desencadeou a exposio dos painis suportes de motivos de arte rupestre

    (Fernandes, 2004: 11). A maioria dos afloramentos gravados situa-se no sop destas encos-

    tas, embora painis existam que se localizam a meia encosta e mesmo no topo destas vert-

    entes. Sendo que os sops das encostas que se precipitam sobre o Ca se localizam a cotas

    entre os 100 e 150 metros, Baptista e Garcia Dez (2002: 198), num artigo sobre a organiza-

    o simblica da arte rupestre do Vale do Ca, haviam j notado, de acordo com os dados

    disponveis na altura e ainda no desmentidos, que a maioria dos afloramentos inscritos e

    stios de arte rupestre se situam entre estas duas cotas. De notar ainda que, sendo o Ca um

    rio geologicamente jovem, o perfil das suas encostas naturalmente em V sendo a inclinao

    dessas vertentes bastante acentuada, atingindo nalguns casos os 25% de desnivelamento

    (ibidem: 190) (ver Fig. 1).

    Assim, consequncia do posicionamento topogrfico acima descrito, a instabilidade das

    vertentes o problema fundamental de conservao dos afloramentos de arte rupestre do

    Ca. Como motor desta instabilidade temos as dinmicas de carcter coluvional: a fora da

    gravidade impele encosta abaixo sedimentos e fragmentos de maiores ou menores dimenses

    fraccionados dos afloramentos situados a cotas mais elevadas por aco da sismicidade ou

    da pluviosidade. Por outro lado, os prprios afloramentos (gravados ou no), localizados na

    base das vertentes, constituem-se como um calo impeditivo da estabilizao das encostas.

    S o inexorvel mas moroso processo de desmantelamento destes afloramentos poder pro-

    porcionar um maior nivelamento e portanto estabilidade s encostas (Rodrigues, 1999: 1).

    Toda esta aco coluvional, agravada pela pluviosidade, provoca grande instabilidade nas

    vertentes e nos prprios blocos gravados. Grande parte de todo o catlogo identificado de

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    Antnio FernandesInserted Textd

  • arte rupestre ver e conservar | vol. 02 7

    tipos de eroso em aco nos afloramentos (ver Rodrigues, 1999) tem como origem a instabili-

    dade das vertentes. A eroso actua desde escalas macro-locais i.e. toda a encosta a esca-

    las micro-locais reas restritas dos painis insculturados e originando ou contribuindo para

    acelerar a evoluo de fenmenos erosivos como o toppling ou a fracturao (ver Fernandes,

    2004: 12-17). Apesar da regio possuir um regime pluviomtrico bastante moderado (ver Fern-

    andes, 2005: 161), as guas pluviais e a sua percolao contribuem tambm para enfraquecer

    os afloramentos, ao agravarem o ritmo de eroso provocado por fracturas preexistentes. A

    localizao de afloramentos em leito de cheia ainda outro factor que contribui para a instabi-

    lidade de alguns painis de arte rupestre (ver Fig. 2).

    Em suma, foi esta dinmica de eroso mecnica dos afloramentos de arte rupestre do Ca

    que as experincias de conservao realizadas nos ltimos dois anos tentaram enfrentar, pro-

    pondo e testando solues passveis de mitigar a sua aco e evoluo. Outras questes de

    conservao de origem biolgica (como a colonizao liqunica) ou mesmo geolgica (con-

    servao da pelcula siliciosa que cobre os painis ver Fernandes, 2004: 16-17) no foram

    objecto directo de interveno nas experincias efectuadas. Isto porque, se por um lado, se

    afigura a estabilidade mecnica das vertentes como o maior problema de conservao da arte

    do Ca, a verdade que algumas das solues ensaiadas nos testes contribuem tambm

    colateralmente para a resoluo de alguns problemas de ordem biolgica (como o cresci-

    mento de plantas inferiores e superiores enraizadas nos sedimentos que preenchem caixas

    de fractura) e mesmo geolgica (com o estabelecimento de canais de escorrimento das guas

    pluviais que evitem a percolao de macios e painis gravados).

    A evoluo das dinmicas erosivas que afectam os afloramentos gravados do Vale do Ca

    pertence a uma escala de tempo dificilmente mensurvel no tempo humano. Por outro lado,

    o xisto presente na regio e onde a grande maioria dos motivos rupestres foi inscrita, pos-

    sui caractersticas de notvel resistncia e durabilidade (Ribeiro, 2001: 54), como se pode

    comprovar na Figura 3. No entanto, noutros casos os processos erodentes manifestam-se de

    forma lenta mas inexorvel, como ilustrado na Figura 4.

    As propostas das empresas

    Ser talvez til comear por indicar os dados referentes a cada empresa. Assim, pela Nova

    Conservao temos como tcnicos responsveis Nuno Proena e Paula Coghi tendo sido

    seleccionadas no Ncleo de Arte Rupestre da Ribeira de Piscos a Rocha 1 como painel a

    analisar e um afloramento situado imediatamente por detrs e a poucos metros da Rocha 1

    como Rocha-Tipo (Nova Conservao, 2004). J no caso da Compsito, Lus Machado foi o

    tcnico responsvel pela anlise Rocha 1 do Ncleo de Arte Rupestre da Canada do Inferno

    e pelos testes efectuados na Rocha-Tipo situada em frente do cais fluvial instalado neste N-

    cleo (Compsito, 2004). Pela empresa In Situ o tcnico responsvel foi Ftima de Llera tendo

    os trabalhos de anlise sido realizados na Rocha 5 do Ncleo de Arte Rupestre da Penascosa.

    Como Rocha-Tipo da Penascosa foi escolhido um afloramento situado junto ao parque de

    estacionamento deste Ncleo (In Situ, 2005).

    Em virtude da carta branca dada s empresas participantes, estas apresentaram aborda-

    gens prprias e variegadas. De qualquer modo, a Nova Conservao e a Compsito tiveram

    perspectivas algo semelhantes centrando os seus esforos na proposio e experimentao

    de materiais e tcnicas de conservao. Todos os materiais experimentados tero a sua

    evoluo natural dentro do contexto em que foram inseridos devendo a monitorizao dessa

    evoluo nas Rochas-Tipo sujeitas a teste ser o mais alargada possvel no tempo, de modo a

    conhecermos exactamente o que esperar de cada material testado. J a In Situ, embora tam-

    bm experimentando materiais, centrou mais a sua proposta na compreenso de tudo o que

  • III congresso de arqueologia trs-os-montes, alto douro e beira interior | actas8

    est a montante de uma interveno de conservao; ou seja, na anlise das causas e efeitos

    das dinmicas erosivas em aco. Assim, esta empresa efectuou estudos de estabilidade,

    trabalhos preparatrios de criao dum sistema de monitorizao topogrfica dos afloramen-

    tos e das vertentes onde estes se encontram, bem como uma caracterizao desenvolvida

    de factores ssmicos, geomorfolgicos ou climticos da regio. Uma das concluses mais

    interessantes em relao rocha estudada, a n 5 da Penascosa, a da situao estvel da

    vertente, considerando uma percolao pouco significativa das diaclases ditada pelo regime

    pluviomtrico brando regional, e, com excepo de uma, de todas as diaclases que esta rocha

    apresenta. E dizemos interessante porque partida se considerou (ns prprios e a equipa de

    trabalho da In Situ), empiricamente, que este afloramento se encontrava instvel. Tal concluso

    traduz a necessidade de se desenvolverem estudos aprofundados sobre a estabilidade das

    vertentes e das diaclases, porque, permitiro estabelecer graus de urgncia de interveno.

    O resultado destes trabalhos prvios, que globalmente reputamos como muito relevantes, e

    devido liberdade de abordagens e execuo pretendidas, apresenta-nos alguma diversidade

    de anlises e propostas que, no seu todo, contribui claramente para a definio e implemen-

    tao duma metodologia correcta de interveno nos afloramentos de arte rupestre. Apesar

    disto, uma das pechas que se pode apontar a estes testes a certa semelhana dos materiais

    testados nas Rochas-Tipo, nomeadamente a utilizao recorrente de argamassas base de

    cal hidrulica, o que resulta do campo de actuao tradicional das trs empresas selecciona-

    das. Como estas so empresas de conservao de pedra especializadas em intervenes de

    conservao de fachadas, ou paramentos de monumentos histricos tal facto determinou uma

    abordagem algo semelhante nos materiais utilizados nos afloramentos teste. Logo, o espectro

    de aplicao de materiais no foi, infelizmente, to alargado como poderia ser.

    Outra questo, tambm referida nos relatrios das empresas, reside na reversibilidade das

    intervenes. Se bem que estes relatrios faam meno ao facto dos materiais e tcnicas

    utilizados serem reversveis, a verdade que cremos, como a edio coordenada por Oddy e

    Carroll (1999) evidencia, que nenhuma interveno de conservao 100% reversvel. Estes

    autores sugerem mesmo que a reversibilidade em conservao ou restaurao do patrimnio

    , de um modo geral, um mito apetecvel. Mesmo que os materiais utilizados possam ser reti-

    rados de uma forma que no deixem nenhuns vestgios, a verdade que uma interveno de

    conservao muda de facto o objecto intervencionado. Tal como no se pode pr o tempo a

    andar para trs, a aco de reverso no faz retroceder o objecto ao estado em que ele sub-

    sistia antes da primeira interveno, transformando-o sim numa outra coisa, j somatrio das

    aces de interveno e de reverso. Logo parece-nos importante, que a partir do momento

    em que se decidir avanar com uma aco se tenha conscincia que de facto se vai alterar

    ()para sempre() o objecto de arte rupestre e que no existem aces de reverso que possam

    inverter totalmente esse resultado.

    Os afloramentos de arte rupestre do Ca so um objecto de arte no sentido que contm

    em si motivos inscritos como de valor artstico universal que tem vindo a existir h j vrios

    milnios num dado espao, sujeitos, no entanto, s aces erosivas naturais, apresentando

    assim um estado de conservao contingente. Um dos objectivos de todo este projecto era o

    de analisar formas de conciliar as questes ticas e estticas com a mitigao das dinmicas

    erosivas em aco nos afloramentos de arte rupestre, mormente nos mais degradados. Inter-

    vir, mesmo que actuando com a filosofia de interveno minimal que norteou a abordagem

    das empresas contratadas, implicar sempre modificar o estado actual desse objecto de arte,

    o que nos coloca perante o desafio de conciliar intervenes futuras com a preservao da

    autenticidade e integridade dos objectos de arte rupestre.

  • arte rupestre ver e conservar | vol. 02 9

    fig. 01 O encaixe do rio do Ca na zona da

    sua foz. De notar a inclinao das vertentes

    escavadas precisamente pelo encaixe do

    rio. Nesta zona constata-se a influncia da

    albufeira da barragem do Pocinho, con-

    struda em 1984 no rio Douro e a montante

    da foz do Ca. Assim, o nvel natural das

    guas do Ca seria cerca de 10 - 12 metros

    mais baixo. O nvel presente do Ca impede

    a visualizao de zonas ribeirinhas muito

    declivosas e que nesta rea apresentam

    razovel nmero de painis de arte rupestre

    agora submersos. Nesta rea, existem

    tambm zonas no submersas e mesmo

    situadas a meia encosta com afloramentos

    gravados de cronologia Paleoltica e da

    Idade do Ferro.

    fig. 02 Estado do afloramento que contem

    a rocha 1 da Ribeira de Piscos logo aps as

    cheias invernais de 2004/2005.

    figuras

    Antnio FernandesInserted Text Foto: Antnio Pedro Batarda Fernandes

    Antnio FernandesNoteUnmarked set by Antnio Fernandes

  • III congresso de arqueologia trs-os-montes, alto douro e beira interior | actas0

    fig. 03 Pormenor da rocha 5 B da Pe-

    nascosa. A figura caprnea de cronologia

    Paleoltica, gravada pela tcnica de abraso,

    est representada em dois planos diferentes,

    devido a fracturao do suporte ptreo.

    Como se observa facilmente, esta fractura

    anterior ao episdio de gravao, sendo

    que eventualmente motivos mais antigos

    gravados por picotagem podero ter sido

    interrompidos pela fracturao evidente.

    Esta figura, se por um lado demonstra, tal

    como a seguinte, a eroso que os suportes

    da arte do Ca sofrem, por outro sublinhar

    a grande durabilidade dos painis, pois

    o motivo caprneo sobrevive, apesar da

    fracturao intensa em aco nesta rocha,

    desde o Paleoltico Superior. (Foto: Baptista,

    1999: 104).

    fig. 04 Esta figura caprnea assinala de modo

    exemplar a perda de partes de motivos (bem

    como sugere a ocorrncia da desapareci-

    mento de motivos completos) que a eroso

    do suporte xistoso pode provocar. Assinale-

    se, no entanto, que este motivo sobreviver

    desde o perodo Solutrense (cerca de 18

    000 anos BP) de acordo com a proposta de

    atribuio cronolgica (pontuada com um

    ponto de interrogao, certo) de Antnio

    Martinho Baptista. De qualquer modo, de

    realar, que apesar da intensa presso a que

    sujeito, este motivo perdura ainda de forma

    quase completa. Esta figura e a anterior sub-

    linham tambm o estudo caso a caso a que

    se deve proceder, quer aquando da anlise

    do estado de conservao dos painis, quer

    na implementao de intervenes de con-

    servao. (Foto: Baptista, 1999: 80).

    Antnio FernandesInserted Text (1999: 80)

  • arte rupestre ver e conservar | vol. 02

    BAPTISTA, A. M.; GARCA DEZ, M. (2002) Lart palolithique dans la valle du Ca (Portugal):

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