Serenidade - Heidegger

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Serenidade - Heidegger

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  • SERENIDADE

    Ttulo original:Gelassenlieit

    Autor:Martin Heidegger

    Coleco:Pensamento e Filosofia

    Direco de Antnio Oliveira CruzTraduo:

    Maria Madalena Andrade e Olga SantosReviso cientfica:

    Joo Carlos Sousa PazCapa:

    Dorindo Carvalho Verlag Gnther Neske Pfullingen, 1959Direitos reservados para a lngua portuguesa:INSTITUTO PIAGETAv. Joo Paulo n, lote 544,2.-1900-726 LisboaTelef.218371725E-mail:

    piaget.editora@mail.telepac.ptPaginao, montagem, impresso e acabamento:

    Grfica Manuel Barbosa & Filltos, Lda.Depsito legal n. 146 024/00ISBN-972-771-142-1

    Nenhum) parle desta publicao pode ser reproduzidaou transmitida por qualquer processo electrnico,mecnico ou fotogrfico, incluindo fotocpia, xcrocpia

  • SERENIDADE.,

    PARA DISCUSSO DA SERENIDADE 29De tuna conversa sobre o pensamento, que teve lugar

    num caminho de campo 29

    REFERNCIAS . 71

  • A primeira palavra que me permito dizer publi-camente, na minha terra natal, s pode ser umapalavra de agradecimento.

    Agradeo a esta terra tudo aquilo que me deu eque me acompanhou durante um longo caminho.Tentei exprimir no que consiste esta ddiva aolongo das breves pginas que apareceram ,pelaprimeira vez na publicao comemorativa do cen-tenrio da morte de Conradin Kreutzer, no anode 1949, intitulada Der Feldweg (O caminho decampo). Agradeo ao Sr. Schhle, presidente dacmara municipal, a sua cordial saudao. Agradeoainda., em especial, a gratificante misso que me foiconfiada de proferir um discurso comemorativonesta homenagem que hoje se realiza.

  • PWZdDASSISTNCIA!CAROS C^NTERMNEQS!

    : *

    Encontrarno-nos reunidos numa cerimniacomemorativa do compositor Conradm Kreutzer,nosso conterrneo. Se queremos homenagear umdesses homens predestinados criao artsticaimpe-se, em primeiro lugar, honrar condigna-mente a sua obra. No caso de urn msico, tal acon-tece dando a ouvir as suas obras.

    Neste jbreciso momento soam canes e coros,msica t, pera e msica de cmara extrados daobra de C;>nradin Kreutzer. Nestes sons est o pr-prio artisia, pois a presena do mestre na obra anica que" autnticaJQuanto maior um..niesjbne''mais coimletamente a sua pessoa desaparece por j

    i-.T^in, * mi- Jt _ _ , . ^^. f,-mavf*v-owaSf45S?4j5-t?^KA" O l 'na_sua essncia, diz respeito afeada um de ns,directa e continuanienteTEpor isso que nem umdiscurso comemorativo garante que pensemosdurante a comemorao.

    No nos iludamos. Todos ns, rnesmo aquelesoue pensam por dever profissional, somos muitas

    mentos ^ om demasiada .faciidade. A ausncia-de-"-pensamentos u|ci hspede sinistro que, "nomundo actual, entra e sai em toda a parte. Pois,hoje toma-se conhecimento de tudo pelo caminhomais rpido e mais econmico e, no mesmo ins-tante e com -a inesm rapidez, tudo se esquece. Domesmo modo, os actos festivos sucedem-se uns aosoutros. ^ As comemoraes tornarn-se cada vezmais P_obr^Sj^ejm^ejisamento|. Comemoraes eausncia-de-pensamentos andam intimamenteassociadas.

  • Contud'), mesmo quando estamos sem-pensa-mehtos no renunciamos nossa capacidade depensar. Ter?os at unia necessidade absoluta dela,de urn mod :> especial, sem dvida, de tal forma que,na. ausnci; -de-pensamentos, deixamos improdu-tiva a noss.: capacidade de pensar. No obstante,s pode fie;;: improdutivo aguiJo que contm em sium solo (Gnmd) onde algo possa crescer, como porexemplo um campo agrcola. Uma auto-estrada, naqual nada cresce, nunca se pode transformar numbaldio. Do mesmo modo que s podemos ficar sur-dos pelo farto de ouvirmos e envelhecer pelo factode termos ido jovens, s podemos tornarmo-nospobres-em pensamentos ou mesmo sem-pensa-mentos ern virtude de o homem possuir, no fundo(Grund) da sua essncia, a capacidade de pensar,.o esprito e a razo, e em virtude de estar destinadoa pensar. S podemos perder ou, melhor, deixar deter aquilo'que, consciente ou inconscientemente,possumos, t

    A crescei.te ausncia-de-pensamentos assenta, porisso, num processo que corri o mago mais profundodo Homem actual:! O Homem actual

  • H aj^sta_reflexo_que nos referimos quando dize-injM_qi>g_o_Homein actuai foge do pensamento.Objectar-se-, no entanto, que a_pura reflexo nose apercebe que paira sobre a. realidade, que elaperde b contacto com o solo, no serve gara darconta dos assuntos correntes, no contribui emnada para levar 'a cabo

    E, pbr fim, diz-se que a pura reflexo, a medita-o persistente, demasiado elevada para oentendi :nento cornum. Nesta desculpa a nica coisacorrect . que verdade que um pensamento quemedita ,surge to pouco espontaneamente quantoo pens.imento que calcula. O pensamento quemedita ;:":xige, por vezes, um grande esforo. Requerum treno demorado. Carece de cuidados aindamais delicados do que qualquer outro verdadeiroofcio.. Contudo, tal como o lavrador, tambmtem de,' saber aguardar que a semente desponte eamadurea.

    Por'butro lado, qualquer pessoa pode seguir oscaminhos da reflexo sua maneira e dentro dosseus limites. Porqu? Porque o Homei^.^sLjg.r(Wesen)!gue pmsa, ou seja, que insdita (sinnend). Noprecisamos portanto, 3e moHo algum, de nos ele-varmos s regies superiores quando reflectimos.Basta djgmorarmp-nps (z^r^w/^junto^do que estperto e meditarmos so^e^gjque^es^rnais prximo:aquilo ^ue diz respeito. ja...,ada um de ns, aqui eagoira; squi, neste pedao de terra natal; agr7 napresente hora universal.

    O que nos sugere esta celebrao, se estivermosdispostos a meditai'? Neste caso, atentamos que, dosolo da terra natal, medrou (gediehen) uma obrade arte. Se reflectirmos sobre este simples facto,teremos imediatamente que nos lembrar que o soloda Subia produziu grandes poetas e pensadoresno sculo passador naquele que o precedeu. Secontinuarmos nesta linha de pensamento verifi-camos que a Alemanha Central possui urn soloigualmente frtil, bem corno a Prssia Oriental, aSilsia e a Bomia.

    Somos levados a reflectir e perguntamos: nofaz parte do xito (Geddhen) de uma obra de sucessoo enraizamento no solo de uma terra natal? JohannPeter Hebel escreveu um dia: Ns somos plantasquji quer nos agrade confessar quer no ,apoiadas nas razes, jrn_de^ romper o solo a fimde poder florescer no ter e dar frutos (Obras, ed.Ttweggin,314).

    O poeta quer dizer: onde deve medrar uma obrahumana verdadeiramente alegre e salutar, oHomem tem dte gode_brafr dasjpjrojfcndbzasjdo^jsolo natal, elevando-se em direco ao ter. tersignifica aqui: ojir livre das alturas do cu, a esfera

    " ~ "

    ^*St(a i^rasfefr|e. ,.Somos levados ? reflectir e perguntamos: aquilo

    que Johann Peter Hebel diz ainda se aplica nos diasde hoje? Existe etnda esse habitar tranquilo doHomem entre a terra e_o_cCTrt) esprito que mg-^dita (sinnend) reina ainda no pasFExiste ainda uma"terra natal, de razs fortes no solo (Boden), na qual

  • o Homem se encontra permanentemente (stndigsteht) j quer dizer, onde o Homem est enraizado(boda Istndig isfi *

    Muitos alemes-perderam a sua terra natal, tive-ram de abandonar as suas aldeias e cidades, foramexpulJos do solo natal. Inmeros outros, aos quaisfoi p upada a sua terra natal e que, mesmo assim, adeixa, .ara, so'apanhados no turbilho das grandescidades, tm de se estabelecer no deserto daszonas industriais. Tornam-se estranhos velha terranatal. E os^que nela ficaram? Multas vezes estoainda mais desenraizados (Keimatoser) do que~aq"u-Jes que foram expulsos. A cada hora e a cada diaesto presos rdio e televiso. O cinema trans-

    ~prt^ps~ semanalmente para os domnios invulga-res, frequentemente apenas vulgares, da representa-o qiie simula um inundo que no_o . Por todaa parte tm acesso ao Illustrierte Zeitung*. Tudoaquilo com que, de hora a hora, os meios de infor-

    jtnacjo. actuais excitam, surpreendem, e^mulam_aimaginao do Homem - tudo isso est hoje mais

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    prximo do Homem do que o prprio campo volta .^a quinta, d~ que o cu sobre a terra, do quepjjjass.ar das horTdodla e da noite, do que os usose costumes da _ald7~3o que a Herana do mundoda terra natal.

    ' Revisi i de carcter mais ldico do que informativo, com publi-cao geralmente semanal, que contm artigos de interesse geral,ilustra j os com imagens. (N. T,)

    j_

    Somos levados a reflectir e perguntamos: o quese passa aqui com os expulsos da terra natal, bemcomo com aqueles que nela ficaram? Resposta:O enraizamentoJdh Bodenstndigkeit) do Homem^rn^r^stajimea^jd^^a^sua mais ntima essncia.Mais: a perda do enraizamento no provocada

    . somenf"^pc71nrcunstncias externas e fatalidadesdo destin7nemTo efeito da negligncia e 'domdcTde vida'"suprfcial dos Homens. A perda, . . ... jT , . v ; r - - , -gras*-.djpv enr^ipn^ntp jprovem do .espirito da ejooca,

    no quajjt^g^s^sci^ps. *"'Continuamos a ser levados a reflectir e pergun-

    tamos: sendo assim podem ainda4, no futuro, oHomem ou a obra humana medrar do solo da terranatal e crescer enf direco ao ter, ou seja, emdireco extensa!) (Weit) do cu e do esprito?Ou cair tudo nas tenazes do planeamento e doclculo, da organizao e da automatizao?

    Se durante a celebrao de hoje1 reflectirmos sobre o que ela nos'sugere, verificamos quejajnossa

    f j poca ameaada pela perda do enraizamento'.f perguntamos: o que est realmente a acontecer

    no nosso tempo? O que caracteriza o nosso tempo?Chamou-se recentemente poca que agora

    se inicia a era atmica. A sua caractersticamais atormentadora a bomba atmica. Masesse trao meramente superficial, pois logo sereconheceu que a energia atmica tambm pode serutilizada para fins pacficos. Por isso, a FsicaAtmica e os seus tcnicos esto hoje empenhados,em toda a parte, em concretizar a utilizao pacfica

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  • da ene ;gia atmica em projectos de longo alcance.Os grs lides consrcios industria