S£o Jo£o Mariaâ€‌. - abant.org. centros civilizadosâ€‌, de Alfred Gell em “Art and Agencyâ€‌

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Altares de benzedeiras A arte do excesso1

Geslline Giovana Braga (UFPR/PR)

Resumo: Cada benzedeira tem um ritual nico, com smbolos mveis que cruzam

matrizes religiosas, fitoterpicas, industriais e artsticas. As casas so os lugares desses

rituais de cura. Os altares domsticos traduzem visualmente todos os elementos

mencionados acima em arranjos estticos, so interfaces que misturam as imagens de

santos catlicos, das entidades de umbanda, dos orixs do candombl, fotografias

pessoais, ex-votos fotogrficos e outros tipos de ex-votos, objetos eletrnicos e

industriais, ao lado de pinturas e artesanatos confeccionados pelas mos dos prprios

especialistas de cura que instalam os altares. Todos esses elementos heterogneos

caracterizam os altares como composies hbridas e simblicas, obras abertas, com

finalidade ritual. Motivada por questes apontadas por Sally Price em Arte primitiva em

centros civilizados, de Alfred Gell em Art and Agency e a partir do conceito de

instalao presente na arte contempornea e na religiosidade popular, pretende-se mostrar

que a dinmica da construo do altar assemelha-se a da arte contempornea (ou em

aluso a Price, arte contempornea em lugares perifricos) por suas resignificaes,

usos de cdigos, agncia dos objetos e esttica do excesso, que inspiram artistas

contemporneos como Nelson Leirner e Farnese.

Palavras-chave: altar, arte contempornea, agncia.

Introduo

Benzedeiras2 so especialistas domsticas de curas mgico-religiosas. Em suas

casas acessam um repertrio fludo, que inclui elementos sagrados de religiosidades de

variados matizes, saberes relacionados ao uso de plantas e manipulao de objetos, a fim

de interferir na realidade. Distantes dos espaos pblicos oficiais das religies, conduzem

suas prticas de acordo com lgicas particulares, que dizem sobre o repertrio e trajetria

de cada benzedeira e tornam cada casa um lugar de prticas nicas. Mesmo tratando-se

de um fazer hereditrio e apreendido, as resignificaes relacionadas ao ritual so

constantes nas prticas domiciliares das benzedeiras.

A benzedeira se v como uma portadora de um dom, recebido divinamente, para

a cura, o que a coloca mais prxima a Deus e aos santos, uma mediadora capaz de acessar

ao divino de forma direta e fazer a comunicao entre a esfera humana e a sagrada. Ao

1 Trabalho apresentado na 28 Reunio Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 2 e 5 de

julho, em So Paulo, SP, Brasil.

2 Mesmo existindo muitos homens benzedores, desrespeito a norma culta e utilizo a terminologia no feminino porque as mulheres so a maioria entre os especialistas de cura domiliciares.

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mesmo tempo em que o dom a torna especial impe obrigaes, como curar a quem a

procurar sem receber remunerao para tanto. O dom como ddiva deve ser eternamente

retribudo em forma de cura aos outros.

Presentes em todo Brasil, as benzedeiras figuram no imaginrio social como

velhinhas sempre com um raminho na mo e um sorriso nos lbios. Na Regio Centro-

Sul do Paran e na Regio Metropolitana de Curitiba essa imagem est em

transformao, mesmo as benzedeiras que moram em regies rurais veem-se obrigadas a

transformar suas prticas e aes cotidianas: organizam-se em movimentos sociais,

tornam-se lderes comunitrias, assumem cargos no poder legislativo municipal e curam

doenas que no pertenciam a seus repertrios tradicionais, como stress e depresso.

Diante de tais transformaes um elemento permanece comum: a presena dos

altares nas casas3. O altar demarca o espao do sagrado, diante dele a benzedeira ora,

recebe consulentes e faz atendimentos. Esto constantemente em construo, reunindo

representaes em desenho e estaturia, ex-votos fotogrficos e de outras naturezas,

objetos religiosos, devocionais e relquias sagradas junto a outros objetos industriais,

que ali so arranjados em funo de sua esttica ou de resignificaes e usos rituais.

Lugares de devoo e tambm de contemplao, pois existe a inteno de produzir o belo

e encantar o receptor. Os altares so elementos visveis de mediao com o sagrado,

simbolizam o poder da benzedeira e quando seus significados so explorados

etnograficamente revelam-se como um campo em si a ser pesquisado.

Fotografia 1: Altar de Dona Elvira Unio da Vitria - PR

Minha ateno voltou-se para os altares ao deparar-me constantemente com um

3 Ver o documentrio etnogrfico Instalaes Rituais, produzido atravs da Bolsa Funarte de

Produo Crtica dos Contedos Artsticos e Culturas Populares, sobre o mesmo tema do presente artigo em www.vimeo.com/1384461 .

http://www.vimeo.com/1384461http://www.vimeo.com/1384461

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mesmo retrato em diferentes casas. Junto da onipresente Nossa Senhora Aparecida, que

ocupa sempre o centro dos altares, percebi o antigo retrato em preto-e-branco de um

homem de barbas, sentado, com as pernas cruzadas. Meu desconhecimento sobre o santo,

diante da pergunta sobre quem era, trazia a certeira afirmao: So Joo Maria. Fui

apreendendo sua histria na oralidade das benzedeiras, aos poucos compreendi que o

retrato ultrapassava, nas narrativas, a condio inicial da fotografia como cone e ndice.

Diante de tal constatao, comecei a perguntar sobre todos os objetos dos altares e a

conotao desses me levou a outra percepo do altar que ultrapassa a lgica do

ornamento ao produzir significado e sem romper com sagrado, aproxima-se da arte.

Fotografia 2: Altar domstico da benzedeira Tnia, imagens de Nossa Senhora Aparecida

ao centro e retrato de So Joo Maria afixado no quadro, em Mafra - SC.

Instalaes de arte

O que arte, uma pergunta que persegue a gnese da palavra. A contemplao, a

produo de conhecimento atravs do visvel, do sensvel, da exaltao do belo, da

representao realista do sagrado e do dom do artista, que pareciam ser as estruturas

que qualificavam as expresses humanas como artsticas, so colocadas em cheque com

os movimentos de Arte Moderna. No se pretende aqui traar um histrico da arte, apenas

ilustrar atravs dos processos histricos de que maneira as instalaes tornaram-se

presentes na arte contempornea.

Sabe-se que as artes, especialmente a pintura e a escultura, foram fomentadas no

perodo do Renascimento, no sculo XVI, graas a Igreja Catlica, em sua nsia em

atingir e encantar os no-letrados com as representaes dos santos. A arte foi tomada

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pela Igreja no s como ornamento, mas como forte elemento para aprendizado de seus

preceitos. Basta pensar nos temas de telas clssicas, como a anunciao, a crucificao e

a ltima ceia, por exemplo, que se rementem a passagens bblicas, fundamentam o

catolicismo, suas prticas e dogmas. A pintura e a escultura clssica tinham assim um

status diferente de outras artes plsticas, sendo muitas vezes apenas elas compreendidas

como arte, enquanto outras expresses eram compreendidas como artesanato.

No final do sculo XIX, depois de libertos pela fotografia da obsesso pelo real,

os artistas organizam-se em movimentos que vo buscar outras referncias, caso do

cubismo, que se inspirou na arte primitiva. J no incio do sculo XX, o dadasta Marcel

Duchamp causou impacto com os ready-made, objetos cotidianos destitudos de suas

finalidades prticas e expostos nos museus.

Em meio a novos experimentos, os artistas pretenderam pretensamente fugir das

telas. Na dcada de 1920, Kurt Schwitters foi o primeiro a realizar uma obra considerada

instalao, que consistia em sua prpria casa, chamada Merzbau. A casa Merz foi o

conceito elaborado e utilizado pelo artista: Merz significa criar relaes, de preferncia

entre todas as coisas do mundo (2007, p.18). Merzbau era a prpria casa do artista

constantemente rearranjada, por estruturas e esculturas nas paredes juntas a uma grande

quantidade de objetos. Merz era fruto do perodo entre guerras, Schwitters considerava

que o artista ao reunir objetos reorganizava o novo: Tudo estava de algum modo morto e

importava construir algo novo dos cacos. Mas isso Merz (2007, p.22).

Em 1961, o grupo Fluxus, tambm alemo, liderado por George Maciunas, teve

como uma de suas principais formas de expresso as instalaes, que reuniam numa

nica obra msica, pintura, escultura, fotografia, arquitetura e objetos industrializados, a

fim de produzir as mais variadas interaes com o receptor. Um dos objetivos do grupo

era instaurar a arte no cotidiano, com a noo da arte ao alcance de todos.

No Brasil podemos destacar Nelson Leirner e Farnese de Andrade, como dois

artistas que fizeram das instalaes suas formas de criao artstica. Ambos, de certa

maneira, tiveram em algum momento como referncia a religiosidade popular. Leiner

utiliza imagens de santos arranjadas e acumuladas em suas instalaes. Farnese faz dos

oratrios instalaes, usando tambm imagens de santos e de ex-votos fragmentadas,

encontradas na praia ou compradas em antiqurios: O uso dos oratrios fomentou minha

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tendncia litrgica a qual desde minha experincia litrgica j existia. Talv