Objetos de estima§£o: esculturas audiovisuais volum© . Objetos de estima§£o: esculturas audiovisuais

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  • Objetos de estimao: esculturas audiovisuais volumtricas.

    Mrcio Hofmann Mota (UnB)

    Resumo

    O artigo refere-se ao processo de desenvolvimento da srie de instalaes Objetos de estimao do artista multimdia Mrcio H Mota. Tratam-se de videoinstalaes nas quais so utilizadas tcnicas de vdeo projeo mapeada para a criao de esculturas audiovisuais, tendo como suporte bonecos de gesso. A pesquisa dessas instalaes tem como referncia os artistas Tony Oursler e Bill Lundberg, que trabalham narrativas audiovisuais escultricas, instalativas e ambientais. Refere-se, tambm, ao uso da tecnologia de vdeo projeo direcionada para o campo da magia e da iluso ptica, apontando para a explorao de propriedades especficas da projeo luminosa, como a fuso de materialidades e a problematizao das dimenses volumtricas em obras audiovisuais.

    Abstract

    This article refers to the process of developing the series of installations called Objects of Estimation from the multimedia artist Mrcio H Mota. These are video installations in which video projection mapping techniques are used in order to create visual sculptures on plaster dolls. The research used in these installations is founded on Tony Oursler and Bill Lundberg's studies, which are sculptural audiovisual narratives, and environmental installations. It also refers to the direct use of video technology projection in the magic and in the optical illusions fields, with the aim of exploring specific properties of the light projection, such as the fusion of materiality and the problematic of volumetric dimensions in audiovisual works.

    Palavras chaves: projeo mapeada; video mapping; vdeo escultura.

    Introduo

    Objetos de Estimao uma srie de videoinstalaes em desenvolvimento, na qual

    utilizo o dispositivo de mapeamento projetivo para construir poticas audiovisuais

    com esculturas de bonecos de gessos adquiridos em lojas de artesanato. Para tratar

    dos elementos que envolvem essa pesquisa, como estratgia de escrita, este artigo

    se divide em duas partes: a primeira aborda questes gerais ligadas ao dispositivo da

    projeo mapeada e sua relao com o campo da magia e ilusionismo; a segunda,

    trata especificamente da srie em questo.

    Projeo Mapeada

  • Projeo mapeada ou Video Mapping o termo empregado para designar

    dispositivos1 tcnicos que tem como princpio bsico a elaborao de mscaras de

    vdeo/imagens feitas com objetivo de cobrir singularmente uma determinada

    superfcie de projeo. De forma geral, essas mscaras so criadas a partir da

    interpretao e anlise das formas ou topografias de rea projetiva a ser mapeada.

    Um exemplo simples seria projetar a imagem de um globo ocular sobre uma bola de

    isopor, de forma que a imagem projetada se encaixasse perfeitamente sobre

    superfcie da bola, gerando a impresso de volumetria imagem do olho projetado.

    As estratgias e escolhas de tecnologias de projeo (retroprojetor, slide, projetor

    multimdia) para realizao dessa tarefa poderiam variar, porm voc teria que

    partir do princpio de que a imagem do globo ocular funciona como uma mscara

    destinada a cobrir a bola branca.

    O blueprint uma das tcnicas mais utilizadas, orientada para desenvolvimento de

    obras com projeo mapeada. Nesta tcnica, com base em uma imagem matriz

    uma imagem de referncia que contm informaes visuais da rea-superfcie de

    projeo so criadas mscaras de vdeos ou/e imagens. Assim, a imagem matriz

    pode ser entendida como rea de trabalho para o criao de contedos (vdeos,

    mscaras, etc) e roteiros audiovisuais em obras de projeo mapeada. Em trabalhos

    em equipe, no qual diferentes profissionais criam simultaneamente contedos de

    vdeo, esta tcnica permite a orientao da produo das imagens baseada no

    gabarito de uma imagem matriz, garantido a posterior comunho dos contedos

    produzidos.

    Uma imagem matriz pode ser de diferentes tipos:

    - modelo 3D, no qual trabalha-se todas as faces e superfcies topolgicas de

    um objeto virtual.

    - imagem vetorial, que contenha informaes visuais e medidas das

    propores da rea de projeo. Muito utilizada em projetos que no

    partam de um objeto existente, como por exemplo um projeto de um cenrio

    1 Dispositivo no sentido de um campo heterogneo de tcnicas que apontam para prxis que tem

    como finalidade o mapeamento de reas de projeo cinematogrfica/videogrfica.

  • a ser construdo. Assim, com referncia na imagem vetorial do projeto de um

    cenrio, pode-se desenvolver o contedo e mscaras de projeo de vdeo,

    antes mesmo do cenrio fsico esteja pronto. Tambm so utilizadas em

    projees arquitetnicas, quando so aproveitados os projetos de autocad

    das fachadas dos prdios.

    - Imagem fotogrfica. Gabarito que tem como base a foto da rea-superfcie

    de projeo.

    Entre as principais caractersticas da projeo mapeada esto: a possibilidade do

    efeito volumtrico ou escultrico do vdeo/imagem projetado sobre superfcies

    tridimensionais; a criao de efeitos pticos de anamorfoses volumtricas (nas quais

    tem-se a iluso de distoro do espao e das formas-superfcies de projeo); o

    travestimento imagtico das superfcies ou objetos inanimados, dando-lhes a iluso

    de nima; e, de maneira geral, a quebra da moldura e limites da projeo, para um

    sem limite composicional.

    Trata-se de um campo interdisciplinar de tcnicas que favorece a experimentao

    complexa das caractersticas de uma projeo luminosa, onde ndices ligados

    pintura (perspectiva, ponto de vista), escultura (volumetria), instalao

    (espacialidade, imerso), performance (live image) e cinema (imagem em

    movimento), se intercalam no processo que beneficia a criao de dispositivos

    audiovisuais que transmutam, misturam e rompem as fronteiras entre

    materialidades fsicas (suportes topolgicos), materialidades luminosas (luz

    projetada e suas propriedades comportamentais) e imaterialidades (imagens

    projetadas). A Projeo mapeada vem sendo utilizada em produes que se

    enquadram dentro de conceitos como cinema expandido (Gene Youngblood) e

    transcinemas (Ktia Maciel), onde temos experimentaes cinematogrficas

    ambientais, instalativas e interativas, mas aponta principalmente para explorao

    de propriedades especficas da projeo luminosa, que dizem respeito fuso de

    materialidades e ao campo das dimenses espaciais volumtricas em obras

    audiovisuais.

  • Por uma perspectiva crtica-potica do uso de termologias, costumo pensar a

    projeo mapeada como uma tcnica capaz de gerar imagens-transgneras ou

    imagens-transcendentais. Aqui o transgnero um ndice de mudana de gnero da

    condio primeira da matria fundida pela projeo. O transcendental, ndice que

    atravessa essa fuso e se pe acima da dualidade material, apresentando-se como

    filha imaginria do atrito matrico. uma propriedade da projeo luminosa

    travestir em transa (embate corpreo entre luz projetada, matria que a suporta

    e imagem imaterial) o corpo que a acolhe, transformando esse momento de

    encontro e embate de diferenas matrias, em acontecimento. Em um mito

    imagtico espao-temporal topolgico, no qual o espao-matria concreto

    transmutado passa a ser espao-matria viajante, vibrante, onde seu estgio de

    passagem, nmade e liberto de uma presentificao espao-temporal nica. Nesse

    estgio, a matria passa de substantivo para verbo, sua transgresso diz respeito ao

    espao-tempo e a ressignificao simblica de um corpo extrapolado, performado.

    Um ato de materializar a matria.

    Esse conceito potico de imagem-transgnera ou imagem-transcendental enamora

    a tese cosmognica do bispo, cientista e filsofo ingls Robert Grosseteste (1168-

    1253):

    Em Grosseteste, a luz transcende o aspecto meramente ptico. Ela a substncia primeira, que corporifica a matria-prima criada concomitantemente a ela por Deus, no incio de tudo. Ambas ento se unem, sem que uma possa abandonar a outra.

    Inspirado na Fsica de Aristteles, Grosseteste enumera quatro causas que justificam a ideia de criao: a) a causa material (4ubmiss prima) [o substrato informe]; b) a causa formal (lux) [a luz que vai informar a matria]; c) a causa eficiente (incorporalis Intelligentiae) [princpio criador da luz]; d) a causa final (Machina mundae) [o universo irradiado em movimento].

    Com a sua teoria de que a luz princpio de movimento e de mudana, Grosseteste prov uma explicao para a causa eficiente do movimento das esferas celestes: o movimento ocorre pela interveno da primeira fora motora: a luz. (PEDUZZI, 2009, p.51-52)

  • Da tese de Grosseteste podemos colher a ideia da luz como fora motora capaz de

    informa e reinformar a matria. Temos na luz uma noo de incorporao,

    nascimento, alma e movimento, que resulta em uma causa final: universo irradiado.

    Apesar de vencida no campo cientfico, a viso de Grosseteste fantstica em

    termos metafsicos, na qual a luz como substncia edificante da matria torna-se

    meio de proposio divina, criadora, potica, possibilidade de construo de

    espaos-temporais vvidos. Tiro dessa cosmogonia uma reflexo para projeo

    mapeada, onde a luz projetada atua como uma materialidade que procura seu

    pertencimento nas coisas e entre refrao, reflexo e disperso, descarrega iluso,

    fazendo com que a fonte que a reflete parea ser a fonte que a emite.

    Para pesquisador Paulo Herinque Dias Costa, que investiga o uso da projeo

    mapeada em cenas e cenrios de obras teatrais/performticas