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20 Revista Crátilo, 7(1): 20-34, ago. 2014 Ensino gramatical nas aulas de Língua Portuguesa: estudo de caso em escola do município de Presidente Olegário Grammar teaching in portuguese language classes: a case study in a school in the district of Presidente Olegário ______________________________________________________________________________________________ Rosilene Soares de Melo Silva Graduanda em Letras pelo Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). E-mail: [email protected] Elizene Sebastiana de Oliveira Nunes Professora orientadora (UNIPAM). E-mail: [email protected] Resumo: O ensino de gramática nas escolas há muito vem sendo tema de recorrentes discussões. Partindo disso, o presente trabalho teve por objetivo verificar como têm sido trabalhadas as aulas de Língua Portuguesa numa escola do município de Presidente Olegário. O estudo possibilitou averiguar a visão dos professores de Língua Portuguesa dessa escola sobre o ensino de gramática e investigar como os alunos encaram esse conteúdo. O artigo foi realizado com base em pesquisa bibliográfica e de campo. A pesquisa bibliográfica fundamentou-se em leituras de autores como Travaglia (1996), Perini (1995) e Geraldi (1999). Já a pesquisa de campo foi realizada com uma amostra de dois docentes e 54 alunos. A partir do levantamento de dados realizado, foi possível verificar que, apesar de algumas estratégias no ensino de língua portuguesa terem passado por inovações, ainda é predominante a forma normativa e prescritiva de ensino tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio dessa escola. Palavras-chave: Língua Portuguesa. Gramática. Ensino. Abstract: Teaching grammar in schools has long been the subject of recurrent discussions. Assuming that, the present study aimed to verify how Portuguese Language classes in a school in the district of Presidente Olegario have been worked. This study enabled us to ascertain the views of Portuguese Language teachers from this school on teaching grammar and to investigate how students perceive this content. The article was based on literature and field research. The literature search was based on readings from authors as Travaglia (1996), Perini (1995) and Geraldi (1999). The fieldwork was conducted with a sample of two teachers and 54 students. After the data had been collected, it was found that although some strategies for teaching Portuguese language have undergone innovations, it is still prevailing normative and prescriptive form of teaching the language in both elementary school and in high school classes at this school. Keywords: Portuguese language. Grammar. Teaching. Revista Crátilo, 7(1): 20-34, ago. 2014 © Centro Universitário de Patos de Minas http://cratilo.unipam.edu.br

Ensino gramatical nas aulas de Língua Portuguesa: estudo ...cratilo.unipam.edu.br/documents/32405/37355/Ensino+gramatical+nas... · ... 1996, p. 63), a norma culta (da classe de

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  • 20 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    Ensino gramatical nas aulas de Lngua Portuguesa: estudo de caso em escola do municpio de Presidente

    Olegrio

    Grammar teaching in portuguese language classes: a case study in a school in the district of Presidente Olegrio

    ______________________________________________________________________________________________

    Rosilene Soares de Melo Silva Graduanda em Letras pelo Centro Universitrio de Patos de Minas (UNIPAM). E-mail: [email protected]

    Elizene Sebastiana de Oliveira Nunes Professora orientadora (UNIPAM). E-mail: [email protected]

    Resumo: O ensino de gramtica nas escolas h muito vem sendo tema de recorrentes discusses. Partindo disso, o presente trabalho teve por objetivo verificar como tm sido trabalhadas as aulas de Lngua Portuguesa numa escola do municpio de Presidente Olegrio. O estudo possibilitou averiguar a viso dos professores de Lngua Portuguesa dessa escola sobre o ensino de gramtica e investigar como os alunos encaram esse contedo. O artigo foi realizado com base em pesquisa bibliogrfica e de campo. A pesquisa bibliogrfica fundamentou-se em leituras de autores como Travaglia (1996), Perini (1995) e Geraldi (1999). J a pesquisa de campo foi realizada com uma amostra de dois docentes e 54 alunos. A partir do levantamento de dados realizado, foi possvel verificar que, apesar de algumas estratgias no ensino de lngua portuguesa terem passado por inovaes, ainda predominante a forma normativa e prescritiva de ensino tanto no ensino fundamental quanto no ensino mdio dessa escola. Palavras-chave: Lngua Portuguesa. Gramtica. Ensino. Abstract: Teaching grammar in schools has long been the subject of recurrent discussions. Assuming that, the present study aimed to verify how Portuguese Language classes in a school in the district of Presidente Olegario have been worked. This study enabled us to ascertain the views of Portuguese Language teachers from this school on teaching grammar and to investigate how students perceive this content. The article was based on literature and field research. The literature search was based on readings from authors as Travaglia (1996), Perini (1995) and Geraldi (1999). The fieldwork was conducted with a sample of two teachers and 54 students. After the data had been collected, it was found that although some strategies for teaching Portuguese language have undergone innovations, it is still prevailing normative and prescriptive form of teaching the language in both elementary school and in high school classes at this school. Keywords: Portuguese language. Grammar. Teaching.

    Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014 Centro Universitrio de Patos de Minas

    http://cratilo.unipam.edu.br

  • 21 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    1 Introduo

    So antigas e recorrentes as discusses acerca das aulas de Lngua Portuguesa

    entre pesquisadores e professores. Muitos so os questionamentos do que se deve

    priorizar nessas aulas, bem como de que forma elas devem ser trabalhadas.

    A partir da publicao dos Parmetros Curriculares Nacionais de Lngua

    Portuguesa (PCNs/LP) e da divulgao dos resultados desastrosos obtidos pelo

    brasileiro em relao proficincia da escrita e da leitura, as aulas de Lngua

    Portuguesa foram repensadas e o foco de ensino passou a ser a compreenso, a anlise,

    a interpretao e a produo de textos verbais.

    Entretanto, apesar de ser essa a proposta dos PCNs, o que se v so abordagens

    diferentes de escola para escola, de professor para professor. Muitos entenderam que,

    com essa nova proposta, estava abolido o ensino gramatical das escolas. Outros

    tentavam trazer uma nova abordagem ao ensino gramatical, porm o que prevaleciam

    eram atividades propostas para a abordagem textual, mas que continuavam

    priorizando a descodificao e a explorao de aspectos gramaticais.

    Frente a essas transformaes, questionamento comum feito em muitos

    trabalhos perpassa pela necessidade de ensinar ou no a gramtica nas aulas de Lngua

    Portuguesa. Este estudo no pretende aqui buscar resposta a este questionamento, uma

    vez que acredita ser o ensino da gramtica nas aulas de Lngua Portuguesa

    imprescindvel para que o aluno desenvolva habilidades e competncias comunicativas

    e interativas.

    Logo, necessrio o ensino de gramtica, no uma gramtica puramente

    normativa e descritiva, mas uma gramtica que desperte o aluno para as reflexes

    lingusticas e que possibilite a ele obter xito nas interaes necessrias nas mais

    diferentes situaes comunicativas.

    Ento, partindo disso, o presente trabalho tem por objetivo averiguar a viso

    dos professores de Lngua Portuguesa de uma escola do municpio de Presidente

    Olegrio sobre o ensino de gramtica e investigar como os alunos encaram esse

    contedo.

    2 Apontamentos tericos

    2.1 Ensino de lngua materna

    sabido que o conhecimento amplo dos recursos lingusticos permite ao

    indivduo comunicar em diferentes contextos. Travaglia (1996, p. 17) diz que o ensino

    de lngua materna se justifica prioritariamente pelo objetivo de desenvolver a

    competncia comunicativa. O autor ainda acrescenta que ensinar a gramtica dos

    manuais desconsiderar todo o sistema de linguagem e aprendizagem social.

    Segundo Castilho (1988 apud TRAVAGLIA, 1996, p. 63), a norma culta (da

    classe de prestgio)

    constitui o portugus correto, tudo o que foge norma representa um

    preconceito porque, na verdade, no h portugus certo e errado: todas as

    ENSINO GRAMATICAL NAS AULAS DE LNGUA PORTUGUESA: ESTUDO DE CASO EM ESCOLA DO MUNICPIO DE PRESIDENTE OLEGRIO

  • 22 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    variedades so igualmente eficazes em termos comunicacionais nas situaes

    em que so de uso esperado e apropriado. O que h verdade so modalidades

    de prestgio e modalidades desprestigiadas em funo do grupo social que

    utiliza.

    Ao chegar escola a criana demonstra domnio da lngua, mas no em sua

    totalidade, ainda h necessidade de conhecer as variedades lingusticas. Dialetos e

    registros so o assunto ideal para iniciar o ensino de lngua materna. Segundo

    Travaglia (1996), o ensino de gramtica ideal nas escolas seria utilizado na seguinte

    ordem: gramtica internalizada, gramtica descritiva e gramtica normativa. Ensinar

    gramtica ensinar a lngua em toda sua variedade do uso e ensinar regras ensinar o

    domnio do uso.

    Os elementos gramaticais permitem a articulao lingustica das sentenas.

    Partindo dessa premissa, possvel averiguar tal aplicao no desenvolvimento da

    fala, porm h necessidade de que o professor tenha boa concepo e domnio da

    lngua para tornar o estudo com as nomenclaturas menos complexo. Visto que o papel

    da escola ensinar lngua padro, devem-se considerar materiais didticos atuais,

    como artigos, textos literrios, jornais, revistas etc., de maneira que possibilite a

    construo e reviso constante de textos e conduza distino entre oralidade e escrita.

    Portanto, fica evidente a necessidade de ensinar lngua materna com o objetivo de

    desenvolvimento gramatical e textual.

    Para atender ao que propem os PCNs, devem ser primeiramente entendidas as

    diferentes concepes de linguagem e a qual gramtica cada uma delas se relaciona.

    Esse entendimento e uma posterior adequao abordagem gramatical pode ser um

    caminho a ser percorrido para quebrar a resistncia que muitos alunos tm s aulas de

    Lngua Portuguesa.

    2.2 Concepes de linguagem

    Saussure (2004) explica que a linguagem um conjunto de signos usados para

    a comunicao. Dessa forma, para encaminhar um ensino aprendizagem de qualidade

    em relao lngua materna, importante que o professor tenha cincia sobre as

    concepes de linguagem recorrentes. Pinheiro (2010) salienta que, ao conhecer essas

    concepes, o modo como se concebe a natureza da lngua altera em muito o como se

    estrutura o trabalho com a lngua em termos de ensino.

    Ento, sendo as concepes de linguagem subjacentes ao ensino

    aprendizagem e, consequentemente, forma de ensino da lngua materna, necessrio

    se faz abord-las anteriormente descrio das trs gramticas propostas por alguns

    estudiosos. So trs as concepes recorrentes: linguagem como expresso de

    pensamento; linguagem como instrumento de comunicao; linguagem como forma de

    interao.

    ROSILENE SOARES DE MELO SILVA & ELIZENE SEBASTIANA DE OLIVEIRA NUNES

  • 23 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    2.2.1 Linguagem como expresso de pensamento

    Para Saussure (2004), a linguagem o reflexo do que se passa no interior da

    mente. Essa concepo do que a linguagem apoia-se no cerne de que a linguagem

    explicada a partir das condies de vida psquica individual do sujeito falante. Assim,

    a comunicao se forma na mente do indivduo e exteriorizada por meio de um

    cdigo exterior.

    Nessa concepo, a expresso organizada, modelada e orientada pela atividade

    mental. Logo, a lngua vista como um produto acabado, como um sistema estvel

    (lxico, gramtica, fontica). Assim, presume-se que h regras a serem seguidas para se

    alcanar a organizao lgica do pensamento e, consequentemente, da linguagem.

    Segundo Travaglia (1996, p. 21), para essa concepo,

    as pessoas no se expressam bem porque no pensam. A expresso se constri

    no interior da mente, sendo sua exteriorizao apenas uma traduo. A

    enunciao um ato monolgico, individual, que no afetado pelo outro nem

    pelas circunstncias que constituem a situao social em que a enunciao

    acontece.

    Geraldi (1999, p. 41) reafirma o que diz Travaglia quando diz que a concepo

    da linguagem como tal leva a afirmaes correntes de que pessoas que no conseguem

    se expressar no pensam.

    Sendo a lngua, nessa concepo, considerada como uma unidade imutvel, no

    se tem abertura para o estudo das variaes lingusticas, j que isso levaria a distines

    de pensamento, algo no aceitvel nesse contexto. Existiria, ento, uma forma certa da

    linguagem que equivaleria forma certa do pensamento. Dessa forma, essa viso

    refora os estudos tradicionais da Gramtica Normativa, que privilegiam o falar das

    camadas socioeconomicamente mais favorecidas.

    Em relao ao ensino fundamentado na concepo de linguagem como

    extrao,

    o ensino de lngua enfatiza a gramtica terico-normativa: conceituar,

    classificar, para, sobretudo, entender e seguir as prescries, em relao

    concordncia, regncia, acentuao, pontuao, ao uso ortogrfico. O eixo

    da progresso curricular e dos manuais didticos so os itens gramaticais

    (Perfeito, 2005, p. 29, apud FUZA, OHUSCHI e MENEGASSI, 2011, p. 483).

    V-se, assim, que a aprendizagem da teoria gramatical tida como garantia

    para se chegar ao domnio das linguagens (oral e escrita), partindo do pressuposto de

    que a prtica de exerccios gramaticais leva incorporao do contedo e que a

    gramtica normativa deve ser um ncleo de ensino (CAZARIN, 1995, apud FUZA,

    OHUSCHI e MENEGASSI, 2011).

    ENSINO GRAMATICAL NAS AULAS DE LNGUA PORTUGUESA: ESTUDO DE CASO EM ESCOLA DO MUNICPIO DE PRESIDENTE OLEGRIO

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    2.2.2 Linguagem como instrumento de comunicao

    Nesta segunda concepo, a lngua " vista como um cdigo, ou seja, um

    conjunto de signos que se combinam segundo regras e que capaz de transmitir uma

    mensagem, informaes de um emissor a um receptor" (TRAVAGLIA, 1996, p. 22).

    Tambm Geraldi (1999, p. 41) diz que essa concepo est ligada teoria da

    comunicao e v a lngua como cdigo (conjunto de signos que se combinam segundo

    regras) capaz de transmitir ao receptor certa mensagem.

    Assim, nota-se que essa perspectiva est intrinsecamente ligada aos elementos

    comunicativos, em que o falante deseja transmitir uma mensagem a um ouvinte e,

    assim, coloca-a em cdigo (codificao) e a remete para o outro atravs de um canal

    (ondas sonoras ou luminosas). O outro recebe os sinais codificados e os transforma de

    novo em mensagem (informaes). a decodificao (TRAVAGLIA, 1996, p. 22-23).

    Depreende-se, a partir dessa concepo, que a linguagem ferramenta usada

    para transmitir uma mensagem, utilizando, segundo Geraldi (1999), a variedade

    padro e desprezando-se as demais variedades lingusticas. Portanto, tambm nessa

    orientao, a lngua um sistema estvel, imutvel, de formas lingusticas submetidas

    norma fornecida tal qual a conscincia individual e decisiva para esta. E as leis da

    lngua so essencialmente leis lingusticas especficas, que estabelecem ligaes entre

    os signos lingusticos no interior de um sistema fechado.

    Assim, o ensino da lngua materna, na concepo de linguagem como

    instrumento de comunicao, enfatiza a forma lingustica, focalizando o estudo dos

    fatos lingusticos por intermdio de exerccios estruturais morfossintticos, na busca da

    internalizao inconsciente de hbitos lingusticos, prprios da norma culta.

    Isso demonstra, como postula Travaglia (1996), que a concepo de linguagem

    como instrumento de comunicao separa o homem do seu contexto social, por se

    limitar ao estudo do funcionamento interno da lngua.

    2.2.3 Linguagem como forma de interao

    Entende essa tendncia que a verdadeira substncia da linguagem no

    constituda por um sistema abstrato de formas lingusticas, nem pela enunciao

    monolgica, nem pelo ato psicofisiolgico de sua produo, mas pelo fenmeno social

    da interao verbal, realizada atravs da enunciao ou das enunciaes. A interao

    verbal constitui, assim, a realidade fundamental da linguagem (PINHEIRO, 2010).

    Essa terceira concepo de linguagem postula que o lugar da linguagem a

    interao. Nessa perspectiva, a lngua se constitui em um processo ininterrupto,

    realizado atravs da interao verbal, social, entre interlocutores, no sendo um

    sistema estvel de formas normativamente idnticas. Ento, os sujeitos so vistos como

    agentes sociais, uma vez que por meio de dilogos entre os indivduos que ocorrem

    as trocas de experincias e conhecimentos.

    Essa viso dialgica da linguagem faz com que esta seja considerada como

    uma ao orientada para uma finalidade especfica [...] que se realiza nas prticas

    sociais existentes, nos diferentes grupos sociais, nos distintos momentos da histria

    (BRASIL, 1998, p. 20).

    ROSILENE SOARES DE MELO SILVA & ELIZENE SEBASTIANA DE OLIVEIRA NUNES

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    Segundo Travaglia (1996), nessa concepo, o indivduo no usa a lngua

    somente para traduzir e exteriorizar um pensamento, ou transmitir informaes a

    outrem, mas tambm para realizar aes, agir, atuar sobre o interlocutor

    (ouvinte/leitor).

    De acordo com Geraldi (1999), por meio dessa linguagem, o sujeito que fala

    pratica aes que no conseguiria levar a cabo, a no ser falando; com ela o falante age

    sobre o ouvinte, constituindo compromissos e vnculos que no preexistiam fala.

    Nesta concepo, a preocupao bsica do ensino da lngua materna levar o

    aluno no apenas ao conhecimento da gramtica de sua lngua, mas, sobretudo, ao

    desenvolvimento da capacidade de refletir, de maneira crtica, sobre o mundo que o

    cerca e, em especial, sobre a utilizao da lngua como instrumento de interao social.

    Verifica-se, portanto, que, ao considerar a linguagem como um processo

    dialgico, preciso ter como foco o trabalho com os gneros discursivos, tendo em

    vista que as esferas da comunicao exigem a escolha dos gneros, a fim de concretizar

    a comunicao. Ademais, o ensino da lngua deve favorecer as prticas de leitura,

    produo e anlise lingustica, a partir de enunciados orais e escritos que circulam nas

    diversas esferas de comunicao humana (BRASIL, 1998).

    2.3 Concepes de gramtica

    Ao buscar definies mais detalhistas e peculiares a cada concepo de

    linguagem, Travaglia (1996) discorre acerca de trs concepes de gramtica:

    normativa, descritiva e internalizada.

    2.3.1 Gramtica normativa

    Atrelada concepo de linguagem como expresso do pensamento, a

    gramtica normativa concebida como um manual com regras de bom uso da lngua

    a serem seguidas por aqueles que querem se expressar adequadamente

    (TRAVAGLIA, 1996, p. 24).

    A norma culta a transformao dos fatos da lngua em regras e ignora as

    inmeras possibilidades existentes em outras variedades da lngua. De acordo com

    Travaglia (1996), ao lado da descrio da norma ou variedade culta da lngua (anlise

    de estruturas, uma classificao de formas morfolgicas e lxicas), a gramtica

    normativa apresenta e dita normas de bem falar e escrever, normas para a correta

    utilizao oral e escrita do idioma, prescreve o que se deve e o que no se deve usar na

    lngua.

    O ensino dessa gramtica prescritivo e o ensino de lngua materna tem por

    objetivo levar o aluno a dominar a norma culta ou lngua padro e trabalhar a

    variedade escrita da lngua.

    Ao privilegiar apenas a variedade dita padro ou culta, essa concepo de

    gramtica condena todas as outras formas que estejam inconformes com essa

    variedade. Logo, um tipo de abordagem que mantm a perspectiva reducionista do

    estudo da palavra e da frase descontextualizada, reduzindo as aulas de portugus a

    aulas de teoria gramatical e atividades metalingusticas.

    ENSINO GRAMATICAL NAS AULAS DE LNGUA PORTUGUESA: ESTUDO DE CASO EM ESCOLA DO MUNICPIO DE PRESIDENTE OLEGRIO

  • 26 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    2.3.2 Gramtica descritiva

    Atrelada concepo de linguagem como instrumento de comunicao, a

    gramtica descritiva , segundo Travaglia (1996, p. 32),

    a que descreve e registra para uma determinada variedade da lngua em um

    dado momento de sua existncia (portanto numa abordagem sincrnica) as

    unidades e categorias lingusticas existentes, os tipos de construo possveis e

    a funo desses elementos, o modo e as condies de uso dos mesmos. Portanto

    a gramtica descritiva trabalha com qualquer variedade da lngua e no apenas

    com a variedade culta e d preferncia para a forma oral desta variedade.

    Podemos, ento, ter gramtica descritiva de qualquer variedade da lngua.

    Perini (1995) salienta que a gramtica descritiva tem objetivos muito pouco

    modestos, j que prope uma maneira realmente nova de descrever a estrutura do

    portugus partindo de princpios tericos muito mais rigorosos do que aqueles em

    que se baseiam as gramticas atualmente disponveis, para chegar a uma anlise

    bastante diferente da usual.

    Segundo Perini (1995), essa gramtica ser o resultado do trabalho do linguista

    a partir da observao do que se diz ou se escreve na realidade e trata de explicitar o

    mecanismo da lngua, construindo hipteses que expliquem o seu funcionamento. A

    gramtica descritiva trata, portanto, de explicar o funcionamento da lngua por meio

    de hipteses. Nessa concepo, saber gramtica significa ser capaz de distinguir, nas

    expresses de uma lngua, as categorias, as funes e as relaes que entram em sua

    construo, descrevendo com elas sua estrutura interna e avaliando suas

    regularidades.

    O ensino de lngua materna, utilizando a gramtica descritiva, visa levar

    instituio social o conhecimento da representao da lngua como estrutura,

    funcionamento, funo e forma e tambm ensinar o aluno a raciocinar e desenvolver a

    capacidade de anlise sistemtica dos fatos na natureza e na sociedade.

    As gramticas normativas tambm trabalham com o ensino descritivo, porm

    os fatos so transformados em leis de uso da lngua, como verdadeiras e nicas.

    2.3.3 Gramtica internalizada

    Atrelada concepo de linguagem como forma de interao, a gramtica

    internalizada corresponde ao saber lingustico que o falante de uma lngua

    desenvolve dentro de certos limites impostos pela a sua prpria dotao gentica

    humana, em condies apropriadas de natureza social e antropolgica (TRAVAGLIA,

    1996, p. 28).

    Assim sendo, o saber gramatical anterior ao princpio de escolarizao ou ao

    processo de aprendizagem, pois se refere capacidade gentica do falante de perceber

    e internalizar as regras da gramtica da lngua, usando-as de acordo com o que

    exigido pela situao de interao comunicativa de que participa. Por isso, ao adquirir

    a lngua, os falantes j sabem organiz-la conforme seus princpios internos do sistema.

    ROSILENE SOARES DE MELO SILVA & ELIZENE SEBASTIANA DE OLIVEIRA NUNES

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    Conforme Travaglia (1996), a gramtica internalizada, por permitir a atuao do

    usurio em todos os mbitos constitutivos da gramtica, desenvolve no apenas a

    competncia gramatical do indivduo, mas tambm sua competncia textual,

    discursiva, possibilitando-lhe a competncia comunicativa.

    Para essa perspectiva de gramtica, segundo Travaglia (1996), no se concebe

    erro quando o falante desvirtua as normas lingusticas, mas inadequao da variedade

    lingustica empregada num determinado contexto comunicativo, por esta no atender

    aos princpios sociais de uso da lngua e inadequao do uso de certo recurso

    lingustico numa determinada comunicao quando seria mais adequado outro

    recurso.

    Quanto a isso, funo da escola preparar o aluno para usar esses recursos

    lingusticos de que dispe, alertando-o para o fato de que no existe forma errada de

    falar ou escrever, tudo depende da situao e do intento comunicativo.

    Travaglia (1996) diz que em diferentes tipos de situao tem ou deve-se usar a

    lngua de modos variados. Tem-se que atravs da competncia comunicativa que se

    desenvolvem novas habilidades de uso da lngua, utilizando o ensino produtivo como

    ensino de lngua materna. O ensino de lngua nessa perspectiva deve se dar por meio

    do trabalho numa viso dialgica da linguagem, tendo o texto como foco principal.

    3 Procedimentos metodolgicos

    Para alcanar os objetivos propostos neste estudo, desenvolveu-se,

    primeiramente, uma pesquisa bibliogrfica e webliogrfica. Nessa etapa, foram lidos

    autores como Travaglia (1996), Perini (1995), Geraldi (1999) e alguns artigos sobre o

    mesmo assunto. A partir dessas leituras, foi possvel esboar apontamentos tericos

    acerca do ensino de lngua materna, bem como sobre as concepes de linguagem que

    subjazem as diferentes concepes gramaticais.

    Num segundo momento, foi realizada uma pesquisa de campo com o objetivo

    de levantar opinies de professores e alunos sobre o ensino gramatical nas aulas de

    Lngua Portuguesa. Foram elaborados dois questionrios, um direcionado aos

    professores e outro direcionado aos alunos. O primeiro foi composto por 5 perguntas

    que possibilitaram traar o perfil do entrevistado e oito perguntas direcionadas ao

    levantamento de informaes mais especficas ao objetivo do trabalho. Dessas oito

    perguntas mais especficas, 3 foram objetivas. O segundo questionrio foi composto

    por 3 perguntas de identificao de perfil e 7 perguntas sobre o assunto deste artigo.

    H que se ressaltar que 3 questes objetivas foram idnticas em ambos os

    questionrios. Esses questionrios foram aplicados em uma escola do municpio de

    Presidente Olegrio. A amostra foi constituda por 2 professores, por 21 alunos do

    ensino mdio e por 33 alunos do ensino fundamental II.

    Depois de realizada a pesquisa de campo, os dados coletados foram analisados

    de forma quali-quantitativa e, a partir deles, foram geradas tabelas e posteriores

    discusses tericas que confirmam ou refutam os dados encontrados nesta etapa.

    ENSINO GRAMATICAL NAS AULAS DE LNGUA PORTUGUESA: ESTUDO DE CASO EM ESCOLA DO MUNICPIO DE PRESIDENTE OLEGRIO

  • 28 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    4 Resultados obtidos

    A seguir, esto mostrados os dados coletados na pesquisa de campo, sendo

    tambm realizadas algumas discusses que permeiam o que demonstrado por esses

    dados. Primeiramente, so mostrados os dados coletados com os professores; depois,

    os dados coletados com os alunos, distinguindo-se os dados dos alunos do ensino

    fundamental e os dados dos alunos do ensino mdio.

    4.1 Dados dos professores

    4.1.1 Perfil

    Ambos os profissionais entrevistados neste estudo so do sexo feminino, com

    faixa etria entre 36 a 40 anos. O tempo de atuao em sala de aula desses profissionais

    est entre 15 e 20 anos e possuem, alm da graduao, curso de ps-graduao na rea

    em que atuam.

    4.1.2 Contedo ensinado nas aulas de Lngua Portuguesa

    Quando questionados sobre o contedo ensinado nas aulas de Lngua

    Portuguesa, as respostas foram divergentes. Enquanto a docente que leciona no ensino

    fundamental marcou somente a opo como usar a linguagem de forma eficaz e

    adequada, nas diferentes situaes comunicativas, a professora que leciona no ensino

    mdio marcou as opes prtica de leitura e interpretao de textos, gramtica

    (ortografia, classes de palavras, acentuao, pontuao etc.) e prtica de produo de

    textos.

    Isso demonstra que h diferena no contedo de ensino com adequao ao

    nvel de escolaridade, o que possibilita a avaliao de compreenso do aluno.

    4.1.3 Concepo de linguagem

    Quando questionados sobre qual concepo de linguagem predominante em

    sala de aula, as respostas foram similares. Enquanto o docente do ensino fundamental

    marcou a opo linguagem como instrumento de comunicao, o professor do

    ensino mdio marcou todas as opes: linguagem como expresso de pensamento,

    como instrumento de comunicao e como forma de interao.

    Isso pode ser um indcio revelador quanto tentativa de diversificar o ensino

    da gramtica. Entretanto, interessante observar que na primeira questo a professora

    do ensino mdio afirma ser predominante o ensino que visa levar o aluno ao uso da

    linguagem de forma eficaz, nas diferentes situaes comunicativas. Esperava-se, ento,

    que, na segunda pergunta fosse marcada a opo de linguagem como forma de

    interao como pilar do ensino de lngua materna, o que no aconteceu.

    ROSILENE SOARES DE MELO SILVA & ELIZENE SEBASTIANA DE OLIVEIRA NUNES

  • 29 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    4.1.4 Formas e diversificao no ensino de gramtica

    Ao serem questionados sobre como ensinam e trabalham a gramtica em sala

    de aula, ambos responderam que a trabalham de forma contextualizada e, s vezes,

    estrutural, mas no apresentaram exemplos que clarificassem cada uma dessas

    situaes de trabalho. Mas, mesmo assim, pode-se concluir que h o intento de ensinar

    gramtica conforme proposto pelos PCNs.

    4.1.5 Influncias do ensino gramatical na escrita e fala dos alunos

    Ao serem questionados sobre a influncia do ensino da gramtica na escrita e

    na fala dos alunos, os docentes responderam positivamente sobre essa influncia,

    destacando que na escrita exerce contato com as regras ou normas, j na fala pode ser

    usada nas diferentes situaes comunicativas.

    4.1.6 Finalidade do ensino de gramtica

    Quando questionadas a respeito da finalidade do ensino da gramtica, a

    docente do ensino fundamental disse ser realizado a fim de o aluno conhecer a

    estrutura da lngua, enquanto a docente do ensino mdio disse ser realizado para o

    aluno melhorar sua compreenso e tambm para o aluno conhecer a estrutura da

    lngua.

    4.1.7 Utilidade da gramtica

    Ao serem questionadas sobre a utilidade da gramtica, ambas as docentes

    responderam que sua utilidade se manifesta na escrita e na fala atravs do domnio das

    regras gramaticais.

    4.1.8 Mudanas no ensino gramatical

    Quando questionadas sobre o que mudariam no ensino de gramtica, a docente

    do ensino fundamental respondeu que mudaria a forma como cobrada em concursos

    e alguns livros didticos, enquanto a docente do ensino mdio respondeu que

    simplificaria algumas normas especficas, como, por exemplo, a grafia do "por que",

    justificando que no h necessidade para variaes na grafia.

    4.2 Dados dos alunos

    4.2.1 Perfil

    Dos 54 alunos entrevistados, 33 esto cursando o ensino fundamental, com faixa

    etria entre 12 e 13 anos, e 21 esto cursando o ensino mdio, na faixa etria entre 16 e

    17 anos.

    ENSINO GRAMATICAL NAS AULAS DE LNGUA PORTUGUESA: ESTUDO DE CASO EM ESCOLA DO MUNICPIO DE PRESIDENTE OLEGRIO

  • 30 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    4.2.1 Identificao com as aulas de Lngua Portuguesa

    Ao serem questionados sobre sua identificao com as aulas de Lngua

    Portuguesa, os alunos do ensino fundamental responderam que s vezes a explicao

    ruim, mas o contedo bom e gostam de interpretao e compreenso e que possuem

    boa relao com o professor. J os alunos do ensino mdio responderam que as aulas

    so descontradas e isso amplia o conhecimento e domnio lingustico.

    4.2.2 Contedo ensinado nas aulas de Lngua Portuguesa

    Uma das questes contempladas no instrumento de coleta de dados tanto dos

    professores quanto dos alunos buscava identificar os contedos trabalhados em sala de

    aula, conforme mostra a tabela 1.

    Tabela 1: Contedo ensinado nas aulas de Lngua Portuguesa Ensino Fundamental II

    e Ensino Mdio

    Prtica trabalhada Ensino Fundamental II Ensino Mdio

    Quantidade (%) Quantidade (%)

    Prtica de leitura e interpretao de

    textos 11 33,33 4 19,05

    Uso da linguagem de forma eficaz e

    adequada, nas diferentes situaes

    comunicativas

    - - 6 28,57

    Gramtica (ortografia, classe de palavras,

    acentuao, pontuao etc.) 17 51,52 11 52,38

    Prtica de produo de textos 5 15,15 0 0

    TOTAL 33 100% 21 100%

    Fonte: Dados do trabalho (2013)

    Cumpre observar que os alunos do ensino fundamental, em sua maioria

    (51,52%), marcaram que o ensino gramatical (ortografia, classe de palavras, acentuao,

    pontuao etc.) o que predomina nas aulas de lngua materna, o que demonstra,

    ainda, um trabalho na perspectiva da gramtica normativa. Alm disso, importante

    ressaltar a divergncia entre essa resposta dos alunos e a resposta da docente do ensino

    fundamental, que afirmou predominar o ensino que prioriza o como usar a linguagem

    de forma eficaz e adequada, nas diferentes situaes comunicativas. Nenhum aluno

    marcou a opo escolhida pela professora.

    Tambm no ensino mdio, a maioria dos alunos (52,38%) disse ser o ensino de

    regras gramaticais predominante nas aulas de lngua materna. Outro fato que tambm

    chama a ateno que nenhum aluno marcou a opo de prtica de produo textual,

    o que intrigante, uma vez que se espera ser nesse nvel de ensino bastante recorrente,

    principalmente em virtude de ser uma fase de preparao para vestibulares e afins. A

    professora do ensino mdio, nesta mesma pergunta, havia marcado a opo de prtica

    de produo de textos, divergindo, ento, da opinio dos seus alunos.

    ROSILENE SOARES DE MELO SILVA & ELIZENE SEBASTIANA DE OLIVEIRA NUNES

  • 31 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    4.2.3 Expectativa do aluno com a disciplina

    Quando questionados se o contedo trabalhado nas aulas de portugus

    correspondia expectativa deles, tanto os alunos do ensino fundamental quanto os

    alunos do ensino mdio, em sua grande maioria, disseram que sim, conforme mostram

    os dados da tabela 2.

    Tabela 2: Expectativa do aluno com a disciplina - Ensino Fundamental II e Ensino

    Mdio

    Opo Ensino Fundamental II Ensino Mdio

    Quantidade (%) Quantidade (%)

    Sim 31 93,94 20 95,23

    No 2 6,06 1 4,77

    TOTAL 33 100% 21 100%

    Fonte: Dados do trabalho (2013)

    Como em outra questo, houve o predomnio de questes gramaticais como

    contedo das aulas de lngua materna e agora os alunos disseram que a disciplina

    corresponde s expectativas que tinham, nota-se que ainda muito forte a concepo

    de que aulas de portugus so aulas de ensino de regras, ou seja, ensino normativo.

    4.2.4 Exerccios predominantes no ensino dos aspectos gramaticais

    Os alunos foram questionados tambm sobre quais tipos de exerccios eram

    utilizados no ensino de aspectos gramaticais, conforme mostram os dados da tabela 3.

    Tabela 3: Exerccios predominantes no ensino dos aspectos gramaticais - Ensino

    Fundamental II e Ensino Mdio

    Tipo de exerccio Ensino Fundamental II Ensino Mdio

    Quantidade (%) Quantidade (%)

    Exerccios de seguir o modelo 7 21,21 0 0

    Exerccios de completar as lacunas 3 9,09 9 42,86

    Exerccios de retirar elementos do texto 2 6,07 0 0

    Exerccios de reconhecer classes de

    palavras (substantivos, artigos, adjetivos,

    verbos, etc.)

    16 48,48 5 23,81

    Exerccios de mostrar a funo dos

    elementos gramaticais dentro do texto,

    refletindo o quanto os elementos

    gramaticais contribuem na construo de

    sentido do texto.

    5 15,15 7 33,33

    TOTAL 33 100% 21 100%

    Fonte: Dados do trabalho (2013)

    ENSINO GRAMATICAL NAS AULAS DE LNGUA PORTUGUESA: ESTUDO DE CASO EM ESCOLA DO MUNICPIO DE PRESIDENTE OLEGRIO

  • 32 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    Segundo respostas dos alunos do ensino fundamental, so predominantes os

    exerccios de reconhecer classes de palavras (48,48%) e os exerccios de seguir o modelo

    (21,21%), o que comprova mais uma vez que o ensino gramatical predominante neste

    nvel se d de forma normativa e descritiva. Isso reforado pelo fato de somente

    15,15% dos alunos escolheram a opo exerccios de mostrar a funo dos elementos

    gramaticais dentro do texto, refletindo o quanto os elementos gramaticais contribuem

    na construo de sentido do texto.

    J entre os alunos do ensino mdio, houve predominncia do tipo de exerccios

    de completar lacunas (42,86%), seguido dos exerccios de mostrar a funo dos

    elementos gramaticais dentro do texto, refletindo o quanto os elementos gramaticais

    contribuem na construo de sentido do texto (33,33%) e dos exerccios de reconhecer

    classes de palavras (23,81%). Esses resultados demonstram que neste nvel est

    acontecendo um trabalho mais prximo do que deve ser o ensino de lngua materna,

    mas ainda h o que ser mudado.

    4.2.5 Aplicao dos contedos estudados em sala de aula

    Os alunos foram questionados ainda se conseguiam aplicar o contedo

    ensinado em sala de aula em seu dia-a-dia, ao que responderam afirmativamente,

    conforme mostram os dados da tabela 4.

    Tabela 4: Aplicao no dia-a-dia dos contedos estudados - Ensino Fundamental II e

    Ensino Mdio

    Opo Ensino Fundamental II Ensino Mdio

    Quantidade (%) Quantidade (%)

    Sim 24 72,73 21 100

    No 9 27,27 0 0

    TOTAL 33 100% 21 100%

    Fonte: Dados do trabalho (2013)

    4.2.6 Capacidade de leitura, interpretao e escrita de diferentes textos

    Ao serem questionados se se sentiam capazes de ler, interpretar e produzir

    diferentes textos, os alunos, em sua maioria, responderam que sim, conforme mostrado

    na tabela 5. Isso indica que, mesmo sendo predominante o ensino normativo e

    descritivo na maioria das situaes, as habilidades centrais de um usurio da lngua

    materna esto sendo desenvolvidas. Mas, apesar desses dados, o que mostram os

    resultados de exames como o SIMAVE, a Prova Brasil, dentre outros, que o alunado

    tem dificuldade de desempenhar essas habilidades.

    ROSILENE SOARES DE MELO SILVA & ELIZENE SEBASTIANA DE OLIVEIRA NUNES

  • 33 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    Tabela 5: Capacidade de leitura, interpretao e escrita de diferentes textos- Ensino

    Fundamental II e Ensino Mdio

    Opo Ensino Fundamental II Ensino Mdio

    Quantidade (%) Quantidade (%)

    Sim 28 84,84 18 85,71

    No 5 15,16 3 14,28

    TOTAL 33 100% 21 100%

    Fonte: Dados do trabalho (2013)

    4.2.7 Finalidade do ensino de gramtica

    Por fim, os alunos foram questionados sobre a finalidade do ensino de

    gramtica, sendo suas respostas confirmativas, mais uma vez, da predominncia do

    ensino normativo e descritivo. Tanto no ensino fundamental quanto no ensino mdio

    predominaram as respostas que revelam ser o ensino de gramtica realizado para o

    aluno conhecer a estrutura da lngua e para o aluno conhecer o padro culto da lngua,

    como mostrado na tabela 6.

    Tabela 6: Finalidade do ensino de gramtica - Ensino Fundamental II e Ensino Mdio

    Finalidade Ensino Fundamental II Ensino Mdio

    Quantidade (%) Quantidade (%)

    Para o aluno conhecer a estrutura da

    lngua.

    13 39,39 8 38,09

    Para cumprir o programa curricular. 2 6,06 3 14,29

    Para o aluno conhecer o padro culto da

    lngua.

    13 39,39 6 28,58

    Para o aluno melhorar sua compreenso. 5 15,16 4 19,04

    TOTAL 33 100% 21 100%

    Fonte: Dados do trabalho (2013)

    5 Consideraes finais

    Como mostrado neste estudo, a linguagem concebida de maneira diferente a

    cada momento social e histrico, o que demonstra seu carter dinmico. Assim, o

    docente necessita dominar os paradigmas tericos dessas concepes para

    compreender como se efetivam as prticas de linguagem em sala de aula, no momento

    histrico em que passamos. Por isso, importante que ele atue diretamente na seleo

    de contedos, no enfoque que se d a eles, nas estratgias utilizadas, na bibliografia

    escolhida e no sistema de avaliao adotado.

    Conclui-se, a partir deste trabalho, que o ensino da lngua materna tem passado

    por algumas tentativas de inovao, houve mudanas nos mtodos de ensino, porm

    os resultados alcanados ainda so considerados insuficientes diante das exigncias

    curriculares, h ainda o predomnio do ensino normativo e prescritivo, conforme

    confirmaram nossos dados de campo.

    ENSINO GRAMATICAL NAS AULAS DE LNGUA PORTUGUESA: ESTUDO DE CASO EM ESCOLA DO MUNICPIO DE PRESIDENTE OLEGRIO

  • 34 Revista Crtilo, 7(1): 20-34, ago. 2014

    Por fim, reconhece-se a limitao deste estudo e salienta-se a cincia das autoras

    de que os dados encontrados neste estudo no so conclusivos, pois se referem a uma

    nica escola interiorana. Apesar disso, funcionam como um indcio do que pode estar

    acontecendo de maneira mais geral no ensino de lngua materna. Sugere-se que outros

    estudos sejam feitos no intento de corroborar nossos dados, podendo ser usadas

    populaes amostrais maiores e ainda serem realizadas tcnicas de observao, alm

    de uma anlise dos materiais didticos utilizados nas aulas de lngua materna.

    Referncias

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    GERALDI, Joo Wanderley (Org.). O texto na sala de aula; leitura e produo. So Paulo:

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    SAUSSURE. Ferdinand. Curso de lingustica geral. 26. ed. So Paulo: Cultrix, 2004.

    TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramtica e interao: uma proposta para o ensino de

    gramtica no 1 e 2 graus. So Paulo: Cortez, 1996.

    ROSILENE SOARES DE MELO SILVA & ELIZENE SEBASTIANA DE OLIVEIRA NUNES

    http://keylapinheiro.blogspot.com.br/2010/03/concepcoes-de-linguagem.html