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I S A M A S e m i n á r i o d e a r q u i t e t u r a m o d e r n a n a A m a z ô n i a 17,18 e 19 de fevereiro de 2016. CONDOMÍNIO PARQUE RESIDÊNCIAS E PRAIA DA LUA: DOIS CONJUNTOS DE OBRAS RESIDENCIAIS SIGNIFICATIVAS DE SEVERIANO PORTO EM MANAUS (AM) ISABELLA D.B.S. SIMÕES 1 1 Escola da Cidade Rua General Jardim, 65, Vila Buarque, 01223-011, São Paulo - SP [email protected] RESUMO Severiano Porto é um importante arquiteto brasileiro que se formou em 1954 na Faculdade Nacional de Arquitetura no Rio de Janeiro, mas que construiu a parte mais significativa da sua carreira nos 35 anos vividos na cidade de Manaus. A obra de Severiano se destaca em contexto latino americano, como uma obra que se adapta às especificidades do local, interagindo bem com o clima, os materiais, as técnicas e a cultura amazonense. Sua produção é extremamente diversa em termos de programas e técnicas construtivas, alcançando cerca de 200 projetos. Os projetos residenciais são menos conhecidos e estudados, mas guardam importantes características da arquitetura de Severiano na região. Essa pesquisa se dedicou levantar e mapear as residências construídas em Manaus, tendo como base o acervo de projetos do arquiteto que hoje pertence ao Núcleo de Pesquisa e Documentação da FAU-UFRJ. Nesse acervo constam 59 projetos, dos quais essa pesquisa se empenhou em descobrir o que foi realmente construído, o que já foi demolido ou modificado, e as obras que ainda estão conservadas. Nesse artigo é discutido o loteamento e as residências construídas por Severiano no Condomínio Parque Residências e Praia da Lua. Palavras-chave: Severiano Porto, arquitetura residencial, Amazônia.

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  • I S A M A S e m i n r i o d e a r q u i t e t u r a m o d e r n a n a A m a z n i a

    17,18 e 19 de fevereiro de 2016.

    CONDOMNIO PARQUE RESIDNCIAS E PRAIA DA LUA: DOIS CONJUNTOS DE OBRAS RESIDENCIAIS SIGNIFICATIVAS DE

    SEVERIANO PORTO EM MANAUS (AM)

    ISABELLA D.B.S. SIMES1

    1 Escola da Cidade

    Rua General Jardim, 65, Vila Buarque, 01223-011, So Paulo - SP [email protected]

    RESUMO

    Severiano Porto um importante arquiteto brasileiro que se formou em 1954 na Faculdade Nacional de Arquitetura no Rio de Janeiro, mas que construiu a parte mais significativa da sua carreira nos 35 anos vividos na cidade de Manaus. A obra de Severiano se destaca em contexto latino americano, como uma obra que se adapta s especificidades do local, interagindo bem com o clima, os materiais, as tcnicas e a cultura amazonense. Sua produo extremamente diversa em termos de programas e tcnicas construtivas, alcanando cerca de 200 projetos. Os projetos residenciais so menos conhecidos e estudados, mas guardam importantes caractersticas da arquitetura de Severiano na regio. Essa pesquisa se dedicou levantar e mapear as residncias construdas em Manaus, tendo como base o acervo de projetos do arquiteto que hoje pertence ao Ncleo de Pesquisa e Documentao da FAU-UFRJ. Nesse acervo constam 59 projetos, dos quais essa pesquisa se empenhou em descobrir o que foi realmente construdo, o que j foi demolido ou modificado, e as obras que ainda esto conservadas. Nesse artigo discutido o loteamento e as residncias construdas por Severiano no Condomnio Parque Residncias e Praia da Lua.

    Palavras-chave: Severiano Porto, arquitetura residencial, Amaznia.

  • Severiano Porto nasceu em 19 de fevereiro de 1930, na cidade de Uberlndia, Minas Gerais, mas ainda criana se mudou junto com a sua famlia para a cidade do Rio de Janeiro. Em 1954, Severiano aprovado na Faculdade Nacional de Arquitetura, antiga ENBA, que havia formado arquitetos renomados. Para Severiano, a arquitetura sempre foi o fazer e essa caracterstica perceptvel desde seus primeiros anos de universidade, pois Severiano sempre optou por estagiar em locais voltados a tcnica construtiva. Seu primeiro estgio foi com o Professor Maurcio Sued, na rea de instalaes prediais e em seguida, na construtora Ary C.R. de Britto, onde Severiano trabalharia mais de 10 anos.

    O momento da formao de Severiano era especial, pois a Arquitetura Moderna brasileira estava se consolidando e formando uma gerao de arquitetos que disseminariam essa arquitetura em outros estados brasileiros. Esse o caso de Severiano, que atuou a maior parte da sua vida em Manaus, contribuindo para modernizar a cidade que viria a ser a sede da Zona Franca brasileira. Dentre esses arquitetos migrantes1 temos: Accio Gil Borsi (Recife), Joo Filgueiras Lima (Braslia, Salvador), Marcelo Fragelli (So Paulo), Eurico Calixto de Godi (Goinia), entre outros. Na obra desses arquitetos possvel observar um grande potencial de adequao, seja nas condicionantes do local ou nas limitaes tcnicas existentes. Exemplos disso so o projeto do Cajueiro Seco (1963) de Accio Gil Borsi e os pr-moldados de Abadinia (1984) de Lel. Essa gerao atuou durante os Governos Militares, momento esse que foram feitas grandes obras de infraestrutura em todo territrio nacional, como rodovirias, aeroportos, escolas, secretarias, rgos de governo e universidades, que deram a esses arquitetos grandes demandas de trabalho.

    Aps alguns anos trabalhando no Rio de Janeiro, onde construiu principalmente prdios habitacionais na Zona Sul carioca, Severiano foi convidado pelo governador do Amazonas a fazer uma reforma do Palcio Rio Negro, projeto esse que acaba no sendo realizado, mas que abriu portas para os projetos seguintes, de modo que Severiano se mudou para Manaus a fim de terminar a obra do Estdio Vivaldo Lima (1966). Por Manaus ser uma cidade em crescimento, com pouca mo de obra qualificada, a demanda de trabalho era muito farta, o que fez com que a famlia Porto fixasse residncia na cidade at 2003.

    Severiano teve a oportunidade nesse tempo de fazer projetos extremamente diversos em termos de programa, sempre adequando a necessidade e a convenincia em prol de um resultado mais rpido e eficaz. Tal modo de proceder vem de sua formao moderna e de seus primeiros trabalhos no Rio de Janeiro. Porm, com a sua chegada em Manaus, veio a percepo de que os mtodos e materiais amplamente utilizados no sudeste no eram todos aplicveis na Regio Norte, seja pela falta dos destes ou pelo elevado custo. Desse modo, Severiano observou os materiais mais abundantes da regio, como a madeira, que foi amplamente utilizada em seus projetos, mas sem nunca perder a versatilidade nas escolhas.

    O clima amaznico, o rio e seu regime de guas, a floresta e a cultura local inspiraram uma nova potica arquitetnica em Severiano, que sempre se desafiou a atender essas questes em seus projetos. Essa preocupao alou suas obras na direo de uma melhoria do conforto trmico, sempre pensando nas aberturas e esquadrias, e na orientao e ventilao cruzada que se aproveitassem dos ventos dominantes. Algumas obras em que estas preocupaes se fazem presente so: Universidade Federal do Amazonas (UFAM) (1973), Restaurante Chapu de Palha (1967), SUFRAMA (1971) e Centro de Proteo Ambiental de Balbina (1983).

    1 A definio desses arquitetos como migrantes foi cunhada por Hugo Segawa e est presente no livro

    Arquiteturas no Brasil 1900-1990, Captulo 7: Arquitetos Peregrinos, Nmades e Migrantes (1998).

  • Imagem 1. Da esquerda para direira: Estdio Vivaldo Lima (1966), Restaurante Chapu de Palha

    (1967), SUFRAMA (1971), UFAM (1973) e Centro de Proteo Ambiental de Balbina (1983). Fotos:

    Acervo Pessoal de Severiano Porto.

    As questes colocadas acima tem ajudado na compreenso e na leitura das obras

    de Severiano e, especificamente nessa pesquisa, no estudo das residncias projetadas pelo arquiteto em Manaus. Nas residncias podemos ver a mesma linha de raciocnio que rege os projetos citados acima. As casas projetadas por Severiano tambm so diversas, tendo o arquiteto experimentado vrios materiais e solues espaciais. Porm, guardam entre si alguns princpios comuns, como por exemplo: telhado de duas ou mais guas, sendo de Eternit ou telha de barro; jardins internos ou aberturas generosas para reas externas; em muitos casos a ala de servio da casa se encontrava em um bloco distinto; uso abundante de esquadrias de madeira, elementos vazados e venezianas; espaos ntimos generosos, espaos scias mais contidos, sendo sempre acrescidos por jardins ou varandas; escadas em madeira macia. Podemos observar atravs do discurso de Severiano no Seminrio de Artes Visuais da Amaznia (1984), algumas das suas diretrizes de projeto postas acima.

    Questionar a casa, a habitao, os seus elementos construtivos e a regio onde se situa, as pretenses e a necessidade de seus moradores um tema importante e interessante. Abordaremos alguns aspectos do mesmo mais direcionados a nossa regio e ao tema geral deste evento. Quando aqui chegamos cerca de vinte anos, chamou-nos a ateno de imediato, a casa, a morada que tem como necessidade maior abrigar a famlia. Era comum visitarmos pessoas de certa posio social, que moravam em casas simples de madeira, de duas guas, piso elevado de tbuas pintadas, etc. ,com aspectos

  • semelhantes ao do homem ribeirinho ou do interior, Este fato nos chamou ateno, pois de um centro urbano maior, onde a ideia de casa sempre vem acompanhada das necessidades de ser duradoura, permanente, a fim de que significasse o futuro garantido juntamente com a aposentadoria, dinheiro em banco, joias e no simplesmente abrigo, morada. Este aspecto aliado a outros como por exemplo, dos homens que habitavam e habitam toda esta imensa Amaznia, nas regies mais distantes, junto aos rios e igaraps, como tambm distante dos mesmos, no meio das matas (os caboclos de terra firme, seringueiros, mateiros, caadores e outros), que nos impressionavam toda a vez que tnhamos oportunidade de voar para o interior de mono motor em vos diretos de trs e meia a quatro horas de viagem. E a nos pnhamos a pensar sobre a coragem e autoconfiana deste homens, a certeza de obteno de recursos para a sua subsistncia, o conhecimento de plantas, razes, que lhe permitia fazer chs e remdios caseiros como se fosse mais um dos seus sentidos, que os habitantes das cidades tivessem perdido por atrofia. E a imagem desse homem rapidamente muda de dentro de ns. De analfabeto e ignorante, imediatamente assume a postura de um gigante, de um profundo conhecedor da regio, integrado a ela, sabedor de como construir a morada no local correto de acordo com as necessidades ecolgicas e com os seus recursos tcnicos. Ns que chegvamos precisvamos aprender. Substituir nossos conceitos, chegamos a dizer a um grande amigo em janeiro de 65, quando subamos o rio Amazonas, que alfabetizar este homem naquele momento a nosso ver seria um mal maior de que deix-lo ir absorvendo estes ensinamentos, transmitidos de gerao a gerao e que no constam em livros, pois estes eram to importantes neste regio quanto a necessidade do homem nas cidades ler, escrever, tirar cursos e ter diplomas. E a encontramos as casas bem situadas e bem orientadas. Construdas de madeira, de palha e at mesmo de alvenaria. Encontramos a casa flutuante, construda sobre troncos de madeiras de balsas, exemplo de soluo ecolgica adequada s condies de nossos rios, onde a variao de seus nveis anualmente atingem a mdia de 10 a 12 metros, transportando as suas margens a centenas de metros de distncia. E a casa se desloca e acompanha estas margens. Na cidade vamos e vemos bem forte a presena desse homem e dos seus recursos para trabalhar a madeira, afeito que ao processo construtivo de embarcaes e nos bairros de populao ribeirinha e nos de menos recursos encontramos as solues mais criativas, ricas de elementos construtivos importantes como varandas, trelias, passadios, sanefas (fechando a noite reas abertas durante o dia), etc. Em algumas casas vemos os seus proprietrios desejando dentro de seus conceitos de "evoluir" atingir a primeira frase de transformao das casa de madeira para a de alvenaria, substituir a sua fachada principal antes de madeira por outra feita com tijolos e cimento. A criatividade, a espontaneidade, o domnio do processo construtivo torna o seu proprietrio apto a qualquer momento e muitas vezes em horas, introduzir alteraes na mesma, abrindo vos, criando cmodos, evidenciando desse forma o domnio absoluto do espao em que vive. Contrastando com essa flexibilidade construtiva, vemos todo o restante das habitaes, cujo exemplo maior so os conjuntos habitacionais, onde os seus altos custos, as suas solues e elementos construtivos so em sua maioria inadequados a regio. H que se questionar a habitao seriamente em todos os seus nveis e elementos componente de suas solues. Grades, elementos vazados, brises verticais ou horizontais, trelias, venezianas fixas ou regulveis, jalousie, devem ser usados fartamente e corajosamente sempre que necessrio. A ventilao cruzada deve ser uma preocupao constante bem como a proteo das fachadas com beirais generosos, prgolas, vegetao e outros elementos. Vamos tentar sacudir um pouco tudo que aprendemos e nos condicionamos a utilizar, para ver se conseguimos atirar longe conceitos de construo, solues e espaos inadequados, substituindo-os com criatividade, segurana e coragem por outros adequados a nossa regio para benefcio das pessoas que aqui vivem e moram nas casas que aqui fazem. (PORTO, Severiano 1984).

    http://www.archdaily.com.br/br/tag/amazonia

  • Condomnio Parque Residncias

    Imagem 2. Localizao do Condomnio, Loteamento Condomnio Parque Residncias, Projeto da

    Guarita do condomnio, Projeto do muro externo. Fonte: Imagem de satlite, NPD FAU-UFRJ.

  • Dentre as casas que Severiano construiu em Manaus, as construdas em

    condomnios fechados destacam-se pela grande representatividade. O que contm a maior

    parte dessas casas o Condomnio Parque Residncias, tambm concebido pelo arquiteto

    em 1971. O desenho do Condomnio Parque Residncias se adequou topografia do

    terreno que extremamente ngreme. A entrada se d pela Avenida Recife (atualmente

    Avenida Mrio Ypiranga), um importante eixo da cidade de Manaus. Na implantao

    possvel observar que o Condomnio afunila em sua rea central, que onde est a maior

    declividade, conformando assim duas reas onde se encontram a maior parte das casas. A

    parte da direita onde se encontra a entrada e est em um ponto alto do terreno, j a parte

    que fica a esquerda est localizada na poro mais baixa. O loteamento possui

    aproximadamente 60 lotes e, at o momento, identificou-se que onze residncias foram

    feitas por Severiano, com a possibilidade que esse nmero seja maior. Alm disso,

    Severiano projetou tambm as reas comuns, a guarita e o muro.

    O desenho da guarita que se encontra na imagem acima, mostra uma base em

    pedra da qual se ergue uma estrutura de madeira, fechada por esquadrias de madeira e

    coberta por telha Eternit. J o muro, que a imagem tambm mostra em detalhe,

    constitudo de peas modulares de concreto armado repetidas sucessivamente.

    O Condomnio Parque Residncias fica em uma rea nobre da cidade e as casas

    ali construdas so confortveis, atendendo uma sociedade em ascendncia. A soluo

    encontrada por Severiano para atender as demandas de seus clientes era a construo de

    casa slidas de alvenaria ou concreto, que ganhavam mais leveza atravs de seus

    acabamentos em madeira e elementos vazados. Abaixo segue a tabela com a lista de casas

    levantadas no Condomnio e abaixo o catlogo de imagens.

    Nome da Residncia Ano Estado Atual Visitadas2

    1. Residncia Heliandro Maia 1973 Original

    2. Residncia Orsini Rufino de Oliveira 1974 Original

    3. Residncia Luigy Tiellet 1974 Original

    4. Residncia Eduar Mousse 1979 Original X

    5. Residncia Jurandir Gaioto 1979 Original X

    6. Residncia Dr. Osias dos Santos Santiago 1979 Modificada

    7. Residncia Embratel 1980 Modificada

    8. Residncia Joaquim Margarido 1982 Original X

    9. Residncia Francisco Anastcio de Carvalho 1984 Original X

    10. Residncia Juliana Guimares de Oliveira 1989 Modificada X

    11. Residncia Fernando Matos de Souza 1995 Original

    2 As obras que esto marcadas como visitadas so as que foi possvel fazer um levantamento mais completo,

    conhecendo o espao interno das residncias. Todas as outras forem vistas e fotografadas externamente.

  • Imagem 3. Imagens referentes a tabela apresentada acima. Fotos: da autora.

    Durante o processo de levantamento foi possvel conhecer internamente algumas

    residncias, alm de conversar com os proprietrios. Sempre que possvel foram feitas fotos

    internas e perguntas sobre reformas, manutenes e os pontos favorveis e desfavorveis

    das residncias. Em grande parte dos casos, quando o dono da residncia ainda era o que

    havia encomendado o projeto, a famlia possua grande apego a casa. Nesses casos, as

    famlias se mostravam muito atenciosas com as reformas feitas. As vezes quando

  • necessrio, eram feitas modificaes internas para acomodar a famlia que crescia ou

    diminua.

    J nos casos das residncias que trocaram de proprietrio, foi possvel observar

    modificaes mais agressivas, que muitas vezes dificultam o reconhecimento dessas

    residncias. Na tabela acima esto listados esses casos como casas modificadas e, como

    originais, as residncias que sofreram algumas modificaes (mas que me mantiveram a

    essncia do projeto). Poucas casas no sofreram nenhuma modificao.

    Dentre as principais queixas dos proprietrios esto: a dificuldade de manter a

    madeira, que exige cuidados constantes; dificuldade de colocar ar condicionado, uma vez

    que os acabamentos so ricos em venezianas e elementos vazados; entrada de insetos

    atravs das venezianas, trelias e cobogs; dificuldade de limpar as esquadrias e os

    elementos vazados; residncia constantemente empoeirada pelas inmeras frestas; e

    dificuldade em mobiliar e decorar a casa seguindo um estilo contemporneo, pois as casas

    j possuem muita identidade.

    Algumas das residncias mostradas no catlogo de imagens acima j tiveram seus

    projetos levantados no Ncleo de Pesquisa e Documentao da FAU-UFRJ. A seguir alguns

    exemplos.

    Imagem 4. Da esquerda para direita, Primeiro Pavimento Residncia Heliandro Maia (1973), Segundo

    Pavimento, Corte AA , Corte BB, . Fonte: NPD FAU-UFRJ.

  • Imagem 5. Da esqueda para direita, Planta Pavimento Trreo Residncia Eduar Mousse (1979),

    Planta pavimento Superior, Corte 1-1, Corte 2-2, Fonte: NPD FAU-UFRJ.

    Imagem 6. Da esquerda para direita, Primeiro Pavimento Residncia Embratel (1980), Planta

    Pavimento Superior, Corte 1-1, Corte 2-2, Fachada. Fonte: NPD FAU-UFRJ.

  • Imagem 7. Planta Pavimento Trreo Residncia Joaquim Margarido (1982), Planta Pavimento

    Superior, Corte 1-1, Fachada. Fonte: NPD FAU-UFRJ.

    Os projetos mostrados acima ainda no foram detalhados em um estudo de caso,

    entretanto algumas questes j foram levantadas sobre cada um deles. Alguns fatos

    comuns nas obras das casas construdas por Severiano so: madeira bruta e de alta

    qualidade, cortada na floresta e serrada manualmente na prpria obra; elementos vazados

    feitos in loco; e telha Eternit em quase todas as casas at os anos 80 (quando comeou a

    aparecer telhas de barro). O detalhamento da esquadria de madeira cria um elemento

    esttico que amarra as obras ente si, mesmo as casas diferindo formalmente entre si.

    Nesses quatro casos apresentados acima no h a presena de um jardim interno, mas as

    salas so voltadas para reas externas e guarnecidas de amplos espaos de varanda.

    Na Residncia Heliandro Maia, encontramos o bloco de servio da casa

    desvinculado da rea ntima e social, e esse aspecto aparece com frequncia nos projetos

    de Severiano, sendo encontrados nas duas casas que Severiano construiu para ele e sua

    famlia, a Casa do Cafund (1966) e a Residncia do Arquiteto (1971). Como a frente da

    casa est voltada para Oeste, os elementos vazados e brises fornecem uma proteo ao

    sol. Os quartos ficam voltado para norte e tambm so protegidos pelos brises, que

    adicionam privacidade.

    A Residncia Eduar Mousse se distingue das outras pelo amplo emprego do

    concreto armado e pelo telhado coberto por platibanda. No decorrer da sua obra, Severiano

  • seguiu a esttica do concreto aparente em alguns casos, em sua maioria em prdios

    pblicos ou institucionais, como o Tribunal Regional Eleitoral- TRE, a SUFRAMA e a sede

    da Teleamazon, mas, nas residncias seu uso no era recorrente. O bloco de servio

    tambm se encontra separado do resto da casa, mas no por ser uma nova volumetria e,

    sim, por estar um nvel abaixo, o mesmo ocorrendo na Residncia Joaquim Margarido.

    A Residncia Embratel possui os desenhos dos detalhamentos de brises e

    esquadrias, que sero apresentados na fala oral. Nessa residncia possvel observar uma

    outra questo recorrente nos projetos de Severiano, que o escritrio como primeiro

    cmodo da casa, fato esse que pode ser visualizado tambm na Residncia Heliandro Maia.

    A Residncia Embratel, como em outros exemplos, possui uma sala de estar compacta, que

    acrescida por duas varandas, uma voltada para os fundos da casa e a outra voltada para a

    frente. Ambas as varadas so cobertas por brise, que mantm a privacidade do ambiente.

    Na Residncia Joaquim Margarido a vedao de cermica e as esquadrias de

    madeira se encontram no mesmo plano, no possuindo brises e elementos vazados que

    acrescentem outras camadas a residncia. O processo de construo da casa se iniciou

    pelo levante da alvenaria, deixando os espaos vagos para os painis de madeira. Essa

    casa se divide em distintos nveis, sendo a sala de estar a cota 0, a rea de servio uma

    cota inferior, e os quartos e o escritrio uma cota superior. Um elemento desta residncia

    que aparece em outros projetos o mezanino de madeira macia que faz a circulao entre

    os quartos e a escada.

    O Condomnio Praia da Lua

    O condomnio Praia da Lua um projeto de loteamento que Severiano fez em

    1979, que fica fora da rea urbana de Manaus, tendo ligao somente por barco. O projeto

    fica implantado em uma poro de terra que est por trs da Praia da Lua, um importante

    balnerio para a cidade de Manaus. Como programa, fazia parte do condomnio um bosque,

    um mirante, uma casa para o zelador e duas tipologias pr-fabricadas em madeira.

    O mirante, que poderia funcionar como um espao de convivncia e festas (pois

    possua 208 m2 de rea), e a casa do zelador, ficavam na rea central do terreno e

    cercados pelo bosque. A partir desse miolo conformado pelo bosque os lotes se distribuam

    radialmente, sendo todos de frente para o bosque e o fundo para o rio.

    Para este artigo a anlise apresentada focar nas duas tipologias propostas por

    Severiano para o Condomnio Praia da Lua. A tipologia nmero 1 conta com 59 m2 e a

    tipologia nmero dois conta com 157 m2.

  • Imagem 8. Implantao Condomnio Praia da Lua (1979). Fonte: NPD FAU-UFRJ.

    Imagem 9. Planta Tipologia 1 (1979), Corte Transversal. Fonte: NPD FAU-UFRJ.

  • Imagem 10. Planta Tipologia 2 (1979), Corte Transversal. Fonte: NPD FAU-UFRJ.

    Ambas tipologias so propostas como residncias de fim de semana, por isso so

    compactas e no apresentam rea de servio e quarto de empregada. A rea de varanda

    corresponde a um grande percentual da rea total. O projeto era disponibilizado para as

    pessoas que compravam um lote no condomnio e entregue com todos os detalhamentos,

    podendo o proprietrio ter autonomia na construo, caso desejasse. O interessante, em

    ambas as tipologias, que Severiano no as fez para atender a um cliente especfico,

    sendo na verdade, uma tentativa de projeto que pudesse atender a todos os proprietrios

    dos lotes. Ambas as tipologias ficam suspensas do solo, adaptando-se assim ao relevo

    natural do terreno. As estruturas so todas de madeira, com vigas e pilares de 15cmx15cm,

    seguindo uma modulao de 2,35 a 2,5 metros. Os telhados tem 4 guas e possuem um

    lanternim que ajuda a iluminar a sala e escoar o ar quente.

    A tipologia 1 conta com sala, varanda, 1 quarto, 1 banheiro e cozinha. Os espaos

    so compactos e funcionais. A casa se divide em dois blocos, o da frente, onde esto a sala

    e a varanda, tem suas vedaes feitas em painis de madeira, e o bloco de trs, onde esto

    o quarto, o banheiro e a cozinha, possui algumas paredes em alvenaria e painis apenas

  • nos trechos onde haveria esquadria. A modulao da sala permite que sejam colocadas

    redes que ampliam o potencial de pessoas dormindo na casa, uma vez que ela s possui

    um dormitrio. O beiral desta tipologia quebrado, tendo uma pequena inclinao para

    baixo, que protege ainda mais a residncia da chuva e lhe confere um atributo esttico.

    A tipologia 2 conta com uma sala, ampla varanda, 1 quarto, 1 sute, 1 banheiro e

    cozinha. Os espaos internos so um pouco mais amplos do que na tipologia 1. Como no

    caso anterior, a casa se divide em dois blocos, a sala sendo vedada apenas por painis de

    madeira e o bloco de trs que contm os banheiros, a cozinha e os quartos possui algumas

    paredes de alvenaria. Essa tipologia conta com aproximadamente 70 m2 de varanda, das

    quais a modulao tambm permite que se coloque redes. O beiral dessa tipologia tambm

    quebrado, mas diferente do exemplo anterior, sua angulao se volta para cima, criando

    um atributo esttico que a diferencia da anterior.

    Imagem 11. Detalhamentos de portas e janelas para a tipologia 1 e 2 do Condomnio Praia da Lua

    (1979). Fonte: NPD FAU-UFRJ.

  • Um dos fatos mais emblemticos desse projeto que Severiano cria uma espcie

    de cartilha de detalhamentos para os painis de madeira, tendo assim, cada proprietrio o

    dever de escolher os painis que comporiam a fachada de sua residncia. Na imagem

    apresentada abaixo, h trs tipos de painel com porta de correr. O primeiro composto por

    trs folhas, sendo duas moveis compostas por esquadria de madeira com vidro e na parte

    inferior veneziana e a outra folha uma veneziana fixa. J no segundo exemplo, as trs folhas

    seriam moveis e iguais, compostas de esquadrias de madeira e vidro com veneziana na

    parte de baixo. O terceiro exemplo parecido com o primeiro, mas ao invs de ter uma folha

    fixa de veneziana, esse folha seria de compensado colorido ou revestido. O mesmo caso se

    d com as janelas, podendo ser janela guilhotina ou pivotante, com um nmero variado de

    folhas.

    J tendo a possibilidade de eleger os painis de diversos modelos, o proprietrio

    tambm poderia escolher a composio que faria com os painis. Por exemplo, para fazer a

    vedao da sala, tanto na tipologia 1 quanto na 2, seriam necessrios 6 painis, desses o

    proprietrio poderia escolher quantos painis de janela ou de porta colocaria, em que

    posio e de que tipo. Desse modo o condomnio teria duas tipologias de casa, mas no

    casas iguais, pois cada uma carregaria as escolhas de seus donos. Para exemplificar um

    possvel resultado final, Severiano faz duas perspectivas internas das residncias que

    mostram o potencial do projeto. O desenho das fachadas genrico, uma vez que havia

    todo esse potencial de mudana.

    Imagem 12. Perspectivas internas Tipologias 1 e 2, Fachadas Tipologia 1 e 2 do Condomnio Praia da

    Lua (1979). Fonte: NPD FAU-UFRJ.

  • Infelizmente esse projeto no se viabilizou por completo, e alguns lotes foram

    vendidos. Porm, atualmente no h vestgios que apontem para a infraestrutura proposta

    por Severiano, assim como a no construo do mirante e da casa do zelador. Outra

    hiptese que ambas j tenham sido demolidas, opo essa que est sendo investigada

    atualmente. As casas construdas no condomnio seguiram a principio o projeto de

    Severiano, porm com um novo desenho mais simples de esquadrias e vedaes. Outro

    dado que esta pesquisa gostaria de levantar se o Severiano desenhou esses novos

    detalhamentos que foram de fato feitos. Atualmente, as casas que seguiam o projeto de

    Severiano esto em runas ou sendo demolidas, para dar lugar a casas maiores e novas,

    feitas em alvenaria, vidro e com ar condicionado.

  • Referncias Bibliogrficas

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    PORTO, Severiano. Transcrio da apresentao do arquiteto Severiano Porto para o Seminrio "Artes Visuais na Amaznia", em 09 de novembro de 1984.

    http://www.archdaily.com.br/br/tag/severiano-porto