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    Boletim Informativo n 2, ano 2, julho de 2012

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    Boletim Informativo n 2, ano 2, julho de 2012

    Quando a vida da escola se integra vida do Movimento temos, pois, no a construo de uma nova escola, mas a possibilidade de que a escola seja mais do que escola, porque ser um lugar movido pelos valores de uma grande luta, uma luta de vida por um fio, fio de raiz, de vida inteira, em todos os sentidos. (CALDART, 2004, p. 395).

    Vim ao mundo para compartilhar do amor e no do dio.(Antgona, personagem da pea de mesmo nome, de Sfocles dramaturgo da Grcia Antiga).

    bem provvel que a realizao dos sonhos de cada pessoa dependa, em certa medida, da prpria pessoa. Porm, vivendo sob algumas circunstncias, muito difcil at mesmo sonhar. Vivendo Vidas Severinas por este Brasil afora, como diria o poeta pernambucano Joo Cabral de Melo Neto em seu belo livro Morte e Vida Severina, s mesmo com muita determinao e vontade de vencer os obstculos da

    Sala de alfabetizao em Nova Iguau (RJ)

    editorial

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    vida dura possvel vislumbrar dias melhores resultantes das inmeras tentativas de retirada das situaes quase insuportveis para o retirante.

    Guardadas as devidas propores, podemos comparar diversas Vidas Severinas que muitas pessoas levam em vrias partes do Brasil. E, apesar de todas as dificuldades, resolvem dar uma resposta afirmativa aos seus problemas, com verdadeiras lies no s de sobrevivncia, mas de uma vida digna como resposta vida sofrida que tiveram por muito tempo. So pessoas lutadoras, que vivem no anonimato deste Pas sem participar dos programas da grande mdia, sem participar do Big Brother Brasil (BBB) em qualquer uma de suas verses, mas que constroem a histria desta brava gente brasileira, como diz a letra do nosso Hino da Independncia.

    Milhares destes Severinos e Severinas fazem parte do MOVA-Brasil nos dez estados em que o Projeto existe e continuam buscando dar mais sentido s suas existncias marcadas pela destituio de direitos fundamentais como educao, alimentao, sade e moradia. Elas e eles esto procura da dignidade adormecida h muito tempo na dureza da vida no campo ou na cidade. Eles e elas fazem a diferena transformando seus sonhos de ler e escrever suas prprias histrias em realidade concreta. Essas pessoas, assim como a personagem de Sfocles (na frase da pgina anterior) vieram ao mundo para compartilhar do amor e servem de bom exemplo para todos ns.

    Para ilustrar e abrilhantar este segundo nmero do Boletim, apresentaremos a seguir um pouquinho da histria de Laudiceia Ferreira da Cruz, uma das Severinas do Projeto MOVA-Brasil: Desenvolvimento & Cidadania. Laudiceia um dia foi educanda do Projeto e hoje, sete anos depois, volta casa como toda boa filha, mas em outra condio. Agora, ela contribui para construo de um Brasil sem analfabetismo, compartilhando as aprendizagens construdas principalmente em 2004, quando era educanda.

    Nesta histria no h personagem nem os fatos so resultantes da engenhosidade de um ficcionista, mas sim de gente de corpo e esprito. Os acontecimentos so a realidade concreta vivida por essa gente. Com vocs, um pouco da vez, da voz e da vida de Laudiceia, contada por ela mesma.

    Sou Laudiceia Ferreira da Cruz, mais conhecida como Lal. Tenho 43 anos, nasci na cidade do Rio de Janeiro e moro em Nova Iguau (RJ). Parei de estudar aos 11 anos para ajudar a minha me a sustentar a famlia. Meu pai no assumia suas responsabilidades em casa. Minha me era cozinheira e eu fui tomar conta dos filhos da dona da casa onde ela trabalhava.

    Fui me solteira aos 19 anos, o que dificultou ainda mais meu acesso escola. Eu no suportava a vergonha de no conseguir preencher uma ficha de emprego por no saber ler. Isso me incomodava muito!

    Integrei-me ao Movimento de Mulheres Negras (Jeambra), que mais tarde foi fundamental para a mobilizao da turma de alfabetizao na cidade de Santa Rita (RJ).

    Em 2004, a educadora Michele, que hoje minha coordenadora local, foi minha casa me convidar para estudar no Projeto MOVA-Brasil. No incio foi muito difcil, pois eu tinha cinco filhos e levava as meninas (uma de 2 anos e a outra de 5 meses) para a sala de aula todos os dias. Muitas vezes precisei faltar na aula porque as crianas adoeciam e tambm porque no tinha nada em casa para aliment-las.

    Minha educadora sempre ia me buscar e me incentivar. Ela me contou que, quando era criana, em algumas fases de dificuldade, a me dela plantava aipim e batata doce para que eles no passassem fome e disse: Lal, plante no seu quintal. Nessa terra, tudo o que se planta, d. A eu comecei a plantar verduras para o alimento da famlia e at para vender.

    Vendo o meu desnimo, a coordenadora do Jeambra me apresentou o projeto de gerao de renda da Rede de Mulheres, chamado Cozinha Comunitria,

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  • que, alm de me ajudar a conseguir alguma renda, me ajudava na alimentao e eu ainda levava os alimentos que sobravam para os meus filhos. Tudo isso foi determinante para que eu continuasse.

    Minha famlia achava legal eu ir para a escola, mas no acreditava que eu conseguiria. Em 2005, me inscrevi na EJA e no parei mais. No final de 2011 foi a minha formatura do Ensino Mdio. Na ocasio, encontrei a Michele e recebi o convite para me inscrever na pr-seleo de monitoras da 4 etapa do Projeto MOVA-Brasil, fato que me deixou muito feliz e orgulhosa.

    Na pr-seleo havia cerca 50 de candidatos. Eu fui uma das dez pessoas selecionadas.

    Tem sido bem difcil compreender a complexidade da metodologia e lidar com os problemas de evaso dos educandos. Porm, como me sinto um exemplo, sempre uso a minha histria para os educandos quando eles se sentem desanimados.

    A participao no Projeto mudou a minha vida. Minha famlia e a comunidade me respeitam mais. Agora sei que posso retribuir, incentivando e ensinando o que aprendi para outras pessoas que esto sem f em si mesmas.

    Como disse Paulo Freire, a educao , antes de tudo, um ato poltico. E hoje eu defendo tudo o que acredito, sou uma pessoa poltica!

    Laudiceia, com sua histria de vida e muita luta, contribui para eliminar injustias sociais e aponta para um pas rico, um pas sem pobreza e um outro mundo possvel.

    No livro Morte e Vida Severina, Severino (personagem central), depois de tanto sofrimento, chega a perguntar ao personagem de seu Jos, mestre carpina, se valia a pena viver. Logo em seguida, nasce o filho do mestre carpina, que assim responde a Severino: sua pergunta, Severino, a vida respondeu com a prpria vida. E no foi assim tambm que Laudiceia reagiu sua vida difcil?

    Por estas e outras razes, queremos parabenizar esta grande mulher pelas conquistas de suas lutas e desejar muito sucesso agora como alfabetizadora do Projeto MOVA-Brasil: Desenvolvimento & Cidadania. Que seu exemplo sirva para animar ainda mais as milhares de pessoas que fazem parte do Projeto nesta caminhada para aprender a ler e escrever, desenvolvendo mais e melhor sua cidadania, entendendo a educao como direito. Parabns, Laudiceia!

    Alm da histria de Laudiceia contada acima, o leitor encontrar, nas prximas pginas, informaes sobre as principais atividades desenvolvidas neste comeo de etapa em cada polo do Projeto MOVA-Brasil: Desenvolvimento & Cidadania, como as Formaes Iniciais e Continuadas de Monitores e Coordenadores Locais, aulas inaugurais e outros acontecimentos significativos nos dez estados (Alagoas, Amazonas, Bahia, Cear, Minas Gerais, Pernambuco e Paraba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Sergipe). Esta edio ter tambm um suplemento especial sobre a Rio+20, o grande acontecimento mundial a respeito da sustentabilidade do planeta.

    Desejamos a todas e a todos uma tima viagem pelas linhas de cada polo do Projeto MOVA-Brasil e pelas linhas dos mais de 190 pases que participaram da Rio+20 e da Cpula dos Povos.

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    Atividades na sala de aula de Laudiceia

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    O Polo Alagoas iniciou o ano de 2012 com 60 turmas articuladas e instaladas e, no ms de maio, recebeu mais sete turmas passando de quatro para cinco o nmero de ncleos. Os novos grupos comearam suas aulas no dia 14 de maio.

    As aes iniciais do Projeto MOVA-Brasil no Polo Alagoas tm sido de construo de novos conhecimentos. A comear pela Formao Inicial de Coordenadores Locais, que aconteceu juntamente com o Polo PE/PB em Carpina (PE) no incio do ms de maro deste ano, sendo de muito aprendizado a socializao de experincias do grupo.

    Outra ao importante foi a Formao Geral Inicial com Monitores e Coordenadores Locais, realizada entre 19 e 23 de maro. O esperado incio das aulas ocorreu na semana seguinte, no dia 26.

    Na Formao Inicial estiveram presentes autoridades locais como o deputado federal Judson Cabral, o prefeito do municpio de Marechal Deodoro, Cristiano Matheus, e outras pessoas que prestigiaram e ressaltaram o apoio integral ao Projeto.

    Atividade de Leitura do Mundo em Marechal Deodoro (AL)

    DESTAQUESAo de sustentabilidade em PilarEntre as aes que merecem destaque est uma mobilizao realizada pelo Ncleo de Pilar, coordenado por Vivian Matos, em parceria com a Prefeitura Municipal. Em 29 de maio, o Ncleo organizou a limpeza da lagoa Manguaba. A ao resultou na sensibilizao da comunidade local para cuidar de um bem comum e to importante que a lagoa. Aes como estas competem no apenas ao poder pblico, mas a cada cidado, ressaltou Vivian.

    Para a ao, a Prefeitura lanou o desafi o: aquele que recolhesse a maior quantidade de resduos ganharia R$ 200 em espcie e uma cesta bsica. O grande vencedor foi o educando da monitora Patrcia Gleyse C. Barbosa, o Sr. Cicero de Oliveira, com um total de 850 kg de lixo recolhidos.

    Ampliando parcerias e