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619 Sociedade de Investigações Florestais APLICAÇÕES DE MISTURAS SOLO-“GRITS” EM ESTRADAS FLORESTAIS: RESISTÊNCIA MECÂNICA VIA CBR 1 Reginaldo Sérgio Pereira 2 , Carlos Cardoso Machado 3 e Carlos Alexandre Braz de Carvalho 4 RESUMO – Analisaram-se as potencialidades de emprego do resíduo sólido industrial “grits”, oriundo da indústria de celulose, como agente estabilizante de dois solos da Zona da Mata Norte de Minas Gerais, Brasil, para fins de emprego em estradas florestais. Os solos estudados englobaram um residual maduro, de textura argilo-areno- siltosa, e um residual jovem, de textura areno-silto-argilosa. Para tanto, prepararam-se misturas envolvendo solos e o resíduo nos quantitativos de 4, 8, 12, 16, 20, 24 e 28% em relação às massas de solo seco. Fez- se uso do ensaio CBR para avaliar as características de resistência e expansão das misturas. A avaliação dos resultados do estudo permite concluir que o resíduo “grits” apresentou potencial significativo como estabilizante dos solos, observando-se que: (i) a adição de “grits” aos solos foi responsável por ganhos nas suas resistências mecânicas, obtendo-se melhores resultados com o solo de textura areno-silto-argilosa; (ii) com relação à expansão medida no ensaio CBR, observaram-se pequenos acréscimos para o solo de textura argilo-areno-siltosa e decréscimos para o solo de textura areno-silto-argilosa, com aumentos no teor de “grits”; e (iii) as misturas solo-“grits” não responderam bem ao aumento da energia de compactação, quanto aos parâmetros CBR e expansão CBR . Palavras-chave: Solos, estabilização, resíduo industrial “grits” e estradas florestais. APPLICATION OF SOIL-GRITS MIXTURES IN FOREST ROADS: MECHANICAL STRENGTH VIA CBR TEST ABSTRACT – This paper is directed to forest road engineering applications, and address the potentialities of using an industrial solid waste from the cellulose industry, named grits, in the stabilization process of two soils from Zona da Mata Norte of Minas Gerais States, Brazil. Soil types tested comprised a mature residual silty-sandy-clay and a young residual clayey-silty-sand. Soil-grits mixtures were prepared at 4, 8, 12, 16, 20, 24 and 28 % stabilizer contents referred to soil dry masses. Mechanical strength and swelling parameters were determined by CBR (California Bearing Ratio) tests. The laboratory testing program data supported that addition of grits to soils led to: (i) significant mechanical strength gains that could be better associated with the clayey-silty-sandy soil; (ii) increases and decreases in swelling with increases in grits contents referred to the silty-sandy-clayey and the clayey-silty-sandy soils respectively, and (iii) increase in compaction effort did not lead to better mechanical responses of the mixtures regarding CBR and swelling CBR . Keywords: Soils, stabilization, industrial waste grits and forest roads. R. Árvore, Viçosa-MG, v.30, n.4, p.619-627, 2006 1 Recebido em 22.11.2005 e aceito para publicação em 05.04.2006. 2 Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília, Brasília-DF. E-mail: <[email protected]>. 3 Departamento de Engenharia Florestal da UFV, Viçosa-MG, Brasil. E-mail: <[email protected]>. 4 Departamento de Engenharia Civil da UFV, Viçosa-MG, Brasil. E-mail: <[email protected]>.

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    Sociedade de Investigaes Florestais

    APLICAES DE MISTURAS SOLO-GRITS EM ESTRADAS FLORESTAIS:RESISTNCIA MECNICA VIA CBR1

    Reginaldo Srgio Pereira2, Carlos Cardoso Machado3 e Carlos Alexandre Braz de Carvalho4

    RESUMO Analisaram-se as potencialidades de emprego do resduo slido industrial grits, oriundo da indstriade celulose, como agente estabilizante de dois solos da Zona da Mata Norte de Minas Gerais, Brasil, para finsde emprego em estradas florestais. Os solos estudados englobaram um residual maduro, de textura argilo-areno-siltosa, e um residual jovem, de textura areno-silto-argilosa. Para tanto, prepararam-se misturas envolvendosolos e o resduo nos quantitativos de 4, 8, 12, 16, 20, 24 e 28% em relao s massas de solo seco. Fez-se uso do ensaio CBR para avaliar as caractersticas de resistncia e expanso das misturas. A avaliao dosresultados do estudo permite concluir que o resduo grits apresentou potencial significativo como estabilizantedos solos, observando-se que: (i) a adio de grits aos solos foi responsvel por ganhos nas suas resistnciasmecnicas, obtendo-se melhores resultados com o solo de textura areno-silto-argilosa; (ii) com relao expansomedida no ensaio CBR, observaram-se pequenos acrscimos para o solo de textura argilo-areno-siltosa e decrscimospara o solo de textura areno-silto-argilosa, com aumentos no teor de grits; e (iii) as misturas solo-gritsno responderam bem ao aumento da energia de compactao, quanto aos parmetros CBR e expansoCBR.

    Palavras-chave: Solos, estabilizao, resduo industrial grits e estradas florestais.

    APPLICATION OF SOIL-GRITS MIXTURES IN FOREST ROADS:MECHANICAL STRENGTH VIA CBR TEST

    ABSTRACT This paper is directed to forest road engineering applications, and address the potentialitiesof using an industrial solid waste from the cellulose industry, named grits, in the stabilization process oftwo soils from Zona da Mata Norte of Minas Gerais States, Brazil. Soil types tested comprised a mature residualsilty-sandy-clay and a young residual clayey-silty-sand. Soil-grits mixtures were prepared at 4, 8, 12, 16,20, 24 and 28 % stabilizer contents referred to soil dry masses. Mechanical strength and swelling parameterswere determined by CBR (California Bearing Ratio) tests. The laboratory testing program data supportedthat addition of grits to soils led to: (i) significant mechanical strength gains that could be better associatedwith the clayey-silty-sandy soil; (ii) increases and decreases in swelling with increases in grits contents referredto the silty-sandy-clayey and the clayey-silty-sandy soils respectively, and (iii) increase in compaction effortdid not lead to better mechanical responses of the mixtures regarding CBR and swellingCBR.

    Keywords: Soils, stabilization, industrial waste grits and forest roads.

    R. rvore, Viosa-MG, v.30, n.4, p.619-627, 2006

    1 Recebido em 22.11.2005 e aceito para publicao em 05.04.2006.2 Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Braslia, Braslia-DF. E-mail: .3 Departamento de Engenharia Florestal da UFV, Viosa-MG, Brasil. E-mail: .4 Departamento de Engenharia Civil da UFV, Viosa-MG, Brasil. E-mail: .

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    1. INTRODUO

    Em estudos de estabilizao qumica de solos parafins rodovirios, comum desenvolver-se na dosagemum programa de ensaios de laboratrio direcionadoao conhecimento das caractersticas de engenhariadas misturas, com base nas normas tcnicas padronizadaspela Associao Brasileira de Normas Tcnicas (ABNT)ou pelo Departamento Nacional de Infra-Estrutura deTransportes (DNIT), antigo Departamento Nacionalde Estradas de Rodagem (DNER). A resistncia mecnicados solos e misturas pode ser avaliada pelo ndicede suporte Califrnia (ISC ou CBR), em que, alm dovalor da capacidade de suporte de amostras deformadas,obtm-se, tambm, o valor da expanso que, segundoNogami e Villibor (1995), tem sido um parmetro degrande importncia em obras virias.

    O ensaio CBR, desenvolvido inicialmente peloDepartamento de Rodovias do Estado da Califrnia,EUA, foi adotado pelo Corpo de Engenheiros dos EstadosUnidos, que, aps introduzir modificaes, divulgou-o amplamente durante a Segunda Guerra Mundial(NOGAMI e VILLIBOR, 1995). No Brasil, os resultadosdesse ensaio so adotados quase que com exclusividadepara o dimensionamento de pavimentos flexveis,determinando-se a capacidade de suporte do subleitoe das camadas do pavimento rodovirio. Exemplos nessesentido so os mtodos de dimensionamentos depavimentos flexveis do DNIT, antigo DNER, na versomais atual do seu Manual de Pavimentao (DNIT, 1996).

    Partindo do pressuposto de que se pode fazeruma escolha adequada das tcnicas de estabilizaoqumica de solos para fins rodovirios, que numa definiode Lima et al. (1993) referem-se: [...] incorporaode uma pequena quantidade de aditivo na massa dosolo, conferindo-lhe propriedades pre-determinadas;diversos estabilizantes podem ser encontrados nomercado, podendo-se referir a produtos tradicionais,como cal, cimento e betume, passando por outrosprodutos comerciais, como Dynacal e RBI Grade 81,e finalizando com material alternativo, como subprodutosou resduos industriais.

    Sherwood (1961) relatou experincias bem-sucedidascom o uso de resduos industriais na estabilizao qumicade solos de estradas, referindo s cinzas volantes eao cloreto de clcio. Esse autor destacou a distnciade transporte da fbrica ao local de aplicao e quantidadede resduo produzida como possveis condicionantesno processo.

    Na UFV, os Departamentos de Engenharia Civile Engenharia Florestal tm acumulado experinciasignificativa nessa rea, podendo-se destacar: (i)pesquisas desenvolvidas com o vinhoto, gerado naindstria aucareira e estudado por Ferraz (1994); (ii)licor-negro kraft, produzido na indstria de celulosee analisado por Vieira (1994); (iii) alcatro de madeirade eucalipto, gerado no processo de carbonizao damadeira e pesquisado por Fernandes (2000); e (iv)escrias de aciaria e de alto-forno, subprodutos daproduo do ao e estudadas, respectivamente, porBaltazar (2001) e Santana (2003). Uma viso geral daspesquisas desenvolvidas na UFV sobre o empregode resduos industriais em estradas foi apresentadapor Lima et al., (2003), no 6 Simpsio Brasileiro sobreColheita e Transporte Florestal.

    Dando prosseguimento a essa linha de pesquisa,surge um novo material, gerado na produo de celulose,denominado grits, que possui em sua composioparcela significativa de xido de clcio que no reagiudurante o processo de recuperao da soda custicae que apresenta, portanto, potencial para a estabilizaoqumica de solos. O seu emprego como estabilizantede estradas florestais se fundamenta, tambm, nosseguintes fatos: (i) o resduo gerado em quantidadesuficiente para ser usado nas estradas florestais; (ii)os locais de produo e aplicao do produto estoa distncias de transporte economicamente viveis;e (iii) o produto classificado, segundo a Norma TcnicaABNT 10.004 (1987), como resduo da classe II, ouseja, no inerte.

    Assim, este trabalho direcionado anlise dapotencialidade do resduo industrial grits comoestabilizante qumico para solos de estradas florestais.Procedeu-se avaliao da resistncia mecnica deamostras de solo com e sem adio do resduo grits,com o intuito de gerar dados laboratoriais como parteintegrante de uma das etapas de uma srie de estudossobre a viabilidade de resduos industriais em estradas.Como objetivos especficos abordados neste artigo,citam-se: (i) avaliao, via resultados dos ensaios CBR,da resistncia e expanso de amostras de solo e misturassolo-grits; (ii) anlise da influncia de variaes noteor de umidade de misturas solo-grits nas suasresistncias mecnicas; e (iii) avaliao da influnciada energia de compactao na resistncia mecnicadas misturas solo-grits.

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    2. MATERIAL E MTODOS

    2.1. Amostras de solo e de resduo

    Neste estudo, trabalhou-se com amostras de doissolos residuais da Zona da Mata Norte de Minas Gerais,coletadas no Municpio de Viosa, sendo um decomportamento latertico e outro de comportamentosaproltico, segundo o sistema de classificao adotadona metodologia MCT (NOGAMI e VILLIBOR, 1995).

    A primeira amostra, de comportamento geotcnicolatertico e classificao A-7-5 (20), segundo o sistemaadotado pelo Transportation Research Board dosEstados Unidos da Amrica e tambm pelo DNIT,apresenta textura argilo-areno-siltosa e foi coletadaem um talude de corte da rodovia que une as cidadesde Viosa e Paula Cndido, nas proximidades da Estaode Tratamento de gua de Viosa, sendo essa amostradenominada solo 1. A segunda amostra, decomportamento geotcnico saproltico e classificaoTRB A-2-4 (0), foi coletada em um talude de corte naVila Secundino, localizada no Campus da UFV, sendodenominada solo 2.

    A escolha desses solos se deveu aos volumessignificativos de suas ocorrncias na Zona da Matamineira e, especialmente, ao fato de representarem materialmuito diferenciado no sistema de classificao adotadopelo TRB, englobando aqueles de textura fina (solo1) e granular (solo 2). As amostras coletadas no campoforam acondicionadas em embalagens plsticas edestinadas ao Laboratrio de Engenharia Civil (LEC)da UFV para destorroamento, secagem ao ar earmazenamento em tambores para posterior utilizao.

    O resduo grits, que foi cedido pela Empresade Celulose Nipo-Brasileira (CENIBRA), um materialslido, de colorao acinzentada, que apresenta emsua constituio qumica o xido de clcio, ou seja,cal obtida na reao de caustificao do licor-verde,processo esse que recupera a soda custica para retornoao cozimento da celulose. A amostra foi coletada emum aterro sanitrio da empresa, transportado para oLaboratrio de Engenharia Civil da UFV e estocadoem tambores para utilizao futura.

    2.2. Teores de grits utilizados e perodo de cura dasmisturas

    Os teores de grits empregados nas misturas foram:0, 4, 8, 12, 16, 20 e 24%, valores esses calculados sobre

    a massa de solo seco. Em razo das respostas obtidasno programa de ensaios, posteriormente acrescentou-se matriz de ensaios o trao de 28% de grits. Ressalta-se que as misturas solo-grits foram realizadasmanualmente, com a adio de resduo ao solo ehomogeneizao da massa. Posteriormente, adicionou-se gua s misturas em quantitativos predeterminados,procedendo-se nova homogeneizao.

    Presentemente, no se trabalhou com perodosde cura mida das misturas solo-grits compactadas,executando-se o ensaio CBR imediatamente depois decompletado o perodo de imerso, em gua, por 96 horasdos corpos-de-prova.

    2.3. Ensaios geotcnicos e respectivas normatizaestcnicas

    Numa primeira etapa, com exceo da mistura dasamostras de solos com 28 % de grits, fez-se uso doensaio CBR5pontos para a determinao dos parmetrostimos de compactao (teor timo de umidade - Wte peso especfico seco mximo - dmx) e da resistnciamecnica e expanso das misturas (CBR e expansoCBR),cuja compactao dos corpos-de-prova normatizadapelo mtodo de ensaio DNIT (1994) ME 129. Nessaetapa, trabalhou-se com a energia de compactao doensaio Proctor intermedirio.

    Para avaliar o efeito da energia de compactaona resistncia mecnica das misturas, procedeu-se compactao de corpos-de-prova destas, segundo omtodo de ensaio DNIT (1994) ME 216, obtendo-se os parmetros timos de compactao na energiado ensaio Proctor modificado. Em seguida, procedeu-se execuo do ensaio CBR1ponto, determinando osvalores CBR e expansoCBR apenas no teor timo deumidade. Toda essa seqncia foi, tambm, adotadanas misturas preparadas com 28% de grits.

    3. RESULTADOS E DISCUSSO

    3.1. Parmetros timos de compactao

    Apresentam-se, na Figura 1, as curvas decompactao, CBR e expansoCBR, obtidas nos ensaiosCBR5pontos realizados na energia do ensaio de compactaoProctor intermedirio, mostrando-se, esquerda, osresultados de ensaios do solo 1 e, direita, do solo2, ambos sem adio de grits. Na energia decompactao anteriormente citada, os parmetros timos

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    da curva de compactao encontrados foram os seguintes:solo 1, Wt de 28,87% e dmx de 14,58 kN/m; solo2, Wt de 11,38% e dmx 18,33 kN/m. Ainda na Figura1, trabalhando com os valores de Wt nas curvasdos parmetros CBR e expansoCBR versus teor deumidade, obtm-se, respectivamente, os valoresde 14 e 0,40% para o solo 1 e 20 e 1,3% do solo 2.

    Nota-se, tambm, que possvel obter valores dosparmetros CBR e expansoCBR para variaes do teorde umidade em torno de Wt, por exemplo 2%, queso de importncia fundamental para o controle dacompactao a ser executado no campo, quando daexecuo de camadas estabilizadas do pavimento.

    Na Figura 2, apresentam-se os valores dos parmetrosWt e dmx, das misturas solo-grits, considerando asenergias de compactao dos ensaios Proctor intermedirioe Proctor modificado. Atravs desses dados, constata-se que: (i) no solo 1, houve tendncia de queda Wt, emrazo de acrscimos nos teores de resduo e aumentonos valores de dmx, em ambas as energias de compactao;e (ii) no que se refere ao solo 2, observou-se umcomportamento diferenciado, ou seja, aumento no Wte queda no dmx, devido ao acrscimo no teor de grits,em ambas as energias de compactao. Como j esperado,em ambos os solos, o aumento da energia de compactaofoi responsvel por menores valores de Wt e maioresvalores de dmx.3.2. Avaliao do CBR e da expanso das misturas

    solo-grits

    Definidos os parmetros timos de compactao,determinaram-se os valores dos parmetros CBR e expansodas misturas solo-grits. Na Figura 3, possvel observara influncia da adio de teores de grits aos solos 1e 2, trabalhando-se na energia do ensaio Proctorintermedirio. Em todas as misturas com o solo 1, observou-se que ocorreram ganhos no CBR, sendo que, a partirdo teor de grits de 8%, as misturas apresentaram valoressuperiores a 20% desse ndice, qualificando o solo1 parauso como camada de sub-base de pavimentos rodoviriosflexveis (DNIT, 1996), condio que no possua quandocompactado em sua forma natural. Destaca-se que a melhorresposta mecnica ocorreu no teor de grits de 28%,notando-se um ganho de resistncia mecnica da ordemde 127% em relao ao solo 1, sem grits.

    No solo 2, tambm ocorreram ganhos de resistnciamecnica em todos os tratamentos com grits, observando-se pequena variao nos valores CBR dos teores de gritsentre 12 e 28%; destaca-se que todos os teores de resduoutilizados, exceo de 4%, produziram misturas quepodem ser empregadas como camadas de sub-base depavimentos rodovirios flexveis (DNIT, 1996), sendo queo maior ganho ocorreu no porcentual de 28% de resduos,atingindo-se um ganho de aproximadamente 190% emrelao ao solo 2, em sua forma natural.

    Figura 1 Curvas de compactao, CBR e expansoCBR obtidasem ensaios CBR5pontos, com compactao na energiado Proctor intermedirio.

    Figure 1 Compaction, CBR and swellingCBR curves obtainedfrom CBR5points tests performed at the IntermediateProctor compaction effort.

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    Figura 2 Influncia da adio de grits nos parmetrostimos de compactao dos solos 1 e 2.

    Figure 2 Influence of grits addition on optimum compactionparameters of soils 1 and 2.

    Figura 3 Valores de CBR e expanso para as misturas solo-grits referentes energia do ensaio Proctorintermedirio.

    Figure 3 CBR and swelling values from soil-grits mixturesat the Proctor intermediate compaction effort.

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    Com relao expanso, nas misturas com o solo1, ocorreram aumentos em todos os tratamentos comgrits, sendo esses considerados de pequena montaem se tratando de pavimentao rodoviria. A pequenaoscilao dos valores pode ser associada ao fato deos extensmetros de medio serem muito sensveis,e uma mnima mudana da posio do trip de leiturapode levar ocorrncia de pequenas variaes. Comrelao s misturas solo 2-grits, o parmetro expansoteve o seguinte comportamento: (i) queda em todasas misturas com relao ao solo sem adio de resduo;(ii) diminuio mais acentuada nos traos com 12, 16,20 e 24% de grits, em que, de 1,3% de valor de expansono solo 2, obteve-se o valor de 0,40%; e (iii) pequenoaumento da expanso, apesar de ficar abaixo do valordo solo natural, no teor de 28% de grits.

    3.2. Influncia da umidade no CBR e expanso dasmisturas solo-grits

    A Figura 4 a ilustradas relaes entre teor de umidade,CBR e expanso nas variaes de 1% e 2% emtorno da Wt. de moldagem dos corpos-de-prova,trabalhando-se na energia de compactao do ensaioProctor intermedirio. Nas misturas solo 1-grits,observou-se a ocorrncia de maiores valores dosparmetros CBR e de expanso nos ramos secos dascurvas de compactao, os quais continuam a cair nosramos midos, como comum no caso de solos. Nocaso das misturas solo 2-grits, notou-se no parmetroCBR a ocorrncia de comportamento diferente daqueleobservado nas misturas com o solo 1, verificando-seque, nos teores de grits entre 4 e 16%, os maioresvalores de CBR esto associados aos teores timosde umidade de cada mistura; quanto ao parmetroexpanso dessas misturas, notou-se, em geral, aocorrncia de maiores valores nos ramos secos dascurvas de compactao, com quedas associadas aocrescimento nos teores de umidade de moldagem doscorpos-de-prova, semelhana do que ocorreu comas misturas solo 1-grits.

    3.3. Influncia da energia de compactao naresistncia e expanso das misturas solo-grits

    O efeito do aumento da energia de compactaono comportamento do parmetro CBR pode ser analisadode duas maneiras: (i) ganho de resistncia em funode um melhor arranjo de partculas e maior reduodos vazios dos solos; e (ii) perda de resistncia em

    funo da ocorrncia de esmagamento de partculas,em razo do tipo de solo considerado. No que tangea esse item, as misturas solo-grits apresentaram ocomportamento ilustrado na Figura 5, quando compactadasnas energias dos ensaios Proctor intermedirio emodificado, podendo-se referir a: (i) queda nos valoresdo parmetro CBR em todas as misturas solo 1-grits,atingindo-se redues mdias de CBR de 24% e aumentosda expanso de teores de grits iguais ou superioresa 12%, embora esses aumentos possam ser consideradosde pequena monta para fins rodovirios; e (ii) ganhosde resistncia, devido ao aumento da energia decompactao, nas misturas solo 2-grits a partir doteor de 20% de resduo, que atingiram aproximadamente20%, no caso das misturas com 24 e 28% de gritse aumentos bruscos no parmetro expanso, que chegarama atingir a casa dos 500% nas misturas com 16 e 20%de resduo; destaca-se que esses aumentos podemestar associados a um comportamento resiliente dosolo 1, de textura areno-silto-argilosa, em conjugaocom a energia de compactao elevada utilizada.

    Figura 4 CBR e expanso das misturas solo-grits, compactadasna energia intermediria, na Wt, e em variaesda Wt. 1% e Wt. 2%.

    Figure 4 CBR and swelling from soil-grits mixtures at theintermediate compaction effort, considering moisturecontent and variations of 1% and 2% aroundoptimum moisture content.

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    Figura 5 Influncia da energia de compactao na resistncia e expanso das misturas solo-grits.Figure 5 Influence of compaction effort on strength and swelling of soil-grits mixtures.

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    4. CONCLUSES

    (i) Considerando o parmetro CBR como referncia,os solos estudados se mostraram reativos ao grits,obtendo-se melhor resposta para o solo 2, de texturaarenosa. Em ambos os solos, as misturas com teoresiguais ou superiores a 8% de grits apresentaram valoresdos parmetros CBR e expanso que as qualificam comocamadas de sub-base de pavimentos rodovirios flexveis,segundo os mtodos de dimensionamento do DNIT.

    (ii) As misturas de ambos os solos se mostraramsensveis s variaes de teor de umidade em tornode Wt., notando-se naquelas do solo 1 maiores valoresde CBR nos ramos secos das curvas de compactaoque diminuem com o aumento do teor de umidade eatingem os menores valores nos ramos midos dascurvas de compactao; no entanto, as misturas como solo 2 exibiram maiores valores CBR, em geral, nosWt.

    (iii) Ambas as misturas no apresentaram, em geral,respostas mecnicas positivas ao aumento da energiade compactao, sendo que nas misturas com o solo 1ocorreram quedas sucessivas no CBR, quando setrabalhou na energia do ensaio Proctor modificado.No que se refere s misturas com o solo 2, foramobservados ganhos da ordem de 20% no CBR, nosteores de 24 e 28% de grits, que podem serconsiderados de pequena monta, em especial quandose avaliam os custos envolvidos na execuo de camadasde pavimentos rodovirios, ao se passar da energiado ensaio Proctor intermedirio para o Proctor modificado.Assim, no presente caso, no se justifica empregara energia de compactao do ensaio Proctor modificadona compactao das misturas no campo.

    (iv) Na energia de compactao do ensaio Proctorintermedirio, as misturas com o solo 1 apresentarampequenos aumentos na expanso, observando-secomportamento inverso com as misturas com o solo 2.No entanto, ao se aumentar a energia de compactao,passando a trabalhar com a energia do ensaio Proctormodificado, observou-se efeito deletrio da energiano parmetro expanso.

    (v) O grits apresentou bom potencial para aestabilizao das duas amostras de solo analisadas,visto que os resultados dessa etapa foram obtidospara corpos-de-prova no submetidos a perodos decura. Em estudos de estabilizao qumica de solos

    comum trabalhar com perodos de cura da ordem dedias ou semanas, podendo-se referir a sete dias, nocaso de misturas solo-cimento, e a 28 dias, em misturassolo-cal.

    5. RECOMENDAO

    Com base nos dados apresentados por ambosos solos e considerando os aspectos econmicose tcnicos, em que se ressalta o no-emprego decura mida dos corpos-de-prova, no se recomendaempregar a energia de compactao modificada paraa execuo das misturas solo-grits analisadas, nassituaes deste trabalho.

    6. AGRADECIMENTOS

    Ao CNPq e FAPEMIG, pelo apoio financeiro aopresente projeto, bem como CAPES e UFV,respectivamente, pela concesso da bolsa de doutoradoe das instalaes fsicas para a execuo deste trabalho. empresa CENIBRA, pelo fornecimento do resduogrits.

    7. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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    PEREIRA, R.S. et al.

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    DEPARTAMENTO NACIONAL DE INFRA-ESTRUTURA DE TRANSPORTES DNIT.Manual de pavimentao. 2. ed. Rio deJaneiro, 1996. 320 p. (Antigo DNER).

    FERNANDES, D.C.M. Viabilidade do usode alcatro de madeira de eucaliptona estabilizao de solos residuaispara fins rodovirios. 2000. 124f. Tese(Doutorado em Cincias Florestais) - UniversidadeFederal de Viosa, Viosa, 2000.

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