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p. 147-208

A produo de etanol pela integrao do milho-safrinha s usinas de cana-de-acar: avaliao ambiental, econmica e sugestes de poltica

Artur Yabe Milanez Diego Nyko Marcelo Soares Valente*Carlos Eduardo Osrio Xavier Luiz Alexandre KulayCristina Guimares Donke**Marlia Ieda da Silveira Folegatti Matsuura Nilza Patrcia Ramos Marcelo Augusto Boechat Morandi***Antnio BonomiDaniel Henrique Dario Capitani Mateus Ferreira Chagas Otvio Cavalett Vera Lcia Reis de Gouvia****

* Respectivamente, gerente, economista e engenheiro do BNDES. ** Respectivamente, doutorando em Economia Aplicada da Escola Superior de

Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq)-Universidade de So Paulo (USP) e pesqui-sador do Programa de Educao Continuada em Economia e Gesto de Empre-sas (Pecege)-Esalq-USP; professor da Escola Politcnica da USP; e mestranda do Instituto de Energia e Ambiente da USP.

*** Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuria (Embrapa) Meio Ambiente.

****Respectivamente, coordenador e pesquisadores do Programa de Avaliao Tec-nolgica do Laboratrio Nacional de Cincia e Tecnologia do Bioetanol (CTBE). Os autores agradecem as empresas entrevistadas que colaboraram para a elabo-rao das premissas tecnolgicas. Este artigo de exclusiva responsabilidade dos autores, no refletindo, necessariamente, a opinio do BNDES.

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Resumo

A incluso na matriz energtica brasileira de um biocombustvel ob-tido de uma nova biomassa desperta questes sobre potenciais im-pactos ambientais e econmicos. Desse modo, com base em entre-vistas com diversas empresas e consulta literatura disponvel sobre o etanol produzido por meio da integrao cana-de-acar-milho, este artigo objetiva avaliar o desempenho ambiental e econmico das usinas flex. Do ponto de vista ambiental, os resultados para as usinas flex no comprometem o desempenho do etanol produzido, tanto pela tica do balano energtico quanto pela das redues das emisses de gases de efeito estufa (GEE). O desempenho econmico, por seu turno, aponta para maior viabilidade em regies com oferta de milho a preos baixos e demanda elevada por rao animal.

Abstract

The inclusion of a biofuel obtained from a new biomass source in the Brazilian energy matrix arouses questions about potential environmental and economic impacts. Therefore, this article aims to evaluate the environmental and economic performance of ethanol produced from sugarcane integrated with corn at flex plants. The study was based on interviews with various actors of the sector and on the data available at literature on the topic. From the environmental standpoint, the results for the flex plants do not compromise the ethanol performance, for both energy balance and reductions of greenhouse gases emission (GHG). The economic performance points to an upper viability in regions with corn supply at low prices and high demand for animal feed.

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Introduo

O setor sucroenergtico vem buscando cada vez mais elevar os n-veis de utilizao de seu parque industrial ao longo do ano. Atual-mente, as usinas moem cana-de-acar apenas durante a safra, que normalmente pode durar at oito meses.

O meio mais usual para buscar atingir esse objetivo o desenvolvi-mento de variedades de cana adaptadas para atingir produtividade eco-nomicamente vivel em diferentes perodos do ano e condies de clima.

Esforos tambm tm sido feitos na busca de matrias-primas que possam ser processadas pelas usinas de cana-de-acar durante a entressafra. Entre essas matrias-primas, o setor privado vem consi-derando o milho como alternativa de elevado potencial.1

O interesse privado ocorre em um cenrio que apresenta, de um lado, elevada produo de milho em regies que no contam com condies logsticas para escoamento apropriado dessa commodity e, de outro, estagnao de investimentos em novas usinas de etanol, cujo efeito mais deletrio tem se traduzido em importaes crescentes de gasolina.

Contudo, a incluso, na matriz energtica do Brasil, de um bio-combustvel obtido de uma nova biomassa desperta questes sobre o seu desempenho ambiental e econmico. Essa incluso s se jus-tificaria se os impactos ambientais e econmicos da produo desse biocombustvel fossem equivalentes ou mais favorveis que os de seus potenciais substitutos, sejam eles de fonte renovvel ou fssil.

Diante disso, o objetivo deste artigo avaliar as dimenses am-biental e econmica da produo de etanol em uma usina que seja capaz de processar cana-de-acar e milho. Esse tipo de unidade aqui denominado de usina flex.

1 Atualmente, h duas usinas de pequeno porte no Mato Grosso que j pro-cessam milho e cana. Alm dessas, existem apenas projetos de usinas para a Regio Centro-Oeste.

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Pretende-se ainda oferecer subsdios para a definio de polticas p-blicas que apoiem o desenvolvimento das usinas flex e, particularmen-te, para orientar uma potencial poltica de financiamento do BNDES.

O artigo est assim dividido: alm desta introduo, a seo seguinte oferece um panorama mundial da produo de etanol, colocando nfase nas diferenas entre o milho e a cana-de-acar. Na terceira seo, so apresentados os principais resultados das anlises ambiental e econ-mica de uma usina flex. Na quarta seo, tais resultados so discutidos, sem perder de vista os possveis benefcios que essas tecnologias pode-riam trazer para a economia brasileira. J na quinta seo, so sugeridas polticas pblicas que possam estimular, de maneira sustentvel, pro-jetos de usinas flex. A ltima seo encerra com consideraes finais.

Panorama mundial da produo de etanol

Nos ltimos anos, a bioenergia vem recebendo ateno crescente em muitos pases, nos campos poltico, econmico e tcnico-cientfico, especialmente em razo das preocupaes com as mudanas clim-ticas e a segurana energtica. Exemplo de um produto bioenergti-co o etanol derivado da cana-de-acar, que, no Brasil, se conso-lidou como importante biocombustvel, substituindo a gasolina em parcela importante da demanda por combustveis veiculares. Como resultado, a participao do etanol no consumo de combustveis l-quidos de ciclo Otto saiu de 35%, em 2002, para 55%, em 2009.2

Se, de um lado, o etanol faz parte da realidade brasileira h dca-das, de outro, ainda est distante de ser relevante na matriz energtica mundial. Embora venham ganhando espao entre as alternativas aos combustveis fsseis, os biocombustveis ainda so pouco representa-

2 Em 2009, a participao do etanol na frota de veculos flex atingiu seu pico his-trico no perodo recente. Desde ento, essa participao vem diminuindo em razo da estagnao da produo de etanol. Em 2013, essa participao atingiu cerca de 40% da frota.

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tivos. A sua produo em larga escala depende fundamentalmente de avanos na produtividade, de forma a mitigar eventuais efeitos negati-vos, como possveis presses sobre o preo de commodities agrcolas.

Estimativas da Renewable Fuels Association (RFA)3 indicam que, em 2012, a produo mundial de etanol foi de 82,5 bilhes de litros. Desse total, Estados Unidos e Brasil hoje, os dois maiores produtores do mun-do responderam, respectivamente, por 61% e 26%. Nos Estados Uni-dos, o milho a principal matria-prima para a produo de etanol, que, em 2012, representou 10% da demanda por combustvel veicular naquele pas. No Brasil, como visto, a cana-de-acar desempenha esse papel.

Nesse contexto, a adoo comercial dos biocombustveis depende da avaliao de parmetros amplos de eficincia [BNDES e CGEE (2008)], considerando diversos critrios econmicos, sociais, ambien-tais e estratgicos, como a segurana energtica nacional. Assim, para ser usada como fonte de bioenergia, a biomassa escolhida precisa ter caractersticas capazes de atender a esses critrios. Segundo Souza et al. (2013), as caractersticas da biomassa ideal incluem: alta produ-tividade agrcola, curtos ciclos produtivos, baixo consumo energti-co, baixo custo de produo, baixos nveis de contaminantes e baixa demanda por nutrientes. Ainda na viso dos autores, para dirimir as crticas sobre os biocombustveis, importante que a biomassa tenha balano de carbono favorvel quando mensurado por avaliaes de ci-clo de vida (ACV), que consideram toda a cadeia de produo e o uso dos biocombustveis. Por sua vez, BNDES e CGEE (2008) destacam a importncia de apresentar um balano energtico positivo.

Comparando essas caractersticas entre diversos tipos de biomassa, os autores constatam que a cana-de-acar , atualmente, a fonte mais promissora para a produo de biocombustveis (Tabela 1), ainda que necessite de mais gua ou tenha um ciclo de colheita superior ao da maioria das biomassas da comparao.

3 Para mais detalhes, conferir: . Acesso em: 2 jan. 2014.

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