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VERBOS IRREGULARES OU VERBOS COM FORMAS · PDF fileVERBOS IRREGULARES OU VERBOS COM FORMAS IRREGULARES? REFLEXÃO SUSCITADA PELO PROCESSAMENTO COMPUTACIONAL DO PORTUGUÊS Vera Vasilévski1

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  • Universidade Federal de Pernambuco NEHTE / Programa de Ps-graduao em Letras CCTE / Programa de Ps-graduao em Cincias da Computao

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    VERBOS IRREGULARES OU VERBOS COM FORMAS

    IRREGULARES? REFLEXO SUSCITADA PELO

    PROCESSAMENTO COMPUTACIONAL DO PORTUGUS

    Vera Vasilvski1 (UFSC)

    Resumo: A partir de pesquisa para automatizar a morfologia flexional dos verbos do portugus do Brasil, construiu-se um analisador morfolgico, recurso computacional que contm algoritmos com as regras gramaticais do sistema de verbos do portugus. Constatou-se que todos os verbos so fiis aos paradigmas conjugacionais regulares, em boa medida, mesmo os mais complexos, que so tambm os mais usados. Ainda, evidenciou-se que verbos sujeitos harmonia voclica so regulares, assim como verbos sujeitos a adaptao ortogrfica no radical. Prope-se que a escola faa distino entre formas verbais regulares e irregulares, a fim de facilitar o aprendizado e torn-lo mais coerente. Palavras-chave: morfologia flexional verbal, recursos computacionais,

    ensino. Abstract: As a result of a research to automate the inflectional verb morphology of Brazilian Portuguese, we built a morphological analyzer, that is, a computer resource that contains algorithms with the grammar rules of the Portuguese verb system. The research found that all verbs largely fit the regular conjugation paradigms, even the more complex ones, which are also the most used. Besides, it made overt that verbs subjected to vowel harmony phenomenon are regular, as well as the ones subjected to orthographic adjustment in the radical. We propose that the school makes distinction between regular and irregular verb forms, in order to support learning, and make it more coherent. Keywords: inflectional verb morphology, computational resources, teaching.

    Introduo

    Este artigo relata resultados de uma fase de um projeto cujo objetivo

    desenvolver um recurso computacional para automatizar o sistema de verbos do

    portugus escrito do Brasil, a partir de suas regras morfolgicas. Tal ferramenta

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    um analisador morfolgico, que contm algoritmos com as regras flexionais dos

    verbos do portugus. Faz-se cabvel discutir os procedimentos gramaticais e

    computacionais empregados nessa tarefa, bem como alguns resultados prticos.

    O analisador morfolgico de verbos mencionado uma ferramenta

    desenvolvida como parte de um projeto maior, chamado Anlise morfolgica

    Automtica do Portugus (SCLIAR-CABRAL, 2009). Seu principal objetivo

    depreender uma gramtica automtica do portugus brasileiro, mediante anlise

    de crpus. Desenvolve-se esse projeto em parceria com o projeto Childes

    (MACWHINNEY, 2011). Etapas concludas relativas depreenso da morfologia dos

    verbos foram documentadas, como regras do comportamento da vogal temtica e

    dos sufixos modo-temporais e nmero-pessoais dos verbos regulares (SCLIAR-

    CABRAL e VASILVSKI, 2011a), a automatizao da vogal temtica e de seus

    alomorfes (VASILVSKI, SCLIAR-CABRAL, ARAJO, 2012), a automatizao dos

    morfemas modo-temporais, os casos ambguos dela decorrentes e sua

    desambiguao (VASILVSKI e ARAJO, 2011). Tambm se expuseram resultados

    pertinentes aquisio da linguagem (COSTA e SCLIAR-CABRAL, 2011; VASILVSKI,

    2011b) e ao uso do programa em pesquisa lingustica (SCLIAR-CABRAL e VASILVSKI,

    2011b; VASILVSKI 2011a e 2010). Ora se expe um aspecto do projeto, cujo teor

    extrapola a sistematizao das regras e adentra o meio escolar, em forma de

    sugesto, que, qui, auxilie o aprendizado dos alunos, no que se refere ao sistema

    de verbos do portugus.

    Antes de iniciar, cabe lembrar a nomenclatura utilizada no programa e,

    consequentemente, aqui. Cada um dos tempos verbais do portugus, em seus

    respectivos modos, recebeu um cdigo nico, que foi inserido no programa

    (VASILVSKI, SCLIAR-CABRAL e ARAJO, 2012): PI Presente do Indicativo, PII

    Pretrito Imperfeito do Indicativo, PPI Pretrito Perfeito do Indicativo, PMI

    Pretrito Mais-que-perfeito do Indicativo, FPI Futuro do Presente do Indicativo,

    FPPI Futuro do Pretrito do Indicativo, PS Presente do Subjuntivo, PIS Pretrito

    Imperfeito do Subjuntivo, FS Futuro do Subjuntivo, IMA Imperativo Afirmativo,

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    IMN Imperativo Negativo, INF Infinitivo, GER Gerndio, PAR Particpio. Da

    mesma forma, as trs pessoas gramaticais do singular e do plural so assim

    designadas: 1S, 2S, 3S, 1P, 2P e 3P.

    Este artigo est organizado da seguinte maneira: resgata e discute parte do

    funcionamento do sistema de verbos do portugus (regularidade, irregularidade,

    harmonia voclica e irregularidade aparente); relaciona-o ao desenvolvimento do

    analisador morfolgico; e expe as consideraes finais.

    O sistema de verbos do portugus

    Verbo a criao lingustica destinada a expressar a noo predicativa.

    Denota ao ou estado e, em muitas lnguas, possui sufixos prprios, com que se

    distingue a pessoa do discurso e o respectivo nmero (singular ou plural), o tempo

    (atual, vindouro, pretrito) e o modo da ao (real, possvel etc.) (SAID ALI, 1964).

    Chamam-se formas finitas do verbo todas aquelas que vm sempre referidas a

    uma das trs pessoas do discurso e tm a respectiva desinncia, ou seja, so as

    formas conjugadas. A par delas, gera-se em todos os verbos um pequeno grupo de

    formas com aparncia e funo de substantivo (infinitivo), adjetivo (particpio) e

    advrbio (gerndio). So essas as formas infinitas do verbo, assim chamadas por

    constiturem vocbulos sem referncia especial a quaisquer pessoas do discurso.

    De muitas maneiras se pode imaginar uma ao ou estado, mas as formas

    verbais simples de que a lngua portuguesa dispe no permitem considerar mais de

    trs modos verbais: indicativo para aes reais; subjuntivo para fatos duvidosos,

    provveis, potenciais ou optativos; e o imperativo, por meio do qual se expressa

    ordem, pedido, convite, splica etc. (SAID ALI, 1964), sem se considerar o aspecto.

    Certamente, o uso da lngua encarrega-se de privilegiar certos tempos e modos,

    bem como de empreg-los em condies divergentes das cannicas e ampliar as

    possibilidades.

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    A exposio sistemtica de todas as formas de um verbo, finitas e infinitas

    (nominais), constitui a conjugao desse verbo (SAID ALI, 1964). A conjugao dos

    verbos portugueses segue o padro regular ou padres especiais.

    O paradigma regular ou o padro geral

    O sistema de verbos do portugus compreende trs conjugaes, que so

    assinaladas pela vogal temtica (VT). H trs vogais temticas, conforme a notao

    escrita usual: a para a primeira conjugao (1.C), e para a segunda

    conjugao (2.C) e i para a terceira conjugao (3.C). Compem esse sistema

    verbos ditos regulares que seguem o paradigma fixo da conjugao a que

    pertencem e so maioria em portugus e os ditos irregulares que se desviam do

    paradigma regular. O tema (RAD+VT) do infinitivo a forma bsica do verbo

    regular. Assim, dado um verbo regular em sua forma infinitiva, possvel conjug-

    lo com facilidade, nas seis pessoas gramaticais, sobretudo nos tempos do modo

    indicativo. Em contrapartida, tomar uma forma verbal conjugada e dela extrair os

    morfemas que a compem, a fim de desvendar tempo, modo, pessoa e nmero em

    que est flexionada, no to fcil (VASILVSKI e ARAJO, 2011).

    Em portugus, h trs modos verbais finitos, com seus tempos simples

    (indicativo (seis tempos), subjuntivo (trs tempos) e imperativo (afirmativo e

    negativo)), alm do infinitivo pessoal e das formas nominais (infinitivo, gerndio e

    particpio). Cabe destacar que o pretrito mais-que-perfeito pouco usado no

    Brasil. Na fala coloquial, ele restringe-se a frases feitas, e raramente usado na

    lngua escrita. No entanto, ele preservado, sobretudo, na literatura, em msicas,

    textos jurdicos e aparece esporadicamente no falar jornalstico, por exemplo, em

    editoriais. Assim, o PMI tem seu lugar em gneros textuais especficos, mas pode

    figurar em outros, conforme juzo do usurio da lngua. Quanto s formas nominais,

    o infinitivo a forma mais genrica do verbo, que de maneira mais ampla e vaga

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    resume sua significao, sem noes de tempo, modo e aspecto. Por isso, ele

    usado para designar o nome do verbo.

    As segundas pessoas gramaticais cannicas tu e vs e formas delas

    derivadas (teu, vossa) tambm passam a ocorrer em gneros textuais

    especficos orais e escritos (como religioso, literrio, musical). Isso

    especialmente verdade em relao a vs, pois tu usada na fala coloquial

    portanto, em gneros textuais primrios (BAKHTIN, 2006) em algumas regies do

    Brasil, como em Florianpolis, Santa Catarina, inclusive com as flexes tradicionais

    (tu sabes, tu foste, se tu fizeres). Ento, no cabe aos professores, muito

    menos aos pesquisadores, exclu-las do paradigma verbal, sob risco do usurio da

    lngua deparar-se com elas ao trocar o canal da televiso, ler uma carta comercial,

    o