RICARDO CARNEIRO ANTONIO Universidade Federal do ?· Read defende a tese de que a arte deve ser a base…

  • Published on
    08-Jan-2019

  • View
    216

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

Leituras de professoras: a circulao de ideias acerca de arte e

educao no Paran na dcada de 1960

RICARDO CARNEIRO ANTONIOUniversidade Federal do Paran, Curitiba, PR, Brasil

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782018230009

RESUMOEste artigo investiga a circulao de ideias acerca de arte e educao durante a dcada de 1960 entre os educadores responsveis pelo curso de artes plsticas na educao criado pela Secretaria de Estado da Educao do Paran com o objetivo de espe-cializar professores normalistas para implementar atividades artsticas nos grupos escolares do estado. Mais especificamente, analisa anotaes feitas nas margens de uma edio de 1959 do livro Educacin por el arte do filsofo britnico Herbert Read, exemplar que pertenceu a uma das coordenadoras do curso de artes plsticas na educao, professora Lcia Rysicz. O artigo apoia-se em Le Goff, segundo o qual nenhum documento incuo, e em Roger Chartier, quando este considera as ano-taes em pginas de livros como uma forma de apropriao intelectual dos textos.

PALAVRAS-CHAVEeducao; arte; formao de professores.

1Revista Brasileira de Educao v. 23 e230009 2018

TEACHERS READINGS: THE CIRCULATION OF IDEAS ABOUT ART AND EDUCATION IN PARAN, BRAZIL, IN THE 1960S

ABSTRACTThis article investigates the circulation of ideas about art and education during the 1960s among educators responsible for the course Visual arts in education, created by the State Secretariat for Education and Culture of Paran and aimed at qualifying teachers to implement artistic activities in school groups. More specifically, an analysis is performed on the notes made on a 1959 edition of the book Educacin por el arte, by the British philosopher Herbert Read, which once belonged to one of the coordinators of the above-mentioned course, professor Lcia Rysicz. This article relies on Le Goff, whose theorey is that no document is innocuous, and Roger Chartier, who considers notes on the pages of a book a form of intellectual appropriation of texts.

KEYWORDSeducation; art; teacher training.

LECTURA DE LOS MAESTROS: LA CIRCULACIN DE IDEAS SOBRE ARTE Y EDUCACIN EN PARAN EN LA DCADA DE 1960

RESUMENEn este artculo se investiga la circulacin de ideas sobre el arte y la edu-cacin durante la dcada de 1960 entre los educadores responsables del curso de artes visuales en educacin creados por la Secretara de Estado de Educacin y Cultura de Paran, con el fin de especializarse maestros para implementar actividades artsticas en escuelas pblicas. En concreto, se analiza notas hechas en una edicin de 1959 del libro Educacin por el arte del filsofo britnico Herbert Read, que una vez perteneci a uno de los coordinadores del curso mencionado, la profesora Luca Rysicz. El artculo se basa en Le Goff, cuya teora es que ningn documento es inocuo, y Roger Chartier, que considera las notas en las pginas del libro como una forma de apropriacin intelectual de los textos.

PALABRAS CLAVEeducacin; arte; formacin de profesores.

2 Revista Brasileira de Educao v. 23 e230009 2018

Ricardo Carneiro Antonio

Este artigo faz parte de uma pesquisa mais ampla sobre as representaes acerca da arte infantil desenvolvida dentro do Programa de Ps-Graduao em Educao da Universidade Federal do Paran. Especificamente, analisa a circulao de ideias sobre arte e educao entre os educadores responsveis pelo curso de artes plsticas na educao1 (CAPE) criado pela Secretaria de Educao e Cultura do Paran (SEC-PR), em 1964.

Baseado em teorias que entendiam a prtica artstica como componente fundamental do processo educativo, o CAPE fazia parte de um trabalho maior intitulado Projeto Arte na Educao, que tinha como propsito especializar profes-sores normalistas para a promoo de atividades artsticas nos grupos escolares do estado em regime de contraturno. De 1964 a 1974, professoras de diversos grupos escolares do estado foram dispensadas de suas atividades para frequentar o CAPE em Curitiba durante um ano. Depois de formadas, retornavam aos seus grupos escolares com a responsabilidade de neles criar e dirigir escolinhas de arte que se configuravam como espaos destinados exclusivamente para as atividades artsticas. Para atingir esse objetivo, as professoras eram supervisionadas e acompanhadas pelas responsveis pela criao e elaborao intelectual do CAPE: a artista e educadora Ivany Moreira,2 chefe da Diviso de Atividades Culturais na Educao (DACE) do Departamento de Cultura da SEC-PR, e as professoras Lcia Rysicz3 e Icla Guimares Rodrigues.4 Embora no ano de 1969 a coordenao do projeto relatasse a existncia de doze escolinhas em diversos municpios, at o final da experincia nenhuma delas chegou a ser regulamentada e incorporada oficialmente aos grupos escolares que as abrigavam (Antonio, 2008, p. 156). Por fim, com a implantao da lei n. 5.692 de 1971, que progressivamente substituiu os grupos escolares pelo sistema de ensino de 1 grau e a criao dos cursos de educao artstica em 1973, o CAPE encerra suas atividades formando sua ltima turma em 1974.

Entretanto, a expresso escolinha de arte no foi criada pelos coordena-dores do CAPE. Popularizou-se entre os educadores brasileiros a partir de 1948, com a criao da Escolinha de Arte do Brasil no Rio de Janeiro, iniciativa do artista plstico Augusto Rodrigues e de um grupo de educadores e artistas (INEP, 1980). Aexperincia da Escolinha de Arte do Brasil originou outras iniciativas semelhantes e tambm consolidou, em 1961, o Movimento Escolinhas de Arte (MEA), que con-gregou diversos educadores em torno do objetivo comum de difundir no Brasil essa experincia de educao. A Escolinha de Arte do Brasil tinha como objetivo principal:

1 O CAPE foi estudado por Silva (2002) e Antonio (2008).2 Ivany Moreira (1928-2008) nasceu em Piraquara, Paran. Formou-se artista plstica

pela Escola de Msica e Bela Artes do Paran e em licenciatura em desenho. Em 1961 foi nomeada diretora da Casa de Alfredo Andersen e chefe da DACE, da SEC-PR, a partir de 1965.

3 A pedagoga Lcia Rysicz (1923-2011), professora do ensino mdio e primrio em Guarapuava, Paran, foi chefe da Seo de Certames Escolares e da Seo de Orientao ao Magistrio da DACE a partir de 1966.

4 A professora normalista Icla Guimares Rodrigues (1941) foi dispensada pela SEC-PR para frequentar o curso intensivo de arte na educao da Escolinha de Arte do Brasil no Rio de Janeiro em 1963. Retornando a Curitiba, foi transferida para o Departamento de Cultura e designada coordenadora do CAPE em junho de 1965.

3Revista Brasileira de Educao v. 23 e230009 2018

Leituras de professoras

desenvolver nas crianas toda a fora de seu poder criador. Para isso, o grupo de professores que se integram no trabalho, confundindo-se com os alunos, cria uma atmosfera propcia liberdade, permitindo-lhes que se expressem sem ini-bies e afirmem suas personalidades. No papel, no barro, com lpis e pincis, so as crianas que experimentam, ensaiam, procuram e, o que mais impor-tante, encontram suas solues. (INEP, 1980, p. 37)

Uma importante referncia para a criao da Escolinha de Arte do Brasil teria sido uma exposio de desenhos de crianas inglesas realizada durante a Segunda Guerra Mundial que percorreu diversos pases, incluindo o Brasil, passando por Rio de Janeiro e So Paulo em 1941, e por Belo Horizonte e Curitiba em 1942. Promovida pelo British Council, essa mostra foi organizada pelo historiador e crtico de arte britnico Herbert Read (1893-1968), que viria a ser, nos anos seguintes, talvez a mais influente voz a de-fender a importncia da presena da prtica artstica no processo educacional da criana. Autor de diversas publicaes nessa rea, seu livro mais difundido A educao pela arte, traduo brasileira para o ttulo original Education Through Art, de 1943. Neste texto, Read defende a tese de que a arte deve ser a base da educao, o que produziria, segundo ele, pessoas eficientes nos mais diversos meios de expresso (Read, 2001, p. 12). Herbert Read conclui a obra deduzindo que, se existe um tipo de indivduo melhor que outros, este seria o artista, muito embora admitindo que no existe um tipo artstico, pois:

todo tipo tem sua atitude artstica (ou seja, esttica), seus momentos de desen-volvimento espontneo, de atividade criativa. Todo homem um tipo especial de artista e, em sua atividade criativa, ldica ou profissional (e numa sociedade natural, afirmamos, no deveria haver distino entre a psicologia do trabalho e a do ldico), ele est fazendo mais do que expressar-se: est manifestando a forma que nossa vida comum deveria assumir em seu desenrolar. (Read, 2001, p. 344)

Read propunha uma educao baseada na criatividade, tendo como meta atingir um entendimento universal por meio do desenvolvimento da sensibilidade e tolerncia das diversidades culturais. Esses ideais influenciaram educadores e ar-tistas brasileiros constituindo parte da proposta da Escolinha de Arte do Brasil, que recebeu a visita de Read em 1953, quando o britnico veio ao Brasil para compor o juri internacional da II Bienal de So Paulo. No ano seguinte, Read acolheria uma exposio de desenhos de crianas brasileiras em Londres (INEP, 1980, p. 82).

Alm desse autor britnico, outro educador, o austraco Viktor Lowenfeld, exer-ceu importante influncia nessa rea durante a segunda metade do sculo XX. Dois livros de Lowenfeld, Desarrollo de la capacidad creadora, de 1961, e El nio y su arte, de 1958, publicados pela editora argentina Kapelusz, contriburam de forma importante para a formao de educadores brasileiros interessados na participao da arte no desenvolvi-mento da criana. Lidos inicialmente em espanhol, somente em 1977 o segundo livro teve uma edio em portugus com o ttulo A criana e sua arte, publicada pela editora Mestre Jou. A influncia de Lowenfeld teria sido mais importante por suas proposi-es prticas, que possibilitavam uma sistematizao p