Marilena Chau­1 - chau­ | filosofia seiscentista: a descoberta da subjetividade? limiar | volume 5

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limiar | volume 5 | nmero 10 | 1. semestre 2017 | 3

Marilena Chau1

Filosofia seiscentista: a descoberta da subjetividade?

Resumo: Que a filosofia do Sculo XVII afirma a autonomia da razo inegvel. Ao liber-la da Revelao e dos dados imediatos da sensibilidade, afirma que o pensamento precisa e deve encontrar em si mesmo o caminho do verdadeiro, ou seja, instituir um mtodo de investigao da verdade que assegure a marcha contnua e correta do pensar. No entanto, seguindo posio de Merleau-Ponty de que a subjetividade s descoberta quando a conscincia reflexiva se torna a forma cannica do Ser, no poderemos falar de filosofia da subjetividade para determinar o ncleo da filosofia do Sculo XVII. A descoberta do conceito de subjetividade um feito do idealismo alemo, de Kant. Palavras-chave: subjetividade; racionalismo; idealismo alemo. Abstract: It is undeniable that the seventeenth century philosophy asserts the autonomy of reason. By releasing it from the Revelation and from the immediate sensibility, it affirms that thought needs and must find in itself the path of truth, that is to say, create a method of investigating the truth that assures the continuous and correct course of thinking. However, following Merleau-Ponty's perspective, in which subjectivity is only discovered when the reflective consciousness becomes the canonical form of Being, we cannot speak of philosophy of subjectivity to determine the core of the seventeenth century philosophy. The discovery of the concept of subjectivity is an accomplishment of German idealism, of Kant.

Keywords: Subjectivity; rationalism; german idealism.

1

Professora emrita do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo (USP). E-mail: 1mschaui@gmail.com .

mailto:1mschaui@gmail.com

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Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ningum da roda decifra nos seres de provncia.

Sou eu mesmo, que remdio!... Fernando Pessoa

eis-me a dizer: assisto

alm, nenhum, aqui, mas no sou eu, nem isto.

Carlos Drummond

Sou to misteriosa que no me entendo. Clarice Lispector

I

Nada mais exemplar para afirmar o nascimento da subjetividade na filosofia

dos seiscentos do que reler duas narrativas escritas num estilo cativante como relato

da busca de si e que, no entanto, parecem separadas por uma distncia imensurvel.

Outros formam o homem; eu o descrevo; e represento um particular, muito mal formado e o qual, se eu tivesse de moldar novamente, em verdade o faria outro (...) No pinto o ser. Pinto a passagem, no a passagem de uma idade para outra, como diz o povo, de sete em sete anos, mas dia a dia, minuto a minuto (...) Este um registro de acidentes diversos e mutveis, de imaginaes indecisas e, se calhar, contrrias, quer porque eu seja outro eu mesmo (moy-mesmes), quer porque capte os assuntos por outras circunstncias e consideraes. Seja como for, talvez eu me contradiga, mas a verdade, como dizia Demades, nunca a contradigo. Se minha alma pudesse firmar-se, eu no me ensaiaria; eu me decidiria; ela est sempre em aprendizagem e posta prova.

Assim escreve Montaigne no ensaio Arrependimento, no Livro III dos Ensaios,

advertindo ao leitor que, ao se desviar da pretenso do discurso pedaggico e se

ocupar com a passagem e no com o ser, ele o faz para admitir que pode, a cada

momento, ser um outro moy mesmes, envolvido numa caada sem a presa, sem

dispor de um fio que o conduza no labirinto de suas prprias contradies, mas tendo

como princpio jamais contradizer a verdade.

No sei se deva falar-vos das primeiras meditaes que a realizei; pois so to metafsicas e to pouco comuns, que no sero, talvez, do gosto de todo mundo (...) por desejar ento ocupar-me somente com a investigao da verdade, pensei que era necessrio (...) rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dvida, a fim de ver se aps isso, no restaria algo em meu crdito, que fosse inteiramente indubitvel (...) Mas logo em seguida, adverti que, enquanto eu queira assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade, eu penso, logo existo, era to firme e to certa que todas as mais extravagantes suposies dos cticos no seriam

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capazes de a abalar, julguei que podia aceit-la como o primeiro princpio da Filosofia que procurava.

Eis a clebre abertura da Quarta Parte do Discurso do Mtodo, escrito quando

Descartes, retirando-se para a Holanda, realiza na solido a busca do indubitvel

como condio para o fundamento da verdade filosfica, encontrando-o no eu penso.

II

Trs ocasies podem ser consideradas momentos de exposies exemplares

da recepo da filosofia seiscentista pelo pensamento dos que a sucederam: a de

Hegel, nas Lies de Histria da Filosofia, a de Husserl, nas Meditaes Cartesianas,

e a de Heidegger, no ensaio A poca da imagem do mundo.

A interpretao hegeliana enfatiza, na figura de Descartes, a descoberta da

autonomia da razo e da conscincia de si reflexiva como momento essencial da

verdade. A filosofia moderna funda-se a si mesma ao afirmar que o saber deve ser

posto somente pelo trabalho interior da razo, que recusa a exterioridade morta da

autoridade tanto de dogmas religiosos e teolgicos quanto de preconceitos sociais e

censuras polticas. S a razo conhece e por isso somente ela pode julgar a si

mesma. A antiga ideia de luz natural assume, agora, um novo sentido: auto-

iluminao do pensamento, que por si mesmo alcana a verdade.

A filosofia funda-se a si mesma (...). Aqui, podemos dizer que estamos em casa e, como o marinheiro, aps longa viagem por mar tempestuoso, podemos agora bradar terra vista!; com Descartes, a cultura dos tempos modernos, o pensamento da filosofia moderna, comea realmente a aparecer (...). Nessa nova poca, o princpio universal pelo qual tudo no mundo deve ser regulado o pensamento que procede de si mesmo; aquela interioridade primeiramente evidenciada pelo cristianismo e que o princpio protestante, com o qual o pensamento chegou conscincia do mundo em geral como aquilo a que todos tm direito. (...) apenas atravs do interior de meu livre pensamento que o pensamento pode ser reconhecido e ratificado por mim. Isso significa tambm que o livre pensamento tarefa do mundo e dos indivduos e , na verdade, um dever de cada homem, uma vez que tudo se funda nele (...). A filosofia torna-se, assim, um assunto de interesse universal e com relao ao qual cada um deve julgar por si mesmo, pois cada um pensador desde a origem.2

Com o Cogito, diz Hegel, a filosofia transplantada para outro solo e

transladada para outro ponto de vista: a esfera da subjetividade3. No se trata,

2

HEGEL. Lectures on the History of Philosophy. Londres: Routledge and Kegan Paul, 1968. Vol. III,

pp.217-218. 3

Ibidem, p. 228.

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portanto, apenas da interioridade, conhecida de longa data com a filosofia do perodo

helenstico e sobretudo com o cristianismo, e sim da auto-posio da conscincia de si

como sujeito. Mas no s isso. A auto-posio de si como sujeito simultnea

posio de si como o primeiro objeto do conhecimento, de sorte que, no clebre

Cogito, o pensamento e o ser esto enlaados4.

Por sua vez, na Introduo das Meditaes Cartesianas, Husserl afirma que

um dos mais importantes impulsos para o desenvolvimento da fenomenologia veio de

Descartes e a nova filosofia transcendental poderia ser chamada de neo-

cartesianismo, ainda que tenha rejeitado todo o contedo doutrinrio da filosofia

cartesiana, isto , a metafsica. Essa rejeio, contudo, se deve justamente ao fato da

nova filosofia transcendental haver dado um desenvolvimento radical ao

cartesianismo5. Husserl fala mesmo no alcance eterno das Meditaes e escreve:

Todo iniciante em filosofia conhece a notvel e surpreendente seqncia de pensamentos das Meditaes. Lembremos sua idia diretriz. Ela visa a uma reforma total da filosofia para fazer desta uma cincia com fundamentos absolutos. Para Descartes, isso implica numa reforma paralela de todas as cincias, visto que, a seus olhos, as cincias so somente membros de uma cincia universal que nada outro seno a filosofia. apenas na unidade sistemtica desta ltima que elas podem tornar-se verdadeiramente cincias. Ora, quando as cincias so consideradas em seu devir histrico, percebe-se que lhes falta esse carter de verdade que permite conduzi-las integralmente e em ltima anlise a intuies absolutas para alm das quais no se pode ir. Por isso torna-se necessrio reconstruir o edifcio que poderia corresponder idia da filosofia, concebida como unidade universal das cincias que se eleva sobre um fundamento de carter absoluto. Essa necessidade de reconstruo, que se impunha a Descartes, realiza-se em Descartes sob a forma de uma filosofia orientada em direo ao sujeito6.

Essa orientao transparece tanto na deciso inaugural de Descartes de

transformar a meditao em mtodo, isto , de ultrapassar a dimenso psicolgica do

eu para lhe dar um alcance universal, quanto no contedo das Meditaes, que

4

Ibidem. Evidentemente, alm da auton