LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos

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  • Idual.

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    pana."18I)prop6sites, 0 pequeno anfiteatro sombrio,glacial e arruinado que Deupa urn velho pavilhao num cantodo Jardim BoW-uico. A Sociedade dos Amigos do Museu aiorganizava todas as semanas - e talvez continue a faze-lo- conferencias sobre as ciencias naturais. 0 aparelho deprojecao enviava a uma tela demasiadamente grande, comlampadas excessivamente fracas, algumas sombras imprecisasde que 0 conferencista, com 0 nariz colado a parede, mal che-gava a perceber os contornos e que 0 publico qnase nao dis-tinguia das manchas de umidade que maculavam os IDuros.

    Quinze minutos depois da hora auuuciada, pensava-se aiudacom aDglistia se viriam outros ouvintes alem dos raros fre-qtientadores cujas silhuetas esparsas povoavam a plateia. Quan-do 0 desespero se anunciava, a sala se enchia pela metadecom criancas acompanhadas das maes ou de empregadas, nmasavidas de urn espetaculo gratuito, outras cansadas do barulhoe da poeira de fora. Diante dessa mistura de fantasmasroidos de tra~as e de gurizada impaciente - suprema recom-pensa de tantos esfor~s, de tantos cuidados e de tantos tra-balhos - llsava-se do direito de desencaixotar urn tesouro de

    recorda~es, geladas para sempre por uma tal sessao, e que,falando na penumbra, sentiamos desprender-se de n6s e cairuma a uma, como pedras no fundo de urn :tlOCo.

    Tal era 0 retorno, pouco mais sinistro que as solenidadesda partida: bauquete ofererido pelo "Comite Frauce-Amerique'num palacete da avenida que hoje se chama Franklin Roosevelt;residencia desabitada onde, lleSsa ocasHio, urn hoteleiro vinha,eom duas horas de antecedencia, instalar 0 seu acampamentode panelas e de lou~a, sem que urn apressado arejamento pu-desse purgar 0 lugar de urn odor de desola~ao.

    Tao pouco habituados a diguidade de tal lugar quauto aotedio poeirento que ele exalava, sentados em tarno de umaIllesa pequena demais para urn vasto saHio de que mal setinha tido tempo de varrer a parte central, efetivamenteocupada, tomavamos contacto pela primeira vez uns com osoutros, jovens professores que mal acabavamos de estrear nosnossos liceus de provincia, e que 0 capricho urn pouco per-verso de Georges Dumas ia bruscamente transferir - daumida invernagem das pens5es de sub-prefeitura, impregnadasde urn cbeiro de grogue, de porao e de sarmentos apagados- para os mares tropicais e para os navios de luxo, experilnciasessas, de resto, destinadas a oferecer longinqua rela~o coma imagem iuelutavelmente falsaque, pela fatalidade propriaas viagens, ja nos forjavamos.

    Eu tiuha sido aluuo de Georges Dumas ua epoca do Tratadode Psicologia. VIDa vez por semana, ja nao me recordo sena quinta-feira ou no domingo pela manha, ele reunia osestudautes de filosofia uuma sala do Hospicio Sainte-Aunecuja parede oposta As janelas estava inteiramente coberta de

    engra~adas pinturas de alienados. Todos ja se sentiam aliexpostos a' uma especie particular de exotismo. S6bre urnestrado, Dumas instalava 0 seu corpo robusto, talhado amachado, coroado de uma cabe~a amassada que parecia uma

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  • 12 O. LEVI-STRAUSS TRISTES TR6pICOS 13

    grande raiz esbranqui~ada e descascada por uma permanenciano fundo do mar. Pois a sua tez c5r de cera unificava 0rosto e os cabelos brancos, que ele cortava a escovinha, e abarbicha, igualmente branca e que crescia em todos os sen-tidos.:E'::sse curioso destr()c;;o vegetal, ainda ouri~ado das suasradiculas, tornava-se de repente humano pelo olhar de seusolhos negros que acentuavam a brancura da cabe~a, oposi~oque continuava na camisa branca e no colarinho engomado edobrado, contrastando com 0 chapeu de abas largas, a "laval-liere" eo' terno, sempre pretos.

    Seus eursos nao ensinavam grande coisa; ele jamais ospreparou, seguro que estava do encanto fisieo que exerciams5bre 0 seu audit6rio 0 j5go expressivo dos seus labios defor-mados por um rieto m6vel e sobretudo a sua voz, rouea emelodiosa: verdadeira voz de sereia eujas estranhas infle.xoesDaO lembravam apenas 0 seu Languedoc natal, mas, muitomenos que particularidades regionais, mOOos muito arcaicosda musica do frances falado, de tal forma que voz e rostoevocavam, em duas ordens sensiveis, urn mesmo estilo simulta-neamente rustico e incisivo: 0 dos humanistas do seculo XVI,medicos e fil6sofos cuja ra~a, pelo corpo e pelo espirito, eleparecia perpetuar.

    A segunda hora, e as vezes a terceira, era reservada aapresenta~ao de doentes: assistfamos entao a cenas estupendasentre 0 especialista astuto e sujeitos treinados por anos deasilo em todos os exercicios desse tipo; sabendo muito berno que se esperava deles, produziam perturba!:5es ao sinal con-vencionado ou resistiam 0 suficiente ao domador para for-necer-Ihe a ocasiao de urn "ntimero sensa~ao". Sem ser 10-grado, 0 audit6rio deixava-se de born grado fascinar por essas

    demonstra~oes de virtuosismo. Quando se merecia a aten~aodo mestre, era-se recompensado com a entrega de urn doente,com uma conversa~ao particular. Nenhum contacto com in-dios selvagens me intimidou mais do que a manha passadacom uma velha senhora enrolada em blusas de malha, queparecia urn arenque podre no meio de urn bloco de gelo: in-tacta na aparencia, mas amea~ada de se desintegrar desdeque 0 envolt6rio protetor derretesse.

    11:sse sabio urn pouco mistificador, anirnador de obras desintese cujos amplos objetivos permaneciam ao servi~o de urnpositivismo critico assas decepcionante, era urn hornem degrande nobreza; devia revela-Ia mais tarde, logo ap6s 0 armis-ticio e pouco antes da sua morte, quando, ja quase cego e

    retirado na sua cidade natal de Ledignan, fez questao de meescrever uma carta atenciosa e discreta, eujo tinieo objetivopossivel era afirmar a sua solidariedade com as primeirasvftimas dos acontecimentos.

    Sernpre lamentei nao have-Io conhecido em plena juven-tude, quando, moreno e queimado como urn conquistador etodo impaciente pelas novas perspectivas cientificas abertaspela psicologia do Beculo XIX, partira a conquista espiritualdo Novo Mundo. Ness:a especie de arnor a primeira vista quese ia produzir entre ele e a sociedade brasileira, manifestou-secertamente urn fen5meno misterioso quando dois fragmentosduma Europa velha de 409 anos - e da qual certos elementosessenciais se haviam conservado, por urn lado, numa familiapi'otestante meridional, e, por outro, numa burguesia muitorefinada e urn pouco decadente, vivendo molemente sob ostr6picos - se encontraram, se reconheceram e quase se res-soldaram. 0 erro de Georges Dumas foi 0 de jamais ter tidoconsciencia do carater verdadeiramente arqueol6gico desta

    conjun~ao. 0 tinico Brasil que ele soube seduzir (e ao qualuma breve passagem pelo poder ia dar a iIusao de ser 0 ver-dadeiro) era 0 dos proprietarios agrfcolas deslocan.do progres-sivamente seus capitais para aplica~oes industriais com parti-

    cipa~ao estrangeira, e que procuravam uma cobertura ideol6-gica num parlamentarismo bern educado; os mesmos que osnossos estudantes, provindos de imigrantes recentes ou de fa-zendeiros ligados a terra e arruinados pelas flutua!:5es do co-mercio mundial, chamavam com rancor os gran/ino8. Coisacuriosa: a fundarao da Universidade de Sao Paulo, grande

    \obra na vida de Georges Dumas, devia permitir a essas clas-ses modestas com~ar a sua ascensao, obtendo diplomas queIhes abriam acesso as posi!:5es administrativas, de tal formaque a nossa missao universitaria contribuin para formar umanova "elite", que se ia afastar de n6s ua medida em queDumas, e 0 Quai d'Orsay atras dele, se recusavam a com-preender que era ela a nossa cria~ao mais preciosa, emborase entregasse a tarefa de solapar uma classe feudal que noshavia, e verdade, introduzido no Brasil, mas para servir-lheem parte de cau~ao e em parte de passatempo.

    Porem, na noite do jantar "France-Amerique", nao nospreocupavamos ainda, meus colegas e eu - e nossas mulheres,que nos acompanhavam - em rnedir 0 papel involuntario que

    'famos desempenhar na 'L~ao da sociedade brasileira. Estii-vamos demasiadamente ocupados em nos fiscalizar mutuamente

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  • r14 o. LEVI-STRAUSS

    e os nossoS eventuais passos em falso; pois tinhamos side pre-venidos por Georges Dumas de que nos preeisavamos prepararpara levar a vida dos nossos novas senhores: isto e, freqijent~ro Autom6vel Clube, os cassinos e os hip6dromos. ISBa pareClaextraordimirio a jovens profess(')res que antes ganhavam 26.000francos por ano, e meSilla - tao raros eram os candidatosit expatria~ao - depois que os nossos honorarios se triplicaram.

    "Sobretndo", havia-nos dito Dumas, "teremos de nos ves-tir bern"; e preocupado em nos tranqiiilizar, ajuntava com umacandura bern tocante que issa poderia ser feito muito econo-micamente, naG longe do mercado, nUID estabelecimento chama-do "A la Croix de Jeanette" de que jamais tivera queixasnos tempos em que era urn jovem estudante de medieina emParis.

    II

    A BORDO

    Nao adivinhAvamos, em todo caso, que, durante os quatroou cinco anos que se seguiram, nosso pequeno grupo estavadestinado a constituir - salvo raras exce~es - 0 efetivointeiro da primeira classe nos paqu