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GANCHO Introducao Poesia 2014

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Text of GANCHO Introducao Poesia 2014

GANCHO, Candida Vilares

PAGE 4GANCHO, Candida Vilares. Introduo poesia. So Paulo, Atual, 1989.

CANDIDA VILARES GANCHO: INTRODUO POESIA.

SUMRIO

PARTE I A ABORDAGEM DA POESIA p. 3.1. INTRODUO

Gneros literrios

O gnero lrico

Terminologia potica

2. CARACTERSTICAS DA POESIA p. 6.Subjetividade

Estrutura em versos

Ritmo

Exerccios

3. A LINGUAGEM DA POESIA p. 11.Lngua e linguagem

Linguagem conotativa e linguagem denotativa

Caractersticas da linguagem da poesia

Exerccios

4. A IMAGEM POTICA p. 14.Caractersticas da imagem

Analogia

Mltipla significao

Exerccios

5. FORMA E CONTEDO DO POEMA p. 17.O contedo do poema

Tema e assunto

A forma do poema

Mtrica

Metro: definio e tipos

Rima: definio e tipos

Outros recursos sonoros

Estrutura em versos e estrofes

6. TIPOS DE POEMA QUANTO FORMA p. 22.Quanto mtrica

Poemas metrificados

Poema em versos livres

Quanto rima

Poemas rimados

Poemas em versos brancos

O soneto

ExercciosPARTE II POESIA: OUTRAS QUESTES p. 261. O POETA

Poeta ou poetisa?

O eu potico

Exerccios

2. POESIA E METALINGUAGEM p. 29.Exerccios

3. POESIA E MODERNIDADE 32.Modernidade

Temas modernos

Estrutura e estilo modernos

Caractersticas formais e estilsticas da poesia moderna

Exerccios

4. MISTURA DE GNEROS p. 38.Poema narrativo

Poema descritivo

Poema teatral

Poema dissertativo

PARTE III COMO ANALISAR UM POEMA p. 41.ANLISE E INTERPRETAO

Modelo de anlise

Primeiro contato com o texto

Tpicos para anlise

Exemplo de anlise

Exerccios

PARTE IV EXERCCIOS POTICOS p. 47.BIBLIOGRAFIA COMENTADA

Parte I A ABORDAGEM DE POESIA.

1. INTRODUO

De modo geral a poesia e seu estudo so considerados pela maioria dos alunos como algo difcil, chato, enfim, sem sentido. Tal preconceito pode ser reforado por um ensino inbil, preocupado somente com transmitir uma srie de conceitos dos quais voc j deve ao menos ter ouvido falar: rima, mtrica, verso, estrofe, etc.Neste livro, pretende-se levar o leitor a se familiarizar com o texto potico e reconhecer o, digamos assim, esprito potico. Vamos procurar nos aproximar dele sem ideias preconcebidas para que possamos compreend-lo melhor.A poesia est mais prxima de ns do que imaginamos. H poesia nas letras de msica:

No posso ficar nem mais um minuto com voc

Sinto muito, amor, mas no pode ser

Moro em Jaan. Se eu perder esse trem

Que sai agora s onze horas

S amanh de manh [...]

nas brincadeiras infantis:A vaca amarela

Fez aquilo na panela

Quem falar primeiro

Come toda a caca dela.

nas pginas da Bblia:

Tudo tem seu tempo

Todas as coisas tm seu tempo

e todas elas passam debaixo do cu

segundo o tempo que a cada uma foi prescrito.

H tempo de nascer e tempo de morrer

H tempo de plantar de tempo de se arrancar o que se plantou

H tempo de matar e tempo de sarar

H tempo de destruir e tempo de edificar

[...]

H tempo de calar e tempo de falar

H tempo de amor e tempo de dio

H tempo de guerra e tempo de paz.

(Livro do Eclesiastes 3)

Poderamos concluir que a poesia tem participao ativa em nossa vida e est dentro de cada um. Todos ns, em algum momento de nossas vidas, experimentamos algo que poderamos chamar de sentimento potico. Voc j se sentiu muito emocionado e teve vontade de desabafar por escrito? Essa manifestao escrita de um sentimento no constitui ainda a poesia propriamente dita, mas seu ponto de partida.GNEROS LITERRIOS

Desde Plato e Aristteles (filsofos da Grcia Antiga), considera-se importante classificar os textos literrios em gneros, para o estudo da literatura.

Vamos definio de gnero:

Gnero uma categoria de texto, caracterizada por seu estilo (linguagem) e por sua estrutura.

Mas, apesar dessa concordncia geral entre os estudiosos de literatura, h muitas divergncias quanto classificao e definio dos gneros. Neste livro, adotamos uma das classificaes mais usuais:Gnero pico: o gnero narrativo, isto , de fico (inveno). O termo pico vem de epopeia, poema que narra aventuras hericas; porm, modernamente, o gnero pico restringe-se prosa: conto, crnica, romance.

Gnero dramtico: o gnero ao qual pertence o teatro, enquanto texto (e no enquanto espetculo).

Gnero lrico: o gnero da poesia por excelncia.

O GNERO LRICO

A poesia pertence principalmente ao gnero lrico, embora existam a poesia narrativa, a poesia dramtica e ainda outros tipos de poesia no-lrica. Neste livro trataremos sobretudo da poesia lrica.

Poesia lrica aquela que essencialmente expressa sentimentos.

Vamos observar dois exemplos de textos poticos que expressam o mesmo sentimento amor , mas que so de pocas diferentes.

1

[Sem ttulo]

Amor fogo que arde sem se ver; ferida que di e no se sente;

um contentamento descontente;

dor que desatina sem doer;

um no querer mais que bem querer;

solitrio andar por entre a gente;

um nunca contentar-se de contente;

cuidar que se ganha em se perder.

querer estar preso por vontade;

servir a quem vence, o vencedor; ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor

Nos coraes humanos amizade,

Se to contrrio a si o mesmo amor?

(Lus de Cames. Lrica. 3. Ed. So Paulo, Cultrix, 1968. p. 123.)

CorridinhoO amor quer abraar e no pode.

A multido em volta,

Com seus olhos cedios,

pe caco de vidro no muro

para o amor desistir.

O amor usa o correio,

o correio trapaceia,

a carta no chega,

o amor fica sem saber se ou no .

O amor pega o cavalo,

desembarca do trem,

chega na porta cansado

de tanto caminhar a p.

Fala a palavra aucena,

pede gua, bebe caf,

dorme na sua presena,

chupa bala de hortel.

Tudo manha, truque, engenho:

descuidar, o amor te pega,

te come, te molha todo.

Mas gua o amor no .

(Adlia Prado. O corao disparado. 2. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977. p. 59.)

Embora de pocas diferentes (o primeiro texto do sculo XVI e o segundo bem atual), percebe-se que esses dois textos tentam definir o amor. O amor mudou? Quase nada. Continua contraditrio, um sentimento difcil de definir, prximo e distante ao mesmo tempo, que domina o ser humano e o faz sofrer, mas que tambm d muito prazer. O que distingue os dois poemas no o contedo, mas a forma e o estilo. Em outras palavras, h diferena no modo de escrever os dois textos, bem como uso distinto dos elementos formais que os constituem: o primeiro texto tem rima (coincidncia de sons no final dos versos), o segundo no. O texto de Cames tem linguagem mais formal, enquanto o de Adlia Prado utiliza uma linguagem mais prxima da fala cotidiana.De qual deles voc gostou mais? Antes de responder, note que gosto no apenas uma questo pessoal, mas tambm uma questo de poca: cada poca tem sua maneira de expresso literria. Voc ver nesse livro muitos textos de poesia que lhe parecero um pouco distantes, por serem de outra poca, mas na verdade o que os distingue so apenas alguns aspectos formais ou estilsticos e um modo peculiar de ver o mundo. Ser possvel perceber neles, bem como nos textos mais atuais, o mesmo carter subjetivo que a poesia lrica tem expressado atravs dos sculos: os sentimentos do indivduo em relao ao amor, a Deus, natureza, etc.TERMINOLOGIA POTICA

Antes de passarmos s caractersticas da poesia, vamos estabelecer uma terminologia potica comum que ser empregada no decorrer deste livro:Poesia: Nome genrico que se d ao gnero lrico: pode ser usado tambm para designar a produo potica inteira de um poeta.

Poema: Nome que se d a um texto de poesia em particular.

Verso: Nome que se d a cada linha de um poema.Estrofe: Conjunto de versos de nmero varivel: tanto pode ter um verso como dez ou vinte.

Mtrica: Nome que se d tcnica de compor versos segundo determinado metro ou tamanho; o nome que se d tambm ao nmero de slabas poticas em cada verso.

Metro. Medida determinada de verso, que pode variar de duas slabas poticas at doze, de modo geral.

Rima: Nome que se d coincidncia de sons que ocorre em especial ao final dos versos.2CARACTERSTICAS DA POESIA

A poesia se caracteriza por trs elementos associados: Subjetividade

Estrutura em versos

Ritmo

SUBJETIVIDADE

Subjetividade a caracterstica de um texto (ou de outra obra qualquer) de estar voltado sobretudo para o autor (= eu) e no tanto para a realidade objetiva, exterior ao eu.

Todo texto literrio subjetivo se expressa uma viso particular do mundo, porm na poesia que a subjetividade se manifesta de modo mais direto, isto , sem que seja necessrio criar personagens, ambientes, dilogos para expressar as emoes do autor.

Para distinguir um texto subjetivo de outro objetivo, deve-se no apenas detectar a inteno do texto (Retrata a realidade? Enfatiza as emoes do autor?), mas tambm a linguagem utilizada em cada caso.

A linguagem formal, mais tcnica, usada geralmente nos textos objetivos.

Os textos objetivos mais conhecidos dos alunos so:

Cientficos: livros didticos, revistas especializadas em cincias;

Jornalsticos: jornais e revistas de atualidades;

Dissertativos: textos que defendem uma tese (ideia), comprovando-a com argumentos baseados em fatos reais.

A linguagem conotativa ou figurada mais adequada ao texto subjetivo, porque, para expressar emoes e seu ponto de vista particular, o autor recria a linguagem, isto , utiliza-a de modo original. Isso ocorre principalmente nos textos literrios: conto, romance, poema, etc.

Observe essa distino nos dois textos que seguem:

1.

Democracia urbanaA nenhum urbanide brasileiro passa despercebida a pssima qualidade de vida existente nos mdios e grandes centros urbanos: transporte coletivo precrio, trnsito insuportvel, habitao cara e inacessvel, ausncia de espaos de lazer e de reas verdes, poluio atmosfrica, sonora e visual. [...]

(Fbio Feldman Folha de S. Paulo, 29/7/87.)

2

Trastevere

A cidade moderna

dizia o cego a seu filho

os olhos cheios de terra

o bonde fora dos trilhos

a aventura comea

no corao dos navios

pensava o filho calado

pensava o filho ouvindo

que a cidade moderna

pensava o filho sorrindo

e era surdo era mudo

mas que falava e ouvia [...]

(Ronaldo Bastos e Milton Nascimento Disco Minas)

O primeiro texto objetivo, porque aborda de modo dissertativo os problemas reais das cidades; e o segundo subjetivo, no apenas porque revela um modo particular de sentir a cidade, como tambm devido utilizao de linguagem figurada.ESTRUTURA EM VERSOS

O poema um texto estruturado em versos. Cada verso do poema constitui uma sntese de pensamento, linguagem e sonoridade, ao final do qual d-se uma pausa, de maneira que a leitura e posterior interpretao do texto so orientadas pela estrutura em versos (verso, pausa, verso); compreende-se assim que a estrofe (conjunto de versos) representa uma pausa maior. Tal estrutura confere ao poema um carter particular, muito diferente do texto em prosa: a possibilidade de ler o texto de modo descontnuo, de escolher como iniciar a leitura, sem respeitar a ordem habitual (do incio para o fim). Veja no texto que segue como se evidencia a estrutura em versos:Serenata sintticaRua torta

Lua morta

Tua porta

(Cassiano Ricardo. Seleta em prosa e verso. 2 ed. Rio de Janeiro, J. Olmpio, 1975. p. 60.)

Nesse poema, a estrutura em versos permite ler o poema de diferentes formas. De maneira linear indo da rua, vendo a lua e batendo porta ou compondo a situao de serenata como se desejar, pela alterao da ordem dos versos. Observe que, apesar da autonomia, conferida pela sntese presente em cada verso, h recorrncia sonora (repetio dos sons ua, orta).RITMO

Ritmo o elemento determinante de um texto potico. O poema pode no apresentar rima, mas sempre ter um ritmo, que o distinguir de outro texto que no ser potico. O ritmo produzido intencionalmente pelo poeta no plano sonoro da linguagem: nasce, em resumo, da harmonia de sons (slabas tnicas, jogos sonoros de modo geral, isto , rimas e outras coincidncias de sons) e de pausas (especialmente no fim de cada verso). O ritmo no apenas confere beleza ao poema, como tambm pode refletir o contedo do texto.

A caracterizao de um ritmo no poema uma tarefa difcil, pois exige ateno e sensibilidade e est sujeita a muitas interpretaes. Assim, recomenda-se que o aluno procure sempre justificar sua impresso sobre o ritmo com dados fornecidos pelo prprio texto.

Observe a diferena de ritmos destes dois poemas:

1)

Letra para uma valsa romnticaA tarde agoniza

Ao santo acalanto

Da noturna brisa.

E eu tambm morro,

Morro sem consolo,

Se no vens, Elisa!

Ai nem te humaniza

O pranto que tanto

Nas faces desliza

Do amante que pede

Suplicantemente

Teu amor, Elisa!

Ri, desdenha, pisa!

Meu canto, no entanto,

Mais te diviniza,

Mulher diferente,

To indiferente,

Desumana Elisa!

(Manuel Bandeira. Antologia potica. 17 ed. Rio de Janeiro. J. Olympio, 1986. p. 131-2.)2.

PercursoO arco-ris,

o urso.

Meus dois sustos

iniciais.

Mas o tempoponte que cresceu

entre mim e eu.

E por onde vim.

No enterro

de cada minuto,

pergunto

quem morreu

em mim?

O arco-ris?

O urso?

(Cassiano Ricardo. Jeremias sem chorar. 3. ed. Rio de Janeiro. J. Olympio, 1976, p. 15.)

O poema de Manuel Bandeira apresenta um ritmo cadenciado que nos lembra de fato uma valsa romntica. Isso se evidencia pela regularidade do tamanho dos versos e pela repetio frequente dos sons nasais e graves anto e ente, que por sua vez se contrapem ao som mais agudo e sibilante Isa. Esse ritmo de valsa est intimamente ligado ao contedo do poema: lamento de amor.

J no poema de Cassiano Ricardo, o ritmo mais truncado, mais sombrio, tendo em vista a alternncia de versos curtssimos e outros um pouco maiores e a recorrncia de sons sombrios i e u. Esse ritmo mais fragmentado parece refletir propositalmente o estado de esprito do eu potico (o eu que fala no poema), dividido entre mim e eu.

Ritmo: o que distingue verso e prosa

Para que voc perceba que o ritmo importante na poesia, a ponto de distingui-la da prosa, leia com ateno o seguinte texto:

Verso e prosa

O ritmo no s o elemento mais antigo e permanente da linguagem, como ainda no difcil que seja anterior prpria fala. Em certo sentido pode-se dizer que a linguagem nasce do ritmo ou, pelo menos, que todo ritmo implica ou prefigura uma linguagem. Assim, todas as expresses verbais so ritmo, sem excluso das formas mais abstratas ou didticas da prosa. Como distinguir, ento, prosa e poema? Deste modo: o ritmo se d espontaneamente em toda forma verbal, mas s no poema se manifesta plenamente. Sem ritmo no h poema; s com o mesmo, no h prosa. O ritmo condio do poema, enquanto inessencial para a prosa. Pela violncia da razo as palavras se desprendem do ritmo; essa violncia racional sustenta a prosa, impedindo-a de cair na corrente da fala onde no regem as leis do discurso e sim as da atrao e repulso. Mas este desenraizamento nunca total, porque ento a linguagem se extinguiria. E com ela, o prprio pensamento. A linguagem, por inclinao natural, tende a ser ritmo. [...]

A prosa um gnero tardio, filho da desconfiana do pensamento ante as tendncias naturais do idioma. A poesia pertence a todas as pocas: a forma natural de expresso dos homens. No h povos sem poesia, mas existem os que no tm prosa. Portanto, pode-se dizer que a prosa no uma forma de expresso inerente sociedade, enquanto inconcebvel a existncia de uma sociedade sem canes, mitos ou outras expresses poticas. [...]

(Octvio Paz. Signos em rotao. 2. ed. So Paulo, Perspectiva, 1976. p. 11-2.)

Nesse texto, o poeta e ensasta Octavio Paz aborda a poesia de uma perspectiva bastante inovadora; para ele a poesia o gnero mais espontneo para o ser humano, uma vez que ela concretiza o ritmo inerente prpria linguagem. J a prosa seria a consequncia da racionalizao do homem sobre a linguagem. O que distingue, pois, prosa ou poesia a maior ou menor adeso ao ritmo natural da linguagem humana.EXERCCIOS

1. Questes sobre o texto Verso e prosa de Octvio Paz, que voc acabou de ler:

a) De acordo com o texto, qual a caracterstica fundamental da linguagem?

b) Em que tipo de texto o ritmo se manifesta mais plenamente?

c) Considerando que o termo razo se refere capacidade humana de raciocinar, e que se ope emoo, lado sentimental do homem, explique o que o autor entende por violncia racional.

d) O que o autor quis dizer com a frase a poesia pertence a todas as pocas?

e) Segundo o autor, o modo mais natural de expresso do homem a prosa ou a poesia? Por que? Voc concorda? D sua opinio.

2. Leia os poemas a seguir e compare-os (baseie-se na comparao entre os poemas de Cames e Adlia Prado feita na Introduo):

[Sem ttulo]Plida, luz da lmpada sombria,

Sobre o leito de flores reclinada,

Como a lua por noite embalsamada,

Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar na escuma fria

Pela mar das guas embalada!

Era um anjo entre nuvens dalvorada

Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...

Negros olhos as plpebras abrindo...

Formas nuas no peito resvalando...

No te rias de mim, meu anjo lindo,

Por ti as noites eu velei chorando,

Por ti nos sonhos morrerei sorrindo!

(lvares de Azevedo. Antologia. 5. ed. Rio de Janeiro, Agir, 1977. p. 80)

Tereza

A primeira vez que vi Tereza

Achei que ela tinha pernas estpidas

Achei tambm que a cara parecia uma perna.

Quando vi Tereza de novo

Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo

(os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez no vi mais nada

Os cus se misturaram com a terra

E o esprito de Deus voltou a se mover sobre a face das guas.

(Manuel Bandeira, Obra citada. p. 73)

a) Preencha as lacunas para completar os seguintes quadros comparativos:Aspectos comuns

1. tema: mulher amada

2. o poema enfoca... da mulher

3. sentimento predominante no poeta:...

Aspectos diferentes1 poema2 poema

1. parte do corpo mais valorizada na mulherSeios

2. o poeta se dirige amada comcerto desprezo

3. atributos da mulherBanais

4. existncia de pontuaoSim

5. existncia de rimaNo

6. respeito a um metro (tamanho dos versos)Sim

b) Escreva com suas palavras o que cada poeta pensa do amor e da mulher amada.

c) Com qual dos poemas voc mais se identificou?

3. Leia os textos abaixo, (letras de msica popular brasileira) e responda as perguntas:

Qualquer coisa

[...] Mexe qualquer coisa dentro doida

J qualquer coisa doida dentro mexe

No se avexe num baio de doisDeixe de manha

Pois sem essa aranha, sem essa aranha

Nem a sanha arranha o carro

Nem o sarro arranha a Espanha

Messa tamanha, messa tamanha

Esse papo seu j t de manh [...]

(Caetano Veloso disco Qualquer coisa)

Construo

Amou daquela vez como se fosse a ltima

Beijou sua mulher como se fosse a ltima

E cada filho seu como se fosse o nico

E atravessou a rua com seu passo tmido

Subiu a construo como se fosse mquina

Ergueu no patamar quatro paredes slidas

Tijolo com tijolo num desenho mgico

Seus olhos embotados de cimento e lgrima

Sentou pra descansar como se fosse nufrago

Comeu feijo com arroz como se fosse um prncipe

Bebeu e soluou como se fosse um nufrago

Danou e gargalhou como se ouvisse msica

E tropeou no cu como se fosse um bbado

E flutuou no ar como se fosse um pssaro

E se acabou no cho feito um pacote flcido

Agonizou no meio do passeio pblico

Morreu na contramo atrapalhando o trfego [...].

(Chico Buarque de Holanda Disco Construo)a) O ritmo do primeiro poema mais envolvente, mais alegre. Aponte uma justificativa para a afirmao no texto.b) No segundo poema o uso de proparoxtonas no final dos versos uma caracterstica marcante. Considerando isso, caracterize o ritmo do poema usando um ou mais adjetivos.

3A LINGUAGEM DA POESIA

Antes de identificar a linguagem da poesia, necessrio esclarecer alguns conceitos:

LNGUA E LINGUAGEM

Lngua ou cdigo lingustico o conjunto de palavras e de estruturas que torna possvel a comunicao entre pessoas de determinada regio.

Todos os povos falam alguma lngua, que tem seu vocabulrio, suas estruturas sintticas bsicas, suas normas. Porm uma mesma lngua se manifesta de diferentes modos, dependendo do tipo de comunicao na qual usada. Ao fazer uma prova, voc usa uma linguagem formal; para falar com seus colegas, voc usa uma linguagem coloquial. Conclui-se ento que uma lngua admite muitas linguagens.

Linguagem o modo especfico de usar a lngua (ou outro cdigo no-verbal).

LINGUAGEM CONOTATIVA E LINGUAGEM DENOTATIVA

H muitas modalidades de linguagem, inclusive as no-verbais (por exemplo, a linguagem dos surdos-mudos). Para o estudo da poesia, interessam-nos especialmente dois tipos: a linguagem conotativa ou figurada e a linguagem denotativa.

Para que se possa compreender melhor o que a linguagem conotativa (tpica da poesia), necessrio compar-la linguagem denotativa.

Linguagem denotativa a linguagem usada em quase todo tipo de comunicao, baseada no emprego habitual das palavras e das estruturas sintticas. Enfim, a linguagem cujo significado pode ser esclarecido em qualquer dicionrio.

Linguagem conotativa a linguagem figurada; seu uso implica criatividade e originalidade, j que as palavras ganham novos significados de acordo com o contexto.

A lngua ou o cdigo lingustico tem muitas funes. A primeira delas comunicar. Se chamamos pedra a um objeto, todos os membros da comunidade, ao ouvirem ou lerem a palavra pedra, associam-na ao ser que ela designa. A linguagem denotativa a que se baseia nessa relao imediata objeto-palavra. No entanto, objeto e palavra so realidades totalmente distintas, tanto que o mesmo objeto tem nomes diferentes em diversas lnguas: pedra stone, em ingls, pierre, em francs, piedra, em espanhol, etc.

A linguagem conotativa ou figurada difere da linguagem denotativa porque sua funo no s comunicar, mas tambm expressar emoes particulares do autor, ser original. Por isso muito usada nos textos literrios em geral, mas na poesia lrica que a conotao se manifesta com mais fora. O poeta no diria pedra, mas fruto endurecido da terra, por exemplo. Por outro lado, o poeta pode dizer olhos de pedra. Neste caso ele no est se referindo ao objeto real: a palavra pedra foi usada com novos significados, diferentes dos habituais. A conotao consiste, pois, em dar nomes diferentes a coisas j conhecidas e usar nomes conhecidos para designar algo novo.CARACTERSTICAS DA LINGUAGEM DA POESIA

A linguagem potica possui trs caractersticas bsicas:

1) As palavras tm novos e mltiplos significados.

2) A sonoridade das palavras to importante quanto seu significado.

3) s vezes ocorrem neologismos: criao de vocbulos a partir das possibilidades da lngua.

Voc poder reconhecer essas caractersticas nos trs poemas que seguem:

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas to fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade. Reunio. 9. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1978. p. 12.)

Nesse poema, a pedra no objeto real que conhecemos a pedra no meio do caminho pode significar muitas coisas: o que atrapalha; a coisa marcante; a coisa desprezvel, que, pela repetio, passa a existir para o poeta. Enfim, a pedra no meio do caminho admite uma infinidade de interpretaes. De qualquer modo, fica evidente que a palavra pedra e o objeto por ela designado tm existncias distintas.

Rola a chuva

Arre

que arrelia!

o frio arrepia

a moa arredia.

Na rua rola a roda...

Arreda!

Rola a chuva,

rega a terra,

rega a rua.

E na rua a roda rola.

(Ceclia Meireles. Ou isto ou aquilo. 3. ed. Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1979. p. 76.)

Nesse poema, Ceclia Meireles usou as palavras levando em considerao no apenas seu significado, mas tambm sua sonoridade. A alterao do uso convencional das palavras tem aqui um carter ldico, isto , de brincadeira.Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.

Intransitivo:

Teadoro, Teodora.

(Manuel Bandeira. Obra citada. p. 136.)

Neste poema o poeta no se contenta com palavras que j existem e inventa uma nova, isto , um neologismo. O termo teadorar criao do poeta a partir das possibilidades que a lngua oferece. J existe a expresso te adoro, mas o poeta junta-a numa s palavra, para formar um verbo parecido com o nome da amada Teodora.

EXERCCIOS

1. Classifique como conotativa ou denotativa a linguagem das seguintes frases:

a) O Amazonas o maior rio brasileiro.

b) Rios de sangue correram.

c) Meu corao uma ma madura, convidando mordida.

d) Doe seu corao e voc poder salvar uma vida.

e) Asa azul alisando o cu.

f) O pardal caiu do galho e quebrou a asa.

g) A asa da xcara azul partiu-se.

2. As palavras, independentemente do seu sentido habitual, podem despertar-nos sensaes diferentes, isto , seu aspecto, sua sonoridade podem sugerir muitas outras significaes. Pensando nisso, escreva uma palavra que voc ache:

a) gorda;

b) magra;

c) triste;

d) alegre

e) esquisita;

f) romntica;

g) macia;

h) sonora.

3. Para exercitar a linguagem conotativa, invente outros nomes para:

a) os seguintes objetos: cadeira, abajur, televiso, bicicleta;

b) os dias da semana.

4. Elabore um pequeno texto conotativo com palavras que tenham sons semelhantes (por exemplo: nela, janela, panela, panela, ou justo, jato, jeito).

5. Responda e justifique: pode-se usar a linguagem conotativa:

a) numa prova de histria?

b) numa conversa por telefone?

c) num poema?

4

A IMAGEM POTICA

A palavra imagem popularmente usada para dar nome a uma representao de algo real uma foto, um desenho, etc. ou aos produtos de nossa imaginao.

Para muitos estudiosos de poesia, o termo imagem serve tambm para designar toda expresso de linguagem figurada ou conotativa. A imagem guardaria em si uma dupla relao: com a realidade que representa e com a viso do autor sobre esta realidade. Assim, aquilo que o poeta escreve pode ser comparado ao objeto real e sensao que tal objeto despertou no autor.

Vamos definio de imagem, baseada neste ponto de vista:

Imagem o nome genrico de todas as figuras de linguagem (expresses de linguagem figurada ou conotativa).

CARACTERSTICAS DA IMAGEM

As imagens tm muitas caractersticas, mas possvel destacar duas principais:

Analogia

A descoberta da semelhana uma das caractersticas principais da imagem. A comparao cria relaes novas entre objetos, palavras e sons:

a) analogia entre objetos Num poema possvel comparar objetos que raramente so comparados:

Hora grafada

De noite no mato as rvores semelhavamuma guia acabada de pousar,

um anjo saudando,

um galo perfeitinho,

uma ave grande vista de frente.

De noite no mato, as vivas figuras enraizadas,

prontas a falar ou bater asas.

(Adlia Prado. Bagagem. 2. ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1979. p. 49.)

Nesse poema clara a comparao entre as rvores e uma guia, um anjo, um galo, uma ave. O que torna possvel comparar objetos to diferentes o elemento comum entre eles: nesse caso, as asas ou a semelhana com asas.b) analogia entre palavras s vezes o poeta estabelece comparao entre palavras, levado em considerao menos o significado que a sonoridade das palavras:[Sem ttulo]

bebacocacola

babe

cola

bebacoca

babecolacaco

caco

cola

cloaca

(Dcio Pignatari. Poesia pois poesia. So Paulo. Duas Cidades, 1977. p. 133.)

Neste poema o autor compara as palavras beba e babe, coca e coca-cola e cloaca. Usando a semelhana das palavras, o autor fez sua crtica ao consumo.

c) Analogia entre sons Em alguns poemas evidente a comparao entre os sons das palavras: A onda

a onda anda

aonde anda

a onda?

a onda ainda

ainda onda

ainda anda

a onde?

aonde?

a onda a onda

(Manuel Bandeira. Obra citada. p. 170.)

Nesse poema se percebe o recurso analogia entre os sons on, an, in. Usando essa comparao, o autor tentou reproduzir o som e o movimento das ondas do mar.Mltipla significao

A imagem tem muitos significados, mas representa a unidade, uma sntese verbal: o poeta resume realidade-sensao, usando poucas palavras. A criao da imagem determinada pela economia de palavras, porm, em sua interpretao, ela se configura como um processo cumulativo de vises A significa B + C + D + ...[...] A saudade arrumar o quarto

Do filho que j morreu.

(Chico Buarque de Holanda. Pedao de mim Disco pera do malandro)

Essa imagem associa saudade outros sentimentos: perda, angstia. Em outras palavras, poderamos dizer que a saudade a solido de um quarto vazio, ou que a saudade como a perda de um filho, ou ainda que a saudade como uma atividade intil, etc. As interpretaes vo se acumulando e a beleza da imagem criada por Chico Buarque reside justamente na capacidade de reunir, numa expresso to curta, tantos significados.

Mais um exemplo:

[...] o amor desenha uma curva

prope uma geometria [...]

(Carlos Drummond de Andrade. O amor bate na aorta. Em: Obra citada. p. 33)

Dessa imagem podemos depreender muitos significados. O primeiro e talvez mais simples o de que o amor capaz de muitas coisas. Analisando a relao entre as palavras curva e geometria, podemos tambm concluir (sem inventar) que a geometria a cincia que, entre outras coisas, estuda as curvas; em outras palavras, as curvas esto contidas na geometria, e assim o amor seria o comeo de algo maior e mais perfeito que ele mesmo. Podemos ainda dizer que curva mais concreto (em termos de significado) que geometria, sendo pois o amor o esboo de algo concreto que corresponde a algo transcendente a si mesmo. E pode haver outras interpretaes. Tente a sua.EXERCCIOS1. Procure comparar coisas que voc nunca tentou comparar. Por exemplo: amor e dentes, lua e peixes, solido e dedos.

2. Interprete as seguintes imagens, dando pelo menos dois significados para cada uma:

a) Um grito pula no ar como um foguete. (Carlos D. de Andrade)

b) Meu palet enlaa seu vestido. (Chico B. de Holanda)

c) Voc uma navalha pros meus olhos. (Jorge Mautner).

3. Use estas palavras para criar imagens:

a) gua

b) trem

c) dedo

d) rua

e) solido

f) amor

g) boca

h) branca

i) verde

4. No poema de Dcio Pignatari visto neste captulo, h uma associao de palavras que se desmembram no slogan Beba coca-cola e que acabam por se aglutinar na palavra cloaca.

a) Procure no dicionrio o significado de cloaca.

b) Com base nesse significado, pode-se concluir que o poema faz uma crtica. Explique o que voc entendeu.

5

FORMA E CONTEDO

DO POEMA

O CONTEDO DO POEMA

Tema e assunto

possvel distinguir tema de assunto em praticamente todo tipo de texto. Observe as definies desses termos:

Assunto aquilo de que fala concretamente um texto.Tema a abstrao do assunto, a ideia que depreendemos dele.

Vejamos a distino entre tema e assunto neste poema:

Poema tirado de uma notcia de jornal

Joo Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilnia num barraco sem [nmero

Uma noite ele chegou ao bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Danou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

(Manuel Bandeira. Obra citada. p. 73.)

Nesse poema o assunto aquilo de que fala concretamente o texto, isto , o que fez Joo Gostoso antes de sua morte. O tema a ideia (abstrao) que se pode depreender do assunto: nesse caso, o absurdo da existncia humana.

Os poemas podem abordar qualquer tipo de tema: amor, guerra, Deus, Natureza e o prprio fazer potico.

A FORMA DO POEMA

Mtrica

Mtrica a tcnica de compor versos seguindo um metro; o processo de medir o tamanho dos versos.

A contagem das slabas poticas em lngua portuguesa feita da seguinte maneira:

1) Numeram-se as slabas gramaticais de cada verso.

2) Consideram-se as elises e as crases poticas.

Eliso: encontro entre vogais tonas do fim de uma palavra e comeo de outra.

Crase: encontro entre vogais iguais, do fim de uma palavra e comeo de outra.

3) Contam-se ento as slabas at a ltima slaba tnica do verso, desprezando-se a(s) postnica(s) final(is).

Observe-se a contagem das slabas poticas nos exemplos que seguem:

Soneto de fidelidade

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10[...] Que / ro / vi / v-/ lo em /ca /da/ vo / mo / men /to

eliso

ltima slaba tnica 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

E em / seu /lou /vor / hei /de es / pa / lhar / meu / can / to [...] crase

crase

ltima slaba tnica

(Vincius de Morais. Antologia potica. 2. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1981. p. 77.

Ainda uma vez Adeus

1 2 3 4 5 6 7En / fim / te / ve / jo! em / fim / po / sso, eliso 1 2 3 4 5 6 7Cur / va / do a / teus / ps, / di / zer / -te,

1 2 3 4 5 6 7Pe / sar / de / quan / to / so / fri [...]

ltima slaba tnica

(Gonalves Dias. Antologia. Rio de Janeiro, Edies de Ouro, s. d. p. 83.)

Observao: Para o estudo da mtrica, alm da crase e da eliso, alguns tericos levam em considerao uma srie de outras ocorrncias, que aqui sero mencionadas.

Metro: definio e tiposMetro uma estrutura determinada de slabas poticas por verso; em outras palavras, uma medida determinada de versos, que o poeta toma como modelo.

Os metros mais usados nos poemas de lngua portuguesa so 5 slabas poticas redondilha menor 7 slabas poticas redondilha maior 10 slabas poticas decasslabo ou herico 12 slabas poticas alexandrino Rima: definio e tipos

Rima a coincidncia de sons entre palavras, especialmente no final dos versos.

Os tipos de rima mais comuns so:

a) cruzada (ABAB) o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo com o quarto.

Motivo

Eu canto porque o instante existe A

e a minha vida est completa B

No sou alegre nem sou triste ASou poeta

B

(Ceclia Meireles. Poesia. 2. ed. Rio de Janeiro, Agir, 1982. p. 19.)

b) interpolada (ABBA) o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro:Soneto

Para cantar de amor tenros cuidados,

ATomo entre vs, montes, o instrumento; BOuvi pois o meu fnebre lamento;

BSe que de compaixo animados

A(Cludio Manuel da Costa. Poemas. So Paulo, Cultrix, 1976. p. 33.)

c) emparelhada (AABB) o primeiro verso rima com o segundo, o terceiro com o quarto.Fascinao

Tudo ama!

A

As estrelas no azul, os insetos na lama,

A

a luz, a treva, o cu, a terra, tudo,

B

num tumultuoso amor, num amor quieto e mudoB

(Menotti Del Picchia. Poesia. Belo Horizonte, Itatiaia, 1981. p. 31.)

Observao: Os tipos de rima vistos aqui referem-se s estrofes de quatro versos. Nos outros casos, podem-se usar do mesmo modo as letras para cada final de verso, a fim de verificar a regularidade ou no da rima do poema.

Outros recursos sonoros

Alm da rima, o poema pode apresentar outros recursos sonoros. Os mais conhecidos so a aliterao e a assonncia:

a) aliterao a repetio de sons consonantais nos versos:

Violes que choram

Vozes veladas, veludosas vozes,

Volpias dos violes, vozes veladas,

Vagam nos velhos vrtices velozes

Dos ventos, vivas, vs, vulcanizadas.

(Cruz e Souza. Antologia de poemas. 5. Ed. Rio de Janeiro, Agir, 1975. p. 37.)

Nesse poema as consoantes recorrentes so o v, o z e o s, cuja repetio contribui para dar a impresso sibilante das vozes e ventos de que fala o poema.

b) assonncia a repetio de sons voclicos nos versos:

[Sem ttulo]

ovo

novelo

novo no velho

o filho em folhos

na jaula dos joelhos

infante em fonte

feto feito

dentro do

centro

(Augusto de Campos. Poesia de 49 a 79. So Paulo, Duas Cidades, 1979.)

A vogal recorrente principalmente o o, mas o e tambm se repete muito. O uso dos sons fechados procura nos transmitir a imagem do ovo.Observao: Voc poder encontrar diferentes definies para aliterao e assonncia. Optamos por essas. De qualquer forma, o que vale ressaltar que a sonoridade se manifesta num poema no apenas sob a forma de rima, mas tambm sob outros aspectos que preciso observar.

Estrutura em versos e estrofes

O poeta tem total liberdade de fazer um poema com quantas estrofes quiser; a mesma liberdade se estende ao nmero de versos por estrofe. H muitas pessoas que pensam que as estrofes devem ser de quatro versos. De fato, a quadra ou quarteto uma das estrofes mais populares. Mas nada impede que haja estrofes de um, dois, trs, cinco, enfim, de qualquer nmero de versos. Neste poema, por exemplo, a primeira estrofe tem sete versos; a segunda, seis; a terceira, trs; a ltima, apenas um verso:

A faca e a pedra

Naquele tempo era a pedra

mais alegre que se fosse

a carne.

Naquele tempo

era o sino o chamado

e eram azuis todos os dias

daquele tempo.

(No vos falo da infncia

da juventude sim, falo.

No me lembro do brinquedo

mas do amor

isso

me lembro)

Primeiro foi a pedra

depois o sino

depois a escada.

S muito depois veio a faca.

(Renata Pallottini. Antologia potica. Rio de Janeiro, Leitura, s. d. p. 106.)

Em resumo, a forma do poema rima, mtrica, estrutura em verso e estrofes atende em ltima anlise s exigncias de uma das principais caractersticas da poesia: o ritmo. Em outras palavras, o tamanho, a sonoridade e a distribuio dos versos compem a harmonia entre sons e pausas no poema.EXERCCIOS

1. Identifique o tema e o assunto do seguinte poema (cuidado: nem sempre o ttulo do texto coincide com o assunto ou com o tema):

Ronda

De noite eu rondo a cidade

A te procurar sem encontrar

No meio de olhares espio em todos os bares

Voc no est

Volto pra casa abatida

Desencantada da vida

O sonho alegria me d nele voc est.

Ah se eu tivesse quem bem me quisesse

Esse algum me diria:

- Desiste, essa busca intil.

Eu no desistia...

Porm com perfeita pacincia

Volto a te buscar; hei de encontrar

Bebendo com outras mulheres,

Rolando um dadinho, jogando bilhar

E nesse dia ento vai dar na primeira edio:

Cena de sangue num bar da Avenida So Joo.

2. Leia o poema e responda as perguntas que seguem:

Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarro.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

e debruados na mesa todos contemplamesse romntico trabalho.

Desgraadamente falta uma letra,

uma letra somente

para acabar teu nome!

- Est sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...

E h em todas as conscincias um cartaz amarelo:

"Neste pas proibido sonhar."

(Carlos Drummond de Andrade. Obra citada. p. 11-2.)

a) Identifique o tema e o assunto do poema.

b) Faa a contagem das slabas poticas na primeira estrofe. Voc diria que o poeta respeitou um modelo de metro?

c) H rima no poema?

d) Quantas estrofes h no poema? De quantos versos cada uma?

e) Voc se identificou com o poema? Por qu?

6TIPOS DE POEMA QUANTO FORMA

possvel classificar poemas levando em considerao seus elementos formais, ou seja, a mtrica, a rima, o nmero de versos e de estrofes.QUANTO MTRICA

Quanto mtrica, os poemas podem ser metrificados ou em versos livres.

Poemas metrificados

So poemas que respeitam um determinado metro. Podem apresentar:

a) mtrica perfeita: todos os versos tm o mesmo metro;

b) mtrica regular ou imperfeita: h uma pequena variao no nmero de slabas poticas de verso para verso uma ou duas slabas, em geral.

Observe os exemplos:

O Canto do Guerreiro

Aqui na floresta

Dos ventos batida,

Faanhas de bravos

No geram escravos,

Que estimem a vida

Sem guerra e lidar.

- Ouvi-me, Guerreiros.

- Ouvi meu cantar. [...]

(Gonalves Dias. Obra citada. p. 23.)

O metro desse poema a redondilha menor, isto , cada verso tem cinco slabas poticas.

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, plido de espanto...

(Olavo Bilac. Poesia. 2. ed. Rio de Janeiro, Agir, 1963. p. 47.)

Nessa estrofe, a primeira do poema, contam-se dez slabas poticas em cada verso; o metro , portanto, herico ou decasslabo.Esquecimento

Esse de quem eu era e era meu,

Que foi um sonho e foi realidade,

Que me vestiu a alma de saudade,

Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor ento escureceu,

E foi longnqua toda a claridade!

Ceguei... tateio sombras... que ansiedade!

Apalpo cinzas porque tudo ardeu! [...]

Florbela Espanca. Sonetos. 4. ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1987. p. 199.)

Observe que o nmero de slabas varia de verso para verso (dez, dez, nove, onze, dez, dez, onze e dez slabas poticas); no entanto, a variao mnima de nove a onze slabas poticas o que equivale a dizer que a mtrica regular ou imperfeita.Poema em versos livres

Nesse caso o poema no obedece a determinado metro: os versos do poema apresentam tamanhos variados. Pode-se dizer, assim, que sua mtrica irregular.

O verso livre mais comum nos poemas modernos:

[Sem ttulo]

Todas as cartas de amor so

Ridculas.

No seriam cartas de amor se no fossem

Ridculas.

Tambm escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridculas.

As cartas de amor, se h amor,

Tm de ser

Ridculas.

Mas, afinal,

S as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

que so

Ridculas. [...]

(Fernando Pessoa. Obra potica. 7 ed. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, s. d. p. 339-49.)

Nesses versos de Fernando Pessoa h vrios tipos de metro; h versos com duas, sete, oito e onze slabas poticas. Portanto, um poema em versos livres, pois no h preocupao com a mtrica.

QUANTO RIMA

Quanto rima, os poemas podem ser classificados como rimados ou em versos brancos.

Poemas rimados

So poemas que apresentam rima em todos os versos (rima regular) ou apenas em alguns versos (rima irregular).

Observe um caso de rima irregular:

Cantiga

"Em um castelo doirado

ADorme encantada donzela:

BNasceu e vive dormindo

C

Dorme tudo junto dela."

B

(lvares de Azevedo. Obra citada. p. 39.)

Nesse poema, a rima irregular porque h rima entre o segundo e o quarto versos, mas o primeiro e o terceiro versos no rimam.

Poemas em versos brancos

So os poemas que no apresentam rima:

O sono antecedente

Parai tudo que me impede de dormir:

esses guindastes dentro da noite,

esse vento violento,

o ltimo pensamento desses suicidas.

Parai tudo o que me impede de dormir:

esses fantasmas interiores que me abrem as plpebras,

esse bate-bate de meu corao,

esse ressonar das coisas desertas e mudas.

Parai tudo que me impede de voltar ao sono iluminado

que Deus me deu

antes de me criar.

(Jorge de Lima. Antologia potica. 2. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1974. p. 67.)

O SONETO

H diversos tipos de poesia, mas um tipo em particular se destaca por ser bastante popular na lngua portuguesa: o soneto.

As caractersticas do soneto so:

1) estrutura-se em dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de trs versos);

2) geralmente desenvolve uma ideia no decorrer do poema;

3) o final do poema mais precisamente, os dois ltimos versos , via de regra, uma sntese do que o poeta desenvolveu no poema. A essa sntese chamaremos chave do poema.

Observe um exemplo:

Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atentoAntes, e com tal zelo, e sempre, e tantoQue mesmo em face do maior encantoDele se encante mais meu pensamento.Quero viv-lo em cada vo momentoE em seu louvor hei de espalhar meu cantoE rir meu riso e derramar meu prantoAo seu pesar ou seu contentamentoE assim, quando mais tarde me procureQuem sabe a morte, angstia de quem viveQuem sabe a solido, fim de quem amaEu possa me dizer do amor (que tive):Que no seja imortal, posto que chamaMas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicius de Morais. Obra citada. p. 77.)

EXERCCIOS

1. Releia o soneto de Vincius de Morais e analise-o:a) Atribua letras aos sons finais dos versos e verifique como se d a rima nesse texto.

b) Faa a contagem das slabas poticas dos versos do poema e verifique se a mtrica perfeita, regular ou irregular, isto , se o poeta usa um s tipo de metro ou no.

c) Na chave do poema (dois ltimos versos) h uma imagem. Identifique-a e interprete-a.

2. Leia e analise o seguinte poema:

Tira as mos de mim

Ele era mil

Tu s nenhum

Na guerra s vil

Na cama s mocho

Tira as mos de mim

Pe as mos em mim

E v se o fogo dele

Guardado em mim

Te incendeia um pouco

ramos ns

Estreitos ns

Enquanto tu

s lao frouxo

Tira as mos de mim

Pe as mos em mim

E v se a febre dele

Guardada em mim

Te contagia um pouco

(Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra Disco A arte de Chico Buarque)

a) Atribua letras aos finais dos versos e verifique se a rima regular ou irregular.b) Faa a contagem das slabas poticas de cada verso e verifique se a mtrica regular, irregular ou perfeita.

c) Quem fala no poema uma mulher, que se dirige a um homem, comparando-o a outro. Que sentimentos ela nutre pelos dois homens?

PARTE IIPOESIA: OUTRAS QUESTES

1. O POETA

Vamos tratar, agora, do autor de poesia. Apesar de popularmente considerado uma espcie de vagabundo, ou louco, ou sonhador (ou as trs coisas ao mesmo tempo), a definio de poeta bem singela:

Poeta aquele que se dedica a fazer poesia.

A viso negativa que geralmente se tem do poeta talvez tenha como causa a valorizao que se d a outras atividades profissionais, consideradas mais produtivas: mdico, engenheiro, etc.

Mas nem sempre foi assim. No sculo XIX, por exemplo, o poeta era considerado um gnio, isto , aquele que tem a ideia de inspirao. Embora seja muito popular, hoje se questiona muito o conceito de genialidade. Qualquer pessoa pode escrever razoavelmente bem, desde que faa isso com frequncia e desde que possa desenvolver as tcnicas da escrita. Por outro lado, isso no quer dizer que todos tenham propenso natural para a poesia e muito menos que todos tenham o talento que os poetas tm. O que se questiona a ideia de que o poeta seria um privilegiado, um ser diferente dos outros. Pelo contrrio, se alguma inspirao ou impulso o leva a escrever, s isso no faz dele um poeta; necessrio trabalhar a linguagem, ser original, ler muito em suma, ser um profissional da palavra. Observe neste exemplo como o poeta define o poeta:

Potica

Que o Poeta?

um homem

que trabalha

com o suor do seu rosto.

Um homem

que tem fome

como qualquer outro

homem.(Cassiano Ricardo. Jeremias sem chorar, p. 11.)

Para concluir, importante dizer que todos ns temos um sentimento potico mais ou menos desenvolvido. No poeta, tal sentimento explorado de modo a tornar-se uma capacidade, uma postura de vida. O mundo passa a ser para ele uma realidade sensvel que ele deve (e necessita) manifestar em palavras num poema.

POETA OU POETISA?

Segundo o dicionrio, o feminino de poeta poetisa, porm modernamente o termo poeta designa tanto homens como mulheres que se dedicam ao fazer potico. Ceclia Meireles quem diz:

Motivo

[...] No sou alegre nem sou triste:

Sou poeta. [...]

(Ceclia Meireles. Obra citada. p. 19)

O EU POTICO

Uma distino muito importante que se deve fazer entre o poeta do texto e o poeta real, isto , entre aquele que fala no poema e o homem comum que escreveu o poema. Eu potico seria, pois, a presena do poeta no texto, enquanto sentimento que se revela. Portanto, cuidado! Quando afirmamos que o eu potico est triste, porque a tristeza evidente ao nvel do texto; no podemos nunca afirmar que o poeta escreveu o poema quando estava triste. O eu potico nem sempre coincide com o profissional da palavra que produziu o texto; como se fossem personalidades diferentes.

Um exemplo: o poeta Carlos Drummond de Andrade na sua vida pblica foi um homem pacato, simples, discreto, mas em muitos de seus poemas encontramos eus poticos irreverentes, cnicos e agressivos. Observe essa distino no poema que segue:

Poema de sete facesQuando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. [...](Carlos Drummond de Andrade. Obra citada. p. 3.)

O Carlos mencionado no poema no o homem real, mas o eu potico, definido aqui como gauche, palavra francesa que quer dizer torto, diferente, do contra. Aqui no se fala de nascimento real, mas do nascimento do eu potico.

EXERCCIOS

Leia os seguintes poemas e responda as questes considerando o eu potico:

1. Meus oito anosOh! Que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infncia querida

Que os anos no trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras,

sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais! [...]

(Casimiro de Abreu. Obras completas. Rio de Janeiro, Zlio Valverde, 1943. p. 20.)

a) O que seria a aurora da vida do poeta?b) Enumere as coisas boas da aurora da vida do poeta.

c) Que sentimento predomina no eu potico?Da primeira vez

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...

Depois, de cada vez que me mataram

Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadveres, eu sou

O mais desnudo, o que no tem mais nada...

Arde um toco de vela, amarelada...

Como o nico bem que me ficou! [...]

(Mrio Quintana. Poesia. Porto Alegre, Globo, 1962. p. 21.)

a) O assassinato do poeta real? Justifique usando expresses do prprio texto.b) O que significa cada assassinato para o eu potico?

c) O eu potico composto de muitos cadveres. O que significa cadver no poema?

d) Que sentimento o eu potico revela?e) O que simboliza para voc a vela amarelada?

Peter Gast

Sou um homem comum

Qualquer um

Enganando entre a dor e o prazer

Hei de viver e morrer

Como um homem comum

Mas o meu corao de poeta

Projeta-me em tal solido

Que s vezes assisto

A guerras e festas imensas

Sei voar e tenho as fibras tensas

E sou um [...](Caetano Veloso Disco Uns)a) O poeta se define como um homem comum. Que expresso do texto enfatiza essa sensao?

b) Para introduzir uma contradio primeira afirmao, o poeta usa uma conjuno. Que conjuno essa?

c) O que faz o eu potico ser diferente do homem comum?

d) A que solido se refere o poeta no texto?

e) Que sentimento predomina no eu potico?

2POESIA E METALINGUAGEM

Uma das grandes preocupaes dos poetas em todos os tempos tem sido a de tentar definir a poesia; dessa forma o poema tematiza o poema, isto , o fazer potico. A essa fenmeno d-se o nome de metalinguagem.Metalinguagem a utilizao da linguagem para tratar da prpria linguagem. a reflexo que a obra de arte faz sobre a obra de arte.

A metalinguagem um fenmeno que ocorre no apenas com a linguagem verbal, mas tambm com linguagens no-verbais: o cinema, a pintura, o teatro. No caso particular da poesia, o poema tematiza o fazer potico ou o papel do poeta.

A fim de estudar mais detalhadamente a metalinguagem na poesia, vamos analisar dois poemas de pocas diferentes que apresentam concepes distintas de poesia e do papel do poeta:

A um poeta

Longe do estril turbilho da rua,

Beneditino escreve! No aconchego

Do claustro, na pacincia e no sossego,

Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego

Do esforo: e trama viva se construa

De tal modo, que a imagem fique nua

Rica mas sbria, como um templo grego

No se mostre na fbrica o suplcio

Do mestre. E natural, o efeito agrade

Sem lembrar os andaimes do edifcio:

Porque a Beleza, gmea da Verdade

Arte pura, inimiga do artifcio,

a fora e a graa na simplicidade.

(Olavo Bilac. Obra citada. p. 92.)

Releia o poema, considerando as seguintes explicaes para as palavras ou expresses mais difceis:estril: improdutivo

estril turbilho da rua: confuso da rua que no permite criar

beneditino: frade beneditino; que fica no claustro

claustro: recluso, isolamento do contato com outras pessoas

teima, verbo teimar: insistir

lima, verbo limar: passar a lima para aparar as arestas

lima (subst.): instrumento de trabalho artesanal que serve para limar objetos

trama viva: sentido figurado para poesia, para objeto que se constrisbria: formal, distinta

suplcio: sofrimento, esforo

efeito: resultado

andaime: estruturas de madeira provisrias, que auxiliam nas construes de prdios

artifcio: coisa artificial, falsa

ConclusoOs impactos de amor no so poesia(tentaram ser: aspirao noturna)A memria infantil e o outono pobreVazam no verso de nossa urna diurna.Que poesia, o belo? No poesia,E o que no poesia no tem fala.Nem mistrio em si nem velhos nomesPoesia so: coxa, fria, cabala.Ento desanimamos. Adeus, tudo!A mala pronta, o corpo desprendido,Resta a alegria de estar s, e mudo.De que se formam nossos poemas? Onde?Que sonho envenenado lhes responde,Se o poeta um ressentido, e o mais so nuvens?(Carlos Drummond de Andrade. Obra citada. p. 204)

Releia agora o poema, considerando estas explicaes para as palavras ou expresses mais difceis:

aspirao: desejo

memria infantil: lembranas da infncia

urna: recipiente

urna diurna: sentido figurado para cotidiano

cabala: arte mstica, ligada aos smbolos dos nmeros

corpo desprendido: corpo largado, desanimado

responde: corresponde

ressentido: magoado, machucado

Esses dois poemas tm em comum a estrutura de soneto e o uso da metalinguagem, isto , em ambos o tema central o fazer potico e o papel do poeta. Vejamos, ento, as diferenas entre eles:A um poetaConcluso

o poeta precisa estar s para criarPor ser incapaz de criar, o poeta sente-se s

o poeta um mestreo poeta um ressentido

a poesia deve ser belao belo no poesia

o poema resultado do esforo do poetao poema resultado de sonhos envenenados

Beleza = Verdade

(isto , o poema de Bilac afirmativo, cheio de certezas)o poema de Carlos Drummond cheio de dvidas Qu? Onde? e de negaes

EXERCCIOS

1. Com base no estudo comparativo que voc acabou de acompanhar, responda:

a) Qual o ideal de poesia para Olavo Bilac?

b) Como se sente o eu potico no poema Concluso?c) Qual dos poemas lhe parece mais atual? Por qu?

2. Leia o poema e responda as perguntas a seguir:

Autopsicografia

O poeta um fingidor.

Finge to completamente

Que chega a fingir que dor

A dor que deveras sente.

E os que lem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

No as duas que ele teve,

Mas s a que eles no tm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razo,

Esse comboio de corda

Que se chama corao.(Fernando Pessoa. Obra citada. p. 164-5)

Vocabulrio

Entreter: distrair

Comboio: trem

a) Como definido o poeta nesse poema?b) De acordo com as duas primeiras estrofes, o poeta sente dois tipos de dores. Identifique-as.c) possvel concluir que nesse poema a poesia vista como fingimento (simulao)? O que voc acha disso?

3POESIA E MODERNIDADE

Nos captulos anteriores, procuramos mostrar, dentre outras coisas, que a poesia est presente em todo lugar e em todas as pocas. Evidentemente, ela sofre transformaes de acordo com o espao ou o tempo ao qual pertence: um poema do sculo passado no tem as mesmas caractersticas dos poemas de hoje. A histria da poesia est cheia de momentos de ruptura, nos quais se negam valores de uma poca para se inaugurar outra.

MODERNIDADE

O conceito de modernidade bastante discutvel, uma vez que considerar moderna uma manifestao artstica depende do ponto de vista de uma poca e de um lugar; assim, o que era moderno ontem pode j no ser moderno hoje.

Apesar desse relativismo, possvel afirmar o que moderno hoje em termos de poesia. Neste sculo principalmente a partir da Semana de Arte Moderna, realizada em So Paulo (Teatro Municipal) em 1922, quando um grupo de artistas, influenciados por movimentos de vanguarda da Europa, props mudanas nas artes em geral a poesia sofreu muitas transformaes, no apenas na forma como tambm no contedo.

Para compreender melhor a poesia hoje, procure observar o mundo que nos cerca: progresso, mquinas, bomba atmica, conquista do espao, poluio, devastao ecolgica, etc. Esses fenmenos so especficos de nossa poca no existiam nos sculos anteriores; portanto, natural que eles apaream somente nos poemas deste sculo. Alm de novos temas, a poesia moderna apresenta inovaes na forma. A seguir veremos exemplos dessas transformaes.TEMAS MODERNOSBomba atmica

A rosa de Hiroxima

Mas oh no se esqueam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditria

A rosa radioativa

Estpida e invlida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atmica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.

(Vincius de Morais. Obra citada. p. 201.)

Esse poema critica a bomba atmica, fazendo aluses s consequncias reais e devastadoras da bomba sobre a cidade de Hiroxima, ao final da Segunda Guerra Mundial. A rosa de que fala o poema anti-rosa, porque sua beleza (a exploso da bomba) significa morte e destruio.

Mquina

[...] Nos meus nervos locomotiva, carro elctrico, automvel, debulhadora a vapor,

Nos meus nervos mquina martima, Diesel, semi-Diesel, Campbell,

Nos meus nervos instalao absoluta a vapor, a gs, a leo e a eletricidade,

Mquina universal movida por correias de todos os momentos! [...]

(Fernando Pessoa. Obra citada. p. 350-1)

Nesse poema a presena da mquina como entidade to forte que marca a sensibilidade do poeta.

Conquista do espaoO homem, as viagensO homem, bicho da terra to pequeno

Chateia-se na terra

Lugar de muita misria e pouca diverso,

Faz um foguete, uma cpsula, um mdulo

Toca para a lua

Desce cauteloso na lua

Pisa na lua

Planta bandeirola na lua

Experimenta a lua

Coloniza a lua

Civiliza a lua

Humaniza a lua.

Lua humanizada: to igual terra.

O homem chateia-se na lua.

Vamos para Marte! - ordena a suas mquinas. [...]

(Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. 5. ed. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1979. p. 440.)

Nesse poema o tema so as viagens espaciais. O poeta critica a incapacidade de ser feliz do homem manifestada na nsia de conhecer novos espaos.

Poluio

noite. E tudo noite. Debaixo do arco admirvel

Da Ponte das Bandeiras o rio

Murmura num banzeiro de gua pesada e oliosa.

noite e tudo noite. Uma ronda de sombras,

Soturnas sombras, enchem de noite de to vasta

O peito do rio, que como si a noite fosse gua,

gua noturna, noite lquida, afogando de apreenses

As altas torres do meu corao exausto. De repente

O lio das guas recolhe em cheio luzes trmulas,

um susto. [...]

noite. E tudo noite. E o meu corao devastado

um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana. [...]

(Mrio de Andrade. Poesias completas. So Paulo, Crculo do Livro, s. d. p. 309.)

Nesse poema os erros de grafia so propositais, pois fazem parte da proposta do autor de escrever como se fala.

Quanto ao tema, percebe-se uma crtica poluio do Rio Tiet em So Paulo, fenmeno j notrio na dcada de 40. Para se referir sujeira do rio, o poeta usa palavras que tm tradicionalmente conotao negativa: noite, escuro, negro. Por isso o eu potico se sente com o corao devastado; como se houvesse entre o rio e o poeta uma plena identificao.

A angstia do homem moderno

Nosso tempoEsse tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Em vo percorremos volumes,

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em p na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis no bastam. Os lrios no nascem

da lei. Meu nome tumulto, e escreve-se

na pedra. [...]

Calo-me, espero, decifro.

As coisas talvez melhorem.

So to fortes as coisas!

Mas eu no sou as coisas e me revolto.

Tenho palavras em mim buscando canal,

so roucas e duras,

irritadas, enrgicas,

comprimidas h tanto tempo,

perderam o sentido, apenas querem explodir. [...]

(Carlos Drummond de Andrade. Reunio, cit. p. 82-3)

Nesse poema apresenta-se o eu potico do homem moderno. Diante de seu tempo, o poeta sente-se angustiado, dividido, ctico quanto ao futuro da humanidade.ESTRUTURA E ESTILO MODERNOS

No foi apenas no tema que a poesia moderna mudou; sua modernidade est tambm na forma e no estilo. Vamos comparar um poema do sculo dezenove com um moderno para que voc possa verificar as diferenas:

Nel mezzo del cammin...

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada

e triste, e triste e fatigado eu vinha.

Tinhas a alma de sonhos povoada,

e alma de sonhos povoada eu tinha.

E paramos de sbito na estrada

da vida: longos anos, presa minha

a tua mo, a vista deslumbrada

tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida,

nem o pranto os teus olhos humedece,

nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitrio, volto a face e tremo,

vendo o teu vulto que desaparece

na extrema curva do caminho extremo.

(Olavo Bilac. Obra citada. p. 56.)

Poema sujo

[...]

bela, bela

mais que bela

mas como era o nome dela?

No era Helena, nem Vera

Nem Nara, nem Gabriela

Nem Tereza, nem Maria

Seu nome, seu nome era...

Perdeu-se na carne fria

perdeu-se na confuso De tanta noite e tanto dia

perdeu-se na profuso Das coisas acontecidas

constelaes de alfabeto

noites escritas a giz

pastilhas de aniversrio

domingos de futebol

enterros, corsos, comcios

roleta, bilhar, baralho

mudou de cara e cabelos mudou de olhos e riso

e de tempo: mas est comigo est

perdido comigo

teu nome

em alguma gaveta [...]

(Ferreira Gullar. Poema sujo. Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1976. p. 12-3.)

Esses dois textos tm em comum o eu potico que sente a falta de uma mulher importante na sua vida.

No primeiro poema, o poeta retrata o encontro, a unio e a separao. O ttulo (em portugus No meio do caminho), faz referncia ao encontro: ele e ela vinham de caminhos diferentes, amaram-se, mas ela se foi e ele ficou s.

Esquematizados, so os seguintes os trs momentos do poema:

a) antes do encontro tristeza

fadiga (cansao)

alma cheia de sonhosb) unio longos anos

mos unidas

olhar deslumbrado

c) separao sem pranto

sem comoo

eu solitrio

No segundo poema, o poeta trata tambm da perda da mulher amada, mas mostra-se mais conformado, mais acostumado a perdas e solido; a impresso que o poeta transmite a de que a mulher se foi como todas as coisas do passado, mas ao mesmo tempo est guardada com o poeta, ainda que de maneira to precria: perdido comigo/ teu nome/ em alguma gaveta.

Quanto aos aspectos formais e estilsticos, veja no quadro as diferenas entre os dois poemas:

Nel mezzo del caminPoema sujo

mtrica perfeita: dez slabas poticas em cada versono h respeito a um metro: versos curtos e longos

rima regular: cruzada nas primeiras estrofes, obedecendo seguinte ordem nas ltimas estrofes: ABACBCrima irregular: h versos que rimam e outros que no rimam

estrutura em versos: o poema um soneto: duas estrofes de quatro versos e duas de trs versosmaior liberdade na distribuio espacial dos versos; embora haja s uma estrofe, h versos deslocados na pgina

ordem indireta nas frases (estilo mais sofisticado)ordem direta (estilo mais informal)

uso de palavras e expresses elegantes: na extrema curva do caminho extremoexpresses e palavras coloquiais (da fala cotidiana): mas como era o nome dela?

ritmo mais harmonioso, determinado pelas recorrncias de palavras ou expresses e tambm pelas rimasritmo fragmentado, gerado pela distribuio espacial dos versos, pelo corte de certos versos no meio e pela rima irregular

predominncia de substantivos abstratos: alma, sonhos, dorpredominncia de substantivos concretos: carne, futebol, enterro

maior presena de adjetivos: triste, fatigado, extremomenor presena de adjetivos (apenas dois), bela, fria

Com base nesse quadro, podemos concluir que a tendncia da poesia moderna de desprezar a rima, a mtrica; tem uma linguagem mais informal, mas no menos conotativa, dando preferncia aos substantivos concretos e evitando os adjetivos. Isso no quer dizer que o poeta dos nossos dias no possa fazer poemas clssicos, isto , metrificados, rimados e com linguagem mais sbria estamos aqui constatando uma tendncia e no uma lei.

CARACTERSTICAS FORMAIS E ESTILSTICAS DA POESIA MODERNA

Em resumo, a poesia moderna apresenta as seguintes caractersticas:1) Liberdade formal: no h obrigatoriedade de respeitar mtrica e de usar rima.

2) Uso de outros recursos sonoros: aliterao e assonncia em lugar de rima.

3) Linguagem: mais informal; a adjetivao excessiva evitada; d-se preferncia aos substantivos concretos em detrimento dos abstratos.

O EFEITO VISUAL DA POESIA MODERNA

Alm das inovaes formais e estilsticas j apresentadas, a poesia moderna contribuiu com mais uma novidade: a maneira de apresentar graficamente o poema no papel. Alguns poetas do sculo XX pretendem aliar o tema do poema a seu efeito visual. Veja como isso se processa neste exemplo:[Sem ttulo)

uma vez

uma fala

uma voz

uma vez

uma bala

uma fala

uma voz

uma voz

uma vala

uma bala

uma vez

uma voz

uma vala

uma vez

(Augusto de Campos. Obra citada. n. p. )Como voc pde observar, o poeta no apenas escreveu um poema, mas tambm o desenhou, usando a distribuio dos versos no papel. Esta uma caracterstica de modernidade: usar a folha em branco de modo mais livre e criativo para escrever poemas.

EXERCCIOS

1. Leia o poema e responda as questes:

Cogitoeu sou como eu sou

pronome

pessoal intransfervel

do homem que iniciei

na medida do impossvel

eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos segredos dentes

nesta hora

eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedao de mim

eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim.

(Torquato Neto. Os ltimos dias de Paupria. Rio de Janeiro, Eldorado, 1973. p. 7)

a) Que elemento chamou a sua ateno nesse poema, quanto modernidade?

b) Esse poema uma espcie de auto-retrato do poeta. O eu potico se mostra realizado na primeira estrofe? Justifique com base no texto.

c) O que o poeta quer dizer com desferrolhado indecente?

d) Que viso de mundo revela o eu potico na ltima estrofe?

e) Considerando a maneira como o poeta se define, voc diria que ele tem uma imagem positiva de si? Justifique com alguma expresso do texto.

f) Procure no dicionrio o significado do termo cogito (verbo cogitar) e d uma explicao para o uso dele como ttulo do poema.

g) Analise a rima do poema.

h) Identifique no poema um trocadilho com as palavras.2. Sobre o poema Nosso tempo, que voc leu neste captulo, responda: como o poeta se sente em relao a seu tempo?

3. E voc, como se sente em relao a seu tempo?

4MISTURA DE GNEROS

Embora pertencente ao gnero lrico, nem sempre a poesia apenas expresso de sentimentos. Em outras palavras, pode ocorrer mistura de gneros na poesia. Isso no quer dizer que a poesia perca sua essncia; ela acima de tudo poesia, mas pode apresentar caractersticas narrativas e descritivas (gnero pico), teatrais (gnero dramtico), e at revelar elementos de textos no-literrios, como uma dissertao, por exemplo.

Observe, a seguir, exemplos dessas variantes do gnero lrico.

POEMA NARRATIVO

Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moa e disse: Antnia, ainda no me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.

A moa olhou de lado e esperou.

Voc no sabe quando a gente criana e de repente v uma lagarta listada?

A moa se lembrava:

A gente fica olhando...

A meninice brincou de novo nos olhos dela.

O rapaz prosseguiu com muita doura:

Antnia, voc parece uma lagarta listada.

A moa arregalou os olhos, fez exclamaes.

O rapaz concluiu:

Antnia, voc engraada! Voc parece louca!

(Manoel Bandeira. Obra citada. p. 80)

Ainda que parea uma narrativa, o texto de Manuel Bandeira um poema, no apenas porque expressa uma emoo (o amor do rapaz pela garota) por meio de uma imagem voc parece uma lagarta listada mas tambm porque est estruturado em versos.POEMA DESCRITIVO

Cidadezinha qualquerCasas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.

Um cachorro vai devagar.

Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

(Carlos Drummond de Andrade. Reunio, cit. p. 17.

Aparentemente o poeta descreve uma cidadezinha qualquer do interior, porm a poesia se manifesta na subjetividade do poeta observador, principalmente no fim do poema: Eta vida besta, meu Deus; h no texto, alm disso, uma elaborao de linguagem que tpica da poesia: pomar amor cantar.POEMA TEATRAL

Sinal Fechado

- Ol! Como vai?

- Eu vou indo. E voc, tudo bem?

- Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E voc?

- Tudo bem! Eu vou indo, em busca

De um sono tranquilo... quem sabe?

- Quanto tempo...

- Pois , quanto tempo!...

[...]

- Tanta coisa que eu tinha a dizer,

Mas eu sumi na poeira das ruas...

- Eu tambm tenho algo a dizer,

Mas me foge lembrana!

- Por favor, telefone - Eu preciso

Beber alguma coisa, rapidamente...

- Pra semana...

- O sinal...

- Eu procuro voc...

- Vai abrir...

- Eu prometo, no esqueo...

- Por favor, no esquea, por favor

- Adeus...

- No esqueo

- Adeus!

(Paulinho da Viola Disco Sinal Fechado)

Este poema tem caractersticas teatrais, uma vez que se estrutura em forma de dilogo. Se, por um lado, ele apresenta possibilidade de dramatizao, tem como caractersticas poticas o sentido figurado do sinal fechado, atravs do qual o poeta expressa sua viso sobre a falta de comunicao entre as pessoas. Segundo o poema, as pessoas esto fechadas em si mesmas, e s no breve tempo do encontro diante do sinal fechado de trnsito que podem se comunicar; mas, quando o sinal se abre, as pessoas voltam a se fechar.POEMA DISSERTATIVO

[Sem ttulo]

s vezes, em dias de luz perfeita e exata,

Em que as cousas tm toda a realidade que podem ter,

Pergunto a mim prprio devagar

Por que sequer atribuo eu

Beleza s cousas.

Uma flor acaso tem beleza?

Tem beleza acaso um fruto?

No: tm cor e forma

E existncia apenas.

A beleza o nome de qualquer cousa que no existe

Que eu dou s cousas em troca do agrado que me do.

No significa nada.

Ento por que digo eu das cousas: so belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo s de viver,

Invisveis, vm ter comigo as mentiras dos homens

Perante as cousas,

Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difcil ser prprio e no ver seno o visvel!

(Fernando Pessoa. Obra citada. p. 218.)

Ainda que esse texto parea objetivo, por querer discutir a ideia de que as coisas reais so como so e no como as vemos, e de que os nomes no servem para designar o que as coisas so, na verdade esta constitui uma aflio pessoal do eu potico: ele procura se afastar das mentiras dos homens, buscando viver uma existncia simples e natural, mas sente que difcil.

EXERCCIOS

1. Leia o poema e responda as questes seguintes:

Um silncio

Ela descalou os chinelos

e os arrumou juntinhos

antes de pr a cabea nos trilhos

em cima do pontilho,

debaixo do qual passava um veio dgua

que as lavadeiras amavam.

O barulho do baque com o barulho do trem.

Foi s quando a gua principiou a tingir

a roupa branca que dona Dica enxaguava

que ela deu o alarme

da coisa horrvel cada perto de si.

Eu cheguei mais tarde e assim vi para sempre:

a cabeleira preta.

um rosto delicado,

do pescoo a gua nascendo ainda alaranjada,

os olhos belamente fechados.

O cantor das multides cantava no rdio:

Ao frio de um punhal foi teu adeus pra mim.(Adlia Prado. O corao disparado. 2. ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1978. p. 38.)

a) Esse poema tem caractersticas narrativas. Que fato narrado no poema?

b) Podemos observar no poema tambm caractersticas descritivas. Aponte o trecho do poema em que h sobretudo descrio.

c) Que impresso o poema lhe causou?

2. Leia o poema e responda s questes sobre ele formuladas:

Histria

[...] Mas o homem, se certo que o conduz,

Por entre as cerraes do seu destino,

No sei que mo feita damor e luz

L para as bandas dum porvir divino...

Se, desde Prometeu at Jesus,

O fazem ir estranho peregrino,

O Homem, tenteando a grossa treva,

Vai... mas ignora sempre quem o leva! [...]

(Antero de Quental. Poesia e prosa. So Paulo, Cultrix, 1974. p. 39.)

a) Esse poema tem caractersticas dissertativas, porque defende uma ideia. Que ideia essa?

b) Algumas hipteses so levantadas sobre quem conduz o destino dos homens. Aponte uma dessas possibilidades.

c) Que sentimento estaria por trs da ideia desenvolvida no poema?

PARTE III COMO ANALISAR UM POEMAANLISE E INTERPRETAOAntes de se proceder anlise de um poema, necessrio esclarecer o que anlise.Anlise a decomposio de um todo em suas partes, para poder estud-lo melhor.

O objetivo de uma anlise de texto extrair do processo de decomposio em partes uma sntese ou interpretao, que seria, em suma, uma viso mais abrangente e profunda do texto.

H uma tendncia quase generalizada em usar indiscriminadamente os termos anlise e interpretao como equivalentes no estudo do texto. Acreditamos no entanto que h entre os dois termos uma sutil diferena:

Interpretao a sntese que se faz aps a anlise, as concluses sobre o texto.

MODELO DE ANLISE

H muitos modelos de anlise e todos tm vantagens e desvantagens. O ideal seria que todos criassem o prprio modelo, baseados em sua experincia pessoal. De nossa parte, recomendamos que tomem alguns cuidados para no incorrer em falhas graves de anlise por exemplo, adivinhar, ou inventar coisas que o texto no diz.

Primeiro contato com o texto

Antes de passarmos anlise propriamente dita de um poema, so necessrios alguns passos preliminares:1) Ler em voz alta: esta uma maneira fcil de perceber o ritmo do poema e tomar o primeiro contato com o texto.

2) Reler e anotar: releia o poema, anotando dvidas (que ir esclarecer posteriormente) e alguma coisa que lhe tenha chamado a ateno, por qualquer motivo.

3) Consultar o dicionrio: s vezes, algumas palavras parecem-nos to familiares que no nos damos o trabalho de observ-las com ateno; em um poema, comum as palavras estarem em sentido figurado, e o dicionrio pode nos ajudar.

4) Escolher um ponto de partida: escolha no poema alguma coisa que lhe tenha chamado a ateno na leitura, mesmo que voc no saiba explicar por qu. Pode ser uma rima, uma palavra, uma expresso, qualquer coisa; partindo disso, voc pode proceder anlise; com frequncia aquilo que parecia uma impresso passageira pode se transformar na sua interpretao do poema.

5) Respeitar os limites do texto: por mais que usemos nossa intuio ou nossa vivncia, os limites do texto devem ser respeitados, isto , no podemos supor o que ele no diz, no podemos justificar uma impresso com elementos externos ao texto. Procure usar sempre elementos do prprio texto.

Tpicos para anlise

1. Forma

a) Estrofes: quantas estrofes?

b) Versos: quantos versos por estrofe?

c) Mtrica: faa a contagem das slabas poticas por amostragem ou por completo e verifique se a mtrica :

Perfeita: todos os versos tm o mesmo metro (nesse caso, indique o nmero de slabas poticas por verso);

Imperfeita ou regular: os versos apresentam variao pequena no nmero de slabas poticas;

Irregular ou em versos livres: os versos tm metros variados.

d) Rima:

Regular: todos os versos rimam (se for o caso, indique o tipo de rima utilizada: cruzada, interpolada, etc.);

Irregular: alguns versos rimam, outros no;

Versos brancos: no h rima.

e) Outros recursos sonoros: faa um levantamento sobre:

Sons que se repetem com frequncia;

O efeito que produzem os efeitos sonoros.

f) Ritmo: procure caracterizar o ritmo (lento, fragmentado, harmonioso, etc.), baseando-se em dados fornecidos pelo poema.

2. Contedo Linguagem

a) Imagens: para analisar as imagens, procure:

Identificar todas as expresses de linguagem figurada;

Dar pelo menos duas interpretaes para cada imagem;

Aproximar as imagens parecidas e separar as imagens opostas.

Obs: Esta tarefa um pouco rdua, mas necessria. Para facilitar seu trabalho, sugerimos que voc faa um esquema ou grfico para poder visualizar melhor o contedo do poema.

b) Tema: a partir do estudo das imagens, fica mais fcil identificar o tema.

3. Interpretao

Nesse estgio da anlise, articule as concluses a respeito de cada ponto anterior para chegar a uma concluso mais abrangente, que ser a sua interpretao do poema. Como trabalho final, recomenda-se que o aluno redija um texto apresentando sua interpretao.EXEMPLO DE ANLISE

Boi Morto

Como em turvas guas de enchente,

Me sinto a meio submergido

Entre destroos do presente

Dividido, subdividido,

Onde rola, enorme, o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

rvore da paisagem calma,

Convosco altas to marginais!

Fica a alma, a atnita alma,

Atnita para jamais.

Que o corpo, esse vai com o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi descomedido,

Boi espantosamente, boi

Morto, sem forma ou sentido

Ou significado. O que foi

Ningum sabe. Agora boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

(Manuel Bandeira. Obra citada. p. 145.)

Os passos da anlise:

1) Leituras.

2) Consultar o dicionrio:

- turva: obscura, suja

- submergido: dentro da gua

- destroos: restos, lixo

- marginais: que esto margem

- atnita: espantada, parada

- descomedido: enorme

3) Primeira impresso: a repetio da imagem boi morto.

4) Ponto de partida: boi morto. possvel ver o boi morto entre destroos de enchente. Que significado tem essa imagem? O que ela tem a ver com o poeta?

5) Forma:

a) Estrofes e versos:

a primeira, a terceira e a quinta estrofes tm cinco versos cada; a segunda, a quarta e a sexta tm apenas um verso;

a estrofe de um verso a mesma, isto , repete-se como um estribilho ou refro.

b) Mtrica: regular de oito a nove slabas poticas em cada verso; veja nos exemplos.

1 2 3 4 5 6 7 8

Co / mo em / tur / vas / / guas / de en / chen / te

eliso crase 1 2 3 4 5 6 7 8

Di / vi / di / do, / sub / di / vi / di / do

1 2 3 4 5 6 7 8 9

Que o / cor / po, e / sse / vai / com / o / boi / mor / to,

eliso elisoc) Rima: regular ABABC C DEDE C BFBFC C

d) Outros recursos sonoros: repetio de boi morto. Repetio de atnita e dos sons t e a;

dividido, subdividido.

e) Ritmo: meio fnebre, no s por causa das repeties do som oi, mas por causa insinuada pelas repeties; parece um funeral.

6) Contedo:a) Imagen

morto

Boi sem forma

vida sem sentido utilidade

descomedido

(Os atributos do boi concentram-se na quinta estrofe.)

meio submergido (1 estrofe)

Eu potico a alma fica margem (junto

s rvores)

dividido, subdividido (1 estrofe)

o corpo vai com o boi morto

gua turva

Ambiente boi morto (corpo do poeta) na enchente

rvores e alma atnica margem da enchente

b) Tema: o eu potico.

c) Algumas concluses: o poema no fala do boi, mas do sentimento do poeta que se compara a um boi, sem sentido, com a alma atnita, inerte.

7) Interpretao por escrito:

O que primeiro chama a ateno no texto o tom fnebre e a repetio de boi morto. Analisando os elementos formais, constata-se que o ritmo retoma a primeira impresso de morte. No entanto, ao se analisar as imagens, chega-se concluso de que o boi morto, sem forma e sem sentido, identificado ao eu potico, dividido, subdividido. Assim, pode-se dizer que o tema do poema a sensao de morte e diviso (de corpo e alma) do poeta.

Observaes

1) O ponto de partida da anlise absolutamente pessoal. Voc poderia ter comeado por outro aspecto e ter chagado s mesmas concluses.

2) No preciso respeitar a ordem das estrofes no momento de analisar as imagens. Voc pode agrupar ou separar as imagens da maneira que lhe parea mais adequada para compreender o texto.

EXERCCIOSa. Com base no que voc aprendeu neste captulo, responda as questes sobre o seguinte poema:

Soneto de separaoDe repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a ltima chama

E da paixo fez-se o pressentimento

E do momento imvel fez-se o drama

De repente no mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo prximo, distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, no mais que de repente

(Vincius de Morais. Obra potica. Rio de Janeiro, Aguilar, 1968. p. 300-1)

a) Qual sua primeira impresso do poema?

b) Como a estrutura do poema em termos de versos e estrofes?

c) Como a rima?

d) Como a mtrica?

e) Por que a expresso de repente repetida tantas vezes?

f) Predominam no poema substantivos concretos ou abstratos?

g) Que sentido tem espuma na primeira estrofe?

h) Faa um levantamento das transformaes que ocorrem no poema, confrontando as situaes de antes de depois do de repente.

i) Como voc interpreta a imagem das mos espalmadas fez-se o espanto?

j) Qual o tema do poema?

b. Responda as questes sobre o poema:

O fim do mundoNo fim de um mundo melanclico

os homens lem jornais.

Homens indiferentes a comer laranjas

que ardem como o sol.

Me deram uma ma para lembrar

a morte. Sei que cidades telegrafam

pedindo querosene. O vu que olhei voar

caiu no deserto.

O poema final ningum escrever

desse mundo particular de doze horas.

Em vez de juzo final a mim me preocupa

o sonho final.

(Joo Cabral de Melo Neto. Poesias completas. 2. ed. Rio de Janeiro. J. Olympio, 1975. p. 346.)

a) Qual a sua primeira impresso do poema?

b) Quantas estrofes tem o poema? De quantos versos cada uma?

c) Como a rima do poema?

d) Como a mtrica?

e) Ler jornal pode ser comparado a comer laranjas. O que as duas aes tm em comum, de acordo com o texto?

f) Por que o poeta diz que as laranjas ardem como o sol?

g) Na segunda estrofe o poeta atribui ma e ao vu significados negativos. Quais so eles?h) Que mundo seria o particular de doze horas?

i) Pesquise o significado da expresso juzo final e indique a sua relao com o texto.

j) O poeta d outro significado ao termo juzo. Que significado esse?

l) Na sua opinio o eu potico acha que o mundo vai acabar? Por qu?

m) Qual o tema do poema?

c. Analise o poema e responda as questes a seguir:

RecapituloNeste dia

quieto e repartido em tdio e falta de coragem,

no mereci a msica que sofro na memria;

no me doeram a fuga, o espesso, o pesado, o opaco;

no respondi.

Apenas fui feliz?

(Joo Guimares Rosa. Ave, palavra. 2. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1978. p. 88.)

a) Qual a primeira impresso do poema?

b) Quantas estrofes tem o poema? De quantos versos cada uma?

c) Como a rima?

d) Como a mtrica?e) Que sentido tm os termos sofro e memria?

f) O poeta diz que a fuga, o espesso, o pesado, o opaco no doeram; isso quer dizer que poderiam doer. Explique com suas palavras como o espesso poderia doer.

g) A que o poeta no teria respondido? O que isso significa?

h) Como se sente o poeta nesse dia?

i) Que interpretao voc d para o ttulo?

j) Qual o tema?

Parte IV

EXERCCIOS POTICOSAt aqui, voc pde entrar em contato com muitos aspectos da poesia, da linguagem potica e do poma, visando anlise do poema. Nesta parte, o objetivo praticar poemas, aproveitando os conhecimentos que voc adquiriu no decorrer do livro. As sugestes que apresentamos a seguir partem do pressuposto de que possvel fazer poemas de boa qualidade sem ser poeta profissional.Sugestes para se fazer poemas

1) No deiche que a preocupao com a lgica impea sua emoo de se manifestar.

2) Rede