6
1 BIRCK, Bruno Odélio. A simbólica do sagrado a partir de P. Ricoeur e R. Otto. Porto Alegre: PUCRS, 2003. Tese (Doutorado em Filosofia), Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2003. P. 86-98. 2.4 O NUMINOSO E A SEMÂNTICA DO DUPLO SENTIDO [...] Trabalharemos aqui com a hipótese de que a semântica simbólica de Ricoeur é mais produtiva que uma fundamentação em Kant, para trazer a experiência numinosa à linguagem. Para Ricoeur, o símbolo é a forma originária da presentação; é o aflorar de uma vivência à palavra; é o real dos estados de alma o qual se diz de forma original. Aqui não mais se trata de uma apresentação indireta de um conceito, como afirma Kant. O símbolo, na semântica de Ricoeur, não é uma faculdade de razão que se destina à exposição de um conceito. A Hermenêutica provoca aqui a ruína daquilo que há de idealista na Fenomenologia. O ponto de partida não é um conceito, nem a própria razão. O simbólico é a forma de presença à consciência, que se dá num espaço-tempo real. A representação conceitual, começando pela percepção, produz sínteses progressivas que vão abstraindo gradativamente da temporalidade. Podemos exemplificar isso com uma analogia tomada de nosso ato de ver. Se tomarmos a fotografia de uma paisagem e, colocando-nos no exato ponto de onde ela foi tirada, alternando nossa vista à foto e, em seguida, à paisagem real, podemos ter a experiência da variação das dimensões. A fotografia nos aparece enquadrada em duas dimensões espaciais, e na paisagem teremos o acréscimo da terceira dimensão, a profundidade. Quando um amigo nos mostra um álbum fotográfico de uma viagem sua, este narra os lugares e os acontecimentos que não conseguimos tornar presentes com a mesma vivacidade, apenas com as imagens. A sua narração será, provavelmente, mais viva que as imagens frias das fotografias. O símbolo é o verbo da hierofania; é o dizer da manifestação; é tornar presente de forma viva. A presentação se dá em todas as dimensões do real. Na representação, enquanto percepção, nós sintetizamos o percebido em duas dimensões, espaço e tempo. Na representação, por conceitos, eliminamos todo espaço e tempo; torna-se uma representação universal, vazia de concretude. Tal conceito, abstraído de toda dimensão do real, segundo Kant, serve de condição de objetividade de todo real. A questão da linguagem religiosa não está na sua possibilidade de objetivação, mas em poder dizer o sagrado em toda sua vibração e vitalidade. Voltemos ao não-racional na descrição do numinoso. O sentimento criatural é o aniquilamento, o cessar de todas as categorias diante do poder soberano "como aquele". Não é um criador pensado na lógica criador-criatura, mas um objeto qualitativamente diferente que surpreende e se antepõe a todo lógos. O sentimento que se manifesta na alma é um efeito casual e não causal. A reação surgida na consciência, como sentimento de estado de criatura, é a experiência da presença do Numen, enquanto a alma se desvia de si própria para esse objeto. O sentimento de nada ser não é um auto-aniquilamento; é um arrebatamento pelo qual o Numen de nós se apodera. Assim se lê no Salmo 66, 10: "O zelo da tua casa devorou-me". A citação do místico muçulmano Bajesid Bostani coloca de forma clara esse arrebatamento: Então o Senhor, o Altíssimo, desvendou-me os Seus mistérios e revelou em mim toda a Sua glória. E enquanto a contemplava [não com os meus olhos, mas] com os Seus, vi que a minha luz, comparada à Sua, era apenas trevas e obscuridade. Da mesma maneira a minha grandeza e o meu esplendor não eram 'nada' perante os Seus. E quando examinei, com olhar sincero, as obras de piedade e de obediência que cumpri para Seu serviço, reconheci que provinha d'Ele e não de mim (BOSTANI apud OTTO, 1992, p. 31).

BIRCK, Bruno Odélio. a Simbólica Do Sagrado a Partir de P. Ricoeur e R. Otto

Embed Size (px)

DESCRIPTION

A simbólica do sagrado a partir de P. Ricoeur e R. Otto

Citation preview

  • 1

    BIRCK, Bruno Odlio. A simblica do sagrado a partir de P. Ricoeur e R. Otto. Porto

    Alegre: PUCRS, 2003. Tese (Doutorado em Filosofia), Faculdade de Filosofia e Cincias

    Humanas, Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul, 2003. P. 86-98.

    2.4 O NUMINOSO E A SEMNTICA DO DUPLO SENTIDO

    [...]

    Trabalharemos aqui com a hiptese de que a semntica simblica de Ricoeur mais

    produtiva que uma fundamentao em Kant, para trazer a experincia numinosa linguagem.

    Para Ricoeur, o smbolo a forma originria da presentao; o aflorar de uma vivncia

    palavra; o real dos estados de alma o qual se diz de forma original. Aqui no mais se trata de

    uma apresentao indireta de um conceito, como afirma Kant.

    O smbolo, na semntica de Ricoeur, no uma faculdade de razo que se destina

    exposio de um conceito. A Hermenutica provoca aqui a runa daquilo que h de idealista

    na Fenomenologia. O ponto de partida no um conceito, nem a prpria razo. O simblico

    a forma de presena conscincia, que se d num espao-tempo real. A representao

    conceitual, comeando pela percepo, produz snteses progressivas que vo abstraindo

    gradativamente da temporalidade. Podemos exemplificar isso com uma analogia tomada de

    nosso ato de ver. Se tomarmos a fotografia de uma paisagem e, colocando-nos no exato ponto

    de onde ela foi tirada, alternando nossa vista foto e, em seguida, paisagem real, podemos

    ter a experincia da variao das dimenses. A fotografia nos aparece enquadrada em duas

    dimenses espaciais, e na paisagem teremos o acrscimo da terceira dimenso, a

    profundidade. Quando um amigo nos mostra um lbum fotogrfico de uma viagem sua, este

    narra os lugares e os acontecimentos que no conseguimos tornar presentes com a mesma

    vivacidade, apenas com as imagens. A sua narrao ser, provavelmente, mais viva que as

    imagens frias das fotografias.

    O smbolo o verbo da hierofania; o dizer da manifestao; tornar presente de

    forma viva. A presentao se d em todas as dimenses do real. Na representao, enquanto

    percepo, ns sintetizamos o percebido em duas dimenses, espao e tempo. Na

    representao, por conceitos, eliminamos todo espao e tempo; torna-se uma representao

    universal, vazia de concretude. Tal conceito, abstrado de toda dimenso do real, segundo

    Kant, serve de condio de objetividade de todo real. A questo da linguagem religiosa no

    est na sua possibilidade de objetivao, mas em poder dizer o sagrado em toda sua vibrao e

    vitalidade.

    Voltemos ao no-racional na descrio do numinoso. O sentimento criatural o

    aniquilamento, o cessar de todas as categorias diante do poder soberano "como aquele". No

    um criador pensado na lgica criador-criatura, mas um objeto qualitativamente diferente que

    surpreende e se antepe a todo lgos. O sentimento que se manifesta na alma um efeito

    casual e no causal. A reao surgida na conscincia, como sentimento de estado de criatura,

    a experincia da presena do Numen, enquanto a alma se desvia de si prpria para esse

    objeto. O sentimento de nada ser no um auto-aniquilamento; um arrebatamento pelo qual

    o Numen de ns se apodera. Assim se l no Salmo 66, 10: "O zelo da tua casa devorou-me". A

    citao do mstico muulmano Bajesid Bostani coloca de forma clara esse arrebatamento: Ento o Senhor, o Altssimo, desvendou-me os Seus mistrios e revelou em

    mim toda a Sua glria. E enquanto a contemplava [no com os meus olhos, mas] com os Seus, vi que a minha luz, comparada Sua, era apenas trevas e

    obscuridade. Da mesma maneira a minha grandeza e o meu esplendor no

    eram 'nada' perante os Seus. E quando examinei, com olhar sincero, as obras de piedade e de obedincia que cumpri para Seu servio, reconheci que

    provinha d'Ele e no de mim (BOSTANI apud OTTO, 1992, p. 31).

  • 2

    Por isso tudo, o numinoso de Otto uma realidade no-conceitual, que se mostra por

    analogia, atravs de "sinais". Esses sinais no os entendemos como "smbolos de conceitos",

    mas os compreendemos melhor como expresses de duplo sentido. Seguindo Ricoeur, nesse

    ponto que necessitamos realizar o enxerto da semntica do smbolo na Fenomenologia do

    sagrado. Os smbolos expressam o mundo como duplo sentido. Um muulmano, por exemplo,

    com a pedra negra no santurio da Caaba, quer dizer algo diferente da pedra. O sentido

    primrio remete a um sentido oculto, o sentido simblico. Aqui no se trata da dualidade do

    signo: significante (sensvel) e significado (espiritual) com a coisa significada. O duplo

    sentido o caminho interpretativo desde o sentido literal que remete a um outro sentido. A

    analogia que aqui se opera no por um processo de formalizao. O anlogo no est na

    semelhana que se observa desde fora. O sentido literal opera, ele prprio, a analogia. Atravs

    do sentido literal, fornecido o anlogo. Portanto, no e pelo sentido literal se chega ao sentido

    simblico. A similitude no uma determinao intelectual, mas um movimento da

    intencionalidade, desde o sentido primeiro ao sentido simbolizado. Tal analogia no se d por

    sua semelhana com outro campo da experincia de nosso nimo, como Kant a entende para o

    smbolo.

    Em concluso, queremos mostrar que no texto de Otto, apesar de sua fundamentao

    em Kant, h uma tentativa de ultrapass-la. Na descrio do terceiro elemento do tremendum,

    a org (energia do numinoso), escreve: " a ela que se referem as expresses simblicas de

    vida, de paixo, de sensibilidade, de vontade, de fora, de movimento, de excitao, de

    atividade, de impulso" (OTTO, 1992, p. 34). Para o autor, o elemento da energia sempre

    levou os homens religiosos a uma forte reao contra o Deus da Filosofia. E os filsofos

    sempre rejeitaram esse elemento, por ser um produto do antropomorfismo. Otto d razo

    crtica dos filsofos, na medida em que os msticos desconheciam o carter puramente

    analgico dos termos tirados do domnio da vida. "No tiveram razo, na medida em que,

    apesar deste erro, os seus adversrios tinham o sentimento correto de um elemento autntico,

    irracional, do theon ou do numen, e defendiam a prpria religio contra a racionalizao"

    (OTTO, 1992, p. 34).

    As expresses de duplo sentido so, por sua natureza, equvocas, por duas razes: a

    primeira que o smbolo tem duplo ou mltiplo sentido; a segunda, o smbolo remonta

    obscuridade da emoo, do sentimento, do terror. Para Ricoeur, os smbolos do sagrado so

    essencialmente uma linguagem de confisso. A confisso trazer tona uma impresso da

    alma. A linguagem simblica a expresso da emoo religiosa e, ao mesmo tempo, a luz

    dessa emoo. Vejamos algumas confisses numinosas: "No sou mais que p e cinza"; "Tu

    s santo; terrvel o teu nome"; "O zelo de tua casa devorou-me"; "Abismo de prazer mais

    perfeito"; "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou pecador"; "Bem-aventurana indizvel".

    Tais expresses simblicas necessitam, evidentemente, de uma inteligncia, quer dizer, de

    uma interpretao. Por sua ambigidade e obscuridade, o smbolo desencadeia o processo de

    interpretao. A interpretao concebida, por Ricoeur, como a inteligncia das significaes

    de mltiplo sentido. O advento da experincia linguagem do smbolo j trabalho de

    interpretao.

    Em suma, as expresses simblicas, em virtude de seu duplo sentido, de sua

    ambigidade, evocam a necessidade do trabalho interpretativo, que exige uma semntica

    especfica. Otto, por sua vez, reconhece que os "sinais" (smbolos de conceitos) associam-se a

    sentimentos anlogos, no por uma fortuita semelhana ou analogia, mas que deve buscar-se

    sua coeso interna, um princpio a priori. Tal princpio o esquematismo1. Ricoeur no

    recorre a um princpio formal da razo para buscar a compreenso do smbolo, mas a uma

    criteriologia do smbolo. E sua tarefa ser construir uma semntica capaz de nos proporcionar

    1 O problema da aplicao do esquematismo, feita por Otto, ser analisado no item 2.7.

  • 3

    critrios seguros para compreender e decifrar a linguagem simblica. Se o sagrado se diz de

    forma originria nos smbolos, necessria uma criteriologia que nos faculte o discernimento

    do numinoso implicado na simblica do sagrado. Vejamos a criteriologia, elaborada por

    Ricoeur, no item que segue.

    2.5 CRITERIOLOGIA DO SMBOLO

    Na exposio da criteriologia do smbolo, tomaremos por base o texto de Ricoeur A simblica do mal. A sua tarefa dupla: estabelecer a abrangncia de emergncia do smbolo e

    sua intencionalidade prpria. O nosso propsito continua sendo o de mostrar que a semntica

    do smbolo de Ricoeur responde melhor ao problema da relao do sentimento numinoso com

    a linguagem conceitual do que o recurso ao formalismo kantiano, como o tentou Otto.

    Para Ricoeur, a realidade humana vem palavra na linguagem simblica. Mas, antes

    de analisar a intencionalidade prpria do smbolo, preciso demarcar a amplitude e a

    variedade de zonas em que emerge, em outras palavras, elaborar uma criteriologia do

    smbolo, ou estabelecer os critrios para o discernimento do smbolo. Nesse sentido, as

    formas primrias e ingnuas do simbolismo so: o aspecto csmico das hierofanias; o aspecto

    noturno do trabalho dos sonhos; a criatividade da palavra potica. "Estas trs dimenses csmica, onrica e potica2 se encontram presentes em todo smbolo autntico; somente em conexo com essas trs funes do smbolo poderemos compreender o aspecto reflexivo dos

    smbolos [...]"(RICOEUR, 1982, p. 174).

    2.5.1 Trs formas de smbolos

    Os smbolos do sagrado so interpretados, por Ricoeur, numa conotao csmica, na

    linha de Mircea Eliade. Este prope o termo hierofania, para indicar o ato da manifestao do

    sagrado. O homem toma conhecimento do sagrado, porque este se manifesta. Na hierofania

    algo de sagrado se nos mostra e se mostra enquanto absolutamente diferente do profano. Em

    seu livro O sagrado e o profano: a essncia das religies, escreve: O leitor no tardar a dar-se conta de que o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situaes existenciais assumidas

    pelo homem ao longo da sua histria. [...] Em ltima anlise, os modos de

    ser sagrado e profano dependem das diferentes posies que o homem

    conquistou no cosmos, e, por conseqncia, interessam, no s ao filsofo, mas a todo investigador desejoso de conhecer as dimenses possveis da

    existncia humana (ELIADE, s.d. p. 28-29).

    O sagrado se manifesta em fragmentos do cosmos, como o sol, a lua, a vegetao, a

    pedra. Mas, enquanto hierofania, perde os limites concretos e concentra uma carga de

    inumerveis significaes que integram e unificam o maior nmero de setores da experincia

    antropocsmica. Se o smbolo est genuinamente ligado experincia, no significa que

    esteja alheio linguagem. Ao contrrio, justamente o ponto de mediao entre a linguagem

    e a experincia. Vale relembrar a afirmao de Gadamer, em Verdade e mtodo, que citamos

    no final do item 2.2, de que "[...] a linguagem um centro em que se renem o eu e o mundo

    [...]" (GADAMER, 1998, p. 869). Ricoeur, por sua vez, escreve: "O simbolizar essas

    realidades equivale a reunir em um ramalhete de presenas uma massa de intenes

    significativas, as quais do que falar antes de dar que pensar" (RICOEUR, 1982, p. 174). A

    manifestao simblica como coisa a matriz de significaes simblicas em forma de

    2 Cabe recordar aqui que Ricoeur apenas desenvolveu dois campos: os smbolos do sagrado, em a Simblica do

    mal, e os smbolos onricos, em Da interpretao: ensaio sobre Freud. A simblica potica nunca foi escrita. A

    nossa anlise, em vista da delimitao do tema, se restringir propriamente aos smbolos csmicos (sagrado).

  • 4

    palavras. Manifestao e significao so recprocas. O "smbolo-coisa" pode ser

    sobredeterminado em inesgotveis significados. Assim, o cu pode significar o sagrado, o

    elevado, o poderoso, o ordenado, entre outros. O cosmos simbolizado , em potncia, um

    sem-nmero de smbolos falados.

    A Simblica do mal situa-se no nvel dos smbolos falados, desde a mancha ao

    simbolismo do pecado. Nesse sentido, a anlise de Ricoeur distancia-se das hierofanias

    csmicas (smbolo-coisa) de Eliade. Mas no deixa de pressupor a rede de tentculos do

    simbolismo da mancha nas sacralizaes csmicas. A simblica da mancha est arraigada a

    tudo no mundo que existe de terrfico, razo pela qual simultaneamente atrai e repele. Os

    smbolos do sagrado sempre j esto no nvel da linguagem, mas a sua raiz est no campo

    no-lingstico da experincia humana, onde se situa a experincia do sagrado. Esse campo do

    sentimento ou estado de emoo Rudolf Otto denominou de numinoso. Assim o numinoso

    compe-se de trs estados da emoo religiosa: mistrio, tremendo e fascinante. Esses trs

    campos so, o que podemos chamar aqui, a criteriologia da emoo religiosa. O mistrio

    simultaneamente terrfico (tremendo) e atrativo (fascinante). Essa simultaneidade do atrativo e

    do repulsivo no numinoso constitui, em nossa pesquisa, um elemento-chave na compreenso

    ontolgica do smbolo enquanto duplo sentido. Retomaremos essa questo nos captulos 3 e 4.

    As ressonncias csmicas na conscincia reflexiva mostram-se de forma ainda mais

    clara, na segunda dimenso do smbolo, a dimenso onrica. Nos sonhos, pode observar-se

    melhor a passagem da funo csmica funo psquica dos simbolismos mais fundamentais. No poderamos compreender que o smbolo pode significar o vnculo que

    une o ser do homem com o ser total, se tivssemos que estabelecer uma

    oposio entre as hierofanias interpretadas pela Fenomenologia da religio e as produes onricas interpretadas pela anlise de Freud ou de Jung. [...] o

    mesmo manifestar o sagrado no cosmos que revel-lo dentro da 'psique'

    (RICOEUR, 1982, p.176).

    O trabalho regressivo da Psicanlise passa pela interpretao dos smbolos nos quais

    est a expresso camuflada da parte infantil e instintiva do psiquismo. Essa remisso ao nosso

    eu arcaico passa pelo caminho tortuoso dos smbolos, da mesma forma como se expressa nas

    hierofanias descritas pela Fenomenologia da religio. O cosmos e a psique so os dois plos

    de uma mesma expressividade. "[...] eu me auto-expresso ao expressar o mundo; eu exploro

    minha prpria sacralidade ao intentar decifrar a do mundo" (RICOEUR, 1982, p.176). A

    regresso ao primitivo , em seu revs, a possibilidade da prospeco proftica de ns

    mesmos. O smbolo a baliza, a guia, para chegar a ser si-mesmo.

    A imaginao potica a terceira modalidade do smbolo e que vem como

    complemento da expressividade csmica e psquica. A imaginao no pode ser confundida

    com a imagem. A imagem tem a funo de ausncia, que a reabsoro do real em um irreal

    figurado. "Re-presenta", quer dizer, tornar as coisas presentes num processo de "irrealizao".

    A imagem potica mais o verbo que o retrato. A imagem potica nos remete ao manancial

    onde se encontra em estado nativo o ser falante. O smbolo potico a expressividade em

    estado nascente. A hierofania a expressividade do cosmos; o sonho a expressividade da

    psique; a imagem potica a expressividade em seu prprio nascer. Ricoeur o indica de forma

    mais abrangente: A poesia surpreende o smbolo no momento em que brota fresco do

    provedor da linguagem, no instante em que pe a linguagem em estado de emergncia, que muito distinto do acolhimento em sua estabilidade

    hiertica sob a custdia do rito e do mito, como ocorre na histria das

    religies, ou colocar-se a decifr-lo interpretando os ricochetes de uma infncia abolida (RICOEUR, 1982, p. 177).

  • 5

    2.5.2 Anlise intencional

    Aps a demarcao das zonas dos smbolos, seguindo o texto da Simblica do mal,

    necessrio penetrar na essncia mesma do smbolo, a sua intencionalidade. As trs formas de

    smbolos so distintas, mas no estanques e incomunicveis. Para Ricoeur, preciso, agora,

    encontrar o princpio unificador dos simbolismos, a base de uma anlise intencional.

    Enquanto anlise, consiste em distinguir o smbolo do que no smbolo, a fim de orientar a

    ateno para um ncleo significativo idntico e comum. O nosso autor estabelece seis

    critrios para a anlise do smbolo. Sigamos a exposio dos critrios.

    1. Os smbolos so signos. So expresses que comunicam um sentido, uma

    mensagem; esse sentido se declara num propsito significativo pela palavra. Mesmo nas

    hierofanias csmicas uma rvore, uma pedra, o sol a expresso de seu sentido sagrado se d em palavras de consagrao ou invocao. Da mesma forma, os sonhos podem ser

    contados. Por sinal, a tcnica da Psicanlise passa pela narrao dos sonhos.

    2. "Todo signo aponta para algo fora de si, e ademais o representa e substitui.

    Porm, nem todo signo smbolo. Aqui deve acrescentar-se que o smbolo oculta em seu

    visual uma dupla intencionalidade" (RICOEUR, 1982, p. 178). As expresses simblicas

    apresentam uma primeira intencionalidade, ou um sentido literal, sobre a qual se ergue uma

    segunda intencionalidade que aponta por analogia. Inclusive, o sentido literal no diz nada

    sobre a coisa significada. Por exemplo, uma pedra, em sentido literal, ser sempre matria

    mineral dura e slida. Mas, para um muulmano, pode ser smbolo de purificao. A

    passagem do sentido literal ao sentido simblico no obedece a nenhuma regra de cpula da

    lgica. O simblico se liga ao literal na relao por analogia: "algo como". No se trata de

    metfora, que usa o como, enquanto recurso lingstico de comparao. No smbolo h a

    subverso total do sentido literal, mas este jamais pode ser eliminado; ele permanece sempre

    na base como primeiro sentido de um segundo sentido. Jos Severino Croatto escreve em seu

    livro As linguagens da experincia religiosa: "A metfora uma comparao, o smbolo

    uma trans-significao" (CROATTO, 2001, p.92).

    Agora possvel divisar a diferena entre um signo tcnico e um signo simblico. O

    smbolo um signo, pois visa para alm alguma coisa e vale por essa "alguma coisa". Mas

    nem todo signo smbolo, pois o smbolo, em sua mira, tem uma intencionalidade dupla. Os

    signos tcnicos so perfeitamente transparentes no dizem mais do que querem dizer. Os smbolos so opacos, pois o sentido literal, original, aponta para um outro sentido anlogo,

    mais do que ele imediatamente indica. H um excesso de sentido; um transbordar de sentido,

    uma intencionalidade mltipla.

    Aqui cabe uma observao, no tocante a nossa pesquisa em seu todo. Esta segunda

    regra "como" o ponto arquimdico em toda articulao da Hermenutica simblica de

    Ricoeur. Por essa razo, voltaremos a ela inmeras vezes.

    3. Como entender a ligao analgica que une o sentido literal com o sentido

    simblico? A analogia um raciocnio por quarta propocicional A B como C D. Mas no smbolo no possvel objetivar a relao que o liga ao primeiro sentido. O sentido literal nos

    remete para alm de si mesmo. Segundo Maurice Blondel3, as analogias simblicas no se

    baseiam em semelhanas conceituais, mas numa estimulao interior, sugerncia assimiladora

    intentio ad assimilationem. Para Ricoeur, o smbolo o movimento do sentido primrio que nos coloca em relao com o sentido latente. Em O conflito das interpretaes, escreve:

    Mas, compreendemos bem este lao analgico do sentido literal e do sentido simblico; enquanto que a analogia um raciocnio no-concludente, que

    3 Nota de Ricoeur: cf. BLONDEL, Maurice. L'Etre et les tres, p. 225-226, citado em LALANDE, Vocabulaire

    philosophique, art. Analogia (RICOEUR, 1982, p. 179).

  • 6

    procede por quarta proporcional (A para B aquilo que C para D), no

    smbolo no posso objetivar a relao analgica que liga o sentido segundo

    ao sentido primeiro; ao viver no sentido primeiro que sou arrastado por ele para alm dele prprio: o sentido simblico constitudo no e pelo sentido

    literal, o qual opera a analogia ao dar o anlogo. De modo diferente de uma

    comparao que consideramos de fora, o smbolo o prprio movimento do

    sentido primrio que nos faz participar no sentido latente e assim nos assimila ao simbolizado, sem que possamos dominar intelectualmente a

    similitude. neste sentido que o smbolo doante; ele doante, porque ele

    uma intencionalidade primria que d o sentido segundo (RICOEUR, 1988a, p. 285).

    Aqui est outra regra de fundamental importncia para a Hermenutica. O smbolo

    tem a funo de "dar". O segundo sentido no arrancado do sentido literal, desde estruturas

    apriricas "pr-supostas", mas porque uma intencionalidade primria que nos "d"

    analogicamente o segundo sentido. Isso significa que o smbolo "d" a falar e "d" que pensar.

    4. Importa uma outra distino: smbolo e alegoria. Gadamer nos traz a distino

    que se fazia entre smbolo e alegoria, no incio do sculo XVIII. "Smbolo a coincidncia do

    sensvel e do no-sensvel; alegoria uma referncia significativa do sensvel ao no-

    sensvel" (GADAMER, 1998, p. 137). Por isso, a alegoria uma forma de expresso figurada

    de um pensamento. mais propriamente a traduo de um pensamento para uma linguagem

    de fico. A alegoria um procedimento literrio e retrico artificial de construo de pseudo-

    smbolos. A alegoria uma "interpretao alegorizante", quer dizer, j uma modalidade de

    Hermenutica. O smbolo anterior Hermenutica; uma criao espontnea de signos. A

    alegoria parte de um signo anterior j transparente. O smbolo transmite o sentido na

    transparncia opaca do enigma.

    5. O termo smbolo, aqui usado, no tem absolutamente o sentido dado pela lgica

    simblica. A lgica simblica usa letras para substituir signos escritos e que podem servir

    como base de clculo. No so abreviaturas de expresses e no tm nenhum valor concreto;

    no se aplicam a nenhuma coisa. O smbolo, aqui em anlise, justamente o oposto de um

    caractere. uma linguagem ligada. O sentido simblico conquistado mediante a operao

    de analogia com a inteno primria. Portanto, o simblico e o sentido literal tm uma ntima

    vinculao. O contedo secundrio articulado, atravs do contedo primrio. Esse

    simbolismo o contrrio do puro formalismo da lgica simblica.

    6. O ltimo critrio diz respeito distino entre mito e smbolo. O smbolo remonta

    sempre a um sentido mais primitivo; as significaes esto em seu emergir espontneo e que

    nos transmitem imediatamente um sentido. Aqui cabe bem a expresso "sentido natural" para

    o sentido primrio. Isso quer dizer que o smbolo mais radical que o mito. Ricoeur formula

    um conceito de mito em vista dessa distino do smbolo. "Eu tomarei o mito como uma

    espcie de smbolo, como um smbolo desenvolvido em forma de relato, e articulado em um

    tempo e um espao imaginrio, que impossvel equiparar com os da geografia e da histria

    crticas" (RICOEUR, 1982, p. 181). Por exemplo, o desterro um smbolo primrio da

    alienao humana, do qual a narrativa da expulso do Paraso j uma lenda mtica de

    segundo grau.

    Em concluso, a criteriologia do smbolo a semntica que nos permite demarcar o

    campo hermenutico, as zonas de emergncia dos smbolos e, ao mesmo tempo, estabelece os

    critrios para o discernimento do smbolo, a sua intencionalidade prpria. De posse das

    regras, possvel iniciar o trabalho de interpretao. No demais recordar que o smbolo

    manifestao, na medida em que interpretao. Na concluso do item 4, afirmvamos que o

    advento da experincia em nvel da emoo linguagem j um trabalho de interpretao.

    Assim, smbolo e interpretao so absolutamente inseparveis. Pela prpria natureza de sua

    dupla intencionalidade, o smbolo se d na e pela interpretao.