27 Carros de Algod£o - Tennessee Williams

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Peça em um ato do dramaturgo inglês Tennessee Williams, cujas peças foram traduzidas recentemente pelo Grupo Tapa, da cidade de São Paulo.

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    27 CARROS DE ALGODO1

    Tennessee Williams

    Traduo: Kadi Moreno, Rita Giovanna e Sabrina Lavelle PERSONAGENS: Jake Meighan, dono de um descaroador de algodo Flora Meighan, sua esposa. Silvio Prati Vicarro, superintendente do Sindicato Rural. *2 3 Cena 1 A cena se passa na varanda da frente de uma casa rural dos Meighan perto de Blue Mountain, Mississipi. A varanda estreita encimada por um telhado triangular estreito. Altas colunas brancas sustentam o telhado dos dois lados da varanda, uma porta entre duas janelas em estilo gtico. Na porta pontiaguda h um vitral oval de cores vivas: anil, carmim, esmeralda e dourado. Nas janelas leves cortinas brancas e amarradas ao meio, com esmero feminino, por laos de cetim azul-beb. O efeito no diferente de uma casa de bonecas. fim de tarde e o crepsculo levemente rosado. Logo aps subir as cortinas, Jake Meighan, um homem gordo de sessenta anos, sai sorrateiramente pela porta da frente e contorna a casa correndo carregando um galo de querosene. Um cachorro late para ele. Ouve-se o barulho de um carro sendo ligado e logo desaparecendo ao longe. Aps um momento, Flora chama de dentro da casa. FLORA: Jake! Perdi minha bolsa branca! (Mais perto da porta) Jake? V se deixei no balano. (Pausa) Ser que deixei na caminhonete? *4 (Ela se aproxima da porta de tela) Jake. V se deixei na caminhonete. Jake? (Ela sai enquanto o crepsculo rosado vai sumindo. Liga a luz da varanda e olha ao redor, afasta com as mos os mosquitos que so atrados pela luz. Os gafanhotos so os nicos a responder. Flora num grito longo e anasalado). J-aya-a-ake! (Ao longe uma vaca muge com a mesma inflexo. H uma exploso abafada a mais ou menos meia milha de

    1 O ttulo original 27 Wagons Full of Cotton constitui, do ponto de vista dos padres

    rtmicos da mtrica em lngua inglesa, um pentmetro trocico, ou seja, um conjunto de

    cinco slabas fortes seguidas por fracas: TWEN-ty SEV-en WAG-ons FULL of COT-ton. Procurou-se, tanto quanto possvel, preservar esse padro na traduo para o portugus:

    VIN-te SE-te CAR-ros de AL-go-DO 2 Optou-se por Sindicato Rural na traduo por ser tratar de uma entidade patronal.

    3 A supresso de algumas letras e o uso de corruptelas nas falas das personagens

    tem o objetivo de manter o carter da linguagem original, sem no entanto indicar uma fala regionalista. 4 No original: Chevy .

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    distncia. Uma estranha luz trmula aparece, reflexo das chamas da exploso. Vozes ao longe exclamam). VOZES: (cacarejos estridentes como de galinhas) Ouviu esse barulho? Ouvi. Parece uma bomba! Ai, Olha! fogo! Onde? Sabe? No Sindicato Rural! Ai, meu Deus! Vamo! (Um alarme de incndio toca ao longe) Henry! Liga o carro! Cs vem co a gente? Vamo! Tamo indo! Corre meu bem! (Ouve-se um carro sendo ligado) T indo! Ento corre. VOZ: (Do outro lado da estrada de terra) Dona Meighan? FLORA: O qu? VOZ: num vai v o fogo? FLORA: Queria, mas o Jake saiu com a caminhonete. VOZ: Vai, vem com a gente filhinha! FLORA: Ah, num posso deix a casa escancarada! O Jake levou a chave. Que ser que t pegando fogo? VOZ: O Sindicato Rural. FLORA: O Sindicato Rural? (O carro sai e some) Ai, meu Deus! (Ela sobe com esforo de volta para a varanda e senta no balano que est de frente. Ela fala em tom trgico para si mesma) Ningum! Ningum! Nunca! Nunca! Ningum! (Ouve-se gafanhotos. Um carro se aproxima e para a uma distncia nos fundos da casa. Aps um instante, Jake vem andando displicentemente a passos lentos pelo lado de fora da casa). FLORA: (em tom petulante e infantil) Bonito! JAKE: Que foi, Nen? FLORA: Num sabia que uma pessoa pudia s to ruim e sem considerao. JAKE: , quanto exagero, Dona Meighan. Qual a queixa agora? FLORA: Zarpou de casa sem diz nada! JAKE: E qual o problema?

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    FLORA: Falei pru c que tava ficando com dor de cabea e precisava de uma coca e no tinha uma garrafa em casa e c fal, se veste que a gente vai de carro pra cidade agora mesmo! A eu me visto e num consigo ach minha bolsa branca. Da eu me lembro que deixei no banco da frente da caminhonete. Eu saio aqui pra peg. E cad oc? Sumiu! Sem diz nada! A tem uma baita exploso! Sente meu peito! JAKE: Sentir o peito do meu nen? (Coloca a mo no busto enorme dela). FLORA: , sente s, batendo que nem martelo! Como vou sab que aconteceu? C no tava, sumiu num sei pronde! JAKE: (Brusco) Cala a boca! (empurra a cabea dela com rudeza). FLORA: Jake! Pra que c fez isso? JAKE: No gosto de gritaria. Voc s fala gritando! FLORA: O que c tem? JAKE: Nada. FLORA: Bom, por que sumiu? JAKE: No sumi! FLORA: Sumiu sim! Vai diz que num sumiu, se vi e ouvi o carro l trs agora mesmo? Acha que sou o que? Burra? JAKE: Se fosse inteligente, calava esse boco. FLORA: Num fala assim comigo. JAKE: Vamo entrar. FLORA: Num v. Egosta, sem considerao, isso que c ! Falei na janta, Num sobr nem uma garrafa de Coca-Cola aqui. C falou, T bom, depois da janta a gente vai de carro at a venda White Star e faz um bom estoque. Quando sa de casa JAKE: (parado na frente dela, agarrando-lhe o pescoo com as duas mos). Olha aqui! Escuta o que vou te dizer! FLORA: Jake! JAKE: Shhh! S escuta, nen. FLORA: Me larga! Desgraado, solta o meu pescoo.

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    JAKE: V se presta ateno no que eu vou te falar! FLORA: Fal o que? JAKE: Eu no sa da varanda. FLORA: Huh! JAKE: Eu no sa da varanda! Desda janta! Entendeu, agora? FLORA: Jake, meu bem, c ficou louco! JAKE: Talvez. No interessa. S enfia isso direitinho na sua cachola. Eu fiquei nesta varanda desda janta. FLORA: Mas Deus t de prova que c saiu (Ele torce o pulso dela) Aiiii! Para, para, para! JAKE: Onde eu fiquei desda janta? FLORA: Aqui, aqui! Na varanda! Pelo amor de Deus para de torc! JAKE: Onde eu fiquei? FLORA: Varanda! Varanda! Aqui! JAKE: Fazendo o qu? FLORA: Jake! JAKE: Fazendo o qu? FLORA: Me larga! Pelo amor de Deus Jake! Solta! Para de torc, c vai quebr meu pulso! JAKE: (rindo entre os dentes) Fazendo o qu? O qu? Desda janta? FLORA: (gritando) Inferno, como vou sab! JAKE: Porque c tava bem aqui comigo, o tempo todo, cada segundo! C e eu, corao, a gente ficou aqui sentado juntinho no balano, o tempo todo s balanando pra frente e pra trs desda janta. Enfiou isso direitinho na sua cachola agora? FLORA: (choramingando) Sol - ta! JAKE: Entendeu? Entrou na sua cachola agora? FLORA: T, t, t Solta!

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    JAKE: Ento, o que eu tava fazendo? FLORA: Balanando! Pelo amor de Deus balanando! (Ele a solta. Ela choraminga e esfrega o pulso, mas a impresso que fica de que a experincia no deixou de ser prazerosa para os dois. Ela geme e choraminga. Ele agarra os cachos soltos dela e puxa a cabea dela para trs. Ele d um longo beijo molhado na sua boca), FLORA: (choramingando): Mmmm-hmmmm! Mmmm! JAKE: (com voz rouca) Meu docinho! FLORA: Mmmmm! Di! Di! JAKE: Di? FLORA: Mmmm! Di! JAKE: Beijinho? FLORA: Mmmm! JAKE: Bom? FLORA: Mmmm... JAKE: timo! D um espacinho. FLORA: Muito quente! JAKE: Vai, d um espacinho. FLORA: Mmmmm... JAKE: Emburrada? FLORA: Mmmmmm. JAKE: Quem meu nen? Grande? Doce? FLORA: Mmmmm! Di! JAKE: Beijinho! (Ele leva o pulso dela aos seus lbios e faz sons como se os tivesse devorando). FLORA: (risinhos) Para! Bobo! Mmmm! JAKE: O que eu faria se voc fosse um pedao de bolo? FLORA: Bobo!

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    JAKE: Nhac! Nhac! FLORA: Ah, seu JAKE: O que eu faria se voc fosse um po doce? Um pedao branco com um monto de creme gostoso? FLORA: (risinhos) Para! JAKE: Nhac, nhac, nhac! FLORA: (dando um grito estridente) Jake! JAKE: H? FLORA: Faz cosqui-nha! JAKE: Responde a perguntinha! FLORA: O que-? JAKE: Onde eu fiquei desda janta? FLORA: Saiu na caminhonete! (rpido ele pega o pulso dela de novo. Ela grita). JAKE: Onde eu fiquei desda janta? FLORA: Varanda! Balano! JAKE: Fazendo o qu? FLORA: Balanando! Meu deus, Jake solta! JAKE: Di? FLORA: Mmmmm... JAKE: Bom? FLORA: (choramingando) Mmmmm... JAKE: Agora c sabe onde eu tava e o que tava fazendo desda janta? FLORA: Sei... JAKE: Se algum pergunt? FLORA: Quem vai pergunt?

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    JAKE: Num interessa quem vai pergunt, s que c sabe a resposta! Ah? FLORA: Ah. (ciciando infantil) C ficou aqui. Sentado no balano desda janta. Balanando pra frente pra trs pra frente pra trs... C num saiu na caminhonete. (devagar) E lev um baita susto quando o Sindicato peg fogo! (Jake d um tapa nela) Jake! JAKE: Tudo que c disse t certo. Mas no vem com idia. FLORA: Ideia? JAKE: Uma mulher que nem voc num foi feita pra t ideia. Foi feita pra s abraada e apertada! FLORA: (infantil) Mmmm... JAKE: Mas no pra t idia. Ento nada de ideia. (Ele levanta). Vai e entra na caminhonete. FLORA: A gente vai v o fogo? JAKE: No a gente num vai v fogo nenhum. A gente vai pra cidade comprar um engradado de coca porque a gente t com calor e com sede. FLORA: (vagamente, enquanto levanta) Eu perdi minha bolsa -- branca... JAKE: T onde voc deixou, no banco da caminhonete. FLORA: Onde c vai? JAKE: No banheiro. J volto. (Ele entra deixando a porta de tela bater. Flora caminha arrastando os ps at a beira dos degraus e para com um sorriso levemente idiota. Ela comea a descer usando sempre o mesmo p, como uma criana aprendendo a andar. Ela para no degrau de baixo e olha absorta e vagamente para o cu, seus dedos fecham-se gentilmente sobre seu pulso machucado. Ouve-se Jake cantando do lado de dentro). My Baby don care fo rings Or other expensive things My baby just cares fo me!5

    CORTINA

    5 My Baby Just Cares for Me

    Msica composta em 1928 Letra de Gus Kahn e Musica de Walter Donaldson Traduo: Meu amor no se importa com anis Ou outras coisas caras

    Meu amor s importa comigo

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    CENA II Comeo da tarde. O cu est da mesma