Guia Politicamente Incorreto da Hist³ria do Brasil

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Existe um esquema tão repetido para contar a história do Brasil, que basta misturar chavões, mudar datas ou nomes, e pronto. Você já pode passar em qualquer prova de história na escola. Nesse livro, o jornalista Leandro Narloch prefere adotar uma postura diferente ? que vai além dos mocinhos e bandidos tão conhecidos. Ele mesmo, logo no prefácio, avisa ao leitor: "Este livro não quer ser um falso estudo acadêmico, como o daqueles estudiosos, e sim uma provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos." É verdade: esse guia enfurecerá muitas pessoas. Porém, é também verdade que a história, assim, fica muito mais interessante e saborosa para quem a lê.

Text of Guia Politicamente Incorreto da Hist³ria do Brasil

  • 1. GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTRIA DO BRASIL LEANDRO NARLOCH Editora: LEYA So Paulo, 2009 Reviso textual realizada por Rosngela Viana
  • 2. CONTRA-CAPA hora de jogar tomates na historiografia politicamente correta.Este guia rene histrias que vo diretamente contra ela. S erros dasvtimas e dos heris da bondade, s virtudes dos considerados viles.Algum poder dizer que se trata do mesmo esforo dos historiadoresmilitantes, s que na direo oposta. verdade. Quer dizer, mais ou menos. Este livro no quer ser um falso estudo acadmico, como o daquelesestudiosos, e sim uma provocao. Uma pequena coletnea de pesquisashistricas srias, irritantes e desagradveis, escolhidas com o objetivo deenfurecer um bom nmero de cidados.
  • 3. POR UMA NOVELA SEM MOCINHOS Existe um esquema to repetido para contar a histria de algunspases que basta misturar chaves, mudar datas, nomes de naescolonizadas, potncias opressoras, e pronto. Voc j pode passar emqualquer prova de histria na escola e, na mesa do bar, dar uma deespecialista em todas as naes da Amrica do Sul, frica e sia. Aspessoas certamente concordaro com suas opinies, os professores voadorar as respostas. O modelo simples e rpido, mas tambm chato e quase sempreerrado. At mesmo as novelas de TV tm roteiros mais criativos. Os ricoss ganham o papel de viles se fazem alguma bondade, porque forammovidos por interesses. J os pobres so eternamente do bem, vtimas daelite e das grandes potncias, e s fazem besteira porque so obrigados aisso. Nessa estrutura simplista, o nico aspecto que importa o econmico:o passado vira um jogo de interesses e apenas isso. S se contam histriasque no ferem o pensamento politicamente correto e no correm o risco deserem mal interpretadas por pequenos incapacitados nas escolas. O gnerotambm tem tabus e personagens proibidos, como o rei bom, o fracoopressor ou os povos que largaram a misria por mrito prprio e hoje nose consideram vtimas. No sculo 20, quando esse esquema se tornou comum,acreditvamos num mundo dividido entre preto e branco, fortes e fracos,ganhadores e perdedores. Essa viso j estava pronta quando estudiosos sedebruavam sobre a histria: o que eles faziam era encaixar, fora, os
  • 4. eventos do passado em sua viso de mundo. Isso mudou. Uma novahistoriografia ganha fora no Brasil. Se no comeo da dcada de 1990 ojornalista Paulo Francis falava de rinocerontes la Ionesco que passam porhistoriadores em nosso pas, na ltima dcada apareceram acadmicosalertas de que no so polticos a escrever manifestos. Eles tentam elaborarconcluses cientficas baseadas em arquivos inexplorados de cartrios,igrejas ou tribunais, tm mais cuidado ao falar de conseqncias de umalgica financeira e pesquisam sem se importar tanto com o uso ideolgicode suas concluses. As interpretaes que tiram do armrio so maiscomplexas e, numa boa parte das vezes, saborosamente desagradveis paraos que adotam o papel de vtimas ou bons mocinhos. A histria fica assim muito mais interessante. No sculo 18, quemquisesse ir de Parati, no Rio de Janeiro, atual Ouro Preto, em MinasGerais, tinha que cavalgar por dois meses no caminho, passava porcasebres miserveis onde moravam tanto escravos quanto seus senhores, quetrabalhavam juntos e comiam, sem talheres, na mesma mesa. Sabe-se hojeque, nas vilas do ouro de Minas, havia ex-escravas riqussimas, donas decasas, jias, porcelanas, escravos, e bem relacionadas com outrosempresrios. Os primeiros sambistas, considerados hoje pioneiros da culturapopular, tinham formao em msica clssica, plagiavam canesestrangeiras e largaram o samba para montar bandas de jazz. Uma dasconseqncias da chegada dos jesutas a So Paulo foi dar um alvio mataatlntica at ento, os ndios botavam fogo na floresta no s para abrirespao de cultivo, mas para cercar os animais com o fogo e depois abat-los. O problema que essa nova histria demora a chegar s pessoas emgeral. Os livros didticos continuam dizendo que o verdadeiro nome deZumbi era Francisco e que ele teve educao catlica - uma fico criada
  • 5. pelo poltico e jornalista gacho Dcio Freitas. Ainda se aprende na escolaque o Brasil praticou um genocdio no Paraguai durante uma guerra queteria sido criada pela Inglaterra. E tem muito descendente de europeuachando que culpado pelo trfico de escravos, apesar de a maioria de seusancestrais ter imigrado quando a escravido se extinguia. No processo de fabricao de um esprito nacional, normal que seinventem tradies, heris, mitos fundadores e histrias de chorar, que sejogue um brilho a mais em episdios que criam um passado em comumpara todos os habitantes e provocam uma sensao de pertencimento. Seeste pas quer deixar de ser caf com leite, um bom jeito de amadurecer admitir que alguns dos heris da nao eram picaretas ou pelo menospessoas do seu tempo. E que a histria nem sempre uma fbula: no temuma moral edificante no final e nem causas, conseqncias, viles e vtimasfacilmente reconhecveis. Por isso hora de jogar tomates na historiografia politicamentecorreta. Este guia rene histrias que vodiretamente contra ela. S erros das vtimas e dos heris dabondade, s virtudes dos considerados viles. Algum poder dizer que setrata do mesmo esforo dos historiadores militantes, s que na direooposta. verdade. Quer dizer, mais ou menos. Este livro no quer ser umfalso estudo acadmico, como o daqueles estudiosos, e sim uma provocao.Uma pequena coletnea de pesquisas histricas srias, irritantes edesagradveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom nmero decidados.
  • 6. CINCO VERDADES QUE VOC NO DEVERIA CONHECER Em 1646,os jesutas que tentavam evangelizar os ndios no Rio deJaneiro tinham um problema. As aldeias onde moravam com os nativosficavam perto de engenhos que produziam vinhos e aguardente. Bbados,os ndios tiravam o sono dos padres. Numa carta de 25 de julho daqueleano, Francisco Carneiro, o reitor do colgio jesuta, reclamou que o lcoolprovocava ofensas a Deus, adultrios, doenas, brigas, ferimentos, mortese ainda fazia o pessoal faltar s missas. Para acabar com a indisciplina, osmissionrios decidiram mudar trs aldeias para um lugar mais longe, demodo que no ficasse to fcil passar ali no engenho e tomar umas. Nodeu certo. Foi s os ndios e os colonos ficarem sabendo da deciso para serevoltarem juntos. Botaram fogo nas choupanas dos padres, queimediatamente desistiram da mudana. Os anos passaram e o problema continuou. Mais de um sculodepois, em 1755, o novo reitor se dizia contrariado com os ndios por causado gosto que neles reina de viver entre os brancos. Era comum fugirempara as vilas e os engenhos, onde no precisavam obedecer a tantas regras.O reitor escreveu a um colega dizendo que eles se recolhem nas casas dosbrancos a ttulo de os servir; mas verdadeiramente para viver a sua vontade esem coao darem-se mais livremente aos seus costumados vcios. Ocontrrio tambm acontecia. Nas primeiras dcadas do Brasil, tantosportugueses iam fazer festa nas aldeias que os representantes do reinoportugus ficaram preocupados. Enquanto tentavam fazer os ndios viver
  • 7. como cristos, viam os cristos vestidos como ndios, com vrias mulheres eparticipando de festas no meio das tribos. Foi preciso editar leis para contera convivncia nas aldeias. Em 1583, por exemplo, o conselho municipal deSo Paulo proibiu os colonos de participar de festas dos ndios e beber edanar segundo seu costume. Os historiadores j fizeram retratos bem diversos dos ndiosbrasileiros. Nos primeiros relatos, os nativos eram seres incivilizados, quaseanimais que precisaram ser domesticados ou derrotados. Uma viso opostase propagou no sculo 19, com o indianismo romntico, que retratou osnativos como bons selvagens donos de uma moral intangvel. Parte dessaviso continuou no sculo 20. Historiadores como Florestan Fernandes, queem 1952 escreveu A Funo Social da Guerra na Sociedade Tupinamb,montaram relatos onde a cultura indgena original e pura teria sidodestruda pelos gananciosos e cruis conquistadores europeus. Os ndios queficaram para essa histria foram os bravos e corajosos que lutaram contra osportugueses. Quando eram derrotados e entravam para a sociedade colonial,saam dos livros. Apesar de tentar dar mais valor cultura indgena, ostextos continuaram encarando os ndios como coisas, seres passivos que notiveram outra opo seno lutar contra os portugueses ou se submeter a eles.Surgiu assim o discurso tradicional que at hoje alimenta o conhecimentopopular e aulas da escola. Esse discurso nos faz acreditar que os nativos daAmrica viviam em harmonia entre si e em equilbrio com a natureza at osportugueses chegarem, travarem guerras eternas e destrurem plantas,animais, pessoas e culturas. Na ltima dcada, a histria mudou outra vez. Uma nova leva deestudos, que ainda no se popularizou, toma a cultura indgena no comoum valor cristalizado. Sem negar as caadas que os ndios sofreram, os