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Camilo pessanha poemas

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Poemas de Camilo Pessanha. Simbolismo Português.

Text of Camilo pessanha poemas

  • 1. Clepsidra, de Camilo PessanhaFonte:PESSANHA, Camilo. Clepsidra. So Paulo : Ncleo, 1989.Texto proveniente de:A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de So PauloPermitido o uso apenas para fins educacionais.Texto-base digitalizado por:Fabio Kiyoshi Sakata - So Paulo/SPEste material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acimasejam mantidas. Para maiores informaes, escreva para .Estamos em busca de patrocinadores e voluntrios para nos ajudar a manter este projeto. Se vocquiser ajudar de alguma forma, mande um e-mail para ou. CLEPSIDRACamilo Pessanha1INSCRIOEu vi a luz em um pas perdido.A minha alma lnguida e inerme.Oh! Quem pudesse deslizar sem rudo!No cho sumir-se, como faz um verme...

2. SONETOS2 CAMINHOITenho sonhos cruis; nalma doenteSinto um vago receio prematuro.Vou a medo na aresta do futuro,Embebido em saudades do presente...Saudades desta dor que em vo procuroDo peito afugentar bem rudemente,Devendo, ao desmaiar sobre o poente,Cobrir-me o corao dum vu escuro!...Porque a dor, esta falta dharmonia,Toda a luz desgrenhada que alumiaAs almas doidamente, o cu dagora,Sem ela o corao quase nada:Um sol onde expirasse a madrugada,Porque s madrugada quando chora.II 3. Encontraste-me um dia no caminhoEm procura de qu, nem eu o sei.Bom dia, companheiro, te saudei,Que a jornada maior indo sozinho longe, muito longe, h muito espinho!Paraste a repousar, eu descansei...Na venda em que poisaste, onde poisei,Bebemos cada um do mesmo vinho. no monte escabroso, solitrio.Corta os ps como a rocha dum calvrio,E queima como a areia!... Foi no entantoQue choramos a dor de cada um...E o vinho em que choraste era comum:Tivemos que beber do mesmo pranto.IIIFez-nos bem, muito bem, esta demora:Enrijou a coragem fatigada...Eis os nossos bordes da caminhada,Vai j rompendo o sol: vamos embora.Este vinho, mais virgem do que a aurora,To virgem no o temos na jornada...Enchamos as cabaas: pela estrada,Daqui inda este nctar avigora!...Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho, 4. Eu quero arrostar s todo o caminho,Eu posso resistir grande calma!...Deixai-me chorar mais e beber mais,Perseguir doidamente os meus ideais,E ter f e sonhar encher a alma.3 ESTTUACansei-me de tentar o teu segredo:No teu olhar sem cor,frio escalpelo,O meu olhar quebrei, a debat-lo,Como a onda na crista dum rochedo.Segredo dessa alma e meu degredoE minha obsesso! Para beb-loFui teu lbio oscular, num pesadelo,Por noites de pavor, cheio de medo.E o meu sculo ardente, alucinado,Esfriou sobre o mrmore corretoDesse entreaberto lbio gelado...Desse lbio de mrmore, discreto,Severo como um tmulo fechado,Sereno como um plago quieto.4 5. PAISAGENS DE INVERNO I meu corao, torna para trs.Onde vais a correr, desatinado?Meus olhos incendidos que o pecadoQueimou!o sol! Volvei, noites de paz.Vergam da neve os olmos dos caminhos.A cinza arrefeceu sobre o brasido.Noites da serra, o casebre transido... meus olhos, cismai como os velhinhos.Extintas primaveras evocai-as:J vai florir o pomar das maceiras.Hemos de enfeitar os chapus de maias.Sossegai, esfriai, olhos febris.E hemos de ir cantar nas derradeirasLadainhas...Doces vozes senis... IIPassou o outono j, j torna o frio...Outono de seu riso magoado.lgido inverno! Oblquo o sol, gelado...O sol, e as guas lmpidas do rio.guas claras do rio! guas do rio,Fugindo sob o meu olhar cansado,Para onde me levais meu vo cuidado? 6. Aonde vais, meu corao vazio?Ficai, cabelos dela, flutuando,E, debaixo das guas fugidias,Os seus olhos abertos e cismando...Onde ides a correr, melancolias?E, refratadas, longamente ondeando,As suas mos translcidas e frias...5 SAN GABRIELIIntil! Calmaria. J colheramAs velas. As bandeiras sossegaram,Que to altas nos topes tremularam,Gaivotas que a voar desfaleceram.Pararam de remar! Emudeceram!(Velhos ritmos que as ondas embalaram)Que cilada que os ventos nos armaram!A que foi que to longe nos trouxeram?San Gabriel, arcanjo tutelar,Vem outra vez abenoar o mar,Vem-nos guiar sobre a plancie azul.Vem-nos levar conquista finalDa luz, do Bem, doce claro irreal.Olhai! Parece o Cruzeiro do Sul! 7. IIVem conduzir as naus, as caravelas,Outra vez, pela noite, na ardentia,Avivada das quilhas. Dir-se-iaIrmos arando em um monto de estrelas.Outra vez vamos! Cncavas as velas,Cuja brancura, rtila de dia,O luar dulcifica. FeeriaDo luar no mais deixes de envolv-las!Vem guiar-nos, Arcanjo, nebulosaQue do alm mar vapora, luminosa,E noite lactescendo, onde, quietas,Fulgem as velhas almas namoradas...Almas tristes, severas, resignadas,De guerreiros, de santos, de poetas.6Tatuagens complicadas do meu peito:Trofus, emblemas, dois lees alados...Mais, entre coraes engrinaldados,Um enorme, soberbo, amor-perfeito...E o meu braso... Tem de oiro, num quartelVermelho, um lis; tem no outro uma donzela, 8. Em campo azul, de prata o corpo, aquelaQue no meu brao como que um broquel.Timbre: rompante, a megalomania...Divisa: um ai,que insiste noite e diaLembrando runas, sepulturas rasas...Entre castelos serpes batalhantes,E guias de negro, desfraldando as asas,Que reala de oiro um colar de besantes! 7MADALENA...e lhe regou de lgrimas os ps e osenxugou com os cabelos da sua cabea. Evangelho de S. Lucas. Madalena, cabelos de rastos,Lrio poludo, branca flor intil...Meu corao, velha moeda ftil,E sem relevo, os caracteres gastos,De resignar-se torpemente dctil...Desespero, nudez de seios castos,Quem tambm fosse, cabelos de rastos,Ensangentado, enxovalhado, intil,Dentro do peito, abominvel cmico!Morrer tranqilo, o fastio da cama... redeno do mrmore anatmico, 9. Amargura, nudez de seios castos!...Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama, Madalena, cabelos de rastos! 8 FONGRAFOVai declamando um cmico defunto.Uma platia ri, perdidamente,Do bom jarreta... E h um odor no ambiente.A cripta e a p,do anacrnico assunto.Muda o registo, eis uma barcarola:Lrios, lrios, guas do rio, a lua...Ante o Seu corpo o sonho meu flutuaSobre um paul,exttica corola.Muda outra vez: gorjeios, estribilhosDum clarim de oiro o cheiro de junquilhos,Vvido e agro!tocando a alvorada...Cessou. E, amorosa, a alma das cornetasQuebrou-se agora orvalhada e velada.Primavera. Manh. Que eflvio de violetas! 9Desce em folhedos tenros a colina: 10. Em glaucos, frouxos tons adormecidos,Que saram, frescos, meus olhos ardidos,Nos quais a chama do furor declina...Oh vem, de branco,do imo da folhagem!Os ramos, leve, a tua mo aparte.Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,Refletir virgem a serena imagem.De silva doida uma haste esquiva.Quo delicada te osculou num dedoCom um aljfar cor de rosa viva!...Ligeira a saia... Doce brisa impele-a...Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!Alma de silfo, carne de camlia...10Esbelta surge! Vem das guas, nua,Timonando uma concha alvinitente!Os rins flexveis e o seio fremente...Morre-me a boca por beijar a tua.Sem vil pudor! Do que h que ter vergonha?Eis-me formoso, moo e casto, forte.To branco o peito! para o expor Morte...Mas que ora a infame!no se te anteponha.A hidra torpe!... Que a estrangulo! Esmago-aDe encontro rocha onde a cabea te h de, 11. Com os cabelos escorrendo gua,Ir inclinar-se, desmaiar de amor,Sob o fervor da minha virgindadeE o meu pulso de jovem gladiador. 11VNUSI flor da vaga, o seu cabelo verde,Que o torvelinho enreda e desenreda...O cheiro a carne que nos embebeda!Em que desvios a razo se perde!Ptrido o ventre, azul e aglutinoso,Que a onda, crassa, num balano alaga,E reflui (um olfato que se embriaga)Como em um sorvo, murmura de gozo.O seu esboo, na marinha turva...De p flutua, levemente curva;Ficam-lhe os ps atrs, como voando...E as ondas lutam, como feras mugem,A lia em que a desfazem disputando,E arrastando-a na areia, coa salsugem. 12. IISingra o navio. Sob a gua claraV-se o fundo do mar, de areia fina...Impecvel figura peregrina,A distncia sem fim que nos separa!Seixinhos da mais alva porcelana,Conchinhas tenuemente cor de rosa,Na fria transparncia luminosaRepousam, fundos, sob a gua plana.E a vista sonda, reconstrui, compara,Tantos naufrgios, perdies, destroos! flgida viso, linda mentira!Rseas unhinhas que a mar partira...Dentinhos que o vaivm desengastara...Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos... 12Depois da luta e depois da conquistaFiquei s! Fora um ato antiptico!Deserta a Ilha, e no lenol aquticoTudo verde, verde,a perder de vista.Porque vos fostes, minhas caravelas,Carregadas de todo o meu tesoiro?Longas teias de luar de lhama de oiro,Legendas a diamantes das estrelas! 13. Quem vos desfez, formas inconsistentes,Por cujo amor escalei a muralha,Leo armado, uma espada nos dentes?Felizes vs, mortos da batalha!Sonhais, de costas, nos olhos abertosRefletindo as estrelas, boquiabertos... 13 OLVIDODesce por fim sobre o meu coraoO olvido. Irrevocvel. Absoluto.Envolve-o grave como vu de luto.Podes, corpo, ir dormir no teu caixo.A fronte j sem rugas, distendidasAs feies, na imortal serenidade,Dorme enfim sem desejo e sem saudadeDas coisas no logradas ou perdidas.O barro que em quimera modelasteQuebrou-se-te nas mos. Via uma flor...Pes-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...Ias andar, sempre fugia o cho,At que desvairavas, do terror.Corria-te um suor, de inquietao... 14. 14Quem poluiu, quem rasgou os meus lenis de linho,Onde esperei morrer, meus to castos lenis?Do meu jardim exguo os altos girassisQuem foi que os arrancou e lanou no caminho?Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)A mesa de eu cear, tbua tosca de pinho?E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?Da minha vinha o vinho acidulado e fresco... minha pobre me!... No te ergas mais da cova.Olha a noite, olha o vento. Em runa a casa nova...Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.No venhas mais ao lar. No vagabundes mais,Alma da minha me... No andes mais neve,De noite a mendigar s portas dos casais.15Floriram por engano as rosas bravasNo inverno: veio o vento desfolh-las...Em que cismas, meu bem? Porque me calasAs vozes com que h pouc

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