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SPIX e MARTIUS VIAGEM PELO BRASIL 1817-1820 VOLUME I Tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer, revista por B. F. Ramiz Galvão e Basílio de Magalhães, que a anotou 3º EDIÇÃO Revista por Ernst Winkler EDIÇÕES MELHORAMENTOS em colaboração com o INSTITUTO HISTóRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO em convênio com o INSTITUTO NACIONAL DO LIVRO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA

Viagem Pelo Brasil Spix Martius

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Viagem Pelo Brasil Spix Martius

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  • SPIX e MARTIUS

    VIAGEM PELO BRASIL 1817-1820

    VOLUME I

    Traduo de Lcia Furquim Lahmeyer, revista por B. F. Ramiz Galvo

    e Baslio de Magalhes, que a anotou

    3 EDIO

    Revista por Ernst Winkler

    EDIES MELHORAMENTOS em colaborao com o

    INSTITUTO HISTRICO E GEOGRFICO BRASILEIRO em convnio com o

    INSTITUTO NACIONAL DO LIVRO MINISTRIO DA EDUCAO E CULTURA

  • Breve histrico da vida de Martius

    Karl Friedrich Philipp von Martius nasceu na cidade Erlangen, no norte da Baviera, em 17 de abril de 1794. Estudou medicina e formou-se com 20 anos de idade, em 1814. Continuou estudando botnica, trabalhando, a partir de 1816, como adjunto no Jardim Botnico de Munique. Juntamente com o zologo Johann Baptist von Spix, foi nomeado pelo rei bvaro para acompanhar no sqito cientfico a jovem imperatriz do Brasil, a arquiduquesa austraca D. Leopoldina. (Spix nasceu a 9 de fevereiro de 1781 em Hchstadt e faleceu a 13 de maro de 1826 na cidade de Munique). No perodo de 1817 a 1820, os dois pesquisadores alemes excursionaram pelo Brasil. Ao regressar ptria, Martius escreveu muitas obras, produto dessas pesquisas, entre as quais se destacam a "Flora brasiliensis" (terminada s muito depois da sua morte, em 1906), a "Genera et species palmarum" e a presente "Reise in Brasilien". Nomeado membro da Real Academia de Cincias da Baviera e membro honorrio do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro do Rio de janeiro, foi, de 1832 a 1854, conservador-chefe do jardim Botnico de Munique. Faleceu em Munique a 13 de dezembro de 1868, com 74 anos. No mais chegara a rever o Brasil.

  • Obras de C. F. Phil. von Martius

    Reise in Brasilien auf Befehl S. M. Knig Maximilian Joseph I von Bayern, 1817-1820 unternommen und beschrieben von Dr. Joh. Bapt. von Spix und Dr. Carl Friedr. Phil. von Martius. Mnchen, 1823-1831. 3 vols. in 4, com est. e Atlas in folio. Die Physionomie des Pflanzen-Reiches in Brasilien. Rede. (Extr. das Abhand. der Akademie der Wissensch. Mnchen). in 8. Von dem Rechtszustande unter den Ureinwohnern von Brasilien. Mnchem, 1832, in 4, com ch. Die Pflanzen & Thiere des tropischen Amerika. Mnchen, 1831. Vergangenheit & Zukunft der amerikanischen Menschheit. Mnchen, 1839, in 8. Beitrage zur Kenntnis der Gattung Erythroxylon (Extr. das Abhand. der K. Bayer. Akad. der Wissensch. III, parte II). Mnchen, 1840, in 4, est. Systema materiae medicae brasiliensis. Mnchen, 1844. Como se deve escrever a Histria do Brasil. (Na "Rev. Trim. do Instituto Histrico e Geogrfico do Brasil", Tomo VI, 1844). Ueber das Naturell, die Krankheiten, das Arzttum & die Heilmittel der Ureinwohner Brasiliens. Mnchen, 1844. (Obra rarssima). Ueber die in der Serra de Sincor befindlichen Diamant-Lokalitaten. (No Mnchener Gelehrten-Anzeiger", 1846). Versuch eines Kommentars ber die Pflanzen in den Werken von Marcgrav & Piso. (Nas "Abhande. der Bayer. Akad. der Wissensch.", Vol I. 7, 1853). Ueber die Pflanzen & Thier-Namen in der Tupi-Sprache. Mnchen, 1858, in 4 gr. (Extr. do Bullletin der K. Bayer. Akad. der Wissensch. n. 1-6). Glossaria linguarum brasiliensiumWrtersammlung brasilianischer Sprachen. Erlangen, Junge & Sohn, 1863, in 8 gr. Exemplares desta edio foram em 1867 destinados para a segunda parte da obra seguinte: Beitrage zur Ethnographie & Sprachenkunde Amerikas, zumal Brasiliens. Leipzig, Fr. Fleischer, 1867, 2vols. In 8 gr., ch.

  • Ueber die Bereitung des Pfeilgiftes Urari. (in Repertorium fur die Pharmacie, XXXVI. Mnchen). Kritischer Katalog & Uebersicht der botanischen Forschungs-Reisen in Brasilien. Mnchen. Beitrag zur Kenntnis der natrlichen Familien der Amarantaceen (Extr. das Act. Acad. Caes. Leop. Carol. Nat. Cur., XIII.) In 4, est. Icones plantarum cryptogamicarum quas in itinere annis 1817-1820 per Brasiliam... collegit et descripsit... de Martius. Monachii, 1828 - 34, in 4, est. Genera et species Palmarum. Monachii, Tip. Lentnerianis, 1823, 5 vols. in fol., est. color. Nova genera et species plantarum quas in itinere annis 1817 -1820 per Brasiliam... collegit et descripsit... de Martius & Monachii, 1823 - 32, 3 vols. in 4, est. color. Tabulae physionomicae. Monachii. Herbarium Florae Brasiliensis. Plantae brasiliensis exsiccatae, quas denominatas... offert... de Martius. Monachii, 1837, in 8. Flora Brasiliensis sive enumeratio plantarum in Brasilia hactenus detectarum... Opus... sublevatum populi brasiliensis liberalitate Petro II. regnante. Vindobonae et Lipsiae, 1840-1906, 130 fasc. em 40 vols. in fol., etc. (Obra monumental, continuada por Ejchler e outros).

  • Senhor ! Quando Vossa Majestade resolveu mandar uma expedio cientfica ao Brasil, dignou-se de confiar a realizao de tal propsito aos dois humildes abaixo assinados. O amor devido a Vossa Majestade e cincia foi a determinante que nos conduziu, atravs dos riscos e canseiras de to longa viagem, a uma parte do mundo ainda mal conhecida, e que nos trouxe de l, com felicidade, ao seio da ptria. A Vossa Majestade, pois, remontam a origem e as vantagens dessa talvez no pequena empresa na histria da nao bvara, e tudo que com isso podem lucrar as cincias, devem os contemporneos e os psteros atribuir magnanimidade e benevolncia de um monarca que, considerando a cincia a mais alta nobreza da humanidade, sobre ela estabeleceu os mais sbios fundamentos da felicidade de seu povo. Cheios de gratido, ousam humildemente os viajantes abaixo assinados aproximar-se do trono de Vossa Majestade, depondo respeitosos diante dele o primeiro fruto da sua expedio,dedicado ao melhor dos soberanos. Animados, pela real aprovao, de terem correspondido aos propsitos de Vossa Majestade na realilao da viagem, agora aspiram ainda, com a exposio cientfica dos resultados dela, a contentar o muito amado monarca. Concluindo, somos, com profundo respeito, de V. M. sditos obedientes.

    DR.J. B. V. SPIX E DR. C. F. P. V. MARTIUS

  • L I V R O P R I M E I R O

  • CAPTULO I

    Preparativos para a viagem Partida de Munique, via Viena, para Trieste

    A Amrica, essa nova parte do mundo apenas conhecida de poucos sculos atrs, tem sido, desde a poca de seu descobrimento, objeto da admirao e predileo da Europa. A feliz situao, a fertilidade e diversidade de riquezas do seu solo, atraem tanto colonos e negociantes, como pesquisadores cientficos. Rapidamente se povoou e assim se desenvolveu a nova terra, pelo ativo comrcio com a me-ptria e graas aos trabalhos dos sbios, que porfiaram em longnquas viagens ao interior, procurando conhec-lo. lnolvidveis so, nesse sentido, os mritos de muitos corajosos exploradores dos primeiros tempos, assim como especialmente dos ltimos decnios, por meio dos quais se tomou conhecida a Amrica, mais do que nenhuma das velhas partes do mundo, com exceo da Europa.

    Apesar, porm, dos grandes progressos no conhecimento dessa parte do mundo, oferece ela ainda vasto campo ao esprito pesquisador a fim de estender, com os descobrimentos, o crculo da cincia humana. Mais do que qualquer outra poro da Amrica, o Brasil, o seu mais belo e mais rico pas, , entretanto, pouco povoado e conhecido, embora seja ele o corao desse novo continente.

    Sua Majestade, o Rei da Baviera, insigne patrono das cincias, convencido das vantagens que para as mesmas e, sobretudo, para a humanidade, traria um conhecimento mais ntimo da Amrica, transmitiu para esse fim, no ano de 1815, Academia de Cincias de Munique a ordem para que se providenciasse sobre uma viagem cientfica ao interior da Amrica do Sul. Entre os escolhidos para a viagem, achamo-nos ambos, o acadmico Spix para a Zoologia, o acadmico Martius para a Botnica. Era ento o plano seguir de Buenos Aires por terra at ao Chile, da para o norte, viajar at Quito e, passando por Caracas ou Mxico, regressar Europa.

    Empecilhos supervenientes obrigaram, entretanto, o governo real a adiar por algum tempo a expedio. Pouco depois, repetiu sua Majestade bvara o desejo de que se empreendesse a viagem queles pases, e o casamento de Sua Alteza D. Carolina Josefa Leopoldina, Arquiduquesa da ustria1, com S.A. Real D. Pedro de Alcntara, Prncipe herdeiro de Portugal, Brasil e Algarves, ofereceu a mais bela oportunidade para a realizao da idia do rei. Justamente quando esse lao unia a nova parte do mundo em relaes mais estreitas com a Europa, estava S.M. o Rei da Baviera presente em Viena, e resolveu, de acordo com a corte imperial, fazer seguir, no sqito da ilustre noiva, cientistas austracos, membros da sua Academia.

    1 A monarquia lusa, por ato de 16 de dezembro de 1815, firmado pelo Principe-Regente D. Joo (depois VI) no Rio de Janeiro, recebeu a denominao de "Reino-Unido de Portugal, Brasil e Algarves' (Nota da rev. Inst. Hist. e Geogr. Bras.).

  • A honrosa escolha recaiu em ns ambos, e recebemos, portanto, a 28 de janeiro de 1817, o aviso de seguir viagem quanto antes para Viena e da para Trieste, a fim de embarcarmos nas fragatas j prestes a zarpar para o Rio de Janeiro. A Real Academia de Cincias recebeu, ao mesmo tempo, ordem de encarregar-nos de problemas cientficos, tanto dentro das nossas especialidades principais como em tudo aquilo que estivesse ao alcance das nossas observaes e pesquisas, e de nos fornecer os instrumentos, de cujo uso se poderiam esperar interessantes resultados para a cincia. Em conseqncia desse encargo, foram recomendados os dois assuntos, - zoologia e botnica -, aos viajantes, como dever principal; ao mesmo tempo, porm, deviam cuidar dos outros ramos cientficos, tanto quanto o tempo e as circunstncias permitissem. O Dr. Spix, como zologo, encarregou-se de todo o reino animal, objeto de suas observaes e atividades. Nesse domnio, incluir ele tudo que diz respeito ao homem, tanto indgenas como imigrados: as diversidades, conforme os climas; o seu estado fsico e espiritual, etc.; a morfologia e anatomia de todas as espcies de animais, dos inferiores aos superiores, os seus hbitos e instintos, a sua distribuio geogrfica e migraes; e, igualmente, far observaes sobre os restos existentes embaixo da terra, esses mais seguros documentos do passado e do sucessivo desenvolvimento da criao. O Dr. Martius, como botnico, assumiu o encargo de pesquisar o reino da flora tropical, em toda a sua extenso. Alm de estudar, de preferncia, as famlias de plantas endmicas, competia-lhe especialmente investigar aquelas formas que, pelo parentesco ou identidade com plantas de outros pases, permitem concluir qual a ptria de origem e a sua sucessiva propagao sobre a terra. Pretendia ele fazer essas pesquisas, levando em conta as relaes climticas e geolgicas, e por essa razo estend-las tambm aos mais humildes membros do reino das plantas, tais como os musgos, liquens e cogumelos. As mudanas que tanto as plantas indgenas como as introduzi das sofrem sob certos influxos exteriores, a histria do solo e do cultivo ali usado, deviam igualmente ser tomadas em considerao. Com as pesquisas da anatomia e desenvolvimento das plantas tropicais, poder-se-ia chegar a interessantes concluses quanto s leis da vida vegetal em geral, assim tambm, com a observao de vestgios encontrados de vegetao anterior, agora desaparecida, obter-se-ia material para fundamentar conceitos geolgicos. Finalmente, iria ele atingir um dos alvos de sua expedio com pesquisas rigorosas dos medicamentos vegetais, assim como de todas as restantes matrias vegetais, cuja utilidade para as artes e indstrias se comprovasse, cotejando-as com desvelo com as que so usadas na sua ptria. Deveramos sobretudo, alm das observaes e pesquisas cientficas nas nossas especialidades, pressupondo mtuo auxlio e assistncia entre ambos, completar, quanto possvel, com remessas de exemplares dos produtos naturais de todos os reinos, as colees da Academia, como melhor prova das observaes feitas. Alm desses deveres que havamos assumido, foram-nos feitos tambm, em relao aos restantes ramos das cincias naturais, especiais pedidos, uns por parte de fsicos e outros por parte das restantes divises da Academia. Com relao mineralogia, impunha-se-nos como tarefa atento estudo da natureza do solo em geral, assim como especialmente o quadro geolgico das formaes montanhosas, sua ordem, tamanho, direo e inclinao; e, tambm, o exame de ocorrncias, em parte ainda problemticas, de ouro, de diamantes e de outras pedras preciosas, bem como de todos os fsseis importantes.

  • No domnio da fsica, seriam objetos de nossas observaes: a declinao e inclinao da bssola; as suas variaes dirias; os fenmenos eltricos segundo os diferentes graus de latitude e longitude; a transparncia e colorido, a fosforescncia, a temperatura e teor de sal dos mares em diferentes zonas e profundidades; a temperatura da atmosfera e as miragens; a temperatura mdia e a diversidade climtica nos diferentes lugares da terra firme; as peridicas oscilaes do barmetro; as diferentes elevaes das terras; os indcios do sucessivo avano ou recuo do mar nas zonas costeiras; as correntes, as anomalias locais das mars; a eletricidade dos peixes, etc.

    As faculdades de histria e de filosofia - filologia da Academia lembravam-nos o estudo das diversas lnguas, do folclore, dos mitos e tradies histricas, do material histrico antigo e recente, como inscries, moedas, dolos, e, em geral tudo que pudesse esclarecer o estado de civilizao e histria tanto dos aborgines como dos outros habitantes do Brasil, ou o que dizia respeito topografia e geografia daquele pas to pouco conhecido.

    A fim de poder satisfazer eficazmente a essas obrigaes e desejos, os viajantes trataram de reunir todos os apetrechos para viagem to grande, e rapidamente fazer os necessrios preparativos. Depois de tudo, quanto possvel, pronto, e remetidos os livros, instrumentos, botica porttil e mais utenslios de viagem diretamente para Trieste, encetamos a viagem a 6 de fevereiro de 1817, de Munique para Viena.

    Ali, na cidade imperial, onde chegamos a 10 de fevereiro, tivemos da parte do ilustre chanceler austraco, Prncipe de Metternich, e do embaixador bvaro, o Baro von Stainlein, o mais eficaz e generoso auxlio para ulteriores compras e abastecimentos, necessrios execuo dos planos cientficos dos ilustres monarcas. O Sr. von Schreibers, Diretor do Museu de Histria Natural, cientista to clebre por seus escritos, como conhecido pelo fino trato e que era encarregado de organizar a expedio austraca de Histria Natural ao Brasil, teve a bondade de logo nos apresentar aos demais homens de cincia, companheiros de viagem. Era destinado o Prof. Mikan, de Praga, para Botnica e Entomologia; e o mdico Dr. Pohl para Mineralogia e Botnica; Natterer, assistente do Museu de Histria Natural, para Zoologia; Th. Ender, para pintor de paisagens; Buchberger, para pintor de plantas; H. Schott, filho do digno inspetor do jardim da Universidade, destinava-se para jardineiro; estes dois ltimos mencionados eram adidos ao Sr. Mikan, como auxiliares; alm deles, acompanhavam a comisso um caador e um mineiro. Encantados com o conhecimento destes nossos futuros companheiros, esperamos com impacincia o momento de nossa partida para Trieste.

    A 4 de maro, deixamos a imperial cidade de Viena e seguimos para Trieste. Em Gratz, visitamos o Johanneum, um instituto que bem testemunha o alto esprito cientfico do prncipe fundador, e destinado, sobretudo, a propagar conhecimentos prticos nas cadeiras de Histria Natural e Tcnica. Nessa oportunidade, travamos relaes com os Profs. Chrys. von Vest e F. Mohs, e com muito gosto, se o tempo houvesse permitido, mais nos teramos demorado ao lado desses insignes pesquisadores, mas as circunstncias o impediram, e apressamo-nos de seguir para adiante, a fim de podermos visitar ainda as minas de mercrio de dria. Pareceu- nos interessante conhecer de visu essa formao, cujo produto para o Brasil, rico em ouro, deveria ser de inestimvel vantagem, logo que ali, tal como no Peru e Mxico, se conhecesse a importncia da amalgamao.

  • Em dria, passamos uns dias examinando aquela instrutiva formao de xisto argiloso contendo mercrio, que constitui grande depsito na compacta pedra calcria, e as extensas fundies, que, durante muitos decnios, produziram anualmente 3.000 quintais de mercrio.

    A estrada levou-nos pelo declive dos Alpes Julianos calcrios, no qual jazem espalhados muitos blocos de rocha contendo conchas petrificadas, ao belo porto de Trieste, que alcanamos a 10 de maro. Do alto do Karst, perto de Obczina, estende-se majestoso o Golfo Adritico, entre as costas de Itlia e de stria, e dali avistamos, destacando-se entre outros muitos mastros, ambas as fragatas austracas ancoradas, j prontas para a viagem.

    Trieste, capital da Ilria, , pela sua situao no Golfo Adritico, uma das mais importantes cidades martimas italianas para o comrcio levantino. A velha cidade jaz ao longo da encosta da montanha, encimada pelo castelo; a nova construda beira-mar. Esta ltima possui algumas belas ruas, com grandes casas, ao lado de um canal, pelo qual as mercadorias so muito comodamente trazidas do mar para o centro da cidade. Os habitantes so de origem grega, ilrica, italiana; a maioria, porm, de descendentes de alemes.

    No hotel, onde nos hospedamos, ramos vizinhos do comandante de ambas as fragatas, Nicola de Pasqualigo, nobre de Veneza, distinto navegante, muito conhecido tanto por sua cultura geral e conhecimentos nuticos, como pela coragem e deciso, demonstradas na recente guerra. Sem demora levou-nos ele nossa futura morada, a fragata ustria que, assim como a Augusta, fora construda e aparelhada no arsenal de Veneza, e, por ordem' da corte imperial austraca, era destinada a transportar a maioria dos membros da grande embaixada e da legao corte do Brasil, os componentes da expedio cientfica e alguns enviados para tratar das transaes comerciais a serem iniciadas com o Brasil, assim como; para estes ltimos fins, de carregar artigos comerciais austracos. Eram os oficiais e a equipagem, em parte, alemes; a maioria, porm, era de venezianos.

    Alguns membros da embaixada e da expedio de Histria Natural haviam, entrementes, chegado a Trieste, e os que ainda se esperavam chegaram tambm no dia seguinte, de modo que, assim que os lugares foram marcados nas fragatas, embarcaram-se as malas e toda a companhia se acomodou, a 7 de abril, no novo alojamento.

    O Baro von Neveu, como conselheiro da embaixada e encarregado dos negcios junto corte brasileira, tinha que chefiar a viagem. Foi ajudado pelos cavaleiros Conde von Schnfeld e Conde von Palffy. Todos os trs se alojaram na fragata ustria, onde se achava tambm o comando supremo de ambos os navios.

    Foram outrossim acomodados ali: o Prof. Mikan e sua esposa, os naturalistas bvaros Spix e Martius, o pintor de paisagem Th. Ender, o comerciante Weber, de Trieste e, finalmente, o cnsul imperial austraco Nerini, de Cdiz, que se aproveitou da oportunidade at Gibraltar.

  • A fragata Augusta couberam os seguintes: o naturalista austraco Natterer, o jardineiro de corte Schott, o pintor de plantas Buchberger, alm de alguns auxiliares e um comissrio de comrcio, com o seu secretrio. O comando dessa embarcao fora confiado ao Tenente-Coronel Agurti. O Mineralogista austraco Pohl e o pintor de animais Frick iam fazer a travessia num navio portugus. O Conde von Wrbna devia embarcar em Londres para o Brasil, a fim de entregar ali, em primeiro lugar, a participao do casamento efetuado por procurao. Ambas as fragatas receberam ordem de fazer a viagem juntas at Gibraltar, mas ali esperariam a chegada da senhora arquiduquesa, que, com a sua corte e a grande embaixada, devia embarcar na esquadra portuguesa, esperada em Livorno. Logo que se acharam a bordo os viajantes, e concludos os aprestos, o Governador de Trieste visitou as duas fragatas, armadas cada uma com 44 canhes e 260 homens de equipagem, passando em revista a tripulao e o carregamento, despediu-se, formulando votos de boa viagem, ao troar dos canhes.

  • CAPTULOS II E III

    Partida de Trieste Viagem pelo Mar Mediterrneo at Gibraltar

    A 10 de abril, s duas horas da madrugada, foram levantadas ncoras na escurido e sossego da noite. Estava tranqilo o mar e navegamos com moderado noroeste quatro at cinco milhas martimas italianas por hora. Quando os companheiros de viagem, ao nascer o sol, se encontraram no convs, j apareciam as montanhas de Friul no azul nublado. Durante o dia inteiro, ficou a maior parte dos viajantes, que jamais haviam embarcado, reunida no convs e todos, com um misto de alegria e saudade, fitavam os olhares na ptria que se sumia distncia, at que, ao cair da noite, tomando-se mais forte o jogo do mar e refrescando o vento que soprava na escurido, a maioria tratou de se recolher aos camarotes. Passou sossegada a noite, mas de manh foram todos acordados com o violento balano do navio. Aquele a quem o enjo do mar no havia tirado a presena de esprito, compreendia, - pelo jogo violento, pelos estalidos e oscilao -, que o navio lutava com o mar encapelado e, - pelo gemer dos mastros, o estrondar do vento, as correrias alvoroadas dos marujos de um lado para outro ao silvar o apito das ordens do mestre -, que tnhamos temporal. O Breas, vento nordeste, frio e muito forte, que, sobretudo na primavera, sopra com freqncia das montanhas da Istria e na parte norte do Mar Adritico, havia cado de repente sobre ambos os navios. Apenas o aparecimento de uma nuvem negra muito baixa avisara o oficial de quarto de nossa fragata, de modo que, antes de desabar o terrvel furaco, houve tempo somente para ferrar as velas. Ao cabo de alguns minutos, desapareceu de nossas vistas a Augusta, que at ento navegava muito prxima da ustria. Espesso nevoeiro cercava o nosso navio; chuva fria com granizo, que um vento de tempestade tocava furioso sobre ns, encheu o convs de pedras do tamanho de um punho e fez logo entorpecer de frio a tripulao. O navio era violentamente lanado de um lado para outro, vergas e cordame eram arrancados e partidos; as ondas arremessavam-se impetuosas pelas vigias do castelo de proa, enchendo parcialmente de gua o poro e finalmente, no auge do furaco, partiu-se o gurups quase pela base. At perto do meio-dia, bramiu o tufo com a mais extrema violncia; quando, depois, o mar sossegou um pouco, e o cortante nor-nordeste se alternou com o vento de leste mais manso, lanou-se ferro em pleno mar, umas trs milhas distante de Rovigno. Nessa situao ficou-se espera de amanhecer o dia, e, entretanto, se ativava o conserto das amuradas e do cordame que, ao partir-se o gurups, ao qual em grande parte amarrado, tinha afrouxado. A bela biblioteca do Baro de Neveu havia sido completamente inundada pelas ondas que tinham quebrado as vigias do camarote principal, e igualmente quase todos os viajantes haviam mais ou menos sofrido prejuzos, por causa da violncia do temporal; em todo caso, salvos todos, consolou-se cada qual facilmente de sua prpria desventura mais do que da incerteza sobre a sorte do navio nosso companheiro. Pouco a pouco se foram reunindo os viajantes, que haviam duramente sofrido essa primeira prova, no convs, onde o aspecto dos sbitos estragos e do estado cansado e quase entanguido da equipagem completou a noo do grande perigo, de que havamos felizmente escapado.

  • Pouco antes das doze horas, o cu escuro clareou um pouco, e o navio ps-se devagar em movimento para sueste. Ao meio-dia, avistamos as costas ridas da stria, onde o sol, justamente saindo das nuvens, deitava luz muito viva. Passamos junto de pequenas ilhas plantadas de oliveiras e filirias, entrada do Porto de Pola. Nessa mesma noite, a nossa companhia de viajantes desembarcou para repousar, contemplando as belas runas de arte romana. O oficial de marinha, que entrementes havia sido mandado de Pola para Veneza a fim de dali trazer um novo gurups e notcias da fragata nossa companheira, a Augusta, da qual nada tnhamos podido saber nas costas solitrias da stria, voltou dentro de alguns dias, com a notcia de que aquela embarcao, tendo perdido todos os mastros, velas e botes, se havia recolhido Ilha de Chioggia, e dali deveria seguir para Veneza, a fim de restaurar no seu arsenal as considerveis perdas, avaliadas em vinte mil francos. O novo gurups foi em breve colocado e no stimo dia estava a ustria pronta para se fazer vela. A embaixada resolveu, portanto, continuar s at Gibraltar, e ali esperar, alm da fragata Augusta, a real esquadra portuguesa, assim como instrues imediatas da corte imperial de Viena. Na manh de 21 de abril, s 6 horas, levantamos ncora e zarpamos do Porto de Pola. Um vento contrrio, que nos fez demorar em Malta, mudou na noite de 30 de abril para um fraco sudeste, e a fragata apressou-se logo a zarpar do porto. A 3 de maio, apareceu-nos, a pouca distncia da costa da Sardenha, o Toro, rocha nua que surge do mar, e logo em seguida So Pedro, a ponta mais ocidental daquela ilha. Muitos botos folgavam em torno do nosso navio, e deram aviso, segundo a experincia da maruja, de que o vento ia ceder, o que de fato logo sucedeu. Sobrevindo diversos fenmenos, compreendemos que nos avizinhvamos do grande Oceano; entre outros, sobretudo, a forte fosforescncia do mar. Na viagem de Trieste at ali, haviam-se verificado apenas pequenos pontos luminosos no mar; agora, porm, durante a noite, parecia que o navio navegava em fogo lquido aos caches, e o convs, no abaixar e oscilar ao encontro das vagas, ficava todo cercado de claridade. A contemplao desta mgica viso noturna arrebata o espectador, especialmente quando ele no teve antes oportunidade de singrar o elemento salso em tal esplendor. O mar fervia com globozinhos resplandecentes, e cada baque do navio de encontro s vagas fazia chispar fascas, como as do ferro em brasa quando o ferreiro o malha, e que tudo iluminavam em volta. Alm desses milhares de minsculas esferas de fogo, tambm se viam maiores bolhas luminosas, e justamente em maior profuso junto do navio; entretanto, igualmente se notavam distncia, nos lugares em que as ondas se quebravam espumantes. Quanto mais escura a noite, tanto maior a magnificncia desse fenmeno; tambm, por esse motivo, nas noites de luar era menos visvel, e somente do lado da sombra do navio. Em muitas descries de viagens martimas, este belo espetculo tem dado assunto para investigaes. Forster opina que ele se produz em parte graas eletricidade causada pelo forte atrito do navio, e, em parte, graas fosforescncia proveniente de matrias animais em putrefao ou a bichinhos luminosos. Adanson, e com ele os mais modernos pesquisadores da natureza, como Humboldt e Pron, atribuem esse fenmeno exclusivamente aos moluscos, zofitos e outros animais marinhos.

  • Tambm ns no perdemos a ocasio de examinar este importante assunto, com o mximo zelo. Fizemos encher de noite algumas vasilhas com a gua luminosa do mar. A mo e tudo que se molhava com essa gua reluzia, e na vasilha, logo que era agitada, a gua cintilava com pontos de fogo. No dia seguinte, examinando-a com o auxlio de um excelente microscpio de Utzschneider e Fraunhofer, essa gua deixou patente uma infinidade de corpsculos-bolhas, ora arredondados ora alongados, do tamanho de uma semente de papoula. Cada um deles tinha numa extremidade ou vrtice um pequenino furo guarnecido com seis at nove fios delicados, que agora flutuavam no interior da bolha, e com os quais parece que o animlculo se agarra aos corpos estranhos, e ingere o seu alimento. No interior dessas bolhazinhas viam-se s vezes pequenssimos pontos escuros aglomerados a um lado, e aqui e acol alguns maiores, talvez restos interceptados de animlculos semelhantes, ou gerao de entezinhos novos, para serem expulsos. Esses animais esfricos, que tm todos os caractersticos das medusas, citados por Pern e Lechenault com o nome de Orethusa pelagica, por Savigny com o de Noctiluca miliaris, nadam na gua do mar colhida noite, em maior ou menor quantidade e parecem, a olhos nus, examinando-os luz do sol, pequenas gotas de gordura. Desde que a gua no seja renovada ou que dure muito tempo o exame, no se conservam mais em cima da gua, e caem mortos no fundo. Interessante o fato desses animlculos se atrarem espontaneamente formando grupos quando se aproximam. Igual fenmeno vimos, em grande escala, de dia, tanto aqui, como no oceano, isto , sobrenadam no mar em compridas filas amarelo-pardacentas estes corpsculos e do a idia de gua semeada com serragem. Essas ocorrncias sempre se davam, contudo, quando o cu estava encoberto por nuvens, escurecendo o mar. Parecia que estes infusrios do mar receavam a luz do sol, durante o dia, descendo s profundidades, e, com o crepsculo, voltando superfcie; pelo menos nunca eram encontrados na gua colhida de dia, e sempre na gua retirada noite. No Porto de Gibraltar eram em to grande quantidade que, ao tocarmos com a mo na gua, logo se formava um rasto de luz, e a mo retirada luzia com inmeras cintilaes. Todos estes fatos parecem demonstrar que so animais que do de preferncia motivo fosforescncia do mar. As grandes bolhas luminosas, s vezes com o tamanho de um p, que sobem isoladamente superfcie ou vogam a esmo, presume-se que sejam moluscos maiores ou medusas, ou borbulhas de gua iluminadas pela fosforescncia desses animlculos. Alm dessas fosforescncias isoladas ou borbulhosas, nota-se, porm, mais outra, que at aqui parece no ter sido bastante discernida, segundo os seus caractersticos fsicos, isto , a certa distncia do navio, por toda parte, onde duas vagas se quebram de encontro ou se arremessam uma sobre a outra, v-se pairar uma orla de luz azulada, igual ao reflexo dos coriscos na gua. Esta luz difere da dos animais esfricos, pelo fato de no ser chispa isolada ou borbulho de luz amarelo-clara, porm, igualmente espalhada e parecida com a luz fraca, que d a chama de lcool.

  • Sobre a natureza desta luminosidade no nos atrevemos imediatamente a determin-la com preciso. Poder-se-ia consider-la reflexo de centelhas produzidas pelos animais-esfricos, ou processo de compensao da tenso eltrica entre as prprias vagas ou entre o mar e a atmosfera, pois s se d na superfcie das vagas, quando estas se quebram de encontro uma outra. Quase poderamos opinar por este ltimo alvitre, lembrando, sobretudo, a percentagem de sal que aumenta a tenso-eltrica contida nas camadas de gua do mar e as matrias ptridas da mesma, ficando a gua por assim dizer, mais orgnica e animalizada. De qualquer modo, no resta dvida de que na fosforescncia de toda espcie a oxidao e reduo so fatores essenciais. Supondo-se um processo de putrefao no mar, tambm isso ato orgnico, no qual a podrido, como matria orgnica, entra em relao com a atmosfera. Excluindo-se os fatores estranhos, o mar tem sempre a mesma relao com a atmosfera, e a sua gua e o sal dissolvido nela, com o movimento, mais se oxidam. Pode-se, pois, considerar qumico, fsico ou orgnico esse fenmeno. Esse gnero de luminosidade parece sempre efeito da eletricidade e do processo contnuo de oxidao no mar, efeito que aumenta e se torna visvel pelo choque das ondas. Examinem outros viajantes os fenmenos dos diferentes gneros de fosforescncia e retifiquem as causas por ns sugeridas. Ventos fracos alternados ajudaram-nos pouco a pouco a progredir, at que a 11 de maio, chegamos vista da extensa Serra de Morabela, e, finalmente, impelidos por vento um pouco mais vivo, entramos a 12 de maio ao meio-dia, com felicidade, no Porto de Gibraltar, onde, ao troar dos canhes, deitamos ncora. Estava assim concluda a primeira parte da viagem de mar, e achamo-nos nas Colunas de Hrcules, que se costuma considerar como o ponto extremo das mais audazes expedies da antiguidade. Muitos membros do grupo de viajantes dirigiram-se ainda nesse mesmo dia terra, que a tantos respeitos prendia a nossa ateno. Os rochedos de Gibraltar, Mons Calpe, formam o ncleo de uma pequena lngua de terra que avana para o mar, de norte a sul, e somente se prende por um areal baixo ao continente. Eleva-se na ponta voltada para o sul, Europa Point, 105 ps acima do nvel do mar; dos lados norte e leste, escarpadas muralhas o tornam absolutamente inacessvel. O ponto mais alto, o Sugar-Loaf, eleva-se a 1.439 ps ingleses de altitude. Est a cidade situada na parte oeste, mais plana e habitvel da ponta de terra. O General Donn, governador da praa, nos havia dado licena para percorrer todos os lugares da rocha, mesmo as fortificaes, e estava em geral empenhado em proporcionar embaixada todos os divertimentos que a isolada cidade martima pode oferecer. Num baile, assistimos ao delicado fandango e ao bolero dos andaluzes, alternados com danas do norte, e as arcadas do palcio, festivamente iluminadas, ressoavam em breve, ora com as suaves elegias do madrigal espanhol, ora com o melanclico canto de bardos do norte. Esse contraste entre o norte e o sul era a constante surpresa dos viajantes por toda a parte.

  • Na mistura de residentes espanhis e ingleses, notam-se tambm muitos genoveses e calabreses, que especialmente se dedicaram pesca ou navegao. O nmero de judeus, que na maioria falam o espanhol, considervel. Ainda no podia a posse inglesa suplantar a lngua e costumes espanhis; pelo contrrio, o grande trfego comercial e a presena de muitos estrangeiros do a este ponto, grande e universal significao para o comrcio do Mediterrneo. O que completa, porm, o variado quadro que apresentam os habitantes de Gibraltar, a presena de asiticos e norte-africanos. Entre estes ltimos acham-se muitos marroquinos, que vendem, nas ruas, frutas do sul e belos artigos de couro lavrado. O louro nortista assim como o moreno sul-europeu, distinguem-se singularmente, por diferentes traos do semblante e por seu fsico, desses estrangeiros de origem oriental. A fisionomia dos marroquinos e outros africanos, que aparecem aqui, exprime firmeza: e inteligncia. Entre as doenas mais perigosas que grassam nesta enseada do Mediterrneo, muito quente por sua situao e exposta sobretudo ao vento do sul, est a febre amarela. Pouco antes de aqui chegarmos, grande nmero de pessoas foram vitimadas por essa doena. Como em Cuba, no Golfo do Mxico, assim aqui, em Cdiz, Barcelona e outras cidades martimas no expostas livre ventilao, acontece aparecer esta devastadora doena favorecida pela ao do calor e pelas exalaes ptridas e deletrias da gua salgada. Em Algesiras, recebeu o embaixador ordem da corte de Viena, em virtude da qual a fragata ustria devia seguir viagem sozinha, para o Rio de Janeiro. Como j, neste momento, havia chegado a Gibraltar a notcia de movimentos revolucionrios em Pernambuco, felicitamo-nos por nos ser poupado maior atraso, que poderia ser aumentado pela continuada demora da esquadra portuguesa. Apenas esperamos mais um dia, quando, de improviso, comeando a soprar o vento leste, uma salva de canho da ustria e o sinal da bandeira, hasteada a bordo, nos chamaram. Ao meio-dia, veio um bote com a notcia de que, dentro de uma hora, a fragata ia fazer-se vela e levou-nos de volta. Estava tudo pronto para a partida, e somente o nosso colega, Sr. Mikan, que se havia afastado longe demais numa excurso botnica, ainda no havia chegado a bordo; j comeava a afligir-nos a sua demora, quando, precisamente ao se levantarem os ferros e se desfraldarem as velas, ele chegou e pde embarcar felizmente.

  • CAPTULO IV

    Viagem de Gibraltar Madeira e pelo Oceano Atlntico ao Rio de janeiro

    A 3 de junho, zarpamos da Baa de Gibraltar ao meio-dia, acompanhados por mais de cinqenta embarcaes grandes e pequenas, que tambm haviam esperado vento favorvel para a partida e conosco faziam agora vela em majestoso comboio, atravs do estreito, rumo ao Oceano Atlntico. O vento de leste soprava vivo, e o nosso rpido veleiro tomou em breve a dianteira sobre todas as outras embarcaes. J no fim de uma hora, havamos dobrado a ponta oriental do Cabo Carnero, e achvamo-nos ao meio do estreito, onde as duas partes do mundo distam poucas milhas martimas1 uma da outra. A correnteza de oeste muito sensvel aqui, e qualquer olho experimentado logo a reconhece nos navios que vm do oceano. Costuma-se estim-la em quatro a cinco milhas martimas por hora, que so da deduzidas do clculo da barquinha, isto na sada. Quando navegvamos nas guas verde-escuras do estreito, avistava-se a costa espanhola diante de ns em azul nublado; podiam-se distinguir perfeitamente duas ordens de montanhas, que corriam de E.N.E. para O.S.O. As de trs dominam consideravelmente os outeiros verdes dianteiros, que se elevam suavemente, arrimando-se nos alcantilados e despidos dorsos das primeiras, interrompidos por muitos pequenos vales e vo descendo sem encostas abruptas at o mar. Em dois dos mais extremos pontos deste promontrio ainda existem torres mouriscas de vigia, e alm, para oeste, avista-se o arenoso promontrio de Trafalgar, famoso pela vitria de Nlson. Uma faixa azul mais alta a N.O., que acaba no estreito Cabo de San-Sebastin, foi o ltimo ponto do continente europeu, de que nos despedimos. As montanhas no lado africano do estreito estavam em grande parte enevoadas; parecia-nos, entretanto, terem como as da costa espanhola, forma alongada com entalhos selados nas lombadas. s quatro horas, passvamos vista de Tnger, distncia de trs a quatro milhas martimas. Distinguia-se claramente a cidade disposta em terraos com pequenas casas achatadas, cercada de muralhas e torres baixas quadrangulares, atrs da qual se elevam escarpados montes calcrios, e aqui e ali, blocos de rocha desagregados. Cerca das cinco horas, distava de ns a E.S.E., o Cabo Espartel, umas seis milhas martimas. A idia de que navegvamos vista de dois continentes em demanda de um terceiro, emocionava-nos a todos. A vizinhana da velha frica, que, j desde sculos sem progresso de civilizao, jaz na mesma uniformidade; a recordao dos limites de suas atividades, que a arrojada antiguidade julgava ter alcanado nesse brao de mar; a lenda da afortunada Atlntida, que ns espervamos de novo encontrar na frtil Amrica, to rica de maravilhas da natureza; o pensamento da despedida, que fazamos Europa altamente culta e espiritual; tudo concorria para tornar inolvidvel aquele momento de nossa vida, passagem pelas Colunas de Hrcules, rumando para o oceano.

    1 A milha martima equivale a cerca de 1.850m. (Nota da reviso, Ed. Melh.)

  • s seis horas da tarde, tinham-se sumido de nossa vista os ltimos pontos das costas africanas e europias e achvamo-nos em alto mar. Majestosas vagas amontoavam-se. O prprio oceano, assim como o claro firmamento acima dele, de colorido azul-escuro, davam igualmente a imagem de profundezas insondveis. Cada um dos navios conosco em viagem tomavam da por diante o caminho do destino, guiados pela bssola no oceano, que separa e une todos os continentes. O nosso esplndido veleiro, tomando precedncia sobre todos, cortava com incrvel rapidez os altos vagalhes uniformes, na direo oeste. O enjo um penoso sofrimento para o viajante no mar. Nem todos so atacados pela mesma forma; em geral, parece que as pessoas de constituio forte e habitantes das costas do mar sofrem menos do que a gente de fsico mais fraco e os moradores no interior do continente ou nas montanhas. H tambm exemplos contrrios, at de marinheiros, endurecidos por muitas travessias do mar, serem eles tambm atacados nas tempestades violentas. Certamente essa doena menos devida ao aspecto da imensido das guas, e ao resultante medo do perigo, ou ao mau cheiro que se desenvolve das guas apodridas, presas no navio, ou s saudades da ptria; antes provm, principal se no inteiramente, dos desencontrados balouos do navio. A impresso que experimenta o viajante, com o balano do vasto elemento fluido, muito semelhante ao que muita gente sente em terra com as sacudidelas dum carro em passeio, e muitos ainda se conservam incomodados depois de estarem muitas horas em terra firme. Em geral, comea a doena por uma presso surda na cabea, como angstia, e passa-se por uma srie das mais desa radveis sensaes, at virem as cimbras de estmago, mais ou menos dolorosas, s quais se seguem vmitos violentos e continuados. s vezes, so to fortes que provocam hemorragias ou tambm acontece que os pacientes sempre enjoados, nem sequer suportam a vista ou o cheiro da comida, e por falta de suficiente alimentao se enfraquecem e, sendo demorada a viagem, correm risco de vida. Quem foi vtima desse mal sabe que os atacados gostariam de poder empenhar todas as felicidades do mundo por uma hora de desembarque em terra e, portanto, no considerar este assunto de pouca importncia, na descrio de uma viagem por mar. A fim de minorar ou curar esse penoso incmodo, recorre-se a diferentes meios. A gente do mar recomenda particularmente chupar laranjas com ferrugem da ncora. As regras mais eficazes para se evitar esse mal so a dieta e, antes de tudo, conservar-se a pessoa tanto quanto possvel no convs, ao ar livre e muito prximo do mastro central, onde o balano menos sentido; no contemplar a superfcie do mar ou, pelo menos, no a fixar; e, em vez de tomar alimentos lquidos particularmente quentes, acostumar-se a frios, slidos, sobretudo cidos, que consumam muito suco gstrico, por exemplo: peixes salgados, presuntos, etc. O que mais se recomenda, logo ao primeiro ataque da doena, quando se pressente o enjo, procurar domin-lo, tomando alimento mais pesado e procurando distrair o esprito com algum divertimento. Antes de tudo abster-se de sair do convs e, logo primeira dor de cabea, fugir do interior do navio e dos camarotes abafados e malcheirosos.

  • Se, no obstante, o incmodo se instalar to violentamente que no se tenha nimo para mexer, ento o nico recurso estender-se a fio comprido no leito e esperar do sono algum alvio. Na mesma posio, depois de algum repouso, aconselhvel tomar cerveja Porter, alimentos slidos e frios, por exemplo presunto, e depois voltar ao ar livre. Energia e distraes muito podem concorrer, assim como mudar de idia e forar a vontade. Pessoas fracas, por outro lado, quando pensam muito e fazem esforos intelectuais, podem com isso chamar a doena e prolong-la. Quanto menos a pessoa se preocupar consigo mesma e quanto mais se distrair com vrias ocupaes, com passeios no convs, mesmo com esgrima e com o trabalho dos marinheiros, tanto mais facilmente se acostumar ao balano do navio, sobretudo numa viagem demorada. Tambmfomos assim cada vez menos assaltados pelo penoso incmodo e pudemos, graas ao bom tempo, passar o dia inteiro no convs. Somente quando as ondas se alteavam muito e o movimento do navio se tornava violento, comeavam os primeiros sintomas do mal, embora passageiros; quanto mais uniformes o vento e o balano do navio, tanto mais facilmente a ele nos habituvamos, e tanto mais encanto tomava para ns a vida de bordo. O vento forte e constante trouxe-nos, at dia 5 de junho, com a maior rapidez Madeira. Nesta bela ilha, a primeira possesso portuguesa em que ia pisar S.A. Real-Imperial a arquiduquesa, faziam-se preparativos festivos para sua recepo, e a embaixada foi repetidamente convidada a passar aqui alguns dias. Estava resolvido, entretanto, s nos demorarmos o tempo necessrio para embarcar o delicioso vinho da ilha, e como isso se executou no dia da chegada, foi concedido aos naturalistas um dia apenas para percorrerem os arredores mais prximos de Funchal. Ainda noite percorremos a cidade. O governador da ilha, que tambm tem a seu cargo a vizinha Porto Santo, reside num castelo vasto e belo, prximo do porto. Tanto este como os arredores prximos da igreja principal foram esplendidamente iluminados noite, quando o governador ofereceu um baile sociedade. As senhoras fizeram-se transportar ao palcio em palanquins ricamente dourados e em redes seguras em varas, cobertas de ricos vus, e, de fato, carregadas por negros, cujo nmero considervel entre os demais habitantes nos causou muita estranheza, aumentada ainda ao avistarmos alguns padres dessa cor. Os naturalistas preferiram o conhecimento do interior da ilha ao gozo da festa. Ambos nos achvamos, j ao amanhecer do dia, a caminho para o alto que, fronteiro ao porto, se eleva em anfiteatro, cortado por alguns vales, para os quais correm claros regatos. A 8 de junho, s quatro horas da manh, foi levantada a ncora e partimos. Fomos nisto mais felizes do que o navio que aqui trouxe, algum tempo depois, S.A., a princesa imperial; impelido por um vento sul, que caiu de repente perto demais da margem, teve que picar apressadamente ambas as amarras para poder ganhar o alto mar. Com efeito, o mar em volta da ilha to profundo, que somente muito perto da margem, na profundidade de trinta e cinco at cinqenta braas2, pode-se fundear a ncora, que ento se apega facilmente aos recifes de basalto. Da, tornar-se, muitas vezes, necessrio sair perdendo a ncora, sobretudo nos meses de novembro a fevereiro, quando as tempestades de S.O. ou S.E. ameaam arremessar os navios de encontro costa.

    2 1 braa inglesa - cerca de 1,80m. (Nota da rev., Ed. Melh.)

  • Samos do porto de Funchal com vento norte fraco, que em breve, porm, se transformou em E. e N.E. e soprou favoravelmente. Um brigue ingls, que levava a bordo colonos3 para a Nova-Holanda4 , passou por ns muito perto, nessa latitude. Achava-se nele grande nmero de mulheres que, embora desterradas da ptria, pareciam viajar com animosa confiana para o seu novo destino. A noite desse mesmo dia, tambm a Ilha de Ferro apareceu dentro do nosso raio visual; mas, como quase sempre, envolta em nvoa. Assim havamos transposto os limites da navegao antiga, alm dos quais o audaz gnio empreendedor de Bartolomeu Dias, Colombo e Magalhes os fez rumar para novos mundos; velejamos, confiantes na arte e cincia dos homens, para o alvo de nossa viagem sobre a imensidade do oceano. A perfeio da nutica e da construo naval na nossa poca inspira ao viajante sensao de segurana e conforto, que afugenta qualquer idia de perigo. Assim tambm ns tivemos ocasio de experimentar um dos mais agradveis lados da vida do mar, em embarcao bem construda e guiada com prudncia e inteligncia, cercados por uma sociedade muito animada. Distrados com variados entretenimentos, jogos, msica e trabalhos cientficos, para ns as horas corriam to cleres, como o nosso excelente veleiro, deslizando sobre as vagas. Assim que passamos, na longitude 2151' Oeste de Paris, o Trpico de Cncer, reuniram-se o vento N. e o vento E., que antes se alternavam como que brincando um com o outro, passando para N.E. e finalmente soprando N.N.E. em direo ao Equador, dia e noite, com igual fora. Com essa constncia de vento N.E. que perseverava, vencemos em vinte e quatro horas cento e cinqenta milhas martimas. No nosso crculo mais prximo fazia-se pouco a pouco uma extraordinria mudana, que nossas pessoas compartilhavam com os objetos circunstantes. Ao meio-dia, vamo-nos sempre mais livres de nossos companheiros. As sombras diminuam at sumir-se entre os ps, como se tudo nessa zona da criao procurasse ser mais independente e menos importunado pelo reino das sombras, as quais sempre acompanham a obliqidade e a parcialidade. Nesta altitude, apareceram os peixes voadores (Exocoetus volitans) em cardumes na superfcie do mar e ofereceram ao solitrio observador um espetculo interessante. Para fugir do navio e das perseguies dos peixes vorazes elevam-se eles, ora um a um, ora em cardumes cerrados, a alguns ps de altura acima da superfcie da gua, e tornam a cair de novo nas vagas, depois de vos de quarenta at cinqenta passadas, contra o vento; acontece, por vezes, serem lanados pelo vento no convs e a so presa da marinhagem. Seus inimigos, os atuns (Scomber thynnus), e bonitos (Sc. pelamis), porfiam na velocidade com o navio que desliza rpido como flecha.

    3 Sentenciados (e sentenciadas) deportados para colonizao de regies coloniais. Conhece-se esse mtodo de colonizao outrossim da Austrlia e da Sibria. - (Nota da rev., Ed. Melh.) 4 Austrlia.

  • Quando nos achvamos na latitude 812', avistou-se ao longe um grande navio, cuja marcha nos pareceu suspeita. Esta zona to freqentemente perturbada por piratas de Buenos Aires e da Amrica do Norte, que os navios portugueses e espanhis, particularmente, precisam estar sempre alerta. Todavia, tampouco poupam esses piratas os navios ingleses, desgosto pelo qual passou, entre outros, o Sr. Conde von Wrbna, que, como correio do Rio de janeiro, de volta num paquete ingls, foi, com risco de vida, atacado e roubado. A vista desse navio, foram logo tomadas disposies militares de defesa; em breve, porm, demonstrou ele, pelo rumo que seguia da direo da costa da frica, que no tinha inteno hostil. Provavelmente era um negreiro portugus, que viajava para a Guin. A 15 de junho, na latitude 146'45", apareceu pela primeira vez a magnfica constelao do cu meridional, o Cruzeiro, que para o navegante um sinal de paz, e, pela sua posio, tambm indicador das horas da noite. J desde muito tempo estvamos na expectativa dessa constelao para nosso guia ao outro hemisfrio; indescritvel foi, portanto, a nossa alegria, quando se fez visvel no cu todo resplandecente. Por todos considerado signo de salvao, foi contemplado com emoo religiosa; porm, a alma regozijou-se particularmente no pensamento de que at a estas regies, iluminadas pela bela constelao do significativo nome de Cruzeiro, o europeu trouxe a civilizao crist e cientfica, a verdadeira nobreza da humanidade e, incitado por elevados sentimentos, sempre mais e mais a procura espalhar at s terras mais remotas. Ao passo que o cu estrelado do Sul se elevou no nosso horizonte, o firmamento setentrional submergiu-se. Os que consideravam a Europa sua exclusiva ptria, apenas com melanclica saudade contemplavam a estrela polar desaparecendo cada vez mais, at finalmente sumir-se nas nvoas do horizonte. Grandiosas e magnficas so as impresses que o novato experimenta aqui, da potncia e da tranqilidade dos elementos; porm, estranho e sem o hbito da zona quente, sente-se incomodado com a umidade e frescura das manhs e das tardes e com o opressivo abafamento do meio-dia. A equipagem toda comeou, nessa latitude, a queixar-se de dor de cabea e de clicas, e s com o uso de remdios, como trtaro e ruibarbo, os organismos de novo voltavam ao equilbrio nessa natureza, sobre a qual o sol dardeja a prumo. Assim como antes, tocados pelo vento N.E., agora, pelo S.E., seguamos com a mesma velocidade, navegando para o equador. A 28 de junho, quando nos achvamos a 219'29" latitude norte e a 2421' longitude oeste de Paris, apareceram algumas aves tropicais (Phaeton aethereus) e pelicanos (Pelicanus aquila), voando alto, por cima da fragata. Essas aves podem na verdade descansar sobre as ondas; costumam, porm, especialmente as ltimas, mostrar-se somente quando a terra no est muito distante. Como estivssemos em pleno alto mar, devamos presumir, pelo aparecimento delas, que existiriam rochedos nas vizinhanas. De fato, em alguns de nossos mapas nuticos, estavam indicados os tais rochedos, na longitude em que amos cortar o equador. A noite, j pensava o comandante haver passado fora desse perigo, quando de repente, cerca das nove horas, ressoou o grito do vigia no cesto da gvea: Ressaca frente do navio"!

  • Todos a esse brado subiram com desespero ao convs e correram, em todos os sentidos; uns gritando: "Fogo!"; outros, "Naufrgio!" Entretanto, o comandante, no perdendo o sangue-frio e a presena de esprito, ordenou prontamente que se virassem as velas a fim de fazerem parar o navio. A proximidade do suspeitado perigo deu asas s manobras, e o navio foi instantaneamente desviado dos escolhos. Assim estvamos, com felicidade, livres do perigo, e cada qual sentiu-se aliviado depois do susto, ao imaginar a iminncia de naufragar. Entretanto, para navegar com maior segurana durante a noite, julgou-se acertado despachar um bote para investigar os supostos rochedos. Ao chamado do comandante, apresentou-se o Tenente Logodetti, que desceu com mais alguns marinheiros, levando uma bssola, uma lanterna acesa e alguns vveres ao bote balanante, a fim de seguir para o presumvel rochedo. Nesses aprestos, havia a lua sado das nuvens, e iluminava o mar agitado pelo vento S.E. Toda a equipagem do navio que, desde a, com poucas velas, navegava para trs, seguia ansiosa com o olhar o bote, cuja luz indicava o caminho. A sorte daqueles homens, metidos numa lanchinha aberta sobre a vastido do oceano, talvez exposta a bater num escolho ali perto, afligia a todos os companheiros de viagem; ora via-se com ansiedade sua luz sumir-se ao longe, ora o seu reaparecimento produzindo uma viva alegria; afinal, porm, ela desapareceu de uma vez de nossas vistas e parecia sumida de todo. Enquanto trocvamos as mais diferentes conjeturas uns com os outros, navegou a lanchinha sem novidade a noite toda com constante cautela na expectativa do perigo receado, e voltou na manh seguinte s e salva para a fragata, com a notcia de que os supostos rochedos, anunciados pelo vigia, no eram mais do que o reflexo e o tumultuar da forte correnteza. Seria a 29 de junho, num domingo, que, segundo os nossos clculos de navegao, devamos cortar o equador. Como o mar estivesse bastante calmo, foi esse dia solenizado com uma missa. Ante a solido do lugar, a gravidade da calma, a vastido dos elementos, entre os dois hemisfrios e a imensidade do oceano, onde a nossa pequena embarcao vogava desamparada, comoveram-se profundamente todos os nimos, especialmente aqueles que pensaram ento na onipotncia da natureza e na misteriosa transformao de todas as coisas, quando o rufar militar do tambor anunciou a transubstanciao. Passou o dia sossegadamente, ao contnuo soprar do vento S.E. favorvel; mesmo o prprio Netuno alcatroado e seus companheiros extravagantes no conseguiram alvoroar o navio com os batismos alis costumados. A noite estava clara e brilhante; os plos do firmamento estrelado j descansavam no horizonte e a lua cheia espargia acima de nossas cabeas uma resplandecente luminosidade: Vega, Arcturo, a Espiga, o Escorpio, no qual justamente brilhava Jpiter e os ps do Centauro, cintilavam todas l em cima, na abbada celeste; o Cruzeiro do Sul havia tomado posio perpendicular e indicou meia-noite, quando, segundo os clculos, nos achvamos no lugar de equilbrio do cu e da terra, e, transpondo o equador, rumvamos para o hemisfrio sul.

  • Com que vivas esperanas, com que indizveis sensaes, entramos nessa outra metade do mundo, que nos ia oferecer opulncia de fenmenos e descobertas! Sim, esse momento foi um dos mais solenes e mais sagrados de nossas vidas. Nele se satisfazia a expectativa de nossa mocidade, e nos abandonamos, em jbilo exttico, ao gozo antecipado de uma natureza estranha, to rica e maravilhosa. Achvamo-nos agora na latitude dos Abrolhos. O aparecimento de diversas aves marinhas, - do Phaeton aethereu e da Procellaria capensis -, dava indcio da vizinhana dos perigosos rochedos, que esto situados entre a latitude sul 16 e 19, ao longo da costa brasileira. O comandante dava ordens mais freqentes de lanamento da sonda, e, embora achasse apenas fundo na profundidade de setecentos ps, considerou prudente permanecer durante a noite mais afastado da costa. A 10 de julho, quando estvamos na latitude sul de 2049' e na longitude 3924' oeste de Paris, deixamos a declinao ocidental da agulha magntica, que, desde nossa partida da Europa, at aqui, havia regularmente diminudo, e passamos oriental. No dia seguinte, encontramos um pequeno navio, o primeiro que no alto mar passava to perto de ns que o podamos chamar. Ao tiro de canho e ao arvorar de nossa bandeira, ele acudiu pressuroso, e participou-nos a tranqilizadora noticia de que o levante que se dera em Pernambuco, e cujo conhecimento tnhamos tido em Gibraltar, estava apaziguado e que a calma poltica e a ordem pblica no se haviam perturbado no resto do reino. Deu-nos ele a sua distncia do continente como dois dias de viagem de Cabo Frio e desapareceu em breve de nossas vistas. Na tarde de 13 de julho, anunciou-nos o comandante que, na manh seguinte, veramos Cabo Frio. Com que ansiedade esperamos o momento em que, depois de uma viagem de quarenta e dois dias, de novo amos avistar um continente! Confirmou-se do modo mais rigoroso a predio do comandante, e na manh de 14 de julho apareceu a oeste, mais ou menos envolvida em nvoas, uma extensa serra. Pouco a pouco se dissiparam as enganadoras nuvens e reconhecemos, na distncia acinzentada, distintamente, a montanha coberta de matas de Cabo Frio, que, primeiro pelo vigia no cesto da gvea e depois por toda a gente do navio, foi saudada com alegria. O dia estava encantadoramente claro e lmpido, e vento favorvel nos levou alm do alto cabo. No tardou a patentear-se aos nossos olhos, embora ainda distante, a grandiosa entrada do porto do Rio de janeiro. A direita e esquerda, elevam-se, como portes da baa, escarpados rochedos, banhados pelas vagas do mar; o que domina ao sul, o Po de Acar, um conhecido marco para os navios afastados. Depois do meio-dia alcanamos, aproximando-nos cada vez mais do mgico panorama, os colossais portes de rocha, e finalmente por eles entramos no vasto anfiteatro, onde o espelho do mar reluzia como sossegado lago; onde espalhadas em labirinto, ilhas olorosas verdejavam, limitadas no fundo por uma serra coberta de matas, como jardim paradisaco de exuberncia e magnificncia. Do forte de Santa Cruz, pelo qual a nossa chegada foi anunciada cidade, trouxeram-nos uns oficiais da marinha a licena para nos adiantarmos. Enquanto se tratava desses pormenores, todos se deleitavam na contemplao do pas, cuja doura, cuja variedade encantadora e cujo esplendor superam muito todas as belezas naturais, que jamais havamos visto.

  • Do azul escuro do mar, elevam-se as margens banhadas de sol e no meio do verde vivo destaca-se a brancura das casas, capelas, igrejas e fortalezas. Atrs levantam-se audaciosos rochedos de formas imponentes, cujas encostas ostentam em toda a plenitude a uberdade da floresta tropical. Odor ambrosiano derrama-se dessa soberba selva, e, maravilhado, passa o navegante estrangeiro por entre as muitas ilhas cobertas de majestosas palmeiras. Assim se alternavam sem interrupo novos, graciosos e espetaculares cenrios, diante de nossos olhos admirados, at que, finalmente, a capital do novo reino, iluminada festivamente pelo sol poente, se patenteou nossa vista; chegando altura da pequena Ilha das Cobras, quase junto dela, deitamos ncora s cinco horas da tarde. Indescritvel sensao apoderou-se de todos ns, no momento em que a ncora deu no fundo de outro continente, e o troar dos canhes, com irrupo da msica de guerra, saudou o almejado alvo: a feliz concluso da viagem martima.

  • L I V R O Q U A R T O

  • CAPTULO I

    Na Cidade de Vila Rica 1 Vila Rica, capital da Provncia de Minas Gerais, residncia do governador-geral e sede do Ouvidor da comarca de Ouro Preto, est edificada sobre duas colinas nas fraldas orientais da montanha do mesmo nome, margem do Ribeiro de Ouro Preto, depois chamado do Carmo, que forma a divisa do alto Itacolomi e do morro de Vila Rica. As ruas que vo da parte da cidade situada no vale do Ouro Preto parte sobre as colinas, so todas caladas; abastecem-nas quatorze chafarizes, e so ligadas por quatro pontes de pedra, destacando-se entre estas a nova ponte construda no vale pelo Sr. von Eschwege; a rua principal corre meia hora ao longo da ladeira do morro. As casas so construdas de pedra, de dois pavimentos, cobertas de telhas, na maioria caiadas de branco, e, se no de bom aspecto exterior, todavia cmodas e adequadas situao alta da cidade. Entre os edifcios pblicos, distinguem-se dez capelas, duas vistosas igrejas paroquiais, a Tesouraria, o Teatro com atores ambulantes, a Escola de Latim, a Cmara Municipal com a Cadeia, cujos presos so, na maioria, assassinos por motivo de roubo ou por questes de amores; e sobretudo o castelo, residncia do governador, armado com alguns canhes, e que est situado no mais alto ponto da colina, dominando uma parte da cidade e o mercado, e descortinando o mais belo panorama sobre toda a regio. Embora escondido numa estreita garganta e tendo, em volta, montanhas e campos ridos de pedra, em beleza comparveis a jardins artsticos, era este lugar, desde outrora, a meta para onde acudiam no somente os paulistas, como tambm os portugueses, em grande nmero. Atualmente, avalia-se a populao de toda Minas Gerais em meio milho de almas; a da cidade, em oito mil e quinhentas. Esta ltima conta, entre os seus habitantes, relativamente muitos portugueses, europeus e, sobretudo, muitos mulatos e negros; a fora armada compe-se de dois regimentos de cavalaria auxiliar (milcias), quatorze companhias de ordenanas brancos, sete de mulatos e quatro de pretos libertos. (Nota I) Quase todos os ofcios so praticados aqui; entre estes, destacam-se, especialmente, os de seleiro, funileiro e ferrador; tambm existe uma fbrica de plvora, uma de chapus de feltro e outra de loua de barro. Entre todas as cidades no interior do Brasil, nenhuma tem comrcio to animado como Vila Rica. Daqui partem estradas para So Paulo, passando por So Joo d'el-Rei; por Minas Novas, para a Bahia; por So Romo, Tejuco, Malhada, para Paracatu, Gois e Mato Grosso; porm nenhuma to movimentada, com o vaivm de tropas, como a estrada que leva ao Rio de Janeiro, sede do governo, distante setenta lguas.

    1 Hoje, Ouro Preto.

  • Quase que todas as semanas, ou cada ms do ano, seguem grandes caravanas, carregadas com os produtos da regio: algodo, couros, marmelada, queijos, pedras preciosas, barras de ouro, etc., para a capital, e voltam, trazendo sal, vinho, chitas, panos, presuntos, espelhos, artigos de ferro, novos escravos para a explorao das minas de ouro, etc. O comrcio com o mais longnquo serto, que vai at Gois e Mato Grosso, no to extenso, de fato, como o de So Paulo e Bahia; entretanto, expande-se at alm do Rio So Francisco, quase que por toda a capitania, e abastece-a no s com as mercadorias europias adquiridas no Rio de Janeiro, mas tambm, com os produtos das imediaes, como, por exemplo, os aqui fabricados: artigos de ferro, chapus de feltro, loua de barro, queijo, milho, feijo, marmelada, carne de porco e toicinho; este empregado em vez de manteiga e banha, e constitui grande artigo de comrcio da provncia. O clima desta capitania, em virtude de sua situao alta, , em geral, bastante fresco e favorvel ao cultivo das frutas europias. O termmetro, durante a nossa estada em Vila Rica, variou muito; de manh, antes do nascer do sol, marcava 12 R.; ao meio-dia, 23; tarde, 16; meia-noite, 14. O barmetro subia e descia entre 23 e 25 a 50; o higrmetro de barbatana indicava 55 at 70. O tempo era muito agradvel, porm amide refrescava ao sobrevirem repentinas trovoadas. Durante os meses frios de junho e julho, sofrem as plantaes s vezes prejuzos por causa de geadas noturnas; assim, no ano anterior nossa estada, considervel parte da colheita de bananas, cana-de-acar e caf perdeu-se com a geada. Os ventos sopram aqui de diferentes direes, e nunca trazem grandes calores, porm, sim, densas neblinas, nas quais se vem muitas vezes envolvidos os cumes das montanhas vizinhas. Graas a isto, o calor durante o ano inteiro menor e a sade melhor do que nas outras provncias. A feio caracterstica das doenas , na sua maioria, catarral e reumtica; inflamaes da garganta e dos pulmes, clicas violentas e reumatismo agudo so as que mais ocorrem; sobretudo entre os negros, porm, nota-se a denominada elefantase, uma forma esquisita da lepra (mal de So Lzaro), que mencionaremos ainda mais tarde em nosso relatrio. A lavoura no exercida, certo, com grande intensidade, na maior parte desta capitania, to montanhosa, por causa da falta de matas e por causa do solo pedregoso dos campos estreis, queimados de sol; em compensao, esta terra dispe de outras riquezas. Acham-se aqui quase todos os metais: minrio de ferro existe com noventa por cento, quase por toda parte, e constitui, por assim dizer, o elemento principal de extensas montanhas; encontra-se chumbo aqum do Rio So Francisco, em Abaet; cobre, em So Domingos, perto de Fanado, em Minas Novas; crmio e mangans, no Paraopeba; platina, perto de Gaspar Soares e em outros rios; mercrio, arsnico, bismuto, antimnio, minrio de chumbo vermelho, perto de Vila Rica; encontram-se diamantes em Tijuco e Abaet; topzios amarelos, azuis, brancos, guas-marinhas verdes e azuladas, turmalinas vermelhas e verdes, crisoberilos, granadas e ametistas, especialmente em Minas Novas.

  • Mas o que sobretudo contribuiu para a mais rpida imigrao e povoamento desta capitania e especialmente de sua capital foi a grande riqueza do ouro, que, desde um sculo, tem sido arrancada deste solo. (Nota II) O ouro encontrado na regio de Vila Rica, em p finssimo, em folhetas de vrios tamanhos ou sob a forma de cristal, especialmente octaedros e tetraedros, crescidos sob a forma dendrtica, e tambm, se bem que mais raramente, em pedaos inteiros. Conhece-se um exemplo de pedao macio, que pesava dezesseis libras. Quanto cor, amarelo, preto ou esbranquiado, segundo a composio e proporo varivel de platina, ferro e outros metais. At agora tem sido extrado de crregos e rios, de terra argilosa, ou de files de quartzo quebrados, contendo ouro, e das camadas de minrio de ferro. Contam que at se encontrou amontoado esse metal sob razes de plantas ao serem arrancadas, levado para ali, casualmente, pelas guas da chuva. Vimos aqui, sobretudo, a lavagem de ouro no ribeiro de Ouro Preto, no qual, por no serem rios propriedade privada,. quase sempre estavam alguns negros ocupados no trabalho. Entre os livres, s se incumbem os pretos desse servio, e estes tambm, somente quando precisam de dinheiro para satisfazer as suas necessidades, especialmente de cachaa. Os faiscadores. vestem uma jaqueta de couro, levam uma vasilha redonda feita de pau de gameleira, de p e meio at dois ps de dimetro e um p de fundo (gamela, panela, bateia), e uma bolsinha de couro presa parte dianteira do corpo. Escolhem, em geral, um stio onde a correnteza do rio no seja muito impetuosa, faa curva e tenha buracos fundos. As pedras grandes e as camadas superiores de areia so postas fora, primeiro, com o p ou com a gamela, e colhem eles da camada mais funda, mais antiga do cascalho virgem, uma bateia completa. Sacolejando, lavando, tirando as pedras de cima e as camadas de areia continua-se at aparecer o p de ouro, mais pesado, embaixo, no centro mais fundo da vasilha, faiscando ao luzir do metal: deita-se depois com a mo um pouco dgua, e o ouro finalmente puro escorrido na bolsinha de couro. Este modo de lavar o ouro aqui denominado mergulhar. Cada bateia cheia de cascalho, para cuja lavagem se gasta aproximadamente um quarto de hora, d, em geral, o lucro de um at dois vintns, e um homem pode, desse modo, ganhar diariamente alguns florins. s vezes os faiscadores lavam a lama numa canoa estabelecida no local. Aqui chegados ao corao da afamada terra do ouro, alimentamos vivo desejo de visitar sem demora as prprias minas. Nosso amigo e compatrcio Sr. von Eschwege veio logo ao encontro desse nosso anseio e levou-nos encosta oriental do morro de Vila Rica, que at ento tinha dado o maior rendimento. Das Cabeas, a colina mais ao sul da montanha, passamos por alguns jardins guarnecidos com fcsias perto do Hospcio de Jerusalm, e, ao longo de um profundo fosso, para uma garganta de rochas nuas que, cheia de fragmentos de pedras e de contornos irregularmente partidos, dava a impresso da mais selvagem destruio.

  • Como ficamos surpresos ao ouvir nosso amigo nos declarar que esta era a rica mina de ouro de Vila Rica! A mina, onde justamente nos achvamos, pertencente ao Coronel Veloso, uma das mais antigas e produtivas. Em diversos dos fossos de gua conduzida de cima, achavam-se a certa distcia peneiras e couros brutos de boi; as primeiras, para conter o cascalho mais grosso, e os ltimos, para colherem o p de ouro nos plos eriados. Ora aqui, ora ali, viam-se algumas fossas (mundus), nas quais se ajunta a lama ou a areia aurfera. Assim que comea o tempo da chuva, entram em atividade estes singelos apetrechos. A gua encaminhada artificialmente aos fossos lava o ouro das pedras, e o conduz, ora para as covas, ora por entre os plos do couro de boi. O metal depois lavado do lodo, com a gamela, naqueles fossos, por escravos nus at cintura, sentados dentro deles em bancos de pau; o ouro apanhado nos plos do couro lavado e sacudido em adequadas tinas. Os antigos donos haviam sempre explorado esta mina com algumas centenas de escravos e obtido lucros colossais; atualmente, parece bastante esgotada, de sorte que apenas se conservam ali poucos faiscadores, e o trabalho arrendado a pretos libertos, por uma pataca diria. A esse modo de tirar ouro de uma mina aberta chama-se minerar a talha aberta. Depois de havermos observado todas as instalaes desta mina, ou, melhor, desse trabalho de colher ouro, pelo qual s se obtm a parte mais grosseira do metal, e o restante levado pelo rio, e destarte destrudo ou coberta a prpria forma o de ouro, volvemo-nos para a investigao das condies geolgicas do prprio morro de Vila Rica. Este morro corre na direo O.L., ao longo do vale do Ribeiro de Ouro Preto, at ao local Passagem, numa extenso de quase duas lguas, e, parece, como prova a formao em ambas as margens no fundo do vale, ter antigamente tido ligao com o alto ltacolomi, do qual mais tarde deve ter sido separado pela fora das guas. coberto, aqui e ali, de mato baixo e, at ao mais alto cume, de capim e arbustos. A sua lombada bastante plana e a montanha, do lado da cidade, menos ngreme. A primeira camada, uma jazida de minrio de ferro, aqui chamada tapanhoacanga, ou s canga, uniformemente espalhada sobre grande parte da superfcie do morro de Vila Rica, cobrindo numa espessura de trs a vinte ps as formaes mais antigas da montanha, e, pela facilidade da extrao, tem sofrido especialmente grandes alteraes pelos mineradores. A massa da jazida consiste em argila mais ou menos avermelhada por xido de ferro, e sobretudo, de caulinita. Esta ltima tem cor de telha ou de carne, passando para pardo-avermelhada; em muitos lugares malhada de azul-alfazema e amarelo-oca, e parece misturada com muita ocra amarela. Nessa massa, encontra-se grande poro, em pedaos de ngulos obtusos, de uma limonita compacta, ora em fragmentos pequenos, ora do tamanho de um p e mais.

  • A limonita tem muitas pequenas cavidades, que so preenchidas com ocra ferruginosa; vermelho-acastanhado, s vezes, com o quartzo branco-acinzentado, e no raro cinzento-avermelhado na superfcie. Alm disso, notam-se na formao dessa jazida pedaos de ngulos obtusos de oligisto de fratura compacta passando forma concoidal imperfeita, pedaos de magnetita, de micaxisto, de algumas drusas de quartzo, e raros fragmentos de topzio. O ouro aparece nessa formao em maior abundncia, e, de fato, ou em pequenssimas granulaes e cristais depositados nas camadas de argila e de caulinita, ou como cobertura da limonita ou em folhelhos mergulhados nele. Esta formao abundante no somente aqui, e em geral numa grande parte de Minas Gerais, onde dizem que tambm nela se acharam diamantes, mas igualmente em diversas regies das capitanias de So Paulo, Gois e Bahia, onde por toda parte tida como aurfera. Abaixo dessa jazida de minrio de ferro, acha-se na maioria das minas do morro de Vila Rica aquela modificao do micaxisto, que o Sr. Eschwege tornou conhecida com o nome de itabirito. um micaxisto, no qual a mica, na proximidade das mencionadas jazidas de minrio de ferro, substituda por limonita; em outros lugares, por oligisto. Encontra-se essa espcie de mineral aqui como em muitos lugares de Minas, de grande diversidade de colorido, densidade e peso. Na maioria das vezes, cinzento-ao; em antigos desabamentos, s vezes, pardo-amarelada ou vermelho-telha, segundo o grau de oxidao do metal. Num e noutro ponto, aparece granulado e listado, quando contm considervel quantidade de quartzo branco. O contedo de ferro no mineral , s vezes, to avultado, que ele pode com vantagem ser derretido. O ouro est disseminado por esse micaxisto em poro considervel, e, de fato, especialmente rico em files de quartzo que o atravessam. No sop da montanha e mais acima, at quatrocentos ou quinhentos ps, acham-se em vrios lugares jazidas de mica (xisto talcoso ou clortico do Sr. von Eschwege), em grandes lminas, de superfcie ora lisa ora concide, em tudo semelhantes s que aparecem em Capo e em Lana.

  • Nelas no se nota ouro algum. O mencionado micaxisto no por toda parte disposto uniformemente em camadas no morro, e em alguns lugares ele falta de todo; a, porm, aparece imediatamente essa outra qualidade de micaxisto, que constitui a maior parte da montanha, isto , o micaxisto granulado rico em quartzo, denominado itacolomito, que poderamos designar com o nome de xisto quartztico. A estrutura desse mineral , em todo o morro, distintamente xistosa, e, onde faltam as camadas superiores de humo e as jazidas de minrio de ferro, aparecem, assim como o micaxisto que contm oligisto, grandes lajes lisas, como acontece acima da cidade, no longe do palcio. As camadas so freqentemente s de uma ou poucas linhas ou polegadas de espessura, e mostram alguma elasticidade, pelo que esse mineral recebeu o nome de "quartzo flexvel" ou itacolomito. Aparece, s vezes, numa transio dessa forma do micaxisto para a camada que jaz em cima e que contm oligisto. O ouro, que faz parte desse minrio, acha-se em files ou panelas de quartzo branco, e, s vezes, em incrvel quantidade. No caminho de Vila Rica para Passagem, vem-se muitos buracos cavados na montanha, que mostram o abandono da explorao de tais files e panelas, e que renderam milhares de cruzados. Esta formao macia do micaxisto quartztico jaz por cima de xisto argiloso, que, a julgar pelo seu afloramento nos pontos mais profundos do vale de Ouro Preto, parece formar o fundamento do morro, e assentar sobre gnaisse, que, em Cachoeira (duas lguas distante de Vila Rica), se encontra superficialmente. Estas citadas texturas de montanha no esto espalhadas uniformemente sobre o morro de Vila Rica; tm, porm, diversas espessuras; em geral, entretanto, se inclinam em 3 grau e sua declinao tem um ngulo de 50 at 70 para leste. Depois de havermos investigado as condies geolgicas da superfcie do morro, conduziu-nos o Sr. von Eschwege a uma galeria j h muitos anos explorada e recentemente por ele de novo posta em atividade, onde tomamos conhecimento de uma espcie de jazida de ouro, cuja existncia antes ignorvamos, isto , a chamada Carvoeira. Esta massa frivel, spera ao tato e untuosa, de cor verde-acinzentada, que consiste em um quartzo muito finamente granulado e de mica cinzento-fumaa, misturada com pirolusita terrosa; provavelmente, entre as camadas do micaxisto quartztico e do xisto argiloso, debaixo dele, forma uma jazida de alguns ps de espessura. Esta contm, em geral, muito considervel quantidade de ouro, e por isso foi com especial cuidado lavada pelos mineiros que fizeram a galeria. No obstante, deixaram estes ainda tanto metal na terra por eles explorada, que o Sr. von Eschwege achou que valia a pena mandar lav-la outra vez junto com a terra agora escavada. Para esse fim, tinha ele construdo uma batedeira de movimento horizontal acionada por uma roda d'gua, na qual o ouro devia ser separado at das mais finas partculas; com o tempo, verificou, entretanto, que esta mquina no era bastante satisfatria para os seus fins, por ser o p de ouro inseparvel do esmeril, pirolusita, antimonita e arsenopirita.

  • Sem amalgamao nunca se conseguiria uma perfeita separao; mas este sistema at hoje quase inteiramente desconhecido no Brasil, assim como os defeitos da minerao do metal correspondem s pssimas condies das minas. O mineiro julga haver feito bastante, quando, sem plano algum, ataca o morro talha aberta ou trabalhando por minas, abrindo covas rasas na pesquisa das gangas ou depsitos de quartzo ricos de ouro, e entrega o devido tratamento do minrio obtido ora ao das guas, ora percia dos negros que, em vez de usarem o moinho de piles, se servem geralmente de martelo, e, em vez da instalao de piles, de cubas de sedimentao ou de amalgamao, trabalham com a bateia. O moinho de piles, ns s o encontramos na mina do Padre Freitas, em Congonhas de Sabar. Todo o ouro assim obtido deve, segundo severas leis, ser levado Casa Real de Fundio, para ser derretido ali. Antigamente, tinha curso o p de ouro, como moeda; isto, porm, j no mais permitido, e somente certos vendeiros, donos de botequins de cachaa aqui na cidade, podem aceitar quantidades mnimas dele, em vez de moeda, em geral dos negros que o do em troca de cachaa; o p de ouro deve ser igualmente entregue Casa de Fundio. Para nos informarmos tambm acerca do processo de fundio, servimo-nos da licena dada pelo governador, e fomos visitar aquelas oficinas da riqueza do subsolo, que se acham no rs-do-cho do palcio, e onde trabalham dezoito funcionrios pagos, entre eles o escrivo contador, que percebe o maior ordenado, isto , trs mil cruzados. Todo o p de ouro, trazido da comarca de Ouro Preto, vai primeiro sala da pesagem, onde o Escrivo da Receita o pesa e separa dele o quinto que cabe ao rei; o Escrivo da Conferncia faz nas listas o assentamento da quantidade de cada possuidor, sem e com o desconto. A percentagem que compete ao rei toda amontoada, misturada e fundida em grandes barras; com a poro dos particulares fazem-se apenas pequenas barras. Para esse fim o p de ouro posto num cadinho de tamanho correspondente, e, assim que ele est no ponto de fuso, acrescenta-se-lhe cloreto de mercrio, deixando-o ficar algum tempo. Quando se percebem sinais de que a fuso est completa, o metal escorrido para um molde de ferro, quadrangular, provido de asas, onde esfria. Estes moldes so de tamanhos diferentes, visto terem capacidade para entre dez oitavas e uma arroba de ouro. Devido s variadas ligas do ouro com ferro, antimnio, mangans ou arsnico, o tempo necessrio para ser fundido tambm varia. O ouro, que mais custa chegar fuso, necessita mais cloreto de mercrio; isso acontece, sobretudo, quando nele existe grande percentagem de ferro. Os operrios sabem, em geral, por longa experincia, a poro do acrscimo que requer o ouro de cada mina. Ouro muito puro perfeitamente fundido em trs horas. O colorido do ouro aqui fundido varia muito, desde o mais lindo amarelo at a cor de cobre-avermelhado, do amarelo-claro e at amarelo-cinzento.

  • Conserva-se uma prova de cada tonalidade, e mostraram-nos algumas centenas delas. A barra de ouro pronta vai para as mos do ensaiador, o qual determina a sua maior ou menor densidade, e a sua pureza, par meio da prova de sublimado. Para isso, tira-se um pedacinho de uma extremidade da barra, e, em casos mais difceis, tira-se de ambas as pontas. Nas barras de minas conhecidas, a prova exclusivamente feita com riscos, usando-se para isso de pontas de cobre, que tm graduao de 16 a 24 quilates2T. O ouro mais puro aqui fundido de vinte e trs quilates e sete oitavas. As minas de Vila Rica do, em geral, ouro de vinte a vinte e trs quilates; por seu lado, as de Sabar e de Congonhas de Sabar do-no de dezoito e dezenove. O ouro do Rio das Velhas, perto de Sabar, d de dezenove a vinte. Especialmente puro o ouro de Cocais e Inficionado, embora no de belo amarelo, mas quase sempre plido ou cor de cobre. Verificados o peso e o quilate, e com isso o valor da barra, e registrado tudo na lista, gravam sobre ela as armas brasileiras e portuguesas, o nmero da lista, o distintivo da Casa de Fundio, o ano, assim como o grau de pureza do ouro, e junta-se barra uma guia impressa, que cita, alm dos caractersticos acima mencionados, tambm o valor em ris, o peso do p de ouro que o possuidor entregou e o que dele foi retirado para o rei. Sem essa guia, assinada pelos funcionrios da Casa de Fundio, a barra, que ento apresentada ao dono, no tem valor legal como moeda. A sua sada para fora da provncia de Minas, sem aviso, severamente proibida, porque as Casas da Moeda reais devem comprar de novo as barras a dinheiro contado segundo o valor indicado. Como, porm, nas costas do Brasil, j se oferece gio de dez por cento pelas barras, esse gnero de defraudao comumente praticado.

    2 24 quilates correspondem a 1000/1000 ou 100%,. quer dizer. a ouro puro. (Nota da rev., Ed. Melh.)

  • Da grande quantidade de ouro que saiu das Casas de Fundio de Minas, pode-se fazer idia bastante exata, quando se consideram as construes colossais de D.Joo V, o Aqueduto de Lisboa e o Convento de Mafra,que foram custeados exclusivamente com o quinto real do ouro brasileiro. Entretanto, somente os primeiros decnios do sculo passado produziram to rico cabedal em ouro; o portugus patriota v contristado nesses monumentos dispendiosos enterrada uma riqueza que no se repetindo mais tarde poderia ter sido empregada com maior vantagem da nao na construo de uma frota. No fim do sculo precedente, eram ainda fundidas anualmente em Vila Rica setenta at oitenta arrobas de ouro; atualmente, porm, no mais de quarenta. O total do quinto de ouro montou, no ano de 1753, a cento e dezoito arrobas; e, at ao ano de 1812, a mais de seis mil oitocentas e noventa e cinco arrobas, isto , oitenta e cinco milhes de cruzados, agora, apenas mais de vinte e quatro arrobas. Para a prpria Fundio foram compradas anualmente da Europa sessenta arrobas de cloreto de mercrio, do qual custou sessenta mil ris cada arroba. Tambm os cadinhos de grafita, em que o ouro fundido, so feitos na Europa, quando, a pouca distncia de Barreiras, em Minas Novas, existe abundncia desse material. Em Mesquita, prxima de Vila Rica, j tentaram fabricar esses cadinhos, porm no resistiram incandescncia. Segundo se cr, por causa da riqueza desta regio em metal, e da possibilidade de sua aquisio foram proibidos, no governo do Ministro Pombal, a fundao de conventos e a continuada permanncia de religiosos em toda a Provncia de Minas Gerais, proibio que at hoje rigorosamente se observa. Os ndios eram antigamente senhores de todas essas terras aurferas da provncia; foram, porm, cedo e quase por toda parte expulsos delas pelos imigrantes sequiosos de ouro. Aqueles que ainda se achavam em Minas Gerais pouco a pouco se foram retirando para as impenetrveis matas virgens que revestem a Serra do Mar ao longo da costa, numa extenso de trinta a cinqenta lguas, terras adentro. So especialmente as tribos dos Coroados, Corops, Puris, Botocudos (Aimors), Macuanis, Malalis, Panhames, Menhames, Parabas (Goitacs). Na parte ocidental da capitania, do outro lado do Rio So Francisco, notam-se s vezes bandos isolados de Caiaps. Essas tribos todas reconheceram a soberania dos portugueses, exceo de uma parte dos Botocudos e dos Caiaps, e so contidos ou governador por diversos postos militares, mantidos pelo governo na orla das matas. Nesse sentido, so repartidas em sete divises todas as regies habitadas pelos ndios, cada uma das quais dirigida por um comandante, em geral um oficial ou um cabo do Regimento de Drages de Minas.

  • Os mais irrequietos e perigosos ndios de Minas so os antropfagos Botocudos, que ocupam particularmente a margem do baixo Rio Doce. Como nestes ltimos decnios se reconheceu a utilidade de navegao para o oceano por esse rio, cujas nascentes, assim como as de seus afluentes superiores, tm origem na capitania de Minas Gerais e, a pequena distncia de Vila Rica, formou-se uma companhia para o fomento da navegao do Rio Doce e para domesticar os ndios ali residentes (Junta da Conquista e Civilizao dos ndios, do Comrcio e Navegao do Rio Doce). As tentativas dessa companhia no deixaram, desde ento, de dar frutos, pois diversas tribos de ndios pouco a pouco entraram em trato com os portugueses. Ns j havamos ouvido contar muita coisa desses filhos das selvas, e o nosso anseio de observar no seu prprio domiclio uma tribo tornava-se cada vez mais vivo. Separados apenas por quatro ou seis dias de viagem das tribos indianas da vizinhana, Coroados, Puris e Corops, resolvemos partir procura deles margem do Rio Xipot, brao do Rio Pomba. O nosso amigo Sr. von Eschwege havia alguns anos antes viajado por ali, em companhia do Sr. Freireiss, e atualmente era o nosso propsito, sobretudo, favorecido, por achar-se justamente em Vila Rica, por motivo de sade, o oficial encarregado de domesticar e civilizar esses ndios, o Sr. Guido Marliere, francs de nascimento, que outrora havia servido no Regimento Conde (desgraadamente, ele em breve morreu). Este digno oficial, que j havia, ele prprio, coligido muitas observaes sobre esses ndios, fez questo de dar-nos os necessrios esclarecimentos sobre a nossa conduta para com eles e sobre o caminho para o stio de morada, o Presdio de So Joo Batista; mandou acompanhar-nos at ali por um de seus homens, e comunicou por escrito aos criados de sua casa e aos soldados do posto a ordem de satisfazerem em tudo aos nossos desejos.

    NOTAS DO CAPTULO I

    (I) Populao de Minas Gerais, no ano de 18081

    Livres Escravos Qualidade Homens Mulheres Soma Homens Mulheres Soma Total

    Brancos 54.157 52.527 106.684 - - - 106.684 Mulatos 64.406 65.250 129.565 7.880 7.880 15.787 145.393 Negros 23.286 24.651 47.037 86.849 46.186 133.035 180.072 Soma 141.849 142.428 284.277 94.706 148.772 433.049 2

    1 Segundo o Journal von Brasilien, de von Eschwege (I, pg. 209). 2 Uma notcia pouco segura, que devemos ao Marechal Felisberto Caldeira Brant Pontes, da Bahia, d para Minas, no ano de 1820, 621.885 habitantes, dos quais 456.675 livres e 165.210 escravos. Tendo o dobro da populao de So Paulo, Minas possui trs vezes e meia mais escravos negros e nove vezes mais negros libertos do que ela.

  • (II) O primeiro descobridor de Minas Gerais parece ter sido Sebastio Tourinho, de Porto Seguro, que, no ano de 1573, navegou pelo Rio Doce acima, e voltou costa pelo Jequitinhonha. Seguiram-lhe nas pegadas Antnio Dias Adorno e Marcos de Azeredo, no intento de procurar esmeraldas e safiras, pelo primeiro observadas (guas-marinhas, turmalinas verdes e topzios azuis ?). Mais depressa e melhor ficou, porm, conhecida essa regio, pelas viagens por terra, que, nos ltimos decnios do sculo XVII foram empreendidas pelos paulistas, no mais para caadas ao ndio, porm para colher ouro. A poro de ouro, que esses aventureiros trouxeram para seus lares, determinou inmeras emigraes, tanto de brasileiros natos, como de portugueses, para o novo Eldorado. O pas povoou-se logo; foram elevadas a vila: - Vila Rica e Mariana, no ano de 1711; So Joo d'el-Rei e Sabar, em 1712, e Vila do Prncipe, em 1714. Desde o ano de 1720, Minas ficou capitania independente, separada de So Paulo, a que pertencia, e no mesmo ano teve um intendente das lavras. O primeiro Governador-Geral, Loureno de Almeida, encontrou o pas j um tanto ocupado e dividido em quatro comarcas. No ano de 1818, foi Vila Rica elevada a cidade capital de Minas, assim como Vila Boa para Gois e Vila Bela para Mato Grosso.

  • CAPTULO II Viagem de Vila Rica aldeia dos ndios Coroados

    na margem do Rio Xipot

    A 31 de maro, partimos de Vila Rica, com um nico cargueiro e um tocador em nosso sqito, porque, em expedies desta ordem, costume levar o mnimo de carga possvel. Era fresca a manh, e a neblina, que descia dos morros, dava esperana de lindo dia. Subamos pela parte norte da cidade, num ressalto ngreme do morro, por uma estrada larga, em parte calada e aplainada sobre a rocha at ao cume, do qual se descobre um belo panorama sobre o majestoso Itacolomi, que domina toda a regio. Na profunda garganta formada pelas encostas dessa montanha e pelas do morro, sussurra, entre verdes campinas e selvagens blocos de rocha romnticos, o Ribeiro de Ouro Preto ou do Carmo, aurfero. Ainda bem perto de Vila Rica existe uma fonte ferruginosa, encaixada, que dizem possuir propriedade curativa. A pouca distncia, notamos tambm as j citadas covas, feitas no xisto quartzitico (itacolomito), que antigamente contiveram to grande riqueza em ouro, mas cuja explorao no continuou. Ao longo do morro, oferecia-se uma paisagem de grande beleza agreste, com as encostas abruptas floridas e enfeitadas de macios de rochas que lembram runas. Grande nmero de pequenas casas abeira-se da rua, e a freqncia dos viajantes e tropas de mulas carregadas empresta regio aparncia de riqueza e de atividade europia. Passando pela pequena povoao de Taquaral, vai a estrada descendo, sempre mais ngreme, at alcanar, a uma lgua de Vila Rica, no fundo do vale a aldeia maior da Passagem, cujos habitantes, em geral, vivem das plantaes e venda de vitualhas capital. Antes eram as minas de ouro deste lugar muito produtivas, sobretudo a do morro de Santo Antnio, onde este santo tem uma capela votiva; agora, porm, quase no existe movimento algum ali. No arraial, transpusemos uma pequena ponte de pedra para a margem direita do Ribeiro do Carmo, cujas guas espalham frescura pelo estreito vale, e subimos em muitas voltas um morro, de cujo cume avistamos a cidade de Mariana, no vale plano e pedregoso do Ribeiro do Carmo. Esta cidade de quatro mil e oitocentas almas, de casinhas asseadas, construdas em ordem bastante regular e de ruas largas, d impresso simptica. Desde 1745, cidade e residncia