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UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU LUIZ FERNANDO SANTOS …4 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Universidade São Judas Tadeu Bibliotecária: Cláudia Silva Salviano Moreira

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    UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU

    LUIZ FERNANDO SANTOS TROSS

    MANUTENÇÃO DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA EM UMA ACADEMIA

    DE GINÁSTICA: ESTUDO À LUZ DA TEORIA DA MANUTENÇÃO DA

    ATIVIDADE FÍSICA

    SÃO PAULO

    2018

  • 2

    LUIZ FERNANDO SANTOS TROSS

    MANUTENÇÃO DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA EM UMA ACADEMIA

    DE GINÁSTICA: ESTUDO À LUZ DA TEORIA DA MANUTENÇÃO DA

    ATIVIDADE FÍSICA

    Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da Universidade São Judas Tadeu como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação Física.

    Orientador:Prof. Dr. Marcelo Callegari Zanetti.

    SÃO PAULO

    2018

  • 3

    FOLHA DE APROVAÇÃO

    LUIZ FERNANDO SANTOS TROSS

    MANUTENÇÃO DA PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA EM UMA ACADEMIA

    DE GINÁSTICA: ESTUDO À LUZ DA TEORIA DA MANUTENÇÃO DA

    ATIVIDADE FÍSICA

    Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da Universidade São Judas Tadeu como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação Física.

    Aprovado em:____/____/______ Banca Examinadora Prof. Dra. Maria Luiza de Jesus Miranda Instituição: USJT – Universidade São Judas Tadeu Assinatura:_______________________ Prof. Dr. Erinaldo Luiz de Andrade Instituição: UNINOVE – Universidade Nove de Julho Assinatura:________________________ Prof. Dr. Marcelo Callegari Zanetti (orientador) Instituição: USJT – Universidade São Judas Tadeu Assinatura:_______________________

  • 4

    Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Universidade São Judas Tadeu

    Bibliotecária: Cláudia Silva Salviano Moreira - CRB 8/9237

    Tross, Luiz Fernando Santos T857m Manutenção da prática de atividade física em uma academia de ginastica:

    estudo à luz da teoria da manutenção da atividade / Luiz Fernando Santos

    Tross. - São Paulo, 2018.

    139 f. : il. ; 30 cm.

    Orientador: Marcelo Callegari Zanetti Dissertação (mestrado) – Universidade São Judas Tadeu, São Paulo,

    2018.

    1. Manutenção. 2.Atividade Física. 3. Academia I. Zanetti, Marcelo Callegari.

    II. Universidade São Judas Tadeu, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu

    em Educação Física. III. Título

    CDD 22 – 796

  • 5

    DEDICATÓRIA

    Dedico este capítulo aos irmãos espirituais que, todos os dias, lutam

    para tornam o mundo um lugar melhor e com mais amor.

    Aos meus pais que são exemplo e que me deram suporte sempre que

    precisei; e aos meus irmãos.

    Dedico, especialmente à minha esposa Juciléia e meus filhos Lavínia e

    Gabriel, os quais me ensinaram o real sentido e intensidade do sentimento

    amor. Se hoje realizo mais esta obra, é porque tenho um lar em paz e

    harmonia, com muito amor.

    Aos meus avós (in memorian) Yvone, Tunan, Maria Helena, Carlos, além

    de minha querida “cuidadora” e segunda mãe Ide (in memorian); e meu amigo

    de infância Tiaguinho (in memorian).

  • 6

    AGRADECIMENTO

    Agradeço primeiramente à Deus, que me deu o dom da existência e sem

    O qual nada seria possível. Sou grato a Ele e aos amigos espirituais que me

    direcionam no rumo da ascensão e aperfeiçoamento como ser humano e

    espírito.

    Agradeço aos meus pais que me concederam a vida e me mostraram o

    caminho certo a seguir, com honestidade, sabedoria, conhecimento (estudos) e

    perseverança.

    Sou grato, imensamente, à minha família (esposa e filhos) pela

    paciência nos momentos ausentes por motivos de trabalho e estudos, além de

    todo apoio.

    Aos meus amigos de mestrado e da vida, pelo incentivo e contribuição; e

    especialmente ao meu orientador Professor Dr. Marcelo Callegari Zanetti, por

    ter confiado e acreditado nos meus projetos, ideais e planos, sempre com

    paciência e muita competência. Á instituição de ensino São Judas, pela ótimo

    estrutura, grade curricular e corpo docente altamente especializado.

    Somente tenho a agradecer, a tudo e a todos que influenciaram, de

    alguma maneira, na concretização de mais este projeto. Obrigado.

  • 7

    Não confunda jamais conhecimento com sabedoria. Um o ajuda a ganhar a vida; o outro a construir uma vida.

    (Sandra Carey)

  • 8

    RESUMO

    É importante o entendimento dos fatores que interferem positiva e

    negativamente no processo de manutenção da atividade física (MAF). Sendo

    assim, o objetivo do estudo foi verificar os fatores que interferem na MAF em

    uma academia de ginástica à luz da Teoria de Manutenção da Atividade Física.

    A amostra foi composta por 17 alunos de uma academia de ginástica da cidade

    de Taubaté, interior de São Paulo, com faixa etária entre 23 e 35 anos,

    selecionados de maneira intencional e não probabilística. A pesquisa teve uma

    abordagem qualitativa e descritiva, de corte transversal, por meio de uma

    entrevista individual semiestruturada, elaborada com base na teoria e no

    instrumento original cedido pelo autor da teoria. Após a coleta dos dados, foi

    realizada a transcrição do conteúdo e analisados os dados segundo a técnica

    de Análise de Conteúdo. Como resultado, encontramos que os professores

    estão entre os principais fatores que mantém os alunos na academia, os

    equipamentos da musculação estão entre os itens que os alunos menos

    gostam e a proximidade é um fator relevante ao se considerar a regularidade

    para esta amostra. Sobre os preditores e barreiras que a TMAF adota, a

    autoeficácia e o ambiente parecem ser os fatores que mais influenciam a

    manutenção da AF acima dos 3 meses, tendo atuação mais discretas da

    motivação e o estresse age como principal dimensão negativa, que pode

    causar situações de recaída ou desistência, prejudicando a MAF.

    Palavras-chave:Aderência. Exercício. Academia de ginástica.

  • 9

    ABSTRACT

    It is important to undestand the factors that interfere positively and negatively in

    the process of physical activity maintenance (PAM). Thus, the objective of the

    study was to verify the factors that interfere in PAM in a gym in light of the

    Theory of Physical Activity Maintenance. The sample consisted of 17

    gympractitioners of Taubaté city, in the interior of São Paulo, aged between 23

    and 35 years, selected in an intentional and non-probabilistic way. The research

    had a qualitative and descriptive approach, cross - sectional, through a semi -

    structured individual interview, elaborated based on the theory and the original

    instrument given by the author of the theory. After the data collection, the

    content was transcribed and the data analyzed according to the Content

    Analysis technique. As a result, we found that instructors are among the main

    factors that keep practitioners in the gym, bodybuilding equipments are among

    the items that practitioners less enjoy and proximity is a relevant factor when

    considering regularity for this sample. Regarding the predictors and barriers that

    Theory of PAM adopts, self-efficacy and the environment seem to be the factors

    that most influence the maintenance of AF above 3 months, having a more

    discrete motivation and stress acts as the main negative dimension, which can

    cause situations of relapse or dropout, prejudicing PAM.

    Keywords: Adherence. Exercise. Gym.

  • 10

    LISTA DE SIGLAS

    ACSM – American College of Sports Medicine

    CENPA – Centro de Psicologia Aplicada

    CNS – Conselho Nacional de Saúde

    USDHHS – United States Department of Health and Human Services

    WHO – World Health Organization

  • 11

    LISTA DE ABREVIATURAS

    AF – Atividade Física

    MAF – Manutenção da Atividade Física

    MTT – Modelo Transteórico

    TAD – Teoria da Autodeterminação

    TCP – Teoria do Comportamento Planejado

    TMAF – Teoria da Manutenção da Atividade Física

    TSC – Teoria Social Cognitiva

  • 12

    LISTA DE ILUSTRAÇÕES

    FIGURA 1 – COMPONENTES DA TEORIA DO COMPORTAMENTO

    PLANEJADO ......................................................................................... 36

    FIGURA 2 – CONTINUUM DE AUTODETERMINAÇÃO ................................. 43

    FIGURA 3 – CATEGORIZAÇÃO DOS MODELOS TEÓRICOS QUE BUSCAM

    EXPLICAR A MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE FÍSICA ......................... 48

    file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913079file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913079file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913080file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913081file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913081

  • 13

    LISTA DE TABELAS

    TABELA 1 – CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA DO ESTUDO ..................... 57

    TABELA 2 – CATEGORIAS E DIMENSÕES DO ESTUDO ............................. 58

    TABELA 3 – COMPLEMENTO DA CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA ...... 113

    TABELA 4 – INFORMAÇÕES ADICIONAIS SOBRE A ATIVIDADE FÍSICADOS

    ENTREVISTADOS .............................................................................. 113

    file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913079file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913080file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913079file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913080file:///F:/LISTA%20DE%20ILUSTRAÇÕES%20e%20TABELAS.docx%23_Toc527913080

  • 14

    SUMÁRIO

    1. INTRODUÇÃO ....................................................................................... 16

    1.1. PROBLEMA ........................................................................................... 19

    1.2. OBJETIVO GERAL ................................................................................ 19

    O objetivo do estudo foi analisar se os fatores adotados pela TMAF interferem

    na manutenção de AF em uma academia de ginástica. ........................ 19

    1.2.1 Objetivos Específicos............................................................................. 20

    1.3. JUSTIFICATIVA ..................................................................................... 20

    2. REFERENCIAL TEÓRICO .................................................................... 22

    2.1. MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE FÍSICA EM ACADEMIAS DE

    GINÁSTICA ........................................................................................... 22

    2.3. TEORIAS PARA MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE FÍSICA .................... 30

    2.3.1. Teoria Social Cognitiva .......................................................................... 34

    2.3.2. Teoria do Comportamento Planejado .................................................... 35

    2.3.3. Modelo Transteórico ............................................................................. 36

    2.3.4. Teoria da Autodeterminação .................................................................. 39

    2.3.5. Teoria da Manutenção da Atividade Física (TMAF) ............................... 46

    3. MÉTODOS ............................................................................................. 51

    3.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA..................................................... 51

    3.2. CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA ..................................................... 51

    3.4. CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO ................................................................. 52

    4. PROCEDIMENTOS ............................................................................... 53

    4.1. NATUREZA DAS INFORMAÇÕES E INSTRUMENTOS DE COLETA ... 53

    4.2. PROCEDIMENTOS DE COLETA DOS DADOS ................................... 54

    5. RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................. 56

    REFERÊNCIAS ................................................................................................ 83

    APÊNDICE B - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO AOS

    RESPONSÁVEIS PELA ACADEMIA ................................................... 105

    APÊNDICE C– TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO AOS

    ALUNOS .............................................................................................. 107

    APÊNDICE D–ROTEIRO DE ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA PARA

    PRATICANTES EM ACADEMIAS ....................................................... 109

  • 15

    APÊNDICE E –INFORMAÇÕES ADICIONAIS SOBRE A CARACTERIZAÇÃO

    DA AMOSTRA E SUAS ATIVIDADES FÍSICAS .................................. 113

    ANEXO 1 – PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP ............................... 114

    ANEXO 2 – “PHYSICAL ACTIVITY MAINTENANCE QUESTIONNAIRE”

    (versão original) ................................................................................... 117

  • 16

    1. INTRODUÇÃO

    A atividade física regular é um comportamento essencial e indispensável

    para promoção do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas, assim como

    para prevenção de doenças crônicas (GUARDA, 2010; GUEDES et al., 2012).

    Nas últimas décadas, diversos estudos vêm sendo realizados com o objetivo

    de entender a prática regular de AF e promovê-la. Compreender a relação

    entre as intenções e o comportamento efetivo da prática regular de atividade

    física é uma questão importante tanto para a literatura científica como para a

    sociedade (TAHARA; SCHWARTZ; SILVA, 2003; SANTOS; KNIJNIK, 2006;

    MELO et al., 2017).

    Segundo Weinberg e Gould (2008), apesar do benefício físico e

    psicológico que a atividade física (AF) proporciona à vida de quem a pratica,

    muitas pessoas não se engajam por muito tempo em uma prática física ou,

    mesmo que se mantenham ativos, não permanecem por muito tempo em um

    mesmo local/grupo praticando tal atividade.

    Diversas pesquisas em relação à aderência à AF tem relatado que

    grande parte dos indivíduos que iniciam um programa de AF retorna a um estilo

    de vida sedentário ou não mantém a regularidade (BUCKWORTH; DISHMAN,

    2002; ALLEN; MOREY, 2010; LIZ et al., 2010). Esses apontamentos destacam

    a urgência de compreendermos melhor os fatores (preditores) associados à

    manutenção de atividade física de maneira regular.

    Vários modelos e teorias foram utilizadas buscando explicar as tomadas

    de decisões envolvidas na mudança ou adoção de hábitos/comportamentos

    relacionados à AF, como por exemplo, a Teoria do Comportamento Planejado

    (AJZEN, 1991), a Teoria Cognitiva Social (BANDURA, 2004; 2008) e a Teoria

    da Autodeterminação (DECI; RYAN, 1985; 2002). Além destas, há o Modelo

    Transteórico, postulando que a mudança de comportamento ocorre através de

    uma série de etapas: pré-contemplação, contemplação, preparação, ação e

    manutenção (PROCHASKA; DICLEMENTE, 1983; PROCHASKA;

    DICLEMENTE; NORCROSS, 1992; PROCHASKA; MARCUS, 1994). Estas

    teorias serão discutidas de maneira mais aprofundada no referencial teórico.

    Estas teorias utilizam análises a partir dos possíveis preditores de

    participação regular da AF, como motivação, autoeficácia, autoconfiança, etc.

  • 17

    Embora estas teorias venham sendo utilizadas para explicar o comportamento

    da AF em curto prazo (adoção do comportamento) ou até mesmo a

    permanência na AF por longos períodos, muitas não consideram a associação

    de diversos preditores que podem interferir neste processo, diferentemente da

    Teoria da Manutenção da Atividade Física (TMAF) proposta por Nigg et al.

    (2008).

    Nigg et al. (2008) sugeriram que os preditores que interferem no início

    (adesão) diferem dos que interferem na manutenção da AF, e se concentram

    explicitamente na MAF. Como principais preditores da MAF, a definição de

    objetivos (orientada por tarefas; relacionada ao comportamento por meio da

    satisfação, realização e comprometimento com as metas), a motivação pessoal

    (persistência generalizada sobre metas comportamentais independentes de

    fatores externos) e a autoeficácia (confiança que as pessoas têm em suas

    próprias habilidades para realizar o comportamento alvo, com distinção entre

    barreiras e recaídas) foram levados em consideração. A teoria defende que

    exista uma relação recíproca entre essas variáveis, mas cada variável tem um

    efeito único e direto na MAF. Além disso, a TMAF afirma que o ambiente tem

    um impacto positivo e que o estresse tem um impacto negativo no

    estabelecimento de metas, na automotivação, na autoeficácia e, portanto, na

    manutenção da AF.

    As formas de medição de participação da AF são geralmente feitas por

    meio de variáveis únicas e contínuas (por exemplo, frequência de participação)

    e, projetar a participação da AF em apenas um preditor ou variável única pode

    não explicar de maneira adequada a natureza multidimensional deste

    comportamento (SEELIG; FUCHS, 2011). O estudo de Seelig e Fuchs (2011)

    testou se é viável analisar a participação da AF a partir de uma única variável

    do comportamento e obteve como resposta que somente uma variável

    categórica (vezes por semana ou minutos por semana) não resulta em

    melhores previsões sobre o comportamento da AF. É essencial que mais de

    uma variável seja considerada ao se analisar comportamentos relacionados à

    AF.

    Os preditores são tidos como positivamente influenciáveis no

    comportamento da AF, e as barreiras são fatores negativos relacionados com a

    AF (DISHMAN, 1994). Contudo, nenhum fator isolado prediz a participação ou

  • 18

    não na AF, mas age na interação com outros fatores pessoais, contextuais e do

    próprio comportamento (BUCKWORTH; DISHMAN, 2002). Muitas pessoas

    citam como motivos para não praticarem AF a falta de tempo, a desmotivação,

    a falta de acesso aos locais ou outros ambientes (clubes, academias, parques,

    etc), problemas de saúde e falta de dinheiro (TELLES et al., 2016). Quando as

    pessoas conseguem sair do sedentarismo e iniciam alguma AF, enfrentam um

    obstáculo ainda mais difícil: o da manutenção da prática por períodos

    prolongados.

    A MAF vem sendo destacada como de fundamental importância para a

    população, com benefícios de saúde e qualidade de vida para as pessoas

    praticam AF cinco vezes por semana com 30 minutos por dia em intensidade

    moderada, segundo o American College of Sports Medicine (ACSM). Para o

    desenvolvimento e manutenção da condição cardiorrespiratória,

    musculoesquelética e flexibilidade tem-se a recomendação de prática de três

    vezes por semana com 20 minutos por dia em alta intensidade,

    recomendações estas do (HASKELL et al., 2007).

    A AF é essencial para a saúde, tendo por necessidade que os

    profissionais de saúde e do comportamento humano desenvolvam

    intervenções/programas mais eficazes para promover a manutenção destes

    comportamentos saudáveis, até como comportamento preventivo (USDHHS,

    2017). A inatividade física tem sido associada às principais causas da morte da

    população no mundo todo (doenças do coração, cerebrovasculares,

    pulmonares, câncer, osteoporose e diabetes), e é um grave problema de saúde

    pública (GUALANO; TINUCCI, 2011; USDHHS, 2017; WHO, 2017).

    Em relação ao contexto de academias de ginástica, vê-se que são

    ambientes que têm potencial para promover mudanças de comportamento na

    população, como promoção de hábitos saudáveis e diminuição do

    sedentarismo, oferecendo serviços relacionados à AF com orientação e

    supervisão de profissionais da área da saúde (SABA, 2001; LIZ; ANDRADE,

    2016). Segundo Tahara, Schwartz e Silva (2003) e Baldo (2015), esses

    ambientes tornaram-se opções vantajosas em razão do conforto, comodidade,

    horários flexíveis e diversidade de exercícios, que buscam atender às diversas

    expectativas dos praticantes e que, segundo Damasceno (2006) e Baptista e

  • 19

    Palma (2016), foram eleitas pela sociedade como locais apropriados para o

    cuidado com o corpo e a busca pela saúde.

    Esses locais têm se utilizado de estratégias para captação de alunos

    (por exemplo: o telemarketing ativo) e até promoções, tentando motivá-los e

    fidelizá-los por longos períodos. Mesmo com essas e outras estratégias, as

    academias continuam sofrendo com a rotatividade e desistência dos alunos,

    demonstrando uma real dificuldade em mantê-los satisfeitos e matriculados

    num mesmo local por um longo período (MARCELLINO, 2003; ZANETTE,

    2003). Sendo assim, a busca pela manutenção desses alunos por um longo

    período na mesma academia tornou-se a maior preocupação dos gestores de

    academias, pois tal manutenção é mais barata e menos trabalhosa do que

    conquistar novos alunos (CUBA, 2005; ÁVILA; SANTOS, 2007; CALESCO;

    BOTH; SORIANO, 2013; OELZE; MESQUITA; DIAS, 2015). Segundo Pereira

    (1996), custa de cinco a seis vezes menos manter um aluno do que conquistar

    um novo.

    Por ser uma temática relevante à sociedade e os fatores que interferem

    no fenômeno MAF ainda não estarem tão claros no âmbito científico,

    principalmente no contexto de academias, o presente estudo apresenta um

    problema e tem objetivos direcionados que serão abordados na sequência.

    1.1. PROBLEMA

    Na sequência do enquadramento teórico, torna-se pertinente apresentar

    uma questão face à temática deste estudo:

    Quais fatores fazem com que as pessoas se mantenham praticando

    atividades físicas em academia de ginástica?

    1.2. OBJETIVO GERAL

    O objetivo do estudo foi analisar se os fatores adotados pela TMAF

    interferem na manutenção de AF em uma academia de ginástica.

  • 20

    1.2.1 Objetivos Específicos

    Os objetivos específicos são:

    1) Identificar os preditores de definição de objetivos, de motivação

    pessoal e de autoeficácia, que compõem a TMAF, no processo de manutenção

    na academia de ginástica;

    2) Analisar o efeito do ambiente e o estresse na manutenção dos

    participantes em academias de ginástica.

    3) Identificar os preditores que interferem na manutenção dos alunos em

    uma mesma academia por mais de três meses, de acordo com a faixa etária

    definida no presente estudo.

    1.3. JUSTIFICATIVA

    Nas últimas décadas, vários estudos tem demonstrado interesse em

    responder quais fatores interferem no processo de MAF (TAHARA;

    SCHWARTZ; SILVA; 2003; BALBINOTTI; CAPOZZOLI, 2008; TELLES et al.,

    2016). No Brasil, Saba (2001) já citava a importância de se entender e

    pesquisar esse fenômeno, visando o bem-estar da população, tornando-a mais

    ativa e permanecendo na prática da AF. A AF está na base dos procedimentos

    adotados pelos diversos profissionais da saúde (nutricionistas, profissionais de

    educação física, fisioterapeutas, psicólogos, médicos, dentre outros) para que

    se obtenha saúde, com mais qualidade de vida e menor probabilidade de se

    adquirir doenças crônicas. Entretanto, mesmo com toda a relevância da AF e

    da manutenção de sua prática, os estudos realizados até os dias atuais ainda

    carecem de uma convicção de como o processo de manutenção da atividade

    física ocorre e quais preditores e barreiras realmente interferem, inclusive em

    ambientes como as academias de ginástica.

    A importância da MAF torna-se ainda mais evidente diante dos inúmeros

    estudos que comprovam a importância da AF para tratamento de diversas

    doenças, assim como para preveni-las, além da obtenção da saúde.Discutir as

    consequências positivas da MAF ou negativas de quem não a mantém tem

    reflexos diretos na implantação de ações de governos, empresas e locais que

    promovem a AF. Assim, esses locais (por exemplo, academias) podem

  • 21

    vislumbrar um caminho de maior aceitação por parte dos alunos, maior

    lucratividade por ter seus espaços cheios de praticantes assíduos,

    competitividade e adequação dos serviços que oferecem.

    Para a ciência, a discussão sobre os impactos da MAF é de relevante

    importância, pois a produção de conteúdos e estudos sobre MAF pode ajudar a

    esclarecer como decorre este processo em diferentes pessoas e contextos,

    podendo ocorrer transformações que começam na academia (exemplo de

    contexto) e estendem-se para a sociedade. Para o curso de Educação Física e

    a área de conhecimento que envolve a promoção de saúde e qualidade de

    vida, pesquisas sobre MAF são necessárias e pertinentes.

  • 22

    2. REFERENCIAL TEÓRICO

    2.1. MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE FÍSICA EM ACADEMIAS DE

    GINÁSTICA

    É consenso na literatura que a AF deva ser regular para que se atinjam

    os benefícios de sua prática, por isso promover a AF deveria ser uma

    prioridade de saúde pública (KOH, 2010; WEINSTEIN; LYDICK;

    BISWABHARATI, 2014; TELLES et al., 2016). Porém, estudar esse fenômeno

    requer uma definição do que vem a ser MAF, já que diversos termos vêm

    sendo citados na literatura como descritores de um mesmo processo de

    continuidade do comportamento por períodos mais prolongados na dimensão

    temporal: adesão, aderência, permanência, persistência e manutenção da AF

    (RHODES; PLOTNIKOFF; COURNEYA, 2008; TELLES et al., 2016).

    Não há consenso na literatura sobre a definição correta, assim como a

    forma como este fenômeno vem sendo estudado foi criticado, na década de

    1980, por Dishman (1982) e Oldbridge (1982) e, mais recentemente, por Nigg

    et al. (2008) e Amireault, Godin e Vézina-Im (2013). Entende-se que o termo

    manutenção tem por definição, segundo o dicionário Aurélio, como as medidas

    necessárias para a conservação ou permanência, de alguma coisa ou situação

    (FERREIRA, 1986).

    Segundo Kahlert (2015, p. 179), no diz respeito a uma definição

    descritiva, a MAF “é definida como um comportamento continuado durante um

    período de tempo e após uma intervenção que cumpra um limite que se

    acredita para melhorar o bem-estar ou a saúde”. Por isso, no que concerne ao

    processo de continuidade da prática de atividade física por longos períodos,

    adotaremos o termo “manutenção da atividade física” como definição do

    fenômeno, estando em consonância com a teoria que suporta o presente

    estudo e com a definição proposta por Williams et al. (2008).

    Segundo Buckworth e Dishman (2002), a manutenção se dá pela prática

    de AF durante um período mínimo de seis meses. O mesmo critério foi adotado

    pelo American College of Sports Medicine (ACSM, 2005), em que MAF define-

    se pela prática da AF por mais de seis meses, sendo o mesmo período

    adotado por Vlachopoulos e Neikou (2007) e Couto, Cid e Moutão (2012).

  • 23

    Porém, é necessário compreender que tanto fatores psicológicos como

    ambientais e pessoais podem influenciar o sucesso ou o fracasso do

    comportamento de MAF (CARPENTER; GILLELAND, 2016). Neste ponto, a

    Teoria da Manutenção da Atividade Física pode se destacar, pois incorpora,

    em seu embasamento teórico, aspectos psicológicos e comportamentais, além

    de estabelecer que fatores de suporte social, estresse e ambiente podem

    interferir na manutenção da prática de AF.

    No estudo de Sun et al. (2015) uma série de fatores individuais, incluindo

    fatores demográficos, fisiológicos e psicológicos, influenciaram a participação

    na AF para mulheres jovens. Inclusive, se houver academias de ginástica no

    bairro, este pode ser um fator importante de mudança de hábitos, promovendo

    participação na AF por longos períodos. Já o estudo de Manzano e Molina

    (2012) demonstrou que a principal razão para manutenção da AF de mulheres

    mais idosas foi a saúde (84,8%).

    Porém, independente dos objetivos das pessoas, quase nenhum

    benefício pode ser atingido com uma frequência semanal baixa (uma ou duas,

    por exemplo). No estudo de Rodrígues-Romo et al. (2011), os resultados

    encontrados mostraram que apenas 40,1% dos homens e 22,6% das mulheres

    alcançaram as recomendações de AF propostas pela Organização Mundial de

    Saúde e pelo ACSM, adotadas pelo estudo. Mesmo sabendo que o

    sedentarismo está associado com elevado risco para inúmeras doenças

    crônicas (MORIMOTO et al., 2006; USDHHS, 2017), muitas pessoas não se

    mantém ativas por muito tempo, ficando aquém das recomendações e

    diretrizes adotadas pelo mundo.

    O ACSM orienta que adultos realizem trinta minutos de AF ou mais pelo

    menos cinco dias por semana, com intensidade moderada, ou vinte minutos de

    AF vigorosa pelo menos três dias por semana, além das atividades cotidianas

    (HASKELL et al., 2007; ADABONYAN et al., 2010). Já a Organização Mundial

    da Saúde aponta que adultos devem praticar pelo menos 150 minutos

    semanais de AF moderada ou 75 minutos de AF vigorosa, em sessões de pelo

    menos 10 minutos de duração, sem determinação de frequência semanal

    (WHO, 1997; 2017). Tais recomendações também são utilizadas para definir os

    parâmetros de manutenção da atividade física da Teoria de Manutenção da

    Atividade Física de Nigg et al. (2008). Dados de um estudo, considerando a

  • 24

    população adulta brasileira, mostram que 45,1% das pessoas não alcançaram

    um nível suficiente de prática de AF, sendo o percentual maior entre mulheres

    (54,5%) do que entre homens (34,1%), aumentando o risco de mortes por

    doenças crônicas não transmissíveis, com ou sem associação de outros fatores

    de risco. A prática insuficiente de AF tendeu a aumentar com a idade e a

    diminuir com a escolaridade, em ambos os sexos (BRASIL, 2016).

    Rojas (2003), em seu estudo sobre MAF em academias de ginástica,

    obteve 63,8% de desistência com uma média de três meses de permanência,

    sendo que 49% destes desistentes saíram antes de completar o terceiro mês.

    Porém, foi considerada desistente somente a pessoa que faltasse um ou mais

    meses sem retorno posterior. Caso alguma pessoa retornasse, o período

    faltoso não era considerado no tempo de permanência no programa, e a

    contagem continuava a partir da data do retorno. Biddle, Mutrie e Gorley (2015)

    afirmam que as barreiras pessoais e as contextuais têm uma influência nas

    baixas taxas de MAF. O senso de comunidade ou pertencimento em um grupo

    num ambiente de academia pode influenciar a MAF, por meio da influência sob

    a motivação e a autoeficácia (WHITEMAN-SANDLAND; HAWKINS; CLAYTON,

    2016).

    De acordo com Bossi, Stoeberl e Liberali(2008), alguns fatores são

    intervenientes no processo de manutenção da prática de AF, como o prazer, a

    sensação de satisfação, envolvimento do praticante, facilidade de acesso

    (distância, preço e acessibilidade), fatores psicológicos (autoestima,

    autoconfiança, alívio do estresse) e suporte social (apoio da família e amigos).

    Entre os aspectos que envolvem uma prática regular da AF, o fator

    motivacional é um que busca explicar o processo de manutenção da prática de

    AF (LIZ; ANDRADE, 2013), inclusive em ambientes como as academias

    (GARAY; SPERANDEI; PALMA, 2014). Marcellino (2003) aponta o prazer

    como o principal motivo dos alunos frequentarem academias de ginástica, seja

    pela satisfação em realizar atividades físicas neste ambiente e/ou pelos

    resultados adquiridos (LIZ; ANDRADE, 2016). Descobrir e evitar os motivos

    que geram insatisfação dos alunos poderia fazer com que as academias

    melhorassem suas estratégias, estruturas e serviços, buscando valorizar e

    satisfazer mais os alunos, como uma das estratégias para maior fidelização e,

  • 25

    talvez, uma permanência neste mesmo estabelecimento (OELZE; MESQUITA;

    DIAS, 2015).

    Outros fatores motivacionais podem ser determinantes para a MAF nas

    academias de ginástica, como a estética e o culto ao corpo. Nos moldes de

    beleza impostos pela mídia e a pela sociedade, inúmeras pessoas buscam, a

    qualquer preço, um corpo “ideal”, sendo quase um consenso da literatura que a

    preocupação com a imagem corporal (estética) seja a dimensão que influi na

    escolha da academia como ambiente capaz de lhes produzir tal

    resultado(SABA, 2001; TAHARA; FILHO, 2009; ARONI; ZANETTI; MACHADO,

    2012; DURÃES et al., 2015; LIZ; ANDRADE, 2016). Já, no estudo de Moutão

    (2005), a “Saúde/ Bem-estar” foram as principais razões da motivação dos

    praticantes em academias, contrapondo a ideia de que apenas quem quer

    perder peso se inscreve numa academia. De acordo com a amostra e o

    contexto do estudo, o “Peso" e a “Aparência” são importantes, porém são

    secundários em relação à “Saúde/Bem-estar”, “Agilidade” e “Estresse”

    (MOUTÂO, 2005).

    Já os fatores que podem se relacionar com a idade parecem ter uma

    relação positiva com a manutenção, pois pessoas mais idosas tem se mantido

    na AF por um período maior de tempo, sendo um dos fatores que interfere

    favoravelmente é o interesse nas relações sociais em ambientes como as

    academias (GARAY; SPERANDEI; PALMA, 2014; BALDO, 2015).

    No estudo de Oelze, Mesquita e Dias (2015) a maior insatisfação se deu

    pela qualidade da atenção prestada pelos instrutores e a motivação dos

    mesmos.Saba (2006)propôs que a relação aluno-professor, em academias e

    clubes, não deva apenas se apoiar em conhecimento técnico e competência,

    mas que a simpatia, carisma, cordialidade e atenção prestada pelo professor

    são essenciais para a satisfação dos alunos da academia (TAHARA;

    SCHWARTZ; SILVA,2003; KLAIN et al., 2015).

    Segundo Deci e Ryan (1985), se uma pessoa não se sente aceita e

    parte de um grupo, estar-se-á frustrando sua necessidade psicológica básica

    de relação social, podendo gerar o abandono da atividade.Assim como

    Marcellino (2003) e sua conclusão sobre a dimensão Sociabilidade, Durães et

    al. (2015) confirmaram a importância do fator relacionamento social dentro de

  • 26

    uma academia, principalmente entre aluno e a academia, para ambos os

    sexos.

    Segundo Huddleston, Fry e Brown (2012), a interação dos profissionais

    com o aluno pode afetar consideravelmente o compromisso com a AF de longo

    prazo. A percepção do clima motivacional (atmosfera psicológica criada) pode

    ser um fator importante nas decisões das pessoas em se exercitar em uma

    academia de ginástica.

    No estudo de Brown e Elliot (2015), os participantes fizeram

    apontamentos que indicam alguns comportamentos específicos da equipe

    considerados importantes para que se tenham experiências positivas, afetando

    favoravelmente a motivação e a consequente manutenção dos mesmos. Tais

    comportamentos se resumem, dentre outros, lembrar os nomes dos alunos, ser

    acessível e tratar bem todos os alunos. Por tal, profissionais que trabalham

    nestes ambientes deveriam entender e atender às necessidades de seus

    alunos, buscando criar ambientes mais favoráveis para a prática da AF

    (BROWN; ELLIOT, 2015).

    Estudos que incorporam os ambientes sociais como variáveis da AF

    podem apresentar resultados interessantes em relação à MAF dentro das

    academias, como o estudo de Molloy et al. (2010), que mostrou uma ligação

    entre suporte social e aumento da autoeficácia, podendo levar a uma maior

    participação na AF. Os programas de AF grupais fornecem maiores

    oportunidades de aumentar o suporte social, diferentemente da AF individual, o

    que pode afetar a motivação e/ou a autoeficácia dos alunos nas academias,

    impactando na MAF (WHITEMAN-SANDLAND; HAWKINS; CLAYTON, 2016).

    Sallis et al.(2008), em seu estudo, buscaram determinar se as

    características ambientais, físicas e sociais predizem a AF ao longo de seis

    meses. Como resultado, as interações de faixa etária com variáveis ambientais

    sugeriram que idosos podem ser mais afetados do que os mais jovens, em

    relação a estas variáveis para com a AF e sua manutenção. Esses resultados

    prospectivos apoiam as evidências de alguns estudos que indicam que

    variáveis ambientais são importantes correlatos da AF (BOSSI; STOEBERL;

    LIBERALI, 2008; SALLIS et al., 2008).

    Nigg et al. (2008) apontam o suporte social (familiares e amigos) numa

    perspectiva bioecológica, em que as interações e o apoio por estes prestado

  • 27

    influencia o comportamento de MAF, tornando mais ou menos provável o

    comportamento a partir do encorajamento ou não para manutenção da AF.

    2.2 FATORES QUE INTERFEREM NA MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE

    FÍSICA

    No Brasil, as produções científicas relacionadas à MAF muitas vezes

    verificam os motivos de iniciação e desistência da AF tendo como pano de

    fundo o modelo transteórico (por exemplo), teorias motivacionais ou da

    autoeficácia (CASTRO et al., 2010; BARROS; IAOCHITE, 2012; KLAIN et al.,

    2015; TAPPE et al., 2016).

    Segundo Malavasi e Both (2005), quando uma pessoa inicia a prática de

    alguma atividade física, a maior dificuldade é a manutenção dessa atividade

    em longo prazo. Alguns estudos têm tentado responder essa lacuna e os

    principais fatores que interferem na MAF, além de como e se as pessoas

    atingem as recomendações de AF (LIZ et al., 2010; BALDO, 2015). Como

    exemplo disso, veem-se o estudo de Rodríguez-Romo et al. (2011), que

    mostrou que os homens tiveram um nível de médio para elevado de AF (82%)

    maior que as mulheres (78%), além de atingirem as recomendações de AF,

    mostrando-se maiores nos homens que nas mulheres, 40,1% e 22,6%,

    respectivamente. No estudo de Balbinotti et al. (2011), em comparações quanto

    à variável sexo, indicou não existir diferenças significativas (p>0,05) entre os

    níveis gerais de motivação à prática regular de AF. Castro et al. (2010)

    evidenciaram que as mulheres tiverem uma preferência por atividades de

    ginástica do que homens, mas não tiveram diferenças estatísticas significativas

    com relação às recomendações da AF.

    Segundo Sein-Echaluce et al. (2013), embora homens mais velhos e

    mulheres que residiam em áreas rurais cumprissem mais as recomendações

    de AF, não houve diferenças entre os sexos, assim como Garay, Sperandei e

    Palma (2014) que também não evidenciaram diferenças significativas em

    relação a variável sexo para a MAF.

    Com relação ao fator idade, pessoas entre 35 e 54 anos eram menos

    propensas a cumprirem as recomendações de AF (RODRÍGUEZ-ROMO et al.,

    2011), enquanto nos estudos de Garay, Sperandei e Palma (2014), pessoas de

  • 28

    até 25 anos apresentaram menor probabilidade de se manterem na AF. Já Tobi

    et al. (2012) preveem que idade e condição médica condizem com a MAF, pois

    com o acréscimo dos anos (principalmente depois dos 50 anos), as chances de

    se exercitar continuamente aumentaram 21,8%. Porém, pessoas com

    problemas ortopédicos, limitação cardiovascular ou outros apresentaram

    probabilidades significativamente menores de se manterem ativos. A análise da

    regressão logística feita por Seguin et al. (2010) com mulheres acima de 40

    anos revelou associação positiva entre manutenção e a idade (p=0,001), níveis

    de AF ao longo da vida (p=0,045) e melhora da saúde percebida (p=0,003).

    Não se observou diferença entre os sexos, raça, nível de escolaridade e renda,

    comparando os não ativos e os ativos; apenas que jovens se mantinham

    significativamente menos na AF. Com relação aos motivos para a prática,

    jovens entre 16-44 anos apresentaram o divertimento como primordial

    (GARAY; SPERANDEI; PALMA, 2014).

    O estudo de Costa, Brottcher e Kokubun (2009) verificou a associação

    da idade, índice de massa corporal e índice de aptidão funcional com a

    manutenção de participantes em um programa de AF, controlando a frequência

    por 62 meses. Este estudo mostrou 49,2% de desistência e 50,8% de

    manutenção no programa, com média de permanência de 24 meses. Um

    tempo maior de manutenção foi obtido por pessoas com melhor nível de

    aptidão física, assim como a manutenção de pessoas mais idosas e não

    obesas é maior. Porém, nenhuma dessas variáveis apresentou diferença

    estatística significativa (COSTA; BOTTCHER; KOKUBUN, 2009).

    Sallis e Owen (1999) classificaram os preditores mais fortemente

    associados à AF em fatores demográficos e biológicos, fatores psicossociais,

    cognitivos e emocionais, atributos comportamentais e habilidades, fatores

    sociais e culturais, fatores do meio ambiente, e características da AF. Já

    Sherwood e Jeffery (2000) classificaram os preditores em individual (histórico

    de AF, estágios de mudança, peso corporal, motivação, autoeficácia, fatores de

    risco, estresse, dieta) e ambiental (tempo, acesso ao local da prática, suporte

    social, características da AF, danos causados pela AF). Contudo, Pitanga

    (2004) descreveu os preditores em variáveis demográficas (idade, sexo, grau

    de instrução, nível socioeconômico), variáveis cognitivas (intenção para o

    exercício, percepção de barreiras, distúrbios de humor, autoeficácia, percepção

  • 29

    sobre a saúde, percepção do esforço), variáveis ambientais (facilidade de

    acesso e locais apropriados, clima) e suporte social (família e amigos). A

    variável distância (morar ou trabalhar próximo ao local de prática) foi

    determinante importante de manutenção da AF em indivíduos hipertensos.

    A distância casa-academia ou trabalho-academia parece ser um fator

    importante para a manutenção ou desistência da prática (ROJAS, 2003),

    principalmente pela dinâmica de vida das pessoas. Os frequentadores de

    academias priorizaram a localização, qualidade, variedade nas opções de

    exercícios e equipamentos especializados como as mais importantes

    características para se manterem ativos (HEINRICH et al., 2017).

    Com relação aos fatores pessoais sociodemográficos, o status

    econômico, segundo Castro et al. (2010), apresentou uma relação direta com a

    MAF, afirmando que pessoas com bom nível econômico tendem a permanecer

    mais em programas de AF, corroborando com Pate et al. (1995) e Palma et al.

    (2006). Nunes e Barros (2004) e Vieira e Ferreira (2004) acrescentam ainda

    uma relação direta entre escolaridade e a prática de AF, endossado pelos

    resultados de Castro et al. (2010), em que 41.4% dos indivíduos possuíam

    nível superior. O mesmo foi encontrado por Bossi, Stoeberl e Liberali (2008),

    pressupondo-se que um maior grau de instrução e informação contribui para a

    valorização da prática regular de AF. Em contrapartida, os resultados do estudo

    de Arikawa, O’Dougherty e Schmitz (2011) mostraram significativamente menor

    taxa de MAF entre aqueles com maior nível de escolaridade, e entre mulheres

    solteiras com filhos (6 a 12 anos) comparadas àquelas casadas sem filhos

    (F=4,83, p=0,004). Mulheres com diplomas universitários tiveram taxas

    significativamente menores de manutenção (90,8%) quando comparadas com

    mulheres sem diplomas universitários (97,9%). Em outro estudo foi

    demonstrado que o nível de educação e a percepção de saúde (má)

    influenciaram os níveis de AF (RODRÍGUEZ-ROMO et al., 2011).

    Em um dos estudos que verificou diferenciação racial, as mulheres

    brancas se mantiveram significativamente mais na AF (70,3%) do que as

    mulheres negras (48,6%) (ARIKAWA; O’DOUGHERTY; SCHMITZ, 2011). Sun

    et al. (2015) também citam que mulheres e negros apresentam menor

    probabilidade de MAF.

  • 30

    Determinar os fatores que preveem a MAF em academias de ginástica

    pode fornecer uma explicação de quem mantém a AF e por que. Segundo

    Weinberg e Gould (2008), e Allen e Morey (2010), muitas pessoas acham mais

    fácil iniciar do que se manter na AF, sendo que 50% dos participantes, em suas

    pesquisas, abandonam o programa nos primeiros seis meses, sendo o mesmo

    percentil encontrado por Dishman e Buckworth (1996).

    No estudo de Sperandei, Vieira e Reis (2016) sugeriu-se que indivíduos

    com maior índice de massa corporal têm maior probabilidade de desistirem da

    academia. Outro estudo mostrou que os preditores cognitivos sociais

    (autoeficácia, expectativas de resultados, barreiras e facilitadores) são

    significativos quando se analisa a frequência nas academias (JEKAUC et al.,

    2015), porém poucos estudos buscaram entender os preditores que interferem

    negativamente na MAF nas academias, como o estresse, o sono e o nível de

    aptidão física (HOOKER et al., 2016).

    No estudo de Hooker et al. (2016), duas classes se destacaram como

    fatores de risco para desistência: o estar bem psicologicamente e as pessoas

    pouco saudáveis, ambos caracterizados por maiores níveis de estresse e baixa

    satisfação com a vida. Em sua abordagem na literatura, há evidências de que o

    estresse psicológico afete negativamente a MAF (LUTZ; STULTS-

    KOLEHMAINEN; BARTHOLOMEW, 2010; CLARK et al., 2011; JEKAUC et al.,

    2015).

    Os preditores de manutenção da AF são fatores que influenciam o

    comportamento das pessoas na AF. Diversas teorias procuram explicar as

    mudanças comportamentais em relação à AF, e são importantes para

    direcionar os diversos estágios de planejamento dos programas de AF, a fim de

    que haja manutenção da mesma (COSTA; BOTTCHER; KOKUBUN, 2009).

    2.3. TEORIAS PARA MANUTENÇÃO DA ATIVIDADE FÍSICA

    A elaboração de modelos teóricos vem se destacando na literatura,

    principalmente em pesquisas epidemiológicas em que se foca nas populações

    e não nos indivíduos. Esta abordagem é importante quando se procura estudar

    os fatores associados com a prática de atividade física, ou com intervenções

  • 31

    para promover um determinado comportamento, como a manutenção da AF da

    população (DUMITH, 2008).

    Para um planejamento adequado de intervenções de saúde pública, é

    necessário entender os fatores que fazem com que algumas pessoas sejam

    fisicamente ativas e outras não. As pesquisas de correlatos e preditores de

    MAF cresceram nas últimas décadas, mas centrou-se principalmente em

    fatores individuais. Os modelos ecológicos incluem o ambiente social e físico

    como contribuintes para a inatividade ou manutenção da AF (BAUMAN et al.,

    2012).

    Sabe-se que a AF é influenciada por inúmeros fatores, e por isso as

    teorias comportamentais e os modelos são utilizados para orientar uma seleção

    de variáveis para as pesquisas relacionadas à AF (VAN DER HORST et al.,

    2007). A associação de idéias de várias teorias em um único modelo que inclua

    inter-relações entre indivíduos e seus ambientes sociais e físicos (modelo

    ecológico) vem sendo utilizada na literatura para tentar explicar como o

    fenômeno de MAF ocorre (SALLIS; OWEN; FISHER, 2008; SPENCE; LEE,

    2008). Esta abordagem propõe que há influência no comportamento de AF, até

    mesmo a sua manutenção, por meio de preditores em vários níveis: individual,

    social, ambiental e político (BAUMAN et al., 2012). Um princípio-chave é que a

    compreensão dos níveis de influência que pode assegurar o desenvolvimento

    de interações multiníveis para que haja satisfação na AF e na sua manutenção,

    seguindo os princípios de modelos ecológicos (SALLIS; OWEN; FISHER, 2008;

    PEREZ et al., 2016).

    Dumith (2008), em seu estudo, propôs um novo modelo teórico

    relacionado à adoção de AF. Para que se tenha uma proposta de um modelo

    teórico sustentado para estudar e aplicar na prática de AF, primeiramente

    deve-se observar que a manutenção da AF envolve diversos fatores que

    influenciam este comportamento, tornando-o um sistema complexo. Porém, a

    maioria das teorias e modelos delimita-se aos fatores individuais diretamente

    relacionados à AF (DUMITH, 2008).

    Este modelo identifica cinco grandes grupos de variáveis relacionadas

    com a MAF: fatores ambientais e socioculturais; fatores psicocognitivos; fatores

    demográficos e socioeconômicos; fatores comportamentais e de saúde/doença.

    Assim sendo, tem-se a explicação de que os fatores ambientes e

  • 32

    socioculturais, somados com os fatores demográficos e socioeconômicos

    seriam os preditores mais distantes na cadeia causal, interferindo sobre os

    fatores comportamentais, os de saúde/doença e os psicocognitivos. Os fatores

    comportamentais e de saúde/doença interagem entre si e exercem influência

    sobre os fatores psicocognitivos, geralmente estes os mais adotados como

    preditores nos modelos/teorias utilizados para explicar a MAF (DUMITH, 2008).

    A manutenção da AF por um período longo de tempo envolve um

    conjunto de questões ambientais (clima; custo; influência médica; esforço

    percebido; apoio social da família, amigos, professor; qualidades do

    professor/instrutor; infraestrutura; dentre outros) e/ou pessoais (estado de

    saúde ou lesão; sobrepeso; falta de tempo; situação econômica; dieta;

    satisfação; etc.). Dentre os fatores pessoais, a automotivação se destaca como

    uma questão importante, pois geralmente na fase da manutenção os indivíduos

    estão mais motivados e traçam suas próprias metas (WEINBERG; GOULD,

    2008).

    Mesmo com a associação dos fatores abordados, aponta-se na literatura

    que as intenções explicam no máximo 30% da variação no comportamento

    (ARMITAGE; CONNER, 2001; SHEERAN, 2002; CARNEIRO; GOMES, 2016).

    A intenção é a chave da prontidão mental de uma pessoa para agir, utilizada

    em vários modelos psicológicos para explicar o comportamento (SHEERAN,

    2002). O estudo delineou os tipos de comportamentos, tipos e as propriedades

    das intenções e as variáveis cognitivas e de personalidade, produzindo um

    bom progresso no entendimento de quão as intenções afetam/predizem o

    comportamento.

    Essa "lacuna de intenção-comportamento", como referido em Sheeran

    (2002), ocorre porque nem sempre pessoas com intenções positivas de agir

    conseguem realizar o devido comportamento (WEBB; SHEERAN, 2006).

    Diversas pesquisas tem buscado entender as inter-relações entre intenções e

    fatores cognitivos/psicológicos ou ambientais para explicar esta lacuna,

    pressupondo que as intenções predizem melhor o comportamento quando são

    estáveis, quando as pessoas planejam como irão assumir o comportamento

    (GODIN; CONNER; SHEERAN, 2005; SNIEHOTTA; SCHOLZ; SCHWARZER,

    2005; GOLLWITZER; SHEERAN, 2006; CARNEIRO; GOMES, 2016) e quando

    possuem recursos e habilidades que as façam enfrentar as barreiras que

  • 33

    impedem a realização intencional do comportamento (SHEERAN; TRAFIMOW;

    ARMITAGE, 2003; DIBONAVENTURA; CHAPMAN, 2005). Mesmo com os

    moderadores da relação intenção-comportamento bem estudados na literatura,

    poucos estudos se concentraram nos fatores (preditores) que interconectam a

    intenção e o comportamento propriamente dito, assim como não explicam de

    que modo intenções são traduzidas em comportamentos efetivos.

    Bruin et al. (2012) buscaram identificar os preditores da relação

    intenção-comportamento, testando a hipótese de que os processos de

    autorregulação explicam como as intenções conduzem o comportamento. Mas,

    “compreender os mecanismos que determinam a força das relações intenção-

    comportamento parece importante, no entanto, dado que as intenções

    geralmente explicam apenas 20 a 30% da variância do comportamento, não se

    parece predizer um comportamento simplesmente pela intenção”. Neste

    trabalho, importantes explicações teóricas foram encontradas, como: os

    modelos de comportamento de saúde postulam que as intenções

    comportamentais são preditores mais imediatos e importantes de ações de

    saúde, explicando como pessoas traduzem objetivos em ações. Concluíram,

    em particular, que a manutenção da AF é promovida de forma mais eficaz se

    as intervenções gerarem fortes intenções e aumentarem as capacidades de

    autorregulação das pessoas.

    Uma das razões para estes percentis de MAF serem tão baixos pode ser

    a forma como o critério "participação na atividade física" foi conceituado

    (BIDDLE; FUCHS, 2009). Na maioria dos casos, a participação na AF foi

    operacionalizada como uma variável contínua usando medidas unidimensionais

    (frequência ou duração por semana, por exemplo) (RHODES; WARBURTON;

    MURRAY, 2009). No estudo de Seelig e Fuchs (2011), comparou-se a

    participação na AF utilizando apenas uma variável, e utilizando duas ou mais

    variáveis em duas situações: (A) uma pessoa que praticou atividades com

    frequências semanais altas por quatro ou cinco meses consecutivos e depois

    teve recaída e não praticou mais até completar doze meses do início; (B) uma

    pessoa que tenha se mantido ativa neste período de doze meses, mas com

    frequências semanais reduzidas a duas ou três, no máximo, sem períodos de

    ausência. Para ambas, obteve-se a mesma frequência de participação anual,

    embora não mostrem o mesmo padrão de participação. Portanto, se assim

  • 34

    fosse, a aplicação da frequência de participação como medida de critério pode

    esconder os diferentes padrões comportamentais existentes. Somente há

    evidência desses padrões quando dois ou mais aspectos são levados em

    consideração ao mesmo tempo (frequência de participação e distribuição

    temporal de participação, por exemplo), considerando que ambas as

    dimensões implicam simultaneamente o uso de uma variável categórica em vez

    de uma variável contínua para descrever a participação na AF.

    2.3.1. Teoria Social Cognitiva

    A TSC de Bandura (2004) sugere que o comportamento é influenciado

    pelo ambiente, pela aprendizagem social, por aspectos pessoais e pelo próprio

    comportamento, postulando que a autoeficácia, as expectativas de resultados,

    o determinismo recíproco, a capacidade comportamental, a aprendizagem

    observacional e amotivação afetam a probabilidade e as intenções de um

    indivíduo realizar (agir) um comportamento específico (BUCKWORTH;

    DISHMAN, 2002; BANDURA, 2004).

    Para compreender estes conceitos, temos: entende-se por autoeficácia a

    confiança na capacidade que alguém tem nele mesmo para realizar o

    comportamento específico; por expectativas de resultados as crenças sobre

    resultados antecipados do comportamento ou o comportamento de um

    indivíduo e as consequências decorrentes desse; por determinismo recíproco

    as mudanças de comportamento resultantes da interação entre o indivíduo e o

    ambiente; por capacidade comportamental como os conhecimentos e

    habilidades influenciam o comportamento; por aprendizagem observacional o

    aprendizado através da modelagem de pares; e por incentivo de motivação

    como sendo as recompensas e punições por comportamento (MOUTÃO,

    2005).

    Com relação à AF, a TSC enfatiza o nível de confiança que uma pessoa

    tem nela mesma, mais especificamente no seu envolvimento regular na AF,

    mesmo diante de impedimentos que possam surgir. Embora venha sendo

    utilizada em estudos de comportamento de AF, a TSC foi criticada por não

    distinguir entre os preditores de iniciação em relação ao de manutenção do

    comportamento.

  • 35

    Outras teorias também foram aplicadas para prever a participação na

    AF. As abordagens mais utilizadas são: a teoria do comportamento planejado

    (AJZEN, 1991), o modelo transteórico (PROCHASKA; MARCUS, 1994), a

    teoria da autodeterminação (DECI; RYAN, 2002) e a teoria social cognitiva

    (BANDURA, 2004; 2008). Numa revisão feita por Biddle e Mutrie (2008),

    concluiu-se que o poder preditivo dessas teorias ainda é modesto, de 30 a 40%

    da variação explicativa da AF, corroborando com Armitage e Conner (2001),

    Sheeran (2002) e, mais recentemente por Carneiro e Gomes (2016).

    2.3.2. Teoria do Comportamento Planejado

    Na Teoria do Comportamento Planejado (TCP) (AJZEN, 1991) as

    expectativas se originam de um processo de contemplação com um

    balanceamento completo dos prós e contras de possíveis resultados

    comportamentais. As pessoas podem, por exemplo, não questionar sobre usar

    um capacete ao andar de bicicleta, mas se elas decidem fazê-lo depende muito

    da crença de que esta ferramenta é eficaz para aumentar sua segurança.

    Segundo a perspectiva de Renner et al. (2012), as expectativas de

    resultado são importantes para mover as pessoas de uma pré-intenção para

    uma intenção, ou seja, de uma fase pré-ativa para uma intenção de agir ou

    para a própria ação em si. A expectativa de resultado, nesta teoria, se dá como

    crenças comportamentais subjacentes à construção da atitude, indicando que

    um comportamento levará a um dado resultado (AJZEN, 1991).

    Especificamente, as expectativas afetivas são diretamente relacionadas aos

    estados emocionais durante ou diretamente após a AF, prevendo o

    comportamento da AF em um maior grau do que a expectativa relacionada à

    saúde, que está relacionada às consequências a longo prazo (GELLERT;

    ZIEGELMANN; SCHWARZER, 2012).

    O estudo de Conner et al. (2015) demonstrou que a atitude é um preditor

    significativo do comportamento da AF, e as experiências positivas são

    impulsores importantes para a motivação e a manutenção da prática, conforme

    cita Klusmann et al. (2011). Experiências positivas também foram introduzidas

    como preditores para mudanças na AF nos estudos de Fleig et al. (2011) e

    Parschau et al. (2013; 2014). Assim, as expectativas positivas e a sua

  • 36

    realização podem ser importantes para a manutenção da AF, pois se a AF

    atingir os resultados esperados, pode-se ocorrer o processo de mudança de

    comportamento, mas se as expectativas não forem atendidas, a mudança do

    comportamento pode não ocorrer ou ocorrer via fator desistência (KLUSMANN

    et al., 2016).

    Rothman (2000), Fuchs (2013) e Jekauc et al. (2015) apontam que

    experiências positivas são importantes para a MAF. Assim, a TCP defende que

    a intenção de realizar o comportamento é o preditor mais importante do próprio

    comportamento, para que este ocorra, tendo influências das atitudes, do

    controle percebido e normas subjetivas, ou seja, a intenção é maior se o

    indivíduo está disposto a realizá-la (intenção), se ele acredita que pode ser

    bem sucedido na escolha (controle percebido) e se o ambiente converge para

    que isto ocorra (norma subjetiva), conforme apresentado na figura 1 (AJZEN,

    1991; ARMITAGE, 2005).

    FIGURA 1 – COMPONENTES DA TEORIA DO COMPORTAMENTO PLANEJADO.

    FONTE: Adaptado de MOUTÃO (2005, p. 47)

    2.3.3. Modelo Transteórico

    De modo geral, o modelo transteórico, ou transteorético (PROCHASKA;

    DICLEMENTE, 1983; PROCHASKA; DICLEMENTE; NORCROSS, 1992;

    PROCHASKA; MARCUS, 1994), é um modelo biopsicossocial integrativo que

    busca conceituar em etapas (estágios) o processo de mudança de

    comportamento intencional. O Modelo Transteórico (MTT) procura integrar

    construtos-chave de outras teorias em uma teoria abrangente de mudanças de

  • 37

    comportamento, que pode ser aplicada a uma variedade de situações e

    populações definindo, assim, o nome Transteórico.

    Os estágios inter-relacionados da mudança de comportamento estão no

    centro do MTT, sugerindo que as pessoas passam por uma série de etapas ao

    modificar o comportamento. Ademais, é variável o tempo que uma pessoa

    pode permanecer em cada estágio, mas as tarefas necessárias para passar

    para um próximo estágio não são variáveis. Certos processos de mudança e

    princípios funcionam melhor em cada estágio para prevenção da recaída,

    facilitando o progresso. Esses princípios/pressupostos críticos incluem os

    processos de mudança, equilíbrio decisional e autoeficácia (WILLIAMS et al.,

    2008).

    Explicitando melhor sobre o Equilíbrio Decisional, Janis e Mann (1977)

    conceituavam a tomada de decisão como um “balanço” comparativo de ganhos

    e perdas potenciais. Sendo assim, os dois componentes do equilíbrio

    decisional (prós e contras) tornaram-se construtos essenciais no Modelo

    Transteórico. Conforme os indivíduos transpassam os Estágios de Mudança, o

    equilíbrio decisional muda de maneira crítica. Analisando por etapas, em um

    indivíduo quando está na fase de pré-contemplação, por exemplo, profissionais

    que buscam mudança de comportamento são vencidos pelos contras, relativos

    às mudanças, permanecendo no comportamento atual. Na fase de

    Contemplação, os prós e os contras tendem a ter o mesmo peso, deixando

    ambivalente a decisão de mudar. Mas, se os profissionais conseguirem

    compensar os contras, pode-se ocorrer mudanças para o estágio Preparação

    ou, até mesmo, Ação. À medida que os indivíduos atingem o estágio de

    Manutenção os profissionais devem manter os prós e superar os contras, para

    diminuir os riscos de recaída (STONEROCK; BLUMENTHAL, 2016).

    Com relação à autoeficácia, o MTT integra os elementos da teoria da

    autoeficácia de Bandura (1977; 1982; 2004). Este construto reflete o grau de

    confiança que os indivíduos têm na manutenção da mudança de

    comportamento, mesmo em situações que geralmente provocam recaídas.

    Pode ser medido, também, pelo grau em que os indivíduos se sentem tentados

    a retornar ao comportamento anterior. Nos estágios de Pré-contemplação e

    Contemplação, a tentação de se envolver num comportamentoé muito maior do

    que abster-se dele. Conforme os indivíduos passam do estágio da Preparação

  • 38

    para a Ação, a disparidade entre sentimentos de autoeficácia e tentação

    encerra-se, sendo alcançada a mudança de comportamento. A recaída

    frequentemente ocorre quando os sentimentos de tentação superam o senso

    de autoeficácia dos indivíduos (PROCHASKA; MARCUS, 1994).

    Anteriormente, a mudança de comportamento era interpretada como um

    evento (parar de fumar, beber ou comer demais), e não como fenômenos que

    ocorriam ao longo do tempo. O MTT descreve a mudança como um processo

    que se ajusta ao longo do tempo, envolvendo evolução ou retrocesso por meio

    de etapas. A progressão das Etapas da Mudança pode ocorrer de forma linear

    ou não, ou seja, indivíduos podem migrar para próximos estágios ou regredir

    para estágios anteriores ao seu estágio atual. Sendo assim, os estágios que

    contemplam o MTT são: Pré-contemplação (Não está preparado);

    Contemplação (Preparando-se); Preparação (Pronto); Ação; e Manutenção

    (PROCHASKA; MARCUS, 1994).

    No estágio de Pré-contemplação, as pessoas não pretendem agir em um

    futuro previsível e são muitas vezes caracterizadas (em outras teorias) como

    resistentes, desmotivadas, ou não aceitam ajuda. Na fase de Contemplação, as

    pessoas pretendem mudar nos próximos meses e estão mais conscientes dos

    benefícios da mudança, assim como o revés que possa vir a ocorrer. O

    equilíbrio entre os prós e contras da mudança pode fazer com que as pessoas

    permaneçam nesta fase por longos períodos. No estágio de Preparação as

    pessoas pretendem agir num futuro imediato, pois usualmente têm um plano de

    ação, como matricular-se em uma academia, consultar um conselheiro, falar

    com um médico ou confiar na automudança. Na fase de Ação, as pessoas

    promoverão modificações específicas em seus estilos de vida, mas, nem todas

    as mudanças de comportamento contam como ação neste modelo. O estágio

    de Manutenção é o estágio em que as pessoas farão modificações específicas

    em suas vidas e buscarão evitar recaídas, pois tendem a ter mais confiança de

    que podem continuar suas mudanças, mantendo o comportamento

    (PROCHASKA; WRIGHT; VELICER, 2008).

    Cada um dos cinco estágios de mudança descritos pelo MTT é

    caracterizado por diferentes fatores psicológicos que refletem a prontidão de

    um indivíduo para a mudança de comportamento relacionado à saúde

    (PROCHASKA; DICLEMENTE, 1983; 1984; DICLEMENTE et al.,1991).

  • 39

    Diversos fatores cognitivos e motivacionais, como prós e contras do equilíbrio

    decisional, percepção de gravidade e vulnerabilidade, autoeficácia, controle

    comportamental percebido, atitude e identidade se diferem nos estágios do

    MTT.

    Dentro do MTT, as expectativas de resultados (equilíbrio decisional)

    envolvem a pesagem de prós e contras a serem percebidos por um

    determinado comportamento, sendo que um equilíbrio positivo poderá acarretar

    progresso de estágio e maior probabilidade de realização do comportamento

    (PROCHASKA; DICLEMENTE, 1992). Especificamente, o MTT postula que o

    equilíbrio decisional e os processos cognitivos de mudança são mais

    importantes durante a adoção do comportamento, enquanto os processos

    comportamentais são mais importantes para a manutenção do comportamento

    (PROCHASKA; DICLEMENTE; NORCROSS, 1992). Conhecer se os estágios

    da AF mudam e preveem diferentemente a adoção em comparação à

    manutenção do comportamento ajuda a elucidar seu papel na manutenção da

    AF. Alguns trabalhos sugerem que a adoção e a manutenção do

    comportamento da saúde são diferencialmente preditos por fatores

    psicossociais (BOUTELLE et al., 2004; FINCH et al., 2005). Em contrapartida,

    um estudo descobriu que as consequências afetivas antecipadas do sucesso e

    falha no futuro afetam a AF de forma semelhante, independentemente de estar

    sendo iniciado ou mantido o comportamento, podendo ter implicações para os

    que buscam a manutenção da prática como meio de reduzir os riscos de

    doenças crônicas (DUNTON; VAUGHAN, 2008).

    2.3.4. Teoria da Autodeterminação

    As pessoas são movidas, muitas vezes, por fatores externos como

    recompensas, notas, avaliações ou opiniões que outras pessoas possam vir a

    ter sobre elas. No entanto, algumas são movidas por algo interno, curiosidade,

    interesse, cuidados ou valores permanentes. Estas motivações, chamadas de

    intrínsecas, podem sustentar paixões, criatividade e esforços, mesmo que não

    sejam externamente recompensadas. A interação entre forças motivacionais

    extrínsecas, intrínsecas e necessidades inerentes à natureza humana que

  • 40

    agem sobre os indivíduos é o território da Teoria da Autodeterminação (RYAN;

    DECI, 2000a).

    A motivação busca compreender como o ser humano regula seu

    comportamento, assim como suas causas e as consequências (PIRES et al.,

    2010). Para Dumith (2008), tem-se por motivação uma determinação intrínseca

    com o intuito de alcançar um objetivo específico (estética, perda de peso,

    redução do estresse, socialização, manutenção da saúde, dentre outros),

    podendo ser medida pela intenção de um indivíduo em realizar um determinado

    comportamento, como praticar AF buscando estes objetivos. Em outras

    palavras, a motivação intrínseca é quando o indivíduo realiza uma atividade por

    prazer e satisfação que ela proporciona, podendo ser a chave para

    manutenção da AF, segundo aponta Biddle e Mutrie (2008). É de salientar que

    diversos estudos acerca da motivação para a manutenção da prática de AF

    foram realizados em diferentes populações (FREITAS et al., 2007;

    BALBINOTTI et al., 2011; FORTIER, et al., 2011; SILVA et al., 2011; JOSEPH

    et al,. 2016, THOMSON; MCADOO, 2016).

    Para uma explicação mais aprofundada sobre a Teoria da

    Autodeterminação (TAD), define-se motivação como sendo o que faz uma

    pessoa agirem uma direção, sentido e força (MURCIA; COLL, 2006), sendo

    que todo indivíduo pode ser motivado e/ou motivar-se em diferentes

    escalas/níveis (BALBINOTTI et al., 2011). Quando uma pessoa está

    intrinsecamente motivada, o motivo de ingresso é o simples prazer em estar

    conhecendo algo novo e, muitas vezes, o prazer é usado para explicar a

    manutenção em tal atividade (RYAN; DECI, 2000b).

    Há, na literatura, inúmeras definições sobre o conceito da motivação,

    mas uma clássica é o conceito de motivação esportiva como um processo

    ativo, intencional e dirigido a uma meta, dependente da interação dos fatores

    pessoais e ambientais (SAMULSKI, 1995; WEINBERG; GOULD, 2001).

    Vallerand (2007) conceitua motivação como um modelo hipotético utilizado

    para descrever forças internas (motivação intrínseca) e/ou externas (motivação

    extrínseca) do indivíduo, que estão em processo de troca constante com o

    meio ambiente, influenciando e sendo influenciado por ele, podendo gerar

    comportamentos motivados ou desmotivados.

  • 41

    As duas dimensões (Motivação Intrínseca e Motivação Extrínseca) são

    importantes em qualquer relação com o comportamento motivado. Deci e Ryan

    (1985) consideram a dicotomia (intrínseca x extrínseca) muito simplista para a

    compreensão da motivação, afirmando que a motivação pode ser categorizada

    por meio de um continuum, sendo os extremos a forma menos

    autodeterminada (amotivação ou desmotivação) e a forma mais

    autodeterminada (motivação intrínseca).

    Para explicar melhor a TAD e suas peculiaridades, serão definidas as

    dimensões, segundo o continuum citado, de uma forma menos

    autodeterminada para uma mais autodeterminada. Em um dos extremos do

    continuum, estão os comportamentos amotivados (desmotivados), que são

    regulados por “forças” além do controle intencional do indivíduo, não

    considerados intrínseca e nem extrinsecamente motivados, com uma ausência

    de intenção e pensamento proativo (DECI; RYAN, 1985). É a relativa ausência

    de motivação, inexistindo contingências entre as ações e os resultados por

    parte dos indivíduos, com falta de motivos para a iniciação ou manutenção da

    prática de AF.

    A TAD propõe, ao longo deste continuum de autodeterminação,

    diferentes estilos de regulação da motivação extrínseca, que se situam entre os

    extremos: desmotivação e motivação intrínseca. São os seguintes tipos de

    motivação extrínseca: regulação externa, introjetada, identificada e integrada,

    respeitando o continuum de uma forma menos para uma mais

    autodeterminada, respectivamente (DECI; RYAN, 2000).

    A regulação externa como a forma motivacional não autônoma e mais

    básica de motivação externa, de acordo com Deci e Ryan (1985), consiste na

    imposição de contingências externas por parte de outra pessoa. No contexto da

    prática de AF, indivíduos realizam tal comportamento quando são controlados

    por recompensas (premiação material) e/ou ameaças (crítica de um professor).

    A prática de qualquer atividade se dá como um meio de se obter

    recompensas/prêmios ou evitar consequências negativas/ameaças, e não

    como forma de divertimento e prazer (PELLETIER et al., 1995).

    Em relação à regulação introjeção, Deci e Ryan (1985) defendem que é

    uma regulação mais afetiva do que cognitiva, envolvendo a resolução de

    impulsos conflituosos (fazer ou não fazer) e os comportamentos resultantes

  • 42

    contemplam reforços de pressões internas, como a culpa e ansiedade

    (PELLETIER et al., 1995) ou do desejo de obter reconhecimento social

    (NTOUMANIS, 2001). Portanto, processos regulatórios são baseados em

    fontes externas de controle, não se verificando autodeterminação nestes

    comportamentos (STANDAGE; DUDA; NTOUMANIS, 2003).

    A regulação identificada se dá quando um comportamento é motivado

    pela apreciação dos resultados e benefícios da participação em determinada

    AF, por exemplo, na prevenção de doenças ou melhora da condição física.

    Este estilo é mais autodeterminado que o anterior sendo que, por muitas vezes,

    é realizado sem que o indivíduo o considere interessante, agradável ou

    prazeroso (NTOUMANIS, 2001). Sendo assim, a importância está no benefício

    da atividade e, mesmo sendo realizado sem pressões externas, este

    comportamento somente representa um meio para um fim (STANDAGE;

    DUDA; NTOUMANIS, 2003). Segundo Deci e Ryan (1985) a regulação deste

    comportamento consiste na aceitação desta regulação e permite a percepção

    de algum controle ou possibilidade de escolha, mesmo que por razões

    extrínsecas.

    Na última dimensão em relação à motivação extrínseca, em um nível

    mais autodeterminado ou autônomo, está a regulação integrada como a mais

    volitiva, pois adota uma significativa importância para os objetivos pessoais de

    uma pessoa. Apesar de sua forma integrada e autodeterminada, Deci e Ryan

    (1985) consideram que o comportamento é realizado visando a concretização

    de objetivos pessoais e não pelo prazer do envolvimento na prática da

    atividade em si, sendo este um comportamento motivado extrinsecamente.

    Por fim, no outro extremo do continuum e o que se busca alcançar como

    motivação autodeterminada, está a motivação intrínseca. Quando o sujeito está

    intrinsecamente motivado, ele ingressa e/ou se mantém numa atividade por

    vontade própria, pelo simples prazer e satisfação de conhecê-la, explorá-la,

    aprofundá-la. As atividades motivadas intrinsecamente são comumente

    associadas ao bem-estar psicológico, prazer, satisfação, interesse, alegria e

    persistência (RYAN; DECI, 2000b). Portanto, um sujeito intrinsecamente

    motivado é aquele que ingressa na atividade por vontade própria, pelo prazer e

    pela satisfação de conhecê-la e, possivelmente, mantendo-se nesta (RYAN;

  • 43

    DECI, 2000b). O continuum da TAD e suas dimensões está representado na

    figura 2.

    FIGURA 2 – CONTINUUM DE AUTODETERMINAÇÃO.

    FONTE: Teoria da Autodeterminação de DECI; RYAN (1985; 2000).

    Detalhados os níveis do continuum motivacional, salienta-se que o

    desenvolvimento da Teoria da Autodeterminação (RYAN; DECI, 2000a) teve

    como elementos-chave a integração desta metateoria com outras teorias, cada

    uma das quais explica um conjunto de fenômenos baseados na motivação e/ou

    funcionamento da personalidade. Desta maneira, estes níveis de

    autodeterminação são explicados por cinco subteorias: Teoria da Integração

    Orgânica, Teoria da Avaliação Cognitiva, Teoria das Orientações de

    Causalidade, Teoria de Orientações à Meta e Teoria das Necessidades

    Psicológicas Básicas.

    A Teoria da Integração Orgânica aponta que as pessoas são organismos

    ativos, tendem a crescer evolutivamente, e o contexto social pode apoiar ou

    contrariar o engajamento ativo e crescimento psicológico. A teoria destaca os

    suportes de autonomia e relacionamento social e define como um processo

    pelo qual indivíduos integram/interiorizam as exigências e valores do meio

    social em que estão inseridos (DECI; RYAN, 1985).

    A Teoria da Avaliação Cognitiva destaca que um indivíduo

    age/comporta-se por meio de contingências externas (dinheiro ou fama, por

    exemplo), e irá dar continuidade em alguma prática quando a recompensa

    estiver onipresente (HAGGER; CHATZISARANTIS, 2008). Esta teoria aborda

    diretamente os efeitos que os contextos sociais, recompensas, envolvimentos e

    ego podem ter sobre a motivação intrínseca e o interesse (DECI; RYAN, 1985).

    Também destaca o papel crítico das necessidades psicológicas de

  • 44

    competência e autonomia e suas atuações na promoção de motivação

    intrínseca, o que é fundamental e interfere na prática de atividades físicas,

    esportivas ou não (RYAN; DECI, 2000; WEINBERG; GOULD, 2011).

    Estudiosos sugerem que algumas ações visando promoção de desafios,

    liberdade na ação e fornecimento de um feedback positivo, podem auxiliar a

    promover a motivação intrínseca de atleta/esportista. Mas a motivação

    instrínseca somente ocorrerá se técnicos, treinadores ou professores fizerem

    com que os sentimentos de competência sejam acompanhados por uma

    sensação de autonomia, ou lócus de causalidade interno (RYAN; DECI, 2000a;

    KLAIN, 2013).

    A Teoria das Orientações de Causalidade descreve as diferenças

    individuais que as pessoas têm para regular os seus comportamentos e avalia

    três tipos de orientações de causalidade: autonômica (em que as pessoas

    agem por interesse e valorização do que está ocorrendo); de controle (o foco é

    recompensas, ganhos e aprovação); e orientação impessoal ou desmotivadas

    (caracterizada por ansiedade de competência relativa) (KASSER; RYAN, 1996;

    DECI; RYAN, 2000; RYAN; DECI, 2000).

    A Teoria de Orientações à Meta caminha por fora da dicotomia

    intrínseco e extrínseco, afetando principalmente a motivação e o bem estar. As

    metas são vistas como diferenciais buscando satisfazer as necessidades

    básicas, diferencialmente associadas ao bem-estar. Objetivos extrínsecos

    (sucesso financeiro, aparência, popularidade/fama) foram especificamente

    contrastados com objetivos intrínsecos (comunidade, relacionamentos íntimos,

    crescimento pessoal) e, portanto, a teoria pressupõe que a orientação das

    metas pessoais em uma prática específica explica os níveis de

    autodeterminação (DECI; RYAN, 2000; RYAN; DECI, 2000). Estudos acerca

    desta teoria relacionada com a AF apóiam esse suporte teórico, mostrando que

    um clima motivacional para maestria pode promover uma MAF com o reforço

    da motivação intrínseca e competência (HAGGER; CHATZISARANTIS, 2008).

    Isto ocorre porque os níveis de competência e a dificuldade da tarefa se dão

    pela percepção do sujeito sobre seu próprio conhecimento e capacidade, ou

    seja, quanto mais difíceis parecem ser as tarefas, mais o sucesso é indicativo

    de alta competência, afetando positivamente a motivação (CID, 2010).

  • 45

    A Teoria das Necessidades Psicológicas Básicas é uma das mais

    importantes teorias que embasam a TAD, conceitua que o comportamento, a

    saúde psicológica e bem-estar do indivíduo são baseados e incentivados por

    três necessidades psicológicas básicas, inatas, universais e essenciais para

    que haja autodeterminação, que são a autonomia, a competência e o

    relacionamento social, que parecem ser essenciais para o bem-estar e o

    desenvolvimento social do indivíduo (DECI; RYAN, 2000; RYAN; DECI, 2000a).

    A autonomia sugere que o indivíduo deva ser agente de sua própria

    ação e comportamento, determinando-os, ou seja, é necessário que o

    praticante de AF perceba que a atividade está sob seu controle. Esta

    necessidade reflete o desejo em participar de AF em que a possibilidade de

    escolha se faça presente (DECI; RYAN, 1985), sendo as atividades realizadas

    por demandas externas pouco motivadoras, seja uma punição ou recompensa.

    A necessidade de autonomia é fundamental para se compreender a qualidade

    de um comportamento (RYAN; DECI, 2006). Já a competência é compreendida

    quando um indivíduo sente-se capaz e confiante para realizar com aptidão um

    determinado comportamento, mesmo na AF. Somente há esse sentimento de

    competência para se aumentar a motivação intrínseca quando há a percepção

    de autonomia acompanhando-a. O relacionamento social trata da necessidade

    do ser humano em fazer parte ou ser aceito por um grupo, de estabelecer

    vínculos ou estar mais próximo de outras pessoas dentro de um contexto social

    (RYAN; DECI, 2002).

    Se as necessidades psicológicas básicas forem supridas apoiadas nas

    experiências do indivíduo, podem-se promover as formas mais volitivas e

    elevadas de motivação e engajamento nas atividades físico-esportivas,

    incluindo maior desempenho, criatividade e MAF (WANG; BIDDLE, 2007).

    Portanto, a TAD defende que se qualquer uma das três necessidades

    psicológicas básicas (autonomia, competência e relação social) não for

    suportada ou for frustrada dentro de um contexto social e esportivo, causará

    um impacto negativo no bem-estar geral do atleta, equipe ou praticante de AF,

    diminuindo sua motivação (FONTANA, 2010).

    Quanto mais fortalecidas essas necessidades inatas, mais integrado e

    interiorizado se tornam o processo de mudança de comportamentos

  • 46

    extrinsecamente motivados para comportamentos intrinsecamente mais

    autodeterminados (RYAN; DECI, 2000a).

    2.3.5. Teoria da Manutenção da Atividade Física (TMAF)

    A MAF pode ser afetada por variáveis contextuais (sexo, etnia, acesso e

    facilidade, ambiente), psicológicas (preferência pela AF, intenção de ser ativo,

    prazer, atitudes, confiança) e comportamentais (comportamento prévio da AF,

    dieta saudável) (VAN DER HORST et al., 2007; WENDEL-VOS et

    al.,2007;MORAES; ROLIM; COSTA JR, 2009;MORAIS, 2014). As diferenças

    entre os preditores de início em relação aos de manutenção da AF estão no

    foco das variáveis psicológicas e considerações temporais relacionadas

    (imediato versus longo prazo), além dos fatores que possam impedir a prática

    regular desta AF. Ademais, fatores sociais e ambientais também podem

    interferir na manutenção da prática e serem decisivos no processo de

    desistência. Os ambientes contêm uma série de fatores que interferem, em

    diferentes níveis, como oportunidades/possibilidades para os comportamentos

    desejados (VAN DER HORST et al., 2007; WENDEL-VOS et al.,2007).

    O ambiente é abordado com diferentes enfoques nas diversas teorias,

    como o MTT, que inclui considerações ambientais através dos processos de

    controle de estímulo e reavaliação ambiental. Além do MTT, a TCP também

    aborda o ambiente num nível individual e/ou pessoal, diferentemente da TSC,

    que se concentra no nível interpessoal, incorporando o indivíduo ao

    comportamento e ao meio ambiente. No entanto, para se conquistar a MAF,

    uma perspectiva ecológica e multi-integrada deve existir, ressaltando as

    interações dos indivíduos com seus ambientes físicos e socioculturais,

    moldando o próprio ambiente e sendo moldados pelo mesmo (MCLEROY et

    al., 1988; DUMITH, 2008). Portanto, ambientes exercem influências que

    promovem ou encorajam algumas pessoas, enquanto previnem ou

    desencorajam outras (SALLIS; BAUMAN; PRATT, 1998), especialmente na

    MAF (NIGG et al., 2008).

    Os determinantes ambientais para o comportamento da AF podem ser

    divididos em físico e social. O ambiente físico contempla o clima/estação do

    ano, o acesso aos locais e proximidade, instalações e estrutura, segurança. O

  • 47

    clima ou a estação do ano é a única característica do meio físico natural que se

    associa diretamente com o nível geral de AF, podendo afetar marcadores

    fisiológicos da AF, assim como a disposição em realizá-la. O acesso aos locais

    parece, também, ser um forte preditor que influencia a prática regular de AF,

    pois a proximidade do ambiente de prática em relação ao trabalho ou casa

    parece ser um dos fatores mais relevantes para a escolha do local, frequência