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TRADUZINDO ENTRE MODERNISMO E PÓS-MODERNISMO ... · PDF filePÓS-MODERNISMO: TRANSDISCURSIVIDADE E PARA/TRADUÇÃO VIA WITTGENSTEIN BURGHARD BALTRUSCH Universidade de Vigo Resumen:

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TRADUZINDO ENTRE MODERNISMO EPS-MODERNISMO: TRANSDISCURSIVIDADE E

PARA/TRADUO VIA WITTGENSTEIN

BURGHARD BALTRUSCHUniversidade de Vigo

Resumen: Despus de una breve reflexin sobre esttica y pensamiento en las fluidas fronteras entre modernismoy postmodernismo, este estudio se centra en la problemtica de la teorizacin de la literatura de la postmod-ernidad. Se establecer un dilogo con siete proposiciones del Tractatus logico-phoilosophicus de Wittgenstein, tra-duciendo (sic) su perspectiva analtico-filosfica y cuestiones fundamentales de esttica y de teora de la literaturapostmodernas. Se abrir despus un panorama a partir de un dilogo con las Investigaciones Filosficas, entretejin-dolo con las condiciones bsicas de una crtica postmoderna paratraductiva y transdircursiva de la literatura.Resumo: Aps uma breve reflexo sobre esttica e pensamento nas fronteiras fluidas entre modernismo e ps-modernismo, o presente estudo centrar-se- na problemtica teorizao da literatura na ps-modernidade. A argu-mentao dialogar com as sete proposies do Tractatus logico-philosophicus de Ludwig Wittgenstein, traduzindoentre (sic) a perspectiva analtico-filosfica deste e questes fundamentais da esttica e da teoria da literaturaps-modernas. Depois abrir-se- o panorama a partir de um dilogo com as Investigaes Filosficas, procurandoentretec-lo com as condies bsicas de uma crtica ps-moderna paratradutiva e transdiscursiva da literatura.Abstract: After a short reflection on aesthetics and thought within the ever-changing borders between modernismand postmodernism, this article will focus on some epistemological problems of literary theory arising in post-modernity. The study will be built on the seven proposals of Ludwig Wittgensteins Tractatus logico-philosophicus,translating between (sic) his analytic-philosophical perspective and postmodernism. Finally, I will broaden thetheoretical scope by establishing a dialogue with Wittgensteins Philosophical Investigations, in order to delineatesome basic conditions for a paratranslative and transdiscursive critique of literature in a postmodern context.Palabras llave: Modernismo, postmodernismo, teora de la literatura, esttica, transdiscursividad, para/traduccin,Wittgenstein.Palavras-chave: Modernismo, ps-modernismo, teoria da literatura, esttica, transdiscursividade, para/traduo,Wittgenstein.Key words: Modern philosophy, Postmodernism, Literary theory, transdiscursivity, para/translation, Wittgen-stein.

1. TRADUZINDO ENTRE MODERNISMO E PS-MODERNISMO1

Uma das caractersticas centrais do modernismo (i.e. as vanguardasestticas e de pensamento ocidentais de princpios do sculo XX) uma es-pcie de violncia criativa ou libertadora em relao aos diferentes padres(estticos, ticos, etc.) nos respectivos sistemas culturais. De maneira exem-plar, Antonin Artaud expe em Lombilic des limbes (1925) que a expressoverbal s transmite uma realidade construda por esteretipos adquiridos.

1O autor Membro do grupo Traduo & Paratraduo (http://webs.uvigo.es/paratraduccion/index.html) .

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Isto d uma ideia do abismo artificial entre vida e realidade na cultura oci-dental desde o fin de sicle. Artaud pretendia dissolver as antinomias descon-certantes (matria vs. mente, abstracto vs. concreto, etc.) numa espcie deunidade do ser. Preferiu uma concepo de totalidade que tentava abrangercom o conceito da carne. Esta totalidade, materialista ou sensacionista (nosentido que lhe deu Fernando Pessoa), estava concebida como se fosse umestado pr-racional, anterior dissociao entre o ser humano e a realidadea partir da lngua e da escrita (contrariando o que o surrealismo procura-va fazer com a dissoluo das antinomias num point suprme): Toutelcriture est de la cochonnerie, sentenciava Artaud, uma vez que a escritaimplica uma separao entre produtor/a e produto, uma criao separadada vida. Por isso, Artaud pretendia empregar a lngua no como uma ferra-menta de representao, mas sim como uma via de incarnao da realidade:Quero fazer um livro [...] que como uma porta aberta [...], uma porta quesimplesmente d para a realidade (Lombilic des limbes, 1925). A concepoanti-dualista da esttica estava dirigida pela convico da incapacidade derepresentao (impouvoir) da lngua discursiva em relao ao sentimentoe ao pensamento. O resultado deste cepticismo, to caracterstico do mod-ernismo ocidental, uma inadaptao vida (Artaud) que desconstri asconvenes lingusticas ao retraduzir o significado e os valores tradicionaisdos conceitos, encarando-os agora como entes vivos e carnais. Artaud pre-tendia reconduzi-los a um nvel debaixo da lngua e do pensamento (ibid.),procurando efeitos abstractos e concretos ao mesmo tempo e sem nuncatransmitir uma impresso meramente casual, como acontecera no surrealis-mo. Esta acepo do modernismo tambm est presente na semntica no-aristotlica de meados do sculo passado: (1) Words are not the things weare speaking about; and (2) There is no such thing as an object in absoluteisolation. These two most important negative statements cannot be denied(Korzybski 1958: 60). Compare-se, tambm, a ideia do artista como foco

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dinamogneo nos Apontamentos para uma esttica no-aristotlica deFernando Pessoa/lvaro de Campos (1928). Para Artaud, a escrita j no secaracteriza pela mera tarefa de transmitir uma ideia, uma vez que ela precisater um efeito por si mesma. A escrita deve existir independentemente dediscursos e linguagens e, ao mesmo tempo, estar identificada com a vivn-cia das sensaes. uma espcie de utopia anti-sistema do eterno retorno(Nietzsche) na que convergem lngua, escrita e sensaes:

Uma das razes da atmosfera asfixiante na que vivemos sem escapatriapossvel e sem remdio e que todos/as, mesmo os/as mais revolucionrios/asentre ns, compartimos este respeito pelo que tem sido escrito, formula-do ou pintado e que tomou forma, como se toda a expresso no se esgotassefinalmente e no alcanasse um ponto onde preciso que as coisas estouremem pedaos para podermos recomear. (Le thtre et son double: 115)

Artaud tambm exemplifica como a intelligentzia modernista se en-contrava dividida entre a percepo do mundo e da realidade como con-strues artificiais, por um lado, e o desejo imperioso de conceb-los comoum todo harmonioso, pelo outro. A sua aco criativa e libertadora dospadres impostos caracterizou-se por diferentes processos ou tcnicas de ex-presso que coincidem com muitas obras artsticas do tempo:

A fragmentao de unidades de carcter, de trama, de espao icnico,de forma lrica, etc.

O emprego de paradigmas mticos, esotricos, esteticistas, etc.

A rejeio de normas uniformes de beleza, de gramtica, de ideologia,de metafsica, etc. (tambm devido ideologia, tanto poltica comoesttica, do pater le bourgeois).

A preocupao pelas tcnicas (no s no sentido da oposio entre for-ma e contedo) e das contnuas revises destas mesmas tcnicas (umavez que cada elemento da obra era considerado como um instrumentopara surtir efeitos).

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A violncia criativa ou libertadora tem como contexto imediato umperodo de desestabilizao ideolgica, tica e esttica em Ocidente, umsculo de crises, sejam estas reais ou artificiais, fsicas ou metafsicas, materi-ais ou simblicas, produzidas pelas lutas laborais, a emergncia do feminis-mo, as aspiraes imperiais, a 1.a Guerra Mundial, a modernizao social,etc. Parte deste contexto tambm so a paulatina perda da f das camadasburguesas nas sociedades europeias; a crescente dvida nos fundamentos ti-cos; a desacreditao da integridade moral dos governos; as redefinies deideias ou conceitos fundamentais como eu ou cultura; as revolues cient-fica, tecnolgica, industrial e o cepticismo em relao ao destino da espciehumana. Um exemplo paradigmtico provm dos ensaios de Ezra Pound:An idea has little value apart from the modality of the mind which re-ceives it (1954: 341).

O facto de existir, sobretudo desde o fin de sicle, uma conscincia ca-da vez mais auto-reflexiva destes fenmenos, faz com que uma parte dasobras modernistas se caracterize por uma pronunciada seriedade das in-tenes, apesar da frequncia do teor irnico. De facto, a ironia est, emmuitos casos, ao servio de grandes estticas ou ideologias. A insurreio einovao culturais das/os modernistas desenvolve-se, em primeiro lugar, nombito micro-social de pequenos grupos, a partir de sociolectos e idiolectosconcretos. Exemplos lusfonos seriam os casos da gerao de Orpheu e daSemana de Arte Moderna, que partiam de grupos muito reduzidos e coesos.

Desde o ponto de vista dos modelos de pensamento ou das ideologiasque influenciaram o modernismo, podemos falar de uma espcie de triun-virato: Marx, Freud e Nietzsche (embora para a gerao de Orpheu, porexemplo, estes autores inicialmente no tenham tido a mesma importn-cia como para o mundo anglfono). Mas a partir das suas propostas rev-olucionrias que as diferentes correntes modernistas procuram responder questo: Como viver dentro de um novo contexto de pensamento ou de

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uma nova viso do mundo? J desde finais do sculo XIX, a cincia comeaa ser entendida como uma construo da mente humana, em vez de umaafirmao paradigmtica da verdade ou de uma representao exacta da real-idade. Nietszche postulara em 1872 a possibilidade de "formular os limitese as condies do conhecimento em geral e, em consequncia, [a possibili-dade] de negar rotundamente a aspirao da cincia a uma validez e uns

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