SUELI MELLO

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Infncia, Mdias e Educao: revisitando o conceito de socializao

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Infncia e humanizao: algumas consideraes na perspectiva histrico-cultural

Suely Amaral Mello*

Resumo:Neste artigo, trago elementos da Teoria Histrico-Cultural que subsidiam uma anlise da relao entre infncia, educao e escola da infncia. Essa anlise pode orientar a organizao de prticas voltadas para o mximo desenvolvimento humano na infncia e, tambm, possibilitar uma crtica de prticas equivocadas existentes na Educao Infantil. Estudos realizados na perspectiva histrico-cultural apontam que muitas prticas educativas vigentes na escola da infncia freqentadas por crianas entre 3 e 6 anos se sustentam em concepes superadas acerca da relao entre educao e desenvolvimento, o que conduz a equvocos que empobrecem o desenvolvimento em nome de garantir a antecipao de aprendizagens prprias da escola de Ensino Fundamental. Com base na compreenso das teses da Teoria Histrico-Cultural acerca do desenvolvimento humano, percebe-se que, ao contrrio da tendncia de escolarizao precoce e de abreviamento da infncia presentes, de um modo geral, nas prticas atuais de Educao Infantil, o direito infncia defendido por essa teoria condio para a mxima apropriao das qualidades humanas nas novas geraes. Palavras-chave: Teoria Histrico-Cultural. Infncia. Educao Pr-Escolar.

* Doutora em Educao pela Universidade Federal de So Carlos. Professora do Curso de Ps-Graduao em Educao da Faculdade de Filosofia e Cincias da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Campus de Marlia. Lder do grupo de pesquisa Implicaes Pedaggicas da Teoria Histrico-Cultural e coordenadora do Grupo de Estudos em Educao Infantil do mesmo campus da Unesp.

PERSPECTIVA, Florianpolis, v. 25, n. 1, 57-82, jan./jun. 2007 83-104, jan./jun. 2007

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IntroduoPara Marx, a forma das relaes entre homem e mulher expressa o nvel de desenvolvimento alcanado pela sociedade em que se inserem. Penso que o mesmo se pode dizer da relao entre os adultos e as crianas. Muito se tem discutido sobre o fato de que a infncia uma construo histrica e social (RIES, 1978; VYGOTSKY, 1995; LEONTIEV, 1988). Apenas medida que o conhecimento humano gerado pelo trabalho humano numa relao dialtica que condicionava o desenvolvimento de ambos possibilitou a produo de excedentes e permitiu vitrias mais persistentes na luta diria pela sobrevivncia, foi possvel ampliar o tempo de no trabalho para alguns segmentos da sociedade. J bastante conhecida a discusso acerca de que a infncia, na forma como a pensamos hoje, uma construo dos ltimos 200 anos da histria. Antes disso, ia-se para a guerra, casava-se e trabalhava-se assim que se tivesse condies fsicas para tanto (RIES, 1978). Fatos que, hoje, so motivo de indignao e denncia eram usuais dois sculos atrs. No sculo XX, apesar dos muitos conflitos sangrentos, vimos um conjunto de direitos anunciados: o direito das mulheres, o dos idosos, o direito das chamadas minorias tnicas, o direito das pessoas com necessidades especiais e o direito das crianas. Tal reconhecimento expresso de um avano no desenvolvimento da sociedade. No entanto, como alertava Marx, vivemos ainda na pr-histria humana e constatamos facilmente que o direito infncia no foi ainda consolidado e no o ser seno tambm pela luta contra a concentrao de riqueza, saber e poder. A no consolidao desse direito, no entanto, no envolve apenas a questo da origem e da situao de classe social das crianas. Enquanto na utpica repblica das crianas, descrita por Collodi no romance Pinquio (apud AGAMBEM, 2005, p. 81) como o pas dos brinquedos, as crianas vivem despreocupadas com a produo,Nas estradas, uma alegria, uma baguna, um alarido de enlouquecer! Bandos de moleques por toda parte: uns na bolinha de gude, outros jogando bola, outros atirando pedrinhas, sobre velocpedes, sobre cavalinhos de pau; outros, ainda, brincando de cabra-cega, de pique, gente vestida de palhao, gente que engolia fogo, quem recitava, cantava, fazia piruetas, caminhava

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de mos no cho, de perna pro ar; rodavam argolas, passeavam vestidos de general com o capacete folhado e a espada de papel mach; riam, urravam, gritavam, chamavam, batiam palmas, assoviavam, imitavam o canto da galinha quando pe o ovo, resumindo: um tal pandemnio, uma tal algazarra, tamanha farra endiabrada que era preciso pr algodo nos ouvidos para no ficar surdo.

na vida real das crianas das classes mdia e alta, o dia preenchido com aulas de ingls, natao, msica, jud, bal, etc., fazendo com que a infncia esse perodo da vida em que o ser humano no precisa ainda produzir sua sobrevivncia se faa um tempo til de preparao para a vida produtiva. Para alm disso, cada vez mais um nmero crescente de crianas de todas as classes sociais passa parte do seu dia na escola de Educao Bsica, que agora comea nos primeiros meses de vida. A creche e a escola da infncia podem e devem ser o melhor lugar para a educao das crianas pequenas crianas at os 6 anos , pois a se pode intencionalmente organizar as condies adequadas de vida e educao para garantir a mxima apropriao das qualidades humanas que so externas ao sujeito no nascimento e precisam ser apropriadas pelas novas geraes por meio de sua atividade nas situaes vividas coletivamente. O conjunto dos estudos desenvolvidos sob a tica histrico-cultural aponta como condio essencial para essa mxima apropriao das qualidades humanas pelas crianas pequenas o respeito s suas formas tpicas de atividade: o tateio, a atividade com objetos, a comunicao entre as crianas, e entre elas e os adultos, o brincar. No entanto, esse no ainda o quadro tpico das escolas da infncia. Estimulados e mesmo pressionados por pais e mes que crem possvel e desejvel antecipar a aprendizagem dos contedos do Ensino Fundamental, professores e professoras da Educao Infantil criam salas de aula com rotina, espao, relaes e expectativas tpicas do trabalho educativo com as crianas no Ensino Fundamental. como se o novo conceito de criana que comeamos a construir a partir da observao e do olhar informado pela Teoria Histrico-Cultural uma criana forte e capaz de aprender deflagrasse uma compreenso de que possvel e desejvel apressar o desenvolvimento psquico da criana e, com isso, acelerar o progresso tecnolgico. No momento em quePERSPECTIVA, Florianpolis, v. 25, n. 1, 83-104, jan./jun. 2007http://www.perspectiva.ufsc.br

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vivemos uma ampliao sem paralelo na histria do tempo de preparao para o trabalho, contraditoriamente vivemos um movimento de encurtamento da infncia. Que sentido nossa sociedade d educao da infncia? Por outro lado, que saberes tm sido construdos nas ltimas dcadas acerca da infncia e de sua educao na escola? Com o objetivo de trazer elementos para subsidiar uma reflexo acerca da concepo de infncia expressa nas relaes que os adultos estabelecem com as crianas e nas expectativas subjacentes ao lugar que reservam para as crianas nas relaes sociais e tambm para subsidiar uma anlise das prticas que transformam precocemente a criana em escolar ao mesmo tempo, buscando a construo de alternativas respeitadoras da infncia , trago alguns princpios e teses da Teoria Histrico-Cultural para entender o intenso processo de humanizao que a criana vive na infncia at os seis anos de idade.

A humanizao como processo de educaoDiferentemente de outras teorias que viam o processo de humanizao isto , o processo de formao das qualidades humanas como um dado metafsico ou como produto da herana gentica, a Teoria Histrico-Cultural v o ser humano e sua humanidade como produtos da histria criada pelos prprios seres humanos ao longo da histria. No processo de criar e desenvolver a cultura, o ser humano formou sua esfera motriz o conjunto dos gestos adequados ao uso dos objetos e dos instrumentos e, com a esfera motriz, criou tambm as funes intelectuais envolvidas nesse processo. Ao criar a cultura humana os objetos, os instrumentos, a cincia, os valores, os hbitos e costumes, a lgica, as linguagens , criamos nossa humanidade, ou seja, o conjunto das caractersticas e das qualidades humanas expressas pelas habilidades, capacidades e aptides que foram se formando ao longo da histria por meio da prpria atividade humana. Marx foi o primeiro a perceber a natureza social e histrica do ser humano, e o primeiro a realizar uma analise terica dessa sua natureza. De seu ponto de vista, o ser humano se apropria das qualidades humanas ao se apropriar dos objetos da cultura histrica e socialmente criados. Em suas palavras,PERSPECTIVA, Florianpolis, v. 25, n. 1, 83-104, jan./jun. 2007http://www.perspectiva.ufsc.br

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Todas as suas relaes com o mundo ver, ouvir, cheirar, saborear, pensar, observar, sentir, desejar, agir, amar em suma, todos os rgos da sua individualidade, como rgos que so de forma diretamente comunal, so, em sua ao objetiva (sua ao com relao ao objeto) a apropriao desse objeto, a apropriao da realidade humana. (MARX, 1962, p. 126).

importante destacar que essas aquisies humanas no se fixam sob a forma de herana biolgica ou gentica, mas sob a forma de objetos externos da cultura material e intelectual. De tal modo que cada nova gerao nasce num mundo pleno de objetos criados pelas geraes precedentes, e nesses objetos esto acumuladas as qualidades humanas histrica e socialmente criadas e desenvolvidas. Para se apropriar dessas qualidades humanas acumuladas nos objetos da cultura humana nas palavras de Marx, para fazer delas os rgos da sua individualidade , preciso que as novas geraes se apropriem desses objetos da