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SOFOCLES. ELECTRA: UM PROJECTO DE TRADUÇÃO DE · PDF fileque Louro Fonseca tinha em mãos, há já anos, consistia no estudo daElectra de Sófocles e, desse projecto, fazia parte

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  • HVMANITAS- Vol. XLIX (1997)

    SOFOCLES. ELECTRA: UM PROJECTO DE TRADUO DE CARLOS ALBERTO LOURO FONSECA

    MARIA DO C U FIALHO

    Universidade de Coimbra

    H pouco mais de dois anos o Instituto de Estudos Clssicos foi profundamente abalado pelo sbito e trgico desaparecimento do Dr. Carlos Alberto Louro Fonseca. As mltiplas provas de amizade a todos prestadas, os seus dotes e sensibilidade de artista, o seu profundo conhecimento da Antiguidade greco-latina e muito em especial do Grego e do Latim conhecimento que, generosamente, sabia, como ningum, pr ao servio de todos criaram com todos ns elos que a morte no esbate nem o tempo enfraquece.

    Como do conhecimento de todos, um dos trabalhos de investigao que Louro Fonseca tinha em mos, h j anos, consistia no estudo daElectra de Sfocles e, desse projecto, fazia parte a traduo da pea. No esplio deixado aps a sua morte foi encontrada a traduo de uma parte da pea: os vv. 1-473. Entendemos por bem, como justa homenagem ao amigo dedicado e ao notvel helenista, traz-los a pblico.

    Trata-se, sem dvida, de uma verso ainda em primeira fase, no definitiva. No entanto, o rigor e qualidade potica que j possui justificam, por si, o prelo. A edio do texto grego utilizado a de R. C. Jebb, Sopholes. Elec-tra, Amsterdam, Srvio, 1962 (reimp.).

    Louro Fonseca aceitou o difcil desafio de uma traduo que respeitasse, tanto quanto possvel, a unidade do verso grego. O que o levou, necessariamente, a uma especial preocupao com o respeito pela ordem dos elementos frsicos do Grego, quando o Portugus o permitia. A este difcil trilho de fronteiras

    * Nota da Redaco: No hbito da Humanitas publicar tradues. Entendemos ser oportuno abrir neste caso uma excepo em homenagem a CA. Louro Fonseca, que muito contribuiu para esta revista e cuja morte muito nos entristeceu.

  • 284 MARIA DO CU RALHO

    adequa-se um estilo solene e uma linguagem potica elaborada e concisa que

    sendo, sem dvida, prpria da tragdia, corre, quanto ao Portugus, o risco de

    menor clareza e de efeito de estranhamento.

    notvel como Louro Fonseca alcanou o seu propsito, oferecendo-

    -nos um texto onde se no suspeitam tais dificuldades, num Portugus lmpido,

    elegante e nobre.

    De entre as mltiplas dificuldades levantadas pelo original ao tradutor

    contam-se a aliana entre conciso epathos na mondia de Electra, bem como

    no longo kommos que constitui o prodo, onde ocorrem elementos narrativos

    como evocao de um passado doloroso. A se pode apreciar, de sobremaneira,

    a competncia do tradutor. Veja-se, por exemplo, os vv. 193-196:

    ,

    '

    *oi

    .

    Lamentosa era a voz ouvida no seu regresso,

    e lamentosa, no leito festivo de teu pai,

    quando os golpes frontais do machado

    todo de bronze o feriram.

    De salientar tambm, de entre muitas outras solues notveis, a do

    tratamento dado a advrbios gregos, na traduo, de modo a respeitar o esprito

    do original sem que o texto portugus fique sobrecarregado ou perca em

    expressividade (e. g. vv. 198-199):

    ...

    medonhos pais de uma medonha

    forma

    A traduo ficou interrompida no incio do canto de esperana que

    constitui o estasimo 1, precisamente a anteceder a entrada em cena de

    Clitemnestra.

  • SOFOCLES. ELECTRA 285

    Na impossibilidade de fruirmos o que poderia ter sido a verso integral, apreciemos, pois, este testemunho de competncia do tradutor, patente num trecho de poesia dramtica grega, to belo quanto difcil, como homenagem que estar, por certo, longe de ser a derradeiraao amigo e ao classicista sempre presente.

    PERSONAGENS

    Pedagogo Orestes, filho de Agammnon Cristemis, irm de Orestes e de Electra

    Cltemnestra, me dos anteriores Egisto, segundo marido de Cltemnestra Coro de mulheres de Micenas Plades, amigo de Orestes (personagem muda)

    (A cena decorre diante da casa que outrora pertenceu a Agammnon.

    Nela vivem agora Electra e Cristemis com os assassinos de seu pai,

    Cltemnestra e Egisto.)

    PRLOGO

    PEDAGOGO

    Filho de Agammnon, que outrora, em Tria,

    os exrcitos comandou, a ti te dado, enfim, contemplar em pessoa aqueles lugares por que sempre ansiaste! esta a Arglida vetusta de que tantas saudades tinhas, e o bosque sagrado da filha de Inaco, atormentada pelo moscardo. 5 aqui, Orestes, o Liceio, a praa consagrada ao deus que matou o lobo. A esquerda, eis o templo famoso de Hera. Do lugar onde chegmos podes dizer que vs Micenas rica em ouro, e ali a morada bem cruenta dos Pelpidas; 10 foi l que um dia, de ao p de teu pai prostrado por mo assassina, te recebi das mos de tua irm de sangue.

  • 286 MARIA DO CEU FIALHO

    Levei-te comigo, salvei-te e eu mesmo te criei at ao vigor da juventude, para vingares o assassnio de teu pai.

    Agora, pois, Orestes e tu Plades, dos hospedeiros 15 o mais amigo, fora deliberar o que importa fazer sem demora; pois j a luz brilhante do Sol

    suscita claro o matutino canto das aves e se retirou a estrelada noite escura. Antes que algum saia de casa, 20

    chegai a um acordo; pois a um ponto tal chegmos em que no j a ocasio de hesitar, mas o momento decisivo de agir.

    ORESTES

    O mais querido dos servos, como so para mim claros

    os sinais que ds da tua natural fidelidade!

    Como o cavalo de boa raa, ainda que envelhecido, 25 nos perigos no perde a confiana,

    antes fita a orelha, assim tu tambm nos incitas e tu prprio segues entre os primeiros. Pois bem, vou revelar-te o que determinei; tu presta bem ateno ao que vou dizer, 30

    e se nalguma coisa errar, corrige-me. Quando me dirigi ao orculo ptio, para saber de que modo havia de punir

    de meu pai os assassinos, ,

    respondeu-me Febo o que vais saber: 35 sozinho, sem escudos, nem lanas, nem exrcito, devia eu, dolosamente, executar justas mortes por minhas mos. Pois que tal foi a resposta que escutmos, entra tu nessa casa, quando uma ocasio oportuna te guiar, e indaga tudo o que se passa, 40 para que, sabendo-o, no-lo comuniques com clareza. Graas tua velhice e ao longo tempo decorrido, no te ho-de reconhecer, nem suspeitaro de ti assim encanecido. Diz-lhes o seguinte: que s um visitante vindo da parte do ilustre focense Fanoteu; pois para eles 45 este o maior dos aliados.

  • SOFOCLES. ELECTRA 287

    Anuncia-lhes, confirmando-o com um juramento, que Orestes pereceu por um fatal destino, ao rolar, nos Jogos Pticos, do seu carro veloz; seja assim a tua histria. 50 Quanto a ns, depois de termos coroado, em primeiro lugar, o tmulo

    de meu pai, conforme o deus nos ordenou, com libaes e os adornos de nossas cabeas cortados, aqui regressaremos de novo, segurando em nossas mos a urna de paredes de bronze,

    que tu o sabes, sem dvida est oculta entre os arbustos, 55

    para, com palavras fraudulentas, uma doce notcia lhe trazermos, que o meu corpo se desvaneceu j,

    consumido pelas chamas e a cinzas reduzido. Mas porque h-de isto afligir-me, se estando morto em palavras, estou salvo na verdade, e alcano renome? 60

    Ao que penso, nenhuma palavra funesta, se de ganho acompanhada. Muitas vezes eu vi j at mesmo homens sbios morrerem numa v notcia; depois, ao regressarem

    ao lar, receberem ainda mais honras: assim tambm eu confio que, a partir deste boato, 65 vivo, hei-de ainda brilhar, como estrela, para meus inimigos.

    terra ptria, e vs, deuses tutelares, acolhei-me com boa sorte nesta jornada, e tambm tu, lar paterno; pois venho

    por ordem dos deuses para te purificar com justia; 70

    no me envies desonrado desta terra, mas senhor dos meus bens e restaurador da casa. Mas fiquemos por aqui; tu, ancio, cuida j de ir cumprir tua misso. Ns ir-nos-emos; pois esta a altura prpria, e para os homens 75 ela o principal rbitro em todas as suas empresas.

    ELECTRA (do interior do palcio.)

    Ai de mim, infeliz!

  • 288 MARIA DO CEU FIALHO

    PEDAGOGO

    Pareceu-me, meu filho, ouvir das portas alguma das criadas a gemer l dentro.

    ORESTES

    No a infeliz Electra? 80

    Ficamos aqui a ouvir os seus lamentos?

    PEDAGOGO

    No, no; antes de mais, tratemos

    de cumprir as ordens de Lxias e, da, ter um comeo auspicioso, derramando libaes devidas a teu pai; isso que situa a vitria ao nosso alcance e nos d o comando dos factos. 85

    (Saiem o PEDAGOGOpara a esquerda do espectador, ORESTES e PILADESpara a direita. ELECTRA sai de casa.)

    ELECTRA

    luz pura,

    e ar, que a terra cobres, quantas vezes me tendes ouvido os meus cantos de dor e as pancadas em pleno peito 90 ensanguentado recebidas, quando a noite escura para trs ficou! j o meu odioso leito nesta casa de pesar sabe bem como passo as noites em claro, quando eu choro o meu infeliz pai, a quem Ares assassino no concedeu de seus presentes em terra estranha, 95 mas minha me e seu amante, Egisto, maneira de lenhadores que derrubam o carvalho,

  • SOFOCLES. ELECTRA 289

    fenderam-lhe a cabea com mortfero machado e por isto nenhum lamento soltado 100

    por um outro, que no eu, tendo tu, meu pai, sofrido uma morte to cruel e lastimvel. Mas nunca

    porei fim a meus fnebres cantos e lamentos doloridos, enquanto o resplendente tremeluzir 105 das estrelas ou esta luz eu contemplar,

    mas como o rouxinol, assassino dos prprios filhos, chorarei sem cessar, e a todos clamarei s portas de meu pai. O morada de Hades e de Persfone, 110

    Hermes infernal e poderosa Maldio, e vs, temidas filhas dos deuses, Ernias, que vedes os que injustamente perecem, e os que so despojados de seu leito, vinde, socorrei-me, vingai a morte 115 de meu pai, e enviai-me o meu irmo;

    pois sozinha j no tenho foras para carrega