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Verinotio - Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas . ISSN 1981-061X . Ano XII . abr./2017 . n. 23 . v. 1 Gustavo Machado Sobre a possibilidade de uma revolução russa nos escritos de Marx Gustavo Machado 1 Resumo: No presente artigo pretendemos examinar os últimos escritos de Marx sobre a Rússia, com o intuito de avaliar o seu significado em relação a sua elaboração anterior e, particularmente, se apontam para qualquer ruptura ou inflexão ante o desenvolvimento conceitual de O capital. Palavras-chave: Revolução Russa; Marx; história. On the Revolution possibility in Marx’s writings Abstract: In this article we intend to examine the last writings of Marx on Russia, aiming at to evaluate its meaning in relation to their previous elaboration and, particularly, if they point to any rupture or inflexion in relation to the conceptual development of his main work The capital. Key words: Russian Revolution; Marx; History. Em 2017, completam-se 100 anos da Revolução Russa. Mesmo se tratando de um período marcado por tantos processos revolucionários, como demonstram os processos de descolonização da Ásia e da África, as revoluções Cubana e Chinesa, bem como os processos revolucionários derrotados, é indiscutível, quaisquer que sejam as preferências teóricas do analista, que a Revolução Russa não se afigura como um mero momento dentre outros. Longe disso. O processo iniciado em 1917 colocou sob nova perspectiva todos os eventos transcorridos desde esta data e alterou de forma definitiva o destino de todas as demais nações, por trágico que possa ser considerado o seu desfecho 2 . Particularmente, no domínio teórico, o pensamento de Karl Marx, até então considerado apenas mais um dos 1 Mestre em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos. 2 Como ilustração do impacto avassalador da Revolução Russa, basta rememorar que, em meados de 1921, o III Congresso da Internacional Comunista, criada sob o influxo da Revolução Bolchevique, reuniu 605 delegados de 103 organizações que representavam 52 países de todos os continentes. Parte expressiva desses partidos já possuía dezenas de milhares de membros (cf. BROUÉ, 2007, pp. 288-99). 247

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    Gustavo Machado

    Sobre a possibilidade de uma revoluo russa nos escritos de

    Marx

    Gustavo Machado1

    Resumo:

    No presente artigo pretendemos examinar os ltimos escritos de Marx sobre

    a Rssia, com o intuito de avaliar o seu significado em relao a sua

    elaborao anterior e, particularmente, se apontam para qualquer ruptura

    ou inflexo ante o desenvolvimento conceitual de O capital.

    Palavras-chave: Revoluo Russa; Marx; histria.

    On the Revolution possibility in Marxs writings

    Abstract:

    In this article we intend to examine the last writings of Marx on Russia,

    aiming at to evaluate its meaning in relation to their previous elaboration

    and, particularly, if they point to any rupture or inflexion in relation to the

    conceptual development of his main work The capital.

    Key words: Russian Revolution; Marx; History.

    Em 2017, completam-se 100 anos da Revoluo Russa. Mesmo se tratando de um perodo marcado por tantos processos revolucionrios,

    como demonstram os processos de descolonizao da sia e da frica, as

    revolues Cubana e Chinesa, bem como os processos revolucionrios

    derrotados, indiscutvel, quaisquer que sejam as preferncias tericas do

    analista, que a Revoluo Russa no se afigura como um mero momento

    dentre outros. Longe disso. O processo iniciado em 1917 colocou sob nova

    perspectiva todos os eventos transcorridos desde esta data e alterou de

    forma definitiva o destino de todas as demais naes, por trgico que possa

    ser considerado o seu desfecho2. Particularmente, no domnio terico, o

    pensamento de Karl Marx, at ento considerado apenas mais um dos

    1 Mestre em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador do Instituto

    Latino-Americano de Estudos Socioeconmicos.

    2 Como ilustrao do impacto avassalador da Revoluo Russa, basta rememorar que, em

    meados de 1921, o III Congresso da Internacional Comunista, criada sob o influxo da

    Revoluo Bolchevique, reuniu 605 delegados de 103 organizaes que representavam 52

    pases de todos os continentes. Parte expressiva desses partidos j possua dezenas de

    milhares de membros (cf. BROU, 2007, pp. 288-99).

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    mltiplos captulos da tradio revolucionria do sculo XIX, tal como o foi,

    por exemplo, Blanqui e Proudhon, no pde mais ser ignorado.

    Ora, como se sabe, em fevereiro de 1848, com a publicao do

    Manifesto comunista, Marx apresentara ao mundo uma nova perspectiva

    de transformao social, no mais fundada em modelos futuros de uma

    sociedade perfeita, em apelos ticos de justia ou nos direitos universais do

    homem3, mas nas condies sociais dadas ou, mais precisamente, no

    entrelaamento entre o proletariado e o movimento socialista, entre as

    necessidades sociais de uma dada classe social, produto genuno do modo

    de produo capitalista, e a possibilidade de destruio e superao deste

    mesmo modo de produo. Se poucos meses depois da publicao do

    Manifesto o levante de junho de 1848 na Frana mostrara que o

    proletariado poderia se colocar em luta em funo de seus prprios

    interesses, em vez de marchar necessariamente a reboque de outras classes

    sociais; se a Comuna de Paris mostrara que este mesmo proletariado

    poderia, sob certas circunstncias, depor o poder constitudo; 1917 colocou

    prova a efetividade da perspectiva acima aludida: a possibilidade de o

    proletariado, por meio de suas organizaes e em funo das contradies

    produzidas no seio da prpria sociedade capitalista, destruir as formas de

    poder instauradas e colocar o futuro em suas mos. No sem razo, desde a

    Revoluo Russa, a obra de Marx passou a ser, como nunca antes, debatida

    e divulgada, reivindicada e detratada, em todos os meios e em todos os

    espaos.

    Paradoxalmente, no entanto, se a Revoluo Russa era vista como a

    prova inconteste da efetividade do pensamento de Marx, por outro lado, era

    considerada, por muitos, a sua negao, seu ponto frgil. Afinal, sendo a

    Rssia um pas atrasado social, poltica e economicamente , o brao

    asitico da Europa, o reduto da reao europeia4, como poderia ser

    exatamente este pas, em que as condies sociais dadas estariam to pouco

    3 A crtica ao socialismo utpico, socialismo dos engenheiros do futuro, perpassa boa parte

    da obra de Marx. A ltima seo do Manifesto dedicada especificamente ao tema. A este

    respeito, ver Oliveira (1998).

    4 Em parte expressiva da obra de Marx existem referncias ao papel reacionrio exercido

    pela Rssia desde a Revoluo Francesa. Por exemplo, em 1848, na Nova Gazeta Renana,

    Marx escreveu que em qualquer lugar onde o absolutismo e a contrarrevoluo so ativos,

    encontramos, de fato, sempre alemes, mas em nenhum lugar mais do que no ponto central

    da contrarrevoluo permanente, a diplomacia russa (MARX, 2010, p. 365). Com relao

    a esse tema, Marx escreveu uma obra, praticamente ignorada pela totalidade dos

    intrpretes, destinada ao exame da diplomacia secreta no sculo XVIII, cujo centro o

    papel desempenhado pela Rssia e pelo tsarismo (MARX, 1979). Seu juzo sobre a Rssia

    era to severo que um importante bigrafo de Marx como David McLellan chega a afirmar

    que ele tinha um dio quase patolgico contra a Rssia (MCLELLAN, 1990, p. 308).

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    desenvolvidas em relao prpria forma social capitalista, o ponto de

    partida da revoluo socialista?

    Com efeito, foi exatamente desse modo que no poucos marxistas

    consideraram a questo. Por exemplo, o marxista italiano Antonio Gramsci,

    em dezembro de 1917, escreveu um artigo sobre a ento recente Revoluo

    Russa, denominado: A revoluo contra O capital. No haveria nada de

    estranho nesse ttulo, no fosse o fato de por O capital Gramsci se referir

    no forma de organizao social contraposta pela revoluo em curso, mas

    obra principal de Marx. A Revoluo de Outubro seria, assim, uma

    revoluo contra O capital de Marx, a negao de seu pensamento ou, ao

    menos, de algumas teses centrais ali defendidas.

    Dizia Gramsci literalmente que a Revoluo dos bolcheviques a

    revoluo contra O capital de Marx. O capital de Marx era, na Rssia, o livro

    dos burgueses, mais que dos proletrios. Ele continuava, de modo a no

    deixar dvidas quanto a sua interpretao: O capital era a demonstrao

    crtica da fatal necessidade de que na Rssia se formasse uma burguesia, se

    iniciasse uma era capitalista, se instaurasse uma civilizao de tipo

    ocidental. Somente ento o proletariado poderia pensar em sua desforra,

    em suas reivindicaes de classe, em sua revoluo. E conclua: Os fatos

    fizeram explodir os esquemas crticos dentro dos quais a histria da Rssia

    deveria se desenvolver segundo os cnones do materialismo histrico

    (GRAMSCI, 2004, p. 126).

    O que era desconhecido de Gramsci poca que uma indagao

    dessa natureza no era estranha ao prprio Marx. Nos ltimos anos de sua

    vida, Marx fora questionado diretamente sobre as consequncias de sua

    obra principal para o pas dos tsares. No apenas respondeu diretamente

    questo como desenvolveu, ao menos em esboo, algumas especificidades

    da sociedade russa. Antes, todavia, de melhor examinarmos tais escritos de

    Marx, cabe analisar a questo prvia de se em seu pensamento anterior,

    particularmente em O capital, poderamos encontrar respaldo para a tese

    que nega a possibilidade de uma revoluo socialista na Rssia.

    A Revoluo Russa a negao de O capital de Marx?

    muito provvel que um dos trechos centrais para justificar a

    presente tese se encontre no Prefcio primeira edio de O capital. Nesse

    Prefcio, aps sustentar a necessidade do emprego da abstrao para

    investigao dos fenmenos sociais, Marx esclarecia que o que pretendia

    nessa obra investigar o modo de produo capitalista e suas

    correspondentes relaes de produo e de circulao. Ora, como sua

    localizao clssica , at o momento, a Inglaterra, ela servia de ilustrao

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    principal da exposio terica. No entanto, tratava-se de uma edio alem,

    motivo pelo qual Marx advertia que se o leitor alemo virasse as costas

    situao da classe trabalhadora inglesa ele seria obrigado a gritar-lhe: A

    fbula refere-se a ti (MARX, 2013, p. 78).

    A reflexo acima esboada se agua no pargrafo seguinte, quando

    Marx, ao comentar sobre as leis imanentes do modo de produo capitalista,

    dizia das tendncias que atuam e se impem com frrea necessidade. Mais

    ainda. O pas industrialmente mais desenvolvido no faz mais do que

    mostrar ao menos desenvolvido a imagem de seu prprio futuro (MARX,

    2013, p. 78). O que importa aqui notar que, dessas passagens, extraiu-se a

    concluso de uma concepo etapista da histria: todos os pases deveriam

    percorrer as mesmas fases de desenvolvimento at que, por fim, estivesse

    colocada a possibilidade da superao do modo de produo capitalista, a

    passagem para uma etapa superior. Sendo a Inglaterra, naquele momento,

    o pas industrialmente mais desenvolvido, segue-se desse raciocnio que

    seria em terras britnicas a origem da revoluo socialista ou, ao menos, em

    outros pases mais desenvolvidos do Ocidente, como era o caso da Frana.

    De fato, no faltam passagens na obra de Marx que atestam a

    necessidade de uma revoluo na Inglaterra para o sucesso da revoluo

    proletria. Vejamos alguns exemplos. Na Nova Gazeta Renana, jornal

    editado por Marx em Colnia no curso das Revolues de 1848-49, podemos

    ler: "A Inglaterra domina o mercado mundial. Uma transformao das

    relaes econmico-nacionais em todos os pases do continente europeu, no

    continente europeu em seu conjunto sem a Inglaterra, uma tempestade

    num copo dgua. (MARX, 2010, p. 367) Na mesma direo, em 1850, na

    Nova Gazeta Renana Revista, em artigo includo por Engels na edio do

    livro As lutas de classes na Frana, vemos uma afirmao no mesmo

    sentido: as relaes de produo francesas so condicionadas pelo

    comrcio exterior da Frana, por sua posio no mercado mundial e pelos

    seus limites; como poderia a Frana romp-los sem uma guerra

    revolucionria que atingisse o dspota do mercado mundial, a Inglaterra?

    (MARX, 2012, pp. 46-7).

    Mesmo aps a primeira edio de O capital, podemos encontrar sem

    maiores dificuldades passagens nesse mesmo sentido. Por exemplo, em seus

    escritos sobre a Irlanda, datados de fins de 1869 a 1870, Marx explicava que,

    pela sua posio na sociedade capitalista de ento, a classe trabalhadora

    inglesa constitui desde j o peso mais decisivo para inclinar a balana da

    emancipao social em geral (MARX; ENGELS, 1979, p. 189). A

    Inglaterra, como metrpole do capital, como potncia que domina at

    agora o mercado mundial, no momento o pas mais importante para a

    revoluo operria. Alm disso, era o nico pas em que as condies

    materiais para esta revoluo se desenvolveram at alcanar um certo grau

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    de maturidade (MARX; ENGELS, 1979, p. 214). Muitos trechos anlogos

    poderiam ser citados.

    No fosse o bastante, vrios autores, como veremos adiante (com o

    caso da primeira gerao de marxistas russos), encontram outro momento

    da obra de Marx para corroborar a tese de que, para ele, uma revoluo

    proletria apenas poderia ser levada a cabo na Inglaterra. Trata-se do

    clebre Captulo XXIV de O capital, aquele a respeito da acumulao

    originria. Nesse captulo, Marx explicava a gnese histrica do capital, se

    no exclusivamente na Inglaterra, ao menos nos principais pases do

    Ocidente europeu. Para tal, demonstrava como foi necessrio, para que o

    capital viesse luz, um longo processo histrico em que os produtores

    diretos foram violentamente expropriados de seus meios de produo e as

    instituies feudais, que garantiam minimamente sua sobrevivncia,

    dissolvidas. Em uma passagem particularmente interessante para o

    problema aqui em anlise, presente na primeira edio francesa, portanto

    em uma edio posterior alem, podemos ler: Essa expropriao s se

    realizou de maneira radical na Inglaterra: por isso, esse pas desempenhar

    o papel principal em nosso esboo. Mas todos os outros pases da Europa

    ocidental percorreram o mesmo caminho. (MARX, 2013, p. 788)

    Diante desse quadro, a concluso parece ser a de que somente aps

    esse longo percurso, que vai da dissoluo das relaes sociais feudais ao

    desenvolvimento pleno das relaes sociais capitalistas, poder-se-ia pensar

    em uma revoluo proletria, na expropriao dos expropriadores, tal como

    ousaram fazer, paradoxalmente, ou para alguns, precipitadamente, o

    proletariado russo sob direo do Partido Bolchevique. A emancipao do

    proletariado teria como pressuposto um certo grau de maturao das

    condies sociais a que, quela altura, apenas a Inglaterra atenderia.

    Se , no entanto, absolutamente inquestionvel o juzo de Marx de

    que, ao menos para a situao econmico-mundial da poca, uma revoluo

    inglesa era uma condio necessria para o sucesso da revoluo socialista

    e da emancipao do proletariado, podemos nos perguntar em que medida

    os trechos acima citados, e qualquer outro, autorizam-nos a inferir que um

    processo revolucionrio deva necessariamente se iniciar pelo seu polo mais

    desenvolvido ou, ainda, o que mais grave, que todos os pases devam seguir

    o mesmo curso deste. Mesmo a passagem j citada de que o pas

    industrialmente mais desenvolvido no faz mais do que mostrar ao menos

    desenvolvido a imagem de seu prprio futuro no permite de modo algum

    inferir que este pas mais atrasado deva seguir o mesmo caminho e passar

    pelas mesmas fases de sucesso que o pas mais desenvolvido.

    E realmente! A hiptese de que a revoluo socialista deva

    necessariamente comear pela Inglaterra ou, ainda, aquela outra tese a

    esta correlata: a de que todos os pases devam passar pelas mesmas etapas

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    sociais de desenvolvimento comeam a perder toda sua aparente solidez

    to logo examinemos mais de perto o texto de Marx, no lugar da colagem

    arbitrria de um sem-nmero de trechos isolados.

    Em uma leitura atenta do captulo sobre a acumulao originria,

    logo se percebe que, longe de criar qualquer universalizao para l da

    histria, de impingir um carter de necessidade ao processo histrico, o

    desenvolvimento de cada localidade era preservado em sua originalidade

    incontornvel. Mesmo a passagem acima citada, em que se dizia que todos

    os outros pases da Europa ocidental percorreram ou esto a percorrer o

    mesmo caminho [o da acumulao originria], prosseguia com o seguinte

    complemento: ainda que, segundo o meio, ele mude de colorao local, ou

    se restrinja a um crculo mais estreito, ou apresente um carter menos

    pronunciado, ou siga uma ordem de sucesso diferente (MARX, 2013, p.

    788).

    Como se nota, a passagem se refere to somente aos pases da Europa

    ocidental que, de uma maneira ou de outra, j percorreram ou esto a

    percorrer o caminho que conduz ao modo de produo capitalista. Mesmo

    nesse caso, Marx esclarecia que, segundo o pas considerado, este processo

    se apresentava com distintas tonalidades, amplitude e, ainda, com ordens

    de sucesso diversas. Se isto era assim nas situaes j consumadas de

    pases da Europa ocidental, o que dizer daqueles que procuram uma teoria

    das etapas necessrias inescapveis para toda e qualquer localidade,

    independentemente das particularidades internas de seu

    desenvolvimento?5

    Ora, realmente, tal teoria no poderia encontrar, e no encontra,

    qualquer respaldo nos textos de Marx. Diferentemente da teodiceia

    hegeliana, em O capital no existe qualquer Absoluto que impulsione a

    humanidade rumo ao capitalismo. Se possvel dizer que a Inglaterra

    mostra aos demais pases a imagem de seu prprio futuro, pelo fato de o

    capital, uma vez originado local e historicamente, pela sua dinmica e

    potncia internas, ter a tendncia de estender os seus tentculos a todas as

    formas sociais a ele concomitantemente existentes. No entanto, se esta

    tendncia interna do capital sempre permanece, nada se pode dizer, a

    5 A teoria das etapas necessrias pelas quais passaria toda e qualquer nao foi cristalizada

    na III Internacional a partir do ensaio atribudo a Stlin: Materialismo dialtico e

    materialismo histrico (STLIN, 1982). Entre ns, essa viso foi mais amplamente

    difundida por Nelson Werneck Sodr. Por exemplo, j ao final de sua vida, em uma

    conferncia sobre a teoria da histria no Brasil, ele diz: O feudalismo representa avano

    em relao ao escravismo, e por isso vem depois, no tempo (...). Acontece, no Brasil (...). Ao

    mesmo tempo, as relaes escravistas passam, sem intermediaes atenuadoras como

    aconteceu no modelo clssico a relaes de novo tipo, que denominamos feudais.

    (SODR, 1980, pp. 141-2)

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    priori, a respeito de quando, por que meios ou etapas tal tendncia poderia

    se efetivar. Nem mesmo se ir se efetivar.

    Mais ainda. A mera origem histrica, em uma dada localidade, de

    indivduos expropriados em face de outros com o controle dos meios de

    produo no assegura por si s o desenvolvimento do capital. Marx pde

    escrever esse captulo no por uma necessidade inscrita no interior do

    processo histrico ingls, ou no interior da histria ocidental, mas porque,

    no sculo XIX, o capital j se encontrava plenamente desenvolvido nesse

    pas, permitindo buscar no passado a sua origem. Nos Grundrisse, j dizia

    Marx que, enquanto o capital fraco, ele prprio procura ainda apoiar-se

    nas muletas dos modos de produo do passado ou que esto

    desaparecendo com o seu surgimento. To logo ele se sente forte, joga as

    muletas fora e se movimenta de acordo com as suas prprias leis (MARX,

    2011, p. 546). O capital de muletas ainda no se movimenta de acordo com

    suas prprias leis e, no sem razo, nos momentos em que a antiga

    sociedade se encontra em decadncia, a intencionalidade dos indivduos, a

    maior ou menor audcia dos personagens e sujeitos sociais em luta, assim

    como acidentes histricos de todo tipo, jogam, sem qualquer dvida, um

    importante papel.

    Tanto assim que, em nota, acrescentava-se: a Itlia, onde a

    produo capitalista se desenvolveu mais cedo, foi tambm o primeiro pas

    a manifestar a dissoluo das relaes de servido. (...) Assim, sua

    emancipao o transforma imediatamente num proletrio absolutamente

    livre, que, no entanto, j encontrava seus novos senhores nas cidades, em

    sua maior parte originrios da poca romana. Por que ento no foi a Itlia

    a ptria originria do capital? Ora, apesar desse percurso inicial, quando no

    sculo XV se deu cabo da supremacia comercial do Norte da Itlia em funo

    de uma revoluo no mercado mundial, surgiu um movimento em sentido

    contrrio. Os trabalhadores urbanos foram massivamente expulsos para o

    campo e l deram um impulso indito pequena agricultura, exercida sob a

    forma da horticultura (MARX, 2013, p. 788). Sem dvida, inmeros outros

    casos poderiam ser mencionados nessa mesma direo.

    Como se v, no se encontra em O capital qualquer respaldo para a

    tese etapista e unilinear da histria. Mesmo assim, tal tese j se insinuava

    entre certos grupos de marxistas russos nos fins dos anos 1870,

    particularmente em um grupo de russos exilados em Genebra, onde se

    encontravam, dentre outros, Plekhnov e Axelrod. No h de se

    surpreender, ento, que o prprio Marx demonstrasse um certo espanto

    ante tais interpretaes e contra elas tenha se manifestado, sem deixar

    margem para qualquer ambiguidade.

    Referimo-nos carta enviada por Marx redao do jornal russo

    Notas Patriticas, na qual contestava o socilogo Nicolai Michailovski. Este

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    Gustavo Machado

    escrevera um artigo para este mesmo jornal com o intuito de responder s

    acusaes do economista liberal Juli Jukovski. Ocorre que nesse artigo

    Michailovski sustentava exatamente a tese de que a Rssia deveria percorrer

    as mesmas etapas de desenvolvimento que os demais pases da Europa

    ocidental. Em sua resposta, Marx disse que Michailovski metamorfoseou

    completamente seu esquema histrico da gnese do capitalismo na Europa

    ocidental em uma teoria histrico-filosfica do curso geral fatalmente

    imposto a todos os povos, independentemente das circunstncias histricas

    nas quais eles se encontrem (MARX; ENGELS, 2013, p. 68). A essa

    interpretao, que a posteridade transformar em lugar-comum, Marx

    respondia: Porm, peo-lhe desculpas. (Sinto-me to honrado quanto

    ofendido com isso.) Tomemos um exemplo. Em diferentes

    pontos de O capital fiz aluso ao destino que tiveram os plebeus

    da antiga Roma. Eles eram originalmente camponeses livres que

    cultivavam, cada qual pela prpria conta, suas referidas parcelas.

    No decurso da histria romana, acabaram expropriados (...).

    Assim sendo, numa bela manh (eis a), de um lado homens

    livres, desprovidos de tudo menos de sua fora de trabalho, e de

    outro, para explorar o trabalho daqueles, os detentores de todas

    riquezas adquiridas. O que aconteceu? Os proletrios romanos

    no se converteram em trabalhadores assalariados, mas numa

    turba desocupada, ainda mais abjetos do que os assim chamados

    brancos pobres dos estados sulistas dos Estados Unidos, e ao

    lado deles se desenvolve um modo de produo que no

    capitalista, mas escravagista. (MARX; ENGELS, 2013, pp. 68-9)

    Continuava ele: acontecimentos de uma analogia que salta aos

    olhos, mas que se passam em ambientes histricos diferentes, levando a

    resultados totalmente dspares. E conclua, de modo a no deixar margem

    para dvidas sobre a impossibilidade de uma teoria histrica universal

    perpassada por um elemento de necessidade: Quando se estuda cada uma

    dessas evolues parte, comparando-as em seguida, pode-se encontrar

    facilmente a chave desse fenmeno. Contudo, jamais se chegar a isso tendo

    como chave-mestra uma teoria histrico-filosfica, cuja virtude suprema

    consiste em ser supra-histrica. (MARX; ENGELS, 2013, p. 69) O trecho

    no poderia ser mais contundente e direto em relao ao problema aqui em

    anlise. A chave dos fenmenos pode ser encontrada quando se estuda cada

    uma dessas evolues parte, comparando-as em seguida, jamais por meio

    de uma teoria histrico-filosfica, jamais por meio de uma teoria supra-

    histrica que pretenda informar, de antemo, o curso do processo

    histrico.

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    Gustavo Machado

    Ora, se alguns autores, mesmo nos dias de hoje, como o caso de

    Michael Lwy6, sustentam existir em Marx, ao menos em certos momentos

    de sua trajetria, uma teoria etapista ou unilinear da histria, no

    encontramos qualquer apoio em seus textos, sobretudo em O capital. Na

    verdade, desde muito cedo Marx rechaou sem ambiguidades qualquer

    teoria histrico-universal. Por exemplo, em texto direcionado ao

    economista alemo Friedrich List, datado de 1845, ainda que em uma

    linguagem mais abstrata, podemos ler: Sustentar que cada povo passa por este tipo de desenvolvimento

    seria uma viso to absurda como pensar que cada povo teria de

    seguir o desenvolvimento poltico da Frana ou o

    desenvolvimento filosfico da Alemanha. O que as naes

    fizeram enquanto naes, fizeram-no para a sociedade humana;

    todo o seu valor reside somente em que cada (nao) concretizou

    para as outras uma determinao principal (um ponto de vista

    principal) dentro das determinaes segundo as quais a

    humanidade leva a cabo o seu desenvolvimento. (MARX;

    ENGELS, 2013, pp. 68-9)

    Em suma, se verdade que Marx sustentou que, para o sucesso da

    revoluo proletria, seria necessria uma revoluo em seu elo mais

    desenvolvido, j que o socialismo pressupe o desenvolvimento superior

    das foras produtivas sociais promovido pelo trabalho assalariado (MARX,

    2011, p. 111); se igualmente correto que procurou demonstrar a tendncia

    interna do capital e no uma tendncia externa posta pela (H)istria

    concebida metafisicamente de se expandir por todo o Globo, dissolvendo

    as formas sociais pretritas; jamais procurou deduzir filosoficamente o

    desenvolvimento histrico e as etapas necessrias pelas quais deveria passar

    toda e qualquer nao; jamais afirmou que a revoluo proletria

    principiaria necessariamente pela Inglaterra ou qualquer outro pas.

    Tampouco possvel deduzir de seus escritos a impossibilidade de sua

    realizao, de incio, em um pas atrasado. No possvel extrair concluso

    alguma sobre uma situao particular sem que antes se tenha estudado

    cada uma dessas evolues parte, comparando-as em seguida. Somente

    uma leitura muito superficial de O capital, como parece ser a de Gramsci,

    ao menos no perodo do artigo referido no comeo do presente texto, pde

    6 Na apresentao da coletnea que tomamos como base neste artigo, mas tambm

    em outros textos anteriores, Michael Lwy sustenta que os escritos de Marx sobre a Rssia

    marcam uma ruptura profunda com qualquer interpretao unilinear, evolucionista,

    etapista e eurocntrica do materialismo histrico (LWY in MARX; ENGELS, 2013, p.

    9). A tese , no mnimo, curiosa, particularmente por tomar como ponto de demarcao

    exatamente a carta de 1877 citada acima, em que Marx nega que O capital oferea uma base

    minimamente consistente para qualquer teoria unilinear da histria.

    255

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    Gustavo Machado

    concluir que a Revoluo Russa teria sido uma revoluo contra O capital

    de Marx.

    Se, no entanto, a Rssia no estava destinada a passar,

    necessariamente, pelas mesmas etapas que a Inglaterra, que outras

    possibilidades existiriam? justamente no intento de investigar outra

    possibilidade no desenvolvimento histrico russo que se inserem os escritos

    de Marx originalmente destinados a Vera Zasulitch. o que iremos analisar

    no prximo item do presente artigo.

    Os ltimos escritos de Marx sobre a Rssia

    Antes de adentramos em nosso ltimo tema, os esboos que Marx

    escreveu em resposta carta de Vera Zasulitch, essencial situar o contexto

    desses escritos. A carta enviada pela revolucionria russa a Marx, datada de

    16 de fevereiro de 1881, insere-se no marco das polmicas entre os

    narodniki e um grupo de pretensos marxistas russos. Cabe, aqui, uma

    pequena nota histrica a este respeito, sem a qual a compreenso desses

    escritos fica prejudicada.

    At cerca de 1890, portanto, aps a morte de Marx, predominou no

    movimento revolucionrio russo um ramo, por assim dizer, agrrio do

    socialismo, conhecido como narodnik ou populista7. Seus adeptos

    acreditavam que a Rssia evitaria os males da indstria moderna, de tipo

    ocidental, ao alcanar uma ordem socialista genuinamente russa, fundada

    no primitivo ncleo de explorao comum da terra que ainda existia no pas.

    Para eles, era suficiente abolir a servido e a autocracia para fazer emergir,

    espontaneamente, a liberdade social e espiritual imanente a esses ncleos.

    Tratava-se de um movimento com tintura eslavfila, contraposto

    propagao da influncia europeia em seu pas. O certo que,

    independentemente dos diferentes matizes entre as abordagens do

    problema pelos prprios narodniki, eles tinham em comum o fato de

    fundamentar um programa de transformao socialista no pas em suas

    peculiaridades histricas, colocando em segundo plano as determinaes

    universais que configuram o capital e constituem o fundamento do

    programa de transformao social fomentado desde Marx.

    7 Importante ressaltar que por socialismo agrrio no nos remetemos, neste caso, a uma

    concepo conservadora do socialismo bastante difundida na primeira metade do sculo

    XIX, cujo objetivo seria, em contraposio aos males da indstria urbana, retornar a um

    passado rural embasado na pequena propriedade. Sobre esta vertente do socialismo, ver

    Droz (1972). No presente caso, no se trata nem da propriedade individual, j que a

    comuna agrcola russa, como veremos, era uma forma de propriedade coletiva, tampouco

    de um retorno ao passado, j que os narodniki se assentavam em uma relao de produo

    ainda existente como base para construo de uma sociedade futura.

    256

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    Gustavo Machado

    Ocorre que, no interior do movimento narodnik, emergiu uma

    tendncia diversa, em alguma medida influenciada pela edio russa de O

    capital de Marx. Com Plekhnov cabea, este novo movimento previu a

    iminente disseminao da indstria tipicamente capitalista na Rssia,

    destruindo sua estrutura patriarcal e as primitivas comunas rurais em que

    os narodniki queriam fundar seu socialismo. Da a tese de que apenas em

    um futuro indeterminado, quando o modo de produo capitalista houvesse

    se apoderado da Rssia em extenso e profundidade, poder-se-ia falar em

    uma revoluo socialista nesse pas.

    nesse contexto que Vera Zasulitch, originalmente pertencente aos

    narodniki mas que integrara a organizao marxista russa Emancipao do

    Trabalho em 1883, escreveu a Marx que apenas duas solues seriam

    possveis para o futuro do movimento socialista em seu pas, indagando a

    qual delas Marx daria seu aval. Em uma primeira situao, a comuna rural,

    liberada das exigncias desmesuradas do fisco, dos pagamentos aos donos

    das terras e da administrao arbitrria, capaz de se desenvolver pela via

    socialista. Ou, ento, se, ao contrrio, a comuna est destinada a perecer,

    resta ao socialista descobrir em quantas dezenas de anos a terra do

    campons russo passar de suas mos para as da burguesia, em quantas

    centenas de anos, talvez, o capitalismo atingir na Rssia um

    desenvolvimento comparvel ao da Europa ocidental (ZASULITCH in

    MARX; ENGELS, 2013, pp. 68-9).

    Eis o contexto em que se inserem os ltimos escritos de Marx sobre a

    Rssia. Eles tm em vista to somente responder s seguintes perguntas:

    qual o futuro da comuna agrcola russa? Est destinada a perecer? Ou, ao

    contrrio, est destinada a cumprir um papel de importncia maior no

    futuro? Em resposta a essa correspondncia, Marx escreveu quatro esboos,

    mas, ao final, apenas uma breve carta foi enviada. O que essencial ter em

    vista no presente caso, porm, que todo esse material no visa a analisar a

    situao russa em seu conjunto, como fizera Marx, por exemplo, em artigos

    sobre ndia, China e Irlanda escritos nos decnios anteriores. No existe

    nesses esboos, por exemplo, qualquer anlise sobre o papel histrico e a

    situao atual do tsarismo, sobre o desenvolvimento do proletariado russo

    nascente, sobre a relao entre este vasto Imprio eslavo e os demais pases

    do Ocidente ao Oriente. Equivoca-se, portanto, quem procura encontrar

    nesses esboos uma elaborao de conjunto sobre as possibilidades de uma

    revoluo futura na Rssia. Apenas um aspecto deste complexo problema

    tratado: o papel a ser desempenhado pela comuna agrcola russa no

    prximo perodo histrico, particularmente no caso de uma revoluo social

    no pas. No poderia ser de outro modo, afinal, nesses esboos e na carta

    definitiva enviada a Vera Zasulitch, Marx se dedicava unicamente a

    responder pergunta por ela colocada. Isso quer dizer, insistimos, que todo

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    o seu contedo no tem em vista responder questo da revoluo russa em

    termos globais, mas ao problema do papel a ser desempenhado pela comuna

    agrcola na revoluo russa.

    Nessa perspectiva, os esboos se vinculam ao problema j tratado no

    item anterior. Marx partia da negao de que O capital fornecesse a base

    para uma teoria histrico-filosfica do devir de todo e qualquer pas. Nesse

    sentido, escreveu que a anlise apresentada nO capital no oferece razes

    nem a favor nem contra a vitalidade da comuna rural (MARX; ENGELS,

    2013, p. 115). Em vez de recorrer a qualquer teorizao universal, Marx

    revelava ter feito um estudo especial (...) dessa questo, para o qual

    buscou os materiais em suas fontes originais (MARX; ENGELS, 2013, p.

    115). Era necessrio, assim, para responder ao impasse colocado por

    Zasulitch, examinar os traos especficos da comuna rural russa. Antes,

    porm, cabem alguns comentrios sobre os escritos anteriores de Marx,

    quando o tema das comunidades embasadas na apropriao coletiva do solo

    j havia sido tratado.

    Em fins dos anos de 1850, Marx dedicara grande espao ao estudo

    dessas comunidades comunistas primitivas. Em seu livro Contribuio

    crtica da economia poltica, explicava que o trabalho comunitrio em sua

    forma originria se encontra no limiar da histria de todos os povos

    civilizados (MARX, 1971, p. 41) e em nota especificava que um preconceito ridculo, muito generalizado ultimamente,

    acreditar que a propriedade coletiva primitiva uma forma

    especificamente eslava, ou exclusivamente russa. a forma

    primitiva, de que se pode detectar a presena nos romanos,

    germanos e celtas, mas de que se encontra ainda na ndia todo

    um mostrurio dos vrios modelos, embora em parte no estado

    de vestgios (MARX, 1971, p. 67).

    Como podemos perceber, tais comunidades so a forma originria

    por meio da qual os homens se apropriaram da natureza. Ainda que

    marcadas por inumerveis variaes internas, pelo domnio das

    determinaes particulares da natureza e da comunidade em face da

    universalidade, foi na forma da apropriao coletiva da terra que, por todos

    os lados, a espcie humana levou a cabo originariamente sua existncia.

    Com mais detalhes, tais comunidades so analisadas em trecho dos

    Grundrisse editado com o ttulo: Formas que precedem a produo

    capitalista ou simplesmente Formen (MARX, 2011, pp. 397-424). Nesse

    texto, Marx explicava que o trao distintivo dessas comunidades a

    ausncia de propriedade privada da terra, ou, ainda, a ausncia de mediao

    nas relaes entre homem-comunidade-natureza. Ao se vincular

    diretamente sua respectiva comunidade e, enquanto membro desta,

    terra, o homem se encontra diante de uma dupla unidade imediata: de um

    258

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    lado, homem-natureza, de outro, homem-comunidade, pois cada frao de

    propriedade no pertence a nenhum membro por si mesmo, mas [apenas]

    como membro imediato da comunidade (MARX, 2011, p. 393). A ausncia

    de mediaes faz ntidas e transparentes as relaes sociais, j que elas se

    mostram como efetivamente so em sua totalidade. No entanto, de outra

    parte, a capacidade limitada de domnio do homem sobre as condies

    naturais coloca obstculos e limites externos de todos os tipos.

    Um limite particularmente importante dessas comunidades

    originrias, tendo em vista o seu desenvolvimento, que, enquanto membro

    em unidade direta com o agrupamento comunal, o indivduo no se

    diferencia dele, relacionando-se com ele como se estivesse preso por um

    cordo umbilical. Por isso, pouco espao existe aqui para o desenvolvimento

    de sua individualidade. Os indivduos so componentes puramente naturais

    ou meros acidentes de uma entidade comunitria substancial e,

    diversamente de outras formas sociais que se seguiram, no existe a livre

    iniciativa que alarga as possibilidades de um desenvolvimento original de

    um membro ante os demais, destacando-os do anonimato comum. Em

    suma, nesse estgio originrio, o ser do indivduo o ser da comunidade e o

    indivduo enquanto tal algo indeterminado.

    Todas as reflexes sobre essas comunidades originrias, existentes

    nos Grundrisse, no entanto, tm em mira sempre o modo de produo

    capitalista, principalmente porque o sistema da produo fundado na troca

    privada, isto , o capitalismo, , em primeiro lugar, a dissoluo histrica

    desse comunismo desenvolvido natural e espontaneamente (MARX, 2011,

    p. 757). O segredo histrico do modo de produo capitalista corresponde,

    assim, ao segredo da dissoluo das comunidades primitivas e por esse

    motivo que Marx dedicou a maior parte das Formen anlise desta forma

    social em contraposio ao capital. nesse mesmo sentido que se insere o

    captulo de O capital destinado a decodificar a acumulao originria. Tal

    como nas Formen, o que est em questo nesse captulo compreender a

    origem do capital, ao pressupor a completa dissociao entre os produtores

    e seus meios de produo. Da mesma maneira que nas Formen no

    preocupava a Marx estudar nenhuma forma de organizao social do

    passado em si mesma, a questo do captulo da acumulao originria no

    o estudo das particularidades da nao inglesa.

    Nesse sentido, no est em questo, nos Grundrisse, analisar

    nenhuma dessas comunidades assentadas na propriedade coletiva da terra

    em suas respectivas particularidades, tal como se faz em uma anlise

    historiogrfica ou antropolgica no sentido usual desses termos, mas tom-

    las em seu conjunto tendo em vista estudar as especificidades do modo de

    produo capitalista. Este aspecto explicitado pelo prprio Marx:

    259

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    O que necessita de explicao, ou resultado de um processo

    histrico, no a unidade do ser humano vivo e ativo com as

    condies naturais, inorgnicas, do seu metabolismo com a

    natureza e, em consequncia, a sua apropriao da natureza, mas

    a separao entre essas condies inorgnicas da existncia

    humana e essa existncia ativa, uma separao que s est posta

    por completo na relao entre trabalho assalariado e capital.

    (MARX, 2011, p. 398)

    Ocorre que, nos esboos da carta a ser enviada a Zasulitch, o que est

    em questo exatamente o exame das particularidades da comuna rural

    russa, as razes de sua to longa sobrevida, mas, principalmente, as

    possibilidades que ela encerrava tendo em vista o futuro. Como se nota,

    um grave equvoco metodolgico procurar por rupturas nesses dois

    momentos dos escritos de Marx, j que ambos tm em mira aspectos

    diametralmente opostos no exame dessas formas sociais. Em um caso, o

    enfoque o que h em comum entre as inmeras comunidades originrias

    tendo em vista buscar a especificidade do capital, em outro, o cerne o que

    distinguia a comuna agrcola russa em uma situao de coexistncia com o

    modo de produo capitalista. Esclarecido este aspecto, podemos retomar

    os esboos.

    De incio, Marx admitiu que, em uma perspectiva histrica, apenas

    existe um argumento srio a favor da dissoluo da comuna rural russa: o

    fato de ela ter existido, de algum modo, em toda parte na Europa ocidental

    e, no entanto, todas estas formas de produo comunal terem sucumbido

    totalmente com o progresso social (MARX; ENGELS, 2013, p. 89). Mas,

    j aqui emergia uma primeira particularidade de importncia decisiva para

    a comuna agrcola russa: era graas contemporaneidade da produo

    capitalista que ela pode se apropriar de todas as conquistas positivas e isto

    sem passar por suas vicissitudes desagradveis. Afinal, a Rssia no vive

    isolada do mundo moderno, tampouco foi vtima de algum conquistador

    estrangeiro, como o foram as ndias orientais (MARX; ENGELS, 2013, pp.

    89-90).

    Ora, claro est que a concomitncia da propriedade coletiva russa

    com o moderno modo de produo burgus colocava possibilidades e

    cenrios radicalmente novos. No poderia ser de outro modo, afinal, o

    capital se caracteriza exatamente por entrecruzar o destino de todos os

    povos e naes, por entrelaar, por meio do mercado mundial, o conjunto

    dos pases em uma s rede, em uma s unidade. Nada mais absurdo, nesse

    contexto, do que conceber o devir dos mais diversos pases como uma srie

    de desenvolvimentos contnuos, isolados e justapostos estaticamente um

    em relao ao outro. Alm disso, o fato de no ser uma nao conquistada,

    como era o caso da ndia (sob dominao direta da Inglaterra), impedia que

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    as formas tradicionais de propriedade fossem arbitrariamente dissolvidas

    pela interveno poltica direta, externa e consciente de um conquistador.

    No , porm, somente isso. A vitalidade da comuna rural russa,

    sua existncia, mesmo nos umbrais do sculo XX, apontava para

    especificidades em relao s demais formas de propriedade do mesmo tipo

    que um dia existiram na Europa e em outros locais do mundo. A primeira

    delas, tratada com mais detalhes por Marx nos esboos, dizia respeito ao

    fato de que, diferentemente de outras formas de propriedade comunal, a

    comuna agrcola russa se desenvolveu de modo a permitir um

    desenvolvimento mais alargado do indivduo.

    Para esclarecer esse aspecto, Marx indicou certos traos

    caractersticos que distinguiam a comuna agrcola [ou seja, a comuna

    rural russa] dos tipos mais arcaicos. Com esse objetivo, listou uma srie

    de caractersticas tpicas dessas comunidades originrias que existiram

    anteriormente comuna agrcola russa. Em primeiro lugar, esto todas

    baseadas no parentesco natural de seus membros, sendo uma de suas bases

    materiais a casa comum. Motivo pelo qual a produo feita em comum

    e apenas se reparte o produto. Nesse contexto, como j assinalamos, o

    indivduo aparecia como mera encarnao de sua comunidade, sendo

    particular unicamente a apropriao dos produtos destinados ao consumo

    imediato. Ora, estando as determinaes individuais to reduzidas nessa

    forma de sociedade, resta concluir que este tipo primitivo de produo

    cooperativa ou coletiva foi, que fique claro, o resultado da fraqueza do

    indivduo isolado e no da socializao dos meios de produo (MARX;

    ENGELS, 2013, p. 92).

    Em caminho diverso, a comuna agrcola russa rompia com o rgido

    vnculo natural de parentesco, tornando-o mais capaz de expandir-se e de

    suportar o contato com estrangeiros. A casa e seu complemento (o ptio)

    j so propriedade privada do agricultor (MARX; ENGELS, 2013, p. 92).

    Este aspecto foi desenvolvido de forma mais detida no terceiro esboo,

    explicitando que a comuna agrcola foi o primeiro agrupamento social de

    homens livres, no estreitado por laos de sangue (MARX; ENGELS, 2013,

    p. 109). Some-se a isso o fato de que, em funo da existncia de uma casa

    particular, o usufruto individual combinado com a propriedade comum

    (MARX; ENGELS, 2013, p. 110). Mas a especificidade mais importante ,

    sem dvida, a seguinte: no obstante a terra arvel continuar como propriedade

    comunal, ela passa a ser periodicamente dividida entre os

    membros da comuna agrcola, de sorte que cada agricultor

    explora por conta prpria os campos que lhe foram designados,

    apropriando- se individualmente dos frutos (MARX; ENGELS, 2013, p. 92).

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    Como se v, a casa privada, a cultura parceleira da terra arvel e a

    apropriao privada dos frutos admitiam um desenvolvimento da

    individualidade, incompatvel com as condies das comunidades mais

    primitivas (MARX; ENGELS, 2013, p. 92). Agora, o indivduo que

    trabalhava dispunha da possibilidade de desenvolver atividades de sua livre

    iniciativa, colhendo os frutos de seu esforo individual sem, com isso,

    desgarrar-se de sua respectiva entidade comunitria e de todas as garantias

    que este vnculo pode lhe propiciar. Eis o segredo da maior vitalidade da

    comuna russa, bem como os motivos que lhe permitiam ser combinada com

    os progressos tcnicos da moderna indstria capitalista.

    Se tais especificidades, em certa medida, explicam os motivos da

    vitalidade da comuna agrcola, de modo algum eliminam, no entanto, suas

    contradies. A comear por suas contradies internas, as quais Marx

    denominava de um dualismo inerente comuna agrcola passvel de,

    com o tempo, tornar-se uma fonte de decomposio (MARX; ENGELS,

    2013, p. 93). Esse dualismo imanente consistia mais ou menos no seguinte:

    se, por um lado, essa configurao especfica possibilitava um maior

    desenvolvimento do indivduo, de onde advinha seu vigor, por outro,

    possibilitava tambm a gradual acumulao de um patrimnio mobilirio,

    abalando a igualdade econmica e social, terminando por trazer luz, no

    seio da prpria comuna, um conflito de interesses que acarreta

    primeiramente a converso da terra arvel em propriedade privada e, em

    seguida, a apropriao privada das florestas, pastagens e terras ociosas etc.,

    as quais j haviam se convertido em anexos comunais da propriedade

    privada (MARX; ENGELS, 2013, p. 93). Como se nota, essas mesmas

    particularidades que permitiam, de algum modo ainda no totalmente

    esclarecido, o desenvolvimento da comuna agrcola para uma forma de

    organizao social superior sem que, com isso, fosse necessrio passar pelo

    longo purgatrio da propriedade privada eram responsveis,

    simultaneamente, por engendrar tendncias internas no sentido de sua

    dissoluo, no sentido de fazer prevalecer a propriedade privada sobre a

    propriedade coletiva.

    Para alm dessa contradio interna, existia ainda outro limite que,

    nos dizeres de Marx, constitua sua maior fragilidade: Trata-se de seu isolamento, a falta de ligao entre a vida de uma

    comuna e a das demais, esse microcosmo localizado que no se

    encontra mais em parte alguma como caracterstica imanente

    desse tipo, mas que, onde se encontra, fez surgir um despotismo

    mais ou menos central, que paira sobre as comunas. (MARX; ENGELS, 2013, p. 95)

    Disso se segue que o desenvolvimento da comuna agrcola devesse

    seguir o curso predeterminado de sua dissoluo? Segundo Marx, no

    262

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    Gustavo Machado

    necessariamente. A seguinte disjuntiva se impe: ou o elemento da

    propriedade privada implicado nela prevalecer sobre o elemento coletivo

    ou este ltimo prevalecer sobre o primeiro (MARX; ENGELS, 2013, p. 93).

    Se a primeira alternativa poderia se realizar pelo mero desdobrar das

    contradies internas da comuna, pelo contnuo desenvolvimento da

    propriedade privada nela j implicada, bem como pela interveno externa;

    para a realizao da segunda alternativa, ou seja, para a comuna tornar-se

    um ponto de partida direto do sistema econmico para o qual tende a

    sociedade moderna, isto , o socialismo, seria necessrio que ela trocasse

    de pele sem, com isso, suicidar-se. Ou seja, se apropriar dos frutos com que

    a produo capitalista enriqueceu a humanidade sem passar pelo regime

    capitalista (MARX; ENGELS, 2013, p. 96).

    Como se v, se verdade que Marx se afastou por completo da viso

    unilinear e determinista da histria, tal como sustentavam os marxistas

    russos, de outra parte, tambm se afastou da concepo eslavfila

    caracterstica do movimento narodnik, ao menos em sua faceta mais

    conhecida. Ao mesmo tempo em que reconhecia as contradies internas da

    comuna agrria, assinalava que nenhum futuro poderia ser conferido a essa

    comuna se, de algum modo, ela no se apropriar dos frutos com que a

    produo capitalista enriqueceu a humanidade. Somente assim, como

    insistia Marx nos sucessivos esboos e mesmo na verso definitiva enviada

    a Zasulitch, a comuna poderia se tornar a alavanca da regenerao social

    da Rssia (MARX; ENGELS, 2013, p. 115).

    Como, no entanto, essa possibilidade poderia ser efetivada? Como

    garantir a permanncia da comuna agrcola sob a base das conquistas

    materiais da poca capitalista? Ora, se tais escritos de Marx so

    fundamentais no esclarecimento das particularidades desta comuna

    agrcola, bem como na negao de que um devir inexorvel estava reservado

    Rssia, so decepcionantes do ponto de vista da resposta presente

    questo. Afinal, no se indicam, de forma determinada, por quais vias essa

    emancipao da comuna poderia se comungar com os frutos da produo

    capitalista. verdade que Marx tinha conscincia do algo grau de abstrao

    e indeterminao de sua elaborao tal como por ns exposta at aqui, tanto

    que dizia, em meados do primeiro esboo, ser preciso descer da teoria pura

    realidade russa (MARX; ENGELS, 2013, p. 96).

    Na sequncia, procurando descer realidade russa, Marx negava,

    com exemplos histricos, que os camponeses russos devessem passar pelo

    mesmo processo que a Inglaterra. Explicava ele que no seria necessrio

    expropri-los diretamente para expuls-los do campo, bastando priv-los

    do produto do seu trabalho agrcola para alm de uma determinada

    medida (MARX; ENGELS, 2013, p. 96). Descrevia, ento, os mecanismos

    fiscais e reformas efetivadas pelo estado russo que estavam a asfixiar cada

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    dia mais a comuna agrcola. E complementava: custa dos camponeses, o

    estado deu forte impulso aos ramos do sistema capitalista ocidental, no

    entanto, sem desenvolver de nenhum modo as capacidades produtivas da

    agricultura (MARX; ENGELS, 2013, p. 96). E dizia com todas as letras que

    para salvar a comuna russa preciso que haja uma revoluo russa. De

    resto, os detentores dos poderes polticos e sociais fazem o melhor que

    podem para preparar as massas para essa catstrofe (MARX; ENGELS,

    2013, p. 100). Ainda assim, uma vez mais, no era explicitado por que meios,

    sobre que base social e poltica essa revoluo poderia ler levada a cabo.

    verdade que, com relao ao isolamento das comunas agrcolas,

    Marx dizia ser um obstculo muito fcil de eliminar desde que a instncia

    governamental fosse substituda por uma assembleia de camponeses

    eleitos pelas prprias comunas e servindo de rgo econmico e

    administrativo dos seus interesses (MARX; ENGELS, 2013, p. 95). O que

    foi reafirmado de forma mais sucinta no segundo esboo. Dizia, ainda, que

    os agricultores, mas no exclusivamente a comuna agrcola, uma entre as

    vrias formas de propriedade fundiria na Rssia, eram a maior fora

    produtiva da Rssia (MARX; ENGELS, 2013, p. 95). No entanto, como

    conferir tal poder s comunas? Ou, o que mais importante, como destruir

    o estado russo com todas as medidas que, tal como exposto pelo prprio

    Marx, estavam a deteriorar cada vez mais essa forma de propriedade? No

    segundo esboo, justamente em seu ltimo pargrafo, esta questo era posta

    diretamente pelo prprio Marx. Ali ele dizia que, deixando de lado toda a

    questo mais ou menos terica, era um fato que a prpria existncia da

    comuna estava ameaada por todos os lados. E isso no era tudo. O

    interesse dos proprietrios de terras constituir os agricultores mais ou

    menos bem situados como classe mdia agrcola e transformar os

    camponeses pobres isto , a massa em simples assalariados. E

    terminava com a questo fundamental que acima aludimos: E como

    resistiria uma comuna moda pelas exaes do estado, pilhada pelo

    comrcio, explorada pelos proprietrios de terras, minada em seu interior

    pela usura? (MARX; ENGELS, 2013, p. 95). Ora, com essa indagao

    termina o segundo esboo, sem qualquer resposta questo posta.

    Mais ainda. Nos sucessivos esboos, era justamente esse trecho da

    elaborao que, descendo ao terreno mais concreto da realidade russa,

    procurava explicitar por que meios seria possvel uma revoluo russa de

    modo a permitir a regenerao da comuna agrcola sob as bases materiais

    herdadas pela sociedade capitalista que foi paulatinamente se esvanecendo

    at que, por fim, no quarto esboo e na carta definitiva a Zasulitch,

    desapareceu por completo. Se Marx abria, com toda certeza, a realidade

    russa para outras possibilidades que no fosse o lento penar no modo de

    produo capitalista, ele no conseguiu encontrar, ao menos no cho da

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    realidade russa de sua poca, uma elaborao mais determinada que

    permitisse vincular as particularidades russas de ento universalidade da

    revoluo socialista. No de se surpreender que, ao final, apenas uma curta

    carta tenha sido enviada a Zasulitch, sem que o cerne da questo pudesse

    ser satisfatoriamente esclarecido. Afinal, como dissemos e convm repetir,

    Marx no conseguira superar o aspecto terico-abstrato de sua elaborao,

    no conseguira descer da teoria pura realidade russa, vinculando suas

    particularidades a uma finalidade histrico-universal. Em suma, a anlise

    de Marx da questo em tela terminava de forma aportica.

    Sua concluso mais precisa, mas ainda indeterminada, j que

    permanece sem esclarecer em que consistiria uma eventual revoluo russa,

    aquela do Prefcio edio russa do Manifesto comunista, datado de

    1882, quando anunciava, em relao ao problema aqui tratado que a nica

    resposta possvel a seguinte: se a revoluo russa constituir-se no sinal para a revoluo

    proletria no Ocidente, de modo que uma complemente a outra,

    a atual propriedade comum da terra na Rssia poder servir de

    ponto de partida para uma evoluo comunista (MARX;

    ENGELS, 2013b, p. 95).

    Se os limites assinalados acima so oriundos de uma anlise ainda

    insuficiente de Marx ou, ento, so prprios sociedade russa nos ltimos

    decnios do sculo XIX esta uma questo que no pretendemos de modo

    algum responder neste espao.

    Consideraes finais

    Como podemos perceber, se verdade que Marx no chegou a uma

    concluso determinada sobre os caminhos possveis para uma revoluo

    socialista na Rssia de ento, esse fato apenas confirma que ele jamais

    elaborou um esquema geral da histria, uma teoria universal que capaz de

    indicar todos os caminhos de antemo. Mas isso no tudo. No exame das

    particularidades da comuna agrcola russa, de seus limites e

    potencialidades, de seu papel na sociedade russa em seu conjunto, no foi

    possvel extrair determinaes que permitissem vincular, objetivamente, as

    necessidades imediatas do campesinato russo s necessidades histricas do

    proletariado. Isto assim ainda que, abstratamente, tenha sido possvel

    afirmar que, se combinada a uma revoluo proletria no Ocidente, a

    comuna agrcola poderia servir de ponto de partida para uma evoluo

    comunista na Rssia.

    Fica patente, ento, que O capital de Marx, longe de indicar os

    caminhos e descaminhos de qualquer nao, nem sequer garantia, a priori,

    que um dado problema social pudesse encontrar nele sua soluo. O exame

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    das particularidades nacionais, luz de O capital e no contra ele, uma

    tarefa permanente e das mais complexas para qualquer marxista disposto a

    buscar os caminhos entre o especificamente nacional e a universalidade da

    revoluo socialista, entre as contradies especficas de uma dada nao e

    as contradies do modo de produo capitalista.

    Ora, apesar da importncia terica inquestionvel desses escritos de

    Marx sobre a comuna agrcola russa, hoje sabemos que ela no sobreviveu.

    Sua existncia, j bastante deteriorada poca de Marx, deu seus ltimos

    suspiros com as reformas de Stolypin sob o tsar Nicolau II. De qualquer

    modo, foi negando a tese unilinear da histria de Plekhnov e, ao mesmo

    tempo, centrando todos os esforos possveis na correta compreenso das

    particularidades nacionais russas, no entanto, sem autonomiz-las, como

    faziam os narodniki que os bolcheviques, em outro ambiente histrico,

    agora marcado por um potente proletariado urbano, conseguiram depor o

    tsarismo e conduzir os trabalhadores e camponeses, e suas organizaes, os

    sovietes, ao poder. Nesse sentido, enquanto realizao do projeto histrico

    encerrado em O capital a partir das especificidades que cada contexto

    sempre impe, a Revoluo Russa de 1917 pode ser considerada, como

    nenhuma outra revoluo do sculo XX, a realizao de O capital de Karl

    Marx.

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    Recebido: 4 de janeiro de 2017

    Aprovado: 08 de abril de 2017

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